terça-feira, 5 de março de 2013

Os lados tenebrosos de Madre Teresa de Calcutá



[Madre Teresa de Calcutá (morta em 1997) foi beatificada em 2003 em tempo recorde, só superada nisso pelo papa João Paulo II, que recebeu o alvará para ser santo em menos de seis anos depois de morto. Ambos são os exemplos mais gritantes do processo turbinado de santificação introduzido pelo próprio João Paulo, que em quase 27 anos de pontificado fez mais beatificações (1.338) e mais canonizações (482)  no cargo do que todos os papas anteriores a ele, em conjunto. Esse é o retrato instantâneo mais realista e fiel da Igreja Católica Apostólica Romana, uma instituição que é supersônica em coisas supérfluas e de marketing, e mantém-se paquidermicamente lenta em assuntos que considera "pétreos", não importa seu grau de anacronismo (celibato dos padres, proibição às mulheres de serem ministras de Deus, condenação da camisinha, etc), e criminosamente relaxada e omissa na apuração e condenação exemplar da pedofilia no seu seio. Agora, surge uma pesquisa que revela que a celebrada e venerada Madre Teresa de Calcutá não era lá a santinha que todos imaginvam -- eis mais um striptease desagradável da Igreja Católica Apostólica Romana.]

"Dúbia" no cuidado aos doentes, "questionável" em suas políticas e "suspeita" em suas finanças -- eis o perfil nada santo de Madre Teresa encontrado por pesquisadores das universidades de Montreal e Ottawa.

A imagem santificada de Madre Teresa foi questionada por pesquisadores que fizeram um estudo aprofundado de sua vida. Ela pode ter passado a grande maioria de seus 87 anos olhando pelos doentes e pelos pobres, mas pesquisadores das universidades de Montreal e Ottawa levantaram agora questionamentos sobre a natureza "dúbia" de seus cuidados e também quanto aos seus contatos políticos "questionáveis". Os pesquisadores apresentaram também preocupações com os arranjos financeiros "suspeitos" da ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, arranjos esses que, segundo os pesquisadores, contemplaram a transferência de grandes somas de dinheiro para as contas bancárias "secretas" da religiosa.

Escrevendo para o Journal of Studies in Religion/Sciences [ver aqui], depois de analisar cerca de 300 documentos em torno da vida de Madre Teresa, o Dr. Serge Larivie e a Dra. Genevieve Chenard dizem que encontraram detalhes que comprometem a imagem santificada da freira nascida na Albânia. Eles afirmam que muitas das "missões" implementadas pela religiosa eram inadequadas para seus destinatários, chamando-as de "casas para os moribundos" devido à deficiência de sua higiene e a uma carência de alimentos, cuidados e medicamentos.

Os pesquisadores consideram que falta de dinheiro não pode, entretanto, ser a razão para essas condições precárias já que Madre Teresa  levantou centenas de milhões de libras durante sua vida, embora aparentemente muito desse dinheiro pareça ter desaparecido em várias contas bancárias "secretas" mantidas segundo alguns pela freira.  Os pesquisadores questionaram também por que, apesar de abertamente oferecer preces e medalhas da Virgem Maria, Madre Teresa jamais providenciou ajuda direta ou monetária às vítimas de vários desastres naturais na Índia. O Dr. Larivie diz: "Dada a gestão parcimoniosa das obras da freira, é lícito perguntar: para onde foram os milhões de dólares destinados aos mais pobres?"

Os pesquisadores prosseguiram, questionando as políticas e os contatos políticos de Madre Teresa, acusando-a de aceitar uma doação financeira da ditadura brutal de Duvalier [o terrível Papa Doc], considerada responsável pelo assassinato de mais de 30.000 haitianos no período de 1957 a 1986. Eles acusam também a religiosa de disseminar a linha dura da direita católica, dizendo que ela manteve "opiniões excessivamente dogmáticas em relação, especialmente, a aborto, contracepção e divórcio".

Dr. Larivie disse que muito da imagem pública santificada de Madre Teresa foi construída pelo jornalista da BBC Malcolm Muggeridge, que compartilhava de suas opiniões católicas conservadoras, principalmente com relação ao aborto, e cuja promoção dela levou à fama internacional da freira.

Apesar dos aspectos negativos, Dr. Larivie admite que há muitos aspectos positivos na vida e na obra de Madre Teresa. Ele disse: "Se a imagem extraordinária de Madre Teresa transmitida no imaginário coletivo encorajou iniciativas humanitárias genuinamente engajadas em benefício daqueles esmagados pela pobreza, só podemos nos regozijar a respeito". E acrescentou: "É provável que ela tenha inspirado muitas pessoas humanitárias, cujas atividades tenham realmente aliviado o sofrimento dos destituídos e abordado as causas da pobreza e do isolamento sem serem exaltadas pela mídia ... No entanto, a cobertura da mídia em relação a Madre Teresa poderia ter sido um pouco mais rigorosa".

