Mostrando postagens com marcador Medicina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Medicina. Mostrar todas as postagens

sábado, 7 de janeiro de 2017

A barbárie da mutilação genital feminina

[Traduzo a seguir uma reportagem de Ondine Debré, publicada no jornal francês Le Monde. Ela aborda a prática absurda e bárbara da mutilação genital feminina, adotada em inúmeros países e em comunidades expatriadas mundo afora. 

mutilação genital feminina (MGF), também conhecida por circuncisão feminina, é a remoção ritualista de parte ou de todos os órgãos sexuais externos femininos. Geralmente executada por um circuncisador tradicional com a utilização de uma lâmina de corte, com ou sem anestesia, a MGF concentra-se em 27 países africanos, no Iémen e no Curdistão iraquiano, sendo também praticada em vários locais na Ásia, no Oriente Médio  e em comunidades expatriadas em todo o mundo. A idade em que é realizada varia entre alguns dias após o nascimento e a puberdade. Em metade dos países com dados disponíveis, a maior parte das jovens é mutilada antes dos cinco anos de idade.

Os procedimentos diferem de acordo com o grupo étnico. Geralmente incluem a remoção do clitóris e do prepúcio clitoriano e, na forma mais grave, a remoção dos grandes e pequenos lábios e encerramento da vulva. Neste último procedimento, denominado "infibulação", é deixado um pequeno orifício para a passagem da urina e do sangue da menstruação, e a vagina é aberta para relações sexuais e parto. As consequências para a saúde dependem do procedimento, mas geralmente incluem infecções recorrentes, dor crônica, cistos, impossibilidade de engravidar, complicações durante o parto e hemorragias fatais. Não são conhecidos quaisquer benefícios médicos. 

Neste último procedimento, denominado "infibulação", é deixado um pequeno orifício para a passagem da urina e o sangue menstruação e a vagina é aberta para relações sexuais e parto. As consequências para a saúde dependem do procedimento, mas geralmente incluem infeções recorrentes, dor crónica, cistos, impossibilidade de engravidar, complicações durante o parto e hemorragias fatais. Não são conhecidos quaisquer benefícios médicos. 

A prática tem raízes nas desigualdades de gênero, em tentativas de controlar a sexualidade da mulher e em ideias sobre pureza, modéstia e estética. É geralmente iniciada e executada por mulheres, que a vêem como motivo de honra e receiam que se não a realizarem a intervenção as filhas e netas ficarão expostas à exclusão social. Mais de 130 milhões de mulheres e jovens foram alvo de mutilação genital nos 29 países onde é mais frequente. Entre estas, mais de oito milhões foram infibuladas, uma prática que na sua maioria ocorre no DjibutiEritreiaSomália e Sudão.

A mutilação genital feminina vem sendo considerada ilegal ou restringida em grande parte dos países onde é comum, embora haja grandes dificuldades em fazer cumprir a lei. Desde a década de 1970 que existem esforços internacionais para promover a rejeição desta prática. Em 2012, a Assembleia Geral das Nações Unidas reconheceu a mutilação genital feminina como violação de direitos humanos e votou de forma unânime no sentido de intensificar estes esforços. No entanto, existem algumas críticas por parte de antropólogos.

É digno de nota -- digo eu e não a Wikipédia -- que todos os comentários sobre as sequelas dessas mutilações, abordados acima, referem-se apenas à saúde física das mutiladas, ninguém se preocupou com o trauma psicológico das vítimas.

O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

As mulheres mutiladas

Ondine Debré - Le Monde, 22/12/2016


Ilustração: Aline Bureau

Hoje, Mintou é uma mulher jovem "restaurada". Restaurada? Isto quer dizer que ela não está mais excisada, e para ela é importante dizê-lo: "Fui excisada quando bebê em Paris, tinha apenas alguns dias de vida. Vivi incompleta até meus 25 anos. Sou uma outra mulher, estou restaurada, estou completa"

