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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Satélite de estudantes brasileiros é lançado no Japão

[Boas notícias sem pre hão de pintar por aí -- só não dá pra entender porque nossa mídia catastrofista não as divulga.]

Satélite de estudantes brasileiros é lançado no Japão


O nanossatélite dos estudantes brasileiros foi levado ao espaço pelo cargueiro espacial japonês que está levando suprimentos para a ISS. [Imagem: JAXA]

O nanossatélite UbatubaSat, desenvolvido por alunos do ensino fundamental de Ubatuba (SP), foi lançado nesta sexta-feira do Centro Espacial Tanegashima, no Japão, rumo à Estação Espacial Internacional (ISS). A primeira etapa do lançamento foi transmitida ao vivo pela Jaxa, agência espacial do Japão.
A expectativa é que o satélite seja finalmente liberado no espaço no próximo dia 19 e, a partir do dia 21, já esteja na órbita operacional esperada. A liberação final será feita por um lançador especial de nanossatélites montado no laboratório japonês Kibo.
O UbatubaSat poderá ser o primeiro satélite totalmente desenvolvido no Brasil a funcionar em órbita, de onde poderá registrar a distância de sondas espaciais, detectar a formação de bolhas no espaço e também fazer contato com radioamadores e transmitir mensagens que foram gravadas por estudantes.
Satélite de estudantes

O projeto UbatubaSat foi idealizado pelo professor Cândido Osvaldo de Moura. A iniciativa surgiu no início de 2010, quando ele teve conhecimento de que uma empresa norte-americana estava desenvolvendo um veículo lançador e vendia os kits de montagem de pequenos satélites que pudessem ser lançados pela empresa.

Cândido levou o desafio para a sala de aula. Na época, ele era professor da Escola Municipal Presidente Tancredo de Almeida Neves (Etec), em Ubatuba. "A gente achou que seria interessante fazer um satélite desses com os alunos da quinta série. Eles tinham em média dez anos de idade e poderiam ser os mais jovens do mundo a desenvolver um projeto espacial", conta o professor.
Segundo Cândido, este tipo de satélite pequeno, também conhecido como cubesat, foi criado nos anos 1990 para servir como experiência pedagógica nas universidades. Com apoio técnico e financeiro do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Agência Espacial Brasileira (AEB), o professor adaptou a experiência para os alunos mais jovens.

Sucesso

O satélite levou três anos para ficar pronto. A construção foi conduzida por seis alunos, mas desde 2010 cerca de 400 estudantes já passaram pelo projeto, que engloba outras atividades de desenvolvimento científico.

Cândido e seus alunos acompanharam o lançamento do satélite da sede do Inpe, em São José dos Campos (SP). "A maior conquista é o aprendizado do aluno. O que a gente quis foi colocar os alunos em contato com a ciência e a tecnologia desde cedo. Este sucesso a gente já conquistou", disse Cândido.





quinta-feira, 28 de abril de 2016

Como é menstruar no espaço para as mulheres astronautas?

[Traduzo a seguir artigo publicado no site BBC Mundo.]

No passado, a menstruação era vista como um impedimento para que as mulheres fossem ao espaço - (Foto: Nasa)

O corpo humano experimenta muitas mudanças no espaço. Os músculos se enfraquecem, o coração muda de forma e tamanho, perde-se densidade óssea ... entretanto, há algo que não muda em nada: a menstruação. 

Não importa que não exista gravidade, o ciclo menstrual da mulher funciona no espaço da mesma forma que na Terra. "O fluxo de sangue menstrual não se vê afetado pela falta de gravidade, não flui de volta para o corpo", escreveu recentemente a ginecologista espacial Varsha Jain no site acadêmico The Conversation do King's College de Londres.

A quê se  deve isso? 

"O hormônio folículo-estimulante, responsável por ativar o ciclo menstrual, não é afetado em uma viagem espacial", disse a Dra. Jain ao BBC Mundo. 

Segundo a pesquisadora e membro do departamento de Obstetricia e Ginecologia do Instituto Nacional para Pesquisa da Saúde do Reino Unido, foram feitos vários estudos analógicos na Terra simulando o ambiente espacial. Tampouco nesses casos o hormônio responsável pela menstruação se viu afetado. 

As mulheres que foram ao espaço não relataram problemas com a menstruação - (Foto: Getty)

Jain acrescentou que inclusive em trabalhos feitos com animais enviados ao espaço os resultados foram similares. 

Mas os cientistas não conseguiram determinar a razão exata pela qual esse hormônio permanece intacto, quando o resto do corpo necessita adaptar-se ao fato de estar flutuando. O que sabem é que o fato de não se produzirem mudanças é um indicativo de que o período não depende da gravidade. Talvez seja porque, tal e como sugere Jain, "o corpo sabe que precisa se desfazer dele". 

Mais poder

E para a especialista, essas são boas notícias. "Quanto menos o corpo mudar no espaço, melhor". No passado, o fato das mulheres menstruarem era visto como um impedimento para que fossem astronautas. 

Para os especialistas, quanto menos mudar o corpo no espaço, melhor - (Foto: Getty)

"Alguns argumentavam que a menstruação poderia afetar a habilidade da mulher", escreveu recentemente Adam Cole, jornalista científico da cadeia americana Rádio Público Nacional. 
Nos anos 40 se demonstrou que isso que isso não era certo. "Mas a ideia não morreu ali", acrescentou ele. 

Outras teorias quanto a menstruar no espaço falavam dos efeitos da microgravidade e como o sangue podia subir pelas trompas de Falópio e chegar ao abdômen, provocando dor e outros problemas de saúde. 

"Mas, na realidade ninguém fez experiências para comprovar se isso era um problema, assim pois não havia dados para apoiar ou refutar esses temores", explicou o jornalista. "Até onde sabemos, e pelo que nos contam as próprias astronautas, as mulheres que optaram por menstruar no espaço asseguram que não tiveram problemas", explicou a Dra. Jain.

Para essa especialista, uma vez comprovado que o período menstrual não é um impedimento para ir ao espaço, o fato de lidar com fluxos de sangue em um ambiente sem gravidade pode ser uma situação que muitas mulheres astronautas prefiram evitar. "Felizmente para elas, existem hoje formas de deter a menstruação".

A primeira mulher a ir ao espaço foi Valentina Tereshkova, em 1963 - (Foto: Getty)

Se bem que não haja um consenso sobre recomendar a supressão completa da menstruação, Jain assegura que a maioria dos especialistas sugere que não há efeitos disso no largo prazo para a saúde da mulher. 

