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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

5 decisões para simplificar sua vida tecnológica

[Traduzo a seguir reportagem de Brian X. Chen publicada no The New York Times. Percebe-se pelo texto, sem surpresa, que é muito mais fácil ser ecologicamente correto e ter melhor retorno para seu dinheiro na área digital nos Estados Unidos que no Brasil.]

5 decisões para simplificar sua vida tecnológica

Brian X. Chen - The New York Times, 03/01/2017

Ilustração: Minh Uong/The New York Times

Em 2017, por que não tentar um novo tipo de decisão de Ano Novo? Em vez de apenas partir para a ginástica e perder alguns quilos, pense em mudar alguns hábitos para simplificar a tecnologia na sua vida. 

Se você é como a maioria das pessoas, há coisas que você faz com a tecnologia que podem usar ou sofrer algum ajuste. Fortalecer a segurança de sua senha, por exemplo, seria tremendamente benéfico para você em uma época em que a pirataria é desenfreada. Outro exemplo, eliminar o lixo eletrônico que você acumulou ao longo dos anos ajudaria o meio ambiente e sua sanidade. Enquanto você está com a mão na massa, comece por fazer alguma manutenção nos seus equipamentos eletrônicos para assegurar-se de que funcionarão sem problemas este ano. 

Eis minhas principais recomendações para decisões a serem tomadas para fazer a tecnologia menos frustrante este ano.

Faça uma limpeza na higiene de sua senha

Ilustração: Minh Uong/The New York Times

Que cheiro é esse? É da higiene ruim da sua senha. Você provavelmente está usando a mesma senha em muitos sites para atividades bancárias, shopping, redes sociais e email.

Isso é compreensível: uma pessoa pode apenas decorar tantas senhas. Mas em 20016, Yahoo fez lembrar a todo mundo que reutilizar senhas é uma ideia muito ruim após revelar que 500 milhões de contas Yahoo foram comprometidas em 2014, em acréscimo ao 1 bilhão de contas que foram pirateadas em 2013. Se a senha de sua conta no Yahoo era a mesma que você usava alhures, essas outras contas estavam vulneráveis também. 

Comece 2017 passando algumas horas logando-se em cada uma de suas contas e criando senhas únicas, exclusivas e fortes. Para tornar isso mais fácil, use aplicativos como o LastPass ou o 1Password, que são apps de gerenciamento de senhas que permitem que você use uma senha master para abrir um "cofre" de senhas para se conectar a todas às suas contas na internet. Esses apps também geram senhas fortes para você.

Então adicione uma camada de proteção adicional habilitando um verificador de dois fatores em suas contas, sempre que a opção estiver disponível. Quando você entra com a sua senha, você recebe uma mensagem (geralmente um texto) com um código para ser usado uma vez, que você tem que digitar antes de ficar logado.

Com esses dois passos simples você se ajudará a proteger-se dos hackers inevitáveis que surgirão este ano.

Faça manutenção de seus dispositivos 

Ilustração: Minh Uong/The New York Times

Após serem usados regularmente, nossos smartphones e computadores começam a responder lentamente e a ter vida curta, mas um pouco de manutenção pode fazê-los sentir-se novinhos.

Primeiramente, verifique as condições de suas baterias. No caso de iPhones e iPads, você pode conectá-los a um iMac e rodar o aplicativo coconutBattery, que mostra estatísticas de baterias. Com dispositivos Android, você pode usar o aplicativo Battery, da MacroPinch. Se sua bateria estiver em seus estertores, é a hora de comprar uma nova ou de agendar uma visita a um serviço técnico de manutenção para trocá-la.

Se seu dispositivo estiver lerdo, liberar algum armazenamento pode fazer também uma tremenda diferença. Comece eliminando aplicativos que você nunca mais usou. Depois, faça alguma coisa com aquelas fotos que você nunca mais olhou: faça  um backup de todas as suas fotos para a nuvem usando serviços como o Google Photos, em seguida delete-as de eu dispositivo para começar o novo ano com um novo rolo de fotos.

Mostre também algum carinho físico para com seus dispositivos e engenhocas. Faça uma boa limpeza de suas telas com um pano úmido. Se você tem um desktop, abra-o e use ar comprimido para remover a poeira.  

Faça essa manutenção básica a cada seis meses e seus dispositivos funcionarão sem problemas durante anos. 

Preste atenção à sua infraestrutura


Ilustração: Minh Uong/The New York Times

Não hesitamos em comprar smartphones novos a cada dois anos -- mas aquele desprezado e feio roteador de Wi-Fi enfiado num canto da sala de estar pode ser o produto tecnológico mais importante a ser atualizado a cada  dois anos. Entre todas as dores de cabeça tecnológicas, não há nada mais irritante do que conexões de internet lentas e de má qualidade.

Comece cada ano novo fazendo algumas verificações na sua infraestrutura de  internet. Se seu roteador tiver mais de três anos de idade, você provavelmente precisa de um novo que seja compatível com os padrões mais rápidos e mais inteligentes de hoje. Se estiver apoiado em um roteador fornecido por seu provedor de banda larga, você deveria provavelmente comprar um roteador independente mais  poderoso. 

O site Wirecutter, de recomendação de produtos, de propriedade do The New York Times, recomenda  o TP-Link's Archer C7 como o melhor roteador para a maioria das pessoas. Se você tiver um know-how menos técnico, lhe recomendo o sistema de Wi-Fi da Eero, que oferece um aplicativo de smartphone que mantém seu [de você] controle através da configuração da rede.

Desperdice menos

Ilustração: Tom Grillo

Engenhocas e cabos elétricos sem uso ocupam um bocado de espaço em gavetas e sótãos. Esse lixo eletrônico teria melhor destino se fosse vendido ou doado para alguém que dele necessite, ou reciclado por causa dos metais valiosos que contém.

Durante o período de limpeza na primavera, planeje tirar esse refugo indesejado de sua vida. Empresas como Amazon e Gazelle oferecem serviços livres de dores de cabeça em negócios que aceitam material/equipamento usado como parte do pagamento de material/equipamento novo.

Simplesmente, entre com os dados da engenhoca ou dispositivo que vocês tenta comercializar, como um iPhone usado ou um dispositivo Samsung Galaxie, e esses sites lhe dirão quanto dinheiro ou crédito na loja Amazon você pode obter em troca por  seus dispositivos. Empacote então seu hardware ultrapassado, ponha-lhe uma etiqueta, deixe-o num centro de  transporte ou remessa e espere o dinheiro entrar na sua conta.

