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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Nomeação de mais um general (o terceiro) para o governo faz crescer receios sobre forte influência militar na administração Trump

[Antes mesmo de assumir formalmente as rédeas do país, Donald Trump já sinaliza com atos, atitudes e nomeações que o termo catastrófico pode ser uma palavra suave para seu governo. O número inédito de generais em sua equipe formal já acendeu todas as luzes amarelas nos EUA. Traduzo a seguir a essência de artigos publicados pelo jornal americano The Washington Post sobre isso. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. ]

Trump está se cercando de generais, e isto é perigoso

Philippe Carter e Loren Dejonge Schulman - The Washington Post, 30/11/2016

Mais  do que qualquer outro presidente eleito na memória recente, Donald Trump tem buscado militares de alta patente para povoar seu círculo íntimo de auxiliares. Em 24 de novembro, Trump anunciou que queria o general da reserva dos Fuzileiros James Mattis como seu secretário de Defesa -- um posto tradicionalmente destinado a um civil. Trump pensa também no general da reserva David Petraeus para secretário de Estado, no general da reserva da Marinha John Kelly para secretário de Estado ou secretário de defesa interna, e no almirante Michael S. Rogers como diretor de inteligência nacional. Seu conselheiro designado, Michael Flynn, aposentou-se do exército como general-de-divisão após décadas de atuação como oficial de inteligência militar. E o diretor indicado para a CIA, Mike Pompeo, formou-se na academia militar de West Point e serviu como oficial do exército durante a Guerra Fria.

O presidente eleito Donald Trump conversou com o general da reserva dos Fuzileiros James Mattis e vários outros ex-militares sobre vagas em seu governo - (Foto: Janin Botsford/The Washington Post)

David H. Petraeus, general da reserva e ex-diretor da CIA, na Trump Tower em Manhattan (NY) no início da semana passada - (Foto: Sam Hodgson, para o The New York Times) 


Há uma grande tradição americana de se ter militares veteranos em altos postos da administração política, desde os presidentes George  Washington e Dwight Eisenhower a oficiais seniores como o secretário de Estado Colin Powell na administração George W. Bush e o assessor de segurança nacional James Jones no governo Obama. Um governo típico, entretanto, começa com poucos generais recentes em postos chaves. Preencher tantos lugares com patentes da reserva, como Trump está propenso a fazer, é altamente inusitado.

Não há dúvidas de que esses homens trazem consigo uma tremenda experiência. Mas precisamos estar atentos e cautelosos quanto a estarmos demasiado dependentes ou apoiados em figuras militares. Grandes generais nem sempre são grandes funcionários de gabinetes. E se nomeados em números excessivos, podem enfraquecer ou destruir outra forte tradição americana: o controle civil de militares apolíticos.

Trump frequentemente desdenhou de líderes militares durante sua campanha eleitoral. Gabava-se de saber mais que os generais sobre como combater o Estado Islâmico. Repetidamente, criticou-os por anunciarem suas estratégias de ataques antes que estes ocorressem. Disse que tinham sido "reduzido a entulho" no governo Obama, e ameaçou até remover alguns de seus cargos quando assumisse a presidência.

Ainda assim, compreende-se porque ele os abraçaria agora. Os militares desfrutam da mais alta taxa de aprovação de qualquer instituição na sociedade americana. E contratar ex-generais é um modo seguro de ganhar legitimidade -- quer o presidente seja um senador por Illinois em primeiro mandato buscando cobertura, ou uma estrela de reality show de TV e magnata de cassinos que perdeu no voto popular e tem a reputação de ser um neófito em política externa.

É claro que as escolhas de Trump têm implicações além do teatro político. E legitimidade percebida não deve ser confundida com possibilidade de êxito em altos cargos civis.

