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terça-feira, 18 de outubro de 2016

Judeus chineses sofrem repressão religiosa

[Nunca imaginei a existência de judeus chineses nativos. Traduzo a seguir reportagem de Chris Buckley no The International New York Times sobre a pressão religiosa do regime chinês sobre a população judia chinesa. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Pessoas jogando mah-jonng em uma ala do que era o bairro judeu de Kaifeng, China, perto do local da velha sinagoga - (Foto: Adam Dean para o The New York Times)

Os aposentos em que chinesas e chineses corados se reuniam antigamente para rezar em hebraico e mandarim estão silenciosos. Sinais e exposições que celebravam séculos de vida judaica desapareceram. Um velho poço, suposto ser o único resto visível de uma sinagoga demolida há muito tempo, foi recentemente enterrado sob concreto e um monte de terra.

Após fechar mosteiros budistas no Tibet e demolir cruzes de igrejas no leste da China, a campanha do presidente Ji Jinping contra religiões não aprovadas e contra influência estrangeira voltou-se contra um adversário improvável: um pequeno grupo de judeus cujos ancestrais se estabeleceram nessa agora desbotada cidade imperial, próximo às margens do Rio Amarelo, há mais de mil anos atrás.

Algumas centenas de moradores organizaram um vivo, algumas vezes contencioso, renascimento da herança judaica de Kafeng em décadas recentes, com aulas, serviços e propostas para reconstruir a sinagoga como um museu. Alguns deles chegaram a emigrar para Israel. Durante anos, o governo da cidade tolerou suas atividades, vendo o laço judeu como um ímã para turismo e investimentos.

Mas desde o ano passado, as autoridades chinesas voltaram a puní-los severamente num processo de revisionismo, em um exemplo de como até mesmo os menores grupos espirituais podem cair sob a manta de suspeita ou desconfiança do Partido Comunista. O governo fechou organizações que ajudaram a estimular e promover a redescoberta judaica, proibiu residentes de se reunirem para a Páscoa judaica e outros feriados santos, e removeu de locais públicos sinais e relíquias do passado judeu da  cidade.

"A política toda agora é muito rigorosa", disse Guo Yan, 35 anos, uma guia turística que defende uma linha de judaísmo caracteristicamente chinesa e administra um pequeno museu em um apartamento repleto de fotos da parte judia de Kaifeng. "A China é sensível a atividades e interferência estrangeiras". 

Apenas cerca de 1.000 pessoas alegam descendência judaica nessa cidade -- uma gota d'água no oceano chinês de 1,35 bilhão de pessoas ou dos 4,5 milhões da população de Kaifeng -- e apenas 100 ou 200 delas têm sido ativas em atividades judaicas religiosas e culturais, segundo especialistas.  

Ninguém fora do governo parece saber ao certo porque esse minúsculo bando de crentes passou a ser visto como uma ameaça. Mas as autoridades parecem ter ficado alarmadas com sua crescente proeminência em algum momento do ano passado, quando o governo de Xi determinou que grupos religiosos e organizações estrangeiras se submetessem a controles mais rígidos. O judaísmo não é uma das cinco religiões licenciadas na China: Budismo, Catolicismo, Islamismo, Protestantismo e Taoismo.

"Xi disse que religião é um tema importante, e quando ele fala há consequências", disse um atarracado comerciante local que apoiou o renascimento judaico e que, como outros aqui, pediu para não ser identificado temendo retaliação das autoridades. "Eles não nos entendem e receiam que estejamos sendo usados".

Ele e muitos dos judeus de Kaifeng, assim como aqueles que os apoiam do exterior, disseram que a repressão não foi provocada por um antissemitismo aberto e total, que é relativamente raro na China. Shanghai e Harbin, uma cidade do nordeste da China, organizaram mostruários e eventos em celebração ao seu papel de proteção aos judeus que fugiram da perseguição na Europa. 

"É medo de religião, não de nós judeus", disse o comerciante. [Por que não, então, a mesma atitude contra o catolicismo, por exemplo?]

Até há poucas décadas atrás os judeus de Kaifeng pareciam destinados a desaparecer, uma memória obscura da interseção de duas civilizações antigas. 

Seus ancestrais, possivelmente comerciantes da Pérsia, estabeleceram-se em Kaifeng quando esta era a vibrante capital da dinastia Song do Norte e aí construíram uma sinagoga no século 12. Por centenas de anos eles prosperaram fortemente, livres de perseguição, sobrevivendo às ascensões e quedas de sucessivas dinastias.

Guo Yan em seu museu particular perto do local da antiga sinagoga e do bairro judeu em Kaifeng. "A China é sensível a atividades e interferências estrangeiras", disse ela - (Foto: Adam Dean para o The New York Times)

Mas seu número encolheu quando se casaram com descendentes da etnia Han, majoritária na China. A sinagoga  ruiu. Por volta de 1851, quando missionários europeus adquiriram um Torá hebraico do século 17 em Kaifeng e mais tarde doaram-no ao Museu Britânico, poucos, se algum, podia lê-lo.

Ainda assim, mesmo após décadas de domínio comunista, algum resíduo de identidade judaica sobreviveu em Kaifeng. Pais e avós falaram às crianças de suas raízes e os alertaram sobre não comer carne de porco.

O ressurgimento aqui teve início nos anos 1990 quando turistas, acadêmicos e empresários judeus do mundo todo, curiosos sobre esse remoto posto avançado do judaísmo, começaram a visitá-lo e a compartilhar seus conhecimentos. Vários anos atrás, duas organizações -- o Instituto Sino-Judaico e a Shavei Israel [uma organização judaica sediada em Israel que quer alcançar descendentes e supostos descendentes de judeus à volta do Mundo e tem por meta fortalecer a ligação deles com Israel e o povo judeu] -- montaram escritórios em Kaifeng e passaram a oferecer aulas de hebraico, judaísmo e história judaica, em parte para se contrapor a missionários cristãos que atuavam na cidade. 

"Começamos com nossa velha geração, que não tinha bases/fundamentos", disse Guo. "Mas aí chegaram todos esses grupos de judeus e trouxeram ideias e valores diferentes". 

As autoridades eram ambivalentes, na esperança de que interesse vindo do exterior poderia ajudar no desenvolvimento econômico de Kaifeng -- um charmoso, entretanto dilapidado fim de mundo estagnado no meio do crescimento frenético da China -- mas também cauteloso em relação a estrangeiros e ao judaísmo, uma religião pouco compreendida por ali. 

"Toda vez que parecia que o grupo cruzaria a linha da publicidade, surgia sempre uma reação contra os judeus chineses", disse Moshe Yehuda Bernstein, um pesquisador em Perth, Austrália, que escreveu em um livro prestes a ser publicado: "A ideia era: deixaremos vocês atuarem, mas não deixem que ninguém saiba disso".

Turistas frente a uma casa, no Millenium City Park, que apresentava uma exposição sobre a história judaica em Kaifeng. A exposição foi fechada durante a recente repressão - (Foto: Adam Dean para o The New York Times)

Mas a repressão atual tem ido muito mais longe que as anteriores, segundo moradores locais. Alguns culpam uma reportagem do The New York Times no ano passado, na qual uma autoridade da cidade, participando de um banquete da Páscoa judaica, falou de maneira simpática sobre o ressurgimento [judaico], aparentemente violando diretrizes governamentais. Outros mencionaram relatos à boca miúda de que uma judia de Kaifeng havia conseguido asilo nos Estados Unidos, alegando perseguição religiosa.

"Os judeus de Kaifeng se encontram novamente numa espécie de clima de ressurgimento", disse Anson Laytner, um rabino aposentado em Seattle e ex-presidente do Instituto Sino-Judaico que trabalhou com judeus em Kaifeng e atraiu atenção para a repressão.

