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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Os seres humanos mais antigos estão na Austrália

[Traduzo a seguir reportagem de Javier Sampedro publicada no jornal espanhol El País.]

O professor Eske Willerslev fala com anciões aborígenes no sudoeste da Austrália - (Foto: Preben Hjost/Mayday Film)

Há populações humanas que até agora se viram pouco representadas nos estudos genômicos, como os primeiros povoadores da Austrália. Uma falha, porque a primeira leitura do genoma de 83 aborígenes daquele continente e de outras 25 pessoas de Papua Nova Guiné resultou em um tesouro científico. Os aborígenes australianos diferem entre si tanto como um espanhol de Cádiz difere de um chinês de Pequim. Isso implica que faz muito, muito tempo que os aborígenes ocuparam a Austrália, tanto que são a população viva mais antiga do planeta, e que saíram da África antes que o resto da humanidade.

Saber quantas vezes a humanidade saiu da África, quando ocorreram essas migrações e o que ocorreu com elas são perguntas essenciais sobre o passado de nossa espécie. Os cientistas apresentam agora em quatro pesquisas na revista Nature a melhor resposta que o conhecimento atual permite. O chefe de um dos trabalhos, Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague, garante que a pesquisa "foi fascinante, porque os aborígenes australianos são a população viva mais antiga da Terra". 

A comparação dos genomas aborígenes com os dos resto da humanidade, incluindo seus vizinhos asiáticos e oceânicos mais próximos, mostra que "emigraram da África antes" que os demais humanos modernos, há 60.000 anos ou mais, quando as atuais Austrália e Papua ova Guiné estavam unidas. Muitos milênios depois, quando o aumento do nível do mar isolou a Guiné da Austrália, os dois grupos interromperam seu fluxo genético -- deixaram de ter sexo -- resultando daí que sua distância genética á agora semelhante à que separa europeus e asiáticos orientais.

Mas, nem sequer a dos aborígenes foi a primeira migração de humanos modernos fora da África. Em outra pesquisa, Luca Pagani e seus colegas do Biocentro Estoniano de Tartu mostram que os atuais habitantes de Papua Nova Guiné carregam em seu genoma sinais apreciáveis (mais de 25% do DNA)de uma população humana mais antiga ainda, um grupo humano que se separou dos africanos antes que os euroasiáticos o fizessem.

Os cientistas estonianos deduzem que esses fragmentos genômicos provêm do sexo que deve ter havido entre os ancestrais dos papuanos e uma migração que fez o mesmo trajeto muito antes: saiu da África há uns 120.000 anos. As quatro pesquisas apresentadas na Nature estão assinadas por equipes de pesquisa genômica de 35 países, incluindo a Espanha. Elas revelam a complicação que a genômica está imprimindo à história do Homo sapiens, como já havia feito com os hominídeos.

Prossigamos com as perguntas: de onde  viemos? A resposta é: da África. Os primeiros ossos iguais aos nossos estavam ali há 150.000 anos. Mas, por que não saímos da África até dezenas de milênios depois, talvez 100.000 anos depois? Isso representa muito tempo, muito mais que a totalidade da nossa existência fora do continente que nos viu nascer. Os Homo sapiens originais só nos assemelhavam na aparência? Tinham ainda que evoluir seu cérebro até os nossos padrões? Extinguiram-se aqueles humanos "anatomicamente modernos", como se costuma chamá-los para sublinhar que eram mais idiotas do que nós?

Parece que não. David Reich, da Universidade de Harvard, e seus colegas apresentam também na Nature os genomas de 300 pessoas de 142 populações que, assim como os aborígenes australianos, estavam pouco representados nos estudos da variedade humana. Seu principal achado é muito marcante: demonstra que os humanos atuais começamos a divergir há 200.000 anos. Isso encaixa com a data de datação dos primeiros crânios iguais aos nossos. E confirma que nossos primeiros pais não se extinguiram, mas sim que seguem vivendo em nosso genoma.