"Isso é importante, porque se trata de dar mais poder à mulher", assinala a especialista. "Se as astronautas no espaço podem optar por não menstruar por longos períodos, outras mulheres com trabalhos específicos (na Terra) poderiam fazer o mesmo". 

Entretanto, o fato da menstruação não ser afetada é um tema a se ter em conta para missões mais longas ao espaço, como uma viagem a Marte.  

Independentemente de que a mulher escolha ou não menstruar, na nave deve haver espaço tanto para as milhares de pílulas que ajudem a controlar o período como para os produtos sanitários. 

Ver também (em espanhol):






terça-feira, 8 de março de 2016

Os antigos babilônios conheciam segredos do sistema solar 1.500 anos antes da Europa

[Traduzo a seguir artigo de Ruth Schuster publicado no jornal israelense Haaretz, descrevendo novos achados que mostram que os babilônios eram ainda mais avançados do que já se sabia.]


Um dos tabletes cuneiformes de argila encontrados na Babilônia e Uruk, mostrando cálculos geométricos para trajetórias de planetas - (Foto: Trustees of the British Museum / Mathieu Ossendrijver)

Os antigos babilônios eram conhecidos por terem sido avançados em aritmética. Agora, análise de tabletes cuneiformes de argila encontrados na Babilônia e Uruk mostra que podiam prever a posição de corpos celestiais, utilizando técnicas geométricas avançadas que se pensava haviam sido inventadas na Europa do século 14. 

Especificamente, os tabletes mostram que os antigos babilônios estavam evidentemente intrigados com a posição do planeta Júpiter, escreve Matheus Ossendrijver, da Universidade Humboldt, Berlim, em seu trabalho "Astrônomos babilônios antigos calcularam a posição de Júpiter usando um gráfico tempo-velocidade". 

Os tabletes que ele descreve são os exemplos mais antigos conhecidos do uso da geometria para calcular a futura posição de um objeto no espaço-tempo.

É possível que as mesmas técnicas tivessem sido descobertas em Oxford, Cambridge, com a chegada do século 14, num equivalente geométrico da evolução convergente (como as asas em insetos e pássaros, que não têm a mesma origem mas se assemelham e exercem a mesma função). Ou, o Ocidente pode de algum modo ter aprendido as técnicas dos antigos astrônomos babilônicos.

Os tabletes de barro, que estão praticamente intactos, parecem ser datados do período entre 350 e 50 AEC (Antes da Era Cristã). Há questões sobre sua proveniência -- Ossendrijver observa que foram "escavados de maneira não científica" e discute a metodologia geral, não mencionando fenômenos astronômicos específicos passíveis de serem datados. Os escritos descrevem dois intervalos depois que Júpiter aparece ao longo do horizonte,
projetando a posição do planeta em 60 e 120 dias.


Um tablete cuneiforme com cálculos envolvendo um trapezoide(Foto: Trustees of the British Museum / Mathieu Ossendrijver)

Pensava-se que os babilônios conheciam apenas conceitos aritméticos, no entanto esses textos contêm cálculos geométricos avançados.

A geometria começou a se desenvolver há bastante tempo atrás na história da humanidade. Os gregos antigos, eminentemente práticos, usavam a geometria para descrever configurações no espaço físico, embora seja preciso dizer que não se conhece a história dos primórdios da geometria grega antiga porque não há registros disso. Os egípcios antigos conheciam também a geometria, mas se acreditava também que limitavam o uso dessa ciência para resolver problemas do dia a dia, como por exemplo calcular a área de uma pirâmide.

Os babilônios antigos, ao contrário, deixaram amplos registros -- mais de 450 tabletes importantes, dos quais cerca de 340 são de tabelas com cálculos de dados planetários ou lunares. Outros 110 tabletes têm instruções de cálculos. Agora sabemos que usaram a geometria em um sentido abstrato, para definir tempo e velocidade, explica Ossendrijver: "Em todos esses textos, o zodíaco, inventado na Babilônia perto do final do século 5 AEC, é usado como um sistema de coordenadas para calcular posições de corpos celestiais".

Desse modo, conclui ele, os acadêmicos europeus do século 14 em Oxford e Paris aos quais se creditara o desenvolvimento de previsões tempo-velocidade estavam mais de mil anos atrasados em relação aos seus antigos pares babilônios.

Por que, afinal, quereriam os babilônios calcular a posição de Júpiter? Provavelmente porque seus sacerdotes usavam a astrologia para interpretar a vontade dos deuses (um método alternativo era "ler" os fígados de animais sacrificados). Acredita-se que não apenas a geometria de tempo-velocidade, mas também a adivinhação celestial como uma prática religiosa sistemática tenham começado com a cultura babilônica.    

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Um astronauta da Estação Espacial Internacional mostra a primeira flor cultivada no espaço

[Traduzo a seguir artigo publicado no site francês L 'Internaute. ]

Foto da zínia cultivada no espaço, feita pelo astronauta Scott Kelly a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla inglesa) em 17 de janeiro de 2016 - (Foto: Handout/afp.com)

Uma zínia cultivada na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla inglesa) floresceu, dando nascimento à primeira flor do espaço, escreveu no Twitter o astronauta americano Scott Kelly. 

"Debutou a primeira flor cultivada no espaço", escreveu ele em um tweet (@StationCDRKelly) seguido de  #SpaceFlower #zinnia #YearInSpace com a foto de uma bela zínia laranja. 

A zínia cresce muito facilmente na Terra, e floresce abundantemente no verão. Mas essa planta, levada no posto avançado orbital para a realização de experiências, teve aparentemente dificuldades para se adaptar à microgravidade. 

Várias dessas zínias pareciam em mau estado em dezembro, após o aparecimento de mofo em suas folhas devido à forte umidade, segundo a Nasa. Mas elas parecem se recompor, graças aos cuidados de Scott Kelly. 

O cultivo dessas flores faz parte de um projeto mais amplo da Nasa, denominado "Veggie", visando a fazer crescer plantas no espaço para propiciar a nutrição de astronautas na perspectiva de longas missões a Marte, uma autonomia que seria um complemento importante para a sobrevivência dos astronautas, explica a agência espacial. 

Os membros da tripulação da ISS já fizeram com sucesso a colheita de alfaces, das quais consumiram as primeiras folhas em 2015 e esperam produzir ali tomates no ano que vem. 

O sistema de produção de alface e de outros vegetais foi instalado na Estação em meados de 2014. Essas plantas são cultivadas por hidroponia, isto é sem terra numa solução de água e de nutrientes. Tal sistema exige claramente menos água e menos adubo, e as plantas crescem três vezes mais rápido do que no solo, de acordo com a Nasa. 

