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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Um desastre com avião militar americano na Espanha, envolvendo bombas de hidrogênio, revelado após 50 anos

[Traduzo a seguir (parcialmente) a primeira de duas longas reportagens de Dave Philipps, do The International New York Times, sobre um desastre ocorrido em 1966 com um bombardeiro B-52 da USAF (Força Aérea dos EUA) com plena carga, em uma patrulha nuclear durante a Guerra Fria. Equipado com quatro bombas de hidrogênio, o bombardeiro se chocou contra uma aeronave de reabastecimento aéreo e explodiu, e as bombas caíram na costa da Espanha, perto da vila de Palomares. A reportagem relata os fatos e as doenças adquiridas por diversos membros da USAF que participaram do desastre e/ou das providências subsequentes. Mais uma vez, surpreende e traumatiza a fria indiferença das forças armadas americanas com vítimas de atividades suas. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]


Em 1966, um bombardeiro B-52 em uma patrulha nuclear da Guerra Fria explodiu sobre a Espanha, liberando quatro bombas de hidrogênio. Cinquenta anos depois, veteranos da Força Aérea envolvidos na limpeza da área afetada pelo acidente estão doentes e querem reconhecimento - (Vídeo: Kassie Brake, em 12/6/2016. Foto: Kit Talbot)

Destroços de um avião americano que caiu em Palomares (Espanha), após colidir com outro em pleno voo em 1966 - (Foto: Kit Talbot)

Alarmes soaram na bases aéreas americanas na Espanha, e oficiais começaram a reunir todo o pessoal de baixo escalão que podiam e a colocá-los em ônibus para uma missão secreta. Entre eles havia cozinheiros, empregados de mercados e até músicos da banda da Força Aérea.

Era tarde em uma noite de inverno de 1966 e um bombardeiro B-52 completamente carregado, em uma patrulha nuclear da Guerra Fria, havia colidido com um jato de reabastecimento sobre a costa espanhola e liberado suas quatro bombas de hidrogênio, que caíram sobre uma vila rural chamada Palomares. Era um emaranhado de pequenos campos agrícolas com casas brancas, em um canto à parte da acidentada costa ao sul da Espanha, que pouco mudou desde os tempos romanos. 

Foi um dos maiores acidentes nucleares da história, e os EUA queriam-no limpo rapidamente e em surdina. Mas, se algo foi dito aos homens que se acomodavam nos ônibus sobre os planos da Força Aérea para limpar (eliminar) material radioativo despejado foi simplesmente "Não se preocupem". 

"Não se disse nada sobre radiação, plutônio ou qualquer outra coisa", disse Frank B. Thompson, então um trombonista de 22 anos que passou dias vasculhando campos contaminados, sem equipamentos de proteção ou até mesmo troca de roupas. "Nos disseram que era seguro, e acho éramos estúpidos o suficiente para acreditar neles". 

Thompson, com 72 anos, agora tem câncer no fígado, em um rim e em um pulmão. Ele paga US$ 2.200 por mês por seu tratamento e isso não lhe custaria nada em um hospital de veteranos, se a Força Aérea o reconhecesse como uma vítima de radiação. Mas, por 50 anos, a Força Aérea insiste em que não havia radiação perigosa no local do acidente. Ela diz que o perigo de contaminação era mínimo, e medidas rígidas de segurança garantiram que todos os 1.600 homens envolvidos na operação estivessem protegidos. 

Entrevistas com dezenas de homens como Thompson e detalhes de documentos liberados nunca antes revelados contam uma história diferente. A radiação perto das bombas era tão alta, que os equipamentos de monitoramento saíam da escala. A equipe da USAF passou meses cavando e remexendo poeira tóxica, usando como proteção pouco mais do que uniformes militares de algodão. E quando os testes realizados durante a limpeza indicaram que os homens tinham índices alarmantemente elevados de contaminação por plutônio, a Força Aérea descartou os resultados, classificando-os de "claramente irrealistas". 

John H. Garman estava na Força Aérea americana por ocasião do acidente com o B-52 em 1966, e foi um dos primeiros a chegar no local do desastre - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)

Nas décadas decorridas desde então, a Força Aérea tem propositadamente mantidos os testes de radiação fora dos arquivos médicos dos homens envolvidos na limpeza, e tem resistido a pedidos para retestá-los, mesmo quando os pedidos resultam de estudos da própria Força Aérea.

Muitos homens dizem que estão sofrendo com os efeitos impeditivos ou paralisantes do envenenamento por plutônio. De 40 veteranos que atuaram na limpeza, identificados pelo The New York Times (NYT), 21 tiveram câncer. Nove deles morreram em decorrência disso. É impossível conectar cânceres individuais com uma única exposição a radiação. E nenhum estudo formal de mortalidade jamais foi feito para determinar se há uma incidência elevada de doença. A única evidência que esses homens têm para se apoiar são as anedotas de amigos que viram definhar. 

"John Young, morto de câncer ... Dudley Easton, câncer ... Furmanski, câncer", disse Larry L. Slone, 76 anos, em uma entrevista elaborando através de tremores causados por um distúrbio neurológico.  No local do acidente, um oficial da polícia militar na época, Slone disse que recebeu um saco plástico e a ordem para apanhar fragmentos radioativos com as mão sem proteção, nuas. "Um par de vezes me checaram com um contador Geiger e ele nitidamente saiu de escala", disse ele. "Mas, nunca anotaram meu nome e nunca fizeram qualquer acompanhamento comigo". 

O monitoramento da vila rural espanhola também foi caótico, como mostram os documentos liberados. Os Estados Unidos prometeram pagar um programa de saúde para monitorar os efeitos de longo prazo da radiação no local, mas durante décadas providenciaram poucos recursos para isso. Até os anos 1980, cientistas espanhóis frequentemente se apoiavam em equipamentos quebrados e desatualizados, e careciam de recursos para fazer acompanhamento de ramificações potenciais, incluindo mortes de crianças por leucemia. Hoje, várias áreas restringidas por cercas ainda estão contaminadas, e há pouco conhecimento sobre os efeitos de longo prazo sobre a saúde dos moradores locais.

Muitos dos homens que efetuaram a limpeza após a queda do avião estão tentando obter cobertura total de saúde e compensação por incapacidade do Departamento de Assuntos de Veteranos. Mas este órgão se apoia nos registros da Força Aérea, e como esses registros dizem que ninguém foi atingido em Palomares, o departamento rejeita os pedidos reiteradamente.

A Força Aérea nega  também qualquer dano a 500 outros veteranos que limparam a área de um outro acidente quase idêntico em Thule, Groenlândia, em 1968. Esses veteranos tentaram processar o Departamento de Defesa em 1995, mas a ação foi negada porque a legislação federal americana blinda os militares contra alegações de negligência feitas por membros da tropa. Todos os demandantes, desde então, morreram de câncer.

Em um comunicado, o Serviço Médico da Força Aérea afirma que recentemente utilizou técnicas modernas para reavaliar os riscos de radiação para os veteranos que limparam o local do acidente de Palomares e "efeitos adversos agudos na saúde não eram nem esperados, nem observados, e foram baixos os riscos de longo prazo de aumento de incidência de câncer no osso, no fígado e no pulmão".

As consequência tóxicas de uma guerra são exasperantes para se elucidarem. Dano é difícil de ser quantificado e quase impossível de ser vinculado a problemas posteriores. Reconhecendo isso, o Congresso aprovou leis no passado para propiciar benefícios imediatos a veteranos submetidos a poucas e específicas exposições -- Agente Laranja no Vietnam ou os testes atômicos em Nevada, entre outros. Mas não existe lei semelhante para os homens da limpeza de Palomares.

Se os homens pudessem provar que foram afetados pela radiação, teriam cobertura para todo o atendimento médico relativo a isso e ganhariam uma modesta pensão por incapacitação. Mas, conseguir provas de uma missão secreta para limpar um veneno invisível décadas atrás tornou-se uma tarefa difícil de ser feita e até de difícil lembrança. 