Há um limite para ser lixo eletrônico invendável na sua pilha. Nos Estados Unidos, todos os locais da Best Buy aceitarão seus eletrônicos usados e os reciclarão de graça. Simplesmente ensaque seus itens e os deixe no balcão de serviços para clientes, e  a rede varejista fará o resto.

Seja um comprador mais esperto

Ilustração: Minh Uong/The New York Times

Para conseguir grandes compras de eletrônicos, não é preciso esperar até uma Black Friday ou uma Cyber Monday. Pesquise cuidadosamente os itens de alta qualidade e longa duração que você quer e compre-os quando seus preços baixarem significativamente. Essa técnica pode ser especialmente útil nas compras online de equipamentos ou produtos cujos preços caem à medida que eles envelhecem.

Ferramentas da web como Camel Camel Camel e Keepa fazem ficar fácil rastrear preços na Amazon.com. Nos seus sites, simplesmente faça uma busca pelo nome do item e eles lhe darão um histórico de preços. A partir daí, você pode criar um rastreador que o alertará por email sempre que um preço cair para um valor desejado.

Outro modo de poupar dinheiro é considerar a hipótese de comprar produtos usados sempre que possível. Busque cuidadosamente por vendas de eletrônicos usados ou reformados de marcas reputadas como Apple, GameStop, Amazon e Gazelle. Antes de comprar um item de segunda mão leia cuidadosamente as condições em que se encontra: frequentemente, produtos vendidos como usados mal foram tocados antes de serem devolvidos, ou foram rearmazenados como "bons como se fossem novos" por um centro de reforma ou remodelagem.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Satélite de estudantes brasileiros é lançado no Japão

[Boas notícias sem pre hão de pintar por aí -- só não dá pra entender porque nossa mídia catastrofista não as divulga.]

Satélite de estudantes brasileiros é lançado no Japão


O nanossatélite dos estudantes brasileiros foi levado ao espaço pelo cargueiro espacial japonês que está levando suprimentos para a ISS. [Imagem: JAXA]

O nanossatélite UbatubaSat, desenvolvido por alunos do ensino fundamental de Ubatuba (SP), foi lançado nesta sexta-feira do Centro Espacial Tanegashima, no Japão, rumo à Estação Espacial Internacional (ISS). A primeira etapa do lançamento foi transmitida ao vivo pela Jaxa, agência espacial do Japão.
A expectativa é que o satélite seja finalmente liberado no espaço no próximo dia 19 e, a partir do dia 21, já esteja na órbita operacional esperada. A liberação final será feita por um lançador especial de nanossatélites montado no laboratório japonês Kibo.
O UbatubaSat poderá ser o primeiro satélite totalmente desenvolvido no Brasil a funcionar em órbita, de onde poderá registrar a distância de sondas espaciais, detectar a formação de bolhas no espaço e também fazer contato com radioamadores e transmitir mensagens que foram gravadas por estudantes.
Satélite de estudantes

O projeto UbatubaSat foi idealizado pelo professor Cândido Osvaldo de Moura. A iniciativa surgiu no início de 2010, quando ele teve conhecimento de que uma empresa norte-americana estava desenvolvendo um veículo lançador e vendia os kits de montagem de pequenos satélites que pudessem ser lançados pela empresa.

Cândido levou o desafio para a sala de aula. Na época, ele era professor da Escola Municipal Presidente Tancredo de Almeida Neves (Etec), em Ubatuba. "A gente achou que seria interessante fazer um satélite desses com os alunos da quinta série. Eles tinham em média dez anos de idade e poderiam ser os mais jovens do mundo a desenvolver um projeto espacial", conta o professor.
Segundo Cândido, este tipo de satélite pequeno, também conhecido como cubesat, foi criado nos anos 1990 para servir como experiência pedagógica nas universidades. Com apoio técnico e financeiro do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Agência Espacial Brasileira (AEB), o professor adaptou a experiência para os alunos mais jovens.

Sucesso

O satélite levou três anos para ficar pronto. A construção foi conduzida por seis alunos, mas desde 2010 cerca de 400 estudantes já passaram pelo projeto, que engloba outras atividades de desenvolvimento científico.

Cândido e seus alunos acompanharam o lançamento do satélite da sede do Inpe, em São José dos Campos (SP). "A maior conquista é o aprendizado do aluno. O que a gente quis foi colocar os alunos em contato com a ciência e a tecnologia desde cedo. Este sucesso a gente já conquistou", disse Cândido.





sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Um novo tipo de medicina molecular pode ser necessário para combater o câncer

[O câncer é uma doença silenciosa, insidiosa, traiçoeira e terrível, que continua desafiando a Medicina. Traduzo a seguir artigo sobre da revista The Economist sobre a necessidade de uma nova abordagem para combater essa doença.]


Ilustração: Dave Simonds/The Economist (Master Regulator Protein = Proteína Reguladora Principal / Cancer Patrol = Patrulha do Câncer)

Para atacar tumores, médicos precisam concentrar seu foco nas proteínas e não nos genes

Uma das principais percepções ("sacadas") médicas das décadas recentes foi a de que cânceres são deflagrados por mutações genéticas. Entretanto, tem sido difícil aproveitar clinicamente essa percepção para melhorar os tratamentos de câncer.

Um estudo recente com 2.600 pacientes no M.D. Anderson Cancer Center em Houston, Texas, mostrou que a análise genética permitiu que apenas 6,4% dos pacientes pudessem ser tratados com um medicamento que visasse especificamente a mutação considerada responsável por seu câncer. A razão disso é que há apenas umas poucas mutações deflagradoras de câncer e a mesma proporção de medicamentos para combatê-las. Há numerosas outras mutações deflagradoras, mas são raras -- tão raras, que não há tratamento conhecido para elas e, dadas as características econômicas da descoberta de medicamentos, não é provável que se busque encontrá-lo.

Fatos como esses levaram muitos biologistas de câncer a questionar quão útil realmente é a abordagem genética na compreensão e tratamento do câncer. E alguns desses biologistas foram além do simples questionamento. Um deles é Andrea Califano, da Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque. Ele registra que, independente da mutação deflagradora, o padrão de expressão genética -- e a atividade proteínica a ela associada -- que mantém o tumor é, para um dado tipo de câncer, praticamente idêntico de paciente para paciente. Essa percepção ("sacada") dá o ponto de partida para uma abordagem diferente para a busca de alvos para o desenvolvimento de medicamentos. Em princípio, deve ser mais simples interferir no pequeno número de proteínas que direcionam o comportamento de uma célula cancerígena/cancerosa do que na miríade de maneiras pelas quais um câncer pode ser inicialmente deflagrado.