Imagem fornecida pela Nasa em 22 de dezembro de 2016 mostra o comandante americano da expedição 46, Scott Kelly, quando de uma saída na véspera fora da estação espacial

Gioia Massa, responsável científico pelo projeto "Veggie", explicou que as plantas cultivadas até agora no espaço não são perfeitas, mas têm permitido aos pesquisadores na Terra compreender melhor como os vegetais crescem na microgravidade.

Scott Kelly tornou-se em outubro passado o americano que passou mais tempo continuamente no espaço, ou seja mais de 10 meses a bordo da ISS onde deverá permanecer o total de um ano, até 3 de março de 2016.

Astronauta Scott Kelly - (Foto: Kirill Kudryavtsev/AFP/Arquivos)

Normalmente, as tripulações da ISS, formadas por seis astronautas, se revezam todas após cinco ou seis meses para assegurar uma presença contínua no posto avançado orbital. 

Scott Kelly realiza essa missão de um ano na ISS com seu colega cosmonauta russo Mikhaïl Kornienko para estudar os efeitos biológicos e psicológicos de longas permanências no espaço, em preparação de voos tripulados para Marte no horizonte dos anos 2030, no mais cedo previsto.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Caminho Inca, a estrada milenar que ajudou a criar e a destruir um império

[Os incas criaram uma civilização fantástica e admirável, que nos surpreende até hoje com seu alto conteúdo cultural e tecnológico. Isso é mais uma vez comprovado pela reportagem traduzida abaixo, de autoria de Jane O'Brien, da BBC Washington, que foi publicada no site BBC News. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]


O Caminho Inca, construído inteiramente à mão, é uma verdadeira obra de engenharia - (Foto: Doug McMains)

Construtores que morreram há muito tempo têm a resposta para o desenvolvimento rodoviário mais sustentável? Uma nova exposição no Museu Smithsoniano em Washington (EUA) mostra porque o império inca construiu uma infraestrutura duradoura.

O Caminho Inca é uma das obras de engenharia mais extraordinárias do mundo. No século XVI, ajudou a transformar um pequeno reino no maior império do hemisfério ocidental. E, para inveja dos engenheiros modernos, trechos substanciais da rede de 39.000km sobrevivem no dia de hoje, unindo centenas de comunidades através de Argentina, Bolívia, Chile, Equador e Peru. Incrivelmente, ela foi toda construída inteiramente à mão, sem ferro ou transporte com rodas.

Uma exposição no Museu Nacional dos Índios Americanos é o resultado de sete anos de pesquisas, que concluíram que os incas tinham muito conhecimento prático sobre a água.

"Quando se vê Machu Picchu, no Peru -- essa estrutura maravilhosa no topo de uma montanha que milhões de turistas visitam todos os anos -- o que a maioria das pessoas não vê e infelizmente tampouco sabe é que debaixo dela existe uma verdadeira maravilha", diz José Barreiro, um dos curadores da exposição O Grande Caminho Inka (o museu Smithsoniano usa a forma quíchua para a palavra "inca"). [Ver postagem anterior sobre Machu Picchu].

Foto: Doug McMains

As construções de pedra de Machu Picchu estão localizadas sobre um complexo sistema de irrigação de galerias e canais, que controlam o fluxo de água em direção a fontes que funciona ainda hoje. E embora arqueólogos saibam disso há algum tempo, a exposição revela a extensão do conhecimento que os incas possuíam sobre a água e como aplicaram a mesma tecnologia à construção de estradas.

"Todos os anos, a água destrói muitas estradas modernas. Mas, as estradas incas tendem a resistir e sobreviver", diz Barreiro.

José Barreiro diz que as estradas incas tendem a ter uma duração incrivelmente longa - (Foto: AP)

"As construções foram feitas prevendo a possibilidade de eventos sísmicos, e é isso que os engenheiros de hoje têm interesse de estudar -- como podemos nos beneficiar desse conhecimento". 

Sustentabilidade foi a chave para o  sucesso. Os incas eram atentos às condições locais, utilizando materiais locais e trabalhando com a paisagem.

Em terrenos escarpados, construíram degraus para dissipar a energia das águas e conter a erosão. Nas altitudes elevadas, pavimentaram as estradas com pedras locais para proteger a superfície contra o gelo e a neve derretida, e quando necessitavam de muros de contenção deixavam buracos para a drenagem de água.

"Os incas se preocuparam com a preservação do meio ambiente, e as estradas são uma parte da Mãe Natureza", diz Ramiro Matos, chefe dos curadores da exposição e um nativo que fala o quíchua. Ele cresceu transitando pelas estradas incas (também conhecidas como Qhapaq Nan) no altiplano central do Peru, e diz ter uma conexão forte com elas. 

A Unesco declarou o Caminho Inca um Patrimônio da Humanidade em 2014  - (Foto: Smithsonian Institute)

"A estrada não é apenas uma via física", diz ele. "É uma estrada cosmológica, e pessoas de hoje a consideram uma estrada com vida, viva". 

"Os Kallawaya (doutores itinerantes da Bolívia) ainda usam a estrada para caminhar e reciclar suas energias. Eles dizem que a estrada tem um espírito". 

O centro espiritual e a capital do império era Cusco, no sudeste do Peru. Todas as estradas se originavam nessa cidade. Ao longo das rotas, todos os lugares sagrados eram marcados com wakas [uma classe de objetos sagrados]-- afloramentos de pedras, edifícios ou até a confluência de rios, que serviam de altares para a Pachamama (Mãe Terra) ou para Inti (o deus sol). 

Muitas dessas tradições continuam ainda hoje, e parte da exposição explora a maneira pela qual a estrada ainda une povos de diferentes etnias ao longo da vasta região andina. "Contactamos os descendentes dos incas e conversamos com eles sobre como se sentem quanto à estrada e ao seu significado", diz Matos. "Tínhamos a investigação histórica, agora temos a história oral". 


Dois moradores passam pelo Caminho Inca próximo a Jujuy, na Argentina - (Foto: Axel Nielsen)

A exposição revela um lado diferente dos incas, que são mais frequentemente lembrados por seu notório desejo por sangue e sua predileção por sacrifícios humanos. Mas, retratá-los como ambientalistas não nega suas características menos atraentes.

"Não estamos passando a imagem de que há culturas perfeitas", diz Barreiro. "Mas nosso foco foi afastar o macabro e olhar para os outros 90% da vida, como era organizada e a genialidade e o ímpeto dos incas para executar essa tarefa em particular [de construir o Caminho]". 