Como quaisquer empregados em perspectiva, veteranos devem ser julgados com base em seus méritos mais além de seu posto militar ou de seu serviço militar. O registro histórico mostra que veteranos com status e qualificações semelhantes podem desempenhar-se de maneira muito diferente, quando nomeados para altos cargos. Consideremos os casos do general-de-divisão da reserva da Força Aérea Brent Scrowcroft, que foi assessor de segurança nacional dos governos Gerald Ford e George W. Bush, e o general-de-exército Alexander Haig, que foi secretário de Estado de Ronald Reagan. Cada um deles veio para seu cargo com credenciais militares impecáveis e considerável experiência em Washington. Scowcroft saiu-se brilhantemente, conduzindo um Conselho de Segurança Nacional eficiente que administrou a política externa americana quando a Guerra Fria acabou, a União Soviética se dissolveu e os EUA lutaram a Guerra do Golfo Pérsico. Haig teve um desempenho ruim, provocando (ou quase isso) várias crises entre civis e militares com sua militaresca afirmação de que estava no comando [do país] após a tentativa de assassinato de Reagan, e sua diplomacia altamente arrogante em relação à União Soviética. Haig demitiu-se um ano e meio depois de assumir o cargo.

É impossível saber se os veteranos de Trump serão mais parecidos com Scowcroft ou mais semelhantes a Haig.

Mattis, o monge guerreiro [pessoa que combina características de um monge -- profunda devoção religiosa e vida ascética -- com as de um guerreiro treinado para se envolver em conflitos violentos], mostrou seu gênio estratégico e operacional como general da marinha, mas lidar com e controlar a burocracia do Departamento de Defesa é outra coisa. (...) "Você não pode tocar o Pentágono como faz com a Primeira Divisão Naval".

Flynn é um iconoclasta cuja liderança apoiada em estratégia de terra arrasada no Comando Conjunto de Operações Especiais e na Agência de Inteligência da Defesa não permite prever bem como ele administrará o Conselho de Segurança Nacional, ou fará com que agências rivais trabalhem em conjunto. (...)

Petraeus personifica o líder militar moderno americano, mas seu estilo de liderança não encaixa bem com a CIA e seria provavelmente ainda um figurino pior para o Departamento de Estado ou outra agência governamental. [Esse "líder militar moderno americano" teve que renunciar ao cargo de diretor da CIA  em 2012, quando o FBI descobriu que ele mantinha um caso extraconjugal com Paula Broadwell, que ele escolhera para ser sua biógrafa.]

(...) E há uma dimensão social nas relações entre civis e militares que pode sofrer com a nomeação de líderes militares aposentados para  altos argos. A parcela de veteranos na sociedade está em declínio, como resultado de forças militares menores, a falta de alistamento militar, e uma população em crescimento. Sobram preocupações sobre como militares e civis se dividirão, e sobre como os militares se relacionarão com a sociedade quando uma decrescente porcentagem de americanos serve uniformizada ou tem relacionamento pessoal com quem o faz. Líderes militares seniores passaram todas sua vidas adultas dentro da bolha militar -- vivendo nas comunidades confinadas mais exclusivas da América, numa sociedade insular que tem seu próprio código legal, sua própria linguagem e seus próprios costumes. Nossos militares são ao mesmo tempo uma parte da América e apartados dela. Generais e almirantes emersos desse ambiente podem ser líderes e militares profissionais estelares, mas constituem-se em embaixadores improváveis para fazer a  ponte com os civis.

(...) O maior risco apresentado pela corrida de Trump para cortejar as altas patentes militares é a extensão em que nossa liderança militar pode tornar-se, em realidade ou percepção, uma instituição politizada. Isso poderia, como Dempsey [general da reserva Martin Dempsey] conjecturou, levar "administrações futuras a determinar quais líderes seniores militares seriam mais prováveis de concordar com eles, antes de colocá-los em postos de liderança sênior". No curto prazo, Trump pode estar satisfeito com militares politizados que parecem mais receptivos a ele. No longo prazo, entretanto, tanto o governo Trump quanto nossa segurança nacional sofrerão se essas nomeações solaparem a integridade institucional dos militares e corromperem sua liderança a serviço de fins políticos.