Esta semana, em um artigo na Nature Reviews Cancer o Dr. Andrea e o Dr. Mariano Alvez, seu colega em Colúmbia, reuniram mais de uma década de trabalho em um esforço para entender como se organizam as proteínas que regulam o câncer. Os dois doutores chamam essa organização de "oncotetura".

O clube dos 300

A criação de um modelo ou protótipo oncotetônico de um câncer começa pela análise dos perfis de expressões genéticas de células de amostras desse câncer. Um perfil de expressão genética descreve que genes estão ativos no DNA de uma célula, e quão ativos eles são. Como genes codificam proteínas, esse perfil dá uma noção de quais proteínas, e quantas delas, uma célula está produzindo. Muitas dessas proteínas estão envolvidas com o processo de regular a atividade celular, incluindo crescimento e divisão celular (coisas que dão errado no câncer), através da sinalização de trajetórias pelas quais uma proteína altera o comportamento de outras (algumas vezes de centenas ou de milhares de outras), cada uma delas mudando o comportamento de outras, e assim sucessivamente. Aplicando a esses dados um ramo da matemática chamado teoria da informação, o Dr. Califano mapeia então as conexões dentro de uma célula. 

Uma das descobertas mais importantes é que as redes resultantes têm umas poucas proteínas que são "reguladoras master", que controlam o maior número de outras proteínas. O Dr. Califano, cujo sogro atuou como promotor público contra a Máfia na Itália, as compara com os chefões de uma rede de criminosos organizados. Ele vê seu trabalho como sendo o de formular e resolver os laços entre eles, do mesmo modo com que um detetive estuda uma quadrilha para descobrir quem a comanda.

Até agora, ele analisou dados de 20.000 amostras de tumores e gerou mapas para 36 tipos de tumores. No total, identificou cerca de 300 proteínas que são provavelmente reguladoras master em pelo menos um tipo de câncer. Essas proteínas são organizadas em grupos de 30 em cada tipo de tumor, e provavelmente são, coletivamente falando, responsáveis pelo controle da maioria dos cânceres humanos.

Resulta que as reguladoras masters são em sua maioria proteínas que afetam a transcrição -- o processo que copia informação do DNA para moléculas mensageiras que transportam essa informação para as fábricas de proteínas de uma célula. Na opinião do Dr. Califano, é nessas reguladoras masters que os fabricantes de medicamentos deveriam concentrar-se, já que medicamentos que modificam as atividades de tais proteínas têm a probabilidade de serem amplamente aplicáveis, ao contrário daqueles direcionados para mutações genéticas. 

Na realidade, a escolha de alvos melhores pode ser ainda mais estreita que isso, diz ele -- pois entre seus reguladores masters movem-se furtivamente alguns capi di tutti capi (chefões de todos os chefões). Na opinião de Gordon Mills, do M.D. Anderson, um exemplo de um desses chefões é um receptor de estrógeno que está envolvido no câncer de mama. Este é um fator de transcrição que controla a expressão de muitos genes. Desabilitá-lo com um medicamento como o tamoxifeno, de maneira que ele não possa mais gerir sua parte da rede, é particularmente eficaz. Dr. Mills diz que isso dá um "resultado incrível", qualquer que seja a mutação genética que tenha deflagrado o câncer inicialmente. Um segundo exemplo que ele cita é o da tirosina quinase de Burton, que regula várias malignidades das células brancas do  sangue. 

No topo desses reguladores masters de ações específicas, como peças de software mal escritas, podem estabelecer-se laços (loops) que se retroalimentam e que, uma vez ativados, não cessam de atuar. Em câncer de próstata agressivo, comenta o Dr. Califano, duas proteínas chamadas FOXM1 e CENPF agem em conjunto desse modo para provocar um crescimento do tumor. Em glioblastoma, um câncer do cérebro, três proteínas cooperam para deflagrar e manter o câncer. E, de acordo com John Minna, do Centro Médico Sudoeste da Universidade do Texas, em Dallas, duas proteínas reguladoras masters governam a malignidade do câncer de pulmão de pequenas células.

Entretanto, o Dr. Minna enfatiza a necessidade de precaução na abordagem via reguladores masters. Em primeiro lugar, ele comenta que há muitos reguladores masters conhecidos e suspeitos na classe das proteínas que se mostraram difíceis de serem afetados por medicamentos. Em segundo lugar, nem todos os reguladores masters sugeridos pelo trabalho de modelagem do Dr. Califano mostraram-se agindo como tais em laboratório. São necessárias mais experiências para ver quais desses candidatos são realmente mafiosos proteínicos, e quais são meros informantes que foram acusados incorretamente. 

Para esse fim vários estudos estão sendo feitos. Um, na própria Universidade de Colúmbia, está recrutando voluntários com câncer para ver se atacar supostos reguladores masters em seus tumores opera em culturas de células ou quando partes desses tumores são implantadas em ratos de laboratório. Se essa abordagem der dividendos, isso sugerirá que atacar reguladores masters pode ser um meio eficaz para tratar câncer. Juntamente com medicamentos existentes vinculados a mutações particulares, e uma classe de farmacêuticos recentemente emergente que mobilizam o sistema imunológico contra tumores, detonadores de reguladores masters podem prover uma terceira forma de ataque molecular preciso contra essa mais temida das doenças.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Um desastre com avião militar americano na Espanha, envolvendo bombas de hidrogênio, revelado após 50 anos

[Traduzo a seguir (parcialmente) a primeira de duas longas reportagens de Dave Philipps, do The International New York Times, sobre um desastre ocorrido em 1966 com um bombardeiro B-52 da USAF (Força Aérea dos EUA) com plena carga, em uma patrulha nuclear durante a Guerra Fria. Equipado com quatro bombas de hidrogênio, o bombardeiro se chocou contra uma aeronave de reabastecimento aéreo e explodiu, e as bombas caíram na costa da Espanha, perto da vila de Palomares. A reportagem relata os fatos e as doenças adquiridas por diversos membros da USAF que participaram do desastre e/ou das providências subsequentes. Mais uma vez, surpreende e traumatiza a fria indiferença das forças armadas americanas com vítimas de atividades suas. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]


Em 1966, um bombardeiro B-52 em uma patrulha nuclear da Guerra Fria explodiu sobre a Espanha, liberando quatro bombas de hidrogênio. Cinquenta anos depois, veteranos da Força Aérea envolvidos na limpeza da área afetada pelo acidente estão doentes e querem reconhecimento - (Vídeo: Kassie Brake, em 12/6/2016. Foto: Kit Talbot)

Destroços de um avião americano que caiu em Palomares (Espanha), após colidir com outro em pleno voo em 1966 - (Foto: Kit Talbot)

Alarmes soaram na bases aéreas americanas na Espanha, e oficiais começaram a reunir todo o pessoal de baixo escalão que podiam e a colocá-los em ônibus para uma missão secreta. Entre eles havia cozinheiros, empregados de mercados e até músicos da banda da Força Aérea.

