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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O naufrágio do Estado mexicano

[O texto abaixo, de Rafael Barajas e Pedro Miguel, foi publicado em 17/12 na edição brasileira do Le Monde Diplomatique. A violência reinante no México preocupa e revolta por si mesma, mas tem que ser observada de perto pelos países latino-americanos, pois representa uma escalada sem precedentes no domínio do tráfico sobre o país. O artigo abaixo nos traz ainda revelações não muito usuais sobre os bastidores da política mexicana e seu relacionamento com o tráfico. ]

O naufrágio do Estado mexicano

Rafael Barajas e Pedro Miguel (*) -- Le Monde Diplomatique Brasil, 17/12/2014

Tráfico de drogas, assassinatos, extorsão e, cada vez mais, administração pública. A participação de organizações criminosas no Estado mexicano parece não ter limites. O massacre de 43 estudantes em setembro catalisou a cólera da população.



Ilustração: Lollo

Quando, num país, um grupo de policiais detém 43 estudantes, desaparece com eles e os envia a um grupo criminoso organizado ligado às drogas para que este, à guisa de “lição”, os assassine, uma constatação se impõe: o Estado se transformou em narco-Estado, um sistema em que o crime organizado e o poder político são a partir de agora indissociáveis.

Quando essas mesmas forças da ordem metralham estudantes, matando seis e ferindo gravemente outros seis; quando elas se apoderam de um desses jovens, lhe arrancam a pele do rosto, tiram os olhos e o deixam estendido na rua para que seus colegas o vejam, outra evidência aparece: esse narco-Estado pratica uma forma de terrorismo.

Tudo isso aconteceu no sul do México, em Iguala, terceira cidade do estado de Guerrero. Ali, a polícia agrediu brutalmente um grupo de estudantes da Escola Normal Rural de Ayotzinapa e, a se acreditar nos testemunhos atualmente disponíveis, os conduziu para a morte. José Luis Abarca, prefeito de Iguala, e sua mulher, María de Los Ángeles (ligados a um cartel da região), suspeitos de serem os instigadores da operação, foram presos na terça-feira, 4 de novembro.

As escolas normais rurais, fundadas há oito décadas, têm por objetivo difundir um ensino de qualidade no campo oferecendo a jovens educadores, oriundos do meio camponês, a possibilidade de melhorar suas condições de vida. Esse duplo objetivo, herdado da Revolução Mexicana (1910-1917), enfrenta com força total o modelo econômico neoliberal, introduzido no país nos anos 1980. Segundo a lógica a ele subjacente, a educação pública freia o desenvolvimento do mercado do ensino, enquanto o campo abriga intoleráveis maus odores do passado (comunidades indígenas ou pequenos agricultores que entravam a expansão da agroindústria da exportação). Eis o motivo pelo qual as escolas normais rurais que sobrevivem no México, quinze ao todo, estão constantemente expostas à hostilidade, o que pode ser medido ao mesmo tempo pelos cortes orçamentários que sofrem e pela maneira como são mostradas pelos meios de comunicação e pelos dirigentes políticos: “viveiros de guerrilheiros”, segundo a ex-secretária-geral do Partido Revolucionário Institucional (PRI) Elba Esther Gordillo;1 refúgios “de gente delinquente e que não serve para nada”, em um debate na rede Televisa (1o dez. 2012); e, nos últimos tempos, “tocas do crime organizado”, para o jornalista Ricardo Alemán (El Universal, 7 out. 2014).

Tal como seus colegas das outras escolas normais rurais, os estudantes de Ayotzinapa lutam para assegurar a sobrevivência de sua instituição. Eles completam os magros subsídios do Estado – o equivalente a R$ 91 milhões anuais para cobrir os custos ligados a formação, alojamento e cobertura médica de pouco mais de quinhentos estudantes, quarenta formadores e seis empregados da administração – por meio de coletas de fundos. Em 28 de setembro de 2014, os estudantes de Ayotzinapa tinham ido a Iguala precisamente para realizar uma dessas coletas, quando foram sequestrados.

Eles teriam sido atacados com a fúria que os cartéis utilizam em relação a seus inimigos. Uma testemunha ocular – um policial – revelou que, apesar de feridos, os 43 estudantes teriam efetuado longos trajetos a pé, para, no final das contas, serem espancados, humilhados, regados com diesel e queimados vivos. Os corpos teriam se consumido durante 14 horas, até que só restassem cinzas, pequenas pontas de ossos e dentes.

Ainda que nós, mexicanos, estejamos habituados a informações chocantes (decapitações, execuções, torturas etc.), a indignação despertada por essa história não diminui. A certeza de que ela revela uma forma de terrorismo que emana de um poder no qual se misturam cartéis e líderes políticos coloca questões angustiantes: qual é a extensão do narco-Estado no México? Qual é a verdadeira amplitude da repressão política que ele coloca em ação?

O narco-Estado levanta um problema estrutural: o dinheiro da droga irriga a economia mexicana. Um estudo norte-americano e mexicano sobre os bens ilícitos, publicado em 2010, estima que a cada ano os cartéis transfiram entre US$ 19 bilhões e US$ 29 bilhões dos Estados Unidos para o México.2 Segundo a agência de segurança Kroll, essa cifra oscilaria entre US$ 25 bilhões e US$ 40 bilhões.3 O narcotráfico constituiria então a principal fonte de divisas do país, à frente das exportações de petróleo (US$ 25 bilhões) e das remessas de dinheiro de residentes no estrangeiro (também US$ 25 bilhões). Esse maná alimenta diretamente o sistema financeiro, coluna vertebral do modelo neoliberal. Secar a fonte conduziria ao colapso econômico do país. Em outras palavras, o México repousa sobre uma narcoeconomia, a qual não pode se manter sem a pilotagem adaptada de um narco-Estado.

Traficantes em campanha

Essa aliança entre o mundo político e o da droga se estende por todo o território. Em regiões inteiras – os estados de Sinaloa, Chihuahua, Michoacán (leia a reportagem na pág. 17), Guerrero, Tamaulipas, Veracruz e Oaxaca –, os cartéis fazem a lei. Eles impõem funcionários públicos, chefes de polícia, negociam com governadores. Pouco importa a filiação política dos representantes do Estado, a autoridade permanece nas mãos do crime organizado. Há algumas semanas, um vídeo divulgado pelo cartel dos Cavalheiros Templários mostrava Ricardo Vallejo Mora, filho do ex-governador de Michoacán, conversando tranquilamente com Servando Gómez Martínez, conhecido como “La Tuta”, o chefão da organização criminosa que grassa naquele estado.4 Nessas regiões, o crime reclama suas cotas, extorque, sequestra, estupra e mata em total impunidade. Os cidadãos vivem um inferno em comparação com o qual as alucinações de Hieronymus Bosch se parecem com desenhos para crianças. Em certos estados, surgiram milícias cidadãs de autodefesa.

