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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Líbia: mais um desastre subsequente a uma intervenção militar americana

Muito recentemente, o presidente Obama causou uma comoção diplomática com dois parceiros militares tradicionais dos EUA, França e Reino Unido, ao referir-se depreciativamente e sem rodeios à participação dos dois na intervenção militar na Líbia em 2011, capitaneada pelos americanos via OTAN. A imprensa americana, obviamente, foi mais autêntica que a brasileira ao reproduzir a fala de Obama. Segundo o site da revista The Atlantic, que entrevistou o presidente americano, Obama disse que a falta de concentração da Europa gerou o caos que ocorre na Líbia (como sempre, zero de mea culpa do lado americano).

Obama disse que o primeiro-ministro David Cameron (Reino Unido) "distraiu-se com um monte de outras coisas após a operação" e parou de prestar atenção na Líbia.  Cameron e o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy receberam a carga maior das críticas do presidente americano.

Com relação à França, Obama disse que "Sarkozy queria trombetear os voos que a França vinha fazendo na operação aérea, apesar do fato de que nós [americanos] tínhamos destruído todas as defesas aéreas líbias e, essencialmente, criado toda a infraestrutura necessária para a operação".

Embora considere que a intervenção tenha sido bem feita como poderia, Obama vê a Líbia hoje como uma "bagunça". Este é o termo diplomático, reservadamente, diz a revista (The Atlantic) que o entrevistou, ele se refere a esse país problemático como um "show de merda". Ele considera que isso ocorreu por razões que se devem mais à passividade dos aliados dos EUA e ao obstinado poder do tribalismo do que à incompetência dos americanos.

Por mais que se esforce, Obama não conseguirá apagar ou minimizar mais um enorme fracasso político-estratégico americano a partir de mais uma intervenção militar (que, segundo Obama, custou US$ 1 bilhão -- muito barato em termos de operações militares, disse ele).

Em 27/02/2016, o site do jornal International New York Times publicou uma reportagem inusitadamente longa (a versão impressa saiu em 01 de março corrente) de Scott Shane e Jo Becker sobre o caos em que está mergulhada a Líbia. O subtítulo da reportagem diz que "a queda de Gaddafi deu razão a (Hillary) Clinton inicialmente, até que a guerra civil e o Estado Islâmico se estabeleceram".

A reportagem descreve a impaciência de Hillary (então secretária de Estado) quanto à conclusão da intervenção militar multinacional, que lhe custara muito trabalho para organizar. Confirmada a queda de Gaddafi, ela teve seus momentos de glória e durante semanas foi exaustiva e abertamente louvada pelo Departamento de Estado.

Mas, assinala a reportagem, já havia sinais de que o triunfo teria vida curta e de que o vácuo deixado por Gaddafi era um convite para a violência e a divisão interna no país. Os líderes líbios interinos pareciam chocantemente desconectados, o assassinato de um destacado general rebelde reforçava o risco de "crimes por vingança", islamitas se apressavam para tomar o poder e havia uma indolente indiferença quanto ao desarmamento dos combatentes das milícias que haviam derrubado Gaddafi e agora ameaçavam a unidade do país (e eram financiados pelo Qatar).

Num encontro na Universidade de Trípoli, Harol Koh, o principal advogado do Departamento de Estado e membro da comitiva de Hillary, ouviu de um estudante: "Sabemos o que os EUA podem fazer com bombas. O que mais vocês podem fazer?".

A pressão da Líbia para eleições em julho de 2012, nove meses após a morte de Gaddafi, parecia prematura para alguns observadores.  Em janeiro de 2012 havia um inequívoco prenúncio de problemas. Em 5 de janeiro, Hillary recebeu um email de Sidney Blumenthal, seu velho amigo e assessor, detalhando o ambiente na Líbia: tensões entre islamitas e secularistas quanto ao papel da lei islâmica, combates entre milícias rivais associadas a duas cidades, e milicianos furiosos exigindo concessões.

Após a queda de Gaddafi, com um mínimo de violência e uma amistosa liderança líbia interina, a Líbia foi rapidamente retirada do topo da agenda da administração Obama. As reuniões regulares sobre a Líbia na 'sala da situação', que frequentemente incluíam Obama, foram interrompidas.  A revolta na Síria, no coração do Oriente Médio e com o quádruplo da população da Líbia, assumiu o centro do cenário. A Líbia, disse Dennis B. Ross, um veterano especialista em Oriente Médio no Conselho Nacional de Segurança (NSC, na sigla inglesa), "foi preparada para a atuação de terceiros em nível operacional". A desatenção com o país não era uma simples negligência, era uma política, uma estratégia.

"O presidente estava no clima de 'não iremos fazer um outro Iraque'", disse Derek Chollet, então responsável pela Líbia no NSC. "E, por falar nisso, os europeus estavam o tempo todo dizendo 'não, não, nós estamos fazendo isso. Entendemos a situação e acreditamos na Líbia, ela está na nossa vizinhança".

Então, o presidente e o NSC definiram o que um alto funcionário chamou de "limites severos" para o papel dos americanos na Líbia: os EUA ajudariam apenas quando pudesse oferecer algo único em termos de capacitação, o faria apenas quando a Líbia explicitamente requisitasse tais serviços e apenas quando a Líbia pagasse por isso com suas receitas do petróleo. Na prática, isso significava que os EUA fariam muito pouco.

Embora o presidente francês Nicolas Sarkozy e o primeiro-ministro britânico David Cameron tivessem visitado a Líbia juntos, eles também estariam logo com suas atenções desviadas do país devido uma campanha por reeleição (Sarkozy) e preocupações econômicas.

Com o passar dos meses e com as lutas entre facções piorando, Hillary pressionou para que seu governo fizesse mais pela Líbia, solicitando por exemplo ao Pentágono para ajudar no treinamento das forças de segurança líbias. Mas ela não logrou êxito, pelas restrições de Obama e a resistência dos líbios. Até mesmo propostas simples sucumbiram. Quando Hillary propôs o envio de um navio-hospital para tratar combatentes líbios feridos, o NSC rejeitou a ideia.

Em fevereiro de 2012, Andrew Shapiro, secretário de Estado assistente para assuntos político-militares, tentava explicar o que os EUA estavam fazendo para guardar com segurança o vasto arsenal militar que Gaddafi havia deixado para trás -- uma notável exceção à política de não-intervenção. Shapiro descreveu os esforços para "galvanizar uma resposta internacional" à tarefa de localizar e destruir depósitos de armas. Mas, reconheceu que o programa de US$ 40 milhões que Hillary havia anunciado para isso não ia bem, mesmo quando ele alcançou as armas mais preocupantes, os Manpads, disparadores de mísseis apoiados nos ombros dos combatentes e capazes de derrubar uma aeronave.

"Quantos Manpads estão ainda desaparecidos? A resposta franca é 'não sabemos' e provavelmente nunca saberemos", disse Shapiro. "Não podemos descartar a hipótese de que algumas armas saíram da Líbia".

Enquanto a CIA movia-se rapidamente para guardar com segurança as armas químicas de Gaddafi, outros esforços falharam. "Havia um arsenal que acreditávamos ter 20.000 Manpads, mísseis terra-ar, mísseis SA-7, que basicamente desapareceram na boca insaciável do Oriente Médio e do norte da África", lembrou Robert M. Gates, o secretário de defesa dos EUA na época.