O Instituto retirou-se de Kaifeng no ano passado, depois que seu trabalhador comunitário ali, Barnaby Yeh, passou a ser investigado pela polícia. "Acho que foram atitudes de um governo paranóico", disse Yeh, um americano de origem taiwanesa que se converteu ao judaísmo e hoje vive em Maryland.

Shavei Israel, que tem ajudado judeus de Kaifeng a visitarem e a se instalarem em Israel, foi forçada pela polícia a fechar seu centro comunitário na cidade em 2014. Moradores tentaram manter o centro operando em um apartamento alugado, que este ano recebeu ordens para ser fechado, disse um dos moradores.

Até sinais da presença histórica dos judeus foram eliminados. Uma pedra com inscrição, marcando o local da velha sinagoga, foi retirada da frente de um hospital que hoje ocupa o terreno e operários aterraram o velho poço nos fundos do hospital. Dois empregados do hospital disseram que as alterações foram ordenadas por duas autoridades da cidade.

"Tudo isso diz que não há judeus aqui", disse um judeu enquanto olhava nervosamente à volta durante uma entrevista numa casa de chá.

O local de construção de uma casa no que era o bairro judeu, próximo do local da há muito demolida sinagoga de Kaifeng - (Foto: Adam Dean para o The New York Times)

Ele era um dos vários moradores judeus com quem estive em Kaifeng que disse que todos queriam garantir ao governo que eram patriotas cumpridores da  lei. Mas, moradores também disseram que tinham medo de falar publicamente, até para declarar seu patriotismo. 

"Por favor lembrem-se, não nos façam parecer políticos. Queremos apenas ser reconhecidos como judeus", disse o morador.

Judeus podem ainda reunir-se em pequenos grupos em suas casas para rezar, e não tem havido prisões, disseram os moradores. Mas muitos deles disseram que agentes da polícia ou da segurança do Estado os estavam monitorando.

"Anteriormente, o governo chinês estava muito tranquilo, mas agora estamos sob um volume maior de restrições", disse You Yong, um membro de um dos oito clãs historicamente judeus da cidade, que agora cumpre em casa o Shabbat, o dia de descanso dos judeus.

O escritório local do partido Departamento do Fronte Unido, que administra assuntos étnicos e religiosos, transferiu para o serviço de segurança estatal da cidade as perguntas que recebeu. Funcionários desse serviço declinaram de fazer comentários.

De acordo com a legislação israelense, descendentes de judeus em Kaifeng não se qualificam automaticamente como judeus porque sua ancestralidade foi tão diluída. Mas Michael Freund, presidente e fundador da Shavei Israel, disse que o governo israelense deveria aprimorar seu relacionamento com as autoridades chinesas. 

"Isso precisa ser feito respeitosa e delicadamente, mas precisa ser feito", disse ele.

Um porta-voz da embaixada israelense em Pequim, Efrat Perri, disse que a embaixada "recentemente tomou ciência dos mencionados acontecimentos em Kaifeng" e "faria uma investigação visando a conhecer melhor os fatos".

As famílias de judeus que conheci em Kaifen pareciam determinadas a preservar sua identidade recuperada. Algumas decoraram suas casas com castiçais tradicionais para o Shabbat, fotos de avós em branco e preto, granuladas, desenhos da sinagoga destruída de Kaifen e mapas de Israel.

Numa sexta à noitinha, dois casais me convidaram para juntar-me a eles nos serviços do Shabbat, para os quais haviam estado estudando uma leitura do Torá.

"Você não me reconhece como um judeu", disse o anfitrião, "mas eu me reconheço como um judeu e é isto que é o mais importante". 

Ele partiu o pão com suas mãos fortes, e depois de beber cerimoniosamente um vinho feito em casa seus convidados compartilharam goles de baijiu, um licor chinês forte.

"Judaísmo", disse o anfitrião, "é essencialmente resistir".

[A origem dos judeus de Kaifeng e a época em que se estabeleceram na China são ainda matéria de controvérsia. Muitos acadêmicos consideram que uma comunidade judia existia ali desde a dinastia Song do Norte (960-1127), embora outros recuem essa data para a dinastia Tang (618-907) ou ainda antes. Kaifeng, então capital da  dinastia Song do Norte, era uma cidade cosmopolita em um ramal da Rota da Seda. Supõe-se que uma pequena comunidade judaica, mais provavelmente oriunda da Pérsia ou da Índia, chegou por terra ou por mar e ali se estabeleceu, construindo uma sinagoga em 1163.


Judeus de Kaifeng, final do século 19 ou início do século 20 - (Foto: Google)

Durante a dinastia Ming (1368-1644), um de seus imperadores conferiu oito sobrenomes aos judeus, pelos quais são conhecidos hoje: Ai, Shi, Gao, Gan, Jin, Li, Zhang e Zhao. Por volta do início do século 20 um desses clãs de Kaifeng, o clã Zhang, havia  em grande parte se convertido  ao islamismo.


As línguas faladas pelos judeus de Kaifeng são o mandarim, algum hebraico (moderno) e uma mescla de hebraico e persa (histórico).


Segundo o site Biblioteca Virtual Judaica, a China tem uma longa e documentada história judaica, que remonta pelo menos até o século 8. Muitos judeus migraram para a China, buscando refúgio da Europa nazista. Hoje, há cerca de 2.500 judeus na China.


A dinastia Song do Norte (960-1127)


Por centenas de anos, a Rota da Seda serviu de elo entre o Leste e o Oeste. Antes  do aperfeiçoamento das técnicas de navegação marítima, era a principal rota de comércio entre a China e seus vizinhos  do leste. Diferentes ramificações da Rota da Seda levaram bens e pessoas da China para a Índia, a Pérsia, a Arábia e para a costa mediterrânea, e  daí se conectavam para a Europa e a África.


Durante a época da Rota da Seda, muitos judeus se envolveram em comércio internacional. De  muitas maneiras, eram distinta e particularmente qualificados para a profissão. Havia expressivas comunidades judias na Índia, na Pérsia, em nações árabes e através da Europa; em quase todas essas comunidades, um bom número de judeus já eram comerciantes. Enquanto a maioria de árabes e persas não sabiam falar russo, grego ou italiano, judeus na Pérsia, Arábia e Europa sabiam todos hebraico o suficiente para se comunicarem uns com os outros. Assim, judeus persas e do Oriente Médio tinham muito mais facilidade de comerciar com os judeus da Europa do que os muçulmanos árabes em relação  aos cristãos europeus. Quando as tensões entre cristãos e muçulmanos aumentaram por volta da época das Cruzadas, muitos deles se recusaram ou foram proibidos de terem relações comerciais entre si, enquanto judeus no mundo todo não tinham problemas para vender bens a seus parentes (homens). Xiitas persas e sunitas árabes muçulmanos se guerreavam algumas vezes, ou com indianos hindus ou com cristãos europeus, entretanto a comunidade judia permaneceu unida e manteve o comércio entre países.


Como havia um número desproporcionalmente elevado de judeus na profissão do comércio, não seria surpreendente que alguns desse judeus se envolvessem no comércio com a China. Até o século passado, havia uma população judia significativa na Pérsia, e como os judeus persas faziam negócios com o Oeste não há razão para pensar que não comercializassem também com o Leste. Embora não haja evidências da existência de uma comunidade judaica na China antes da dinastia Song, alguns historiadores ainda defendem que a comunidade judaica de Kaifeng foi fundada em 200 EC (era Comum) ou antes [Era Comum = Anno Domini (ano do Senhor) -- abreviação introduzida por acadêmicos judeus em meados do século 19].