Hoje existe uma grande quantidade de indicadores que demonstra que o narco-Estado gangrena as altas esferas da classe política. Nenhum partido nem região escapam a ele, sobretudo os mais importantes: o PRI, no poder, o Partido de Ação Nacionalista (PAN) e o Partido da Revolução Democrática (PRD). Os narcotraficantes não podem agir sem a cooperação dos homens políticos e dos funcionários públicos de todos os níveis. Durante as eleições, o dinheiro desempenha o papel de grande eleitor, além de as campanhas oferecerem um meio eficaz de lavar capital.

O caso do presidente Enrique Peña Nieto, do PRI (no poder desde 2012), preocupa particularmente. Nenhuma prova direta permite estabelecer seus laços com o crime organizado. No entanto, durante sua campanha, uma das mais onerosas da história mexicana, uma parte da imprensa revelou operações financeiras nebulosas, que se elevavam a milhões de dólares.5 O escândalo fez grande barulho no México, mas a “comunidade internacional” manteve o silêncio. Não se dispõe de instrumentos que permitam medir a totalidade dos custos gerados por Peña Nieto para ganhar a presidência em 2012. Em 5 de novembro de 2014, porém, uma comissão legislativa estabeleceu que o PRI tinha gasto mais de 4,5 bilhões de pesos (cerca de R$ 850 milhões, treze vezes o teto fixado por lei).6 A comissão não pôde investigar um bom número de operações ocultas, com as quais a soma com certeza teria sido superior. Oficialmente, ninguém sabe de onde provém esse dinheiro, o que preocupa num país gangrenado pelo narcotráfico. Especialmente porque, nos diversos territórios dominados pelo crime organizado, os cartéis locais apoiaram ativamente o PRI.7

Durante sua campanha, Peña Nieto prometeu lutar contra o narcotráfico, assegurando que os primeiros resultados se fariam sentir ao final de um ano. Isso foi há três anos. Muitos, entre os eleitores, esperavam que a política do PRI fosse mais eficaz que a de seu predecessor, mas o plano de segurança de Peña Nieto quase não difere do de Felipe Calderón: é Washington que impõe sua própria doutrina em termos de segurança. E os assassinatos continuam. Órgão do governo federal, o Sistema Nacional de Saúde Pública (SNSP) registrou, ao longo dos vinte primeiros meses do governo de Peña Nieto, 57.899 inquéritos preliminares sobre homicídio doloso.8

A violência perpetrada pelo crime organizado tende a relegar a segundo plano aquela exercida pelo Estado, que não é negligenciável. O governo afirma que Ayotzinapa é um caso isolado. Os mexicanos têm boas razões para pensar que não é, de forma alguma.

Quando era governador do estado do México, Peña Nieto ordenou, em 2006, a repressão dos habitantes de San Salvador Atenco, que havia anos se opunham à desapropriação de suas terras para a construção de um aeroporto. Durante essa operação, as forças da ordem cometeram inúmeras violações dos direitos humanos ainda impunes, notadamente múltiplas agressões sexuais contra as detentas.

Desde que Peña Nieto assumiu o poder, as prisões estão repletas de pessoas cujo único delito foi ter lutado por seus direitos, suas terras, seu patrimônio, e defendido sua família contra as agressões do crime organizado. Em agosto de 2014, o comitê Nestora Libre, uma associação de defesa de presos políticos, assinalou que desde dezembro de 2014 ao menos 350 pessoas tinham sido presas por motivos políticos.9 Em Michoacán, foi preso o doutor José Manuel Mireles, fundador de uma milícia de autodefesa contra o crime organizado, e 328 membros de seu grupo. No estado de Guerrero, a líder indigenista Nestora Salgado, treze policiais comunitários e quatro líderes populares que se opuseram à construção da barragem de La Parota foram colocados atrás das grades. Em Puebla, 33 pessoas apodrecem na prisão por terem feito oposição à construção de uma central termelétrica excessivamente poluidora. Na Cidade do México, em Quintana Roo, em Chiapas e em muitos outros estados, não se contam mais os prisioneiros políticos. No estado de Sonora e em Chiapas, cidadãos que se opunham à privatização da água foram encarcerados, tal como aqueles que pediam fertilizantes.

Um caso isolado?

Desde o início do mandato de Peña Nieto, as forças da ordem recorreram a práticas típicas da “guerra suja”, a repressão política na América Latina dos anos 1960 a 1980. Nepomuceno Moreno, membro do Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade, foi torturado e assassinado no estado de Sonora quando participava de uma caravana pela paz. Em Chihuahua, sicários assassinaram Ismael Solorio e Manuelita Solis, que defendiam os recursos hidráulicos de sua região atormentada pelo apetite das companhias mineiras canadenses. No estado de Sinaloa, assassinaram Atilano Román, dirigente de um movimento de pessoas deslocadas pela construção da barragem Picachos. A lista é interminável...

As atrocidades cometidas em Iguala estimularam a cólera social. Esta se manifesta agora no seio de setores da população tradicionalmente apáticos e ameaça de maneira inédita a sobrevivência do regime. Nenhuma das armas tradicionais do arsenal do PRI –cooptação, midiatização, infiltração, provocação, difamação – conseguiu contê-la. Ao contrário, as tentativas de comprar o silêncio das famílias, os esboços de repressão, as incitações a atos de violência,10 a campanha realizada contra Andrés Manuel López Obrador, principal dirigente da oposição de esquerda, com o objetivo de lhe atribuir a responsabilidade pelas violências perpetradas contra os estudantes, e o coro dos meios de comunicação dominantes insistindo em defender a figura do presidente estimularam a cólera da população e exacerbaram seu desejo de mudança. 

Em 10 de novembro, o movimento criado em torno dos estudantes e de suas famílias levou a uma ação sem precedentes: o bloqueio, durante mais de três horas, do aeroporto internacional de Acapulco (no estado de Guerrero), destino turístico tradicional do país. Tudo leva a pensar que outras ações vão se suceder a essa, tendo como alvo outros aeroportos ou as autoestradas mais importantes da região.


O poder insiste em afirmar que Ayotzinapa é “um caso isolado”. O procurador-geral da República, Jesús Murillo Karam, repetiu isso no dia 7 de novembro, por ocasião de uma coletiva de imprensa, quando lhe perguntaram se ele considerava que os fatos significavam um crime de Estado. “Iguala não é o Estado”, respondeu. De fato, Iguala não é o Estado. Mas o que aconteceu na cidade de Guerrero revela aquilo que ele se tornou.