Era tarde em uma noite de inverno de 1966 e um bombardeiro B-52 completamente carregado, em uma patrulha nuclear da Guerra Fria, havia colidido com um jato de reabastecimento sobre a costa espanhola e liberado suas quatro bombas de hidrogênio, que caíram sobre uma vila rural chamada Palomares. Era um emaranhado de pequenos campos agrícolas com casas brancas, em um canto à parte da acidentada costa ao sul da Espanha, que pouco mudou desde os tempos romanos. 

Foi um dos maiores acidentes nucleares da história, e os EUA queriam-no limpo rapidamente e em surdina. Mas, se algo foi dito aos homens que se acomodavam nos ônibus sobre os planos da Força Aérea para limpar (eliminar) material radioativo despejado foi simplesmente "Não se preocupem". 

"Não se disse nada sobre radiação, plutônio ou qualquer outra coisa", disse Frank B. Thompson, então um trombonista de 22 anos que passou dias vasculhando campos contaminados, sem equipamentos de proteção ou até mesmo troca de roupas. "Nos disseram que era seguro, e acho éramos estúpidos o suficiente para acreditar neles". 

Thompson, com 72 anos, agora tem câncer no fígado, em um rim e em um pulmão. Ele paga US$ 2.200 por mês por seu tratamento e isso não lhe custaria nada em um hospital de veteranos, se a Força Aérea o reconhecesse como uma vítima de radiação. Mas, por 50 anos, a Força Aérea insiste em que não havia radiação perigosa no local do acidente. Ela diz que o perigo de contaminação era mínimo, e medidas rígidas de segurança garantiram que todos os 1.600 homens envolvidos na operação estivessem protegidos. 

Entrevistas com dezenas de homens como Thompson e detalhes de documentos liberados nunca antes revelados contam uma história diferente. A radiação perto das bombas era tão alta, que os equipamentos de monitoramento saíam da escala. A equipe da USAF passou meses cavando e remexendo poeira tóxica, usando como proteção pouco mais do que uniformes militares de algodão. E quando os testes realizados durante a limpeza indicaram que os homens tinham índices alarmantemente elevados de contaminação por plutônio, a Força Aérea descartou os resultados, classificando-os de "claramente irrealistas". 

John H. Garman estava na Força Aérea americana por ocasião do acidente com o B-52 em 1966, e foi um dos primeiros a chegar no local do desastre - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)

Nas décadas decorridas desde então, a Força Aérea tem propositadamente mantidos os testes de radiação fora dos arquivos médicos dos homens envolvidos na limpeza, e tem resistido a pedidos para retestá-los, mesmo quando os pedidos resultam de estudos da própria Força Aérea.

Muitos homens dizem que estão sofrendo com os efeitos impeditivos ou paralisantes do envenenamento por plutônio. De 40 veteranos que atuaram na limpeza, identificados pelo The New York Times (NYT), 21 tiveram câncer. Nove deles morreram em decorrência disso. É impossível conectar cânceres individuais com uma única exposição a radiação. E nenhum estudo formal de mortalidade jamais foi feito para determinar se há uma incidência elevada de doença. A única evidência que esses homens têm para se apoiar são as anedotas de amigos que viram definhar. 

"John Young, morto de câncer ... Dudley Easton, câncer ... Furmanski, câncer", disse Larry L. Slone, 76 anos, em uma entrevista elaborando através de tremores causados por um distúrbio neurológico.  No local do acidente, um oficial da polícia militar na época, Slone disse que recebeu um saco plástico e a ordem para apanhar fragmentos radioativos com as mão sem proteção, nuas. "Um par de vezes me checaram com um contador Geiger e ele nitidamente saiu de escala", disse ele. "Mas, nunca anotaram meu nome e nunca fizeram qualquer acompanhamento comigo". 

O monitoramento da vila rural espanhola também foi caótico, como mostram os documentos liberados. Os Estados Unidos prometeram pagar um programa de saúde para monitorar os efeitos de longo prazo da radiação no local, mas durante décadas providenciaram poucos recursos para isso. Até os anos 1980, cientistas espanhóis frequentemente se apoiavam em equipamentos quebrados e desatualizados, e careciam de recursos para fazer acompanhamento de ramificações potenciais, incluindo mortes de crianças por leucemia. Hoje, várias áreas restringidas por cercas ainda estão contaminadas, e há pouco conhecimento sobre os efeitos de longo prazo sobre a saúde dos moradores locais.

Muitos dos homens que efetuaram a limpeza após a queda do avião estão tentando obter cobertura total de saúde e compensação por incapacidade do Departamento de Assuntos de Veteranos. Mas este órgão se apoia nos registros da Força Aérea, e como esses registros dizem que ninguém foi atingido em Palomares, o departamento rejeita os pedidos reiteradamente.

A Força Aérea nega  também qualquer dano a 500 outros veteranos que limparam a área de um outro acidente quase idêntico em Thule, Groenlândia, em 1968. Esses veteranos tentaram processar o Departamento de Defesa em 1995, mas a ação foi negada porque a legislação federal americana blinda os militares contra alegações de negligência feitas por membros da tropa. Todos os demandantes, desde então, morreram de câncer.

Em um comunicado, o Serviço Médico da Força Aérea afirma que recentemente utilizou técnicas modernas para reavaliar os riscos de radiação para os veteranos que limparam o local do acidente de Palomares e "efeitos adversos agudos na saúde não eram nem esperados, nem observados, e foram baixos os riscos de longo prazo de aumento de incidência de câncer no osso, no fígado e no pulmão".

As consequência tóxicas de uma guerra são exasperantes para se elucidarem. Dano é difícil de ser quantificado e quase impossível de ser vinculado a problemas posteriores. Reconhecendo isso, o Congresso aprovou leis no passado para propiciar benefícios imediatos a veteranos submetidos a poucas e específicas exposições -- Agente Laranja no Vietnam ou os testes atômicos em Nevada, entre outros. Mas não existe lei semelhante para os homens da limpeza de Palomares.

Se os homens pudessem provar que foram afetados pela radiação, teriam cobertura para todo o atendimento médico relativo a isso e ganhariam uma modesta pensão por incapacitação. Mas, conseguir provas de uma missão secreta para limpar um veneno invisível décadas atrás tornou-se uma tarefa difícil de ser feita e até de difícil lembrança. 