A restauração de que fala Mintou não é apenas a de seu clitóris, mesmo que ela tenha sido feita há oito meses, mas a de sua identidade como mulher, de seu psiquismo, de todo o seu ser em suma. Um equilíbrio reencontrado  entre seu corpo e seu espírito, graças à operação e graças à tomada de consciência que a acompanhou. Para a psicanalista Catherine Bensaïd, o traumatismo da excisão é comparável ao do estupro: "Essas mulheres que foram agredidas em sua intimidade ficam fragilizadas de maneira irremediável"

As Nações Unidas estimam que mais de 200 milhões de meninas e moças sofreram uma forma de mutilação genital feminina nos 29 países da África e do Oriente Médio onde a prática é mais corrente. A maior parte dos países da África proíbe e condena oficialmente as mutilações sexuais femininas. Entretanto, um país como o Egito, que as proíbe desde 2008 [tão tarde assim?!], conta com 91% das mulheres de 15 a 49 anos excisadas segundo um relatório da Unicef de 2013. 

Na França, mesmo que as cifras sejam difíceis de serem definidas, estima-se que haja mais de 60.000 mulheres excisadas. E segundo a federação GAMS (Grupo para a Abolição de Mutilações Sexuais), 350 excisões são realizadas  cada ano -- estimativa por baixo. No dia 23 de novembro, o Ministério dos Direitos das Mulheres apresentou um quinto "plano de mobilização e de luta contra todas as violências cometidas contra as mulheres", do qual três medidas visam a reforçar a prevenção da excisão e a manter um acompanhamento firme junto às mulheres e meninas afetadas. 

Para aqueles que a praticam, a excisão é considerada para preservar as mulheres da infidelidade enquanto estão casadas. Privadas do prazer, elas não irão procurá-lo alhures. A tal ponto, que uma jovem não excisada não é considerada boa para casar. É importante enfatizar que nenhum preceito religioso exige esse ato sangrento.

"Era tabu"

Quanto à questão de saber se se pode viver sem clitóris, a resposta é não. No plano físico, ginecologistas e urologistas são formais: uma ablação inteira do clitóris, com ou sem os pequenos lábios, acarreta numerosos problemas que podem por em risco a saúde das mulheres e das crianças que vierem a delas nascer: "A cicatriz é uma zona mais dura, e quando do parto a passagem do bebê tem fortes chances de deslocar essa cicatriz", explica o urologista Pierre Foldès, especialista na reparação de mutilações sexuais em mulheres. 

Essas mulheres não sentem nenhum prazer sexual, e pior: para a maioria delas, as relações sexuais são dolorosas ou desconfortáveis. Uma em cada três mulheres excisadas sofre de incontinência urinária pelo resto da vida. 

Natural do Mali, Mintou não tinha ainda um mês de idade quando foi "cortada" em Paris pela célebre executora de operações excisórias Hawa Greou, condenada em 1999 a oito anos de prisão (cinco dos quais em regime fechado). Mintou foi levada por sua mãe e por sua avó, como quatro  de suas outras cinco irmãs. Com uma faca à qual atribuía a força dos espíritos, Hawa Greou cortou o clitóris da criancinha com um gesto seguro e enérgico que sua mãe e sua avó repetiram outrora. Uma excisão de "tipo 1", como diria mais tarde o doutor Foldès a Mintou: somente o clitóris havia sido extirpado, a operação havia poupado os pequenos lábios vaginais.  

A menina cresceu em um grupo feliz de irmãos e irmãs, retorna com frequência ao Mali e jamais fala de seu sexo com sua mãe. "Cresci no amor de meus pais. Meu pai fazia serviços de limpeza, lutou para que pudéssemos viver. Eu sabia que na nossa casa as meninas e moças eram excisadas, mas isso era tabu, jamais se falava sobre isso", explica ela. De tal modo que, quando da morte de sua mãe -- ela com 18 anos -- Mintou sofreu muito, certamente, mas tinha também a necessidade de saber o que lhe ocorrera. Marca consulta com um ginecologista e lhe pergunta imediatamente: "Sou excisada?". A resposta não a surpreendeu.  