Madre Teresa morreu em 1997 e foi beatificada pela Igreja em 2003, fatando-lhe apenas um milagre para tornar-se santa.

[No Abstrato de seu trabalho (cujo título é o que adotei nesta postagem), os Drs. Larivie e Chenard dizem: "O impacto da obra de Madre Teresa não tem fronteiras geográficas, nem religiosas. Nas quatro partes deste trabalho, tentamos entender esse fenômeno. Apresentamos de início a metodologia utilizada para coligir as informações disponíveis, em seguida evocamos algumas referências bibliográficas que permitem compreender sua missão e a contribuição das mídias à sua popularidade. A terceira parte identifica quatro obstáculos que dificultam o caminho de sua canonização: sua opinião religiosa bastante dogmática, sua maneira de cuidar dos enfermos, suas escolhas políticas e sua gestão duvidosa das montanhas de dinheiro que recebeu. Na quarta parte, abordamos alguns elementos de sua vida relativos à sua beatificação, entre os quais sua "noite da fé", o exorcismo ao qual foi submetida assim como a validade do milagre que lhe foi atribuído. Na conclusão, nós  questionamos as razões pelas quais as críticas de que ela é objeto têm sido ignoradas pelo Vaticano".]





segunda-feira, 4 de março de 2013

Falso bispo entra no Vaticano e fala com cardeais

[É, pelo visto a Igreja Católica está num inferno astral em que ou está tudo errado -- como na criminosa omissão do Vaticano nos abusos sexuais de padres, bispos e cardeais contra crianças -- ou até os gaiatos a fazem de trouxa. Vejam a história divertida que nos conta a Folha de S. Paulo de hoje.] 

Um homem vestido de bispo conseguiu se infiltrar no Vaticano nesta segunda-feira, dia da abertura da Congregação Geral, encontro que antecede o conclave que escolherá o próximo papa. Ele vestia uma bata e objetos para parecer um religioso e, no pescoço, levava uma corrente com uma cruz e um cachecol roxo no lugar da faixa. Já a bata tinha um tamanho mais curto que o padrão.

Com o traje, o homem conseguiu entrar no Vaticano e chegar até o pátio em frente à Aula Paulo 6º, misturando-se aos mais de cem cardeais que chegavam para a reunião.  Depois de ser descoberto, o "falso" bispo, que se identificou pelo nome de Ralph Napierski, foi retirado da Santa Sé.

 O falso bispo, Ralph Napierski (à esq.), cumprimenta e posa para foto com o cardeal Sergio Sebiastiana, no Vaticano - (Foto: Vincenzo Pinto/AFP).

[Esse episódio serve também para marcar, com suma ironia, a hipocrisia da Igreja Católica. Esse gaiato que conseguiu "invadir" o Vaticano -- mais um pouco, talvez ganhasse um bom cargo por lá -- tem tanta legitimidade quanto o cardeal americano Roger Mahony que durante 25 anos acobertou abusos sexuais contra mais de 500 meninos na região de sua arquidiocese (Los Angeles). Pois bem, este depravado e criminoso em vez de estar preso perpetuamente numa solitária -- ou deixado numa cela comum, superlotada, com todos os seus paramentos vistosos, para servir de distração para seus colegas de prisão -- é eleitor credenciado a votar e ser votado na escolha do sucessor de Bento XVI.

O pervertido sexual cardeal Roger Mahony (o que está no púlpito -- do outro não conheço as façanhas), eleitor de Papa e candidato a Papa. Antes de querer saber porquê esses dois aristocratas da Igreja Católica estão rindo, é bom verificar se não há crianças e adolescentes por perto. - (Foto: Monica Almeida/The New York Times).

 O cardeal britânico (escocês) Keith O'Brien de 74 anos, que foi eleito pelo Vaticano o bode expiatório da vez para sossegar um pouco a opinião pública na véspera da escolha de um novo papa. Esse pervertido sexual confesso, demitido na semana passada de suas funções e impedido de participar da eleição do novo pontífice, reconheceu praticar atos indecentes desde os anos 80! - (Foto: David Moir/Reuters).]

domingo, 3 de março de 2013

Governo gastou R$ 1 bilhão com aluguel de imóveis em 2012

Apesar da União ser considerada uma grande imobiliária, tal a quantidade de imóveis que administra, a receita obtida no ano passado com aluguéis e arrendamentos corresponde à metade do valor pago em locação de imóveis. 
Em 2012, o valor arrecadado com os aluguéis e arrendamentos ficou na casa de R$ 500 milhões, enquanto as despesas com locação de imóveis no Brasil e no exterior, para abrigar servidores do Executivo, Legislativo e Judiciário custou R$ 1 bilhão aos cofres públicos.