(...)

O dia em que as bombas caíram

Um oficial da polícia militar de 23 anos, chamado John H. Garman, chegou de helicóptero no local do acidente em 17 de janeiro de 1966, poucas horas depois que as bombas explodiram. "Era tudo simplesmente caótico", Garman (hoje com 74 anos) disse em uma entrevista em sua casa em Pahrump, Nevada. "Havia destroços por todo vilarejo. Uma grande parte do bombardeiro tinha caído no pátio da escola local". 

Ele foi um dos primeiros a chegar ao local do acidente e juntou-se a meia dúzia de outros homens para procurar pela quatro armas nucleares desaparecidas. Uma bomba havia se enterrado em um banco de areia macio perto da praia e ficado retorcida, mas havia explodido. Outra havia caído no mar, onde foi encontrada intacta dois meses depois, após uma busca frenética.

As outras duas atingiram fortemente o solo e explodiram, deixando crateras do tamanho de uma casa em cada lado do vilarejo, de acordo com um relatório secreto da Comissão de Energia Atômica, que depois foi liberado. Dispositivos internos de segurança impediram a detonação nuclear, mas explosivos ao redor dos núcleos radioativos foram detonados e uma fina poeira de plutônio se espalhou sobre as casas e campos e sobre plantações de tomates maduros.

Uma multidão de moradores levou Garman até às crateras cobertas de plutônio, onde fitavam atentamente os destroços sem saber o que fazer. "Não tínhamos ainda nenhum detetor de radiação, então não tínhamos ideia se estávamos em perigo", disse ele. "Simplesmente ficamos ali, olhando para o buraco".

Cientistas da Comissão de Energia Atômica chegaram logo e ficaram com as roupas de Garman porque estavam contaminadas, contou ele, mas disseram-lhe que ficaria bem. Doze anos depois ele teve câncer na vesícula.

O plutônio não emite o tipo de radiação penetrante geralmente associada a explosões nucleares, que causa imediatamente efeitos evidentes na saúde, como as queimaduras por exemplo. Ele libera doses de partículas alfa, que percorrem apenas poucas polegadas e não podem penetrar a pele. Fora do corpo, dizem os cientistas, ele é relativamente inofensivo, mas pequenos pontos absorvidos pelo corpo, usualmente pela inalação de poeira, deflagram uma enxurrada de partículas radioativas milhares de vezes por minuto, provocando gradualmente danos que podem causar câncer e outras doenças décadas mais tarde. Um micrograma, ou um milionésimo de uma grama, no organismo é considerado potencialmente nocivo. De acordo com documentos da Comissão de Energia Atômica já liberados, as bombas de Palomares liberaram uma quantidade estimada de sete libras-peso -- mais de 3 bilhões de microgramas.

No dia seguinte ao desastre, ônibus carregados de pessoas (soldados e outros) vindos de bases americanas começaram a chegar, trazendo equipamentos de medição de radiação. William Jackson, um jovem tenente da Força Aérea, ajudou em um dos primeiros testes próximo às crateras, usando um contador de partículas alfa manual que podia medir até dois milhões dessas partículas por minuto.

"Quase em todo lugar para onde apontávamos o medidor, ele grudava no fim da escala", disse Jackson. "Mas nos disseram que aquele tipo de radiação não penetrava na pele, que estávamos em segurança". 

O Pentágono se concentrou em encontrar a bomba perdida no mar e basicamente ignorou o perigo de plutônio liberado, disse o pessoal da Força Aérea presente no local. Soldados vagaram inutilmente por plantações de tomates altamente contaminadas, sem qualquer proteção. Muitos vinham para olhar estupidamente para as bombas despedaçadas nos primeiros dias. "Uma vez fui checar os militares e os encontrei sentados, balançando as pernas sobre as crateras", disse Jackson. "Simplesmente sentados lá, comendo seu almoço".

Depois que a existência das bombas vazou, mais de um mês depois, os Estados Unidos admitiram que uma bomba, não duas, havia "rachado", mas havia liberado apenas uma "pequena quantidade" de radiação basicamente inofensiva.

Hoje, as duas bombas explodidas seriam conhecidas como bombas sujas e, provavelmente, provocariam evacuação de moradores. Na época, para minimizar a importância do desastre, a Força Aérea deixou os moradores em paz.

(...)

Uma limpeza às pressas

Temendo que as bombas pudessem prejudicar o turismo, a Espanha insistiu para que a sujeira fosse removida antes do verão. Dentro de dias, soldados estavam cortando com facões as plantações de tomates contaminadas. Embora os cientistas que supervisionavam a limpeza soubessem que a poeira de plutônio era o perigo maior, os comandantes militares obrigaram seus subordinados a jogar em máquinas de cortar milhares de carregamentos de videiras transportados por caminhões, e depois queimaram grande parte das sobras perto do vilarejo.

Alguns dos homens que faziam o trabalho mais sujo receberam macacões e máscaras cirúrgicas de papel como proteção, mas um relatório posterior emitido pela Agência de Energia Nuclear disse: "É duvidoso que a as máscaras cirúrgicas fossem mais do que uma barreira psicológica". 

Pessoal da Força Aérea usando luvas e máscaras trabalhando em locais onde três bombas de hidrogênio foram encontradas - (Foto: USAF)

(...)

Arquivo clínico militar de John H. Garman em 1979, indicando exposição a plutônio na Espanha - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)

A Força Aérea comprou toneladas de tomates contaminados da produção local, que os espanhóis se recusavam a comer. Para assegurar aos moradores de que não havia risco, os comandantes militares incluiu os tomates na alimentação do pessoal da base militar. Embora o risco de comer plutônio seja menor do que o de inalá-lo, ainda assim isso não é seguro.

"Era tomate no café da manhã, no almoço e no jantar. Nós os comemos até nos enjoarmos deles", disse Wayne Hugart (74 anos), que era um oficial da polícia militar no local. "Continuaram nos dizendo que não havia nada de errado com os tomates".

Pessoal da Força Aérea que trabalhava na limpeza e recuperação da área do desastre eram geralmente alimentados com produtos oriundos de Palomares - (Foto: Kit Talbot)

(...)

Para assegurar aos moradores que suas casas eram seguras, a Força Aérea mandou jovens da sua tropa às residências locais com detetores de radiação manuais. Peter M. Ricard, então um cozinheiro de 20 anos de idade sem qualquer treinamento com o equipamento, lembra de ter sido encarregado de escanear tudo que os moradores pedissem, mas que mantivesse seu detetor desligado.

Testes jogados fora 

Durante a limpeza, uma equipe médica coletou mais de 1.500 amostras de urina da equipe de limpeza para calcular quanto de plutônio estavam absorvendo. Quanto maior o nível nas amostras, maior o risco à saúde.

Os registros desses testes permanecem talvez como o elemento mais proeminente da limpeza. Eles mostram que cerca de apenas 10% dos homens absorveram mais do que a dose admitida como segura, e o resto dos 1.500 testados não foram afetados. A Força Aérea, hoje, se apoia nesses resultados para argumentar que os homens não foram afetados por radiação. Mas os homens que na realidade realizaram os testes dizem que os resultados foram profundamente falhos e são de pouca utilidade para determinar quem foi afetado.

"Seguimos o protocolo? Droga, não. Não tínhamos nem tempo, nem equipamento", disse Victor B. Skaar, agora com 79 anos, que fez parte da equipe responsável pelos testes. A fórmula para determinar o nível de contaminação exigia que a coleta de urina fosse feita durante 12 horas, mas ele disse que que só conseguia obter uma única amostra de muitos dos homens. E outros, disse ele, nunca foram testados.