Frédérique Martz, que trabalha com mulheres mutiladas no Instituto de Saúde Genética de Saint-Germain-en-Laye, explica que algumas dessas mulheres crescem sem verdadeiramente saber que foram excisadas e ficam sabendo disso por acaso em uma consulta médica, quando de uma gravidez por exemplo. "Mas para todas aquelas com quem me encontrei", diz ela, "o fato de ser excisada provoca grandes sofrimentos psíquicos, que o tabu que pesa sobre essa prática não ajuda a minimizar".  

A quê se parece um clitóris? Esta pergunta persegue as mulheres excisadas. A imagem desse pequeno apêndice e o papel que desempenha no prazer que se lhes retirou não cessam de alimentar a imaginação dessas mulheres incompletas. De tal modo que Mintou, que é auxiliar de enfermeira, dirige seu olhar ao sexo de suas pacientes. Discretamente, fortuitamente, ela tenta ver, quando de  um atendimento, o que se esconde entre as pernas das mulheres intactas. 

"Queria ver como era o sexo de uma mulher normal. Mais tarde falei com meu pai sobre minha excisão, ele ficou desolado e lamentou que isso tivesse ocorrido. Discutimos muito sobre isso e jamais tive ressentimento ou rancor por meus pais por causa disso", conta a jovem que, alguns anos mais tarde, decidiria fazer-se uma restauração na clínica do Dr. Foldès. A parceria que ele forma com Frédérique Martz permitiu a mais de 5.140 mulheres reencontrar sua integridade física graças a essa operação de restauração, que é reembolsada pela seguridade social, e para a maioria delas retomar sua vida sexual.

"Não pressiono forçosamente para a cirurgia", diz Frédérique Martz. "O trabalho é longo: a reparação, na medida em que por si só não basta, exige todo um trabalho de readaptação a fazer que acompanhamos no pós-operatório. Isso passa por massagens no clitóris recém-surgido, o que certas mulheres -- principalmente as muçulmanas -- se recusam de início a fazer. Mas, sem isso o prazer não vem". A médica recebe frequentemente apelos assustados de mulheres para as quais as sensações demoram a aparecer. às vezes, são fotos de seus sexos que as mulheres lhe enviam para se assegurarem de que  tudo evolui bem ...

Aïda, de 32 anos, espera por uma consulta um mês após sua operação. Seu perfil tenso se desenha à luz da sala de espera, e seus cabelos encaracolados puxados  para trás formam uma coroa em torno de seu semblante. Mesmo que hoje esteja bem, a cólera transparece em sua voz quando essa mulher jovem conta sua história. 

"Sou africana e originária da Guiné-Conakry, mas cresci em Serra Leoa. Em minha família, as meninas são excisadas na idade entre 6 e 7 anos. Essas tradições não são questionadas, isso deve ser feito", conta ela. "Guardei tudo na memória: a casa suja e ordinária que não conhecia, a tanga ensanguentada diretamente sobre o chão, o medo que me invadiu quando senti essa mulheres me segurarem, os gritos que emitia, e a dor que ali aparecia várias vezes ... Podia encontrar o lugar, sem nenhuma dúvida. Foi minha avó que me levou, ela me falava "da etapa de iniciação". Penso nisso de novo todos os dias, dez vezes por dia ...".

Hoje, essa jovem mulher se sente renascer, quase que no sentido mesmo da palavra: "Foi levada uma parte de mim, era realmente difícil me identificar. Tenho hoje uma filha de 6 anos, e tinha vergonha de olhá-la, não conseguia lavá-la entre as pernas quando ela era pequena".  Um ódio dessa parte do corpo encontrado entre as mulheres violadas. 

Da operação, Aïda guarda uma lembrança angustiada porque o próprio ato cirúrgico ainda que não muito longo nem muito doloroso despertou as lembranças da excisão. "Mas valeu a pena, sou agora uma mulher completa. Falei com minha mãe sobre a excisão e a operação há uma semana. Estamos reconciliadas de uma certa forma, porque ela também sofria por ter deixado que me excisassem", diz Aïda.