O valor gasto com locação de imóveis é recorde desde 2004 e 16% maior que o desembolsado em 2011 (R$ 910 milhões). Os gastos englobam as locações de salas, prédios, casas e até espaços de festas e eventos.

O órgão responsável pelo maior desembolso em locação de imóveis foi o Ministério das Relações Exteriores (MRE). A Pasta gastou R$ 158,9 milhões em 2012, o que representa 15% do total. O valor foi acrescido de R$ 21 milhões em comparação a 2011 - quando foram gastos R$ 135 milhões. Embora o ministério seja, historicamente, o que mais gasta com locação de imóveis, por causa das representações diplomáticas no exterior, os maiores desembolsos feitos no ano passado foram para o aluguel de prédios no Rio de Janeiro.

Para a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, conhecida também como Rio+20, o MRE pagou R$ 32,7 milhões na locação dos imóveis Riocentro, Pier Mauá, HSBC Arena, Museu de Arte Moderna, Vivorio e Galpão da Cidadania. Só para o aluguel do Riocentro, principal espaço do evento, no período de 02 de abril a 27 de junho, o ministério desembolsou R$ 14,4 milhões.  No exterior, as locações de imóveis para as embaixadas, consulados, delegações e escritórios financeiros custou R$ 123 milhões ao Ministério das Relações Exteriores. O Brasil possui 138 embaixadas, 13 missões diplomáticas, três escritórios e 72 repartições consulares fora do país.  Em 2012, o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que o MRE adquirisse imóveis para servirem de residência oficial às representações, já que a locação de prédios tem sido onerosa para a administração pública.  

Atrás apenas do Ministério das Relações Exteriores, o Ministério da Fazenda foi responsável por desembolsar R$ 118,2 milhões em aluguéis no ano passado. O valor foi 19% maior que o gasto em 2011 (R$ 99,4 milhões).

De acordo com dados da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), a União recebeu R$ 488 milhões em receitas patrimoniais de aluguéis e arrendamentos, excluídos os foros, laudêmios e as taxas de ocupação de imóveis funcionais. O valor recebido foi 75% maior que o de 2011 - R$ 281 milhões.

Os valores de 2012 estão baseados em estimativa realizada pelo Contas Abertas, visto que as despesas foram lançadas no portal do STN apenas até novembro.

  
LOCAÇÃO DE IMÓVEIS - 2004 até 2012

                                                        Despesas Executadas
Ano                                           Valores Correntes - Valores Constantes (*)
2004                                         281.341.703,09      438.125.596,09
2005                                         292.880.721,33      430.418.419,93
2006                                         304.645.535,72      440.115.753,38
2007                                         374.306.375,81      514.602.891,92
2008                                         539.310.053,75      666.583.594,37
2009                                         610.981.075,18      741.878.677,85
2010                                         756.273.324,32      869.785.786,49
2011                                         858.760.695,80      910.099.170,94
2012                                      1.056.588.621,10   1.056.588.621,10
(*) Atualizado pelo IGP-DI da FGV