O plano inicial americano de comprar de volta o armamento dos milicianos através do governo interino líbio, com a assistência americana, não funcionou por causa dos líbios. Assim, o Departamento de Estado, atuando junto com a CIA, ficou encarregado de negociar isso com as milícias. Mas, havia pouco incentivo para que os milicianos vendessem suas armas. Como observou o Sr. Shammam, ex-porta-voz do governo interino: "Como é que você vai comprar um Kalashnikov [o famoso fuzil russo AK-47] por US$ 1.000 se, com essa arma, alguém pode fazer US$ 1.000 por dia raptando pessoas?".

Pior ainda, o programa incentivou as milícias a importar armas para vendê-las aos americanos.

No círculo mais próximo de Hillary, a euforia sobre os feitos dela na Líbia deu lugar a uma "perturbadora preocupação de fracasso", disse um assessor sênior da secretária. Assim, quando os líbios foram às urnas em 7 de julho, numa eleição considerada limpa por observadores internacionais, houve uma sensação de alívio por parte de Hillary e outros defensores da intervenção militar na Líbia. "Agora começa realmente o trabalho duro para construir  um governo efetivo e transparente que unifique o país", disse Hillary.

Mas a unidade do país já era impossível. Nas palavras de Gérard Araud, embaixador da França nos EUA: "De certo modo, essa unidade estava perdida desde o início. Foi o mesmo erro que cometeram no Iraque. Você organiza eleições num país sem experiência com transigências ou partidos políticos. Então, você tem uma eleição e pensa que tudo está resolvido. Mas, no final as realidades tribais ressurgem para assombrar o país".

Em vez de dar prioridade à desmobilização das milícias, o governo de transição líbio simplesmente começou a pagar salários aos combatentes, o que muitos deles consideraram como um dinheiro de proteção. "Não lhes dê salários por nada", lembra-se de pedir o Sr. Sagezli, chefe da Comissão de Assuntos dos Combatentes. "Dar dinheiro a um comandante significa dar força às milícias, gerar mais lealdade ao comandante, gerar mais armamentos e mais corrupção. Mas os políticos nunca me ouviram". Em vez disso, "os políticos começaram a suborná-los, para comprar lealdade".

Haig Melkessetian, um ex-agente de inteligência americano cuja empresa fazia a segurança das embaixadas europeias na Líbia, descreveu as milícias como uma "anarquia -- não há outra palavra para elas". Assassinatos e "o pior tipo de vigilantismo (fazer justiça com as próprias mãos)" tornaram-se comuns na Líbia. Se havia alguma pressão por parte de autoridades americanas ou europeias para que o governo líbio suspendesse seus pagamentos às milícias, ela não se fez ouvir.

Autoridades da coalizão moderada que governava o país solicitaram aos EUA que impedissem a rica nação do Qatar de continuar enviando dinheiro e armas para as milícias alinhadas com o bloco político islamita da Líbia. A pressão contra o Qatar foi barrada dentro do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa -- este último se opôs fortemente, porque havia uma história de 20 anos de estreita cooperação com o Qatar, que abriga bases americanas importantes. No final, não havia apetite para nada alem de uma diplomacia discreta.

Apenas no ano passado o presidente Obama repreendeu os países que estavam interferindo na Líbia, mas aí já era muito tarde. "Eles criaram os monstros com os quais lidamos hoje", disse o líder partidário líbio Abdallah, "que são essas milícias, que têm tanto poder que jamais se subordinarão a qualquer governo".

Em 8 de agosto de 2012, um mês após as eleições líbias, J. Christopher Stevens, embaixador americano na Líbia, enviou uma mensagem a Washington em que descrevia Bengasi (a segunda maior cidade líbia) como "oscilando entre a trepidação e a euforia, enquanto uma série de incidentes violentos tem dominado o cenário político", e alertou para a existência de um "vácuo de segurança". Stevens era considerado a autoridade americana que melhor conhecia a Líbia. Um mês depois do envio da mensagem, a missão dos EUA em Bengasi foi atacada e o embaixador Stevens foi um dos americanos mortos.

Se por um lado a tentativa de culpar Hillary pelo ataque em Bengasi certamente falharia, a noção de que a intervenção na Líbia se situava entre seus êxitos tornou-se solidamente mais desgastada. A Líbia não se adequaria às necessidades da política americana, quer como porrete quer como fanfarrice.

Quando Hillary deixou o Departamento de Estado em fevereiro de 2013, a guerra entre facções -- que se transformaria em guerra civil em 2014 -- estava num crescendo. O fluxo de refugiados que pagavam contrabandistas para uma viagem perigosa ao Mediterrâneo estava inchando. E o caos na Líbia daria nascimento a dois governos rivais -- um apoiado pelo Egito e os Emirados Árabes Unidos, e o outro com o suporte do Qatar, da Turquia e do Sudão -- provendo santuário para extremistas, aos quais logo se juntaram emissários do Estado Islâmico.

As armas que tornaram tão difícil estabilizar a Líbia estavam aparecendo na Síria, Tunísia, Argélia, Mali, Níger, Chad, Nigéria, Somália, Sudão, Egito e Gaza, frequentemente nas mãos de terroristas, insurgentes e criminosos. No outono de 2012, agências de inteligência americanas produziram uma avaliação confidencial da proliferação de armas provenientes da Líbia. Michael T. Flynn, então chefe da Agência de Inteligência de Defesa, disse: "não tínhamos esse tipo de proliferação de armamentos desde, na realidade, o fim da guerra do Vietnã".

Uma crítica cínica começou a circular em Washington: no Iraque, os EUA intervieram e ocuparam o país -- e as coisas foram para o inferno. Na Líbia, os EUA intervieram mas não ocuparam -- e as coisas foram para o inferno. E na Síria, os EUA não intervieram (?!) nem ocuparam, e ainda assim as coisas foram para o inferno.

Isso era humor negro, para desviar a culpa de estrategistas políticos americanos perplexos para uma região atribulada. Mas, gerou uma questão séria com relação à Líbia: se a derrubada de um ditador odiado em um país pequeno e relativamente rico acarretou problemas de tais magnitudes, a intervenção americana foi de algum modo justificada?

"É verdade que as coisas deram errado", disse Sagezli, da comissão de combatentes. "Mas do ponto de vista da Líbia, as coisas não podiam dar certo. Tivemos 42 anos de domínio de Gaddafi, sem infraestrutura, um terrível sistema educacional, milhares de prisioneiros políticos, divisões entre tribos, destruição do exército. Quando se tem um país como esse, depor o ditador equivale a liberar a pressão da panela fervente".

PS - Dessa história toda, digo eu e não as fontes que usei, fica mais uma vez patente a extrema incompetência dos EUA para avaliar a fundo, previamente, os países em que irá intervir e gerar uma perspectiva minimamente correta do que ocorrerá nesses países após essa intervenção. De quebra, ficou registrado que Hillary Clinton tem ainda muito que aprender em termos de geopolítica e Oriente Médio.


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

São legais os bombardeios aos extremistas do Estado Islâmico?

[O artigo traduzido abaixo, de autoria de Marc Weller, foi publicado no site BBC Mundo. Marc Weller é professor de Direito Internacional na Universidade de Cambridge e diretor do Centro Lautperpacht para o Direito Internacional. É editor do Oxford University Press Handbook sobre o Uso da Força no Direito Internacional, que será publicado em novembro. Não podemos ficar alheios ao que ocorre no Oriente Médio, ali pode estar o estopim de uma nova guerra de proporções gigantescas. O texto é oportuno, porque Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saia) acaba de se pronunciar em Nova Iorque colocando o Brasil contra os bombardeios pelos EUA e outros na Síria. Pessoalmente, acho essa discussão como a do sexo dos anjos -- os EUA et caterva estão se lixando para o direito internacional quando se trata de defender seus interesses. Quanto à psicose do "diálogo" de Dilma NPS, gostaria de ver sua disposição para isso se marginais (= terroristas urbanos) atacassem sistematicamente sua casa e seus bens por dias ou meses seguidos.]