A equipe de Harvard exibe sua sofisticação matemática com um dado assombroso: a velocidade de mutação genética aumentou cerca de 5% desde que saímos da África. A explicação para isso é curiosa: o tempo entre gerações diminuiu desde então, isto é, temos filhos quando somos mais jovens do que nossos ancestrais africanos. Quanto mais um indivíduo se reproduz, mais oportunidades de mutação permite aos filhos. Daí que os vírus sejam os regentes da evolução na Terra.

A espécie que fugia do frio

A teoria original out of Africa (fora da África) postulava que toda a humanidade atual que vive fora desse continente provém de um pequeno grupo de Homo sapiens que saiu dali há uns 50.000 anos. Os cientistas consideram agora que não houve uma, mas quatro migrações para fora da África que ocorreram ao longo dos últimos 120.000 anos. E que as quatro tiveram relação com as mudanças climáticas associadas às variações da órbita terrestre.

Segundo o modelo construído por Axel Timmermann e Tobias Friedich, da Universidade do Havaí em Honolulu, as migrações representam quatro ondas associadas às grandes formações glaciais desse período, que abarcaram estes quatro intervalos: 106.000-94.000; 89.000-73.000; 59.000-47.000 e 45.000-29.000 anos atrás. Os resultados de seu modelo se encaixam muito bem com os dados paleontológicos e arqueológicos. 

O destino da humanidade parece assim estar, depois de tudo, escrito nas estrelas, como diria um poeta antigo. Porque esses ciclos gelados foram causados diretamente pelas alterações da órbita terrestre. Outras mudanças climáticas de menor escala se associam a migrações de população de um caráter mais local.


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Caminho Inca, a estrada milenar que ajudou a criar e a destruir um império

[Os incas criaram uma civilização fantástica e admirável, que nos surpreende até hoje com seu alto conteúdo cultural e tecnológico. Isso é mais uma vez comprovado pela reportagem traduzida abaixo, de autoria de Jane O'Brien, da BBC Washington, que foi publicada no site BBC News. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]


O Caminho Inca, construído inteiramente à mão, é uma verdadeira obra de engenharia - (Foto: Doug McMains)

Construtores que morreram há muito tempo têm a resposta para o desenvolvimento rodoviário mais sustentável? Uma nova exposição no Museu Smithsoniano em Washington (EUA) mostra porque o império inca construiu uma infraestrutura duradoura.

O Caminho Inca é uma das obras de engenharia mais extraordinárias do mundo. No século XVI, ajudou a transformar um pequeno reino no maior império do hemisfério ocidental. E, para inveja dos engenheiros modernos, trechos substanciais da rede de 39.000km sobrevivem no dia de hoje, unindo centenas de comunidades através de Argentina, Bolívia, Chile, Equador e Peru. Incrivelmente, ela foi toda construída inteiramente à mão, sem ferro ou transporte com rodas.

Uma exposição no Museu Nacional dos Índios Americanos é o resultado de sete anos de pesquisas, que concluíram que os incas tinham muito conhecimento prático sobre a água.

"Quando se vê Machu Picchu, no Peru -- essa estrutura maravilhosa no topo de uma montanha que milhões de turistas visitam todos os anos -- o que a maioria das pessoas não vê e infelizmente tampouco sabe é que debaixo dela existe uma verdadeira maravilha", diz José Barreiro, um dos curadores da exposição O Grande Caminho Inka (o museu Smithsoniano usa a forma quíchua para a palavra "inca"). [Ver postagem anterior sobre Machu Picchu].

Foto: Doug McMains

As construções de pedra de Machu Picchu estão localizadas sobre um complexo sistema de irrigação de galerias e canais, que controlam o fluxo de água em direção a fontes que funciona ainda hoje. E embora arqueólogos saibam disso há algum tempo, a exposição revela a extensão do conhecimento que os incas possuíam sobre a água e como aplicaram a mesma tecnologia à construção de estradas.

"Todos os anos, a água destrói muitas estradas modernas. Mas, as estradas incas tendem a resistir e sobreviver", diz Barreiro.