(...)

O dia em que as bombas caíram

Um oficial da polícia militar de 23 anos, chamado John H. Garman, chegou de helicóptero no local do acidente em 17 de janeiro de 1966, poucas horas depois que as bombas explodiram. "Era tudo simplesmente caótico", Garman (hoje com 74 anos) disse em uma entrevista em sua casa em Pahrump, Nevada. "Havia destroços por todo vilarejo. Uma grande parte do bombardeiro tinha caído no pátio da escola local". 

Ele foi um dos primeiros a chegar ao local do acidente e juntou-se a meia dúzia de outros homens para procurar pela quatro armas nucleares desaparecidas. Uma bomba havia se enterrado em um banco de areia macio perto da praia e ficado retorcida, mas havia explodido. Outra havia caído no mar, onde foi encontrada intacta dois meses depois, após uma busca frenética.

As outras duas atingiram fortemente o solo e explodiram, deixando crateras do tamanho de uma casa em cada lado do vilarejo, de acordo com um relatório secreto da Comissão de Energia Atômica, que depois foi liberado. Dispositivos internos de segurança impediram a detonação nuclear, mas explosivos ao redor dos núcleos radioativos foram detonados e uma fina poeira de plutônio se espalhou sobre as casas e campos e sobre plantações de tomates maduros.

Uma multidão de moradores levou Garman até às crateras cobertas de plutônio, onde fitavam atentamente os destroços sem saber o que fazer. "Não tínhamos ainda nenhum detetor de radiação, então não tínhamos ideia se estávamos em perigo", disse ele. "Simplesmente ficamos ali, olhando para o buraco".

Cientistas da Comissão de Energia Atômica chegaram logo e ficaram com as roupas de Garman porque estavam contaminadas, contou ele, mas disseram-lhe que ficaria bem. Doze anos depois ele teve câncer na vesícula.

O plutônio não emite o tipo de radiação penetrante geralmente associada a explosões nucleares, que causa imediatamente efeitos evidentes na saúde, como as queimaduras por exemplo. Ele libera doses de partículas alfa, que percorrem apenas poucas polegadas e não podem penetrar a pele. Fora do corpo, dizem os cientistas, ele é relativamente inofensivo, mas pequenos pontos absorvidos pelo corpo, usualmente pela inalação de poeira, deflagram uma enxurrada de partículas radioativas milhares de vezes por minuto, provocando gradualmente danos que podem causar câncer e outras doenças décadas mais tarde. Um micrograma, ou um milionésimo de uma grama, no organismo é considerado potencialmente nocivo. De acordo com documentos da Comissão de Energia Atômica já liberados, as bombas de Palomares liberaram uma quantidade estimada de sete libras-peso -- mais de 3 bilhões de microgramas.

No dia seguinte ao desastre, ônibus carregados de pessoas (soldados e outros) vindos de bases americanas começaram a chegar, trazendo equipamentos de medição de radiação. William Jackson, um jovem tenente da Força Aérea, ajudou em um dos primeiros testes próximo às crateras, usando um contador de partículas alfa manual que podia medir até dois milhões dessas partículas por minuto.

"Quase em todo lugar para onde apontávamos o medidor, ele grudava no fim da escala", disse Jackson. "Mas nos disseram que aquele tipo de radiação não penetrava na pele, que estávamos em segurança". 

O Pentágono se concentrou em encontrar a bomba perdida no mar e basicamente ignorou o perigo de plutônio liberado, disse o pessoal da Força Aérea presente no local. Soldados vagaram inutilmente por plantações de tomates altamente contaminadas, sem qualquer proteção. Muitos vinham para olhar estupidamente para as bombas despedaçadas nos primeiros dias. "Uma vez fui checar os militares e os encontrei sentados, balançando as pernas sobre as crateras", disse Jackson. "Simplesmente sentados lá, comendo seu almoço".

Depois que a existência das bombas vazou, mais de um mês depois, os Estados Unidos admitiram que uma bomba, não duas, havia "rachado", mas havia liberado apenas uma "pequena quantidade" de radiação basicamente inofensiva.

Hoje, as duas bombas explodidas seriam conhecidas como bombas sujas e, provavelmente, provocariam evacuação de moradores. Na época, para minimizar a importância do desastre, a Força Aérea deixou os moradores em paz.

(...)

Uma limpeza às pressas

Temendo que as bombas pudessem prejudicar o turismo, a Espanha insistiu para que a sujeira fosse removida antes do verão. Dentro de dias, soldados estavam cortando com facões as plantações de tomates contaminadas. Embora os cientistas que supervisionavam a limpeza soubessem que a poeira de plutônio era o perigo maior, os comandantes militares obrigaram seus subordinados a jogar em máquinas de cortar milhares de carregamentos de videiras transportados por caminhões, e depois queimaram grande parte das sobras perto do vilarejo.

Alguns dos homens que faziam o trabalho mais sujo receberam macacões e máscaras cirúrgicas de papel como proteção, mas um relatório posterior emitido pela Agência de Energia Nuclear disse: "É duvidoso que a as máscaras cirúrgicas fossem mais do que uma barreira psicológica". 

Pessoal da Força Aérea usando luvas e máscaras trabalhando em locais onde três bombas de hidrogênio foram encontradas - (Foto: USAF)

(...)

Arquivo clínico militar de John H. Garman em 1979, indicando exposição a plutônio na Espanha - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)

A Força Aérea comprou toneladas de tomates contaminados da produção local, que os espanhóis se recusavam a comer. Para assegurar aos moradores de que não havia risco, os comandantes militares incluiu os tomates na alimentação do pessoal da base militar. Embora o risco de comer plutônio seja menor do que o de inalá-lo, ainda assim isso não é seguro.

"Era tomate no café da manhã, no almoço e no jantar. Nós os comemos até nos enjoarmos deles", disse Wayne Hugart (74 anos), que era um oficial da polícia militar no local. "Continuaram nos dizendo que não havia nada de errado com os tomates".

Pessoal da Força Aérea que trabalhava na limpeza e recuperação da área do desastre eram geralmente alimentados com produtos oriundos de Palomares - (Foto: Kit Talbot)

(...)

Para assegurar aos moradores que suas casas eram seguras, a Força Aérea mandou jovens da sua tropa às residências locais com detetores de radiação manuais. Peter M. Ricard, então um cozinheiro de 20 anos de idade sem qualquer treinamento com o equipamento, lembra de ter sido encarregado de escanear tudo que os moradores pedissem, mas que mantivesse seu detetor desligado.