Tradições, Educação, Submissão

Essa mulher jovem voluntária sempre foi senhora de seu destino: criada em uma família de homens, lutou desde pequena para escapar da escola em árabe e conseguiu ir com seus irmãos mais velhos à escola inglesa. Desembarcando na França aos 19 anos, casada aos 20 anos, ela abandona seu primeiro companheiro para quem não era problema a falta total de prazer sexual de sua esposa. Foi com seu novo marido que ela percorreu todo o caminho que a levou à sala de operação e que a conduzirá, quando ela decidir, a uma vida sexual que ela espera ser plena e feliz.

Essas histórias de mulheres são histórias de famílias, de destinos onde se misturam tradições, educação e submissão a um modelo patriarcal que para as novas gerações é imperativo que seja abandonado, se elas quiserem por um fim à prática da  excisão. A França, onde algumas delas nasceram e onde outras cresceram, condena como crime a excisão e todas as mutilações sexuais. Pela lei, o autor do ato e o responsável pela criança mutilada são passíveis de dez anos de reclusão e 150.000 euros de multa.

No hospital Hôtel-Dieu, em Paris [considerado o mais antigo da cidade], no serviço de emergências médico-judiciárias consagrado às vítimas de mutilações sua chefe, Caroline Rey-Salmon, e Céline Deguette colocam seus conhecimentos de médicas legistas a serviço da proteção de mulheres e meninas contra a excisão. Sã0-lhes encaminhadas as meninas, sob o sistema de proteção da mulher e da criança, em relação às quais um diretor de escola tenha sinalizado ao serviço de menores que foram excisadas ou correm o risco de sê-lo. Ao serviço de emergências cabe a tarefa de fazer um diagnóstico seguro sobre elas. 

"Quando uma menininha nos chega porque seus pais planejaram levá-las consigo para seu país durante as férias, nós examinamos seu estado físico. Se ela não for excisada, seus pais são obrigados a nos trazê-las ao retornarem das férias. Ela deve estar intacta, caso contrário a justiça é acionada para puní-los", explica Caroline Rey-Salmon. Ao prevenir o risco de excisão através de consultas com crianças "sob risco" e da condenação dos pais cujas filhas tenham sido mutiladas, a França protege da melhor maneira possível as mulheres em seu território. Mas nem sempre isso basta. 

Assa tem hoje 25 anos, vive no norte de Paris, se prepara para um diploma universitário e vive com seu noivo. Ela é uma mulher jovem de seu tempo. Um detalhe adicional: ela também foi excisada em Paris quando tinha 2 anos. Ela o soube por intuição. O assunto é um tabu tal, que ela teve que esperar ter 20 anos para poder falar sobre ele com seus pais, muitos anos depois deles terem sido condenados pela justiça francesa. 

Hoje, ela não quer mais culpá-los mas deseja lutar contra essa prática sangrenta. "Com base em que direito puderam eles dispor assim do corpo de sua filha? Se você disser à geração dos meus pais que eles são uns bárbaros não chegará a lugar nenhum, é preciso mais diplomacia e também de mais empatia",  provoca ela. 

O que a impressiona é que à sua volta, suas amigas tão parisienses, tão completamente assimiladas à cultura de sua terra natal, a França, são quase todas excisadas. Mulheres entre as quais Assa se levanta para se manifestar: "Sou orgulhosa de ser portadora dessas duas culturas. A África corre em minhas veias, mas jamais mutilarei minha filha. Cabe à nossa geração romper a cadeia e cassar as lâminas das executoras de excisão".

[Recomendo fortemente a leitura do livro "Infiel", de Ayaan Hirsi Ali (Companhia das Letras, 2004). A autora é uma ativista, escritora, política e feminista ateísta somali-holandesa-americana, que é conhecida por seus pontos de vista críticos da mutilação genital feminina e o islamismo. Ela escreveu o roteiro de Submission, filme de Theo van Gogh. Depois que ela e o diretor receberam ameaças de morte o diretor foi assassinado. Filha do político somali e líder da oposição Hirsi Magan Isse, ela é uma das fundadoras da organização de direitos das mulheres AHA Foundation.