José Barreiro diz que as estradas incas tendem a ter uma duração incrivelmente longa - (Foto: AP)

"As construções foram feitas prevendo a possibilidade de eventos sísmicos, e é isso que os engenheiros de hoje têm interesse de estudar -- como podemos nos beneficiar desse conhecimento". 

Sustentabilidade foi a chave para o  sucesso. Os incas eram atentos às condições locais, utilizando materiais locais e trabalhando com a paisagem.

Em terrenos escarpados, construíram degraus para dissipar a energia das águas e conter a erosão. Nas altitudes elevadas, pavimentaram as estradas com pedras locais para proteger a superfície contra o gelo e a neve derretida, e quando necessitavam de muros de contenção deixavam buracos para a drenagem de água.

"Os incas se preocuparam com a preservação do meio ambiente, e as estradas são uma parte da Mãe Natureza", diz Ramiro Matos, chefe dos curadores da exposição e um nativo que fala o quíchua. Ele cresceu transitando pelas estradas incas (também conhecidas como Qhapaq Nan) no altiplano central do Peru, e diz ter uma conexão forte com elas. 

A Unesco declarou o Caminho Inca um Patrimônio da Humanidade em 2014  - (Foto: Smithsonian Institute)

"A estrada não é apenas uma via física", diz ele. "É uma estrada cosmológica, e pessoas de hoje a consideram uma estrada com vida, viva". 

"Os Kallawaya (doutores itinerantes da Bolívia) ainda usam a estrada para caminhar e reciclar suas energias. Eles dizem que a estrada tem um espírito". 

O centro espiritual e a capital do império era Cusco, no sudeste do Peru. Todas as estradas se originavam nessa cidade. Ao longo das rotas, todos os lugares sagrados eram marcados com wakas [uma classe de objetos sagrados]-- afloramentos de pedras, edifícios ou até a confluência de rios, que serviam de altares para a Pachamama (Mãe Terra) ou para Inti (o deus sol). 

Muitas dessas tradições continuam ainda hoje, e parte da exposição explora a maneira pela qual a estrada ainda une povos de diferentes etnias ao longo da vasta região andina. "Contactamos os descendentes dos incas e conversamos com eles sobre como se sentem quanto à estrada e ao seu significado", diz Matos. "Tínhamos a investigação histórica, agora temos a história oral". 


Dois moradores passam pelo Caminho Inca próximo a Jujuy, na Argentina - (Foto: Axel Nielsen)

A exposição revela um lado diferente dos incas, que são mais frequentemente lembrados por seu notório desejo por sangue e sua predileção por sacrifícios humanos. Mas, retratá-los como ambientalistas não nega suas características menos atraentes.

"Não estamos passando a imagem de que há culturas perfeitas", diz Barreiro. "Mas nosso foco foi afastar o macabro e olhar para os outros 90% da vida, como era organizada e a genialidade e o ímpeto dos incas para executar essa tarefa em particular [de construir o Caminho]". 

Ele diz que a sociedade inca era certamente "severa/rigorosa" mas, no seu âmago, era uma filosofia de reciprocidade. Os incas devolviam à natureza o que ela lhes dava, e cada um sabia seu papel na comunidade. "Todo o meio ambiente estava vivo. Tudo, das pedras para os animais, para o cosmos, necessitava de algum tipo de interação com um ser humano, fosse em orações, conectividade ou apreço". 

"Tudo era organizado e regulado pelo Estado. Você tinha os controladores do Caminho, os controladores das pontes e os khipu -- um dispositivo provido de nós que fazia o acompanhamento das pessoas que transitavam pela estrada, dos produtos que por ela circulavam, organizava censos das pessoas e das notícias de todas as partes do império". [Para mais informações sobre os khipus, ver postagem anterior.]

Exemplos de khipus e de 140 outros objetos -- alguns com mais de 2.000 de existência -- estão incluídos na exposição do Smithsoniano para ajudar a ilustrar o desenvolvimento do Caminho Inca e de seus conceitos espirituais. 


Um khipu da era inca, um dispositivo para contabilidade e controle - (Foto: BBC News)


Detalhe de um khipu da era inca - (ver postagem anterior)

Caixa de um fabricante de khipu - (ver postagem anterior)

Mas, ironicamente, foi o Caminho Inca que acelerou o desaparecimento de seus criadores. 