LOCAÇÃO DE IMÓVEIS POR ÓRGÃO - 2012

                        Órgão                          Despesas executadas

MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES                      158.947.956,95
MINISTÉRIO DA FAZENDA                                     118.290.692,34
PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA                                   114.911.028,72              
JUSTIÇA DO TRABALHO                                         66.404.958,97
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO                                    66.245.794,55
MINISTÉRIO DA JUSTIÇA                                                 54.398.050,91
MINISTÉRIO DA SAÚDE                                         52.719.516,13
MINISTÉRIO DOS TRANSPORTES                                     49.999.587,28
MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO                                     40.231.693,13
JUSTIÇA FEDERAL                                                          38.623.463,15
MINISTÉRIO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL                            36.500.869,30
MINISTÉRIO DA CULTURA                                              36.165.201,86
MINISTÉRIO DO DESENV,IND. E COMÉRCIO EXTERIOR    30.853.690,79
MINISTÉRIO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO      28.077.753,92
JUSTIÇA ELEITORAL                                                      26.386.526,26
MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE                                   20.907.389,03
MINISTÉRIO DO PLAN., ORÇAMENTO E GESTÃO              19.540.879,00
MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO                         12.869.138,99
MINISTÉRIO DAS CIDADES                                   10.480.943,11
MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO            10.340.331,81
MINISTÉRIO DA INTEGRAÇÃO NACIONAL                     9.898.750,49
MINISTÉRIO DA PESCA E AQUICULTURA                           8.791.240,17
MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA                                   6.787.845,88
MINISTÉRIO DO DESENV. SOCIAL E COMBATE À FOME      6.601.584,68
CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO               5.952.786,91 
JUSTIÇA MILITAR                                                            4.265.047,71
MINISTÉRIO DO ESPORTE                                               3.796.480,66
MINIST. DA AGRICUL.,PECUÁRIA E ABASTECIMENTO         3.709.644,43 
MINISTÉRIO DAS COMUNICAÇÕES                                   3.167.378,38
TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO                                     2.837.648,07
MINISTÉRIO DA DEFESA                                         2.326.863,92
MINISTÉRIO DO TURISMO                                                2.179.554,45
JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS        1.684.894,03
SENADO FEDERAL                                                               897.406,01
CÂMARA DOS DEPUTADOS                                                   314.511,54
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA                                         256.972,92
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL                                              224.544,65
           TOTAL                                                          1.056.588.621,10








sábado, 2 de março de 2013

Missão a Marte apresenta riscos à vida humana maiores do que os admitidos pela Nasa

[Mais uma fantasia que começa a se aproximar da realidade.]

A missão privada a Marte proposta pelo milionário americano Dennis Tito representa uma mudança dramática no nível de risco que seres humanos possam estar dispostos a aceitar na exploração do espaço.  Nos termos em que está planejada, a missão está reduzida ao minimum minimorum para dar aos astronautas uma chance razoável de sobrevivência, mas os riscos são muito mais elevados do que aqueles que uma agência espacial nacional, como a Nasa, permitiria.

Tito anunciou planos para um homem e uma mulher -- provavelmente marido e mulher -- tripularem a missão catapulta ou "estilingue" em torno de Marte, e dará em uma conferência técnica em Montana na semana que vem [do IEEE - Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos dos EUA, uma instituição extremamente séria e respeitada] detalhes adicionais do estudo de viabilidade da missão feito por sua equipe. 

Kevin Fong, diretor do Centro de Medicina Espacial do UCL [University College London], comparou a missão à viagem do James Caird [ver aqui], na qual Sir Ernest Shackleton e sua tripulação velejaram e remaram um pequeno bote por 1.500 km da Ilha do Elefante à Geórgia Meridional [na Antártica], depois que seu navio, o Endurance, foi destruído por um bloco de gelo flutuante no Mar de Weddell.  "É plausível, mas é um projeto de missão tremendamente preocupante e arriscado. O que é importante aqui é que isso é uma mudança filosófica em termos de abordagem e de aceitação de risco", disse Dr. Fong.

Embora Tito tenha reunido um time experiente para planejamento e assessoramento nessa aventura, eles têm ainda que desenvolver sistemas para manter as condições de vida dos astronautas e protegê-los da radiação, e blindagens térmicas para, na viagem de volta, suportar uma entrada na nossa atmosfera que será duas vezes mais rápida do que qualquer outro retorno à Terra. Depois, têm que comprar e modificar um foguete e uma cápsula espacial para a missão, sem tempo disponível para voos de teste.

Já que o tempo está muito apertado para a realização dos testes usuais, a equipe espera utilizar equipamentos provados e testados onde for possível e empregar eletrônica simples e robusta que seja mais resistente à radiação no espaço. "Eles farão testes em terra extensos e intensos, e usarão ao máximo componentes de estoque [ou seja, não customizados], mas isso é uma estratégia de apenas uma tentativa e de alto risco", disse Anu Ojha, diretor da Academia Espacial Nacional do Reino Unido.

Para a missão de 501 dias, a equipe de Tito calcula que os astronautas necessitarão de quatro toneladas de água e de cerca de 700 kg de alimentos secos.  Os cálculos referem-se a uma tripulação de duas pessoas pesando 70 kg cada uma -- um perfil que casa com suas demandas energéticas. Para reabastecer o suprimento de ar na cabine, a espaçonave deverá levar dispositivos que façam a eletrólise da água em seus componentes gasosos, o hidrogênio e o oxigênio. A urina será reprocessada para uso na cabine. "No tocante a rações para sobrevivência é possível fazer-se uma previsão, mas não há muita margem para erro", disse Ohja. Os tanques de combustível, oxigênio líquido e água estarão em um módulo de serviço acoplado à traseira da cabine da tripulação.