Quando tinha oito anos, sua família deixou a Somália para a Arábia Saudita, depois Etiópia, e acabaram por se instalar no Quênia. Ela pediu e obteve asilo político nos Países Baixos em 1992, em circunstâncias que mais tarde se tornaram o centro de uma controvérsia política. Em 2003 foi eleita membro da Câmara dos Representantes (câmara baixa do parlamento holandês), representando o Partido Popular para a Liberdade e Democracia (VVD). Uma crise política em torno do potencial de remoção de sua cidadania holandesa levou à sua renúncia ao parlamento, e levou indiretamente à queda do segundo gabinete Balkenende em 2006.

Em 2005, ela foi nomeada pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Ela também recebeu vários prêmios, inclusive um prêmio de liberdade de expressão do jornal dinamarquês Jyllands-Posten, o Prêmio Democracia do Partido Liberal Sueco, e o Prêmio Coragem Moral de compromisso com a resolução de conflitos, ética e cidadania mundial. Em 2006, ela publicou um livro de memórias.  Em 2013 Hirsi Ali se tornou fellow da John F. Kennedy School of Government da Universidade Harvard, um membro da The Future of Diplomacy Project at the Belfer Center, e vive nos Estados Unidos. Ela é casada com o historiador britânico e comentarista público Niall Ferguson. Se tornou uma cidadã naturalizada nos Estados Unidos em 25 de abril de 2013.]

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

As Belas Artes na Medicina (III) -- a doença na pintura de Munch

[Ver postagem anterior. Me parece que o título mais condizente com esta série de postagens seria "A Medicina nas Belas Artes", mas decidi manter o título acima, que é praticamente o mesmo do livro que como referência para as postagens. Segundo seu autor, o médico Armando J. C. Bezerra" Este livro surgiu da necessidade de fazer jovens médicos entenderem que Arte e Medicina jorram de uma mesma fonte. A Medicina por si só já é uma obra de arte”.]

Edvar Munch (1863-1944) - (Foto: Google) - Obs.: esta foto não consta do livro usado como referência para esta postagem (ver postagem anterior)

As doenças moldaram a maneira de Edvar Munch (1863-1944) ver o mundo e, obviamente, influenciaram a evolução artística do pintor nascido em Oslo, Noruega. São dele, entre outras, as obras Melancolia (1895) e O Leito da Morte (1895).

De todas as doenças com as quais conviveu, nitidamente a que mais marcou Munch foi a tuberculose pulmonar, que matou sua irmã Sophie, em 1877, quando ela tinha apenas 15 anos de idade e ele, 14. O fato em si já é dramático para qualquer pessoa, mas no caso de Munch havia um precedente: sua mãe, Laura Cathrine, fora vítima da mesma doença em 1868, quando ele tinha cinco anos de idade. Munch percebeu então quão devastadora e frequente era aquela doença.

A expressão artística do sofrimento de Munch diante do falecimento de Sophie deu-se por meio de uma tela intitulada A Criança Doente (1886). [A Criança Doente é uma série de seis pinturas e outros desenhos feitos por Edvard Munch entre 1885 e 1926 . Todas as obras referidas recordam o momento antes da morte da sua irmã mais velha, Johanne Sophie.]


Edvar Munch (1863-1944) -- A Criança Doente (1886), óleo sobre tela, 119,5  x 118,5 cm

O enorme travesseiro no qual ela se recosta foi uma repetição dos travesseiros pintados pelo seu mestre Christian Krohg, o mais importante pintor norueguês até Munch. Esse detalhe pode ser confirmado nas obras A Criança Doente  (1881) e A Mãe à Cabeceira da Criança Doente  (1884). É interessante registar que Krohg, nesses dois quadros, também pintou a doença mortal da sua própria irmã.

Christian Krohg (1852-1925) -- A Criança Doente (1881), óleo sobre tela, 102 x 58 cm. Galeria Nacional (Oslo) - (Foto: Google)

O travesseiro no quadro de Munch, propositadamente branco, forma uma moldura em torno da cabeça de Sophie, lembrando um halo quadrilátero de pureza. Pode-se dizer que essa imagem lembra a porta que emoldura a cabeça do Cristo na obra A Última Ceia (1497), de Leonardo da Vinci.