Quando os espanhóis chegaram à costa do Pacífico em 1532, o império estava enfraquecido pelas lutas internas e pela varíola. E a mesma estrada que havia dado aos incas acesso sem precedentes a cada parte de seu reinado, agora permitia o mesmo para os conquistadores espanhóis. 

Em um ano os invasores haviam consolidado seu poder e retirado o poder de Cusco, estabelecendo Lima como a nova capital colonial. O Qhapac Nan foi relegado ao abandono. Rotas que haviam sido vitais para as comunidades incas foram ignoradas pelos espanhóis, que estavam mais  interessados em ter acesso as minas de ouro e prata do império que havia desmoronado. 

Mas o Caminho Inca permanece vivo, combinando história com seu novo propósito.  



   




quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Kaiowás recebem proteção policial 24h, após desaparecimento de cacique

A reportagem abaixo nos dá um claro exemplo da maneira amadora e/ou irresponsável como a questão do índio é tratada no Brasil. Certas tribos ou "nações" indígenas recebem reservas de terras absurda e inaceitavelmente enormes (maiores até que muitos países), outras perdem suas terras, mas em ambos os casos a proteção ao índio é falha sob qualquer aspecto, e o governo nunca consegue se antecipar para evitar os conflitos e problemas.

A tensão no acampamento Guarani Kaiowá instalado em uma fazenda no Mato Grosso do Sul levou a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República a oferecer proteção policial ininterrupta para o grupo de indígenas que ocupa o local. Os Kaiowás dizem que na sexta-feira seu acampamento foi atacado por um grupo de sete homens que teriam matado o cacique Nisio Gomes e levado seu corpo. Mas ainda pairam dúvidas sobre o que ocorreu exatamente porque a Polícia Federal decidiu tratar o caso como de “desaparecimento ou sequestro”, pois a perícia não encontrou no local provas conclusivas de que uma morte tenha ocorrido.

“Nós viemos aqui hoje para dizer aos índios e às índias que esse tipo de coisa não voltará a acontecer”, disse o secretário-executivo da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Ramaís de Castro, que veio de Brasília para uma visita à área atacada. “A partir de hoje (quarta-feira) já teremos uma equipe da Força Nacional de Segurança que vai ficar exatamente aqui onde estamos, na entrada da fazenda que eles estão ocupando, para impedir que qualquer violência seja perpetrada contra os indígenas,” disse.

A fazenda de soja é uma área regularmente arrendada a um produtor local mas os indígenas argumentam que trata-se de terra tradicional dos Guarani Kaiowá, que teriam sido expulsos violentamente dali nos anos 70. “Meu pai foi expulso daqui com a família dele quando tinha sete anos de idade. Mas para nós a terra onde nós nascemos, o Tekoha, é muito importante e por isso meu pai voltou para cá”, disse o filho do cacique Nisio Gomes, Genilton Gomes, de 29 anos, que na ausência do pai assumiu a liderança política do grupo e também as responsabilidades espirituais dele como “rezador” da comunidade.

O indígena diz que não tem mais nenhuma esperança de ver o pai vivo, porque os sobrinhos que estavam com o cacique no momento do ataque teriam dito que ele foi baleado três vezes no peito com uma espingarda calibre 12 antes de seu corpo ser recolhido e jogado numa pick-up. “Quando encontrarmos o corpo do meu pai vamos enterrá-lo aqui mesmo, onde já está enterrado meu bisavô”, afirma Genilton. “E nós também vamos ficar aqui. Essa terra é nossa".

Mas apesar da certeza dos indígenas – que dizem que seus rezadores já fizeram até contatos com o cacique no plano espiritual – a Polícia Federal diz que não encontrou na área indícios de que de fato tenha ocorrido um assassinato. “A quantidade de sangue que a perícia encontrou no local não condiz com o sangramento que teria ocorrido caso ele houvesse sido baleado no peito como foi dito”, disse o superintendente da PF no Mato Grosso do Sul, Edgar Paulo Marcon, que veio à região acompanhar o inquérito. “Além disso não encontramos nenhum cartucho de arma letal no local do ataque mas apenas cartuchos de balas de borracha".