(*) Rafael Barajas e Pedro Miguel, jornalistas, são, respectivamente, caricaturista e escritor.

1  La Jornada, México, 6 ago. 2010.

2  John T. Morton, “Binational study of illicit goods” [Estudo binacional de mercadorias ilícitas], Departamento Americano de Segurança dos Sem-Teto, Washington, 3 jun. 2010.

3  Citado por Roberto González Amador em “Mueve el narco 40 mil mdd en México” [O narcotráfico movimenta US$ 40 bilhões no México], La Jornada, 1o out. 2009.

4  “La cumbre Vallejo-La Tuta” [A cúpula Vallejo-La Tuta]. Disponível em: www.youtube.com.

5  Roberto González Amador e Gustavo Castillo García, “Indicios de lavado de dinero con las tarjetas de Monex” [Indícios de lavagem de dinheiro com os cartões da Monex], La Jornada, 12 jul. 2012.

6  “Caso Monex: PRI gastó más de 4 mil 500 millones de pesos en campaña de 2012”, [Caso Monex: o PRI gastou mais de 4,5 milhões de pesos na campanha de 2012], Aristegui Noticias, México, 12 mar. 2012.

7  Cf., entre outros, “Denuncian amenazas del narco en Chihuahua para votar por el PRI” [Denúncias de ameaças do narcotráfico em Chihuahua para votar pelo PRI], Proceso, México, 4 jul. 2012.

8  “Los muertos con Peña llegan a 57 mil 899 en 20 meses; son 14 mil 205 más que en el mismo periodo de Calderón” [Os mortos com Peña chegam a 57.899 em vinte meses; são 14.205 a mais que no mesmo período de Calderón], 25 ago. 2014. Disponível em: www.sinembargo.mx.

9  Verónica Macías, “Denuncian más de 300 presos políticos en gobierno de Peña” [Denúncia sobre mais de trezentos presos políticos no governo Peña], El Economista, México, 20 ago. 2014.

10    Sábado, 8 de novembro, um grupo de supostos “manifestantes”, visivelmente protegidos pela polícia, tentou colocar fogo no Palácio Nacional, sede do poder executivo federal no México.







sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Perdemos mais uma para os "hermanitos": Argentina é o país com maior taxa de roubos na América Latina

[A notícia de primeira página do jornal argentino Clarín de ontem (14/11) e do Globo News do dia 12/11 deve ter pego muita gente de surpresa em Brasília: relatório da ONU revela que a Argentina é o país com maior incidência de roubos na América Latina, superando na média candidatos fortíssimos nesse quesito como México e Brasil. Nessa disputa emplacamos o terceiro lugar.]

A Argentina se converteu no país com mais roubos na América Latina, superando inclusive países nos quais esses delitos eram um flagelo como México e Brasil. Nosso país  tem a terceira maior taxa de roubos registrada na América Latina, segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) sobre a violência na região divulgado nesta terça-feira (12). Dados de 2011 utilizados pelo relatório apontam uma taxa de roubos a cada 100 mil habitantes no Brasil de 572,7. Entre os 18 países analisados, apenas Argentina (973,3 roubos a cada 100 mil habitantes) e México (688 a cada 100 mil habitantes) registraram números maiores.  

O relatório ressalta que as taxas podem ser ainda mais elevadas, visto que muitos roubos não são reportados às autoridades. Todos os países possuem uma taxa de vitimização (número de pessoas que se disseram vítimas de roubos em pesquisas realizadas entre a população) muito maior que os dados oficiais.

Dezoito países tiveram dados analisados: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa RicaEquador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. Nem todos forneceram ao Pnud dados de 2011 – no caso da Argentina, por exemplo, os números são de 2008.

O estudo aponta que, de maneira geral, os crimes cometidos e a insegurança sentida pela população nos países da América Latina impedem a região de obter um maior desenvolvimento econômico e humano. Dos 18 países analisados, 11 possuem taxas de homicídios considerada epidêmicas, incluindo o Brasil – a taxa brasileira, de 21 homicídios a cada 100 mil habitantes, é maior que a de Argentina, Uruguai, Chile, Bolívia, Peru, Equador, Costa Rica, Nicarágua e Paraguai (na maior parte dos países, com exceção da Argentina, os dados referem-se principalmente ao ano de 2011).

Entre 2000 e 2010 a taxa de homicídios cresceu 11% na região. No mesmo período, ela diminuiu ou se estabilizou na maior parte das regiões do mundo (considerando-se os locais onde há registros; a África, por exemplo, não possui dados confiáveis). O número de roubos triplicou nos últimos 25 anos na região, e de acordo com o levantamento, seis em cada dez roubos são realizados com violência na América Latina.

A percepção de segurança também piorou – cinco em cada dez habitantes dos países analisados relatam ter uma menor sensação de segurança países atualmente. Na mesma pesquisa, foi constatado que 65% da população local deixou de sair à noite devido à insegurança, e que 13% precisou mudar de bairro por se sentir ameaçado.

US$ 24 bilhões perdidos

Tudo isso implica custos financeiros. De acordo com o Pnud, as altas taxas de crime prejudicam a economia local e impedem que os países se desenvolvam mais. Segundo o estudo, se a taxa de homicídios estivesse em níveis aceitáveis, a região poderia ter tido um Produto Interno Bruto (IB) 0,5% maior em 2009 – o que representaria um ganho potencial de US$ 24 bilhões (quase R$ 55 bilhões).

Outra forma de calcular o custo da violência é em anos de vida perdidos. Em toda a região, 331 milhões de anos de vida foram perdidos em 2009 devido aos homicídios. Caso a taxa de homicídios fosse reduzida à média mundial no Brasil, por exemplo, a expectativa de vida da população seria 11 meses maior. Na Venezuela, o crescimento seria de um ano e oito meses.

A explicação para o aumento da violência nos últimos anos na região está baseada em uma série de fatores, segundo o relatório: baixa qualidade do crescimento, instituições sociais fracas e incapacidades do Estado.

A pobreza e o desemprego sozinhos não explicam o aumento da violência – na última década, a região teve um crescimento econômico médio de 4,2%, segundo o relatório, mais de 70 milhões de pessoas saíram da linha da pobreza e as taxas de desemprego caíram continuamente entre 2002 e 2009. Entretanto, o crescimento urbano rápido, aliado a uma maior expectativa de consumo e à baixa mobilidade social são fatores que levam muitas pessoas ao crime. E o desemprego não está diretamente relacionado a taxas criminais mais altas. Uma pesquisa inédita realizada com presos de seis países da região (Argentina, Brasil, Chile, El Salvador, México e Peru) deixa clara esta questão. No Brasil, 70% dos presos entrevistados estavam empregados quando cometeram os crimes pelos quais foram detidos – e na média, eles começaram a trabalhar aos 13,9 anos. 