A ação militar dos países aliados poderia justificar-se sob o argumento de uma ação humanitária em caso extremo - (Foto: EPA/Fonte: BBC Mundo).

A série de ataques dos Estados Unidos e dos estados árabes aliados contra posições controladas pelo grupo radical autodenominado Estado Islâmico (EI) na Síria e no Iraque levantou uma série de questionamentos sobre a legalidade de tais ações, à luz do direito internacional.

A avaliação legal difere quando se trata das operações contra o EI no Iraque e as realizadas na Síria.

O governo do Iraque convidou as forças internacionais a se unirem a ele na luta contra o EI. Em consequência disso, enquanto a campanha militar se mantiver em território iraquiano pode que não seja necessário guiar-se pelo direito internacional de autodefesa coletiva. No exercício de seus direitos constitucionais, o governo do Iraque pode empregar a força militar internamente para derrotar um movimento armado que se impôs violentamente sobre uma parte importante de seu território. 

Também é certo que um governo perde seu direito de solicitar ajuda militar internacional na zona em que haja perdido controle sobre partes significativas de sua população e de seu território devido a um levantamento popular contra sua autoridade. Um governo sem o respaldo de seu próprio povo não tem direito a manter-se no poder graças a uma intervenção militar externa. Por exemplo, a solicitação no início do ano de intervenção de tropas russas feita pelo presidente da Ucrânia, Víctor Yanukovych não contou com sustento legal porquanto se produziu depois que ele havia perdido o poder de representar o Estado após produzir-se a insurreição contra seu mandato.

Do mesmo modo, o Ocidente criticou Moscou pelo contínuo envio de suprimentos ao presidente da Síria, Bashar al Assad, durante o conflito atual com a oposição armada. 

O Irã recebeu também condenações do Ocidente, pelo envio de forças armadas que tiveram um papel central na alteração do equilíbrio militar a favor do governo de Damasco. 

Isso é muito diferente do que ocorre no Iraque. O EI é um movimento sectário que se impôs sobre uma parte de um Estado através de uma campanha militar. Se tem dito que ele mantém controle sobre populações por meio do terror, de deslocamentos forçados e de assassinatos. O EI é acusado de privar os habitantes das áreas que controla dos direitos humanos consagrados internacional e constitucionalmente. 

O governo do Iraque foi recentemente reconstituído, e um de seus objetivos declarados é o de assegurar representação a todos os setores da sociedade (sunitas, xiitas e curdos). Sua legitimidade não foi posta em dúvida pelo êxito militar do EI. O novo governo está obrigado a tentar preservar a promessa constitucional de garantir os direitos humanos e defender a população frente ao EI. Portanto, pode receber qualquer tipo de apoio internacional que solicitar. Conquanto o governo de Bagdá o aprove, essa assistência pode dirigir-se também às forças peshmerga curdas no norte do Iraque, que têm desempenhado um papel chave na campanha contra o EI até o momento.

Autodefesa?

A situação das operações internacionais contra o EI na Síria é mais complexa. O governo sírio não deu consentimento formal a esse tipo de operações e, se chegasse a fazê-lo, sua boa-fé pode ser questionada. Em câmbio, o presidente Assad -- apoiado pela Rússia -- assegurou que tais ações constituem uma flagrante violação ao direito internacional.

Enquanto muitos estados, incluindo o Reino Unido, consideram a opositora Coalizão Nacional como a "legítima representação do povo sírio", esses estados ainda não a reconheceram como sendo o governo sírio. A coalizão não teria autoridade para consentir a realização de operações militares estrangeiras em solo sírio. Um argumento de maior êxito pode ser relacionar qualquer ação na Síria com o objetivo principal de apoiar o governo de Bagdá na sua campanha para liberar seu próprio território. 

O antecedente da Nicarágua

Se tem dito que não é possível derrotar o EI no Iraque a menos que se ataque a infraestrutura que suporta sua ocupação do território iraquiano, que se encontra assentada em ambos os lados da fronteira. 

De acordo com o estabelecido pela Corte Internacional de Justiça no caso da Nicarágua de 1986, no qual os Estados Unidos foram considerados culpados de violar a lei internacional ao apoiarem os rebeldes armados dos Contras, o argumento da autodefesa só pode ser invocado pelo Iraque contra a Síria se o Estado Islâmico atuar como um agente direto de Damasco e sob seu controle operativo. Mas, esse não é o caso. Na realidade, o governo sírio perdeu todo o controle sobre as zonas de seu país que estão em mãos do EI. Ainda mais, até há não muito tempo, não havia feito tentativas para desalojá-lo, deixando essa tarefa por conta dos grupos armados da oposição.

Damasco é abertamente incapaz ou não está disposta a delegar sua obrigação de prevenir as operações do EI contra o Iraque a partir de seu próprio território. Mas, este fato não implica que o Iraque deva assumir o custo dessa inação na hora de conter o EI em seu solo. Sob a doutrina da autodefesa, a zona de operações da campanha para derrotar o EI no Iraque pode ser estendida para cobrir partes da Síria fora do controle do governo sírio. 

Uma segunda linha de argumentação pode vincular-se a um chamado à autodefesa feito pelas próprias nações intervenientes. Os EUA e o Reino Unido podem argumentar que o EI representa uma ameaça à sua própria segurança. Entretanto, de acordo com o Artigo 51 do Capítulo das Nações Unidas a autodefesa só se aplica a ataques atuais ou iminentes e não a agressões possíveis ou potenciais.

O 11 de setembro

Com base nos eventos de 11 de setembro de 2001 e da perda de vivas e da destruição que originaram, houve a aceitação de que a ação de um grupo beligerante -- não necessariamente um estado -- pode ser considerada como um "ataque armado", segundo a definição do  Artigo 51.

Os EUA invocaram a autodefesa com relação às suas próprias forças baseadas em Erbil, no Iraque, quando elas foram ameaçadas por um avanço do EI. 

Entretanto, não há esse tipo de força em desdobramento na Síria.



As perdas de vidas e materiais durante os atentados de 11 de setembro alteraram a noção de autodefesa - (Foto: Getty/Fonte: BBC Mundo).

Seria mais difícil assinalar o risco de um ato terrorista específico ou iminente contra os EUA ou o Reino Unido proveniente do EI na Síria.

Os assassinatos recentes de reféns ocidentais provocam indignação, e as ações de resgate voltadas para sua libertação são claramente legais. Não obstante, uma agressão a indivíduos capturados, apesar do horrenda que possa ser, não é considerada legalmente um ataque armado contra seu países de origem e não justifica invocar o direito de autodefesa. 

Pode-se discutir que o EI representa uma clara ameaça de terrorismo, dadas a virulência de sua ideologia antiocidental e sua capacidade de planejar operações a partir dos territórios que ocupa. Essa visão forçaria a adoção do conceito tradicional de autodefesa.

No entanto, na reunião de cúpula de 5 de setembro em Gales a Otan -- uma aliança para operações defensivas emoldurada no Artigo 51 -- declarou com referência ao EI que "se a segurança de algum dos aliados se vir ameaçada não duvidaremos em tomar todos os passos necessários para assegurar nossa autodefesa coletiva". 

