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sábado, 30 de abril de 2016

Álcool, drogas, suicídios -- os americanos brancos de 45 a 54 anos estão sendo dizimados

[Traduzo a seguir a análise do livro "Rising morbidity and mortality in midlife among white non-Hispanic Americans in the 21st century" ("Morbidez e mortalidade crescentes na meia-idade entre americanos brancos não-hispânicos no século 21") - Angus Deaton (Prêmio Nobel de Economia 2015) et al, Proceedings of the National Academy of Sciences (USA), Novembro 2015, feita por Jean-Pierre Robin no jornal francês Le Figaro de 16/11/2015. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.] 

Angus Deaton, Prêmio Nobel de Economia 2015 - (Foto: Jewel Samad/AFP)

A epidemia de Aids, que custou a vida de 650.000 americanos depois dos anos 1980, está hoje sob controle. Mas, uma outra hecatombe, ligada desta vez ao álcool, às drogas e aos suicídios, está grassando nos EUA com uma amplitude comparável. É nestes termos que Angus Deaton apresenta suas descobertas publicadas em novembro de 2015 pela Academia Nacional de Ciências dos EUA. 

Não se pode acusar o Prêmio Nobel de Economia de 2015 de tirar proveito de sua aura internacional para "se promover"-- a divulgação do estudo, realizado com sua esposa Anne Case, economista em Princeton, estava programada de longa data. Os autores demonstram que após duas décadas de diminuição de 2% ao ano, a mortalidade dos "americanos brancos não-hispânicos de 45 a 54 anos" recomeçou a crescer em 0,5% a cada ano a partir de 1999 e até 2013 ("Morbidez e mortalidade crescentes na meia-idade entre americanos brancos não-hispânicos no século 21").

A formulação de estatísticas étnicas americanas surpreende à primeira vista um francês. Mas, no caso, ela é essencial nas análises do casal Case-Deaton: o aumento de mortalidade que observaram refere-se exclusivamente aos "brancos não-hispânicos" de idade madura. Essa taxa de mortalidade passou de 371,5 (por 100.000) em 1998 para 415,4 em 2013. Ao contrário, a mortalidade dos hispânicos de mesma idade de mesma idade diminuiu (de 333,2 para 269,6). A queda é ainda mais pronunciada para os negros (796,7 em 1998 para 581,9 em 2013).

Essa sobremortalidade recente atinge indiferentemente homens e mulheres. Ela surpreende ainda mais por ser a única entre os países "ricos". Os dois economistas registram que nos seis países analisados (Austrália, Canadá, Alemanha, França, Reino Unido e Suécia) a mortalidade na faixa etária de 45 a 54 anos continuou a diminuir. Na França, ela passou de 420 mortos (por 100.000) em 1999 para 375 em 2013.

[Eis o gráfico correspondente, no estudo Case-Deaton

Fig. 1 - Mortalidade por todas as causas, na faixa etária de 45-54 anos, para Americanos Brancos Não-Hispânicos (USW), Americanos Hispânicos (USH), e seis países comparativos: França (FRA), Alemanha (GER), Reino Unido (UK), Canadá (CAN), Austrália (AUS) e Suécia (SWE).]

A "epidemia" que dizima os "americanos brancos" após uma quinzena de anos não tem precedentes no outro lado do Atlântico. No máximo, "havia sido observada uma pausa na redução na redução da mortalidade durante os anos 1960, grandemente explicável pela mudanças históricas no tabagismo", lembram os autores. Eles excluem um possível "efeito de geração": "Os americanos nascidos entre 1945 e 1965 não haviam apresentado taxas de mortalidade particularmente elevadas antes de chegar à meia-idade". O corte  entre os decênios 1978-1998, de um lado, e os quinze anos seguintes é incrível. Se a tendência anterior tivesse se prolongado, "488.500 mortes teriam sido evitadas, das quais 54.000 em 2013", calcularam os autores. A hecatombe atual é da mesma ordem que as 650.000 mortes ligadas à Aids que castigou os americanos entre 1981 e 2015, acrescentam eles. 

Os autores frisam que são os primeiros a expor a sobremortalidade dos "americanos brancos não-hispânicos de 45 a 54 anos", sob o risco de irritar seu público com essa denominação refinada. Mas, todo o valor de sua descoberta vem desse luxo de precisão! Assim, os CDC -- os centros de controle e de prevenção de doenças que estabelecem as estatísticas de mortalidade nos EUA, não identificaram o fenômeno "porque sua explicação exige uma decomposição das cifras segundo a idade e a raça"(sic). Desculpem, mas o Nobel de 2015 usa essa expressão! 

"Saúde mental ruim"

Os três males que castigam hoje o americano branco não-hispânico são perfeitamente identificáveis: álcool, drogas, suicídios. Quanto às suas progressões maléficas, elas são igualmente mensuráveis. O casal Case-Deaton chegou a uma estatística macabra -- drogas: 30,1 mortos por 100.000; suicídios: 25,5; álcool: 21,1. Para cada uma dessas três "causas externas" de morte, a maioria branca dos americanos de idade madura exibe de agora em diante resultados mais desfavoráveis que as "minorias" (sic). Ocorria o inverso há quinze anos. Há que se observar entretanto dois fatores de melhora, os óbitos por câncer de pulmão decresceram assim como as mortes ligadas a meios de transporte. Quanto à obesidade, frequentemente apresentada como o flagelo da classe média: "ela não se constituiu em uma ameaça crescente na história recente", avaliam os autores.