Victor B. Skaar, agora com 79 anos, fazia parte da equipe que fez a coleta de urina e afirma que o protocolo não foi seguido, e que não tinham tempo nem equipamento para fazer os testes - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)

Ele mandou amostras para o Dr. Lawrence T. Odland, chefe dos testes de radiação na Força Aérea, que começou a ver resultados alarmantemente altos. O Dr, Odland decidiu que os níveis extremamente altos não indicavam uma ameaça real à saúde, mas haviam sido causados pelo plutônio solto no campo que contaminara as mãos das pessoas, suas roupas e tudo mais. Ele jogou fora cerca de 1.000 amostras -- 67% dos resultados -- incluindo todas as amostras colhidas nos primeiros dias após o desastre, quando a exposição à radiação era provavelmente mais elevada.

Agora com 94 anos e morando em uma casa vitoriana em Hillsboro, Ohio, onde uma foto do acidente da Groenlândia está pendurada em sua sala, Dr. Odland questionou sua decisão. "Não tínhamos como saber o que era devido a contaminação e o que se devia a inalação", disse ele. "O mundo estava acabando ou estava tudo bem? Eu tinha apenas que fazer uma ligação telefônica". 

Ele disse que nunca obteve resultados precisos para centenas de homens que podiam ter sido contaminados. Adicionalmente, ele logo percebeu que plutônio alojado nos pulmões não podia sempre ser detetado na urina dos veteranos, e homens com amostras limpas podiam ainda estar contaminados.

"É triste, sem dúvida, é triste", ele disse. Mas, o que você pode fazer? Você não pode eliminar o plutônio, você não pode curar o câncer. Tudo o que você pode fazer é baixar sua cabeça e dizer que sente o que aconteceu".

Programa de monitoramento extinto

Convencido de que as amostras de urina eram inadequadas, Dr. Odland convenceu a Força Aérea em 1966 a montar um grupo permanente sobre Deposição de Plutônio, para monitorar os homens afetados a vida toda. 

Especialistas da Força Aérea, da Marinha, do Exército, da Administração de Veteranos (hoje Departamento de Assuntos de Veteranos) e da Comissão de Energia Atômica se reuniram para estabelecer o program de ação logo após o fim da limpeza. Em comentários de boas-vindas o general da Força Aérea em cargo disse que o programa era "essencial" e acompanhar os homens até seus túmulos forneceria "dados urgentemente necessários".

Os organizadores propuseram não informar os participantes da limpeza sobre sua exposição a radiação e manter detalhes dos testes foras dos registros oficiais, de acordo com a ata da reunião, devido à preocupação de que notificá-los "poderia dar ensejo a ações legais". O plano era ter a equipe do Dr. Odland fazer o acompanhamentos dos envolvidos na limpeza. Em poucos meses, entretanto, ele havia dado de encontro a uma parede.

"Ele não é capaz de conseguir apoio do Departamento de Defesa para ir atrás das pessoas restantes ou estabelecer um registro real por causa da política de evitar problemas", observou um memorando da Comissão de Energia Atômica de 1967.

(...)

O Dr. Odland não sabia quem deu a ordem para extinguir o programa, mas disse que já que o grupo incluía todas as forças militares e a agência de veteranos, provavelmente a ordem foi dada por oficiais do alto escalão. A Força Aérea cancelou oficialmente o programa em 1968. O grupo "permanente" havia se reunido apenas uma vez.

Dr. Lawrence T. Odland, chefe do programa de teste de radiação , convenceu a Força Aérea a montar um grupo permanente para "Registro de Deposição de Plutônio" para monitorar a vida toda os envolvidos na limpeza, mas a Força Aérea extinguiu o programa em 1968 - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)


Após a limpeza, doenças

Os participantes da limpeza adoeceram logo após ela ter terminado. Homens saudáveis aos 20 anos de idade incapacitados por dores nas articulações, dores de cabeça e fraqueza. Médicos disseram que era artrite. Um jovem policial militar ficou sofrendo de inchaço do seio nasal tão agudo, que ele batia com a cabeça no chão para tentar livrar-se da dor. Médicos disseram que era alergia.

Vários homens tiveram erupções e tumores. Um membro da Força Aérea chamado Noris N. Paul teve cistos severos o bastante para que ele passasse seis meses no hospital em 1967 fazendo enxertos de pele. Ele ficou também estéril. "Ninguém sabia o que havia de errado comigo", disse Paul.

Um empregado de supermercado chamado Arthur Kindler, que havia ficado tão coberto de plutônio enquanto vasculhava plantações de tomates poucos dias após o desastre que a Força Aérea mandou que se lavasse no mar e confiscou suas roupas, teve câncer nos testículos e uma infecção pulmonar rara que quase o matou quatro anos após o acidente. De lá pra cá, teve câncer em nós linfáticos três vezes.

Arthur Kindler, à direita na foto do centro, fazia parte do pessoal da Força Aérea que foi convocado para a limpeza após o acidente - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)

Arthur Kindler, em foto recente - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)



"Levei muito tempo para começar a perceber que isso talvez estivesse relacionado com a limpeza das bombas", disse Kindler (74 anos) em uma entrevista em sua casa em Tucson. "Você tem que entender que nos disseram tudo era seguro. Éramos jovens. Confiamos neles. Por que nos mentiriam?".

Kindler solicitou duas vezes ajuda ao Departamento de Assuntos de Veteranos. "Recebi sempre uma negativa", disse ele. "Acabei desistindo".

Monitoramento pela Espanha

Os Estados Unidos prometeram pagar pelo monitoramento de longo prazo da saúde em Palomares, mas durante décadas forneceram apenas 15% do suporte financeiro, com a Espanha pagando o restante, de acordo com um resumo do Departamento de Energia que perdeu a confidencialidade. No início dos anos 1970, um cientista da Comissão de Energia Atômica registrou que a equipe espanhola de monitoramento de campo era  composta apenas por uma única pessoa, um estudante de graduação. 

Relatos sobre a morte de duas crianças por leucemia durante aquele período não foram investigados. O chefe da equipe de cientistas  espanhóis que monitorava a população disse à sua contraparte americana em um memorando de 1976 que, à luz dos casos de leucemia, Palomares necessitava de "algum tipo de supervisão médica da população para uma vigilância quanto a doenças ou mortes". Nada foi criado. 

No final dos anos 1990, após anos de pressão da Espanha, os Estados Unidos concordaram em aumentar seu aporte financeiro às atividades pós-desastre. Novas pesquisas no vilarejo encontraram extensa contaminação que não havia sido detetada, incluindo algumas áreas em que a radiação era 20 vezes maior que o nível permitido para áreas habitadas. Em 2004, a Espanha na surdina restringiu com cercas o terreno mais contaminado, perto das crateras.

Desde então, a Espanha tem pressionado os Estados Unidos para concluir a limpeza do local.

Devido ao monitoramento desigual, os efeitos sobre a saúde pública estão longe de estarem claros e conhecidos. Um pequeno estudo sobre mortalidade feito em 2005 encontrou taxas de incidência de câncer em Palomares que haviam aumentado em comparação com o detetado em vilarejos semelhantes na região, mas o autor, Pedro Antonio Martinez Pinilla, um epidemiologista, alertou que os resultados poderiam ser devidos a erro aleatório e solicitou urgência para um novo estudo.

Naquela época, um cientista do Departamento de Energia dos Estados Unidos, Terry Hamilton, propôs um outro estudo, após observar problemas nas técnicas de monitoramento da Espanha. "Estava claro que o aumento de plutônio havia sido muito mal entendido", disse ele em uma entrevista. O departamento não aprovou sua proposta. 

Autoridades espanholas disseram que os temores podiam ter sido exagerados. Yolanda Benito, que chefia o departamento ambiental do Ciemat, a agência nuclear da Espanha, disse que as verificações médicas não mostraram um aumento de câncer em Palomares. "De um ponto de vista científico, não há nada que nos permita vincular os casos de câncer na população local e o acidente", disse ela. 