Entretanto, o argumento da autodefesa pode ser fortalecido pela cooperação de nações chaves na região para operações contra a Síria. Jordânia, outro vizinho imediato, denunciou incidentes que envolvem o EI em sua fronteira, e reivindica seu direito a assegurar sua própria segurança.  Apesar disso, no sentido mais restrito, o direito à autodefesa se limita ao que faça falta para frear um ataque armado em curso ou iminente do EI contra seus vizinhos. Contudo, a Jordânia poderia ao menos assinalar a série de incursões e ataques [do EI] e teria que argumentar que essas ações só podem ser detidas se o EI for derrotado na Síria.  

Intervenção humanitária

Finalmente, é possível também fundamentar um chamado à ação devido às ações do EI na Síria. O governo sírio está obrigado a proteger sua população de crimes contra a humanidade cometidos em seu território. Inequivocamente, não está em condições de fazê-lo dado que perdeu o controle das áreas ocupadas pelo EI. 

É por isso que a ação internacional pode adaptar a doutrina de intervenção humanitária para libertar a população atemorizada pelo cerco do movimento extremista. A ação da força por motivos humanitários foi empregada em mais de 20 casos desde o fim da Guerra Fria.

Ações humanitárias unilaterais?

Cabe destacar que, na maioria dessas experiências, um mandato das Nações Unidas ofereceu uma justificativa jurídica para o que se fez. Vista a situação atual, na presente circunstância seria bastante provável um veto da Rússia. 

As ações humanitárias unilaterais seguem sendo debatidas entre nações e acadêmicos. Entretanto, a prioridade dos direitos das pessoas sobre doutrinas abstratas de soberania torna possível justificar-se uma ação em circunstâncias extremas de necessidade humana. Neste momento, apesar da série de severas violações de direitos humanos, não está totalmente claro se se chegou a esse ponto. 

A situação da população local

Relatórios sobre um preocupante aumento de refugiados chegando à Turquia e outros países vizinhos, provenientes de áreas controladas pelo EI, sugerem que possa apresentar-se um caso de extrema necessidade humanitária nas próximas semanas. Em todo caso, atingido esse ponto estaria em discussão a motivação dos estados interventores. 

Pareceria que o interesse atual dessas nações se fundamenta mais na segurança regional e em sua própria segurança, frente a ameaças do EI, do que em aliviar o sofrimento da população local. Tampouco está claro quem ocuparia o lugar do EI se este grupo for forçado a sair do território sírio: seria o governo, a oposição ou inclusive uma força internacional por um curto período?

Tal como foi o caso com o mandato da ONU para proteger a população líbia da carnificina desatada por Muamar Gadafi em 2011, o tema se veria mesclado com a crescente campanha "por uma mudança de regime" na Síria. 

Em resumo, sem formar uma aliança incômoda com o governo Assad, o argumento mais sólido para respaldar uma ação contra o EI na Síria é fazê-la complementar à atual campanha no Iraque. Isso poderia estender-se a outras nações afetadas, como a Jordânia. 

Perigo de extermínio



A doutrina não está clara em casos como o do EI - (Foto: AP/Fonte: BBC Mundo).

O teatro de operações pode estender-se a outras partes da Síria, tanto quanto seja estritamente necessário para concluir a campanha com êxito. A autodefesa por parte das nações que intervierem irá exigir uma definição mais ampla do que é uma ameaça iminente de operações terroristas originárias do EI na Síria, e de maiores ataques contra eles. 

Como alternativa, podem ser empreendidas ações em representação do povo sírio que se encontra em poder do EI, sempre e quando essas pessoas estejam em perigo iminente de extermínio ou de serem deslocados em massa pela força. Seria possível também uma ação se se produzir uma violação de seus direitos humanos mais fundamentais de maneira clara e contínua, conformando um crime maciço contra a humanidade.

No entanto, seria difícil que uma ação por motivos humanitários  ficasse limitada àquelas zonas sob o controle do EI. Seria necessária então uma alternativa de maior envergadura para garantir a solução do conflito na Síria.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A destruição de inestimável patrimônio cultural, histórico e arqueológico do Iraque durante a ocupação militar (2003/2011) liderada pelos EUA

Os 11 anos em que os Estados Unidos permaneceram militarmente no Iraque -- desde que invadiram o país em 20/3/2003 até a retirada de suas tropas em dezembro de 2011 -- revelaram-se não apenas um fracasso do ponto de vista estratégico, político e militar (ver postagem anterior), mas se caracterizaram também por danos irreparáveis a um patrimônio artístico, cultural, histórico e arqueológico inestimável por ação e/ou omissão das tropas americanas.

Todos os relatos disponíveis na mídia internacional e na internet sobre a ocupação americana no Iraque revelam que as tropas dos EUA não só não se preocuparam em proteger minimamente os museus e sítios arqueológicos do país, depositários de testemunhos ímpares de um período importantíssimo da história da humanidade, como em inúmeros casos elas mesmas destruíram fria, irresponsável e criminosamente vários desses locais.

Segundo um relato impressionante de Joanne Farchakh Bajjaly, uma arqueóloga independente e jornalista que cobre o Oriente Médio e estuda o patrimônio histórico iraquiana há mais de uma década,  no site BBCBrasil.com indicado acima, com a guerra -- até abril de 2005 -- o Iraque havia perdido 12 mil peças arqueológicas. Em 2003, saqueadores esvaziaram um dos museus mais importantes do mundo, o Museu de Bagdá, no centro da cidade. Contrabandistas profissionais ligados à máfia internacional de antigüidades conseguiu violar algumas das portas trancadas das salas de armazenamento do museu. Eles saquearam artefatos de valor incalculável, como a coleção inteira de selos cilíndricos do museu e um grande número de esculturas assírias de marfim. Mais de 15 mil objetos foram levados. Vários deles foram contrabandeados para fora do Iraque e oferecidos no mercado.

Até abril de 2005, 3 mil desses objetos haviam sido recuperados em Bagdá, alguns devolvidos por cidadãos comuns, outros pela polícia. Além disso, mais de 1,6 mil objetos foram confiscados nos países vizinhos, cerca de 300 na Itália e mais de 600 nos Estados Unidos. A maioria das peças roubadas não foi encontrada, mas alguns colecionadores privados no Oriente Médio e na Europa admitiram possuir objetos com as iniciais IM (número de inventário do Museu do Iraque).

Sítios arqueológicos destruídos


Um número crescente de websites também oferece artefatos da Mesopotâmia - com até 7 mil anos - para venda. Sem dúvida, há mais objetos falsos apregoados na internet do que autênticos, mas a mera existência deste mercado estimulou o saque de sítios arqueológicos no sul do Iraque.

O quadro é horrendo. Mais de 150 sítios sumérios que datam do milênio 4 a.C. – tais como Umma, Umm al-Akkareb, Larsa e Tello – foram destruídos, transformados em crateras cheias de fragmentos de cerâmica e tijolos quebrados. Se escavados de maneira apropriada, estes sítios - que, estima-se, cobrem 20 quilômetros quadrados - podem nos ajudar a aprender sobre o desenvolvimento da raça humana.

"É um desastre o que todos estamos observando, mas que pouco podemos fazer para evitar. Com a ajuda de 200 recém-recrutados policiais, nós estamos tentando acabar com os saques patrulhando sítios o quanto podemos", diz o arqueólogo responsável pelo distrito de Nasiriya, Abdul Amir Hamadani. "Mas nós agora estamos totalmente sozinhos. Tropas de carabinieri italianos são as únicas forças da coalizão trabalhando ativamente nesta questão por uns poucos meses. Eles costumavam patrulhar a região por terra e por ar. Eles pararam todas as suas operações e agora estão simplesmente ajudando a treinar guardas e policiais". Pelo visto -- digo eu e não a BBC Brasil -- os americanos e outros participantes das forças de coalizão se lixaram para o problema. Faltou-lhes e falta-lhes o sentimento da importância desse tipo de patrimônio, com que os italianos estão mais do que acostumados.