Testes jogados fora 

Durante a limpeza, uma equipe médica coletou mais de 1.500 amostras de urina da equipe de limpeza para calcular quanto de plutônio estavam absorvendo. Quanto maior o nível nas amostras, maior o risco à saúde.

Os registros desses testes permanecem talvez como o elemento mais proeminente da limpeza. Eles mostram que cerca de apenas 10% dos homens absorveram mais do que a dose admitida como segura, e o resto dos 1.500 testados não foram afetados. A Força Aérea, hoje, se apoia nesses resultados para argumentar que os homens não foram afetados por radiação. Mas os homens que na realidade realizaram os testes dizem que os resultados foram profundamente falhos e são de pouca utilidade para determinar quem foi afetado.

"Seguimos o protocolo? Droga, não. Não tínhamos nem tempo, nem equipamento", disse Victor B. Skaar, agora com 79 anos, que fez parte da equipe responsável pelos testes. A fórmula para determinar o nível de contaminação exigia que a coleta de urina fosse feita durante 12 horas, mas ele disse que que só conseguia obter uma única amostra de muitos dos homens. E outros, disse ele, nunca foram testados.

Victor B. Skaar, agora com 79 anos, fazia parte da equipe que fez a coleta de urina e afirma que o protocolo não foi seguido, e que não tinham tempo nem equipamento para fazer os testes - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)

Ele mandou amostras para o Dr. Lawrence T. Odland, chefe dos testes de radiação na Força Aérea, que começou a ver resultados alarmantemente altos. O Dr, Odland decidiu que os níveis extremamente altos não indicavam uma ameaça real à saúde, mas haviam sido causados pelo plutônio solto no campo que contaminara as mãos das pessoas, suas roupas e tudo mais. Ele jogou fora cerca de 1.000 amostras -- 67% dos resultados -- incluindo todas as amostras colhidas nos primeiros dias após o desastre, quando a exposição à radiação era provavelmente mais elevada.

Agora com 94 anos e morando em uma casa vitoriana em Hillsboro, Ohio, onde uma foto do acidente da Groenlândia está pendurada em sua sala, Dr. Odland questionou sua decisão. "Não tínhamos como saber o que era devido a contaminação e o que se devia a inalação", disse ele. "O mundo estava acabando ou estava tudo bem? Eu tinha apenas que fazer uma ligação telefônica". 

Ele disse que nunca obteve resultados precisos para centenas de homens que podiam ter sido contaminados. Adicionalmente, ele logo percebeu que plutônio alojado nos pulmões não podia sempre ser detetado na urina dos veteranos, e homens com amostras limpas podiam ainda estar contaminados.

"É triste, sem dúvida, é triste", ele disse. Mas, o que você pode fazer? Você não pode eliminar o plutônio, você não pode curar o câncer. Tudo o que você pode fazer é baixar sua cabeça e dizer que sente o que aconteceu".

Programa de monitoramento extinto

Convencido de que as amostras de urina eram inadequadas, Dr. Odland convenceu a Força Aérea em 1966 a montar um grupo permanente sobre Deposição de Plutônio, para monitorar os homens afetados a vida toda. 

Especialistas da Força Aérea, da Marinha, do Exército, da Administração de Veteranos (hoje Departamento de Assuntos de Veteranos) e da Comissão de Energia Atômica se reuniram para estabelecer o program de ação logo após o fim da limpeza. Em comentários de boas-vindas o general da Força Aérea em cargo disse que o programa era "essencial" e acompanhar os homens até seus túmulos forneceria "dados urgentemente necessários".

Os organizadores propuseram não informar os participantes da limpeza sobre sua exposição a radiação e manter detalhes dos testes foras dos registros oficiais, de acordo com a ata da reunião, devido à preocupação de que notificá-los "poderia dar ensejo a ações legais". O plano era ter a equipe do Dr. Odland fazer o acompanhamentos dos envolvidos na limpeza. Em poucos meses, entretanto, ele havia dado de encontro a uma parede.

"Ele não é capaz de conseguir apoio do Departamento de Defesa para ir atrás das pessoas restantes ou estabelecer um registro real por causa da política de evitar problemas", observou um memorando da Comissão de Energia Atômica de 1967.

(...)

O Dr. Odland não sabia quem deu a ordem para extinguir o programa, mas disse que já que o grupo incluía todas as forças militares e a agência de veteranos, provavelmente a ordem foi dada por oficiais do alto escalão. A Força Aérea cancelou oficialmente o programa em 1968. O grupo "permanente" havia se reunido apenas uma vez.

Dr. Lawrence T. Odland, chefe do programa de teste de radiação , convenceu a Força Aérea a montar um grupo permanente para "Registro de Deposição de Plutônio" para monitorar a vida toda os envolvidos na limpeza, mas a Força Aérea extinguiu o programa em 1968 - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)


Após a limpeza, doenças

Os participantes da limpeza adoeceram logo após ela ter terminado. Homens saudáveis aos 20 anos de idade incapacitados por dores nas articulações, dores de cabeça e fraqueza. Médicos disseram que era artrite. Um jovem policial militar ficou sofrendo de inchaço do seio nasal tão agudo, que ele batia com a cabeça no chão para tentar livrar-se da dor. Médicos disseram que era alergia.

Vários homens tiveram erupções e tumores. Um membro da Força Aérea chamado Noris N. Paul teve cistos severos o bastante para que ele passasse seis meses no hospital em 1967 fazendo enxertos de pele. Ele ficou também estéril. "Ninguém sabia o que havia de errado comigo", disse Paul.

Um empregado de supermercado chamado Arthur Kindler, que havia ficado tão coberto de plutônio enquanto vasculhava plantações de tomates poucos dias após o desastre que a Força Aérea mandou que se lavasse no mar e confiscou suas roupas, teve câncer nos testículos e uma infecção pulmonar rara que quase o matou quatro anos após o acidente. De lá pra cá, teve câncer em nós linfáticos três vezes.

Arthur Kindler, à direita na foto do centro, fazia parte do pessoal da Força Aérea que foi convocado para a limpeza após o acidente - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)

Arthur Kindler, em foto recente - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)



"Levei muito tempo para começar a perceber que isso talvez estivesse relacionado com a limpeza das bombas", disse Kindler (74 anos) em uma entrevista em sua casa em Tucson. "Você tem que entender que nos disseram tudo era seguro. Éramos jovens. Confiamos neles. Por que nos mentiriam?".

Kindler solicitou duas vezes ajuda ao Departamento de Assuntos de Veteranos. "Recebi sempre uma negativa", disse ele. "Acabei desistindo".