A jornada até Marte exporá os astronautas a níveis de radiação acima do normal, porque estarão longe do campo magnético da Terra, que ajuda a proteger quem está em terra firme e está na Estação Espacial Internacional.  Enquanto os veteranos da estação espacial podem enfrentar um risco vitalício ampliado de câncer de cerca de 0,1 pontos percentuais, os tripulantes da missão a Marte enfrentarão um risco ampliado de cerca de três pontos percentuais, mais do que o permitido pela Nasa.

São duas as fontes de radiação que ameaçam a saúde da tripulação. No espaço, há um fluxo razoavelmente constante de raios cósmicos galáticos (GCRs, na sigla inglesa), incluindo prótons, ferro e outros íons pesados, que vêm de fora do sistema solar. Com relação a eles, o tempo total de exposição é importante: íons pesados, em especial, podem causar danos a tecidos biológicos. Quando a atividade solar está no seu auge, seu campo magnético provê a maior parte da proteção contra os GCRs.

Menos previsíveis que os GCRs são as partículas energéticas solares (SEPs, na sigla inglesa), que se originam nas explosões solares e de "ejeções de massa coronárias" (coronal mass ejections) do sol. Essas intensas explosões de radiação podem matar. Numa viagem típica de ida e volta a Marte -- que seria mais longa que a viagem planejada por Tito -- estimativas indicam que a tripulação tem uma chance de 10% de sofrer pelo menos um evento fatal de SEP, e uma probabilidade de mais de 30% de ser exposta a uma explosão que mataria 35% das pessoas em 50 dias. Felizmente, na data proposta para o lançamento da missão, 5 de janeiro de 2018, a atividade solar estará em seu ponto mais baixo e as SEPS, consequentemente, são menos intensas e menos frequentes [mas, por outro lado, a tripulação fica menos protegida contra os GCRs].

A equipe de Tito está particularmente interessada em mandar um casal de casados a Marte. Vários deles foram ao espaço anteriormente, mas a partir daí a Nasa proibiu que cônjuges viajassem numa mesma missão. Embora as inscrições para a missão de Tito estejam ainda fechadas por vários meses, Jane Poynter, presidente da Paragon Space Development Corp., que está liderando os trabalhos para o desenvolvimento de sistema de manutenção das condições de vida dos astronautas da missão, disse que já há inscrições sendo apresentadas. Em e-mail ontem ela não deu cifras, mas disse: "Já começamos a receber um bocado de inscrições. Parece que há bastante interesse".

Iya Whiteley, vice-diretor do Centro de Medicina Espacial do UCL, disse que faz muito sentido mandar marido e mulher na missão e que, sim, seria de se esperar que façam sexo durante a viagem. "É natural que um casal o faça, e isso ajudará a mantê-los ocupados".

Os tripulantes certamente necessitarão de atividades para encher seu tempo. Não terão muito o que fazer em termos de pilotagem da cápsula, como Poynter confirmou ao The Guardian. "Pilotar a cápsula será um trabalho de equipe entre a tripulação a bordo e membros da equipe posicionada na Terra. A equipe terrestre efetuará mudanças de curso quando necessário, enquanto a tripulação a bordo cuidará dos sistemas de manutenção das condições vitais e de outros sistemas dentro da cápsula", dise ela.

Dr. Whiteley, um psicólogo, foi consultor da simulação de uma missão tripulada a Marte da Agência Espacial Europeia, a Mars500. A experiência evidenciou mais de 2.000 questões enfrentadas pela tripulação, cada uma delas necessitando uma abordagem direta. Um dos problemas que a tripulação de Tito enfrentará é o tédio. Isto será minimizado por filmes, música e livros, que poderão ser transmitidos de terra para a espaçonave, mas as agências espaciais estão buscando outras maneiras de estimular os viajantes espaciais. Uma ideia é ter amigos e colegas na Terra usando câmaras montadas em suas cabeças para registrar momentos interessantes tais como pedalar um trecho da Volta da França ou visitar uma galeria de arte [considerar "interessante" pedalar na Volta da França é dose ...].  O vídeo seria então enviado para a tripulação, que poderia assim reviver a experiência através dos "olhos" de seus conhecidos.

A falta de espaço dentro da cabine será um dos problemas mais difíceis que a tripulação enfrentará. A cápsula terá cerca de 7 metros cúbicos, mas a tripulação poderá dispor do uso de um "habitat inflável", anexado à aeronave. "Quanto mais espaço tiverem, melhor", disse o Dr. Whiteley. "Será vital dispor de algum lugar para onde possam escapar, se necessitarem. Ter um tempo para si é tão importante quanto ter um tempo compartilhado".