Ele diz que a sociedade inca era certamente "severa/rigorosa" mas, no seu âmago, era uma filosofia de reciprocidade. Os incas devolviam à natureza o que ela lhes dava, e cada um sabia seu papel na comunidade. "Todo o meio ambiente estava vivo. Tudo, das pedras para os animais, para o cosmos, necessitava de algum tipo de interação com um ser humano, fosse em orações, conectividade ou apreço". 

"Tudo era organizado e regulado pelo Estado. Você tinha os controladores do Caminho, os controladores das pontes e os khipu -- um dispositivo provido de nós que fazia o acompanhamento das pessoas que transitavam pela estrada, dos produtos que por ela circulavam, organizava censos das pessoas e das notícias de todas as partes do império". [Para mais informações sobre os khipus, ver postagem anterior.]

Exemplos de khipus e de 140 outros objetos -- alguns com mais de 2.000 de existência -- estão incluídos na exposição do Smithsoniano para ajudar a ilustrar o desenvolvimento do Caminho Inca e de seus conceitos espirituais. 


Um khipu da era inca, um dispositivo para contabilidade e controle - (Foto: BBC News)


Detalhe de um khipu da era inca - (ver postagem anterior)

Caixa de um fabricante de khipu - (ver postagem anterior)

Mas, ironicamente, foi o Caminho Inca que acelerou o desaparecimento de seus criadores. 

Quando os espanhóis chegaram à costa do Pacífico em 1532, o império estava enfraquecido pelas lutas internas e pela varíola. E a mesma estrada que havia dado aos incas acesso sem precedentes a cada parte de seu reinado, agora permitia o mesmo para os conquistadores espanhóis. 

Em um ano os invasores haviam consolidado seu poder e retirado o poder de Cusco, estabelecendo Lima como a nova capital colonial. O Qhapac Nan foi relegado ao abandono. Rotas que haviam sido vitais para as comunidades incas foram ignoradas pelos espanhóis, que estavam mais  interessados em ter acesso as minas de ouro e prata do império que havia desmoronado. 

Mas o Caminho Inca permanece vivo, combinando história com seu novo propósito.  



   




domingo, 27 de setembro de 2015

Por que o eclipse da superlua neste domingo preocupa a NASA

[A reportagem traduzida abaixo foi publicada pelo site em espanhol BBC Mundo.]


O Satélite de Reconhecimento Lunar foi lançado em 2009 - (Foto: NASA)

Neste domingo à noite e na madrugada de amanhã os habitantes de grande parte do mundo, incluindo o continente americano, terão a oportunidade de desfrutar de um espetáculo pouco usual.

Trata-se de um eclipse total da Lua (no qual a Lua fica completamente às escuras porque a Terra se interpõe entre ela e o Sol) que, além disso, coincide com uma superlua. Esta ocorre quando uma Lua cheia ou nova se encontra em seu ponto mais próximo à Terra.

A última vez que esse estranho posicionamento dos três corpos celestes ocorreu foi em em 1982, e o próximo só ocorrerá em 2033.

Mas, enquanto para os amantes da astronomia esse espetáculo, no qual a Lua adquire uma cor avermelhada, pode ser simplesmente formoso ou emocionante, para os especialistas da NASA é uma pequena dor de cabeça.

Sem luz por três horas

Por que isso? Porque eles receiam que a falta de luz solar possa deixar sem energia uma de suas naves espaciais mais importantes: o Lunar Reconaissance Orbiter (Satélite de Reconhecimento Lunar) (LRO na sigla em inglês), cuja missão é explorar nosso satélite natural.

A Lua ficará avermelhada porque sua superfície estará iluminada por raios que "quicam" na atmosfera terrestre - (Foto: Reuters)

"Há duas coisas que ocorrem durante um eclipse: começa a fazer frio e não há sol para carregar as baterias", explica à BBC Noah Petro, cientista da agência espacial americana. 

Diagrama do eclipse total da Lua - (Fone: Google)

O eclipse total durará mais de uma hora, "e a nave ficará sem luz direta do Sol por cerca de três horas". Tecnologias similares anteriores apresentaram dificuldades durante eclipses, mas o LRO foi projetado especificamente levando isso em conta. 

Como um celular

Como a sonda espacial recarrega suas baterias, durante o eclipse a NASA deverá tomar uma série de precauções. "Preaquecemos a nave e logo desligamos os instrumentos para mantê-la segura. É como um celular, quando me chega um alerta de que me restam uns 2o% de bateria: posso desligar o wifi ou cetas aplicações que ficam abertas no fundo", explica Noah. 

"Antecipamos que tudo acontecerá sem problemas durante o eclipse, e nos recuperaremos dele sem inconvenientes. Estamos preparados para isso e prontos para resolver o que ocorrer. Ficaremos dependentes dos níveis de carga das baterias e preparados para reagir se algo não sair de acordo com o planejado. Vamos fazer todo o possível para que a nave atravesse o momento do eclipse e saia em boa forma", acrescentou o especialista. 

Por sua parte, Dawn Myers, do centro de voos espaciais Goddard da NASA, disse em um comunicado: "Sempre é estressante quando o eclipse está chegando, mas seguimos os mesmos procedimentos e não temos tido nenhum problema". 

É preciso também ter em mente que essa sonda da NASA já lidou com êxito com três eclipses lunares nos últimos 17 meses. 

Quem estiver acordado durante a noite de domingo e a madrugada da segunda-feira poderá ver uma Lua maior do que o normal, por causa de sua proximidade. De fato, ela estará cerca de 14% maior e cerca de 30% mais brilhante do que a Lua cheia normal.  



sábado, 15 de agosto de 2015

Programa espacial brasileiro foi p'ro espaço

Como expus em postagem anterior, o programa espacial brasileiro tem um histórico carregado de problemas, o mais traumático deles a explosão do foguete VLS-1 na plataforma de lançamento em 22 de agosto de 2003, com a morte de 21 técnicos civis. O capítulo mais recente dessa novela fracassada foi a desistência unilateral, pelo Brasil, do acordo espacial com a Ucrânia anunciada no final de julho passado. Essa é a história de mais um projeto nascido, caríssimo (em custos financeiros, em custos de imagem e em atraso tecnológico) mal gerenciado e encerrado dentro de governos petistas.