Por outro lado, o aumento da mortalidade afeta especificamente as categorias de menor nível de educação, aumentando em 20% em quinze anos  para os americanos que, no melhor dos casos, tem um diploma do curso secundário. Ao contrário, para os diplomados de curso superior sua taxa de mortalidade continuou a diminuir.

Além disso, os americanos estão completamente conscientes de que sua saúde se deteriora: as pessoas de 45-54 anos são quatro vezes mais numerosas a se queixar, nas pesquisas, "de sua saúde mental ruim", e os que se declaram "incapazes de trabalhar" dobraram após quinze anos.

Apesar da riqueza de seu diagnóstico, os autores avaliam "que a deterioração da morbidez e da mortalidade dos americanos brancos não-hispânicos de meia-idade foi apenas parcialmente elucidada". Como explicar os abusos de drogas? O consumo de heroína avançou em 63% por causa do endurecimento no controle dos analgésicos à base de morfina? Da mesma forma, os dois economistas assinalam a degradação debilitante da renda da classe média a partir de 1990, ou a fragilização das aposentadorias ligada às incertezas dos mercados financeiros. Se se abstêm de concluir, eles não falam menos de "geração perdida" a propósito desses americanos de idade madura.

"Habitualmente, quando surge uma nova tendência nos EUA isso é frequentemente (mas não sempre) um presságio do que ocorrerá 10 ou 15 anos mais tarde nas outras economias desenvolvidas. Toda "Schadenfreude" [alegria com a desgraça alheia] seria inoportuna", adverte Eric Chaney, economista-chefe do grupo Axa. Não nos alegremos com os problemasda sociedade americana!

[PS - Quando é que veremos publicado algo pelo menos parecido sobre nossa sociedade?!]


segunda-feira, 26 de maio de 2014

A permissividade absurda e criminosa da propaganda de remédios e de bebidas alcoólicas no Brasil

O brasileiro comum, de todas as categorias sociais, é bombardeado diariamente -- principalmente pelo rádio (AM e FM) e pela televisão -- por campanhas promocionais de produtos e serviços desaconselháveis e/ou nocivos à sua saúde ou por propagandas que o induzem a práticas que são danosas a ele e à sociedade. A característica básica dessas propagandas são a permissividade e a irresponsabilidade com que induzem o cidadão a consumir produtos e a adquirir hábitos que são daninhos a ele mesmo e, em alguns casos, ao meio social em que convive. Esse tipo de propaganda deseduca e cria vícios perniciosos. E toda vez que alguém ousa se manifestar contra isso surge a falácia da liberdade de se expor tais produtos e serviços, cabendo ao consumidor decidir o que quer fazer -- é o tal do movimento contra a censura na publicidade. Isso num país de serviços básicos lato sensu de frequência e qualidade baixíssimas, educação precária e com distribuição de renda extremamente injusta.

Esse viés da "liberdade de expressão", que virou um escudo gigantesco à sombra do qual é possível e ocorre cometer inúmeras barbaridades, é o cerne da criação e da atuação do CONAR - Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária. Este órgão tem por missão "Impedir que a publicidade enganosa ou abusiva cause constrangimento ao consumidor ou a empresas e defender a liberdade de expressão comercial" -- "Constituído por publicitários e profissionais de outras áreas, o CONAR é uma organização não-governamental que visa promover a liberdade de expressão publicitária e defender as prerrogativas constitucionais da propaganda comercial". 

Observe-se que nem remotamente é preocupação do Conar a saúde física do consumidor, mas a defesa da "saúde" empresarial está explicitada. O termo "constrangimento" utilizado na definição da missão desse órgão é emblemático da visão unilateral, oportunista e mercenária do Conar -- uma das acepções (dicionário Houaiss) desse termo é "violência física ou moral exercida contra alguém; coação". Beleza, com isso o Conar se sente no direito de não coibir a propaganda indiscriminada de medicamentos (que livre e sistematicamente induz a população aos riscos da automedicação), ao consumo de bebida alcoólica (especialmente da cerveja), a associar o carro à direção em alta velocidade, ao consumo (principalmente entre a garotada e adolescentes) de comidas nocivas à sua saúde, etc. Ou seja, com a desculpa do repúdio à "censura" o Conar permite que se protejam as indústrias e se cometam violências contra a saúde do consumidor.

Para variar, o governo federal se omite e não protege o contribuinte, como é de sua responsabilidade. Ministério da Saúde e Anvisa, entre outros, são tímidos, lentos e covardes no exercício de sua missão legal  e via de regra têm comportamento reativo e não proativo, só dando o ar da graça quando o malfeito já se implantou e, geralmente, já se consolidou.

Vamos às principais propagandas perniciosas que rolam soltas nas mídias falada e televisiva do país.