Estima-se que cerca de um quinto do plutônio disseminado em 1966 ainda contamina a área. Após anos de pressão, os Estados Unidos concordaram em 2015 a limpar o plutônio remanescente, mas não há programa nem prazo aprovados para isso.

"Vou contar o que me aconteceu"

Em uma manhã chuvosa recente, Nona A. Watson, uma professora de ciência aposentada em Buckhead, Geórgia, manteve aberta a porta de um centro médico de veteranos em Atlanta para seu marido, Nolan F. Watson, que entrou claudicando, com a mão trêmula incapaz de manter firme a bengala.  

Como um policial que treina e trabalha com cães, aos 22 anos, Nolan Watson dormiu no chão a apenas centímetros de uma das crateras de bomba no dia seguinte ao desastre de Palomares. Um ano depois, ele foi atormentado por dores de cabeça terríveis, de deixá-lo cego de dor, e tinha os quadris tão rígidos que mal conseguia andar. Na época, solicitou ajuda ao Departamento de Assuntos de Veteranos. Ele disse que seu pedido foi rejeitado. Durante anos teve problemas com articulações doloridas, pedras nos rins e câncer de pele localizado. Em 2002, foi diagnosticado com câncer renal e teve que retirar um rim. Em 2010, mais câncer foi detetado no rim restante. Testes de sangue anormais, recentes, sugerem que esteja com leucemia.

Nolan Watson, em retrato da época do desastre de Palomares - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)


"Acho que isso arruinou minha vida", disse ele. "Era jovem, em boa forma. Mas, desde aquele dia, tive problemas o tempo todo". 

Nolan Watson, também participante da equipe de limpeza em Palomares, teve problemas com articulações doloridas, pedras nos rins e câncer de pele localizado - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)


Agora com 73 anos, Watson preencheu um requerimento para a agência de veteranos que lhe foi negado e ele entrou com uma apelação. Outros veteranos de Palomares o alertaram de que era perda de tempo. Apenas um veterano de Palomares, que conheciam, teve êxito em alegar danos decorrentes da radiação e isso levou 10 anos, num ponto em que estava acamado com câncer de estômago. Mas Watson queria ir ao centro médico para dar seu testemunho pessoal sobre sua exposição ao plutônio.

Na sala de espera do centro médico, seu nariz começou a sangrar.

Poucos anos antes, depois que seu primeiro pedido foi negado, sua mulher começou a caçar documentos antigos do governo, na esperança de que pudesse encontrar algo que provasse que a Força Aérea estava encobrindo a verdade de Palomares. Talvez, acreditava ela, pudesse descobrir evidências que fariam as autoridades reconsiderar a decisão quanto ao pedido do marido.

Ela encontrou relatórios de 40 anos atrás, que confirmavam as histórias dos participantes da limpeza sobre altos níveis de radiação e baixos padrões de segurança. Mas seu achado mais surpreendente foi um estudo de  2001 da Força Aérea que reavaliava a contaminação dos veteranos de Palomares. O estudo afirmava que os antigos testes de urina eram tão incorretos que não eram "úteis", e a Força Aérea deveria fazer novos testes com os veteranos.

A Sra. Watson sabia que nenhum novo teste havia sido feito, por isso dirigiu-se ao Serviço Médico da Força Aérea para saber porquê. Quando não conseguiu uma resposta clara, ela pediu ao seu congressista na época, Paul Broun, republicano da Geórgia, que enviasse uma carta à Força Aérea. Quando o congressista tampouco conseguiu uma resposta clara da USAF, ele propôs uma lei, que a Câmara de Deputados aprovou em 2013, obrigando a Força Aérea a responder ao Congresso. [Um excelente exemplo de como é abissalmente diferente, para melhor, a relação cidadão-parlamentar nos EUA, em comparação com o divórcio que existe no Brasil entre essas duas partes.]

Em 2013, a Força Aérea enviou ao Comitê de Serviços Militares da Câmara dos Deputados a resposta que lhe fora legalmente exigida. Para consternação da Sra. Watson, ela confirmava o que ela e o congressista já  sabiam: novos testes recomendados pelo relatório de 2001 "não eram necessários" porque os envolvidos na limpeza tinham usado equipamento de proteção, e os testes de urina originais mostraram que praticamente  nenhum homem havia sido exposto a radiação. Documentos liberados posteriormente e relatos de testemunhas levantam sérias dúvidas sobre a precisão da resposta da Força Aérea ao Congresso.

Após o envio da resposta, a Força Aérea retirou de seu website, na surdina, a única cópia pública do relatório de 2001. 

(...)

O coronel Kirk Philipps, que supervisiona o programa de saúde para radiação do Serviço Médico da USAF, disse em uma entrevista recente que a Força Aérea tentou o melhor que pôde para agir corretamente com os veteranos de Palomares. Ele retirara o relatório do site porque não queria aumentar as esperanças dos veteranos, e receava que os leitores do texto o achassem "confuso". "Temos um grande  número de veteranos que, acreditamos, não foram expostos", acrescentou.

Os níveis de radiação em Palomares eram baixos, disse ele, e os homens usaram equipamentos de segurança. Realizar novos testes com eles, com técnicas modernas mais precisas, como sugerido pelo relatório de 2001, poderia revelar níveis de contaminação ainda mais baixos, tornando ainda mais improvável que os veteranos conseguissem compensação do departamento. 

Com a intenção de dar aos veteranos de Palomares o que ele chamou de "benefício da dúvida", disse ele, a Força Aérea em 2013 parou de se apoiar nos velhos resultados de testes de urina e, em vez disso, atribuiu a todos os que participaram da limpeza do local do acidente uma dose correspondente a um "cenário de pior hipótese", com base em leituras de radiação aérea feitas na época.

Foi-lhes dada uma dose de 0,31 rem [unidade de medida de radiação] -- uma dose muito pequena, demasiado baixa para qualificar veteranos para receberem benefícios do departamento. Os veteranos da Groenlândia, que limparam um desastre semelhante, receberam uma dose zero.

A Sra. Watson, que analisou em detalhes os resultados dos testes em Palomares e os relatórios correspondentes, disse que os testes do ar ambiente provavelmente não refletem o que as pessoas trabalhando perto das crateras absorveram. "Tanto quanto posso dizer, isso não está baseado em nada e não fará bem a ninguém, disse ela. "Você pode imaginar porque eles sequer se incomodaram".

Enquanto esperava no centro médico com seu marido, ela explicou como esperavam que seu pedido não tivesse efeito. Eles não tinham provas. Não importa o que ele disse em seu testemunho, o departamento se reportaria às antigas amostras de urina para determinar quem foi afetado. E seu marido nunca teve coletada uma amostra de urina, e não poderia colher uma nova amostra porque o câncer já havia destruído a maior parte de seus rins.

Se tiver êxito em seu apelo, o Sr. Watson terá todos os seus custos médicos cobertos e receberá modestos pagamentos mensais por incapacitação. "Mas não é por isso que estou batalhando", disse ele, "não estou em busca de dinheiro". 

"Vou contar o meu lado, danem-se", disse ele. "Eles sabem que tudo isso é uma mentira". 

[É inacreditável e revoltante o procedimento do governo e da Força Aérea dos EUA em relação a seus próprios cidadãos e em relação à Espanha. E o pior é que não se trata de caso único. Dá medo pensar na extrapolação desse tipo de comportamento americano sob o governo de Donald Trump, eleito ontem.]






segunda-feira, 25 de novembro de 2013

As reações em Israel ao acordo nuclear firmado com o Irã

A primeira observação que se tira das recentes negociações entre os EUA e outras potências mundiais com o Irã para enquadramento do seu programa nuclear é o absoluto isolamento internacional de Israel em relação a um assunto que lhe é de vital importância. A segunda conclusão -- que acaba sendo origem da primeira -- é que tal isolamento se deu, e se dá, por culpa exclusiva dos israelenses, que têm mostrado preferência por ações militares a negociações diplomáticas, apostando alto em seu poderio militar e no tradicional apoio americano. Desta vez, porém, a coisa não funcionou como Israel queria e esperava.