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Trump nomeia um terceiro general, gerando preocupações sobre forte influência militar

Philip Rucker e Mike DeBonis - The Washington Post, 7/12/2016


Presidente eleito Donald Trump encontrou-se com o general da reserva do Corpo de Fuzileiros Navais em 20 de novembro em Bedminster Township, NJ - (Foto: Drew Angerer/Getty Images)


O presidente eleito Donald Trump escolheu o general da reserva dos Fuzileiros John F. Kelly como secretário de Segurança Interna, recrutando assim um terceiro membro das altas patentes militares para servir nos níveis mais altos de sua administração.

A escolha de Kelly por Trump -- e suas continuadas deliberações sobre escolher ainda mais dois militares para outros cargos -- aumentou as preocupações entre alguns membros do Congresso e especialistas em segurança nacional de que as políticas da nova administração possam ser desproporcionalmente moldadas por comandantes militares.

"Estou preocupado", disse o senador Chris Murphy (democrata - Connecticut), um membro do Comitê de Relações Exteriores. "Cada uma dessas pessoas pode ter grande mérito pessoal, mas  o que aprendemos ao longo dos últimos 15 anos é que quando olhamos os problemas no mundo sob a ótica militar, cometemos grandes erros".

Apesar de, regularmente, fazer comentários desrespeitosos sobre os generais do país na campanha eleitoral, Trump tem de longa data mostrado uma afinidade por eles. Ao moldar seu governo, Trump tem priorizado pessoas do tipo que um assessor descreveu como "capaz e desejoso de fazer, sem besteiras", que o presidente eleito vê como um contraste deliberado com as escolhas pessoais que Obama fez.

Se confirmados, Kelly e o candidato a secretário de Defesa James Mattis, um general da reserva dos Fuzileiros apelidado de "Cão Raivoso", se juntariam ao general-de-divisão de reserva do Exército Michael T. Flynn, escolhido por Trump para ser o conselheiro de segurança nacional da Casa Branca. Enquanto isso, o general da reserva do Exército David H. Petraeus está sendo considerado para ser secretário de Estado e o almirante Michael S. Rogers está na disputa pelo cargo de diretor da inteligência nacional.

Outras figuras com experiência militar estão povoando também a administração Trump, incluindo o deputado republicano Mike Romeo (Kansas), graduado pela academia militar de West Point e que serviu no Exército na Guerra do Golfo, indicado por Trump para dirigir a CIA, enquanto Stephen K. Bannon, um ex-oficial da Marina, será o estrategista-chefe e conselheiro sênior de Trump na Ala Oeste da Casa Branca.

Trump, que teve múltiplos adiamentos de recrutamento e não tem experiência militar além de seus anos em um internato militar (military boarding school), é tido como ter atração por generais pelo ar insolente e arrogante destes e ficar maravilhado com suas histórias dos campos de batalha.

Muitos daqueles que Trump vem entrevistando e consultando passaram grande parte da última década e meia intimamente envolvidos na guerra dos EUA contra o terrorismo global. As escolhas de Trump são também surpreendentes, considerando-se sua postura não-intervencionista na campanha eleitoral e suas críticas violentas contra a guerra no Iraque e outras aventuras militares.

(...) A forte confiança em, e dependência de, líderes militares por parte de Trump marcam um desvio de sua administração das administrações dos três presidentes que o antecederam, que escolheram poucos generais para os cargos mais altos, com altos e baixos nos resultados, e se apoiaram grandemente em pessoas que passaram décadas prestando serviços como civis -- políticos, acadêmicos ou advogados.

(...) Nas redes sociais houve nesta semana alguns comentários sarcásticos, dizendo que o gabinete que Trump está montando parece uma "junta militar". (...)

A maioria dos oficiais militares passou toda sua carreira dentro de organizações estruturadas, com equipes grandes e uma clara cadeia de comando. Algumas vezes eles se debatem com dificuldade no mundo ilimitado da política e de estratégias -- sem mencionar o que se espera sem um ambiente imprevisível na Casa Branca de Donald Trump.