A maior parte das evidências respalda a tese de que um número significativo de judeus, centenas ou talvez milhares, migraram da Pérsia para Kaifeng em algum momento durante a dinastia Song do Norte (960-1127). Alguns historiadores acreditam que os judeus de Kaifeng se originaram de Bukhara, uma cidade do Uzbequistão que foi uma época parte da Pérsia. Uma inscrição de 1489 afirma que 70 famílias foram para Kaifeng, embora não esteja claro se isso significava 70 clãs (sobrenomes) ou 70 famílias (unidades domésticas).


Ninguém pode dizer com segurança porque ocorreu essa migração em massa; talvez houvesse fome, seca, ou outro desastre natural, ou talvez autoridades persas locais fossem hostis aos judeus. É possível também que esses judeus tivessem sido atraídos a Kaifeng por relatos sobre a beleza e o conforto da cidade. Pode-se apenas especular por que um tal significativo grupo de judeus sairia da Pérsia, um país  em que viveram desde o Exílio Babilônico em 586 aC, para aventurar-se na  distante e desconhecida Kaifeng, na China.


Enquanto uma nuvem de mistério permanece sobre a longa e penosa jornada dos judeus  e seus primeiros anos na China, a história da cidade para a qual viajaram, Kaifeng, é bem conhecida. Os imigrantes judeus nela entraram durante os dias mais gloriosos da cidade, entre 960 e 1127, quando ela era a capital da dinastia Song e acredita-se que fosse então a cidade mais populosa do mundo. 


Todas as evidências parecem indicar que a comunidade judaica de Kaifeng desfrutou de suas primeiras décadas na cidade, como está dito em um pilar no local de sua sinagoga: que o imperador Song os convidou a ficar em Kaifeng e praticar sua religião livremente. Os judeus continuaram dando nomes hebreus a seus filhos em suas primeiras oito ou nove gerações na China, ainda que imersos eles mesmos na sociedade e na cultura chinesas. Talvez não haja dois grupos culturais que reverenciem mais o conhecimento do que os judeus e os chineses, e esse laço comum talvez tenha feito os judeus se sentirem em casa. 


Enquanto alguns judeus continuassem a ser comerciantes, uma profissão lucrativa mas menos respeitada, os mais talentosos se tornaram acadêmicos quer em cultura judaica, quer em cultura  chinesa. Os estudiosos do judaísmo tornaram-se líderes judeus, enquanto um grande número de judeus estudou para ser aprovado nos prestigiados exames para serviços civis na China, nos quais os judeus foram aprovados de maneira desproporcional [opinião minha (Vasco): espero que o autor do texto não esteja deixando se levar pelo excesso de ufanismo  patriótico].


Enquanto o mencionado pilar diz que a comunidade judaica chegou durante a dinastia Song, ele não cita o ano em que isso se deu nem o imperador reinante na época. A cidade de Kaifeng foi saqueada e destruída em 1127 por invasores da dinastia Jurchen Jin, que conquistaram a maior parte do norte da China e forçaram os remanescentes da dinastia Song a fugirem para o sul, onde um novo imperador Song passou a governar o sul da China a partir de Hangzhou. 


Quando os Jurchens estabeleceram a dinastia Jin no norte da China, Kaifeng foi dizimada e mais da metade da população morreu ou deixou a cidade. Uma inscrição num pilar fora da sinagoga infere que um número significativo de judeus fugiu com a família imperial para Hangzhou, a nova capital imperial da dinastia Song. Esse desastre leva muitos historiadores a especular que os judeus mudaram-se para Kaifeng pelo menos 40 anos antes do caos de 1127, argumentando que os judeus teriam todos deixado a cidade se não tivessem várias boas décadas nela. Da mesma maneira, já que Kaifeng deve ter sido uma cidade grande e atraente antes que os judeus para lá migrassem, historiadores consideram que a grande comunidade judaica mudou-se para lá em algum momento do século 11.


(...)


A prática do judaísmo em Kaifeng (960-1850)


Como na maioria das comunidades judaicas da Diáspora, a prática da religião judaica em Kaifeng adotou alguns aspectos similares às práticas dos chineses nativos. Isto não quer dizer que os judeus de Kaifeng alteraram fundamentalmente sua religião; a verdade é quase o oposto, já que a religião judaica manteve sua integridade e seus aspectos monoteístas característicos durante séculos. Seria mais preciso dizer que os judeus na China naturalmente focaram nos valores de sua própria religião que eram compatíveis com o estilo confuciano de vida. O judaísmo é em muitos modos práticos uma religião muito flexível, tendo-se em conta que se adaptou ao seu entorno enquanto mantinha intactos o cerne de seus princípios teológicos, seus valores morais e sua identidade religiosa. Essa adaptabilidade permitiu ao judaísmo sobreviver fora de Israel, e deu aos judeus a capacidade de florescer em quase qualquer cultura para a qual sejam transplantados. 


Os judeus americanos, por  exemplo, dão presentes aos seus filhos no Hanukkah [ou Chanucá, é uma festa judaica, também conhecido como o Festival das luzes. "Chanucá" é uma palavra hebraica que significa "dedicação" ou "inauguração". A primeira noite de Chanucá começa após o pôr-do-sol do 24º dia do mês judaico de Kislev e a festa é comemorada por oito dias. Uma vez que na tradição judaica o dia do calendário começa no pôr-do-sol, o Chanucá começa no 25º dia desse mês.] porque viram nisso uma contrapartida cultural à prática dos cristãos americanos de dar  presentes no Natal. Judeus não americanos jamais pensariam em dar presentes em dezembro, já que não há razão para isso, entretanto os judeus americanos começaram essa prática para se ajustarem ao seu entorno. Analogamente, embora a poligamia seja permitida na religião judaica, o rabino Gershom ben Judah emitiu uma determinação rabínica 1.000  anos atrás proibindo todos os judeus europeus de praticarem a poligamia. Ele fez isso não porque o judaísmo proibisse a poligamia, mas antes de  tudo para permitir que os judeus melhor se ajustassem aos seus vizinhos. Até esta data, não há lei judaica que proíba os homens judeus não-Ashkenazi de terem várias mulheres.


É necessário ver a comunidade judaica de Kaifeng através desse contexto, para entender melhor que efeito teve a cultura chinesa sobre sua religião. Na verdade, os judeus de Kaifeng se mantiveram notavelmente fieis à sua religião durante um incrível espaço de tempo, considerando-se seu pequeno número e seu quase isolamento. Os judeus continuaram dando nomes hebreus a seus filhos em suas primeiras oito ou nove gerações na China, antes de adotar apenas nomes chineses. Em contraste, muitos americanos não têm nomes judeus, e muitos alteraram seus sobrenomes após entrarem nos EUA.


Por muitas gerações, a maioria dos judeus de Kaifeng faziam com que seus filhos aprendessem hebraico na sinagoga da cidade. A sinagoga de Kaifeng foi construída em 1163, e foi reconstruída, renovada ou ampliada pelo menos uma dezena de vezes ao longo dos 700 anos seguintes pelas gerações de judeus que a utilizavam. Ainda que o edifício fosse de arquitetura chinesa, a sinagoga judaica diferia de todos os outros locais de culto chineses porque não possuía ídolos ou pinturas em seu interior. Durante sua estada em Kaifeng, os judeus adotaram muitos elementos da cultura chinesa, no entanto continuaram seguidores de sua própria fé. De maneira interessante, os judeus se acomodaram de fato, entretanto, a prática chinesa do culto a ancestrais. Talvez por causa das semelhanças disso com o costume judeu do Yizkor e do Yahrzeit, serviços para o morto, parece que os judeus consideraram essa prática aceitável. 