Botas pesadas

As próprias forças de coalizão danificaram sítios arqueológicos ao usá-los como bases militares. 

A retirada de tropas da coalizão da Babilônia revelou a ocorrência de danos irreversíveis a uma das sete maravilhas do mundo antigo. Um relatório alarmante do administrador do departamento de Oriente Próximo do Museu Britânico, John Curtis, conta como áreas no meio de um sítio arqueológico sofreram terraplanagem para que se criasse uma área para helicópteros e estacionamento de veículos pesados. "Eles causaram danos substanciais na Porta Ishtar, um dos monumentos mais famosos da antiguidade", escreveu Curtis.

"Veículos militares dos Estados Unidos esmagaram pavimentos de tijolos de 2,6 mil anos, fragmentos arqueológicos foram espalhados pelo sítio, mais de 12 trincheiras foram cavadas sobre depósitos da antigüidade e projetos militares de deslocamento de terra contaminaram o sítio para futuras gerações de cientistas. Soma-se a isso todo o dano causado a nove das figuras moldadas de tijolos de dragões no Portão de Ishtar por pessoas que tentaram remover os tijolos da parede".

"Não terá fim a destruição do patrimônio histórico do Iraque, a menos que os líderes do país tomem uma decisão política de considerar arqueologia uma prioridade. Por isso, a rede de comerciantes em Bagdá tem que ser apreendida, saques no sul têm que ser confrontados de maneira eficaz e as forças de coalizão têm que ser impedidas de montar bases em sítios arqueológicos", escreveu a arqueóloga Bajjaly em abril de 2005. "Quanto mais tempo o Iraque ficar em estado de guerra, mais o berço da civilização estará ameaçado. Pode nem durar o suficiente para que nossos netos aprendam com esse patrimônio".

A catástrofe piorada contra a qual a arqueóloga faz seu alerta dramático pode, infelizmente, atingir em breve seu ápice. Os extremistas sunitas do autoproclamado "Estado Islâmico do Iraque e do Levante" (ou da Síria, segundo a sigla ISIS, em inglês -- ver postagem anterior), já direcionam suas tropas concentradas no Norte e Oeste em direção à capital, Bagdá. Vejam o mapa abaixo:



O avanço do ISIS no Iraque - (Mapa: Haaretz). As posições acima refletem a situação em 12/6. Informações do The New York Times atualizadas hoje (18/6) indicam que Mosul, Tikrit e Dhuluiya (não mostrada e vizinha a Bagdá) já foram capturadas e Baiji foi parcialmente capturada pelo ISIS.


O nível de violência que tem caracterizado os combatentes do ISIS permite supor que a proteção a relíquias e sítios arqueológicos não faz parte de suas preocupações e objetivos. 

Os Estados Unidos falharam redondamente no Iraque e deixaram atrás de si o caos político, social e arqueológico. Não só não se interessaram em proteger os tesouros arqueológicos do país, como eles mesmos destruíram partes significativas e relevantes deles.

No entanto, à medida que cresce a perspectiva de uma invasão de Bagdá pelo ISIS, os EUA prontamente providenciaram uma força de mais de 250 soldados posicionados dentro e fora de Bagdá para proteger bens americanos, incluindo a embaixada americana na capital. Desse contingente 170 já chegaram ao Iraque, preparados e equipados para combate -- embora o presidente Obama insista em que não é sua intenção que quaisquer de seus soldados se envolvam em combate direto. Os americanos bravamente impedirão que os extremistas do ISIS façam com sua embaixadas e seus ativos no Iraque a destruição que eles americanos fizeram com sítios arqueológicos de Bagdá e alhures.

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Porta de Ishtar

A porta de Ishtar foi o oitavo portal da cidade mesopotâmica da Babilônia. Foi construída por volta de 575 a.C. por ordem do rei Nabucodonosor II no lado norte da cidade. Dedicado à deusa babilônica Ishtar (deusa da fertilidade, do amor e da guerra) o portal foi construído em fileiras de azulejos azuis brilhantes mesclados com faixas de baixo-relevo ilustrando sirrushs (dragões) e auroquesO teto e as portas foram feitos em cedro, de acordo com a placa dedicatória. Embora dedicasse o templo basicamente à deusa Ishtar, Nabucodonosor nele rendia tributo a outros deuses: os touros (auroques) são associados a Adad (deus do clima) e os dragões representam Marduk, o deus nacional da Babilônia.


Através do portal corria o caminho processional ladeado por paredes de 15 m cobertas por leões em tijolos envidraçados (aproximadamente 120 deles). Estátuas de divindades eram conduzidas através do portal durante as procissões uma vez por ano durante a celebração do Ano Novo. Originalmente o portal foi considerado uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, sendo substituído pelo Farol de Alexandria algumas centenas de ano à frente.


A reconstrução da Porta de Ishtar e da via processional foi feita no Museu do Antigo Oriente Próximo, uma seção do Museu Pergamon em Berlim, utilizando o material escavado por Robert Koldewey, tendo sido finalizada em 1930. Inclui também a placa de inscrição. Possui uma altura de 14 metros e extensão de 30 metros. A escavação se deu entre 1902-1914, e nela foram descobertos cerca de 14 m das fundações originais do monumento.

Devido às restrições de espaço no Museu Pergamon, a Porta de Ishtar ali reconstruída não está completa, nem tem seu tamanho original. A porta, originalmente, era um portão duplo, mas o Pergamon Museu utiliza apenas a parte frontal, que é a menor delas. O segundo portal está guardado, estocado. Uma reprodução menos da Porta de Ishtar foi construída em Bagdá em 1950 por Saddam Hussein, como entrada para um museu.

Partes do portal e leões da via processional se encontram espalhados por diversos museus ao redor do mundo. Apenas dois museus adquiriram dragões enquanto leões estão em alguns poucos museus. O Museu Arqueológico de Istambul possui leões, dragões e bois. O Instituto de Arte de Detroit abriga um dragão; o Museu do Louvre, o Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pennsylvania em Philadelphia, o Metropolitan Museum of Art em Nova York, o Instituto Oriental em Chicago, o Rhode Island School of Design Museum, o Museu Röhsska em Gothenburg, Suécia, e o Museu de Belas Artes em Boston possuem cada um, leões.


A Porta de Ishtar reconstruída em Bagdá por Saddam Hussein com elementos da porta original e danificada pelas forças de ocupação - (Foto: Google).