Assinado com a Ucrânia em 2004 com pompas e circunstâncias pelo NPA (Nosso Pinóquio Acrobata, Lula), esse projeto foi encerrado depois do país investir R$ 500 milhões no preparo da base e 12 anos na espera do Cyclone 4, um foguete para lançamento de satélites. O governo preferiu embolsar o prejuízo, desistir e tentar retomar as propostas de "alugar" a base para uso de outros países.

O programa do Cyclone-4 era criação do ex-ministro da Ciência e Tecnologia Roberto Amaral, que representou o Brasil na binacional ACS até 2011. Ele sempre foi criticado pela FAB (Força Aérea Brasileira), tradicional gerente do programa espacial brasileiro. Mais um produto desastroso dos sacos de gatos dos governos petistas.

A decisão pelo término do acordo foi tomada em janeiro deste ano por Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saia), a partir de relatório de um grupo interministerial que concluiu que o acordo não era mais economicamente viável. Há três anos, relatório do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) questionava a manutenção do programa. Imaginava-se a possibilidade de lucrar entre US$ 35 milhões e US$ 50 milhões por lançamento de satélite, oferecendo a diferentes países o uso do foguete ucraniano na Base de Alcântara, que tem uma das melhores localizações do mundo para esses lançamentos. A avaliação do MCT era de que não havia mais interesse por esse produto e, para efetivamente se pagar, o acordo teria que ter dado frutos a partir de 2010.

O estranho nessa história -- p'ra variar, nos governos petistas --  é que exatamente há três anos, em julho de 2012, Dilma NPS autorizou o aporte de R$ 135 milhões pela União para aumento de capital da empresa binacional brasileiro-ucraniana Alcântara Cyclone Space (ASC). Se na mesmíssima época havia um relatório do MCT questionando a manutenção desse programa espacial, como e por que a madame ex-guerrilheira decidiu por mais dinheiro nessa empreitada?! Há nos governos de Dilma NPS coincidências que cheiram muito mal: exatamente em 2006 deu-se a catastrófica compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras com o aval da madame, então presidente do Conselho de Administração da estatal. Ou seja, dois erros cavalares e extremamente onerosos para o país foram cometidos pela mesmíssima pessoa, Dilma NPS Rousseff, num mesmíssimo ano! Caramba, que gestora é essa?!! Mais uma boa pergunta para os 53 milhões de masoquistas que reelegeram essa cidadã.

Segundo a Folha de S. Paulo, a diplomacia russa também vinha pressionando discretamente o Brasil a abandonar o acordo com seus rivais ucranianos. Os russos podem inclusive ofertar lançadores.

O NPA assinou no dia 8 de novembro o decreto promulgando o acordo entre Brasil e Ucrânia que prevê que aquele país pode usar a Base Aérea de Alcântara para o lançamento de foguetes. O texto restringe o acesso de brasileiros no que o governo está chamando de "sala limpa", que é o local onde estará o segredo industrial dos ucranianos. Esta cláusula é semelhante à existente no acordo entre Brasil e Estados Unidos, que foi bombardeado pelos petistas, enquanto estavam na oposição, durante o governo Fernando Henrique Cardoso. 

Tentando amenizar as críticas, o governo federal buscou explicar que a restrição só ocorreria no momento do lançamento, e em áreas específicas, não incluindo as demais dependências da Base Alcântara, que estariam abertas a todos os funcionários brasileiros, durante todo o tempo. De acordo com o item três, do artigo IV do acordo, "o Brasil disponibilizará, no Centro de Lançamento de Alcântara, áreas para o processamento, montagem, conexão e lançamento de veículos de lançamento e espaçonaves pelos licenciados ucranianos e permitirá que pessoas autorizadas pelo governo da Ucrânia controlem o acesso a essas áreas". O texto acrescenta ainda que os limites desta área deverão ser claramente definidos. No artigo sexto, item 2, o acordo é ainda mais explícito em relação ao controle do acesso a determinadas áreas da base pelos ucranianos. "As partes assegurarão que somente participantes ucranianos, cujos procedimentos de segurança tenham sido aprovados pelo governo da Ucrânia, controlarão o acesso a veículos de lançamento, equipamentos da plataforma, espaçonaves" (o destaque é meu).

Ou seja, pelo descrito acima já antes de Dilma NPS o Brasil já havia sido enganado por um governo petista. O governo do NPA criticou fortemente o governo de FHC pelo projeto de acordo com os EUA para o uso da base de Alcântara, acusando-o de negociar nossa soberania, mas fez no acordo com a Ucrânia exatamente o que condenava no acordo do governo FHC com os EUA. 

O governo de Dilma NPS voltou a negociar em 2013 o uso da base pelo governo americano, em termos diferentes do acordo de 2000, que foi rejeitado pelo Congresso porque dava autoridade total aos Estados Unidos quando estivessem operando seus foguetes em Alcântara. As negociações foram suspensas após o escândalo de espionagem e do cancelamento da viagem da presidente aos EUA, naquele ano. No entanto, na visita em junho o ministro da Defesa, Jaques Wagner, levou de novo a proposta ao governo americano. Alguém acredita que ficaremos cientes das condições reais dessas negociações?

Veja os meandros do acordo Brasil-Ucrânia , segundo a Folha de S. Paulo:


Editoria de arte/Folhapress


quarta-feira, 22 de julho de 2015

A medicina que vem do espaço

[Pouco se divulga sobre os efeitos outros das viagens espaciais, além dos resultados científicos relativos a excursões humanas no cosmos e a impressionantes avanços tecnológicos na exploração do Universo. O artigo abaixo, cujo título é o que usei para esta postagem, publicado no jornal espanhol El Mundo, joga um pouco de luz sobre os benefícios para a medicina provenientes de tais viagens. Seu autor é Eduardo García Llama, físico e engenheiro espanhol especializado em operações espaciais, que trabalha no Centro Espacial Johnson da Nasa em Houston há mais de uma década.]

Estação Espacial Internacional - (Foto: Nasa)

Recentemente recebemos notícias encorajadoras no terreno das pesquisas para fins médicos que se realizam a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla inglesa), já que em breve terá início o primeiro teste clínico em seres humanos de um medicamento para tratar a distrofia muscular de Duchenne. O desenvolvimento desse medicamento foi possível graças a experiências realizadas na ISS. 

A distrofia muscular de Duchenne (DMD) é uma doença hereditária, atualmente incurável, que afeta principalmente crianças do sexo masculino e que costuma começar a surgir na infância. Consiste em uma atrofia muscular progressiva, que acaba resultando sempre na morte prematura dos que a sofrem. Hoje, a DMD é a enfermidade genética letal na infância mais comum no mundo.  Ela atinge aproximadamente um em cada 3.600 crianças, que acaba morrendo por volta dos 20 anos de idade. Acredita-se que o fármaco desenvolvido graças às experiências a bordo da ISS retardará no dobro do tempo o início dos efeitos sucessivos de deterioração progressiva dessa doença, e estenderá ao dobro a esperança de vida dos pacientes com DMD. Apesar de não se tratar de uma cura, pode-se considerar isso um primeiro passo muito significativo nessa direção. 