Medicamentos

Uma das mais frequentes e perniciosas, a propaganda livre de medicamentos na mídia é revoltante, criminosa e extremamente preocupante. E ninguém faz nada. O resultado imediato, claro e inequívoco disso é o assustador índice de automedicação no Brasil, o que, por exemplo, faz com que isso seja a maior causa de intoxicação no país

Levantamento feito em 2013 mostrou que nos cinco últimos anos, até aquele, a automedicação levou mais de 60 mil pessoas ao hospital no Brasil. No Brasil, os antiinflamatórios não esteroides (AINES) ocupam três das cinco primeiras posições de medicamentos mais utilizados sem orientação médica (ver tabelas). O problema disso é que essa classe de medicamentos interfere em muitos mecanismos fisiológicos normais do homem e o uso deles pode causar graves complicações. Um dos motivos dos AINES serem os mais procurados pela população em geral é que eles atuam, além de antiinflamatórios, como antitérmicos e analgésicos. O AINES mais utilizado no Brasil é a dipirona sódica. A comercialização dessa substância está proibida em alguns países da Europa e nos EUA, porque há estudos que indicam que ela pode causar agranulocitose ou seja, a falta de produção de células granulares que são responsáveis pela defesa do organismo. 

dipirona sódica foi banida da Suécia em 1974, dos Estados Unidos em 1977, assim como em mais de 30 países como Japão, Austrália, Irã e parte da União Européia. Na Alemanha a dipirona sódica somente é vendida com receita médica. Na Suécia a dipirona sódica foi re-introduzida em 1995 e banida novamente em 1999. Por que, então, ela é permitida no Brasil?!





Medicamentos à venda no Brasil que contêm dipirona sódica (às vezes citadas apenas como dipirona): Anador, Dorflex (que contém também cafeína e orfenadrina, ver tabela 2 acima), Novalgina, Buscopan, Lisador, Neosaldina, etc. Como todo e qualquer medicamento, esses também devem necessariamente ser precedidos de consulta médica.

Além da mídia falada e televisiva -- especialmente esta última, por seu poder de sedução e indução -- abrir indiscriminada e irresponsavelmente espaço para a propaganda de remédios os mais diversos, a televisão usa ainda o recurso criminoso de fazer com fundo azul todos os "alertas" (de araque) que emite após a propaganda de um medicamento. É sabido que a cor azul é relaxante, não transmite jamais a sensação de perigo -- assim, o potencial usuário daquele(s) medicamento(s) não assimila pelo "alerta" nenhuma noção de risco no consumo daquele produto. O alerta deveria ser feito com a tradicional cor de perigo ou risco, o vermelho, mas nem o Conar nem o governo se preocupam com isso. A propaganda do Dorflex que está bombando agora na TV é, ao meu ver, o mais recente exemplo desse tipo de propaganda irresponsável e criminosa.


Bebidas alcoólicas

O que se vê na televisão é uma enxurrada de propagandas de cerveja, todas elas -- sem qualquer exceção -- direcionadas exclusivamente para jovens. Os consumidores mostrados nos comerciais são invariavelmente jovens, saudáveis, bonitos, alegres  -- a cerveja é apresentada como o veículo certo para uma vida alegre, despreocupada e aparentemente saudável. Hipócrita e quase que à surdina, repisando uma frase escrita timidamente e em tamanho reduzido na tela, mal se ouve uma voz (quando existe) que diz "beba com moderação" ou "se beber não dirija". 

Se a cerveja já era um anunciante poderoso e uma enorme fonte de arrecadação fiscal para o governo federal antes da Copa de 2014, agora então nem se fala. Por ser o principal patrocinador do evento para a Fifa, um de seus fabricantes adquiriu poderes absurdos, a ponto da Fifa nos impor a suspensão da lei que impede a venda de cerveja nos estádios. O setor de bebidas frias (cujo principal participante é o de fabricantes de cervejas) é tão forte que -- com a cumplicidade irresponsável do segmento de bares e restaurantes --  pressionou o governo contra o aumento de tributação anunciado, e o governo de Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saias) covardemente cedeu. Instrumentos da chantagem contra o governo e contra a saúde dos brasileiros: aumento de 5%  nas bebidas e a ameaça de demissão de até 200 mil pessoas pela Abrasel - Associação Brasileira de Bares e Restaurantes caso a alta de impostos não fosse adiada (isto, em ano eleitoral, seria fatal para Dilma NPS).  

Resultado: o governo voltou atrás nesta terça-feira (13/5) e decidiu adiar por três meses o aumento dos impostos sobre bebidas frias -- cervejas, refrigerantes, isotônicos e refrescos. O reajuste será feita aos poucos, e não de uma vez só. Em troca, os empresários assumiram o compromisso de não aumentar os preços durante a Copa. A alta de impostos estava prevista para entrar em vigor em 1º de junho e, agora, ficou para 1º de setembro.

A decisão foi tomada após encontro do ministro da Fazenda, Guido Mantega, com representantes do setor de bebidas frias e do segmento de bares e restaurantes. "O governo postergará o aumento da tabela e o setor adiará o aumento de preços. Será uma Copa sem aumento de preços de bebidas", disse Mantega.A manutenção dos preços terá um efeito benéfico na inflação, continuou Mantega. "Inflação está sob controle e o setor poderá dar contribuição nesse sentido. Os preços estão mais comportados, mas queremos que eles não subam nada", explicou.

Eis aí a síntese de como o governo de Dilma NPS -- que é uma mãe de família -- vê a indústria cervejeira: fonte de arrecadação de impostos e instrumento de pressão sobre a inflação. Só isso, nada mais que isso. Danos à saúde da juventude que se embebeda cada vez mais, e cada vez mais cedo? Besteira, isso não é problema dela -- mesmo tendo um netinho. Em setembro de 2012 fiz uma postagem sobre isso

O consumo de álcool no Brasil supera a média mundial e apresenta taxas superiores a mais de 140 países. Os dados são da Organização Mundial da Saúde (OMS), que, em um informe publicado em 12/5, alertou que 3,3 milhões de mortes no mundo em 2012 (5,9% do total) foram causadas pelo consumo excessivo do álcool. O volume é superior a todas as vítimas de aids e tuberculose. A OMS avaliou dados de 194 países e chegou à conclusão de que o consumo médio mundial para pessoas acima de 15 anos é de 6,2 litros por ano. No caso do Brasil, os dados apontam que o consumo médio é de 8,7 litros por pessoa por ano.