Já que não há nada no judaísmo que proíba essa prática, os rabinos de Kaifeng devem ter concluído que aquilo poderia ser  feito, embora tivesse que ser feito de um modo judeu. Os chineses queimavam incenso e faziam oferendas a placas e desenhos de imagens de seus ancestrais; os judeus, porém, queimavam incenso e deixavam oferendas, mas jamais se permitiam adorar ou deixar oferendas a qualquer desenho/imagem, porque isso estaria no limiar da idolatria. Essa prática tornou-se tão comum entre  os judeus de  Kaifeng, que se construiu para esse fim um "Salão de Ancestrais" (Hall of Ancestors). 

Enquanto algumas práticas adotadas pelos judeus de Kaifeng fossem as que escolheram, eles também fizeram concessões à legislação imperial quando havia conflito com suas práticas. Há dois bons exemplos de como os judeus lidaram com esses conflitos legais. Por exemplo, de acordo com a Torá, se um marido morrer antes de dar à sua mulher o primeiro filho dela, o irmão vivo mais velho do marido é demandado a casar-se com a viúva de  seu irmão. Isto conflitava com o costume chinês, e a dinastia Yuan tornou ilegais tais casamentos. A  comunidade judaica de Kaifeng foi forçada a ceder à lei chinesa.

Em um outro exemplo, um imperador chinês determinou que um retrato seu fosse colocado em todos os locais de culto. Embora isso se chocasse com seu costume, os judeus efetivamente colocaram o retrato na entrada de sua sinagoga. Entretanto, escreveram em hebraico a oração sagrada do Shemá acima do retrato do imperador. O Shemá é a afirmação central da teologia judaica e é traduzido como "Ouça oh Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Único. Abençoe seu Reinado para Todo Sempre". Foi escrito acima do retrato imperial para lembrar aos judeus que o Deus único está acima mesmo do imperador da China. 

(...)

De acordo com o Livro Memorial de Kaifeng, um livro que documentava todas as mortes na comunidade judaica da cidade por muitos até encerrar-se nos anos 1670, por volta dos anos 1600 todos os judeus chineses tinham um entre sete sobrenomes: Zhao, Zhang, Li, Ai, Kao, Jin, or Shi [o que diverge de outra fonte citada antes, que fala de oito sobrenomes -- o sobrenome Gan é o que diferencia as duas listas]. Muito provavelmente, os outros dez clãs foram mortos pela enchente de 1642 ou deixaram a cidade por outras razões. Todos os sete clãs desempenharam um papel importante na comunidade judaica, e havia muitas famílias dentro de cada clã. No total, foram mencionadas 241 famílias, o que indicava uma população de 1.00 - 2.000 judeus na cidade em 1670.

Wang Yisha, um acadêmico de Kaifeng, acredita que o número de judeus que viviam na cidade antes da inundação pode ser estimado pelo número de  rolos de pergaminho da Torá na sinagoga. Assim, de acordo com Wang, havia mais de 500 famílias judias em Kaifeng antes da inundação, oque corresponderia a uma população de 3.000 a 4.000 pessoas. Considerando-se que a população total de Kaifeng foi cortada em mais da metade pela inundação de 1642, faz sentido estimar que havia mais de 500 famílias antes da inundação e apenas mais de 240 na cidade por volta de 1670. 

Um jesuíta chamado Gozani, que visitou a cidade no início dos anos 1700, estimou uma população de judeus de dois ou três mil, o que é consistente com as estimativas de acadêmicos modernos. Para compor as perdas, muitos judeus e não-judeus chineses morreram ou deixaram a cidade nos anos 1850, quando Kaifeng foi saqueada durante a Revolução de Taiping, que prejudicou seriamente a economia da cidade. Por volta do final do século 19, historiadores estimam que apenas várias centenas de judeus viviam em Kaifeng. Ainda mais judeus da cidade foram provavelmente deslocados durante a ocupação japonesa, que deixou Kaifeng com apenas metade da população que tinha antes da guerra.] 







sexta-feira, 14 de outubro de 2016

União Europeia muda radicalmente de posição e decide reconhecer a China como economia de mercado -- os antecedentes dessa reviravolta

[No dia 23 de setembro passado, reunidos em Bratislava (Eslováquia) os ministros de comércio da União Europeia (UE) decidiram desarmar suas defesas contra a China, principal alvo de medidas antidumping do bloco por causa das exportações chinesas de aço e outros bens para a UE. Isso permitirá à UE reconhecer a China como economia de mercado e reduzirá o risco de uma guerra comercial entre eles.

Essa decisão em Bratislava marca uma reviravolta inesperada e completa da UE em relação à aceitação da China como uma economia de mercado, tendo em conta o exposto pela imprensa francesa imediatamente antes da citada reunião. Traduzo a seguir textos do caderno de economia do jornal francês Le Figaro de 23 de setembro passado, abordando a reação da União Europeia à concessão de status de economia de mercado à China. Pelas regras da OMC (Organização Mundial do Comércio) estabelecidas por ocasião da entrada da China na Organização em 2001, todos os países serão obrigados a reconhecer a China como economia de mercado a partir de 2016.  O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Comércio: queda de braço entre a Europa e a China

Le Figaro - 23/9/2016

Bruxelas se opõe ao status de economia  de mercado a ser concedido a Pequim. Uma ameaça ao emprego.

Quinze anos após sua entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC), a China deverá obter em dezembro vindouro o status de economia de mercado ["economia de mercado é aquela em que as empresas não são controladas pelo Estado, e decidem por si mesmas o que produzir e vender, com base no que consideram como lucro factível ao fazê-lo" -- Longman Business English Dictionary, 2007, pág. 172; -- ou ainda, é uma economia em que os preços de bens e serviços são definidos por oferta e demanda]. Os europeus se opõem a isso, considerando que o Império do Meio não preenche os requisitos para essa classificação. Eles temem o impacto negativo disso sobre o comércio e o emprego, porque não poderão se proteger tão eficientemente como hoje contra as práticas de dumping das empresas chinesas [dumping é uma prática comercial que consiste em uma ou mais empresas de um país venderem seus produtos, mercadorias ou serviços por preços extraordinariamente abaixo de seu valor justo para outro país (preço que geralmente se considera menor do que se cobra pelo produto dentro do país exportador), por um tempo, visando prejudicar e eliminar os fabricantes de produtos similares concorrentes no local, passando então a dominar o mercado e impondo preços altos. É um termo usado em comércio internacional e é reprimido pelos governos nacionais, quando comprovado. Esta técnica é utilizada como forma de ganhar quotas de mercado]. Este tema crucial está na pauta de uma reunião ministerial que acontecerá hoje, 23 de setembro, em Bratislava.

A Europa quer evitar uma nova invasão de produtos chineses

Jean-Jacques Mével - Le Figaro, 23/9/2016

A China espera eliminar em dezembro um entrave às suas exportações. A UE se defende.

Nada de baixar a guarda antes de verificar o estoque de munições ... Em 11 de dezembro, após quinze anos de espera, a China deverá receber o status cobiçado de "economia de mercado" (SME, na sigla em francês) e consequentemente eliminar uma boa parte das defesas que protegem a Europa, assim como os  EUA e o Japão, contra as exportações chinesas baratas.

Essa é a leitura literal , defendida por Pequim, dos protocolos do acesso chinês à OMC assinados em 2001. A UE defende antes o espírito do texto, ou seja a necessidade de continuar a se proteger de um exportador invasivo dirigido com mão de ferro pelo binômio Estado-partido. A superprodução de aço chinesa, resultado de subvenções maciças em seguida à fixação de preços degradados para a exportação, terminou por convencer os mais reticentes. Nestes se incluem os britânicos, perplexos na primavera com a quebra da siderúrgica Tata Steel UK.