Ainda há muito ceticismo pairando no ar em relação ao acordo a que se chegou com os iranianos, haverá ainda um tempo probatório em relação a isso. Mas, a posição de Israel nesse contexto é a pior de que se tem notícia ultimamente no cenário do Oriente Médio. Para possibilitar uma ideia de como isso tudo repercutiu no país e em seu governo, listo abaixo os títulos das principais matérias recentes apresentadas sobre o assunto pelos dois jornais de destaque da imprensa de Israel, o Haaretz (O País), de tendência esquerdista, e o The Jerusalem Post, mais ligado às posições do governo.

Haaretz

Avanço em Genebra -- Irã e potências mundiais fecham acordo provisório sobre programa nuclear (Anschel Pfeffer).

Com acordo do Irã selado, não espere que Israel mande sua força aérea. Isso seria suicídio político. Ainda assim, o acordo apenas mantém o Irã estacionado onde está -- ele ainda está bem posicionado para, repentinamente, mover-se na direção de uma bomba (Amos Harel).

Agora que o acordo está feito, lutar por novas sanções prejudicaria mais Israel que o Irã (Chemi Shalev).

Acordo fechado em Genebra. Netanyahu: acordo nuclear com Irã coloca Israel em perigo, nos defenderemos (Barak Ravid).

Um bom acordo: o pacto de Genebra distancia o Irã da bomba nuclear. Apesar da crítica rude de Netanyahu, o acordo de Genebra impõe sérias restrições ao Irã e permite ao Ocidente acesso a informações valiosas sobre seu programa nuclear (Barak Ravid). 

Revelado: EUA e Irã mantiveram conversações nucleares durante meses, antes que acordo fosse alcançado. O canal secreto se estabeleceu já em março de 2013, de acordo com a AP (Associated Press) -- Obama informou Netanyahu apenas dois meses atrás e depois colocou as potências mundiais a par (Barak Ravid).

Perfil. Ativista transformada em diplomata, no centro das conversações nucleares. Catherine Ashton nunca disputou uma eleição e não tem experiência diplomática, mesmo assim representou o mundo nas negociações com o Irã (Anshel Pfeffer).

Casa Branca apresenta os termos do acordo com o Irã. Documento completo: "Entendimentos iniciais relativos ao Programa Nuclear da República Islâmica do Irã".

The Jerusalem Post

Netanyahu diz que acordo nuclear com o Irã é "erro histórico". Jerusalém continuará seus esforços para garantir que Teerã não produza armas nucleares (Herb Keinon).

Acordo com Irã é mais arriscado do que parece. Acordo nuclear acertado em Genebra assume riscos altos e desnecessários, e se apoia em fundamentos precários que podem levar ao colapso do regime de sanções. Pode-se esperar que o Irã passará os próximos seis meses tentando dividir as potências internacionais (Yaakov Lappin).

EUA saúdam entendimento com Irã como um "bom acordo". Kerry diz que acordo trará mais segurança para Israel, porque estabelece um mecanismo para monitorar as atividades nucleares de Teerã. Presidente da Comissão de Assuntos Externos do Congresso diz que a nova legislação de sanções do Congresso respeitaria a moratória de 6 meses (Michael Wilner).

sábado, 16 de novembro de 2013

Meio ambiente: Japão se recusa a reduzir emissões, apoiando-se no caso Fukushima

[A notícia traduzida parcialmente a seguir foi publicada em sua íntegra ontem no jornal espanhol El PaísO que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

O Japão colocou ontem uma pedra a mais no difícil caminho traçado pelas Nações Unidas para alcançar um grande pacto global contra a mudança climática em 2015. O governo japonês anunciou que não reduzirá suas emissões em 25% para 2020, como havia prometido, mas ao contrário as aumentará em 3% em relação aos níveis de emissão em 1990, a data de referência estabelecida pelos países signatários do protocolo de Kioto para que as reduções sejam homologáveis. Por que o Japão abandonou esse compromisso? O acidente na usina nuclear de Fukushima [ver postagem anterior], provocado por um terremoto e um tsunami em 2011, obrigou o país a paralisar suas 50 usinas nucleares e a emissões dispararam. 

O Japão é o quinto entre os países que mais contaminam a atmosfera. A mudança na sua matriz energética fez com que sua geração com usinas nucleares passasse de 30% para apenas 0,7% no final de 2012. Para compensar essa redução, o país aumentou suas importações de petróleo, carvão e gás liquefeito, aumentando bastante sua carga de contaminação. O primeiro-ministro Shinzo Abe defende o retorno à energia nuclear, ainda que assegure que com o tempo se reduzirá a dependência do Japão desse tipo de energia. 

Em uma reunião como a 19ª Conferência de Cúpula do Clima da ONU em Varsóvia [ver aqui], em que mais de 190 países se reúnem sob a Convenção Marco das Nações Unidas para a Mudança Climática (UNFCCC, na sigla em inglês) para chegar a compromissos cada vez mais ambiciosos na luta contra as mudanças climáticas, o anúncio do Japão contribuiu para baixar as expectativas em um ambiente já um tanto desanimado. A reunião está tensa, porque se busca avançar em um pacto global a ser aprovado dentro de dois anos na Reunião do Clima 2015 em Paris. É muito ambicioso, mas necessário, lograr um acordo com os principais países emissores.

Com um consenso de 95%, os cientistas têm cada vez mais claro que o homem é o principal agente da mudança climática e advertiram que os efeitos das emissões -- subida do nível dos mares, acidificação dos mares e derretimento das geleiras -- se manterão durante séculos senão se tomarem medidas agora.

(...) As organizações conservacionistas foram as mais críticas em relação ao Japão. Prenunciaram que a atitude japonesa terá uma "repercussão negativa grave" nas negociações, que terão seu momento mais importante na semana que vem com a presença dos ministros dos países participantes. "Retirar-se da ação pelo clima é como dar uma bofetada na cara dos que sofrem os efeitos das mudanças climática, como os filipinos", declarou Wael Hmaidan, diretor da Rede de Ação pelo Clima, uma coalizão de organizações que  promove políticas contra as mudanças climáticas em mais de 100 países.

O Japão ganhou ontem [14/11] o Prêmio Fóssil, um prêmio de caráter negativo que as ONGs concedem diariamente, e que nesta semana foi agraciado por duas vezes à Austrália também por suas desanimadoras políticas climáticas. Seu primeiro-ministro, Tony Abbot, revogou uma lei que taxava as empresas por suas emissões de carbono e que estava em vigor havia apenas um ano, e rechaçou financiar os mecanismos de compensação por perdas e danos que agiriam como um paliativo de urgência para os efeitos das mudanças climáticas nos países em desenvolvimento.

Japão e Austrália pertencem a um grupo de negociação da Cúpula do Clima denominado de guarda-chuva, de natureza conservadora. As emissões da Austrália correspondem a 1,5% das emissões globais, mas o país tem uma das mais altas emissões per capita do planeta. Nesse mesmo grupo se encontram também os EUA e o Canadá, que aplaudiu alguns dos anúncios da Austrália.