Enquanto a irmã de Krohg se despede da vida olhando para o espectador e retirando as pétalas de uma flor, como se a vida estivesse aos poucos a  extinguir-se, Sophie dá um último olhar contemplativo para a sua tia e mãe adoptivas. Sabe-se que, em algumas versões dessa tela, Munch usou a amiga Betzy Nielsen como modelo para Sophie.

O quadro suscitou debates e discussões aquando da sua apresentação na Exposição de Artes de Oslo, cidade então chamada Christiania: o quadro mais parecia um esboço do que uma obra concluída. Isso porque Munch usou a tinta bastante diluída. Apesar - ou por causa - da polémica, o quadro tornou-se um sucesso, o que levou Munch, a partir de 1901, a deliberadamente usar a tinta diluída como modo de se expressar em pintura.

Em 1889, convalescendo de uma debilitante enfermidade, ele pintou a tela Primavera, obra autobiográfica onde Munch recorda a doença da irmã. Esse quadro teve como inspiração a pintura já citada A Mãe à Cabeceira da Criança Doente. Munch estava então com 26 anos, ou seja, tinham-se passado 12 anos desde o falecimento de Sophie, e o medo da morte  motivou-o a relembrar aquele triste episódio. O travesseiro agora é iluminado pelo sol que invade a janela açoitada pelo vento.

Edvar Munch (1863-1944) -- Primavera (1889), óleo sobre tela, 169 x 263,5 cm. Galeria Nacional(Oslo) - (Foto: Google)

Em 1893, Munch  pinta o quadro Madona e o exibe pela primeira vez ao público usando uma moldura decorada com espermatozóides e fetos abortados, pintados e entalhados, simbolizando a concepção e a morte.

Edvar Munch (1863-1944) -- Madona (1893), litografia, 60,6 x 44,4 cm. Ohara Museum of Art (Kurashiki, Japão) - (Foto: Google) - Obs.: embora citado, este quadro não é reproduzido no livro que usei como referência ("As Belas Artes da Medicina", Armando J.C. Bezerra, Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, DF - Março de 2003)

A moldura, chocante e polêmica, foi retirada do quadro e até hoje não se sabe de seu paradeiro. Ainda em 1893, ele pinta seu quadro mais famoso, O Grito, que originou aproximadamente cinquenta versões. A obra reflete o sofrimento mental pelo qual estava passando Munch em consequência de sua vida marcada pelas doenças.

Edvar Munch (1863-1944) -- O Grito (1893), óleo, têmpera, pastel e crayon sobre papelão, 91 x 73,5 cm. National Gallery, Oslo - (Foto: Google) 

Ainda traumatizado pela polêmica surgida com o episódio da moldura que enquadrava a Madona, em 1895 Munch fez seu autorretrato usando a técnica da litografia e o denominou Autorretrato com Esqueleto do Braço. Aqui, os ossos do antebraço e da mão são dispostos de modo a lembrar a parte inferior da moldura censurada em 1893.

Edvar Munch (1863-1944) -- Autorretrato com Esqueleto de Braço (1895), litografia, 60 x 20 cm. Museu Munch, Oslo - (Foto: Google)

Em Morte no Quarto da Doente (1895, o pintor procura chamar a atenção para o aspecto torturante e claustrofóbico do quarto onde se encontra uma doente grave. 

Edvar Munch (1863-1944) -- Morte no Quarto da Doente (1895), óleo sobre tela, 150 x 167,5 cm. Galeria Nacional, Oslo - (Foto: Google)


As duas irmãs de Munch, Inger, que aparece de pé, e Laura Munch, sentada, são claramente reconhecíveis no primeiro plano. O artista está virado de costas para a paciente, como a renegar a tragédia que se faz presente. O pai, Christian, e a tia Karen estão de pé junto à cadeira próxima à cama. A personagem masculina de costas para quem olha o quadro, e que está de frente para a cama, é provavelmente Andreas, o irmão de Munch. 

Talvez a cena seja uma lembrança  da morte da irmã, mas com as pessoas de sua família retratadas na idade adulta. A pessoa à beira da morte está sentada na cadeira de vime, cujo espaldar alto, junto com o travesseiro, impede que ela seja identificada.