 




Detalhes da Porta de Ishtar reconstruída no Museu Pérgamo, em Berlim - (Fotos: Google).





















segunda-feira, 16 de junho de 2014

Iraque, mais uma trapalhada dos EUA

[Entre sua invasão -- 20/3/2003 -- e sua retirada do Iraque (dezembro/2011) os EUA permaneceram no país oito longos anos. A rigor, os americanos não atingiram seus objetivos e deixaram o país completamente desestruturado politicamente. Menos de três anos depois da saída americana, o Iraque encontra-se sob sério risco de fragmentar-se por conta da exacerbação militar do milenar conflito entre sunitas e xiitas. Reproduzo a seguir a excelente coluna da jornalista Dorrit Harazim publicada no Globo de 15/6. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Do Iraque à Arena das Dunas

Dorrit Harazim -- O Globo, 15/6/2014

Ao contrário das demais seleções, a interação dos 23 jogadores dos Estados Unidos com a população local tem sido zero

O que têm em comum a atual desintegração do Iraque como país e o isolamento da seleção americana que amanhã estreia na Copa contra Gana? Resposta: a Guerra ao Terror, deslanchada em 2001 pelo então presidente americano George W. Bush.
Desde então a National Security Agency (NSA) foi incumbida de reger boa parte da vida americana e, como revelou Edward Snowden, de bisbilhotar o resto do mundo. Entre os múltiplos desdobramentos da nova ordem, a NSA também passou a operar como se todo cidadão representando os Estados Unidos no exterior pudesse vir a ser alvo de um potencial ataque inimigo.


Isso explica a proteção tentacular reservada à seleção comandada pelo técnico alemão Jürgen Klinsmann. Hospedada até anteontem em São Paulo, de onde seguiu para Natal, a delegação americana conta com o mais forte aparato de segurança entre os 32 países representados no Mundial. Ao contrário das demais seleções, a interação de seus 23 jogadores com a população local tem sido zero.
Mantiveram fechadas as janelas dos dois andares que ocuparam no hotel Tivoli Mofarrej e dispunham de uma escolta vitaminada para percorrer os dez quilômetros de distância até o Centro de Treinamento do São Paulo F.C. A caravana somava motocicletas da Polícia de Choque da PM paulista, agentes da Polícia Federal e do Exército, a equipe de segurança trazida dos Estados Unidos. No único treino aberto que fizeram, exigência da Fifa, só entrava quem constava da lista de convidados, seguindo rigorosa revista na entrada. O repórter Fábio Hecico, do “Estado de S. Paulo”, testemunhou que nem as mochilas das crianças americanas escaparam.

Em Natal, uma reunião entre a cúpula da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande de Norte e a esquadra de agentes do Serviço Secreto americano tratou apenas do esquema de mobilidade específica durante a permanência da seleção de Klinsmann em solo potiguar.
A simulação de um ataque terrorista e de um atentado com armas químicas ou radioativas, realizado em cidades-sedes da Copa, contudo, já faz parte do protocolo mundial de todo grande evento desde a declaração de guerra ao Terror.


Pois é justamente essa guerra que os Estados Unidos estão perdendo. E de forma desconcertante. Os americanos já haviam aprendido um truísmo herdado dos anos 1950 e repetido à exaustão pelo Presidente Barack Obama: "É mais fácil começar uma guerra do que terminá-la". Como aponta o major Elliott Garrett, da Escola de Mídia e Políticas Públicas da Georgetown University, as mais recentes terminaram de forma "vaga, inglória ou sem cerimônia". Tecnicamente, por exemplo, o conflito da Coreia ainda é uma guerra, dado que as partes nunca assinaram um tratado de paz, apenas um armistício. A debandada americana no Vietnã tampouco pode ser considerada um final decente. No Afeganistão, a retirada total em 2015, após 13 anos de intervenção, será tão melancólica quanto amarga à luz dos esquálidos resultados e do elevado custo humano.

Mas nada disso preparou os americanos para a hecatombe em curso. Onze anos após atropelar e invadir o Iraque, esmagar Saddam Hussein e ocupar o país até que o novo regime xiita e suas forças de segurança fossem capazes de ficar em pé, vem o choque: o Iraque idealizado pela Guerra ao Terror está perdido.

Pior: sobre os escombros de Saddam Hussein está nascendo um Iraque terrorista, radicalmente islâmico, dominado por extremistas sunitas. Autoproclamado "Estado Islâmico do Iraque e do Levante" (ou da Síria, segundo a sigla ISIS, em inglês), suas tropas concentradas no Norte e Oeste já rumam em direção à capital, Bagdá. Armamentos não lhes faltam, visto que o Exército iraquiano treinado e equipado pelos americanos tem preferido se render a combater. Entregam tudo, até os uniformes, levando os Estados Unidos a evacuar os agentes de segurança privados que ainda treinavam aprendizes locais no uso de drones e aviões de combate.

As imagens de terroristas do ISIS avançando à luz do dia em blindados herdados das Forças Armadas dos Estados Unidos devem ser estarrecedoras para qualquer cidadão americano. Mas, para os veteranos dessa guerra inútil, em especial, a morte em combate de 4.488 companheiros de farda tem gosto ainda mais amargo. 

Há pouco ou nada que Obama possa fazer para reverter o quadro, além de aumentar o fornecimento de armas a um regime claudicante. Ou dar início a uma terceira guerra dos Estados Unidos no Iraque, o que parece fora de cogitação. Mas terá de explicar para que servem os US$ 50 bilhões anuais consumidos pelos serviços de inteligência da NSA. Não apenas foram incapazes de prever as intenções russas na Crimeia na crescente explosão da Ucrânia como se deixara, surpreender pela debacle no Iraque.

Transportada para o universo do futebol, trata-se de uma derrota político-militar comparável à que a seleção dos Estados Unidos sofreu em 1998, na França, jogando contra um país não apenas inimigo, mas visto como saído das trevas. Naquele dia em Lion, o Irã eliminou a seleção do "Grande Satã"como o regime dos aiatolás chamava os Estados Unidos, por 2 a 1.

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[Nada há a acrescentar ao excelente texto de Dorrit. Apenas para completar a história da paranóia de segurança que cerca a seleção americana de futebol em Natal, vejamos o que nos informa o Estadão de 12/6: "Curioso é que todos dentro do CT já passaram por minuciosa revista na porta de entrada. Equipamentos são verificados e ainda há o constrangimento de ser apalpado por um segurança. Guarda-chuva e líquidos são confiscados. Tudo que pode levar perigo à integridade física dos atletas, também.

Ninguém escapa. Ontem, 700 americanos foram convidados para ver o treino aberto da seleção - cerca de 150 deles foram ao CT são-paulino. Estavam com os nomes na lista, em uma turma com inúmeras crianças. E nem os pequeninos que não se cansavam de gritar "U-S-A" escaparam do esquema de segurança. Tiveram suas mochilas reviradas, "perderam" a mamadeira ou suco e não puderam adentrar ao CT com as flâmulas dos EUA por causa dos cabos de madeira que poderiam ser utilizados como arma". 

Sem comentários.]












 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O poder de controle dos EUA está diminuindo, mas eles ainda se consideram donos do mundo

[Traduzo a seguir uma reportagem do jornal britânico The Guardian, relativa a uma entrevista com Noam Chomsky. Linguista, filósofo e ativista político, Chomsky é professor de Linguística no famoso Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT) -- considerado um dos mais importantes intelectuais da atualidade, ele é famoso também por suas posições de esquerda e de ferrenho crítico da política externa americana. A frase título desta postagem, com a qual concordo integralmente, é dele. Sou seu admirador de carteirinha. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Este texto é adaptado de "Revoltas" (Uprisings), um capítulo de "Power Systems: Conversations on Global Democratic Uprisings and the New Challenges to US Empire" ["Sistemas de Poder: Conversas sobre Revoltas Globais Democráticas e os Novos Desafios ao Império Americano", em tradução direta], o livro recente de Noham Chomsky com entrevistas com David Barsamian (com agradecimentos à editora, Metropolitan Books). As perguntas são de Barsamian e as respostas, de Chomsky.

Os EUA possuem ainda o mesmo grau de controle sobre as fontes de energia do Oriente Médio como já tiveram antes?