Quem já passou por várias reuniões dessa natureza vê nesses anúncios uma estratégia para baixar as expectativas dos países mais exigentes, e assim lograr acordos mais modestos. Apesar de já se estar no meio da duração da reunião de Varsóvia, nem o presidente da cúpula -- o ministro polonês Martin Korelec -- nem a secretária executiva da UNFCCC Christiana Figueres nada adiantaram das negociações, que esta semana tiveram caráter técnico. Manifestaram seu apoio a que não se perca o espírito da reunião, e se siga buscando o consenso sobre todos os assuntos sobre a mesa. "Não estamos aqui para nos envergonharmos de políticas individuais, mas sim para buscar consensos", disse Korelec. 



domingo, 3 de novembro de 2013

O legado radioativo nos EUA

[Em sua edição de 31/10, o Wall Street Journal publicou uma reportagem de duas páginas -- de autoria de John R. Emshwiller e Jeremy Singer-Vine --  sobre a contaminação radioativa ainda existente em inúmeros locais dos EUA como resultado do programa nuclear americano. O texto só está disponível para quem é assinante ou, como eu, tem a edição impressa do jornal, e é o resultado de um ano de pesquisa de seus autores sobre o destino de centenas de locais de produção e pesquisa na área nuclear nos EUA durante o período da Guerra Fria.  Tentei condensá-lo na tradução abaixo. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

O cientista Glenn Seaborg descobriu o plutônio em um prédio da Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde resíduos radioativos permaneceram durante décadas. Autoridades federais dizem que adotaram medidas adequadas para proteção da saúde pública. - (Foto: Universidade da Califórnia, Berkeley, Lawrence Berkeley National Laboratory - Fonte: WSJ/Google).

Foi uma descoberta que contribuiu para o início da era nuclear. Na véspera da entrada dos EUA na Segunda Grande Guerra, cientistas isolaram plutônio em uma pequena sala do Pavilhão Gilman da Universidade da Califórnia em Berkeley. Para garantir que o momento não fosse esquecido, a sala 307 foi transformada em Marco Histórico Nacional. 

Como se viu depois, havia muito mais para lembrar o feito. A pesquisa deixou resíduos radioativos que forçaram a universidade a remover toda uma sala adjacente à 307 em 1957, de acordo com documentos da própria instituição. Um quarto de século depois, enquanto professores e alunos ainda usavam o prédio, a universidade descobriu que dezenas de outras salas e alguns corredores estavam contaminados. A escola descontaminou esses ambientes também -- até descobrir este ano pequenas quantidades de resíduo radioativo em uma sala de estudos.

Carolyn Mac Kenzie, a responsável por segurança radioativa da universidade, diz que qualquer grau de exposição atual está "bem abaixo" dos limites federais de segurança. Ainda assim, ela diz que antes da limpeza dos anos 1980 administradores e alunos da instituição podem ter respirado níveis prejudiciais de radioatividade. "Nunca saberemos", diz ela.

A contaminação em Berkeley é parte do legado de um dos mais importantes empreendimentos científicos e industriais na história dos EUA. Durante o processo de evolução da Guerra Fria, o governo federal recorreu ao setor privado para ajudá-lo a desenvolver e produzir armas nucleares e e outras formas de energia atômica. Centenas de empresas e milhares de operários inexperientes na área foram envolvidos. Mas, ao mesmo tempo em que isso ajudou a defender um país, esse esforço enorme deixou atrás de si um igualmente enorme -- mas raramente divulgado -- trabalho de descontaminação que envolve todo o país.

Existem resíduos provenientes de processamentos rotineiros e também do mau manuseio de materiais nucleares em quase trinta estados. Alguns permanecem em parques públicos, alguns próximos a escolas, e alguns em paredes, pisos e tetos de edifícios comerciais. Foi detetada contaminação em trilhas de caminhadas próximas de bairros residenciais, em lotes urbanos vazios e em água do subsolo.  As autoridades federais dizem que tomaram todas as medidas para proteção da saúde pública, e que esses locais não representam uma ameaça para ninguém que viva ou trabalhe em suas proximidades.  Embora algumas pesquisas tenham gerado preocupações, não há evidência conclusiva vinculando aqueles locais a quaisquer problemas de saúde pública. Em geral, estudos não apontaram a relação exata entre exposição a radiação de baixo nível e questões médicas tais como câncer.  

Mas, uma investigação pelo Wall Street Journal (WSJ) levantou outras questões sobre o expressivo programa estabelecido pelo governo para lidar com um dos processos de limpeza mais demorados e caros do país.  Entre as conclusões do jornal tem-se: - i) falta de documentação suficiente pelo governo sobre dezenas de cidades para decidir se uma limpeza é necessária ou não; - ii) o governo não tem os endereços de dezenas de  instalações, e reconhece que nem mesmo sabe em que estado havia a existência de instalação para tratamento de urânio; - iii) mais de 20 cidades inicialmente declaradas como seguras pelo governo federal solicitaram limpezas adicionais, em alguns casos mais de uma vez.

"O que temos aprendido do programa nuclear é que a gente fica surpreso quando não ocorrem surpresas", diz Roberto Alvarez, um ex-alto funcionário do Departamento de Energia durante o governo Clinton.

A variada e volumosa documentação examinada pelo WSJ e coletada pelo governo cobre mais de 500 locais.  Registros do governo mostram que uma grande maioria desses locais -- incluindo fábricas, centros de pesquisas e outras instalações -- lidou com material radioativo. Até agora, o governo considerou cerca de 130 locais preocupantes o suficiente para exigir uma limpeza e diz que concluiu o trabalho em 90 deles. Custo total projetado: US$ 350 bilhões. 

De acordo com a base de dados montada pelo WSJ, mais de 4  milhões de americanos vivem num raio de menos de 1 milha (1,6 km) de aproximadamente 300 locais que o jornal pôde identificar. Cerca de 1 milhão vive a menos de 1 km desse tipo de local. Cerca de 260 escolas públicas estão também a menos de 1 km de um local desse tipo, assim como 600 parques públicos.  Além disso, a maioria dos atuais donos ou ocupantes dessas instalações desconhecia o passado desses locais.

No local de um grupo de prédios do bloco 500 da Rua 20 Oeste em Manhattan (Nova Iorque), os registros do governo federal mostram que nos anos 1940 o Projeto Manhattan -- o esforço de pesquisa e desenvolvimento que gerou a primeira bomba atômica -- estocou cerca de 136 toneladas de produtos de urânio em instalações que funcionavam como armazéns na época.  Neste caso, os inspetores federais encontraram em 1989 níveis de contaminação radioativa até 38 vezes maiores do que os permitidos em partes das estruturas, de acordo com um relatório de 1995 do Departamento de Energia. Depois de uma limpeza rigorosa, o governo declarou os prédios liberados para "uso irrestrito".

A determinação dos riscos reais decorrentes de radiação está longe de ser uma ciência exata -- muito disso se baseia em estudos de longo prazo sobre a saúde dos sobreviventes da Segunda Grande Guerra no Japão [há também um sério e longo acompanhamento médico dos sobreviventes do desastre nuclear de Chernobil, na Ucrânia, em 26/4/1986, omitido pelos autores]. O conceito científico atual considera que mesmo a menor das doses de radiação adicional aumenta ligeiramente o risco de uma pessoa ter câncer, com o perigo aumentando com a dose. Geralmente, os níveis relativamente baixos de radiação nos locais nucleares mais antigos não são vistos como um perigo a curto prazo. Toda exposição ocorrerá no solo, no ar e na água do subsolo. Richard Muller, professor de física na Universidade da Califórnia, Berkeley, disse que os limites de exposição do governo estão "geralmente tão dentro da zona de segurança, que ninguém deveria preocupar-se com eles".

Os EUA entraram na era atômica nos anos 1940, com a decisão do governo de Franklin Roosevelt de avançar com o desenvolvimento de uma bomba nuclear pouco antes do ataque de Pearl Harbor. Pressionando por urgência, os americanos receavam que a Alemanha nazista estivesse já bem avançada no desenvolvimento de sua própria bomba. 