"Grandes generais nem sempre são grandes funcionários de gabinetes", disse Phil Carter, um veterano da Guerra do Iraque e membro sênior do Centro para uma Nova Segurança Americana.

Ver também:

☛ "O que Trump pode não saber sobre os generais que tem em mira para altos cargos" (em inglês)

☛ "Assessor de segurança nacional de Trump disse que está pronto para se engajar em uma nova guerra mundial" (em inglês)




sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Fotos dos Jogos Olímpicos 2016

Com todos os percalços esperados ou inesperados, os Jogos Olímpicos 2016 deixarão um belo legado de convivência de pessoas dos mais diversos recantos do planeta e de imagens inesquecíveis. As fotos apresentadas a seguir foram tiradas do jornal francês L'Obs e do Google.


A quadra de vôlei de praia da Rio 2016, tendo ao fundo o pôr do sol sobre a praia de Copacabana em 6 de agosto - (Foto: Leon Neal/AFP)


Outra imagem da arena de vôlei de praia - (Foto: Getty Images)


O Cristo Redentor, visto da Arena de Vôlei de Praia em 9 de agosto - (Foto: Leon Neal/AFP)


Pelotão do ciclismo de estrada masculino em 6 de agosto - (Foto: Eric Feferberg/AFP)



Xiaoxia Li da China em jogo contra  Ying Han da Alemanha pela medalha de ouro do tênis 

de mesa feminino, no 11° da Rio 2016 - (Foto: Getty Images)


A eslovaca Barbora Balazova disputando jogo de classificação de tênis de mesa simples em 6 

de agosto - (Foto: Juan Mabromat/AFP)


A polonesa Katarzyna Jurkowska-Kowalska na prova de qualificação da ginástica artística, 

em 7 de agosto - (Foto: Emmanuel Dunand/AFP)


O americano Alexander Massialas e o italiano Daniele Garozzo disputam a medalha de ouro 

na esgrima, ganha pelo italiano em 7 de agosto - (Foto: Kirill Kudryavtsev)


A egípcia Doaa Eighobashy na partida de vôlei de praia entre Egito e Alemanha em 7 de 

agosto - (Foto: Yashuyoshi Chiba/AFP)


A italiana Erika Fasana nas barras assimétricas, em 7 de agosto - (Foto: Julio Cortes/AP)


A mexicana Monica Patricia Dominguez Lara fracassa na tentativa de levantar 58 kg, em 8 

de agosto - (Foto: Mike Groll/AP)


Salto de 10m em piscina: os chineses Lin Yue e Chen Aisen, em 8 de agosto - (Foto: Martin 

Bureau/AFP)


A argentina Rocio Campigli sufocada por handebolistas holandesas em um jogo pelo grupo 

B, em 8 de agosto - (Foto: Eric Ferferberg/AFP)


O japonês Yoshiaki Oiwa monta "The Duke of Cavan" no Centro Olímpico do Rio, em 8 de 

agosto - (Foto: Ed Jones/AFP)


Michael Phelps na semifinal do nado borboleta, em 8 de agosto - (Foto: Gabriel Bouys/AFP)


A jogadora de tênis de mesa austríaca Jia Liu chora após sua derrota para a cingapurense 

Deng Tianwei, mas apesar disso cede ao ritual do selfie com uma espectadora, em 8 de 

agosto - (Foto: Jae C. Hong/AP)


Michael Phelps com sua noiva Nicole Johnson e seu bebê Boomer, após a vitória do 

americano nos 200m nado borboleta em 9 de agosto - (Foto: Matt Slocum/AP)


A americana Kassidy Cook durante um treino em 11 de agosto - (Foto: Wong-Maye.E/AP)


A americana Simone Biles na prova de salto sobre o cavalo, em 11 de agosto - (Foto: Julio 

Cortez/AP)