Mas o delegado Marcon diz que, na visão da polícia, as incertezas sobre como os fatos se desenrolaram não diminui a gravidade do caso. “Claramente houve um ataque contra os indígenas e nós vamos perseguir e punir os responsáveis por isso". O secretário-executivo Ramaís de Castro diz que o Governo Federal tem visão semelhante. “Claro que apenas a efetiva demarcação das terras indígenas vai poder resolver essa questão mas a mensagem que o governo federal quer passar é de que não será tolerada violência em hipótese alguma nesses casos de conflito fundiário".

Genilton Gomes (ao centro), filho do cacique desaparecido Nísio Gomes - (Foto: BBC Brasil).

Reserva Kaiowá ganhou policiamento 24h - (Foto: BBC Brasil).

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Ritual de tribo brasileira é indicado a patrimônio da Unesco

Um ritual de um povo indígena brasileiro, voltado para "manter a ordem social e cósmica", foi indicado para integrar uma lista de patrimônios culturais imateriais "em necessidade urgente de proteção" elaborada pela Unesco, a agência da ONU para a educação e a cultura.

O yaokwa é a principal cerimônia do calendário ritual dos enawenê-nawê, povo indígena cujo território tradicional fica no noroeste do Mato Grosso. O ritual, que marca o início do calendário enawenê, dura sete meses e é realizado com a saída dos homens para realizar uma pesca coletiva com o uso de uma barragem e de armadilhas construídas com cascas de árvore e cipós. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou o ritual Yaokwa como bem cultural em 2010. Segundo dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), o povo enawenê-nawê - que fala a língua aruak - é formado por cerca de 560 integrantes.

A partir desta quarta-feira, a comissão intergovernamental da Unesco pela salvaguarda do patrimônio cultural imaterial se reúne em Bali, na Indonésia, para avaliar os rituais e tradições indicados para ser protegidos. A reunião se encerra no próximo dia 29.

O Brasil país conta com 18 bens inscritos na lista do Patrimônio Mundial da Unesco. Entre o patrimônio imaterial, dedicado a tradições orais, cultura e a arte populares, línguas indígenas e manifestações tradicionais, estão as Expressões Orais e Gráficas dos Wajãpis do Amapá e o Samba de Roda do Recôncavo Baiano. Se entrar na lista, o ritual dos enawenê-nawê passará a contar com apoio da entidade na sua preservação.

Muitas atividades da Unesco estão prejudicadas desde que os Estados Unidos retiraram o seu financiamento da agência, depois que ela aceitou a Palestina como Estado-membro pleno.

Com o ritual Yaokwa, os enawenê-nawê acreditam entrar em contato com seres temidos que vivem no subterrâneo, os yakairiti, cuja fome deve ser saciada com sal vegetal, peixes e outros alimentos derivados do milho e da mandioca, a fim de manter a ordem social e cósmica. Para a realização do ritual, os indígenas se dividem em dois grupos: um que fica na aldeia junto às mulheres, preparando o sal vegetal, acendendo o fogo e oferecendo alimentos, e outro que sai para a pesca, com o objetivo de retornar para a aldeia com grandes quantidades de peixe defumado, que é oferecido aos yakairiti.

Os indígenas realizam a pesca em rios de médio porte da região. Com os peixes e os demais alimentos, os enawenê-nawê realizam banquetes festivos ao longo de meses, acompanhados de cantos com flautas e danças.

Além do yaokwa, outro ritual indicado para proteção urgente na América do Sul é o eshuva, composto pelas orações cantadas do povo huachipaire, do Peru. A lista de proteção urgente também inclui como indicados a dança saman, da província indonésia de Aceh, as tradições de relatos de histórias no nordeste da China e o "encantamento de camelos" da Mongólia, no qual as pessoas cantam para as fêmeas, a fim de persuadi-las a aceitar os filhotes de camelo órfãos.