Os principais países produtores de energia estão sob firme controle das ditaduras apoiadas pelo Ocidente. Assim, na realidade, o progresso feito pela primavera árabe é limitado, mas não é insignificante. O sistema ditatorial controlado pelo ocidente está sofrendo uma erosão. Na realidade, está passando por esse desgaste já há algum tempo. Por exemplo, se retrocedermos 50 anos, as fontes de energia -- a principal preocupação dos estrategistas dos EUA -- foram em sua maioria nacionalizadas.  Constantemente têm sido feitas tentativas para reverter isso, mas sem êxito.

Tome a invasão do Iraque, por exemplo. Para qualquer um, exceto para um ideólogo obstinado, foi completamente óbvio que invadimos o Iraque não por nosso amor à democracia mas sim porque o país é a segunda ou terceira maior fonte de petróleo do mundo, e está bem no meio de uma região que é grande produtora de energia.  Mas, não se pode dizer isso porque é considerado uma teoria conspiratória.

Os EUA foram seriamente derrotados no Iraque pelo nacionalismo iraquiano, em sua maior parte por uma resistência não violenta. Os EUA poderiam matar os revoltosos, mas não poderiam lidar com meio milhão de pessoas fazendo demonstrações nas ruas. Pouco a pouco, o Iraque conseguiu desmantelar os controles montados pelas forças de ocupação. Por volta de novembro de 2007, foi se tornando perfeitamente claro que seria muito difícil atingir as metas dos EUA. E, naquele instante, interessantemente, esses objetivos estavam explicitamente expressos. Assim, em novembro de 2007, o governo de Bush II surgiu com uma declaração oficial sobre como como teria que ser qualquer arranjo futuro com o Iraque. Ela tinha dois requisitos principais: um, que os EUA têm que ter liberdade para executar operações de combate a partir de suas bases militares, as quais ainda retêm; - e dois, "encorajar o fluxo de investimentos estrangeiros para o Iraque, especialmente os investimentos americanos". Em janeiro de 2008, Bush deixou isso claro em uma de suas declarações assinadas. Um par de meses depois, face à resistência iraquiana, os EUA tiveram que desistir e seu controle sobre o Iraque está desaparecendo à frente de seus olhos.

O Iraque foi uma tentativa de reinstituir pela força algo como o antigo sistema americano de controle, mas isso fracassou.  Acho que no geral as políticas dos EUA permanecem as mesmas, mas a capacidade de implementá-las está declinando.

Declinando por causa de fraqueza econômica?

Em parte porque o mundo está simplesmente se tornando mais diversificado, possui mais centros de poder diversificados. No final da Segunda Grande Guerra, os EUA estavam completamente no pico de seu poderio. Possuiam metade das riquezas do planeta, e cada um de seus concorrentes estava severamente prejudicado ou destruído. Desfrutavam de uma posição de inimaginável segurança, e desenvolveram planos para literalmente dirigir o mundo -- não irrealisticamente, naquele momento.

Isso foi denominado planejamento da "grande área"?

Sim. Logo após a segunda guerra mundial, George Kennan, chefe da equipe de planejamento estratégico do Departamento de Estado, e outros esboçaram os detalhes e, em seguida, eles foram implementados. O que está acontecendo hoje no Oriente Médio e no norte da África, até certo ponto, e na América do Sul remonta substancialmente aos fins dos anos 1940. A primeira grande resistência bem sucedida contra a hegemonia americana deu-se em 1949, quando se deu um evento que, interessantemente, foi chamado "a perda da China".  Esta é uma expressão interessante, nunca contestada. Houve muita discussão sobre quem é o responsável pela perda da China, isto se tornou um enorme assunto interno [nos EUA]. Mas, ela é uma expressão muito interessante. Você só pode perder algo se o possuir. Teve-se então como líquido e certo: a China é nossa -- e, se ela se mover para tornar-se independente, perdemos a China. Posteriormente, surgiram preocupações com a "perda da América Latina", a "perda do Oriente Médio", a "perda de" certos países, todas elas baseadas na premissa de que somos os donos do mundo e qualquer coisa que enfraqueça nosso controle é uma perda para nós, e ficamos imaginando como recuperá-lo.

Hoje, se você ler, digamos, publicações sobre política externa ou, em uma forma cômica e ridícula, ouvir os debates dos republicanos, eles estão indagando: "Como evitar mais perdas?"

Por outro lado, a capacidade de preservar o controle reduziu-se fortemente. Por volta de 1970, o mundo já era o que se chamava tripolar economicamente falando, com um centro industrial na América do Norte baseado nos EUA, um centro europeu apoiado na Alemanha grosseiramente comparável em tamanho, e um centro no leste asiático apoiado no Japão, que era à época a região de crescimento mais dinâmico no mundo. Desde então, a ordem econômica global tornou-se muito mais diversificada. Assim, tornou-se mais difícil levar a cabo nossas políticas, mas os princípios básicos delas não mudaram muito.

Tomemos a doutrina Clinton. Ela dizia que os EUA tinham direito a recorrer a medida de força unilateral para assegurar "acesso ilimitado a mercados, suprimentos de energia e fontes estratégicas essenciais". Isso vai além do que qualquer coisa dita por George W. Bush. Mas, foi expresso de maneira calma e não foi arrogante nem rude, por isso não provocou muito alvoroço. A crença naquele direito permanece a mesma até agora, e é também parte da cultura intelectual americana.

Logo em seguida ao assassinato de Osama Bin Laden, em meio às vibrações e aplausos, houve alguns poucos comentários críticos questionando a legalidade do que fora feito. Séculos atrás, costumava existir algo chamado presunção de inocência. Se você capturar um suspeito, ele é um suspeito até ficar provado que é culpado. Ele deveria ser levado a julgamento, isto é o coração da lei americana. Você pode rastrear isso de volta até à Carta Magna. Houve então um par de vozes dizendo que talvez não devêssemos jogar fora todo o fundamento da legislação anglo-americana. Isso gerou um bocado de reações muito irritadas e furiosas, mas as mais interessantes, como sempre, foram as vindas do extremo esquerdista-liberal do espectro político. Matthew Yglesias, um comentarista da esquerda liberal muito conhecido e altamente respeitado, escreveu um artigo em que ridicularizava esses pontos de vista. Ele disse que eles eram "surpreendentemente inocentes" e estúpidos, e depois explicou porque achava isso. E disse: "Uma das principais funções da ordem institucional internacional é precisamente legitimar o uso de forças militares letais pelas potências ocidentais". É óbvio que não se referia à Noruega, ele focava os EUA. Assim pois, o princípio em que se baseia o sistema internacional é que os EUA têm o direito de usar a força conforme a sua vontade. Falar sobre os EUA estarem violando as leis internacionais, ou algo parecido, é surpreendentemente inocente e completamente estúpido. Por falar nisso, eu era o alvo dos comentários de Matthew e sou feliz por confessar minha culpa. Eu realmente acho que a Carta Magna e as leis internacionais são dignas de alguma atenção.

Mencionei isso simplesmente para ilustrar que, na cultura intelectual, os princípios nucleares da política americana não mudaram muito, mesmo no chamado extremo esquerdo-liberal do espectro político. Mas, a capacidade de implementá-los diminuiu drasticamente. É por isso que se tem toda essa conversa sobre o declínio americano. Dê uma olhada na edição de fim de ano da "Foreign Affairs", a principal publicação do establishment. Sua vistosa primeira página primeira pergunta, em negrito: "A América está acabada?" [ou, "A América já era?"].  É uma reclamação típica daqueles que acreditam que devem ser donos de tudo. Se você acredita que deve ser dono de tudo e alguma coisa escapa de você, é uma tragégia e o mundo é visto como entrando em colapso. Então, a América já era? Há muito tempo atrás "perdemos" a China, perdemos o sudeste da Ásia, perdemos a América do Sul. Talvez percamos o Oriente Médio e os países do norte da África. A América já era? Isto é um tipo de paranoia, mas é a paranoia dos super-ricos e dos super-poderosos. Se você não possuir tudo, é um desastre.