Em outubro de 2012, fiz postagem denunciando que o álcool mata mais rápido que o cigarro e que casas noturnas do Rio faziam promoções para que os jovens se embebedassem.

Em 15 de março de 2011, o deputado Paulo Pimenta (PT-RS -- epa, uma maçã "podre" decente na cesta do PT?!) apresentou proposta de ementa que modifica a Lei n° 9.294, de 15 de julho de 1996, estendendo as restrições da publicidade de bebidas alcoólicas a cervejas e assemelhados. Sua proposta tramita apensada ao Projeto de Lei PL 2134/2007. Pelo tempo já decorrido, essa proposta deve estar sofrendo forte reação da indústria cervejeira.

Carros

Muito raramente se vê na televisão uma propaganda de carro em que o veículo não esteja em alta velocidade, na cidade, em estradas e até no campo. Há um claro e criminoso estímulo à direção em alta velocidade, num país traumatizado por mais de 40.000 mortes no trânsito por ano.

Encaminhei ao Conar uma reclamação contra uma propaganda recente da Ford, em que um pedestre toma o carro (Ford) de um motorista, identificando-se como policial, e sai em louca disparada por uma cidade cantando pneus em perseguição a uns marginais mascarados. O Conar se lixou para a minha reclamação. E ninguém se mexe para coibir isso, nem os órgãos de defesa do consumidor e muito menos o governo.


Fast food


A propaganda de produtos alimentícios na televisão é outro lixo, apregoando produtos extremamente nocivos à saúde humana. E frequentemente esse tipo de propaganda envolve crianças e adolescentes, que aparecem felicíssimos comendo hambúrgueres, batatas fritas, frituras e outros besteiras de mesmo calibre. É claro que ninguém, em esfera alguma, se mexe contra isso. O resultado disso já pode ser visto em qualquer lugar: se não gostar de ir a shoppings, nem que seja vapt-vupt, sente-se num banco de jardim e veja a fauna humana que circula. É impressionante o aumento visível de obesos, em todas as faixas etárias! E esse é apenas o lado visível da ingestão crescente de alimentação inadequada e ruim, de alto teor de gordura e de outros produtos maléficos à saúde contidos principalmente na comida chamada de "fast food", indiscriminada e impunemente anunciada na rádio e na televisão.


Uma exceção

A fantástica e extremamente louvável eliminação da propaganda de cigarros em toda a mídia é um claro e inequívoco exemplo de que devemos persistir na luta para eliminar também da mídia os anúncios dos três péssimos produtos citados acima.

Outra exceção


Em 23 de junho de 2010, enviei por e-mail reclamação ao Conar contra uma propaganda denominada "Shell - Vamos Juntos" que mostrava um garoto soltando pipa numa praia, junto com um cachorro. Solicitava a suspensão imediata da propaganda, por seu caráter deseducativo e ilegal, já que infrigia legislações específicas que proíbem cães e soltar pipa nas praias. 


No dia 23 de setembro de 2010 recebi email do CONAR (ver postagem) informando-me de que minha queixa havia sido levada a julgamento pelo seu Conselho de Ética, tendo sido deliberada por unanimidade de votos, em 1ª instância,  a sustação da veiculação daquele anúncio. Isso vem mostrar e comprovar a importância e a necessidade da manifestação do cidadão contra atos e atitudes que agridem a ética e a moralidade e ferem seus direitos.


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Deputados cedem ao lobby dos fabricantes de bebidas alcoólicas, contra a saúde do consumidor

[Por mais que nos esforcemos, jamais conseguiremos sequer imaginar a capacidade nefasta e imoral dos nossos congressistas em colocar os interesses espúrios próprios e de terceiros inteiramente acima dos interesses legítimos dos cidadãos que os elegem e pagam suas mordomias. É irrefreável, ostensiva e inesgotável a vocação dos nossos parlamentares para a bandalha, para o achincalhe, para a imoralidade, para o desdém da coisa pública, para o "primeiro o meu e o de quem me financia, dane-se o resto".

Entre as mais recentes vilanias da Câmara dos Deputados -- a mais numerosa das "casas" dessa coisa chamada Congresso Nacional -- há uma que foi timidamente noticiada pela mídia impressa (no Globo, por exemplo, apareceu tímida e acanhada na página 8 da edição de 15 de maio corrente) e silenciada pela mídia falada e televisiva, apesar de suas graves repercussões para a saúde do brasileiro, especialmente para nossos jovens. Trata-se do pedido de retirada de mensagens sobre os males do álcool nos rótulos e embalagens de bebidas alcoólicas.  Não é de se estranhar a pouca repercussão dada ao assunto por nossa mídia, dado o poderio dos fabricantes de bebidas alcoólicas sobre o orçamento publicitário de jornais, rádios e TVs. É óbvia igualmente a importância desse setor industrial para os bolsos e campanhas de nossos congressistas. Transcrevo abaixo a notícia publicada quase que envergonhadamente pelo Globo. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

O presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), pediu a retirada da proposta de rotular bebidas alcoólicas com mensagens sobre o mal do álcool à saúde, tópico incluído pelo deputado e relator Givaldo Carimbão (PSB-AL) no projeto que altera a Lei de Drogas. Nas negociações para incluir o projeto na pauta de votações do plenário da Câmara, Alves pediu que Carimbão deixe de fora a ideia de incluir advertências nas embalagens de bebidas alcoólicas, a exemplo do que já é feito com os maços de cigarro. O mesmo pedido foi feito pelo líder do PSDB na Câmara, deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP). [Esse Henrique Alves só é deputado e preside a Câmara porque se elegeu num país chamado Brasil, e seu partido é peça chave no governo comandado por outro partido de mesma laia chamado PT. Esse cidadão está sob investigação do Ministério Público Federal por repassar R$ 357 mil de dinheiro público para duas empresas de aluguel de veículo suspeitas.]

O projeto de lei, sob a relatoria de Carimbão, prevê internações involuntárias de dependentes de drogas e financiamento a comunidades terapêuticas, entidades de cunho religioso que abrigam dependentes em abstinência. O texto vai além e, na comissão especial criada para debater o projeto, o relator incluiu uma sessão específica para o álcool, uma droga lícita. Um artigo e dois parágrafos especificam que o rótulo de bebidas alcoólicas “deverá conter advertência sobre seus malefícios, segundo frases estabelecidas pelo órgão competente”. Imagens devem acompanhar as mensagens, que precisam ser trocadas a cada cinco meses, conforme a proposta.

O texto não recebeu qualquer objeção do Palácio do Planalto. O acordo costurado na Casa Civil da Presidência manteve intacta a especificação para as bebidas alcoólicas. As restrições surgiram no Congresso, onde é forte o lobby das indústrias de bebidas. Nas eleições em 2010, grandes cervejarias doaram pelo menos R$ 6 milhões a candidatos, a grande maioria deles na disputa por um mandato de deputado federal. O comitê financeiro do PMDB no Rio Grande do Norte recebeu R$ 70 mil em dinheiro de uma dessas indústrias, conforme registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Carimbão nega que o presidente da Câmara tenha condicionado a inclusão do projeto na pauta de votações à retirada do tópico sobre os rótulos das bebidas alcoólicas. Em razão do tumulto da votação da MP dos Portos, não há previsão de quando a votação ocorrerá. "Ele me perguntou se era possível retirar e separar a questão das drogas lícitas e ilícitas. Se eu sentir que isso pode derrubar o projeto como um todo no momento da votação, posso retirar", disse o relator.  Na comissão especial, segundo Carimbão, as sugestões para as bebidas alcoólicas eram ainda mais amplas, com a proibição de propaganda dos produtos. Esse item foi rejeitado pelos deputados, capitaneados pelo autor do projeto, deputado Osmar Terra (PMDB-RS).

[A questão das bebidas alcoólicas estava incluída no texto base do projeto antidrogas, aprovado no dia 22 de maio corrente pela Câmara. O projeto previa que rótulos de bebidas alcoólicas tinham que trazer advertências e imagens sobre os malefícios do produto, com frases estabelecidas por órgão competente, assim como acontece atualmente com os rótulos de embalagens de cigarros. No entanto, uma emenda apresentada pelo PR retirou esta obrigatoriedade do texto [esse PR, na Câmara, é o partido de figuras como Anthony Garotinho e Valdemar Costa Neto, entre outros]. Segundo os deputados, a intenção é discutir a questão do álcool em um projeto de lei específico. Deputados contrários ao projeto conseguiram arrastar a análise do projeto ao apresentar diversos requerimentos para retirada de pauta ou votação por bloco de artigos. No entanto, a maioria dos deputados preferiu aprovar o projeto.

Aliás, em matéria de proteção do brasileiro contra os danos do álcool, estamos perdendo de goleada. Para a Copa do Mundo, por exemplo, a Fifa atropelou nossa legislação e nos impôs sua decisão de liberar a venda de sua cerveja patrocinadora nos estádios daquela competição.]





quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Cervejas e queijos ainda mais juntos

[Gosto muito de vinho, mas não dispenso uma boa cerveja -- e as opções no mercado estão cada mais variadas e melhores. O texto abaixo é da autoria de Roberto Fonseca e foi publicado ontem no blogue Paladar do jornal O Estado de S. Paulo.] 


O mestre cervejeiro norte-americano Garrett Oliver, especialista em harmonizações, costuma dizer que, quando cerveja e queijo “casam” bem, “não se sabe onde um começa e o outro termina”. Na Europa e nos EUA, porém, o ditado é levado mais do que ao pé da letra, na produção de queijos com cerveja na receita.


No Brasil, microcervejarias ainda não aderiram à prática; mas, a pedido do Paladar, o cervejeiro caseiro José Virgílio Braghetto, de Ribeirão Preto, fez um queijo tipo Gouda com a tripel Pratinha, que ele também criou.

Braghetto começou a produzir cervejas e queijos em 2005. “Sempre que me reunia com amigos cervejeiros e levava alguma ‘cria’ láctea para harmonizar com as cervejas, comentava a respeito da similaridade entre as atividades”, diz. “Como na fabricação de cervejas, eu já perdi a conta de quantos queijos já fiz. A fusão entre os dois foi inevitável".

Queijo inglês Hereford Hop, envolto em lúpulo - (Foto: Charles Martell Company/Divulgação).