Jogadoras brasileiras de polo aquático estimulas sua companheiras de equipe no jogo 

contra a Rússia, em 11 de agosto - (Foto: Sergei Grits/AP)



Os ciclistas de pista britânicos na prova de perseguição por equipes, em 11 de agosto - (Foto: 

Odd Andersen/AFP)


A halterofilista britânica Rebekah Tiler (<69kg) em plena tentativa de levantamento de 

peso, em 10 de agosto - (Foto: Mike Groll/AP)


O mergulho da chinesa He Zi na semifinal do trampolim e 3m, em 13 de agosto - (Foto: 

Martin Bureau/AFP)


Vôlei França x EUA na fase de classificação, em 13 de agosto - (Foto: Laurent Kalfala/AFP)


Jogadoras de vôlei americanas antes de seu jogo contra as chinesas, em 14 de agosto - 

(Foto: Matt Rourke/AP/SIPA)


A foto dos Jogos: Usain Bolt, todo sorridente, sobrevoa os 100m, que ele ganha então pela 

terceira vez consecutiva, em 14 de agosto - (Foto: Matt Slocum/AP/SIPA)



As lágrimas amargas de Renaud Lavillenie, novamente vaiado pelo público quando sobe ao 

pódio para receber a medalha de prata no salto com vara, em 16 de agosto - (Foto: Fabrice 

Coffrini/AFP)



O mergulhador francês Matthieu Rosset decola do trampolim de 3m, em 15 de agosto - 

(Foto: Michael Sohn/AP/SIPA)



A porto-riquenha Jasmine Camacho-Quinn derruba o obstáculo na semifinal dos 100m com 

barreiras, em 17 de agosto - (Foto: Pedro Ugarte/AFP)



Nadadora refugiada síria Yusra Mardini na Rio 2016, nas eliminatórias dos 100m nado 

borboleta - (Foto: Google)



As mãos de jogadoras cubanas de vôlei se erguem para tentar interceptar um ataque 

iraniano, em 11 de agosto - (Foto: Mark Rouker/AP)



A americana Katie Lecky na largada da prova classificatória dos 800m nado livre, em 11 de 

agosto - (Foto: Lee Jin-man/AP)



Tão talentosa na arrancada final quanto no mergulho ("peixinho"), a atleta das Bahamas 

Shaune Miller ganha o ouro dos 400m jogando-se literalmente sobre a linha de chegada, 

em 15 de agosto - (Foto: Olivier Morin/AFP)



A tailandesa Phannapa Harnsujin Thaïlande e a iraniana Kimia Alizadeh disputam a medalha de bronze no taekwondo, categoria menos de 57kg, em 18 de agosto - (Foto: Kirill Kudryavtsev/AFP)


Quartas de final do ciclismo BMX, em 18 de agosto - (Foto: John Macdougall/AFP)


Suor, lágrimas, belos gestos, emoção ... Eis o que nos oferecem os Jogos Olímpicos Rio 2016, de 5 a 21 de agosto. Na foto, semifinal de salto de trampolim de 10m, em 18 de agosto - (Foto: François Xavier Marit/AFP)


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O dilema americano: a sociedade civil está se afastando da sociedade militar

[Sempre me impressionou e me confundiu a enorme facilidade com que os americanos mandam seus jovens para lutar e morrer em guerras que os EUA criam ou estimulam a três por quatro mundo afora, várias delas absolutamente insanas e criminosamente catastróficas. Sem falar nas verbas astronômicas que isso envolve. A guerra do Iraque, forjada e implementada sobre a absurda mentira das armas de destruição em massa iraquianas, é um exemplo pavorosamente emblemático do belicismo desenfreado e majoritariamente injustificado dos EUA, e dos altíssimos custos em vidas e equipamentos que isso custa ao contribuinte americano -- sem falar no caos político e social em que o Iraque mergulhou após a atabalhoada e ridícula intervenção militar liderada pelos EUA, com repercussões negativas de vários níveis e dimensões para os próprios americanos. Traduzo a seguir os principais trechos de um artigo da revista The Economist sobre a cada vez mais reticente reação do povo americano a um maior envolvimento com atividades militares, traduzida em uma queda visível no alistamento militar de jovens americanos. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Fracassos no Iraque e no Afeganistão aumentaram a separação entre a maioria dos americanos e as forças armadas do país