Um discurso ambíguo

Com a aproximação da data fatídica de 11 de dezembro, a Europa mantém um discurso ambíguo quanto à outorga do famoso "status" à maior potência exportadora do planeta. Ela [China] pretende "fazer o necessário para respeitar suas obrigações na OMC", diz-se em Bruxelas. É o tema que azeda o relacionamento com Pequim. Contudo, Jean-Claude Juncker [presidente da Comissão Europeia] nem mesmo o mencionou em um discurso interminável que marcou a retomada de atividades da UE. Washington e Tóquio, ao contrário, exibiram em público uma linha muito mais dura.

Sobre o tema, os europeus estão divididos por opiniões jurídicas contraditórias, interesses nacionais dissonantes (a Alemanha não quer arruinar um grande mercado) ou ainda por filosofias divergentes (o Reino Unido e a Escandinávia são bastiões do livre comércio). A UE se concentra em uma outra prioridade: com ou sem SME para a China, seja o que vier, será necessário dar musculatura às defesas contra a concorrência desleal, diz-se na Comissão. A Índia e a Rússia são igualmente visadas.

Planejar uma réplica unida, dotada de argumentos plausíveis, é o que está em jogo no encontro dos 28 ministros do Comércio Exterior em Bratislava. A Comissão pôs sobre a mesa um arsenal novo desde 2013, com direitos mais elevados e procedimentos mais rápidos contra as exportações a preços desleais e as subvenções diretas à produção. Em março, ela mais uma vez endureceu seu texto: "Devemos ser capazes de  reagir ao dumping com a mesma firmeza que os Estados Unidos", insistiu Jean-Claude Juncker.

Na reunião de Bratislava, mais uma vez as diferenças devem aplainadas. Enquanto os EUA impõem ao aço chinês taxas de importação de 265%, a Europa continua a se obrigar à regra barroca do "direito menor" (lesser duty rule = regra do imposto menor), ou seja um alinhamento com o que o resto do mundo pratica de mais baixo, o que quer dizer menos de  50%. O Reino Unido, a Holanda, a Europa nórdica e os países bálticos  se recusam a alterar seus planos e ideias, em relação aos demais países do bloco. Não se espera nenhum avanço prático em Bratislava. As decisões, se forem tomadas, virão de preferência da próxima cúpula europeia em 21 e 22 de outubro.

Três vias cheias de emboscadas para a União Europeia

Anne Cheyvialle e Manon Malhére -- Le Figaro, 23/9/2016

É preciso ou não conceder o status de economia de mercado (SEM, na abreviatura francesa) à China? A questão é econômica e politicamente sensível de tanto que são cruciais os riscos em termos de intercâmbios comerciais, de investimentos e sobretudo de emprego.

Intercâmbios comerciais em 2015

● 170 bilhões de euros de exportações europeias para a China
● 350 bilhões de euros de importações europeias da China
● 180 bilhões de euros, o déficit comercial daUE com a China

Represálias chinesas em caso de não concessão do status

Ao recusar o status de economia de mercado para a China, os europeus se expõem a represálias. Isso poderia começar com uma batalha jurídica. Se não se chegar a um acordo até a data limite de  11 de dezembro de 2016, Pequim poderá imediatamente acionar o órgão que regula as diferenças entre membros na OMC. Um procedimento que pode durar de três a cinco anos.

A queda de braço se dará também no terreno comercial, com a imposição de barreiras para limitar as importações oriundas da UE. Já houve precedentes. Na disputa entre Bruxelas e Pequim sobre painéis solares, as autoridades chinesas ameaçaram aplicar medidas antidumping sobre as importações de vinhos franceses e  italianos. Outro risco em caso de manutenção do impasse é a perda de contratos de negócios para as empresas europeias e uma baixa nos investimentos chineses na Europa. O presidente chinês Xi Jinping prometeu contribuir para o plano Juncker.

Perda de empregos se a China obtiver o status

A outorga do status de economia de mercado à China limitará de fato a capacidade de defesa comercial da UE frente a Pequim. Bruxelas deverá mudar seu método de cálculo para avaliar as práticas de dumping das empresas chinesas. Os europeus não poderão mais basear-se no custo de produção praticado em um terceiro país , a Turquia ou o Brasil, mas sim sobre o custo da China. Como será mais difícil provar que há dumping, o número de reclamações cairá. Resultado, avaliado pelo Cepil (centro de pesquisas sobre a economia mundial): as exportações chinesas para a UE poderiam aumentar de 3,9% a 5,3% em volume (entre 13 e 18 bilhões de dólares).

O impacto será ainda mais contundente se se levar em conta o fato de que certos produtores chineses aumentam seus preços por receio de medidas antidumping. No total, o Cepil calcula a alta possível das exportações chinesas entre 25 e 27 bilhões de euros. Como resultado, uma baixa na produção industrial da Europa, de 3,1 a 23 bilhões de euros. A indústria estará na primeira linha dos afetados, em particular a siderurgia, setor particularmente afetado pelo dumping chinês, assim como o setor eletrônico.

Os estragos sobre o emprego são de difícil avaliação. Como comprovação disso, as grandes diferenças de resultados entre um estudo e outro: de 63.600 a 234.000 para a Comissão Europeia e uma faixa muito mais alarmante avaliada pelo Instituto de Política Econômica, entre 1,7 e 3,5 milhões.

Uma terceira via a ser definida

Aceite ou não o status chinês, a Europa corre o risco sério de padecer com isso. Bruxelas planeja uma terceira via. A ideia seria reforçar os instrumentos de defesa comercial de que dispõe a UE, o que passa por uma modificação do método aplicado aos procedimentos antidumping. Esta solução permitiria também aos europeus se protegerem contra os  abusos das empresas chinesas , sem entretanto violar as regras internacionais.

Exatamente para isso, desde 2013, há uma proposição legislativa sobre as mesas dos governos europeus para modernizar o arsenal comercial, mas as negociações patinam por causa de divergências. Esse texto permitiria "acelerar os procedimentos antidumping e antisubvenção, e autorizaria a Comissão a instituir direitos/impostos maiores em certas circunstâncias", lembrou a Comissão Europeia em julho.

Essa solução alternativa permitiria proteger os europeus e satisfazer as exigências chinesas? Esta é no momento a grande incógnita, já que as medidas não estão ainda claramente definidas e o processo deverá demandar  vários meses. Enquanto espera, nada impedirá Pequim de pressionar e até mesmo adotar medidas de represália.

Pequim tenta intimidar e dividir os europeus

Sébastien Falletti - Le Figaro, 23/9/2016

Imperioso, o dragão chinês expõe suas garras. Impondo direitos aduaneiros de até 46% contra certos aços europeus, acusados de dumping, Pequim lançou uma advertência ameaçadora  à UE em 24 de julho. Se Bruxelas não reconhecer à China o status de economia de mercado até o fim do ano, como exigem os chineses, represálias serão adotadas.

Para os dirigentes da segunda economia mundial, tal status é um objetivo estratégico e uma recusa da Europa contra ele seria tomada como uma afronta. "É um caso sensível, porque ele supera o risco econômico com um forte viés político-simbólico. Esse status seria um reconhecimento de que a China doravante faz parte da corte dos grandes". É como nos Jogos Olímpicos!", analisa Françoise Nicole, diretora do Centro Ásia do Ifri [Instituto Francês de Relações Internacionais].

Quinze anos após seu acesso à OMC, o reconhecimento aos chineses de seu status de economia de mercado pelas grandes potências como a UE e os EUA seria uma nova etapa do retorno do gigante emergente ao primeiro plano do cenário mundial. Um contencioso ainda mais importante para o Partido, no momento em que investidores estrangeiros e também a população têm dúvidas sobre as perspectivas econômicas do mastodonte, cujo crescimento caiu para seu nível mais baixo dos últimos 25 anos. Já no anterior o regime chinês havia redobrado seus esforços para conseguir a inclusão do yuan no DES, a cesta de moedas do FMI [DES = Direito Especial  de Saque é composto por uma cesta de moedas que inclui o dólar, o euro, a libra e o iene. O DES pode complementar as reservas oficiais dos países-membros. Esses países também podem efetuar entre si trocas voluntárias de DES por moedas.], ao lado do dólar, do euro, do iene e da libra. Essa integração simbólica será efetivada em 1° de outubro.