Os problemas dos sistemas educacionais também influenciam diretamente nos índices criminais – sem educação, a população tem mais dificuldades para ascender socialmente, e em alguns casos busca nos crimes um acesso mais rápido. Nos países da região, 51% dos homens e 45% das mulheres não completam o ensino médio. Por fim, as instituições familiares fracas possuem seu peso – enquanto a taxa de fertilidade entre adolescentes caiu 26% no mundo entre a década de 1970 e o período entre 2005 e 2010, na América Latina a redução foi de apenas 5%. 

Apesar de os números brasileiros não se destacarem e ficarem na média entre os países em que a pesquisa com os presos foi conduzida, o país tem a quinta maior densidade de presos nas penitenciárias na América Latina, atrás apenas de El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Panamá e República Dominicana. Também é importante destacar que os dados da região são os mais altos do mundo, considerando as regiões onde há números confiáveis – o que coloca as taxas brasileiras em um patamar alto. [Enquanto isso, na Suécia ...]



Taxa de roubos por 100.000 habitantes, América Latina, valores aproximados de 2005 e 2011 (clique na imagem para ampliá-la). - (Fonte: Clarín). 


Principal ameaça à segurança de acordo com os cidadãos, América Latina, 2012 (clique na imagem para ampliá-la). - (Pandillas = bandos/quadrilhas; - Crime organizado e narcotraficantes; - Delinquentes comuns) - (Fonte: Clarín).





domingo, 11 de agosto de 2013

Ditadura militar criou rede para espionar vizinhos

[Não há anjinhos nessa história de espionagem. Vejam a reportagem de ontem do jornal Estadão.]

Se hoje reclama da espionagem dos EUA, durante a ditadura o governo brasileiro criou uma rede oficial de recolhimento de dados sigilosos na tentativa de monitorar os segredos militares e estratégicos dos países vizinhos da América Latina. Arquivos secretos e inéditos do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), aos quais o Estado teve acesso e acabam de ser desclassificados pelo Arquivo Nacional, em Brasília, mostram que, numa reunião do órgão, em agosto de 1978, foi criado o "Plano de Informações Estratégicas Militares", que descreve o esquema de espionagem organizado pelo Brasil.

No Anexo A do arquivo é detalhado o "Plano de Busca Número 1", que, segundo o documento, "orienta, sistematiza, define responsabilidades e fixa prazos para as atividades de informações externas, relacionadas com o Plano de Informações Estratégicas Militares (Piem)". A tarefa era clara: fornecer ao governo brasileiro informações estratégicas e secretas dos países da América Latina, deixando apenas EUA e Canadá de fora do plano. O documento mostra que essa missão caberia não apenas a adidos militares brasileiros no exterior, mas também ao Itamaraty.

O item A do "Plano de Busca" determinava: "os adidos militares atenderão às necessidades de informações da Força Singular ou Forças Singulares que representam os países onde estão credenciados". O item B é mais direto ainda em relação à espionagem militar. "O Ministério das Relações Exteriores atenderá às necessidades de informações estratégicas militares dos países da América Latina onde as Forças Armadas não estejam representadas por adidos militares".

Uma detalhada planilha, chamada de "Apêndice Número 1 ao Plano de Busca Número 1" explica o que cada órgão de inteligência deveria investigar nos países vizinhos. Cinco órgãos de busca participavam dessa coleta de informações estratégicas. Quatro deles eram vinculados às Forças Armadas e o quinto era o Itamaraty, a quem cabia a tarefa mais ampla na captação de dados.

Informações. São informações de todos os tipos que estão preestabelecidas no documento e não deixam dúvidas de que o objetivo era descobrir segredos militares dos vizinhos. Entre as tarefas estão a coleta de informações sobre a estrutura geral dos ministérios militares; sua organização e funcionamento; composição de cada Força; comandos; efetivos e equipamentos; distribuição e ordem de batalha; serviço militar; forças terrestres, navais, aéreas e combinadas; zonas defendidas; bases e obras permanentes no interior e no litoral; estrutura de defesa antiaérea, instalações subterrâneas; organização logística de forças terrestre, naval e aérea; contingente demográfico em idade militar, criação de animais de guerra, população de equinos, material bélico e até atividades de guerrilheiros, entre muitos outros itens. Todas essas planilhas receberam a classificação de secretas pelo EMFA.

A periodicidade do envio dessas informações também estava definida no plano. A maioria deveria ser enviada anualmente, seguindo uma data fixada pelos militares. O levantamento sobre a organização das Forças Armadas dos vizinhos, por exemplo, deveria ser enviado todos os anos em abril, assim como os dados sobre instalações de defesa. Informações sobre logística militar tinham como prazo de entrega o mês de julho, mesmo prazo estipulado para envio de informações sobre movimentos guerrilheiros nos países observados.

Informações consideradas mais relevantes, como a de mobilização militar, deveriam ser repassadas para o governo brasileiro assim que fossem obtidas. Já se sabia que os diplomatas brasileiros, por instrução do governo militar, monitoravam as atividades de integrantes de grupos de esquerda no exterior durante a ditadura.

Monitoramento. Uma série de reportagens, publicada em 2007 pelo Correio Braziliense, mostrou que os adversários do regime militar eram acompanhados pela ação do Centro de Informações do Exterior (Ciex), que fazia parte da estrutura do Itamaraty. Por meio desse monitoramento, inúmeras prisões foram feitas.

Agora, os novos papéis do EMFA mostram que os militares brasileiros também se organizaram para usar a estrutura de trabalho dos adidos e dos diplomatas para recolher dados confidenciais que poderiam pesar a favor do Brasil no caso de um conflito com algum país vizinho.



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Banco Santander completa a maior IPO do México e a terceira maior do mundo este ano

A dupla oferta de ações nos EUA e no México efetuada pela filial do Santander no México levantou US$ 4,13 bilhões, no terceiro maior lançamento em mercado no mundo este ano, com as ações desafiando a fraqueza global das bolsas e fechando o pregão do primeiro dia com alta de 6%.  Marcos Martínez, presidente do Santander México, disse ao jornal Financial Times (FT) que a IPO [Initial Public Offering, Oferta Pública Inicial ou oferta pública primária de ações, refere-se à ocasião em que uma empresa lança ações em um mercado bursátil pela primeira vez] foi subscrita cinco vezes, liderada por investidores dos EUA e da Europa. "Isso realmente excedeu as nossas expectativas", disse ele.