Monitoramento pela Espanha

Os Estados Unidos prometeram pagar pelo monitoramento de longo prazo da saúde em Palomares, mas durante décadas forneceram apenas 15% do suporte financeiro, com a Espanha pagando o restante, de acordo com um resumo do Departamento de Energia que perdeu a confidencialidade. No início dos anos 1970, um cientista da Comissão de Energia Atômica registrou que a equipe espanhola de monitoramento de campo era  composta apenas por uma única pessoa, um estudante de graduação. 

Relatos sobre a morte de duas crianças por leucemia durante aquele período não foram investigados. O chefe da equipe de cientistas  espanhóis que monitorava a população disse à sua contraparte americana em um memorando de 1976 que, à luz dos casos de leucemia, Palomares necessitava de "algum tipo de supervisão médica da população para uma vigilância quanto a doenças ou mortes". Nada foi criado. 

No final dos anos 1990, após anos de pressão da Espanha, os Estados Unidos concordaram em aumentar seu aporte financeiro às atividades pós-desastre. Novas pesquisas no vilarejo encontraram extensa contaminação que não havia sido detetada, incluindo algumas áreas em que a radiação era 20 vezes maior que o nível permitido para áreas habitadas. Em 2004, a Espanha na surdina restringiu com cercas o terreno mais contaminado, perto das crateras.

Desde então, a Espanha tem pressionado os Estados Unidos para concluir a limpeza do local.

Devido ao monitoramento desigual, os efeitos sobre a saúde pública estão longe de estarem claros e conhecidos. Um pequeno estudo sobre mortalidade feito em 2005 encontrou taxas de incidência de câncer em Palomares que haviam aumentado em comparação com o detetado em vilarejos semelhantes na região, mas o autor, Pedro Antonio Martinez Pinilla, um epidemiologista, alertou que os resultados poderiam ser devidos a erro aleatório e solicitou urgência para um novo estudo.

Naquela época, um cientista do Departamento de Energia dos Estados Unidos, Terry Hamilton, propôs um outro estudo, após observar problemas nas técnicas de monitoramento da Espanha. "Estava claro que o aumento de plutônio havia sido muito mal entendido", disse ele em uma entrevista. O departamento não aprovou sua proposta. 

Autoridades espanholas disseram que os temores podiam ter sido exagerados. Yolanda Benito, que chefia o departamento ambiental do Ciemat, a agência nuclear da Espanha, disse que as verificações médicas não mostraram um aumento de câncer em Palomares. "De um ponto de vista científico, não há nada que nos permita vincular os casos de câncer na população local e o acidente", disse ela. 

Estima-se que cerca de um quinto do plutônio disseminado em 1966 ainda contamina a área. Após anos de pressão, os Estados Unidos concordaram em 2015 a limpar o plutônio remanescente, mas não há programa nem prazo aprovados para isso.

"Vou contar o que me aconteceu"

Em uma manhã chuvosa recente, Nona A. Watson, uma professora de ciência aposentada em Buckhead, Geórgia, manteve aberta a porta de um centro médico de veteranos em Atlanta para seu marido, Nolan F. Watson, que entrou claudicando, com a mão trêmula incapaz de manter firme a bengala.  

Como um policial que treina e trabalha com cães, aos 22 anos, Nolan Watson dormiu no chão a apenas centímetros de uma das crateras de bomba no dia seguinte ao desastre de Palomares. Um ano depois, ele foi atormentado por dores de cabeça terríveis, de deixá-lo cego de dor, e tinha os quadris tão rígidos que mal conseguia andar. Na época, solicitou ajuda ao Departamento de Assuntos de Veteranos. Ele disse que seu pedido foi rejeitado. Durante anos teve problemas com articulações doloridas, pedras nos rins e câncer de pele localizado. Em 2002, foi diagnosticado com câncer renal e teve que retirar um rim. Em 2010, mais câncer foi detetado no rim restante. Testes de sangue anormais, recentes, sugerem que esteja com leucemia.

Nolan Watson, em retrato da época do desastre de Palomares - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)


"Acho que isso arruinou minha vida", disse ele. "Era jovem, em boa forma. Mas, desde aquele dia, tive problemas o tempo todo". 

Nolan Watson, também participante da equipe de limpeza em Palomares, teve problemas com articulações doloridas, pedras nos rins e câncer de pele localizado - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)


Agora com 73 anos, Watson preencheu um requerimento para a agência de veteranos que lhe foi negado e ele entrou com uma apelação. Outros veteranos de Palomares o alertaram de que era perda de tempo. Apenas um veterano de Palomares, que conheciam, teve êxito em alegar danos decorrentes da radiação e isso levou 10 anos, num ponto em que estava acamado com câncer de estômago. Mas Watson queria ir ao centro médico para dar seu testemunho pessoal sobre sua exposição ao plutônio.

Na sala de espera do centro médico, seu nariz começou a sangrar.

Poucos anos antes, depois que seu primeiro pedido foi negado, sua mulher começou a caçar documentos antigos do governo, na esperança de que pudesse encontrar algo que provasse que a Força Aérea estava encobrindo a verdade de Palomares. Talvez, acreditava ela, pudesse descobrir evidências que fariam as autoridades reconsiderar a decisão quanto ao pedido do marido.

Ela encontrou relatórios de 40 anos atrás, que confirmavam as histórias dos participantes da limpeza sobre altos níveis de radiação e baixos padrões de segurança. Mas seu achado mais surpreendente foi um estudo de  2001 da Força Aérea que reavaliava a contaminação dos veteranos de Palomares. O estudo afirmava que os antigos testes de urina eram tão incorretos que não eram "úteis", e a Força Aérea deveria fazer novos testes com os veteranos.

A Sra. Watson sabia que nenhum novo teste havia sido feito, por isso dirigiu-se ao Serviço Médico da Força Aérea para saber porquê. Quando não conseguiu uma resposta clara, ela pediu ao seu congressista na época, Paul Broun, republicano da Geórgia, que enviasse uma carta à Força Aérea. Quando o congressista tampouco conseguiu uma resposta clara da USAF, ele propôs uma lei, que a Câmara de Deputados aprovou em 2013, obrigando a Força Aérea a responder ao Congresso. [Um excelente exemplo de como é abissalmente diferente, para melhor, a relação cidadão-parlamentar nos EUA, em comparação com o divórcio que existe no Brasil entre essas duas partes.]