O New York Times (NYT) descreve "o dilema de definição da política da primavera árabe como sendo a busca de como harmonizar impulsos contraditórios dos EUA, incluindo apoio para mudança democrática, um desejo por estabilidade e cautela com islamitas que se tornaram politicamente poderosos". O NYT identifica três objetivos dos EUA. O que você acha deles?

Dois deles estão corretos. Os EUA são a favor da estabilidade, mas é preciso lembrar do que significa estabilidade. Estabilidade significa concordância com as ordens dos EUA. Assim, por exemplo, uma das acusações contra o Irã, a grande ameaça na política externa, é que está desestabilizando o Iraque e o Afeganistão. Como? Tentando expandir sua influência em direção a países vizinhos. Por outro lado, nós "estabilizamos" países quando os invadimos e os destruímos.

E, ocasionalmente, citei uma das minhas maneiras favoritas de ilustrar isso, que é da autoria de um famoso e muito bom analista liberal de política externa, James Chace, um ex-editor da Foreign Affairs. Escrevendo sobre a deposição do regime de Salvador Allende e a imposição da ditadura de Augusto Pinochet em 1973, ele disse que tivemos que "desestabilizar" o Chile no interesse da "estabilidade". Isso não é entendido como uma contradição -- e realmente não é. Tivemos que destruir o sistema parlamentar chileno para ganhar estabilidade, isto significando que fariam o que mandássemos que fizessem. Assim, pois, somos a favor da estabilidade nesse sentido técnico.

Preocupação com o Islã político é simplesmente igual à preocupação com qualquer desenvolvimento independente. Você tem que se preocupar com qualquer coisa que seja independente, porque ela pode destruir você aos poucos. Na realidade, isso é um pouco paradoxal porque tradicionalmente os EUA e o Reino Unido têm, geralmente, prestado forte apoio ao fundamentalisno islâmico radical, não ao Islã político, como uma força para bloquear o nacionalismo secular, que é a preocupação real de ambos. Assim, por exemplo, a Arábia Saudita é o estado mais extremadamente fundamentalista no mundo, um estado islâmico radical -- tem um zelo missionário, está levando o islamismo radical ao Paquistão e está financiando o terror, mas, é o baluarte da política dos EUA e do Reino Unido, que o têm apoiado de forma consistente do Egito de Gamal Abdel Nasser ao Iraque de Abd al-Karim Qasim, entre muitos outros. Mas, ambos não gostam do Islã político porque ele pode tornar-se independente.  [A mais recente novidade nessa relação espúria é a descoberta de uma base secreta de Vants (Veículos aéreos não tripulados, os drones) dos EUA na Arábia Saudita.]

O primeiro dos três pontos, nosso anseio por democracia, está mais ou menos no mesmo nível de Joseph Stalin falando sobre o compromisso russo com autodeterminação, democracia e liberdade para o mundo. É o tipo de declaração da qual você ri quando a ouve da boca de comissários [no sentido soviético ou russo da palavra] ou clérigos iranianos, mas para a qual você acena polidamente com a cabeça, e talvez até com admiração, quando a ouve das contrapartes ocidentais.

Se você observar os registros históricos, o anseio por democracia é uma piada de mau gosto. Isto é reconhecido até por acadêmicos de ponta, embora não o façam dessa maneira. Uma das maiores autoridades acadêmicas na denominada promoção de democracia é Thomas Carothers, que é bastante conservador e tido em alta conta -- um neo-reaganista, não um liberal inflamado.  Ele trabalhou no Departamento de Estado de Reagan e escreveu vários livros analisando o curso da promoção de democracia, que ele leva muito a sério. Ele diz ok, isso é um ideal americano profundamente arraigado, mas tem uma história engraçada. A história é que todo governo dos EUA é "esquizofrênico". Eles apoiam a democracia apenas quando ela está de acordo com certos interesses estratégicos e econômicos.  Ele descreve isso como uma patologia estranha, como se os EUA necessitassem de tratamento psiquiátrico ou algo parecido. Obviamente, há outra interpretação, mas é uma que não pode ser lembrada se você for um intelectual bem-educado e bem comportado.

Vários meses após a derrubada do presidente Hosni Mubara no Egito, ele estava sendo julgado e enfrentando acusações de crimes e prisão. É inconcebível pensar-se que líderes dos EUA sejam alguma vez detidos para responder por seus crimes no Iraque ou alhures. Isso mudará em algum futuro próximo?

Esse é basicamente o princípio Yglesias: a base fundamental da ordem internacional é que os EUA tenham o direito de usar a violência à sua vontade. Se é assim, como é que se pode acusar alguém?

E ninguém mais tem esse direito [do uso indiscutível da força]?

Claro que não. Bem, talvez nossos clientes o tenham. Se Israel invadir o Líbano, matar 1.000 pessoas e destruir metade do país, OK, está tudo bem. É interessante. Barack Obama foi um senador antes de ser presidente. Não fez muito como senador, mas fez um par de coisas, incluindo uma da qual se sente particularmente orgulhoso. De fato, se você olhasse em seu website antes das primárias veria que Obama destacava o fato de, durante a invasão do Líbano por Israel em 2006, ter co-patrocinado uma resolução do Senado demandando que os EUA não fizessem nada para impedir as ações militares de Israel até que elas tivessem atingido seus objetivos, e censurando o Irã e a Síria porque estavam apoiando a resistência contra a destruição do sul do Líbano por Israel. Por sinal, pela quinta vez em 25 anos. Assim, eles herdaram o direito [do uso da força à sua vontade].  Outros clientes também.

Mas, na realidade, esse direito tem sede em Washington. Isso é o que significa ser dono do mundo. É como o ar que você respira, você não pode questioná-lo. O principal fundador da teoria contemporânea das RI (Relações Internacionai), Hans Morghentau, era na realidade uma pessoa bastante decente, um dos raros cientistas políticos e especialistas em assuntos externos a criticar a guerra do Vietnam sob o ponto de vista moral, não tático. Algo muito raro. Ele escreveu um livro chamado "O Objetivo da Política Americana" (The Purpose of American Politics). Você já sabe o que ele traz. Outros países não têm objetivos. O objetivo da América, por outro lado, é "transcedental" -- levar liberdade e justiça para o resto do mundo.  Mas, ele [Morghentau] é um bom acadêmico, como Carothers. Então, vasculhou os arquivos. Ele disse que, quando você examina esses arquivos, é como se os EUA não vivessem à altura de seus objetivos transcendentais. Mas, diz ele então, criticar nossos objetivos transcendentais é "cair no erro do ateísmo, que nega a validade da religião com base nas mesmas razões" -- que é uma boa comparação. É uma crença religiosa profundamente arraigada -- tão profundamente, que será difícil desemaranhá-la. E se alguém questionar isso, gera-se uma quase-histeria e, frequentemente, acusações de antiamericanismo ou de "ódio à América" -- conceitos interessantes que não existem em sociedades democráticas, mas em regimes totalitários e aqui [nos EUA], onde são simplesmente considerados como indiscutíveis.