A IPO do Santander México, que em proporções ficou atrás apenas das ofertas feitas pelo Facebook e pela Japan Airlines até agora, estabeleceu um marco para a segunda maior economia latino-americana ao se tornar a maior já feita no mercado de ações do México.

Luiz Télles, presidente da Bolsa de Valores do México, disse que a oferta irá melhorar a liquidez do mercado local. "É um sinal de que há confiança e se acredita no México", ele disse ao FT, acrescentando que a IPO ocorreu em um dia difícil para as bolsas mundiais.  Santiago Arias, analista sênior da PineBridge Investments, disse que a emissão trouxe "transparência para o setor financeiro e abre mais oportunidades para investimentos em uma indústria crescente no país".

Os resultados financeiros da venda de 24,9% das ações do Santander México serão utilizados para reforçar o capital da matriz espanhola do banco [a melhoria da saúde financeira da matriz do Santander na Espanha reduz a pressão por socorro de suas subsidiárias no exterior, incluindo a brasileira]. Sam Hamadeh, principal executivo de pesquisa de mercado da empresa PrivCo, disse que o Santander estava em dificuldade e sendo forçado pelos reguladores europeus a melhorar seu nível de solvência. Ele fez o registro de que nenhum centavo do que foi obtido com a IPO será aplicado em apoio ao crescimento da subsidiária mexicana do Santander.  "Essa decisão era a que se esperava do Santander, que anteriormente fez IPOs de suas subsidiárias no Brasil, no Chile e na Polônia e pensa também monetizar outras subsidiárias", disse Hamadeh.

No primeiro semestre, a receita líquida do Santander México aumentou 18% para US$ 720 milhões e foi responsável por 12,4% dos lucros globais da matriz, muito embora represente apenas 4% dos ativos desta.

A Bolsa do México informou que as 15.799 transações efetuadas com as ações do Santander México estabeleceram um recorde para o maior número de operações diárias com uma única empresa.  As ADS (American Depositary Shares) listadas em Nova Iorque do Santander mexicano, correspondentes a 80% da IPO, fecharam a US$ 12,91 em Nova Iorque, em comparação com os US$ 12,18 do preço da oferta.

Em contraste, as ações do Santander caíram 4,5% na quarta-feira, quando as bolsas europeias foram afetadas pelas preocupações com a crise da dívida da eurozona.

Investidores disseram que os principais riscos enfrentados pelo braço mexicano do banco espanhol são seus laços com a matriz espanhola, incluindo a possibilidade de que tenha que descarregar os restantes 75% de suas ações para ela.

Na operação da IPO os bancos Santander, UBS, Bank of America e Deutsche Bank atuaram como coordenadores globais das vendas, e os bancos Citibank, Barclays, Goldman Sachs, JPMorgan Chase, Royal Bank of Canada e Credit Suisse atuaram conjuntamente como bookrunners [pessoas físicas ou jurídicas responsáveis pela primeira emissão de bônus ou ações (= primeira vez em que são vendidos) e por manter um registro de suas vendas].



sexta-feira, 13 de julho de 2012

Mudanças no mapa latino ameaçam Mercosul

[O artigo abaixo me foi lembrado por um querido amigo, a quem agradeço.]

Surgiu uma novidade no mapa político e econômico da América Latina: México, Colômbia, Peru e Chile uniram-se com o objetivo de dar plena liberdade às suas empresas e aos seus 215 milhões de habitantes para transitar, estudar, trabalhar, movimentar capitais e fazer negócios sem precisar de licença prévia dos governos locais. É o que prevê a Aliança do Pacífico, o novo bloco regional cuja criação foi anunciada na semana passada pelos presidentes Felipe Calderón (México), Juan Manuel dos Santos (Colômbia), Ollanta Humala (Peru) e Sebastián Piñera (Chile). Está prevista a adesão do Panamá e da Costa Rica no segundo semestre.

Foi um movimento surpreendente, rápido e eficaz. Em dezembro de 2010, o então presidente peruano Alan García lançou a ideia, recebida com entusiasmo por México, Colômbia e Chile. Um ano depois, eles se reuniram e fixaram o prazo de seis meses para um entendimento definitivo. Em março, chegaram a um consenso em inédita reunião de cúpula, por teleconferência. Na quarta-feira (6), em Antofagasta, no deserto do Atacama, assinaram o acordo básico.

Trata-se de um compromisso ambicioso, no qual se pretende a livre circulação de pessoas, mão de obra, capitais, bens, serviços e mercadorias, integração de redes de ensino (especialmente universidades), instituições financeiras (Bolsas de Valores) e criação de instâncias institucionais comuns, supranacionais.

As regras desse novo bloco são simples: para entrar é preciso ter tratado de livre comércio com todos os sócios, ser uma democracia, possuir estabilidade jurídica e constitucional. Ao Panamá e à Costa Rica, provisoriamente “sócios-observadores”, faltam acordos comerciais. Definiu-se que em dezembro entra em vigor o regime de livre circulação de mercadorias, ou seja, eliminam-se barreiras aduaneiras e regras de origem sobre o que é produzido pelos sócios. Não é pouca coisa: México, Colômbia, Peru e Chile compõem um mercado de 215 milhões de consumidores, somam 35% do PIB da América Latina e são responsáveis por 55% das exportações desse pedaço do planeta.

Há aspectos geopolíticos relevantes. México, Colômbia, Panamá e Costa Rica são países bi-oceânicos, com saídas para o Pacífico e o Atlântico. Além disso, os integrantes da Aliança têm economias abertas, baseadas em acordos bilaterais de comércio com China, EUA, União Europeia, Japão, Coreia, Taiwan, Cingapura e os principais centros econômicos do Oriente Médio.  Na prática, significa que está nascendo um bloco político e econômico capaz de rivalizar com o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), fissurado pelas disputas entre sócios em torno de barreiras crescentes sobre um comércio regional de US$ 100 bilhões anuais.

Aliança define distanciamento do Chile, Peru e Colômbia do Mercosul

A Aliança marca um definitivo distanciamento do Chile, Peru e Colômbia do Mercosul, anulando todas as gestões prévias para suas participações no bloco do Atlântico Sul. Impõe o contraste de uma alternativa mais eficaz ao Mercosul, numa etapa em que Uruguai e Paraguai debatem a conveniência de continuar atados a um projeto de integração com escasso repertório de benefícios para suas economias. E deixa ainda mais isolados a Venezuela, o Equador e a Bolívia, onde floresce a desagregação política, social e econômica.