Já para a lista representativa de patrimônio cultural imaterial da humanidade (sem indicativo de necessidade urgente de proteção), são indicados, pela América do Sul, o conhecimento tradicional dos xamãs jaguares de Yurupari (Colômbia) e a peregrinação ao santuário do senhor de Qoyllurit’i (Peru). Outras tradições indicadas pela Unesco são as marionetes de sombras chinesas, o kung-fu dos monges Shaolin (China), a porcelana de Limoges (França), a música dos mariachis mexicanos e o fado (música tradicional portuguesa).

 Lista de indicados inclui cerimônia do povo enawenê-nawê - (Foto: acervo Iphan).

Indígenas constroem barragem para pesca; alimentos servem de oferenda - (Foto: acervo Iphan).

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A Nação Cherokee (EUA) decidiu expulsar os negros descendentes de escravos

 Eis mais um caso inusitado de discriminação racial envolvendo os EUA.


O governo americano está em conflito com a Nação Cherokee, por causa de sua decisão de expulsar de sua sociedade os descendentes de escravos negros.  A tribo, a segunda maior do país, revogou a cidadania indígena de 2.800 membros negros na semana passada. De acordo com informação da Associated Press, essa atitude priva os expulsos de assistência médica, auxílio alimentação, e outros serviços.

Essa medida seguiu-se a uma decisão da Suprema Corte da tribo, que confirmou uma emenda constitucional de 2007 (da Constituição Cherokee) que limita a Nação Cherokee a aqueles que têm sangue Cherokee. Isto gera a exclusão dos descendentes dos escravos que eram posse de Cherokees abastados, até serem libertados depois da Guerra Civil.  Em um tratado de 1866 entre a tribo e o governo americano, foi garantida a esses libertados a plenitude dos direitos tribais.

Em resposta à exclusão, o Birô (federal) de Assuntos Indígenas (BIA, em inglês) avisou nesta semana que não reconhecerá nenhuma ação ou eleição pela tribo que não inclua os descendentes dos libertados e respeite seus direitos. Os líderes da Nação Cherokee revidaram, dizendo que as listas de cidadãos (em condições de votar e serem votados) são um assunto de soberania tribal. "A Nação Cherokee não recebe ordens do BIA", disse o principal chefe da tribo em comando.

Como aponta o Guardian, essa querela ressuscita alguns dos piores capítulos da história americana. Há sempre algo deprimente quando se vê um grupo historicamente ultrajado eliminando ou excluindo os direitos de outro grupo. E há a ironia de se ter o governo americano advertindo nativos americanos a devolver a uma minoria civilmente cassada os direitos que lhe são de direito.

Na quarta-feira surgiu a esperança de que essa confusão possa ser resolvida em breve, quando a procuradora-geral da Nação Cherokee, Diane Hammons, concordou com uma petição de um advogado de Oklahoma para que a Suprema Corte (Cherokee) reconsidere sua decisão. "A nação considera que uma reabertura do caso ... serve aos seus melhores interesses", escreveu ela, segundo o jornal Tulsa World

Homens e mulheres Cherokee (Foto: Wikimedia Commons).

Em 2007 os Cherokees aprovaram uma emenda à sua Constituição que exige que os membros da tribo tenham sangue Cherokee (Foto: Brendan Smialowski/AFP/Getty Images).

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Governo quer fazer testes de HIV, hepatite e sífilis em todos os índios do país

Eis uma notícia altamente meritória, digna de aplausos -- resta esperar que a atitude do governo não se limite apenas ao diagnóstico da situação de nossos índios, mas prossiga com seu tratamento e cura. Onde confirmada a doença, é preciso atacar o foco de onde se origina.

O governo lança neste mês um programa destinado a realizar testes rápidos de HIV, sífilis e hepatites B e C em todas as aldeias indígenas do Brasil. A ação pretende examinar, até o fim de 2012, todos os índios brasileiros com mais de dez anos – idade média para o início da vida sexual no grupo – e encaminhar para o tratamento os que obtiverem resultados positivos.