Relação de interdependência

A batalha do SEM se insere na mesma perspectiva, mas se anuncia mais árdua, ao passo que os  EUA se opõem frontalmente, via OMC, às demandas de Pequim, apontando a dedo suas promessas não cumpridas em termos de abertura de mercado.

Fiel a seus hábitos, a China pressiona a UE apostando nas suas divergências internas, que permitem aos chineses evitar Bruxelas e atuar diretamente junto às capitais europeias. "Eles apostam na ameaça para ganhar a partida. Porque os europeus têm a tendência de pensar que necessitam muito menos da China do que o inverso. Na realidade, há uma interdependência. E o risco de guerra comercial é exagerado", avalia Françoise Nicolas. 

Ao regime chinês não interessa um conflito maior com seu principal parceiro comercial, no momento em que sua economia está envolvida em uma transição delicada que necessita de transferências de tecnologia. Os dirigentes chineses sabem que o tempo urge para armazenar energia, quando a onda populista pressiona por um retorno ao protecionismo no Velho Continente e a Brexit semeou inquietação em Pequim, privando a China de um aliado favorável à abertura.

[Com todo esse contexto exposto acima, não seria de se esperar a decisão da reunião em Bratislava de reconhecer a China como economia de mercado. No entanto, parecer ter vencido o pragmatismo: o mercado chinês é muito grande e importante para ser ignorado ou tratado com desdém e, como se viu pelas trocas comerciais entre UE e China em 2015, os chineses têm peso considerável no abastecimento do mercado europeu. Aguardemos o comportamento da China no comércio internacional e na OMC após dezembro deste ano.

De qualquer maneira, me soa esdrúxulo aceitar-se a China como economia de mercado pelo conceito mesmo deste título, tendo em conta a presença maciça do Estado na esmagadora maioria das empresas chinesas.] 



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

As mulheres chinesas ainda não são tratadas com dignidade

[Em outubro do ano passado, durante a reunião anual do Partido Comunista, a China mudou sua política do filho único por família, que durou 30 anos, e passou a admitir 2 crianças por casal. Traduzo a seguir o artigo da romancista chinesa Sheng Keyi publicado no International New York Times em novembro de 2015, denunciando que essa mudança não alterou o controle do governo chinês sobre o corpo da mulher chinesa. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]



Ainda não há dignidade para as mulheres chinesas

Sheng Keyi (*) - International New York Times, 11/11/2015

Uma cena que vi há 30 anos atrás está gravada para sempre na minha memória. Um homem retornando para nosso vilarejo rural puxava uma carroça de duas rodas que sacolejava ao longo da estrada de terra. Deitada nela estava a mulher dele, que estava se recuperando de uma cirurgia de esterilização. Uma colcha grossa, com motivos florais, cobria a mulher da cabeça aos pés. Ela estava imóvel, como um cadáver.

Desde que vi aquela mulher inconsciente tive medo de que um dia pudesse terminar como ela: uma vítima da doentia violação física perpetrada por um propósito do governo chinês de impor sua política draconiana de um filho por casal. Jurei comigo mesma que nunca teria filhos, para que a cirurgia de esterilização jamais me fosse aplicada.

A liderança do Partido Comunista Chinês anunciou em 29 de outubro o fim da política do filho único, a ser substituída por uma lei que permitiria a casais casados ter dois filhos. Mas, eliminar a política do filho único não terminará com o controle do governo sobre os corpos das mulheres. Ainda não temos a palavra final quando se trata de nossos direitos reprodutivos.

Esse flagrante desrespeito pelos direitos das mulheres é parte inerente do sistema, que vi de perto. Em 1997, encontrei um emprego de "promoção da noção de saúde" no escritório de propaganda de um centro hospitalar de planejamento familiar.

Coisas que vi no hospital me chocaram. Um dia, quatro homens fortes vestidos com camuflagem militar arrastavam uma mulher jovem para a sala de operações, um homem para cada membro dela, enquanto ela se contorcia desesperadamente. Uma débil sensação de ultraje vibrou dentro de mim, mas não lhe dei muita atenção porque estava demasiado ocupada preocupando-me com meu emprego e com minha própria sobrevivência.

Para tornar-me um empregado formal do hospital, fiz algo que me envergonharia pelo resto de minha vida: escrevi uma história fictícia edificante sobre o centro de controle de natalidade, descrevendo como os médicos cuidavam dos pacientes como se eles fossem pessoas de suas famílias. A história foi publicada, e ganhou um prêmio da Comissão de Planejamento Familiar.

Escrevi também o relatório anual de desempenho do hospital, incluindo estatísticas de cirurgias de esterilização e abortos. Ainda me lembro de um número assombroso que encontrei: o diretor do hospital conseguira um recorde, realizando 88 esterilizações em um dia.

Na época, não me dei conta de que as esterilizações e abortos forçados estavam sendo feitos em todo o país. Pessoas que eram consideradas ter violado os regulamentos de planejamento familiar eram detidas, suas casas eram demolidas e suas criações de animais confiscadas. As autoridades em cidades e vilas tinham que cumprir metas de coletar multas e fazer abortos. Houve casos de mulheres grávidas sendo sequestradas e levadas a hospitais para que, à força, se fizessem nelas procedimentos de controle de natalidade.

A web está agora repleta de promoções que encorajam os casais a ter um segundo filho, o que parece uma piada cruel à luz das recentes exortações para que se tivesse apenas um filho.

A maioria das mulheres não quererá provavelmente ter mais de duas crianças -- com o bem-estar e educação recentemente descobertos e acessíveis, a maioria das pessoas parece preferir manter a família pequena. E as despesas para criar filhos serão impeditivas para um aumento da família. Mas, a política de dois filhos significa que o Estado pode interferir e irá interferir nas decisões que as mulheres tomam sobre seus corpos e suas famílias.

O que acontece com a família que quer ter um terceiro filho? E quanto às mulheres que engravidaram acidentalmente uma terceira vez e querem ter a criança?

Liang Zhongtang, um demógrafo que assessorou autoridades sobre política populacional, disse recentemente ao Beijing News que o planejamento familiar era ainda parte da missão do Estado. "Para manter a integridade da política estatal, é preciso que existam medidas compulsórias punitivas para quem violar a política de planejamento familiar", disse ele.

Essas "medidas punitivas" continuarão não apenas a afetar as mulheres, mas também um número não divulgado de segundas e terceiras crianças -- algumas estimativas apontam que esse número está na casa dos milhões -- que permanecem sem documentos, porque seus pais não têm como pagar as multas pela violação da política do filho único. Crianças cujos pais não pagam tais multas não podem ter documentos de identidade oficiais. Sem estes, as crianças não têm acesso à educação, a cuidados médicos e a outros benefícios sociais. Não há razão para crer que essas crianças serão reconhecidas oficialmente à luz da nova política, nem há razão para acreditar que não irá continuar a prática de multar os violadores da política de dois filhos.

O regime de controle de natalidade vai além da vida familiar. O governo proíbe as mulheres solteiras de usar "tecnologia reprodutiva assistida", que inclui o congelamento de óvulos e a fertilização in vitro. Este ano [2015], a importante atriz chinesa Xu Jinglei disse que havia ido aos Estados Unidos congelar seus óvulos. A discriminação particular sofrida pelas mulheres solteiras não será alterada na política de dois filhos.