[O artigo da The Economist reproduz inicialmente um dia rotineiro do sargento Russell Haney como recrutador do exército dos EUA. Após uma jornada frustrante, ele diz que apoiar as forças armadas da boca p'ra fora é o que fazem todos os americanos.]

Numa sociedade dada a uma ostensiva reverência às forças armadas -- durante o Mês do Apreço Nacional aos Militares, no Dia do Cônjuge Militar e em inúmeros outros feriados e ocasiões públicos dessa natureza -- os números que dão suporte à afirmação do Sargento Haney são surpreendentes. No ano fiscal que terminou em 30 de setembro, as quatro forças armadas dos EUA -- exército, marinha, força aérea e fuzileiros navais -- visavam recrutar 177.000 pessoas, especialmente entre os 21 milhões de americanos com idade entre 17 e 21 anos. Todos se esforçaram e o exército, que responde por quase metade daquela meta de recrutamento, conseguiu seu objetivo a um alto custo e no último momento, apenas através da canibalização de seu estoque de recrutas para este ano. Faltaram-lhe 2.000 pessoas para preencher sua quota de 17.300 recrutas para sua reserva armada, que está se tornando mais importante para a segurança nacional no momento em que o exército de tempo integral encolhe de um pico recente de 566.000 membros para um valor projetado de 440.000 para 2019, o valor mais baixo desde a segunda guerra mundial. "Acho impressionante", diz o comandante do serviço de recrutamento do exército Major-General Jeffrey Snow, "que tenhamos estado em duas prolongadas campanhas terrestres e temos um público americano que tem o exército em alta conta, e ainda assim a grande maioria [desse público] perdeu contato com ele. Menos de 1% dos americanos tem intenção de, e está capacitado para, ingressar no exército". 


Inelegibilidade para o serviço militar (*) entre americanos com idade de 17 a 24 anos, em 2014, em % -- (*) As principais causas incluem sobrepeso, educação inadequada, histórico criminal ou uso de drogas - (Mapa: Economist.com) 


Isso é parte de uma tendência de longa data: uma crescente desconexão entre a sociedade americana e as forças armadas que alegam representá-la, o que tem muitas causas, começando com o fim do serviço militar obrigatório em 1973. Desde então, a passagem pelo serviço militar vem consistentemente reduzindo-se na vida dos americanos. Em 1990, quarenta por cento (40%) dos jovens americanos tinha pelo menos um progenitor que havia servido nas forças armadas; em 2014 esse número foi de apenas 16% e ele continua a cair. O declínio é analogamente pronunciado entre as lideranças americanas: 64% dos congressistas em 1981 eram veteranos, hoje cerca de 18% o são.

Fatores sazonais, incluindo um fortalecimento do mercado de trabalho e uma cobertura negativa pela mídia das guerras no Iraque e no Afeganistão, ampliaram esse gape. Contribuíram também para isso os péssimos padrões de educação e de preparo físico que prevalecem na sociedade americana moderna. 

Numa época de introspecção pós-guerra, esses fatores levantam duas grandes questões. A primeira refere-se à capacidade dos EUA de responsabilizar/punir um setor militar que suas lideranças se sentem obrigadas a aplaudir, mas não se sentem mais competentes para criticar. Andrew Bacevich, um ex-oficial do exército, acadêmico e um crítico de longa data do que ele chama de militarismo da sociedade americana, ridiculariza esse apoio chamando-o de "superficial e fraudulento". Santificados pelos políticos e pelo público, argumenta ele, os figurões do exército têm recebido demasiado poder e muito pouca supervisão, o que tornou um resultado quase inevitável as recentes campanhas militares desastrosas e, analogamente, extremamente extravagantes verbas públicas para isso. A segunda questão levantada pela desconexão entre civis e militares é semelhantemente fundamental: a futura capacidade dos EUA de se mobilizar para uma guerra. [O entranhado belicismo americano leva inevitavelmente a um cenário bizarro em que os EUA estão permanentemente preocupados e focados na perspectiva do país envolver-se em conflito(s). Entre outras razões adicionais para isso inclui-se inequivocamente o enorme peso da indústria bélica americana no PIB do país.]