Há um local em Staten Island (Nova Iorque), agora sob consideração para sofrer uma limpeza, que foi depósito para mais de 1.000 toneladas métricas de minério de urânio extremamente radioativo originário do Congo Belga, que um executivo europeu exportou para os EUA em 1940 para mantê-lo longe dos nazistas. Um relatório federal de 2012 calculou que a exposição potencial a radiação em um canto relativamente remoto e sem uso do local de armazenamento pode ser de cerca de 10 vezes os padrões vigentes. 

Restos do Projeto Manhattan estão enterrados em duas clareiras nas terras de parques intensamente arborizados  no Condado de Cook, Illinois. Durante a Segunda Grande Guerra, o primeiro reator nuclear do mundo -- que entrou em operação na Universidade de Chicago -- foi removido para lá. Na década seguinte, um complexo de 35 prédios, incluindo um segundo reator, foi construído à volta dele. O local foi desmontado pelo governo nos anos 1950. Partes dos dois reatores foram enterradas em um buraco de 30 m de diâmetro e 12 m de profundidade, que foi depois coberto de terra e urbanizado segundo um documento do Departamento de Energia. Este "Local A" está a menos de meio quilômetro do "Local M", um lugar de cerca de meio hectare de área em que estão enterrados materiais contaminados constituídos de entulhos de prédios, equipamentos e vestuários. 

Ao longo dos anos, foi constatada a presença de trítio radioativo em águas do subsolo, inclusive em lugar de piqueniques nas vizinhanças. Autoridades que monitoraram essa ocorrência disseram que o trítio não representava perigo para a saúde. Em 1990, operários estaduais encontraram restos de material contaminados com urânio, incluindo peças metálicas, restos de concreto, pontas de canos  enterrados e níveis elevados de radiação no "Local A", o que deflagrou uma operação de limpeza pelo governo. A erosão provocada por ciclistas circulando sobre o "Local M" permanece sendo um tema de preocupação, segundo um relatório de 2012 do Departamento deEnergia.

O caráter de urgência e confidencialidade do Projeto Manhattan -- executado durante o confronto da Guerra Fria contra a União Soviética -- "fez com que fosse possível não levar em conta reclamações que as indústrias enfrentariam, relativas  a questões de poluição e saúde", disse John Applegate, um professor de legislação ambiental na Universidade de Indiana que atuou num comitê de assessoria sobre descontaminação no governo Clinton. 
Nos anos 1980, um clamor público começou a surgir com relação às tais questões de poluição e saúde e um ponto crucial para isso surgiu na pequena cidade de Fernald em Ohio, onde um grande complexo federal processava urânio para uso em armas. Reclamações de operários sobre condições inseguras na fábrica,  associadas com contaminação radioativa em poços de água potável vizinhos atraíram a atenção do país. 

Joseph Fitgzgerald, um ex-funcionário sênior do Departamento de Energia, percorreu Fernald em 1985.  "Toda a fábrica estava contaminada. Havia montes de urânio sobre o solo", ele se lembra. No final, Fernald passou por uma limpeza de US$ 4,4 bilhões provocada em parte pela entusiasmada intervenção do então senador John Glenn, que se tornou um declarado defensor da eliminação da contaminação de armas em todo o país. Em uma entrevista recente, o ex-senador disse ter chegado à conclusão de que Fernald havia sido "apenas a ponta do iceberg".  Hoje, mesmo os críticos da energia nuclear dizem que Fernald está entre os mais bem sucedidos casos de descontaminação no país.

Em 1989, o Departamento de Energia concordou em pagar mais US$ 70 milhões para por fim a uma ação judicial impetrada por residentes próximos da fábrica, que alegaram que as instalações lhes haviam causado estresse emocional e reduzido o valor de suas propriedades.  O departamento não reconheceu nenhuma prova ou evidência de efeitos nocivos, mas o acordo de fato proveu recursos para um monitoramento de longo prazo por pesquisadores da Universidade de Cincinnatti e por um centro médico local. No ano passado, esses monitores relataram "uma taxa mais alta que a média" de casos de lúpus entre os moradores que viviam próximo à antiga fábrica e disseram que era necessário investigar mais o caso. 

O trabalho relacionado com armamento no Pavilhão Gilman da Universidade de Berkeley gerou problemas de contaminação desde seu início, de acordo com documentos obtidos através de legislação sobre acesso público a informações. Um relatório universitário de 1957 informa que a contaminação na sala 309, vizinha à 307 onde o plutônio foi descoberto, era tão forte que "tetos, paredes, piso e bancadas de laboratórios foram cortados em pequenos pedaços e selados com tambores de fibra de madeira" por operários que usavam "roupas de proteção completas, incluindo máscaras de respiração".  Mais de 17 m³ de material foram descartados como "lixo radioativo".

Investigações posteriores encontraram mais contaminação "num total de  12 salas ao longo de todos os andares do prédio e em corredores", de acordo com um relatório de 1983. Outro relatório dizia que o prédio tinha 40 áreas de contaminação. A universidade cobriu a área contaminada de diversas maneiras, inclusive com ladrilhos, o que "reduziu a taxa de contaminação para valores abaixo dos limites de detecção", afirmou o relatório universitário de 1983, acrescentando que as autoridades  acreditavam que os ocupantes das instalações não tivessem sido afetadas por exposições anteriores.  Um relatório de 1991 acrescentou que "não é viável remover toda a contaminação, a menos que todos os equipamentos e mobiliários sejam removidos e a parte interna do prédio seja destruída".

Ainda assim, problemas aparecem. Ao colocar um novo telhado no Pavilhão Gilman este ano, funcionários descobriram alguma contaminação em uma sala de estudos no terceiro andar. Eles retiraram temporariamente dali três alunos de graduação de química nuclear e lacraram parte da sala, antes de reabrir o resto. Embora as doses de contaminação potenciais fossem pequenas, disse Carolyn Mac Kenzie, "você simplesmente não expõe pessoas desnecessariamente".

Locais relacionados a atividade nuclear nos EUA, identificados por estados, segundo análise do WSJ a partir de registros do Departamento de Energia e do Instituto Nacional para a Saúde e a Segurança Ocupacionais. - (Ilustração: WSJ). 




sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A China é muito mais do que podemos enxergar

Três manchetes sobre a China em alguns dos principais jornais mundiais -- no caso, o Financial Times, o Wall Street Journal e o International New York Times -- chamaram minha atenção ontem, quinta-feira. Duas delas eram de conteúdo tecnológico, e a outra sobre poluição ambiental. 

Das tecnológicas, a mais surpreendente e emblemática para mim -- e acredito que para muita gente -- foi a de que a China fornecerá componentes para reatores de usinas nucleares americanas que estão em fase de construção (três reatores na Geórgia e um na Carolina do Sul). Estas usinas são as primeiras a serem construídas nos EUA após o acidente com a usina de Three Mile Island em 28 de março de 1979. A expressiva expansão chinesa na geração elétrica de origem nuclear -- que no seu auge chegou a ver a construção de um novo reator a cada poucos meses -- demonstrou que o país possui uma cadeia produtiva capaz de suprir projetos internacionais. 

Os reatores novos americanos utilizam a tecnologia do projeto AP1000 da Westinghouse, a mesma usada em quatro reatores em construção na China, o que permite economia de escala no fornecimento de componentes. A Westinghouse, hoje propriedade da Toshiba, transferiu a tecnologia do AP1000 para a State Nuclear Power Technology Co (SNPTC) da China em 2006. [Pergunta inocente: como é mesmo a história por trás da construção de Angra I, II e III?].

A possibilidade de que a China seja supridora de peças e componentes para as usinas nucleares americanas seria parte de um acordo bilateral de cooperação entre os dois países segundo Ernest Moniz, o secretário de Energia dos EUA. "Trata-se fundamentalmente da mesma tecnologia de terceira geração que está sendo  aplicada às quatro usinas em construção na China e às quatro em construção nos EUA", disse ele em Pequim na quarta-feira. Moniz disse ainda que essa cooperação poderia resultar em um consórcio entre a Westinghouse, a SNPTC e China National Nuclear Corp para participar da concorrência de um reator no Reino Unido.