A vasta e consolidada burocracia de planejamento familiar pode ter sido um fator nos cálculos do governo. A Comissão Nacional de Saúde e Planejamento Familiar alegadamente emprega mais de 500.000 pessoas -- e as multas aplicadas aos violadores da política de um filho têm sido uma fonte de receita importante para o governo. Os burocratas lutarão para manter seus empregos na política de dois filhos.

A mudança na política é meramente um reconhecimento do problemático desequilíbrio de gêneros e do rápido envelhecimento da população na China. A natureza do sistema continuará a mesma: ela ainda pisoteia a dignidade das pessoas e ainda coloca os interesses do Estado acima daqueles dos cidadãos comuns. A política de dois filhos é muito pouco, e muito tardia.

(*) Sheng Keyi é uma romancista chinesa baseada em Beijing, cujos livros incluem "Northern Girls" e "Death Fugue". O texto em inglês do artigo foi traduzido do chinês pelo The New York Times. 
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[Embora os atos coletivos do Estado chinês tenham uma escala sem paralelo no resto do mundo (para a construção da hidrelétrica de Três Gargantas, por exemplo, 1 milhão de pessoas foram transferidas de lugar por decreto, sem qualquer possibilidade de contestação), a esterilização forçada de mulheres também ocorreu em proporções assustadoras no Brasil e alhures na América do Sul. Ver: "Assim como no Brasil na década de 80, houve esterilização em massa de mulheres no Peru na década de 90".]


domingo, 16 de agosto de 2015

Por que os brasileiros tomam tanto banho e os chineses tão pouco?

[A questão da higiene pessoal é um tema revelador de muitos aspectos de uma sociedade, ao longo dos tempos. Ver, por exemplo, as postagens "Banho, o berço da intimidade" e "Um quinto dos franceses não toma banho todos os dias".  A reportagem abaixo, do site em português do jornal espanhol El País, aborda esse tema.]




Entre as promessas não cumpridas da globalização não é difícil encontrar batalhas relacionadas com a fome, ecologia ou a desigualdade. O que não sabíamos até agora era a preocupante diferença refletida pelos indicadores de asseio dos países. Desta vez, e sem que sirva de precedente, as condições econômicas e os níveis de desenvolvimento das diferentes nações não parecem ser fatores determinantes ao julgar hábitos de higiene.

De acordo com uma pesquisa realizada há alguns meses pela consultoria de análise de tendências Euromonitor, os brasileiros podem tomar banho, em média, até 12 vezes por semana. Além do Brasil, os sociólogos colocam a Colômbia e a Austrália entre as nações menos alérgicas à água, com dez e oito banhos semanais por pessoa, respectivamente. Indonésia e México vêm logo atrás, com cerca de sete banhos cada. Na lanterninha dessa pesquisa estão os chineses que, aparentemente, só tomam banho uma vez a cada dois dias.

Banhos por semana -- (Gráfico: El País/Fonte Reddit)

Os franceses, norte-americanos e espanhóis ficam na média da ducha diária. Como os indianos que, por outro lado, só lavam o cabelo uma vez por semana. Os últimos da fila além dos chineses? Turquia, Alemanha, Reino Unido e, surpreendentemente, Japão, com costumes mais do que questionáveis. Há quem argumente que a sinceridade dos entrevistados deveria ser rigorosa para validar as conclusões – um fator mais do que razoável se levamos em conta que os seres humanos adoram mentir —, mas os responsáveis pela pesquisa destacam as variáveis climáticas como argumentos que fundamentam o resultado. Resumindo: quanto maior a umidade, maior a necessidade de se refrescar.

Há dois anos, o jornal britânico Daily Mail causou espanto quando revelou que quase metade dos britânicos não tomava banho diariamente. E davam como exemplo o príncipe Harry, irmão do futuro rei William, que uma vez admitiu ter ficado dois anos, dia e noite, sem lavar o cabelo. Por mais estranho que pareça, seu caso é apenas a ponta do iceberg de uma tendência em alta. Além de designers de moda que na temporada passada lançaram campanhas publicitárias com modelos de cabelo emaranhado e com aparência suja, os defensores de flexibilizar os padrões estabelecidos são muitos.

Enquanto alguns ecologistas defendem a necessidade de limitar o consumo de água em casa — e, com isso, economizar os litros que escapam pelo ralo do banheiro — outras correntes eco-friendly alertam sobre os perigos do uso de produtos de limpeza que contêm sulfato, parabeno e silicone. Nenhum deles tem o apoio da maioria dos dermatologistas e outras partes interessadas, mas muitos especialistas alertam que tudo o que envolve a literatura da higiene pessoal é exagerado.

A coisa vem de longe. Em fevereiro deste ano, a jornalista Sarah Zhang, do site Gizmodo, destacava a estratégia de marketing que no início do século XX motivou os norte-americanos a criar hábitos que beiravam a obsessão. Segundo seu depoimento, os fabricantes de sabonetes, desodorantes e cremes dentais criaram anúncios que modificaram os hábitos da sociedade, forçando as pessoas a gastar enormes quantias de dinheiro e ameaçando-as com ostracismo social se elas não se preocupassem com o mau hálito ou sudorese.

Anúncio sobre mau hálito - (Foto: El País)

No século XX, a higiene pessoal também é uma batalha entre os sexos. A empresa sueca SCA publicou há alguns anos um estudo no qual a Suécia aparecia – surpresa – como uma referência de igualdade também na hora do banho: se no restante de países pesquisados as mulheres tomam mais banhos do que os homens, no paraíso escandinavo elas ficam atrás. O relatório também destacava outros costumes, como depilação, usar cosméticos, acessórios ou fazer as unhas. Segundo o estudo, para 84% dos homens e mulheres pesquisados, em um cenário ideal elas sempre devem depilar as pernas. Apenas 51% das pessoas acreditavam que "o homem ideal" deve usar colônia.

Na era da heterodoxia higiênica, com os campeões da modernidade que defendem métodos como o No Poo – lavar o cabelo com água da torneira ou com bicarbonato e vinagre --, qualquer conclusão parece precipitada. A higiene pessoal pode significar uma coisa no Rio de Janeiro e outra em Xangai e, provavelmente, nunca se chegaria a um acordo. Mas há duas coisas universais que fariam um favor coletivo: evitar o banho checo e o nobre costume de perfumar-se até revirar o estômago.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

China desafia seus vizinhos com "grande muralha" de ilhas artificiais

[Sempre que fico sabendo de alguma iniciativa inusitada e/ou arrojada da China no cenário internacional, fico sempre com a sensação de que o mundo ainda não se deu realmente conta do real e tremendo poderio desse país (ver, por exemplo, a postagem "A China é muito mais do que podemos enxergar"). Enquanto outras potências como EUA, Reino Unido, França e Rússia se desgastam tremendamente -- tanto militar quanto estratégica e financeiramente -- em conflitos de diversas naturezas mundo afora, ou a União Europeia sofre há anos com suas crises internas, a China pacientemente e sem alarde vai solidificando seu domínio geopolítico onde lhe interessa, comendo pelas beiradas. Quem entrar no marcador "China"na aba direita do blogue verá, por exemplo, como os chineses estão: jogando o Brasil para escanteio na América do Sul, isolando-o paulatinamente de seu principal mercado que é a Argentina (postagem de 07/8/2014) e avançando em outros países na América Latina (postagem de 06/4/2014) ; criando nova rota comercial marítima para a Europa usando a chamada rota marítima do nordeste do Ártico, ou rota marítima do norte, aproveitando-se dos efeitos da mudança climática (postagem de 14/8/2013); fazendo da América Latina seu novo campo de batalha econômico contra os EUA (postagem de 01/4/2013); roubando segredos de Estado e industriais dos EUA (postagem de 21/02/2013); instalando-se estrategicamente às portas do estreito de Ormuz (postagem de 19/02/2013), etc. 