As primeiras experiências foram usando uma brown ale na lavagem da casca dos queijos, processo que favorece o crescimento de alguns tipos de bactérias e mofos. “A cerveja dava aos queijos uma casca mais escura e um sabor ligeiramente amargo no início, mas sem persistência.” O passo seguinte foi testar receitas que se aproximavam mais das produzidas ainda hoje em monastérios trapistas.

A mais famosa receita de queijo que leva cerveja é feita justamente pela belga Chimay, autora das fermentadas trapistas. O processo, porém, também é usado por outras cervejarias na Europa – há casos na França e Itália. Nos EUA, a Pholiafarm, no Oregon, produz dois queijos que levam uma cerveja local, a Wild Mountain Nut Brown Ale: o Elk Mountain, cuja casca é lavada com ela, e o Covered Bridge, onde ela vai na própria receita. Ainda naquela região norte-americana, a Rogue Creamery produz queijos com cervejas da marca homônima. Ao contrário das fermentadas, infelizmente, eles não vêm para o Brasil.

Há, ainda, o uso de ingredientes cervejeiros no queijo. O caso mais conhecido é o inglês Hereford Hop, da Charles Martell, um cheddar coberto com flores tostadas do lúpulo local Fuggles. Oliver menciona ainda receitas que levam malte.

 A cria de Braghetto na tripel - (Foto: Jose Virgilio Braghetto/Arquivo pessoal).

De volta ao Brasil, o queijo de Braghetto deve ter textura semi-dura, cor alaranjada e ligeira picância, incorporando um pouco do amargor do lúpulo e das notas frutadas da tripel. O resultado, só saberemos quando ele estiver pronto, em maio.  Aí, prometo publicar aqui a avaliação dele.

[O site Prazeres da Mesa publicou uma reportagem interessante sobre degustação de queijos e cervejas, que reproduzo abaixo.]





Muito se fala sobre harmonizações de queijos com vinhos. Mas você já tentou harmonizar seus queijos prediletos com cerveja? O resultado vai ser esplêndido – palavra de cervejeiros, mais que comprovada pelo público que participou da concorrida degustação na Semana Mesa SP.  Os mais de 30 presentes provaram diversas combinações na aula ministrada por este colunista e pelo especialista em queijos do Grupo Pão de Açúcar, Jair Jorge Leandro.

Na maioria dos casos, a harmonização de queijos com cerveja ocorre por semelhança, e não por contraste. Sabores comuns a ambos os ingredientes (de nozes, pães, cereais, amêndoas e caramelo) facilitam as combinações. A carbonatação presente na cerveja é outra grande aliada nesse tipo de degustação, uma vez que equilibra a gordura dos queijos e ainda limpa as papilas gustativas para a próxima mordida. O amargor age da mesma forma e confere refrescância ao paladar. Sem falar no sabor adocicado de alguns queijos que faz par com o açúcar presente no malte da cerveja.

Em nossa degustação, Jair apresentou cinco queijos selecionados por ele. Começamos com um light chamado Veermer combinado com a Bamberg Helles, recém-lançada pela cervejaria de Votorantim. Seguimos para o holandês Casablanca, feito de leite de cabra, que harmonizou perfeitamente com a blumenauense Eisenbahn Weiss. A Starklager Petra Aurum fez duo com um queijo gouda maturado, enquanto a potente Baden Baden Red Ale provocou uma explosão de sabores com o queijo Bergader, alemão de mofo azul. 

Para finalizar, um parmesão uruguaio para encarar a brasileira Colorado Indica e a americana Flying Dog Imperial Porter. A primeira rendeu uma bela combinação, mas a segunda era mais potente do que o queijo e gerou certo desequilíbrio no casamento. Quando combinada com o Bergader, porém, a morena se redimiu com uma das melhores combinações da tarde.

A frase do americano Garrett Oliver, o papa da harmonização de cerveja com comida, foi nossa escolhida para terminar os trabalhos da tarde: “Em uma harmonização correta, a de queijos e cerveja é tão perfeita que não se sabe onde termina a cerveja e onde começa o queijo.” O público, ao que parece, assinou embaixo.



segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O álcool mata mais rápido que o cigarro, e casas noturnas no Rio fazem promoções para que nossos jovens se embebedem

[Nunca consegui entender -- entender até que dá, o que não dá é p'ra aceitar --  por que o vício do álcool no Brasil nunca recebe pública e ostensivamente a mesma carga de condenação que o vício do fumo. É evidente que o lobby da indústria de bebidas alcoólicas, a começar pelo dos fabricantes de cervejas, é fortíssimo e os governos têm sido irresponsável e criminosamente coniventes com esse setor -- e a cerveja funciona como porta de entrada para bebidas mais fortes. Recentemente, comentei o absurdo recuo do governo de Dª Dilma ao postergar para depois do Carnaval o aumento de impostos sobre as cervejas.  Nossa ex-guerrilheira só banca a valente em alvos seletivos, que dão ibope, mas no caso da venda de bebidas alcoólicas nos estádios durante a Copa de 2014 ela se curvou à Fifa e à Ambev, e tornou letra morta nossa legislação vigente sobre isso. -- Reproduzo a seguir reportagem de hoje do Globo sobre pesquisa alemã sobre os efeitos letais do alcoolismo.]

Pesquisadores alemães realizaram estudos durante 14 anos para analisar os problemas do alcoolismo. A pesquisa, publicada pelo jornal “Alcoholism: Clinical & Experimental Research” apresenta o impacto da dependência do álcool por um longo período.