Moniz estava na China para participar do início da construção do Centro de Excelência em Segurança Nuclear, um projeto bilateral destinado a ajudar a treinar técnicos chineses em segurança operacional -- a rápida expansão nuclear chinesa deixou o país carente de equipes experientes em operação de usinas desse gênero.  

As peças e componentes a serem fornecidos pelos chineses ainda não foram identificados e especificados em detalhes, mas poderiam incluir recipientes de pressão, geradores de vapor e tubulações para refrigeração dos reatores.  

A segunda notícia tecnológica envolvendo os chineses informava que a fabricante chinesa BYD havia ganho a concorrência para o fornecimento de ônibus elétricos para o sistema de transporte público de Los Angeles e Long Beach.  A BYD montou uma empresa de US$ 30 bi que venceu seus concorrentes americanos na referida concorrência, e será a primeira empresa chinesa a construir veículos nos EUA.

Se nos lembrarmos de que em novembro de 2012 a gigante estatal chinesa State Grid entrou firme no setor energético brasileiro e de que o consórcio ganhador do leilão de Libra contou com a participação de duas estatais chinesas (a CNPC e a Cnooc), veremos que enquanto ficamos discutindo sexo de anjo e aplaudindo Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saias) brincar de presidente  os chineses estão fazendo direitinho seu dever de casa e comendo nosso mingau pelas beiradas. Fico imaginando se um dia pintar um problema com qualquer dessas estatais amarelas, quem é que vai peitar o governo chinês ...

A terceira notícia sobre a China referia-se à enorme poluição atmosférica reinante no país, que já chegou ao ponto de reduzir à metade o número de turistas em Pequim.  As fotos abaixo dão uma pequena amostra da dimensão do problema ambiental chinês.

Poluição sobre a China, fotografada por satélite da Nasa [clique na imagem para ampliá-la e ver a posição de Pequim (Beijing)]. 

Poluição no dia 21 de outubro na cidade de Harbi, no nordeste da China - (Foto: Reuters).

Turista com máscara na entrada da Praça da Paz Celestial em Pequim em dia de poluição em Pequim - (Foto: Associated Press).


Uma ciclista em Pequim.









quarta-feira, 31 de julho de 2013

O aquecimento global continua nos mandando avisos, também no setor energético

[Para quem as próximas gerações passarão a fatura do descaso com o aquecimento global? Vejam a reportagem de ontem no caderno "Amanhã", do Globo. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Matriz de energia em pane

Manuela Andreoni -- O Globo, 30/7/2013

Há quem trate o aquecimento global como uma possibilidade longínqua, mas, nos Estados Unidos, o governo já vê consequências bem práticas do problema. Relatório publicado este mês pelo Departamento de Energia americano mostra que diversas usinas termelétricas, solares, hidrelétricas e nucleares, além de refinarias, linhas de transmissão e gasodutos já sofreram as consequências das mudanças globais. Os motivos são claros: aumento de temperatura, diminuição na disponibilidade de água e condições climáticas extremas, com tempestades, aumento do nível do mar e enchentes.

Chamado "Vulnerabilidades do setor elétrico a mudanças climáticas", o relatório dá vários exemplos dos desafios a serem enfrentados pelos EUA — e pelo mundo — para encontrar a matriz energética adequada para o futuro. Em 2010, por exemplo, a bacia do Rio Columbia, no estado de Washington, assistiu a uma diminuição significativa de seu nível de água, o que prejudicou a geração da usina hidroelétrica local. O resultado: uma perda de US$ 164 milhões em um ano.

Do outro lado do país, em Connecticut, a usina nuclear Millstone precisou desligar um reator por duas semanas porque a temperatura da água usada para resfriar o reator estava alta demais. A perda foi de 255 megawatts hora, ou milhões de dólares.

Segundo aponta o relatório, durante o século XX, os Estados Unidos viram um aumento de [cerca de] 0,8° C em sua temperatura. Julho de 2012 foi o mês mais quente do país desde o início da série histórica, em 1895.

Uma das maiores preocupações do departamento é a escassez de água, muito usada em diversos tipos de usina. As únicas fontes de energia que praticamente não usam o recurso são as eólicas e as fotovoltaicas modernas. As hidroelétricas são, obviamente, as mais afetadas. Outra preocupação é o grande número de usinas localizadas no litoral, o que as torna vulneráveis ao aumento do nível do mar e grandes tempestades.

Alarmante também é o fato de que, com temperaturas cada vez mais extremas, a demanda por energia crescerá, com o uso intenso de ar condicionado.

Mas há luz no fim do túnel. Um estudo citado pelo relatório americano mostrou que, se os Estados Unidos conseguissem que 80% de sua matriz dependesse de fontes de energia renovável (com cerca de metade vindo de solares e eólicas), o consumo de água no setor energético cairia 50%.
 
 Usinas de energia como a de Tucuruí, no Pará, são vulneráveis a flutuações climáticas - (Foto: Fabio Rossi /Fonte: O Globo).


[O relatório do Departamento de Energia americano citado acima informa ainda que:
  • além de ter o mês mais quente do ano desde 1895, o ano de 2012 foi também o mais quente registrado nos EUA desde aquela data;
  • 60% do atual parque de térmicas a carvão dos EUA estão localizados em áreas sob estresse hídrico;
  • aumentam os riscos para infraestruturas energéticas ao longo das costas em decorrência de aumento do nível do mar, aumento de intensidade das tempestades, e surtos mais altos de tempestades e enchentes -- o que afeta potencialmente a produção, refino e distribuição de petróleo, a produção e distribuição de gás, assim como a produção e distribuição de energia elétrica;
  • risco aumentado de interrupção e retardo da distribuição de combustível por ferrovias e barcaças durante períodos mais frequentes de secas e enchentes, que afetam níveis de água em rios e portos;
  • elevação dos custos de ar-condicionado e dos riscos de blecautes totais ou parciais (abre o olho Dona Dilma!!) em algumas regiões, se a capacidade das usinas elétricas existentes não acompanhar a taxa de crescimento da demanda de pico, devido a temperaturas e ondas de calor crescentes. Um estudo do Laboratório Nacional de Argonne concluiu que um pico de demanda elétrica mais elevado em decorrência de aumentos de temperaturas relacionados com mudança climática exigirá um adicional de 34 GW de geração nova, por volta de 2050, apenas no oeste dos EUA, a um custo de US$ 45 bilhões para os consumidores. Isso equivale  aproximadamente a mais de 100 usinas elétricas novas, e não inclui as usinas novas que serão necessárias para acomodar o crescimento populacional e outros fatores.
  • Além de identificar as áreas críticas sob risco por causa de mudanças climáticas e condições climáticas extremas, o relatório explicita também as atividades já em andamento para enfrentar esses desafios e discute oportunidades potenciais para dotar o setor energético de uma capacidade maior de resistência e recuperação. Potencialidades futuras para os governos federal, estaduais e locais poderiam incluir políticas inovadoras que ampliassem o conjunto de tecnologias energéticas disponíveis para resistência e recuperação do ponto de vista climático, estimular sua utilização e distribuição, e aprimorar a coleta de dados e os modelos disponíveis para assim melhorar o nível de informação de pesquisadores e legisladores sobre as vulnerabilidades do setor energético e as oportunidades de resposta a isso. Isso melhoraria também o engajamento de acionistas e interessados do setor. Essas atividades aumentarão a capacidade de resistência e recuperação da infraestrutura energética americana pelo "endurecimento" das instalações e estruturas existentes, para que suportem melhor severas condições de secas, enchentes, tempestades ou incêndios florestais, e contribuirão para o desenvolvimento mais sofisticado de novas instalações.
O site do Departamento de Energia dos EUA indicado acima permite o acesso à integra do relatório ora resumido.]