No contexto de sua inclusão na área de interesse e de influência natural do Brasil, a relação da China com a Argentina é ainda mais prejudicial ao nosso país. Os mais de US$ 10 bilhões emprestados recentemente serão compensados pela compra de máquinas e equipamentos chineses e a autorização de uma base militar de rastreamento de satélites e mísseis no país. Recentemente, a presidente argentina Cristina Kirchner esteve na China para assinar 22 acordos de uma aliança estratégica nas áreas de infraestrutura e energia.

Somente em 2014, o país asiático emprestou à América Latina 22 bilhões de dólares (63 bilhões de reais) – 71% a mais que no ano anterior. Isso eleva para 119 bilhões o total da dívida desde 2005. Os principais mutuários são Venezuela, Brasil, Argentina e Equador.

A notícia da vez soube outra iniciativa arrojada e inusitada da China surgiu no jornal espanhol El País de 11/4/2015, que nos relata que a China está construindo ilhas artificiais no recife de Mischief nas ilhas Spratly, território que disputa com as Filipinas e o Vietnã. Reproduzo a seguir a íntegra da reportagem. O Mar do Sul da China (ou Mar da China Meridional) banha os seguintes Estados e territórios: República Popular da China, Hong Kong, Macau, República da China (Taiwan), Filipinas, Malásia, Brunei, Indonésia, Cingapura, Tailândia, Camboja e Vietnã. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]



O recife de Mischief, antes das obras feitas pela China - Foto: Google









Imagem aérea dos barcos chineses em um arrecife nas ilhas Spratly. / CSIS/AMTI





Há especulações de que a China está construindo pista de pouso no recife Johnson South - (Fotos: CSIS - Center for Strategic and International Studies)

As disputas territoriais que Pequim mantém com seus vizinhos no mar do sul da China voltaram a se aquecer. O motivo são as ilhas artificiais que a segunda economia do mundo constrói “a golpes de perfuradoras e escavadeiras”, como disse o comandante da frota americana no Pacífico, o almirante Harry Harris. Onde até há pouco mais de um ano não havia muito mais que corais e algumas casinhas de blocos de cimento, construídas diretamente sobre as rochas meio submersas, a China criou, segundo os EUA, várias ilhotas de areia – em cinco arrecifes – que somam pelo menos 4 quilômetros quadrados.

Até agora, a China se limitava a declarar que suas atividades eram “legais, razoáveis e justificáveis”. Mas, na quinta-feira, o Centro de Estudos Estratégicos Internacionais (CSIS) em Washington divulgou uma série de fotografias que mostram a magnitude das obras e a rapidez com a qual são realizadas. Nas imagens, que comparam o antes e o depois no recife de Mischief, nas ilhas Spratly - território que disputado por Filipinas, China e Vietnã - se pode perceber como, praticamente do nada, surgiram várias ilhas dotadas de portos e uma pista para pousos e aterrissagens de aeronaves.

Após a publicação das imagens, a China - que até agora se limitava a responder às perguntas sobre essas ilhas com declarações lacônicas - ofereceu sua explicação mais detalhada, até agora, para justificar suas atividades.

Na quinta-feira, o porta-voz do ministério de Relações Exteriores do país, Hua Chunying, esclareceu que o propósito é militar: “proteger sua soberania territorial (da China) e os interesses e direitos marítimos”. Mas também garantiu que a construção terá fins civis “além das necessidades de defesa militar”. Entre eles, citou a proteção de navios durante as passagens de tufões, a pesca e a observação meteorológica.
As declarações de Hua não foram suficientes para acalmar os EUA, que, por meio das palavras do almirante Harris, descreveram as obras chinesas como a construção de “uma Grande Muralha de areia”. O secretário de Defesa, Ashton Carter, em viagem pela região, advertiu que a ação unilateral deixará a China isolada. E o presidente Barack Obama, que estava na Jamaica, a caminho da Cúpula das Américas, realizada no Panamá, acusou Pequim de “usar sua força e seus músculos para forçar outros países a ficarem em posição de subordinação” [é bizarro ouvir esse tipo de acusação, vindo de um país useiro e vezeiro desse tipo de atitude].
“Acreditamos que (a disputa) pode ser resolvida por via diplomática, mas só porque as Filipinas e o Vietnã não são tão grandes como a China não quer dizer que não possam dar cotoveladas”, afirmou Obama.

Hua respondeu às declarações do presidente acusando os EUA de ser o país que pressiona os demais. “Esperamos que os Estados Unidos possam respeitar os esforços da China e dos países asiáticos para garantir a paz e a estabilidade na região do Mar do Sul da China”.

Pequim, que durante a época maoísta não demonstrou nenhum interesse especial por essas ilhas, reivindica com cada vez mais força a soberania das ilhas Spratly e Paracel e dos arrecifes de Scarborough, a distâncias de até 1.300 quilômetros do litoral continental. Meia dúzia de países mantém também reivindicações sobre algumas dessas áreas. A disputa, especialmente acirrada com as Filipinas e o Vietnã, se intensificou desde 2012, quando a China incluiu esses territórios em seus “interesses nacionais básicos”, assim como o Tibete e o Taiwan.

As Filipinas, um país militarmente muito mais fraco que a China, levaram o caso à ONU. Diante da intensificação das obras de construção chinesas, o país expressou seu temor de que Pequim busque criar evidências no terreno que influam na decisão final da instituição internacional.
No fundo da disputa há um duplo motivo. As suspeitas são de que estas cadeias de ilhotas possam guardar em seu leito marinho recursos naturais. Mas também são chaves do ponto de vista geoestratégico: para a China, que tem entre seus objetivos de Defesa o estabelecimento de uma Marinha militar de ponta, o mar do sul representa uma saída natural para sua frota rumo ao oceano Índico. Os Estados Unidos, que declararam a região da Ásia Pacífico como o “pivô” de sua política externa e defensiva, não quer ceder facilmente o controle de uma área de intenso tráfego marítimo e pela qual atravessa, anualmente, um volume comercial de quase 5 trilhões de euros (cerca de 16,2 trilhões de reais).
A nova troca de recriminações entre Pequim e Washington ocorre pouco antes do começo de manobras militares conjuntas entre os EUA e as Filipinas no dia 20 de abril, em águas próximas às ilhas Spratly. Segundo anunciou Manila, mais de 11.500 soldados participarão das atividades, as maiores desde que ambos os países retomaram os exercícios conjuntos em 2000.

Mapa (em espanhol) mostra em vermelho as águas reivindicadas pela China, as ilhas em disputa (verde) e a Zona Econômica delimitada pela Convenção da ONU sobre o Direito do Mar (azul)


[O site do CSIS, em 16/4/2012, mostra que os litígios entre Filipinas, China e Taiwan são amplos no Mar do Sul da China (ou Mar da China Meridional). Em 29/02/2012, as Filipinas abriram outro capítulo nas disputas com seus vizinhos ao convidar empresas estrangeiras para sua esperada Quarta Rodada de Contrato de Energia, envolvendo 15 blocos de óleo e gás. A China reagiu prontamente ao anúncio de Manila com um protesto formal, reiterando sua "soberania inquestionável" sobre as ilhas e águas do Mar do Sul da China e taxando de "ilegal" qualquer exploração de petróleo. O ministro das Relações Exteriores de Taiwan repetiu a atitude chinesa, com um comunicado em 13 de março afirmando que "o Reed Bank (Banco de Juncos, em uma das várias traduções diretas possíveis) faz parte das Ilhas Spratly ... e rejeitamos qualquer pleito ou ocupação por quaisquer meios das ilhas e das águas em seu entorno".




O mapa acima mostra bem a posição estratégica do Mar do Sul da China e as disputas nele envolvidas.]