Durante a guerra da Coréia, cerca de 70% dos americanos em idade para recrutamento serviram nas forças armadas; durante a guerra do Vietnam, a impopularidade do conflito e a facilidade de se evadir o serviço militar fizeram com que essa participação caísse para apenas 43%. Nos dias de hoje, mesmo que cada jovem americano quisesse ingressar no exército menos de 30% estariam capacitados para isso. Dos 21 milhões iniciais de jovens em idade militar cerca de 9,5 milhões não preencheriam uma qualificação acadêmica rudimentar, seja porque abandonaram o curso secundário seja porque, tipicamente, a maioria dos jovens americanos não consegue fazer somas complicadas sem uma calculadora. Dos restantes 11,5 milhões de jovens em idade militar, 7 milhões seriam desqualificados porque são muito gordos, ou porque têm histórico criminal ou porque têm tatuagens em suas mãos ou rostos. De acordo com o Sargento Haney, cerca de metade dos estudantes secundaristas do Condado de Clayton, na Geórgia, são tatuados em um ou outro desses locais; de acordo com seu chefe, o tenente-coronel Tony Parilli, o maior dos problemas é que, simplesmente, "a América está obesa". 

Rejeitado com desdém pela elite

Isso deixa 4,5 milhões de jovens americanos elegíveis para o  serviço militar, dos quais 390.000 estão inclinados ou dispostos a isso desde que não sejam absorvidos por uma universidade ou uma empresa privada, o que tende a acontecer com os melhores deles. Na realidade, o mantra favorito dos recrutadores do exército de que estão competindo com a Microsoft e o Google [para atrair jovens] não é de fato verdadeiro. Com a exceção anual de umas poucas centenas de filhos e filhas de oficiais da reserva, a elite americana tem rejeitado há tempo o serviço militar. Bem menos de 10% dos recrutas do exército têm grau universitário; quase a metade pertence a uma minoria étnica. 

O grupo de recrutas potenciais é demasiado pequeno para satisfazer as necessidades militares dos EUA, mesmo tendo estas encolhido, especialmente, como agora, quando a taxa de desemprego cai para menos de 6%. Isso deixa o exército, a menos favorecida das quatro forças militares, com o dilema de baixar seus padrões de recrutamento ou então atrair com benefícios generosos aqueles que não estão inclinados a prestar serviço militar. Depois de não conseguir atingir sua meta de recrutamento em 2005, um ano de alto nível de empregos e más notícias de Bagdá, o exército adotou zelosamente as duas estratégias. 

Para sustentar o que, por padrões históricos, era apenas um modesto surto no Iraque, cerca de 2% dos recrutas do exército foram aceitos apesar de não terem preenchido os requisitos acadêmicos e outros tipos de critérios. "Aceitamos um risco na qualidade", diz com uma careta o general  Snow, um veterano do Iraque. Enquanto isso, o custo dos bônus de adesão do exército [para incorporação de recrutas] inchou rapidamente de maneira insustentável para US$ 860 milhões somente em 2008. 