De acordo com os resultados, o hábito de consumir bebidas alcoólicas mata mais rapidamente do que fumar. Eles afirmam ainda que o consumo do álcool coloca as mulheres em maior risco do que os homens, uma vez que a taxa de mortalidade entre as mulheres dependentes foi 4,6 vezes maior do que as que não são dependentes da bebida, enquanto, entre os homens, a taxa de mortalidade corresponde a quase o dobro da apresentada pela população do sexo masculino em geral. A pesquisa mostrou também que pessoas dependentes de álcool vivem, em média, menos do que os fumantes. O estudo revela que o alcoólicos morrem 20 anos mais cedo, em média, do que a população geral.  "Os dados clínicos mostram uma maior proporção de óbito entre os indivíduos dependentes de álcool, quando comparados com outros da mesma idade e que não são dependentes", diz o professor John Ulrich, da Universidade de Medicina de Greifswald.

Para realizar a análise, a equipe do professor Ulrich olhou para uma amostra aleatória de 4.070 pessoas com idades entre 18 e 64 anos, dos quais 153 foram identificados como dependentes do álcool. Destes, 149, sendo 119 homens e 30 mulheres, foram acompanhados durante 14 anos.  "Verificamos que a idade média de morte entre os dependentes era de 60 para as mulheres e 58 para homens, sendo que ambos são cerca de 20 anos menor do que a idade média de morte entre a população em geral. Nenhuma dessas pessoas que foram a óbito tinha atingido a expectativa de vida", disse o professor Ulrich. — Outro dado relevante foi que, mesmo participando de tratamento para a doença, não identificamos uma maior sobrevida, o que significa que não parece ter um efeito protetor suficiente contra a morte prematura.

O professor Ulrich conclui dizendo que: "O fumo está muito relacionado ao câncer, que, de acordo com pesquisas, são diagnosticados mais tarde do que os problemas relacionados ao consumo de álcool. Além disso, beber também pode contribuir para outros comportamentos de risco, como tabagismo, excesso de peso e obesidade. O álcool é um produto perigoso e deve ser consumido apenas dentro das diretrizes".  [Não no Brasil, onde o álcool é visto e tratado como enorme fonte de receita tributária a ser paparicada e protegida.]

[Coincidentemente, a Revista O Globo de ontem publicou uma longa e estarrecedora reportagem (de Mariana Filgueiras) sobre a moda em voga nas casas noturnas do Rio frequentadas por jovens -- a revista relaciona nada menos que 16 casas desse tipo na noite carioca -- que é a de "premiar" com bebidas alcoólicas os jovens que participam das promoções e jogos desses locais. Todas as promoções têm como traço comum seu enorme nível de boçalidade e a criminosa irresponsabilidade de quem as implanta e estimula.

Na Pop Up!, por exemplo a promoção é "Welcome shots de cachaça + Megabeerbong (funil para 4 pessoas) + sorteio de barril de cerveja". -- Na Taverna Viking, "fantasiados de viking ganham hidromel [bebida alcoólica fermentada à base de água e mel] + concurso de beijo (o casal com melhor performance no palco ganha uma garrafa de bebida).  Na Battles!, batalha de bebidas variadas: quem vira o copo primeiro ganha ingressos VIP na festa seguinte. Na American Party, joga-se o Beerpong: a uma certa distância, quem acerta o copo do adversário com uma bolinha de pingue-pongue o obriga a virar um copo de bebida.

Conhecidas como "drinking games", as brincadeiras que estimulam o consumo excessivo de álcool hoje são os principais atrativos das festas com público entre 18 e 24 anos que ocupam locais como Fosfobox, em Copacabana; Espaço Franklin, no Centro; e Espaço Rampa, em Botafogo; além do Odisseia e do Espaço Acústica. A despeito da música ou do público, o chamariz são os jogos que envolvem bebida, seja como mote ou premiação. Outros exemplos que chamam a atenção são a festa Tekiller, que tem uma Batalha de Tequila, na qual ganha uma garrafa da bebida quem vira quatro doses primeiro. Em algumas edições, “o primeiro a cair bêbado ganha uma tatuagem”, como escrito na filipeta de divulgação.

"Antigamente, o mais importante era a música. Hoje em dia, para uma festa ser boa, ela tem que ter muitas atrações. Cada dia aparecem mais festas disputando o mesmo público, se não criarmos um diferencial, não atraímos as pessoas", justifica [!...] a produtora Luísa de Castro, de 21 anos, que se formou em Gastronomia e, há quatro meses, trocou o estágio numa fábrica de tortas pelo emprego na produtora de festas Blue Fish, responsável pela Tekiller, Taverna Viking e Bubble Pop, que distribui champanhe. "Festa hoje em dia é igual a cruzeiro. Antes, as pessoas queriam viajar. Hoje em dia, todo mundo quer “fazer um cruzeiro”. O que vale são as atrações, os brindes, as fantasias, os games". [Com 21 anos e esse raciocínio idiota, essa menina vai acabar comendo capim e espetando sorvete na testa em uma de suas promoções.]