Muita gente me pergunta para que serve a ISS, e verifico que a imensa maioria das pessoas não conhece as atividades que são levadas a cabo a bordo dessa estação.  A ISS não é nada mais nada menos que um laboratório científico no espaço,  projetado principalmente para a realização de pesquisas básicas nos campos da biologia e da biotecnologia, das ciências da Terra e do espaço, e para o desenvolvimento de tecnologia. Mas, o que há na ISS que permita supor uma vantagem em pesquisas científicas em relação aos laboratórios existentes na Terra?  A resposta está no efeito equivalente à falta de gravidade existente na estação. 

A condição equivalente de não-gravidade que se experimenta a bordo da ISS permite estudar sistemas físicos e biológicos, sem que ocorram muitos dos efeitos que estão presentes quando esses mesmos sistemas são estudados em laboratórios na Terra. Em uma condição equivalente de não-gravidade não se dão a sedimentação, a convecção ou a pressão hidrostática, por exemplo. A ausência destes e de outros efeitos permite estudar sistemas físicos e biológicos em condições mais ideais, o que propicia que se possam entender e caracterizar com mais fidelidade muitas de suas propriedades e processos intrínsecos, já que permite a identificação de mecanismos subjacentes que, de outra maneira, se veriam mascarados pelos efeitos decorrentes de não se estar em condição equivalente de não-gravidade, como é o caso dos laboratórios na Terra. 

A descoberta do fármaco concebido para o tratamento da DMD foi possível porque na estação podem crescer cristais de proteínas que são maiores e de melhor qualidade dos que os obtidos em laboratórios na Terra, o que permite determinar com uma precisão muito maior suas estruturas tridimensionais. Foi o estudo de uma proteína específica associada à DMD que permitiu o projeto de um medicamento com as características necessárias para poder ligar-se a ela -- como "uma chave entra em uma fechadura", nas palavras do professor Yoshihiro Urade, um dos responsáveis por esses avanços -- e degradar seus efeitos.

Esquema mostrando como um medicamento (verde) com projeto necessário pode se encaixar em um local específico de uma proteína - (Fonte: Nasa)

Abrem-se também esperanças para a cura da Alzheimer, a partir das experiências a bordo da ISS. Em 10 de janeiro passado, uma cápsula de carga da empresa Space X foi lançada rumo à estação transportando um experimento, chamado SABOL, que será utilizado para abrir uma nova via de pesquisa sobre a Alzheimer, uma frente de pesquisa única que só pode realizar-se a bordo da ISS.  

Acredita-se que a Alzheimer e outras patologias semelhantes se originam e avançam quando certas proteínas formam fibras que se acumulam no cérebro sob a forma de placas e novelos que acabam impedindo o correto funcionamento das células nervosas do cérebro. A experiência SABOL foi concebida inicialmente para o estudo da origem da vida, e estava dirigida para avançar na compreensão dos processos biológicos de automontagem mediante o estudo de crescimento de fibras de proteínas. Dado que, precisamente, a Alzheimer envolve um processo de automontagem semelhante, a experiência SABOL se utilizará agora para tentar decifrar os mecanismos envolvidos na origem e desenvolvimento das acumulações de proteínas responsáveis por essa desordem.


Representação artística mostrando acumulações de proteínas responsáveis pela doença de Alzheimer - (Fonte: Nasa)

Os conglomerados protéicos que se considera serem os responsáveis pela Alzheimer levam décadas para se desenvolver e se acumular -- razão pela qual essa desordem está associada à velhice. Por isso, os cientistas idealizaram métodos para que esses agregados cresçam com maior velocidade em laboratórios e, assim, poder estudá-los sem ter que esperar muito tempo. 

Entretanto, os agregados que são obtidos nos laboratórios na Terra só podem alcançar tamanhos relativamente pequenos antes de se depositarem por seu próprio peso no fundo do recipiente ou placa onde foram criados, fundo que ademais impede que essas redes fibrilares cresçam tridimensionalmente da maneira que fariam naturalmente se não tivessem que estar confinadas sobre uma superfície in vitro. O ambiente equivalente à falta de gravidade que se vive a bordo da ISS permite precisamente que se consigam conglomerados protéicos de tamanho muito maior, já que crescem em suspensão e sem o impedimento decorrente de não estarem depositados em superfície alguma -- isso facilita um estudo mais detalhado de seu crescimento.

 Fibras de uma proteína associada à doença de Alzheimer. À esquerda se vê como algumas fibras se duplicam e outras se unem em configurações helicoidais. À direita, resultado obtido quando se assentam por seu próprio peso, interrompendo seu desenvolvimento - (Fonte: Samuel Durrance, Instituto Tecnológico da Flórida)

As amostras que crescerem na SABOL serão analisadas com microscópio de força atômica quando regressarem à Terra para, depois de sua análise, para que se possa refinar experiências futuras. Abre-se assim uma nova via de pesquisa contra a doença de Alzheimer, uma via impossível de ser trilhada em laboratórios na Terra. Essa nova frente seguramente não resultará de forma direta nem imediata em uma cura dessa enfermidade, mas sim contribuirá para seu entendimento e sua caracterização. Acredita-se que isto poderá derivar em progressos dirigidos a deter seu avanço, em aperfeiçoamento dos tratamentos correntes em desenvolvimento ou, inclusive, na melhor das hipóteses, contribuir para sua cura definitiva. 

Os exemplos mencionados são representativos unicamente dos progressos que podem resultar das pesquisas a bordo da ISS na área médica, mas os campos de estudos em condições equivalentes de não-gravidade são inúmeros, variados e complexos. Estamos realmente na infância desse tipo de pesquisa, mas creio que o potencial está aí e é enorme. 

Para terminar, há outro aspecto que se depreende desses casos de pesquisa que me parece importante destacar. Os exemplos de pesquisas descritos brevemente demonstram com clareza a grande interconexão que existe entre múltiplas disciplinas da ciência e da tecnologia: áreas do conhecimento e da técnica tão díspares, tão aparentemente inconexas e que, além disso, talvez algumas delas fossem classificadas por muitos como "pouco práticas", como é o caso do estudo da origem da vida na Terra, os foguetes e os voos espaciais, a física da gravidade ou a cristalografia, por exemplo, se unem nesses casos e convergem na área médica para tentar solucionar problemas da Humanidade. 