O tempo vai mostrar se os governos de México, Colômbia, Peru e Chile, com Panamá e Costa Rica, serão realmente capazes de converter a Aliança em “uma plataforma de articulação política, integração econômica e comercial e de projeção para o mundo, com ênfase na região Ásia-Pacífico”, como prevê a ata de constituição do novo bloco.

É certo, porém, que a iniciativa tem o frescor da inovação em um continente onde, depois de três décadas, o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai continuam patinando na retórica palanqueira sobre a integração como meio de ampliar os direitos sociais, políticos e econômicos de mais de 200 milhões de pessoas.

[Surge, assim, o primeiro grande desafio regional ao Mercosul, um organismo que apesar de seus 21 anos de idade continua se comportando como um pré-adolescente, com brigas, traições e molecagens frequentes entre seus componentes. A única unidade demonstrada por esse bloco até agora foi na escolha do Judas, saco de pancada e pato do grupo: o Brasil tem sido a escolha permanente dos outros três "parceiros" (Argentina, Paraguai e Uruguai), numa escolha que tem tudo para ser vitalícia. Somos a "mulher de malandro" do grupo, levando bordoada a torto e a direito, com uma resignação de traído manso.

O Mercosul tem como fundadores e membros permanentes a Argentina, o Brasil, o Paraguai e o Uruguai. São membros associados: Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru. Argentina, Brasil e Uruguai recentemente comportaram-se como coveiros e marginais do Mercosul, promovendo a suspensão do Paraguai do bloco e, com a rapidez de larápios de alto nível, promoveram a integração da Venezuela ao grupo. Coisa de mafiosos.

No quadro de membros permanentes ou associados do Mercosul, temos o seguinte quadro quanto a tratados de livre comércio ou acordos-quadros entre o bloco e terceiros, ou entre seus membros e terceiros:


Mercosul - com Bolívia, Chile, México, Peru e Israel 
Argentina - com Brasil, Chile, México, Paraguai e Uruguai
Bolívia - com Mercosul, México, Cuba e Venezuela
Brasil - com ALADI (Associação Latino-Americana de Integração, que inclui Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela), Argentina, Guiana, México, Paraguai e Uruguai 
Chile - com Austrália, China, Colômbia, EFTA (Associação Europeia de Livre Comércio, que inclui a Islândia, o Lichtenstein, a Noruega e a Suiça), Coreia, EUA, Japão, Malásia, Mercosul, México, Nafta, P4 (Parceria Econômica Estratégica Transpacífica - Nova Zelândia, Cingapura e Brunei Darussalam), Panamá, Peru, Turquia, União Europeia
Colômbia - com EFTA, EUA, México, Triângulo do Norte (El Salvador, Guatemala e Honduras)
Peru - com China, Cingapura, Coreia, EFTA, EUA, Tailândia
Venezuela - com ALADI, AEC (Associação de Estados das Caraíbas, que inclui Colômbia, Costa Rica, Cuba, El Salvador, Guatemala, México, Panamá e Venezuela), ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América, que inclui Bolívia, Cuba, Dominica, Antígua e Barbuda, Equador, Nicarágua, São Vicente e Granadinas, Venezuela),  Unasul (União de Nações Sul-Americanas, que integra o Mercosul e a Comunidade Andina, esta última compreendendo Bolívia, Colômbia, Equador e Peru), SELA (Sistema Econômico Latino-americano e do Caribe, que inclui Argentina, Bahamas, Barbados, Belize, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Granada, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai e Venezuela).


Da relação acima, vê-se que o Brasil e o Mercosul olham praticamente para o próprio umbigo em matéria de tratados comerciais, a Venezuela tem inúmeras parcerias, nas quais predomina a quantidade e não a qualidade dos parceiros, e o bom exemplo do Chile, uma economia pouco diversificada mas com relações comerciais formais com parceiros importantes. O Brasil, numa estratégia discutível de fidelidade canina ao Mercosul, tem renunciado à assinatura de tratados comerciais diretos com outros países, preferindo que isso se faça via Mercosul. O novo bloco regional entre Chile, Colômbia, Peru e México é um desafio não só ao Mercosul mas também à própria liderança regional do Brasil.]

Da esquerda para a direita os presidentes da Colômbia (Juam Mamanuel Santos), do Chile (Sebastián Piñera), do México (Felipe Calderón) e do Peru (Ollanta Humala), signatários de uma nova aliança comercial regional - (Foto: O Globo).

Blocos econômicos no mundo em 2008 - clique na imagem para ampliá-la -- (Fonte: Wikipedia).










quarta-feira, 13 de junho de 2012

Walmart inclui Brasil na lista dos países com maior risco de corrupção

Congressistas americanos afirmaram que as investigações envolvendo o grupo de varejo Walmart no México levaram a empresa a rever suas políticas anticorrupção no Brasil, China, Índia e África do Sul. Advogados da empresa apontam essas regiões como as de maior risco de corrupção em uma análise global feita pela companhia, segundo informaram os parlamentares.

O jornal "New York Times" mostrou em reportagem publicada no final de abril que a alta diretoria da rede encobriu denúncias de suborno em operações no México. A unidade mexicana do Walmart teria pago milhões de dólares em propinas para acelerar licenças de construção e ganhar outros favores.  A companhia reconheceu que está investigando alegações de suborno envolvendo operações no México e que iniciou há três meses a revisão de suas políticas anticorrupção em escala mundial, mas não forneceu detalhes sobre o plano.

Os parlamentares Elijah Cummings e Henry Waxman, ambos do partido democrata, pediram à companhia para fornecer documentos sobre essa revisão e sobre as recomendações que a rede tem feito em outras áreas.  Os dois congressistas também escreveram a Michael Duke, presidente-executivo do Walmart, para pedir que autorize testemunhas a cooperar com uma investigação do Congresso sobre as denúncias de suborno.

"Estamos cooperando com as investigações federais e auxiliando os membros do Congresso e suas equipes" disse por comunicado oficial o porta-voz do Wal-Mart, David Tovar.

Denúncias de suborno

Segundo a reportagem do "New York Times", em 2005 um alto advogado do Wal-Mart foi informado, por um executivo aposentado da subsidiária da rede no México, sobre esquema de pagamento de subornos em troca de vantagens, como a rápida liberação para abertura de lojas e alvarás de construção. O ex-funcionário teria fornecido nomes, datas e valores de propinas. Diante da denúncia, o Wal-Mart mandou investigadores ao México. Eles encontraram centenas de pagamentos suspeitos, que somavam mais de US$ 24 milhões, e documentos que mostravam que os executivos do Wal-Mart no México não só sabiam dos pagamentos como ocultavam o caso dos chefes na sede nos EUA.