Essa cifra decresceu desde então, como parte de um esforço mais amplo de controlar os custos de pessoal, que consomem cerca de um quarto do orçamento de defesa dos EUA. Ainda assim, os restantes "adoçantes" usados pelo exército são ainda generosos: os pagamentos e concessões/compensações feitos pelo exército aumentaram em 90% desde o ano 2000. Fazendo uma mis-en-scène no posto de recrutamento do sargento Haney, o autor deste artigo se apresentou como alguém sem objetivos que deixou a escola e perguntou o que o exército poderia lhe oferecer. Além do usual cama, comida e seguro médico, foi-lhe dito que receberia US$ 78.000 em taxas universitárias, algumas das quais poderiam sr transferidas para um parente próximo; treinamento profissional, incluindo 46 tipos de empregos/atividades que ainda oferecem um gordo bônus de adesão; e aconselhamento sobre carreiras pós serviço militar. O exército poderia talvez ignorar também a contravenção com drogas na juventude que o autor, em sua encenação, admitiu ter cometido? O sargento Fred Pedro achou que sim. 

É uma boa oferta, especialmente quando contraposta aos empregos ruins e à estagnação salarial que prevalecem entre os americanos a quem ela é basicamente dirigida. O fato de que o exército esteja enfrentando esse tipo de problema para se vender à população é em parte uma prova dos efeitos sobre a opinião pública de suas guerras recentes. Em três décadas após a retirada dos EUA do Vietnam em 1973, o exército lutou uma dezena de pequenas guerras e um grande conflito, a primeira guerra do Golfo, no qual sofreu apenas uma poucas centenas de perdas humanas no total. Mesmo quando os americanos cresceram separados de seus soldados, portanto, eles foram também encorajados a esquecer que uma guerra geralmente acarreta matança em ambos os lados. 

Nesse contexto alegre e despreocupado, os 5.366 americanos mortos em combate e as dezenas de milhares de feridos no Iraque e no Afeganistão surgiram como um choque terrível. A maioria dos jovens americanos associam o exército com "voltar para casa em pedaços, física, mental e emocionalmente", diz James Ortiz, diretor de marketing do exército. Quase cada participante da classe de jornalismo da escola secundária D.M. Therrell High School em Atlanta concorda com isso: "Eu poderia ingressar [no exército] se não houver outra opção, mas eu simplesmente não gosto da violência [lá]", disse nervosamente Mayowa, de 16 anos. 

Décadas de propaganda do exército com foco no dinheiro para universidade e outros benefícios do serviço militar provavelmente contribuíram para o mal-entendido em relação a essa força militar. "Os americanos não entendem o que é o exército, por isso não o valorizam", diz Ortiz. Uma campanha de marketing lançada no ano passado, Empreendimento Exército, muda o foco, enfatizando os altos valores e os bons trabalho que o exército busca disseminar. Entretanto, será preciso mais do que isso para fazer com que americanos voltem para uma vida que muitos consideram incompatível com uma vida moderna fragmentada, cética e irreverente. Além disso, é também provável que na próxima vez em que o exército precisar atuar isso se dê numa guerra muito mais sangrenta do que as guerras mais recentes. A maior vantagem dos EUA no campo de batalha nas últimas décadas, seu domínio de armas teleguiadas de precisão, está minguando na medida em que tais armas se tornam amplamente disponíveis até para grupos militantes maiores, como o Hamas e o Hezbollah. 

O resultado é que os EUA podem tornar-se incapazes, dentro de limites de custos razoáveis e sem restabelecer o serviço militar obrigatório, de mobilizar o exército (muito maior) de que poderá necessitar para tais guerras. "Poderíamos colocar em campo a força de que necessitamos?", pergunta Andrew Krepinevich, do Centro de Avaliações Estratégicas e Orçamentárias. Provavelmente, não: "O risco é que nosso desejo de convocar apenas aqueles que estejam dispostos a ingressar no exército está nos alijando de certos tipos de operações militares".

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[A projeção de gastos militares dos EUA nas despesas discricionárias (despesas que permitem ao gestor público flexibilidade, tanto no momento de elaboração do orçamento quanto na sua execução) de 2015 foi de US$ 598,5 bilhões de dólares, equivalentes a 54% de todas as despesas discricionárias do governo federal (US$ 1,11 trilhão).]