Como não podia deixar de ser, a macaquice da nossa juventude está se afundando no vício do álcool em festas copiadas dos EUA e da Alemanha.  Vou alimentar a doce ilusão de que alguma autoridade se revolte também com o que foi publicado, e proíba a continuação dessa estupidez. Será que não dá para o Ministério Público, que tem se destacado por atitudes meritórias, se envolver nisso, punindo não só as casas listadas na revista (Pop Up! - Taverna Viking - Zombieland - Wonka Party - Tropical Bacanal - Tekiller - 7 Day Weekend - Bubble Pop - Chocolat Party - Battles! - Allcool Party - American Party - Game Over - Festa do Bigode - Erasmus Party - Higher!) como também quem deu alvará para esse tipo de barbaridade?

Para encerrar a lista de mediocridades, aí vai a foto de uma competição de bambolê valendo uísque na Tropical Bacanal -- presto desde já minha solidariedade à preocupação e à vergonha dos pais dos jovens nela retratados. 

Competição do bambolê na Tropical Bacanal, valendo doses de uísque para os ganhadores - (Foto: O Globo).
 





 




domingo, 30 de setembro de 2012

No namoro do governo com os fabricantes de cerveja a saúde pública fica em terceiro plano

Diz o velho e sábio ditado popular que onde tem fumaça, tem fogo. Ontem, o Globo publicou dois textos sobre a indústria de cervejas no Brasil: um recuo do governo quanto ao aumento de taxação sobre cervejas, adiando-o para abril de 2013, após o carnaval, e um comunicado da CervBrasil -- Associação Brasileira da Indústria da Cerveja --  comemorando o fato .  Aparentemente, mais uma redução de imposto seria, realmente, para se comemorar -- não neste caso, pois a redução foi suspensa exatamente durante os períodos de maior consumo (fim de ano, pré-carnaval e carnaval), para impedir o aumento de preços e um freio no consumo de cerveja.

Isso significará mais gente consumindo, sobretudo jovens, e os enormes problemas que as bebidas alcoólicas acarretam para a saúde dos usuários, para suas famílias e para a população (principalmente no trânsito). Mas nosso governo é opaco, insensível e absolutamente indiferente a esses problemas, tanto é que barganhou a redução de tributação por uma promessa de aumento de investimentos das indústrias cervejeiras. Essa é a ótica mesquinha de um governo petista -- que se dane a saúde pública, o que interessa é o aumento de investimentos; PT, saudações. A lista que a CervBrasil apresenta em seu comunicado de regozijo, como contrapartida à decisão do governo, é revoltante -- aumento de capacidade produtiva, renovação da frota de veículos, aquisição de equipamentos de refrigeração e mais recursos para o desenvolvimento de novos produtos e embalagens. Com o governo e conosco ficam os enormes gastos e traumas que o consumo do álcool acarreta.

Cinicamente, a CervBrasil diz ainda que a folga financeira ocasionada pelo relaxamento tributário será também usada para incentivo à capacitação profissional e estímulo aos programas sociais de conscientização do consumo responsável de cerveja. A CervBrasil nos considera certamente um bando de idiotas, que acham que a maciça propaganda de cerveja sobre os jovens contém alguma conscientização além da de consumo puro e simples! Os fabricantes acham que colocar pura e simplesmente a frase "se beber, não dirija" em fundo azul -- jamais usam o vermelho, que é o clássico sinal de perigo -- gera "conscientização de consumo responsável"! Sintomaticamente, a CervBrasil foi criada em 03 de maio deste ano por Ambev, Schincariol, Petrópolis e Heineken do Brasil (responsáveis por 99% do consumo nacional), exatamente quando o governo começou a ameaçar o aumento de impostos sobre o setor.

Todo mundo sabe, mas os "gênios" da tributação do governo Dilma (certamente com o fantástico Guido Mantega à frente) fingem ignorar, que aumento de preço é um inibidor do consumo de qualquer produto -- essa é uma lei fundamental da Economia, chamada "downward sloping demand curve", que estabelece que quando o preço de um produto sobe, a quantidade demandada desse produto cai. Como o preço da bebida alcoólica pode ser manipulado por meio de política tributária, este é um recurso largamente utilizado por governos -- não no Brasil, não num governo petista, obviamente --, para inibir o consumo desse tipo de bebida, juntamente com legislação mais restritiva quanto ao consumo, especialmente por jovens.

Em fevereiro de 2011, a OMS - Organização Mundial da Saúde publicou um relatório em que  afirma que:
  • o uso prejudicial do álcool resulta em 2,5 milhões de mortes por ano;
  • 320.000 jovens na idade entre 15 e 29 anos morrem de causas relacionadas com o álcool, resultando em 9% de todas as mortes ocorridas nessa faixa etária;
  • o álcool é o terceiro maior risco no mundo para a saúde -- é o principal fator de risco no Pacífico Ocidental e nas Américas, e o segundo maior na Europa;
  • o álcool está associado com muitos e sérios temas sociais e de desenvolvimento, incluindo violência, negligência e abuso com crianças, e absenteísmo no trabalho.
Esses fatos não significam absolutamente nada para o governo de Dª Dilma -- o que lhe importa é os fabricantes de cerveja comprem mais caminhões, mais equipamentos de refrigeração, etc. E tem muita gente que acha uma maravilha esse governo!!

 Percentagens globais de DALYs [Disability-Adjusted Life Year = uma medida da carga geral por doença, expressa como o número de anos perdidos por má saúde, invalidez ou morte prematura] atribuídos a 19 principais fatores de risco por grupo de renda, incluindo o alcoolismo -- o 3° principal fator de risco -- High income = renda alta; - Middle income = renda média; - Low income = renda baixa -- (Fonte: OMS).