Em um relatório confidencial, o líder da investigação no México informou que havia suspeitas de violação das leis dos EUA e do México. E recomendou que o Wal-Mart expandisse a investigação, mas o "New York Times" descobriu que os líderes do Wal-Mart decidiram suspender a apuração.  Os departamentos de Justiça do México e dos EUA não foram notificados e nenhum líder da subsidiária mexicana do Wal-Mart foi advertido, segundo o jornal. Na ocasião, o Wal-Mart informou que está investigando o caso. "Se as denúncias forem verdadeiras, elas não refletem quem somos. Estamos muito preocupados e trabalhando para descobrir o que aconteceu".

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Governo revê acordo automotivo com o México na próxima semana

O governo brasileiro quer rever o tratado automotivo firmado com o México. A possibilidade de mudanças no acordo foi acertada na tarde desta sexta-feira (3) em conversa entre a presidente Dilma Rousseff e o presidente do México, Felipe Calderón.

"No momento atual o acordo é desequilibrado contra o Brasil. O presidente Calderón entendeu as razões que a presidenta expôs. Esse processo começa já na semana que vem. Acreditamos que num prazo curto, dentro de fevereiro, a gente possa produzir uma revisão que seja aceita pelos dois países", afirmou o ministro Fernando Pimentel (Indústria e Comércio), em coletiva de imprensa. 

O ministro afirmou que não houve ruptura do acordo em vigor. "Sugerimos como uma possibilidade a utilização da cláusula de saída caso não se chegue a um bom termo nesse processo de negociação. Mas tanto o ministro Patriota quanto eu estamos certos de que vai haver", completou Pimentel. Pimentel citou alguns pontos que o Brasil gostaria de ver revistos no acordo: "Queremos aumentar o conteúdo regional na produção dos veículos, tanto no México como no Brasil e ampliar o escopo do acordo, de forma que não seja apenas para automóveis de passeio, como é hoje. E inclua também caminhões, ônibus, utilitários, o que poderia melhorar o saldo, que hoje é totalmente negativo contra o Brasil". Em 2011, o resultado foi negativo em US$ 1,55 bilhão --alta de 196% ante 2010.

Entre as causas de insatisfação do Brasil estão o aumento das importações de veículos do país e a baixa exigência de conteúdo nacional pelos mexicanos em 30%. O acordo garante isenção da taxa de importação de 35% que é cobrada de veículos vindos da Europa, da Ásia e dos EUA.  Segundo ele, há "enorme interesse" do México em rever as condições.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

México : 12 mil pessoas assassinadas pelo tráfico de drogas em 2011

Cerca de 12.000 pessoas foram assassinadas no México no surto de violência do tráfico de drogas do ano passado, de acordo com cálculos sombrios publicados na segunda-feira pelos principais veículos de mídia do país. Os índices anuais de assassinatos de mulheres, tortura, e decapitações também aumentaram. [Para se ter uma ideia comparativa entre a violência no México e a registrada no Brasil, basta assinalar que só em 2010 ocorreram 49.932 homicídios em nosso país, num universo de 190 milhões de habitantes (contra 112 milhões no México) !]

Mais de 50.000 pessoas foram mortas durante a confrontação militar -- apoiada pelos EUA -- do governo de Felipe Calderón contra o crime organizado e o tráfico de drogas, que começou em 2006.  O governo de Calderón, depois de prometer atualizar as cifras regularmente, não informou sua própria contagem de mortes, talvez porque a linha de tendência desse registro não seja boa. Um porta-voz do governo disse que novos números serão liberados mais tarde, neste mês. O partido governante enfrentará eleições nesse verão, nas quais o principal partido da oposição ameaça retomar a presidência do país.

O diário Reforma, um dos mais respeitados jornais independentes do país, informou que houve 12. 359 assassinatos relacionados a drogas em 2011, um aumento de 6,3% em relação ao ano anterior. Em 2007 essa cifra foi de 2.275 mortes, disse o Reforma.

Na contagem do Reforma, o número de corpos com sinais de tortura subiu para 1.079. Decapitações chegaram quase a 600, em comparação com 389 do ano anterior. O jornal identificou também que cresceu o número de mulheres vitimadas pelo tráfico, com mais de 900 assassinadas no ano passado.

O jornal não aponta o número de jovens ou crianças mortos, mas cada vez mais crianças têm sido apanhadas por fogo cruzado ou intencionalmente visadas, numa assustadora mensagem de que nada para as gangues de drogas.

Uma das poucas notícias alentadoras é que a taxa de homicídios parece ter caído em cerca de um terço no centro manufatureiro fronteiriço de Ciudad Juarez, que já foi apelidada de Cidade do Assassinato. A Baixa Califórnia e Tijuana também tiveram queda de homicídios. No entanto, a violência espalhou-se pelo México. Os Estados limítrofes com o Texas -- Chiuhauha, Cohahuilla, Nuevo León, Tamaulipas -- são os mais violentos. Mas, novas zonas de conflito, como a antes despreocupada Veracruz, na costa do golfo, estão agora envolvidas numa onda de assassinatos.

Cerca de 12.000 morreram na espiral de violência no México no ano passado - (Foto: The Washington Post).

sábado, 3 de dezembro de 2011

Restos maias de 2.000 anos são descobertos no México

Arqueólogos mexicanos descobriram restos maias do período pré-hispânico com cerca de dois mil anos de antiguidade. Trata-se dos primeiros encontrados em Mérida, no sudeste do país, divulgou o Instituto Nacional de Antropologia e História. A instituição indicou em comunicado que os arqueólogos encontraram há alguns dias restos de dois enterros no centro histórico de Mérida, os primeiros da época anterior à chegada dos espanhóis que se localizam na capital de Yucatán e que poderiam corresponder a um assentamento maia denominado região de Joo.

O arqueólogo Angel Góngora Salas explicou que outras ossadas encontradas anteriormente em Mérida pertencem ao período colonial e etapas posteriores, "daí a relevância dos dois enterros humanos encontrados recentemente no Parque Hidalgo", provavelmente dos períodos pré-clássico médio e tardio (600 a.C. a 250 d.C.). Ele também detalhou que em um deles foi encontrado um esqueleto inteiro junto com cerâmica, no segundo foram encontrado restos de ossos calcinados e cinzas que estavam dentro de uma urna. Os especialistas especulam que se tratou de uma cremação.


Com a descoberta, os pesquisadores têm os primeiros elementos para estudar "costumes funerários maias nessa área", disse Salas. Ele ressalta que os túmulos foram encontrados a pouco mais de dois metros de profundidade em uma escavação para instalar cabeamento subterrâneo.