Essa interconectividade e essa interdependência multidisciplinar são uma característica fundamental para o avanço do conhecimento e, portanto, para o benefício humano. Isso é algo de que devemos ser conscientes como cidadãos e que, creio, devemos ter em conta nahora de apoiar, se não for por outras razões, o investimento em pesquisas e no desenvolvimento de múltiplas disciplinas científicas e técnicas ainda que, a priori, pareçam não redundar em um benefício prático imediato. 




terça-feira, 7 de outubro de 2014

O "Big Bang" frente a Deus

[A reportagem traduzida abaixo, de autoria de Pablo Jáuregui, foi publicada no jornal espanhol El Mundo de 25/9. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]


O astrofísico e cosmólogo britânico Stephen Hawking - (Foto: Google)

Stephen Hawking desfiou ontem sua visão ateia da origem do Universo, diante de um auditório superlotado em Tenerife. Comprovando uma vez mais que é a estrela mais deslumbrante da ciência mundial, o astrofísico britânico expôs suas ideias sobre o Big Bang que deu o tiro de partida ao Cosmos e detalhou porque, como declarou na semana passada em uma entrevista exclusiva ao El Mundo, está convencido de que Deus não é necessário para explicar o nascimento do Universo.

Durante o ato central do Festival Starmus, um congresso concebido para aproximar de todos os públicos os achados da astronomia, Hawking apareceu em sua cadeira de rodas no Auditório Magma da ilha canária e provocou uma gigantesca ovação entre as centenas de colegas, estudantes e amantes do Cosmos que o aclamaram como se fosse um astro de rock. 

"Se necessita de um Criador para determinar como começou o Universo? Ou o estado inicial do Universo está determinado por uma lei da Ciência?". Essas, proclamou Hawking através da legendária voz robótica de seu sintetizador, são as perguntas chaves sobre a origem do Cosmos que queria abordar em sua conferência.

O astrofísico britânico recordou como uma vez participou de um congresso de cosmologia no Vaticano, no qual o Papa disse aos participantes que "era satisfatório estudar o Universo uma vez iniciado, mas que não deviam indagar sobre seu próprio início porque esse foi o momento da Criação e obra de Deus". Em seguida, Hawking soltou uma das inúmeras pérolas características de seu sarcástico senso de humor que salpicaram toda a sua fala: "considerei afortunado que o Papa não havia dado conta de que eu havia apresentado um artigo durante o congresso com uma proposição de como o Universo se havia iniciado. Não me agradava a ideia de que me pudessem entregar à Inquisição, como fizeram com Galileu". 

A origem do Universo e o Papa

O astrofísico britânico explicou que por volta do início dos anos 60 houve um intenso debate científico sobre se o Universo teve início há um tempo finito. No caso de que se assim fosse, a pergunta óbvia era: "o que ocorreu antes do início do Universo?". E, de novo, o astrofísico recorreu a outro comentário jocoso, provocando gargalhadas em toda a plateia: "Santo Agostinho, brincando, disse: "o que Deus estava fazendo antes de criar o Universo? Estava preparando o inferno para o que fazem perguntas desse tipo".

A teoria alternativa para um início do Cosmos no espaço temporal era de que o Universo havia existido eternamente, como defendia Aristóteles, como recordou Hawking, "algo eterno era mais perfeito e isso evitava questões incômodas sobre a Criação". Segundo essa hipótese, conhecida como a Teoria do Estado Estacionário, "o Universo havia existido sempre, com a criação contínua e matéria nova enquanto o Universo se expandia para manter a densidade constante".

Entretanto, observou Hawking, essa teoria nunca coincidiu muito bem com as observações  e que "o prego final em seu caixão" veio com a descoberta do fundo tênue de microondas, os sinais considerados como o eco do Big Bang. E para explicar em que consiste esse fenômeno, Hawking lançou mão uma vez mais dessa gozação cósmica que é típica desse ambiente: "Essas microondas são do mesmo tipo que as do nosso forno de microondas, mas muito menos potentes. Esquentaria nossa pizza até uma temperatura de no máximo -271,3 graus centígrados, não muito útil inclusive para descongelá-la e muito menos para cozinhá-la". Hawking mostrou inclusive seu talento como divulgador, dando esta informação às centenas de fãs fissurados que o assistiam em Tenerife: "Vocês mesmos podem observar essas microondas. Coloquem seu televisor analógico em um canal "vazio"(sem imagem). Uma porcentagem ainda que baixa da "neve" que aparece no monitor é causada por esse fundo de microondas".  

Hawking considera que "muitos cosmólogos modernos são como João Paulo II", no sentido de que "são felizes aplicando as leis da física ao Universo depois de seu início, mas têm uma atitude vaga, indefinida, sobre esse próprio início". Entretanto, o astrofísico está convencido de que a primeira evidência direta do Big Bang, obtida este ano mesmo no coração da Antártida, na Estação Polar Amundsen-Scott, demonstrou que o Universo nasceu com esse estalo cósmico.  
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O dever de divulgar

"Por que estamos aqui? De onde viemos? Por que há algo em vez de nada?" Antes de proferir sua apaixonante conferência à tarde, Hawing explicou a um grupo de jornalistas que essas são "as perguntas fundamentais sobre nós mesmos" que sempre o fascinaram, e o impeliram a dedicar-se à física teórica. A ciência, argumentou o astrofísico, "é a base de toda a tecnologia de que dependemos hoje no mundo moderno".  Mas, por isso mesmo, Hawking considera absolutamente imprescindível que "todo mundo tenha um conhecimento básico da ciência, para que possam tomar decisões bem fundamentadas por si mesmos, em vez de deixá-las unicamente nas mãos de especialistas".  Nesse sentido, o autor de livros de divulgação tão importantes como "História do Tempo" e "O Grande Projeto" assinalou que "o ensino da ciência nas salas de aula é fundamental para que o conhecimento científico chegue a toda a sociedade, mas creio que nós cientistas temos o dever de divulgar e explicar as ideias contemporâneas da ciência a toda a sociedade". 
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[Stephen Hawking (Oxford, 8 de janeiro de 1942) nasceu exatamente no aniversário de 300 anos da morte de Galileu. Físico teórico e cosmólogo britânico, é um dos mais consagrados cientistas da atualidade. Entrou em 1959 no University College, Oxford, formando-se em física três anos depois (1962). Obteve o doutorado na Trinity Hall, Cambridge, em 1966. Casou-se em julho de 1965 com Jane Wilde, de quem se separou em 1991. Casou-se depois com sua enfermeira Elaine Mason em 1995, com quem teve três filhos; tem um neto.