 Uma simulação da nave tripulada a Marte - (Foto: AP).




sexta-feira, 1 de março de 2013

Obesidade infantil: a conexão criminosa entre indústria, publicidade, mídia e governo

[A obesidade está se constituindo em um dos maiores pesadelos da humanidade. Antes restrita principalmente a adultos, passou a atingir severamente crianças de todas as idades devido principalmente a um conluio criminoso entre a indústria alimentícia (direcionada às crianças), a publicidade e a mídia, agravada e estimulada pela omissão cúmplice e também criminosa do governo. O texto abaixo é da autoria de Marco Aurélio Weissheimer (*) e foi publicado no site Observatório da Imprensa em 26/2/2013. O documentário que é citado no texto e que anexei a esta postagem é simplesmente assustador, principalmente para quem tem filhos e netos pequenos. Algo precisa ser feito urgentemente para combater esse crime. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Tomei conhecimento do documentário Muito Além do Peso pelo ótimo blog do médico José Carlos Souto, urologista gaúcho que trabalha na Santa Casa, em Porto Alegre, e que vem se dedicando a estudar as relações entre nutrição e saúde. Na opinião de Souto, um dos documentários mais importantes já produzidos no Brasil. “É um documentário assustador. Trata da obesidade infantil no Brasil, de uma forma que você nunca viu. O filme produziu em mim uma mistura de sentimentos, que incluíram tristeza, raiva, incredulidade e surpresa”, comenta o doutor Souto em um post que publicou, recomendando vivamente que o documentário fosse assistido. E, de fato, Muito Além do Peso é tudo isso e muito mais. Deveria virar instrumento de política pública e ser exibido em todas as escolas do país, na presença de pais, professores e crianças.

Dirigido por Estela Renner, produzido pela Maria Farinha Filmes e com o patrocínio do Instituto Alana, Muito Além do Peso mostra e discute o fenômeno da obesidade infantil no Brasil e no mundo. “Pela primeira vez na história da raça humana, crianças apresentam sintomas de doenças de adultos. Problemas de coração, respiração, depressão e diabetes tipo 2” – é disso que se trata. Os fatores causadores dessa epidemia têm nome e sobrenome bem definidos: indústria alimentícia, cadeias de fast-food, governos omissos, pais desinformados e agências de publicidade e meios de comunicação que faturam milhões vendendo drogas diariamente para crianças.


A conexão entre a indústria alimentícia e a plataforma das indústrias midiática-publicitária-entretenimento é particularmente mortífera e poderosa. A maioria das iniciativas de alguns corajosos médicos e promotores no sentido de regulamentar e proibir determinado tipo de propaganda vem sendo sistemática e criminosamente boicotado pelos proprietários dessas empresas que não hesitam em levantar a bandeira da “liberdade de expressão” e da “liberdade de escolha” para defender a propaganda de seus produtos que vem envenenando milhões de crianças em todo o mundo.  [Não sei porque o texto omitiu o governo na relação dos agentes da campanha criminosa que martela nossas crianças, e as induz a consumir mais e mais alimentos e bebidas absolutamente insalubres e altamente daninhos à sua saúde. O vídeo acima mostra em um trecho o atual ministro da Saúde posando ao lado de um alto dirigente do McDonalds, chamando esta cadeia de "parceiro da saúde" ou algo do gênero!]

Médicos já definem como uma epidemia

Acha que é um exagero? Veja o documentário, ouça a opinião de pais, crianças, professores, médicos e promotores e tire suas próprias conclusões. Uma mãe, que trabalhou como gerente em uma cadeia de fast-food, diz lá pelas tantas que se sentia como uma traficante vendendo crack para crianças. “O problema afeta crianças em todo o país e em todas as classes sociais. As crianças não sabem mais identificar a comida de verdade: confundem pimentão com abacate, cebola com batata, etc. Afinal, só comem coisas que vem dentro de embalagem”, observa José Carlos Souto, comentando o que viu no documentário.

“Uma das maiores tragédias de se permitir que publicitários tenham acesso irrestrito às crianças é que a publicidade, na verdade, enfraquece o brincar criativo. Os brinquedos mais vendidos são normalmente ligados à mídia ou são brinquedos com chip de computador em que basta apertar um botão. E os brinquedos gritam, pulam, cantam, fazem tudo sozinhos, enquanto as crianças ficam sentadas apertando um botão. Isso é interessante para os vendedores, pois os brinquedos não são muito interessantes e as crianças logo vão querer outro”, diz a psicóloga Susan Linn, diretora da Campaign for a Comercial-Free Childhood (Campanha por uma infância livre de propaganda), entrevistada no documentário que dá atenção especial às técnicas publicitárias e de marketing dos fabricantes de refrigerantes e fast-food e sua associação com a indústria de brinquedos.