Salas, responsável pelos trabalhos arqueológicos no centro histórico de Mérida, detalhou que o esqueleto inteiro estava em bom estado de conservação e, aparentemente, pertence a um homem que foi sepultado de cócoras e com as mãos na cabeça. O segundo enterro estava dentro de uma urna quase completa e os restos depositados no interior parecem ter sido incinerados. "A hipótese é que se trata de um enterro secundário, isto é, um indivíduo que foi enterrado em outro local de onde mais tarde foi retirado para cremá-lo e guardá-lo em uma vasilha, conforme a tradição maia", diz Salas.


No entanto, ele esclareceu que é preciso esperar a perícia dos antropólogos para estabelecer com precisão se de fato é um enterro secundário e qual a etapa cronológica correspondente. O especialistas lembrou que Mérida foi construída na época colonial sobre um assentamento pré-hispânico da região maia de Joo, o que sugere que os vestígios devem pertencer a esse assentamento indígena.




Um dos esqueletos encontrados estava inteiro, o outro sugere cremação - (Fotos: Efe).

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Violência no México continua incontrolável

Uma nuvem de fumaça no céu de Monterrey marca o local do mais recente episódio de violência e um dos mais trágicos a atingir o México nos últimos tempos. O ataque contra o Casino Royale situado na cidade ao norte do país deixou ao menos 53 mortos e voltou a abalar o país. O cassino atacado, inaugurado há três anos e meio, possui dois andares. No primeiro piso, há um bingo com capacidade para 250 pessoas, máquinas caça-níqueis e roletas. No segundo andar, há mesas de pôquer.

Em uma entrevista coletiva, o procurador de Justiça do Estado de Nuevo León, Adrián de la Garza, afirmou que cinco ou seis homens teriam entrado no cassino, exigiram aos gritos que todos saíssem do local e espalharam gasolina no estabelecimento para, em seguida, incendiá-lo. A maior parte dos mortos teria sofrido intoxicação provocada pela fumaça, após ter ficado presa dentro dos banheiros e salas do cassino para tentar se esconder dos autores do ataque. Ainda que não estejam claras as circunstâncias do ataque, a mídia mexicana já associou o incidente à guerra do narcotráfico, travada há cinco anos pelo presidente Felipe Calderón, que já deixou ao menos 40 mil mortos, segundo a contagem da imprensa local.

O massacre de Monterrey é, desde já, um dos mais graves já ocorridos no país desde 2006. A matança é comparável ao assassinato de 72 imigrantes na cidade de San Fernando, no estado de Monterrey, em agosto de 2010, um dos mais graves já ocorridos no país desde 2006.  Mas o incidente de Monterrey poderá se equipar ou mesmo superar a tragédia do ano passado. ''É possível que ainda encontremos mais mortos dentro do edifício'', informou o procurador de Justiça do estado de Nuevo León, Adrián de la Garza.

Desde o ano passado, o México é palco de uma batalha entre as gangues criminosas El Golfo e Los Zetas que lutam para controlar a região, uma importante rota de passagem para o tráfico de drogas com destino aos Estados Unidos.  Menos de 24 horas antes do que ocorreu em Monterrey, outro cassino foi atacado com uma granada na cidade de Saltillo, no estado de Coahuila.

O massacre acontece também menos de uma semana desde que um tiroteio do lado de fora do estádio de Torreón, também em Coahuila, provocou a suspensão de uma partida de futebol da primeira divisão - algo inédito na história do país.
As autoridades mexicanas, na ocasião, afirmaram que os tiros nas imediações do estádio e as imagens dos jogadores saindo correndo do campo foram ''um alerta para o governo''.
 Tragédia em Monterrey: pessoas escondidas morreram asfixiadas pelas chamas (Foto: Reuters).

Ataque ao cassino em Monterrey deixou pelo menos 56 mortos (Foto: BBC Brasil).

terça-feira, 12 de julho de 2011

Cientistas mexicanos usam própolis para combater cáries

Um grupo de cientistas mexicanos usa própolis, uma substância produzida pelas abelhas, para combater as cáries. Eles também estudam a existência de propriedades que auxiliam no combate à hipertensão, revelou nesta segunda-feira a Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).

O própolis é um composto de cera elaborado pelas abelhas para tapar fissuras em suas colmeias a base de compostos aromáticos, ceras, flavonoides, terpenóides, álcoois e pólen, informou a UNAM em comunicado. A estrutura química dessa substância "varia de acordo com fatores como a estação do ano, a floração e a região onde os insetos fazem suas coletas", acrescenta a nota.

Os cientistas comprovaram os efeitos dessa substância sobre os microrganismos que causam as cáries - Porphyromonas gingivalis e Streptococcus mutans - e já conseguiram isolar alguns compostos que servem para combatê-las.

Alguns compostos atuam sobre as enzimas "glicosiltransferasas de Streptococcus mutans", responsáveis pelo aumento na produção da placa bacteriana, e outros inibiram o crescimento das bactérias em diferentes focos. "Com estas descobertas é possível prevenir as cáries", disse Rivero Cruz.

 José Fausto Rivero Cruz, da Faculdade de Química, e os médicos veterinários zootecnistas Ángel López Ramírez e Adriana Correa Benítez são os responsáveis pela pesquisa, cujo objetivo é fomentar o uso e o aproveitamento de um "recurso desperdiçado" no México. Sendo assim, os estudiosos da UNAM estimam que no México são aproveitadas apenas seis toneladas anuais de própolis, apesar de o país ser considerado o sexto produtor de mel no mundo.

Atualmente no país, o própolis é utilizado com mais frequência na prevenção e no tratamento da tosse, embora sua ação terapêutica seja variada e sirva também para tratar outras casos como cicatrizes, inflamações, alergias, vírus e dores.

O estudo dos benefícios do própolis no combate à hipertensão, por outro lado, marcha mais devagar.

Com apoio do Governo da capital mexicana, os pesquisadores desenvolvem um projeto para determinar o efeito cardiovascular dos compostos de própolis, já que "em outros países são empregados para doenças de circulação, cardíacas e de hipertensão", disse.

Para isso, os especialistas vão ter que separar os compostos com procedimentos químicos e avaliar a reação biológica, e depois, em colaboração com a Universidade Autônoma de Querétaro, farão testes com a aorta isolada de ratos.

Posteriormente, algumas cobaias vão tomar a substância via oral para descobrir os efeitos na pressão arterial. As duas pesquisas vão ser realizadas com 15 tipos de própolis, concedidos por produtores do Centro Ecológico Acuexcómatl, e por apicultores das zonas rurais de Topilejo em Tlalpan, Xochimilco e Milpa Alta, na Cidade do México.