Por volta de 1966, foi diagnosticado como portador da doença degenerativa ELA - Esclerose Lateral Amiotrófica. Esta doença devastadora nem sequer lhe permite manejar mais o mouse que usava antes para selecionar palavras em seu computador e transmití-las através de um sintetizador de voz.] 

Os músculos do seu rosto se converteram nas últimas ferramentas corporais que lhe restam para comunicar-se, ativando com a bochecha direita um sensor acoplado a seus óculos.

Graças a essa tecnologia impressionante projetada especialmente para ele, Hawking consegue mover um cursor sobre uma tela e ativar assim a lendária voz robótica que fala por ele com sotaque americano. Como os médicos não lhe permitem mais voar, Hawking viajou para Tenerife em um cruzeiro de seis dias. Mesmo com todos os problemas que o afligem, Hawking recebeu com sorrisos sinceros a equipe de jornalistas que o entrevistou, a quem sua enfermeira Nikky O' Brien informou que ele estava desfrutando da viagem e aproveitando-a também como o gourmet que é.


Perguntada se na equipe de Hawking há algum especialista para resolver eventuais problemas que possam surgir no sofisticado sistema informático que ele utiliza para comunicar-se, sua enfermeira disse que não mas que há em Cambridge um especialista que pode resolver remotamente qualquer problema no computador de Hawking.

Com o  sofisticado sistema que aciona com o movimento de suas bochechas, Hawking consegue escrever uma média de três palavras por minuto. Por isso, para ser entrevistado, ele precisa receber as perguntas com bastante antecedência para evitar que a entrevista se estenda por muitas horas.

Na primeira pergunta da entrevista Hawking é indagado se continua acreditando que, como disse no livro "História do Tempo" que o fez mundialmente famoso, algum dia teremos uma "Teoria do Todo" para compreender as leis que governam o Universo, ou se há aspectos da realidade nos quais a mente humana nunca poderá penetrar.  Sua resposta reflete sua fé inquebrantável no poder da ciência para deslindar os mistérios do Cosmos: "Creio que sim conseguiremos entender a origem e a estrutura do Universo. Na realidade, agora mesmo já estamos próximos de conseguir esse objetivo. Na minha opinião, não há nenhum aspecto da realidade fora do alcance da mente humana". 

Ciência 'versus' religião 

Na segunda pergunta, Hawking é solicitado a esclarecer sua postura sobre Deus e a religião, que gerou um intenso debate entre seus leitores. Por um lado, no final do livro História do Tempo escreveu que se um dia lográssemos chegar a essa Teoria do Todo conheceríamos "a mente de Deus". Mas, posteriormente em seu polêmico O Grande Projeto escreveu que o Universo "pode criar-se do nada, por geração expontânea" e que a ideia de Deus "não é necessária" para explicar sua origem. O entrevistador lhe perguntou, ante essa aparente contradição, se mudou de opinião nesse terreno e se se considera agnóstico ou ateu. 

Sua resposta inequívoca deixa muito claro que, ainda que muitos tenham chegado a qualificar como um "milagre" o fato de que ele ainda esteja vivo meio século depois de ter sido diagnosticado com uma doença para a qual a expectativa de vida costuma ser de um par de anos, o astrofísico rechaça por completo todas as crenças religiosas: "No passado, antes que entendêssemos a ciência, era lógico crer que Deus criou o Universo. Mas, agora a ciência oferece uma explicação mais convincente. O que quis dizer quando mencionei que conheceríamos "a mente de Deus" é que compreenderíamos tudo o que Deus seria capaz de compreender se acaso existisse. Mas, não há nenhum Deus. Sou ateu. A religião acredita nos milagres, mas eles não são compatíveis com a ciência". 

Antes de poder responder cada pergunta, Hawking vai selecionando frases do arquivo onde deixou preparadas suas respostas e as coloca em um programa chamado 'Speaker', que converte textos escritos em frases emitidas por seu sintetizador. O software que produz a famosa voz de Hawking é dos anos 80, época da traqueostomia a que teve de se submeter e que o deixou definitivamente sem voz. Na realidade, existem hoje programas mais avançados que soam muito menos robóticos, mas Hawking já leva tantos anos utilizando essa voz que se identifica plenamente com ela e não tem nenhuma intenção de trocá-la.

Em uma ocasião perguntaram-lhe inclusive se não preferia que o equipassem com um sintetizador com sotaque britânico, que se pareceria muito mais com a voz de um nativo de Oxford como ele. Mas, com seu inconfundível senso de humor, Hawking respondeu que isso sem dúvida o ajudou a suportar durante tantos anos uma doença tão cruel: "com o sotaque americano tenho muito mais sucesso com as mulheres".

A conquista de outros planetas

Após o dialogo sobre religião passou-se do divino ao humano, e perguntou-se a Hawking se acredita que continua valendo a pena investir bilhões com o envio de missões com astronautas ao espaço ou se isso lhe parece um desperdício, como é a opinião de muitos de seus colegas cientistas. O astrofísico tem muito claro que a conquista do espaço deve continuar, não apenas porque "a exploração espacial impulsionou e continuará estimulando grandes avanços científicos e tecnológicos" como também porque pode representar um seguro de vida para a futura sobrevivência da nossa espécie: "poderia evitar o desaparecimento da Humanidade graças à colonização de outros planetas".  

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O tempo da entrevista termina, e a enfermeira O' Brien começa a fazer o sinal da guilhotina para os entrevistadores, mas o repórter do El Mundo percebe na tela de Hawking que ele tem ainda uma resposta a mais para uma pergunta que esse repórter lhe fizera  sobre como ele Hawking gostaria de ser lembrado pelas gerações futuras. "Espero que se lembrem de mim por meu trabalho no campo da cosmologia e dos buracos negros", responde o astrofísico antes que suas enfermeiras comecem a levá-lo.

Chama a atenção o fato dele não dizer absolutamente nada sobre o extraordinário exemplo que deu com sua vida, ao demonstrar até onde pode chegar a capacidade de superação do ser humano diante da adversidade mais cruel. E, enquanto Hawking desaparece pelos corredores do hotel, o repórter do El Mundo se lembra de uma de suas frases mais inesquecíveis: "A Humanidade é tão insignificante se a compararmos com o Universo, que o fato de ser um deficiente físico não tem muita importância cósmica".