Trinta e um anos depois do falecimento da mãe, Munch pinta A Mãe Morta e a Criança (1899). 

Edvar Munch (1863-1944) -- A Mãe Morta e a Criança (1899), óleo sobre tela, 104,5 x 179,5 cm. Museu Munch, Oslo - (Foto: Google)

De um lado da cama estão os membros adultos de sua família, impotentes em face da morte; no primeiro plano diante da cama encontra-se Sophie, tapando os ouvidos com as mãos para não ouvir o  grito silencioso da morte chamando-a. A irmã repete o gesto imortalizado na tela O Grito, e que aparece novamente na obra A Mãe Morta e a Criança, de 1900.

Edvar Munch (1863-1944) -- A Mãe Morta e a Criança (1900), óleo sobre tela, 100 x 90 cm. Museu Kunsthalle, Bremen (Alemanha) - (Foto: Google)


Em 1919, convalescente da gripe espanhola, Munch decide registrar aquele momento pintando o Autorretrato depois da Gripe Espanhola. Nesse autorretrato é visível a semelhança com a fisionomia retratada em O Grito.


















Edvar Munch (1863-1944) -- Autorretrato depois da Gripe Espanhola (1919), óleo sobre tela, 105,5 x 131 cm. Galeria Nacional, Oslo - (Foto: Google)


Perto de morrer, Munch sentencia: "A vida representa uma vitória temporária sobre a força da gravidade; mantemo-nos erguidos de pé, mas um dia temos de nos deitar para morrer".

O grande pintor norueguês parou de pintar em 1936, por causa de uma grave enfermidade ocular.

[Outras obras de Munch



Christian Munch na poltrona (1881) - Museu Munch, Oslo (Noruega) - (Foto: Museu Munch) [retrato do pai de Munch]




Vista de Vestre Aker (1881) - Museu Munch, Oslo (Noruega) - (Foto: Museu Munch)




À volta da lâmpada de parafina (1883) - Museu Nacional de Arte, Arquitetura e Design, Oslo - (Foto: Museu Munch)




Noite em Saint-Cloud (1890) - Museu Nacional de Arte, Arquitetura e Design, Oslo - (Foto: Museu Munch)




Rua Lafayette (1891) - Galeria Nacional, Noruega - (Foto: Google)




Separação (1896) - Museu Munch, Oslo - (Foto: Museu Munch)




A dança da vida (1899) - Museu Munch, Oslo - (Foto: Museu Munch)





Vermelho e Branco (1899-1900) - Museu Munch, Oslo - (Foto: Museu Munch)




Gólgota (1900) - Museu Munch, Oslo - (Foto: Museu Munch)




A floresta do conto de fadas (1901-1902) - Museu Nacional de Arte, Arquitetura e Design, Oslo - (Foto: Museu Munch)




Duas garotas com aventais azuis (1904-1905) - Museu Munch, Oslo - (Foto: Museu Munch)




A assassina (1906) - Museu Munch, Oslo - (Foto: Google)





Cupido e Psiquê (1907) - Museu Munch, Oslo - (Foto: Museu Munch)




Jappe Nilsen (1909) - Museu Munch, Oslo - (Foto: Museu Munch)




Os pesquisadores (1910-1911) - Museu Munch, Oslo - (Foto: Museu Munch)




Mulher em pé com braços cruzados (1913-1914) - Coleção Sternesen/Museu Munch, Oslo - (Foto: Museu Munch)





Operários a caminho de casa (1913-1914) . Museu Munch - (Foto: Google)




Homem em campo de repolhos (1916) - Museu Nacional de Arte, Arquitetura e Design, Oslo - (Foto: Museu Munch)




Modelo se despindo (1920-1924) - Museu Munch, Oslo - (Foto: Museu Munch)




Dois seres humanos. Os solitários (1933-1935) - Museu Munch, Oslo - (Foto: Museu Munch)




Autorretrato entre o relógio e a cama (1940-1943) - Museu Munch, Oslo - (Foto: Museu Munch)]