No início deste ano, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), vetou o Projeto de Lei 193/2008, que propõe a restrição da publicidade de alimentos não saudáveis dirigida às crianças entre às 6h e 21h nas rádios e TVS e a qualquer horário nas escolas. Após assistir Muito Além do Peso, fica difícil fugir da sensação de que o governador está, na verdade, incorrendo em uma prática criminosa. Ou que nome devemos dar a decisões que contribuem direta ou indiretamente com o que autoridades médicas já definem como uma epidemia que está afetando milhões de crianças em todo o mundo? Veja e decida você mesmo.

xxxxxxxxxx

(*) Marco Aurélio Weissheimeré editor-chefe da Carta Maior.


Oposição amorfa e incompetente e mídia conivente estão ajudando o NPA a ludibriar novamente o país

Os mensaleiros condenados pelo STF mais preocupados com a elegância (do que com a ética) já podem convocar seus alfaiates prediletos para confeccionar seus uniformes zebrados sob medida, porque foram alertados pelo presidente do Supremo de que em meados do ano irão cumprir suas penas atrás das grades. É bom prepara dois enxovais, porque em meados do ano é nosso inverno e o tempo anda muito maluco.

O único alfaiate que continua ocioso é o do NPA (Nosso Pinóquio Acrobata, Lula), pois este continua conseguindo escafeder-se com êxito da espada da Justiça no caso do mensalão, num fenômeno que vilipendia o país e avacalha com a reputação de nossa polícia e de nosso judiciário.  Criaram-se em torno dessa figura sem jaez uma aura e uma redoma de respeitabilidade e de impunidade inadmissíveis em qualquer democracia minimamente decente, e absolutamente incompatíveis com o currículo/prontuário do protegido. Sacralizaram o pilantra. E é preciso não esquecer, em momento algum, o papel fundamental exercido por nossa terna Dona Dilma nesse acobertamento, por ação e omissão.

Mas, há mais gente responsável pela circulação livre desse malfeitor no mar da impunidade. A mídia em geral o poupa, não expõe suas mazelas e o lado putrefacto de seu caráter, prefere fazer média com seu eleitorado e talvez, quem sabe, com nossa supersimpática Dona Dilma porque, afinal, o governo é um senhor anunciante e as eleições já estão prematuramente no horizonte. Mas, o papel mais deplorável, mais deprimente e mais absurdamente omisso e incompetente nessa história toda é o da oposição.  Nos meus 74 anos de vida nunca vi algo tão desfigurado, tão desfibrado, tão vazio, inútil e imprestável como a oposição que hoje se arrasta nas duas Casas do Congresso qual um bando de mendigos políticos.

Quando estourou o caso da Rosemary Noronha, a afilhada do NPA que compartilhava com ele de longas intimidades na cabine presidencial em quase 30 viagens internacionais, a maioria nada curtas, que o atendeu com carinho e atenção por mais de uma década, que ele indicou para chefiar o escritório da Presidência da República e lá pintou e bordou em escala mafiosa, pensou-se que dessa vez o pilantra do NPA havia sido pego. Mas, o tempo vai passando, o malandro deu inicialmente um sumiço providencial, indo a Cuba e alhures  (dessa vez sem Rosemary) e, depois de voltar, está circulando frenético, dando pitaco onde é e não é chamado, ocupando as manchetes praticamente todos os dias e, espertamente, está deixando o affair Rosemary no segundo plano, a caminho do terceiro.

E ninguém, nem a mídia e muito menos a oposição, pressiona a polícia e o judiciário para que se saiba o papel do NPA no imbróglio Rosemary e, afinal, o que continham as 120 ligações trocadas entre ele e sua pupila tão chegada. Será que estão esperando a autorização da Dona Marisa, nossa sempre inesquecível ex-primeira dama?! Se houver algo mais, ou muito, íntimo nessas conversas ao pé do ouvido pode-se sempre fazer uma encenação e cobrir esses trechos com &#@!* ou algo parecido, embora isso seja de um puritanismo ridículo para quem está acostumado com nossas novelas, nossos outros escândalos e as reiteradas besteiras quase obscenas do NPA. De mais a mais, se o Reino Unido e a família real inglesa tiraram de letra a declaração de amor telefônica do príncipe Charles para a Condessa da Cornuália, dizendo que adoraria ser seu tampão (ou tampax, fazendo propaganda gratuita), não vejo porquê nossa surrada República possa sucumbir a um eventual arroubo ou outro entre o NPA e Rosemary.  O que não tem cabimento é o país, mais uma vez em se tratando de NPA, ficar à mercê da leniência, da frouxidão e da covardia da oposição, da mídia, da polícia e do judiciário no acobertamento de um marginal da ética e da moral, reincidente.