Segundo o secretário especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde, Antônio Alves de Souza, resultados de um projeto piloto do programa, aplicado em 46 mil indígenas do Amazonas e de Roraima, indicaram níveis "preocupantes" de HIV e sífilis. A prevalência de sífilis na população indígena avaliada foi de 1,43%, inferior à média do resto do país (2,1%), ao passo que a de HIV foi de 0,1%, ante 0,6% da média nacional. Para Souza, ainda que inferiores aos índices nacionais, ambos os dados exigem atenção por demonstrar que há transmissão dos vírus mesmo em populações isoladas, o que indica que seus integrantes mantêm contato com pessoas contagiadas fora das aldeias. "Qualquer índio que obtenha resultado positivo numa aldeia é motivo de preocupação", disse o secretário à BBC Brasil.

Em gestantes indígenas, a prevalência de sífilis foi de 1,03%, mais baixa que as taxas encontradas em gestantes nos centros urbanos (1,6%). O índice de HIV em indígenas gestantes foi de 0,08%. Segundo o IBGE (Instituto de Geografia Estatística), há cerca de 650 mil indígenas em aldeias no Brasil.

De acordo com Souza, os kits para o teste garantem, com poucas gotas de sangue, a obtenção dos resultados em até 30 minutos e podem ser transportados mesmo em condições de calor e umidade, fator essencial para que sejam levados às aldeias mais remotas. Antes, os indígenas precisavam ser removidos para as áreas urbanas para a coleta de sangue e posterior análise dos resultados, o que podia levar até 15 dias. Os testes, que são voluntários, começam a ser aplicados em aldeias de Minas Gerais, do Espírito Santo e do Mato Grosso nos dias 27 e 28 de agosto; nos meses seguintes, devem chegar aos demais Estados. Souza explica que os aplicadores estão sendo treinados por cerca de 70 técnicos que participaram de um seminário em Brasília no mês passado.

Em caso de resultados positivos para sífilis, a equipe dará início imediato ao tratamento; já nos casos de HIV e hepatite, os indígenas serão convidados a realizar testes de confirmação no município mais próximo. Comprovada a doença, serão tratados em unidades do SUS (Sistema Único de Saúde). Para Souza, ao promover o encaminhamento à cidade somente dos indígenas diagnosticados, o programa garantirá a economia de recursos. Ele afirma ainda que uma das premissas do programa é garantir que os resultados dos exames fiquem sob sigilo, para evitar a discriminação dos infectados.

Segundo Souza, o programa também visa informar os indígenas sobre como as doenças se transmitem e os modos de prevenção. Para isso, explica que os agentes terão de levar em conta as características culturais locais.
"Sabemos que há culturas indígenas que não aceitam o uso de preservativos", afirma. "Teremos que trabalhar para que, se não usarem na aldeia, ao menos usem quando se deslocarem à área urbana, em caso de contato com pessoas de fora." Ele diz que, em certos grupos, as mulheres costumam ser mais resistentes ao uso da camisinha, questão que também deve ser abordada nas campanhas educativas.

A médica e idealizadora do programa, Adele Benzaken, da Fundação Alfredo da Matta, diz que, no projeto piloto, quase 100% do público-alvo concordou em fazer o teste. Ela afirma ainda que a acolhida aos tratamentos indicados para sífilis tem sido igualmente positiva. "A população indígena gosta de ser testada e acredita muito no tratamento injetável", disse ela à BBC Brasil. O problema maior, segundo Benzaken, é convencê-los a se tratar em caso de HIV, pois diz que os indígenas costumam resistir à ideia de que devem passar o resto da vida ingerindo medicamentos para combater uma doença que, em muitos casos, demora a provocar sintomas.

Outra complicação é removê-lo para o município mais próximo. "Já vi indígena se negar porque quer fazer o tratamento com o pajé, e aí você não pode fazer nada", afirma. A transferência para a cidade, segundo a médica, torna-se ainda mais improvável quando esses indígenas já tiveram decepções com o sistema de saúde.
 Ação pretende examinar todos os indios brasileiros com mais de 10 anos até o fim de 2012 (Foto: Abr).