As abelhas (domesticadas) não são o problema

[A redução acentuada das populações de abelhas em várias partes do mundo vem assustando e preocupando cientistas e governos, que buscam encontrar as razões para isso e meios para eliminar ou minimizar o problema. Já fiz três postagens sobre o assunto: uma em janeiro de 2011, outra em setembro de 2011 e uma terceira em março de 2012. Agora, surgem resultados de novos estudos que indicam que o problema não se limita apenas às abelhas e envolve também outros insetos polinizadores. É o que nos conta a notícia do jornal espanhol El País, numa reportagem de Javier Sampedro que traduzo a seguir. E a humanidade continua opaca e insensível aos avisos do planeta Terra.]

O despovoamento das colmeias, uma doença que elimina a maior parte de uma colônia de abelhas, já vem há uma década angustiando os apicultores de toda a Europa e de metade dos EUA, e não têm sido poucas as pesquisas sobre os parasitos, vírus, bactérias e condições ambientais que castigam esses insetos domésticos. Dados recentes, entretanto, indicam que esses trabalhos miraram o alvo errado. Não é que estejam mal feitos, mas sim que o problema realmente grave está em outra área: nos insetos polinizadores silvestres, que são os responsáveis por "administrar" a maior parte dos cultivos essenciais para a alimentação mundial e que estão sofrendo mais que aquelas suas parceiras domesticadas.

Um consórcio internacional coordenado por Lucas Garibaldi, do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas de San Carlos de Bariloche, Argentina, revelou em uma pesquisa volumosa sobre 41 das principais plantas de cultivo nos cinco continentes que não são as abelhas mas os insetos silvestres -- muitos deles também abelhas -- os que polinizam essas culturas com maior eficácia. O trabalho dos polinizadores silvestres produz o dobro de frutos que o de suas colegas "assalariadas". Esta é a melhor forma de medir o rendimento desses insetos: o fruto é o resultado direto da polinização de uma flor, e as sementes, o indireto.

A conclusão principal do macroestudo é que, apesar do fato de que as colmeias dos apicultores podem ajudar na polinização dos cultivos, curá-las de suas enfermidades pode ser uma tarefa demasiado cara. Ainda que consiga nisso um êxito de 100% -- e, na realidade, nos aproximamos mais do outro extremo da escala -- a apicultura não conseguirá nunca cobrir a baixa de polinizadores de campo aberto, se esta vier a ocorrer. E o pior é que já há sinais disto.

"A sobrevivência humana depende de muitos processos naturais, ou serviços dos ecossistemas, que não costumam ser contabilizados nos estudos de mercados", escrevem Garibaldi e seus colegas em artigo na revista Science [ver aqui].  "A degradação global desses "serviços" empobrece a capacidade da agricultura de satisfazer a demanda de uma população humana cada vezmais numerosa e com mais recursos".  A polinização pelos insetos silvestres é um paradigma entre esses serviços ecossistêmicos, e um dos mais vulneráveis, segundo os cientistas do consórcio. Não apenas a abundância, mas também a diversidade desses trabalhadores "expontâneos" está declinando em todos os tipos de campos de cultivo.

Outra pesquisa, de Laura Burkle e de seus colegas nas universidades de Washington, Montana e Illinois, publicada no mesmo dia na revista Science, mostra um bom exemplo dos processos implicados nesse empobrecimento geral. Os pesquisadores aproveitaram os registros históricos sobre interações planta-polinizador particularmente minuciosos no estado de Illinois, que remontam ao final do século 19. O resultado mostra que o "serviço" de polinização silvestre não fez mais do que diminuir desde então, tanto em quantidade como em qualidade.

A principal razão dessa perda, concluem os pesquisadores, é o desaparecimento ou erradicação de metade das abelhas silvestres que predominavam na região no século 19, ou talvez desde há 10.000 anos. Outro fator é a mudança climática, que defasou a temporada de floração dos períodos de atividade máxima das abelhas. Este é, porém, exatamente um dos inconvenientes que poderiam ser evitados se as espécies de abelhas fossem mais diversificadas. A variedade garante que haja pelo menos uma espécie para cada temporada -- ou para cada imprevisto causado pela criatividade humana.