Em 2013, a Força Aérea enviou ao Comitê de Serviços Militares da Câmara dos Deputados a resposta que lhe fora legalmente exigida. Para consternação da Sra. Watson, ela confirmava o que ela e o congressista já  sabiam: novos testes recomendados pelo relatório de 2001 "não eram necessários" porque os envolvidos na limpeza tinham usado equipamento de proteção, e os testes de urina originais mostraram que praticamente  nenhum homem havia sido exposto a radiação. Documentos liberados posteriormente e relatos de testemunhas levantam sérias dúvidas sobre a precisão da resposta da Força Aérea ao Congresso.

Após o envio da resposta, a Força Aérea retirou de seu website, na surdina, a única cópia pública do relatório de 2001. 

(...)

O coronel Kirk Philipps, que supervisiona o programa de saúde para radiação do Serviço Médico da USAF, disse em uma entrevista recente que a Força Aérea tentou o melhor que pôde para agir corretamente com os veteranos de Palomares. Ele retirara o relatório do site porque não queria aumentar as esperanças dos veteranos, e receava que os leitores do texto o achassem "confuso". "Temos um grande  número de veteranos que, acreditamos, não foram expostos", acrescentou.

Os níveis de radiação em Palomares eram baixos, disse ele, e os homens usaram equipamentos de segurança. Realizar novos testes com eles, com técnicas modernas mais precisas, como sugerido pelo relatório de 2001, poderia revelar níveis de contaminação ainda mais baixos, tornando ainda mais improvável que os veteranos conseguissem compensação do departamento. 

Com a intenção de dar aos veteranos de Palomares o que ele chamou de "benefício da dúvida", disse ele, a Força Aérea em 2013 parou de se apoiar nos velhos resultados de testes de urina e, em vez disso, atribuiu a todos os que participaram da limpeza do local do acidente uma dose correspondente a um "cenário de pior hipótese", com base em leituras de radiação aérea feitas na época.

Foi-lhes dada uma dose de 0,31 rem [unidade de medida de radiação] -- uma dose muito pequena, demasiado baixa para qualificar veteranos para receberem benefícios do departamento. Os veteranos da Groenlândia, que limparam um desastre semelhante, receberam uma dose zero.

A Sra. Watson, que analisou em detalhes os resultados dos testes em Palomares e os relatórios correspondentes, disse que os testes do ar ambiente provavelmente não refletem o que as pessoas trabalhando perto das crateras absorveram. "Tanto quanto posso dizer, isso não está baseado em nada e não fará bem a ninguém, disse ela. "Você pode imaginar porque eles sequer se incomodaram".

Enquanto esperava no centro médico com seu marido, ela explicou como esperavam que seu pedido não tivesse efeito. Eles não tinham provas. Não importa o que ele disse em seu testemunho, o departamento se reportaria às antigas amostras de urina para determinar quem foi afetado. E seu marido nunca teve coletada uma amostra de urina, e não poderia colher uma nova amostra porque o câncer já havia destruído a maior parte de seus rins.

Se tiver êxito em seu apelo, o Sr. Watson terá todos os seus custos médicos cobertos e receberá modestos pagamentos mensais por incapacitação. "Mas não é por isso que estou batalhando", disse ele, "não estou em busca de dinheiro". 

"Vou contar o meu lado, danem-se", disse ele. "Eles sabem que tudo isso é uma mentira". 

[É inacreditável e revoltante o procedimento do governo e da Força Aérea dos EUA em relação a seus próprios cidadãos e em relação à Espanha. E o pior é que não se trata de caso único. Dá medo pensar na extrapolação desse tipo de comportamento americano sob o governo de Donald Trump, eleito ontem.]






quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Os seres humanos mais antigos estão na Austrália

[Traduzo a seguir reportagem de Javier Sampedro publicada no jornal espanhol El País.]

O professor Eske Willerslev fala com anciões aborígenes no sudoeste da Austrália - (Foto: Preben Hjost/Mayday Film)

Há populações humanas que até agora se viram pouco representadas nos estudos genômicos, como os primeiros povoadores da Austrália. Uma falha, porque a primeira leitura do genoma de 83 aborígenes daquele continente e de outras 25 pessoas de Papua Nova Guiné resultou em um tesouro científico. Os aborígenes australianos diferem entre si tanto como um espanhol de Cádiz difere de um chinês de Pequim. Isso implica que faz muito, muito tempo que os aborígenes ocuparam a Austrália, tanto que são a população viva mais antiga do planeta, e que saíram da África antes que o resto da humanidade.

Saber quantas vezes a humanidade saiu da África, quando ocorreram essas migrações e o que ocorreu com elas são perguntas essenciais sobre o passado de nossa espécie. Os cientistas apresentam agora em quatro pesquisas na revista Nature a melhor resposta que o conhecimento atual permite. O chefe de um dos trabalhos, Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague, garante que a pesquisa "foi fascinante, porque os aborígenes australianos são a população viva mais antiga da Terra". 

A comparação dos genomas aborígenes com os dos resto da humanidade, incluindo seus vizinhos asiáticos e oceânicos mais próximos, mostra que "emigraram da África antes" que os demais humanos modernos, há 60.000 anos ou mais, quando as atuais Austrália e Papua ova Guiné estavam unidas. Muitos milênios depois, quando o aumento do nível do mar isolou a Guiné da Austrália, os dois grupos interromperam seu fluxo genético -- deixaram de ter sexo -- resultando daí que sua distância genética á agora semelhante à que separa europeus e asiáticos orientais.

Mas, nem sequer a dos aborígenes foi a primeira migração de humanos modernos fora da África. Em outra pesquisa, Luca Pagani e seus colegas do Biocentro Estoniano de Tartu mostram que os atuais habitantes de Papua Nova Guiné carregam em seu genoma sinais apreciáveis (mais de 25% do DNA)de uma população humana mais antiga ainda, um grupo humano que se separou dos africanos antes que os euroasiáticos o fizessem.

Os cientistas estonianos deduzem que esses fragmentos genômicos provêm do sexo que deve ter havido entre os ancestrais dos papuanos e uma migração que fez o mesmo trajeto muito antes: saiu da África há uns 120.000 anos. As quatro pesquisas apresentadas na Nature estão assinadas por equipes de pesquisa genômica de 35 países, incluindo a Espanha. Elas revelam a complicação que a genômica está imprimindo à história do Homo sapiens, como já havia feito com os hominídeos.

Prossigamos com as perguntas: de onde  viemos? A resposta é: da África. Os primeiros ossos iguais aos nossos estavam ali há 150.000 anos. Mas, por que não saímos da África até dezenas de milênios depois, talvez 100.000 anos depois? Isso representa muito tempo, muito mais que a totalidade da nossa existência fora do continente que nos viu nascer. Os Homo sapiens originais só nos assemelhavam na aparência? Tinham ainda que evoluir seu cérebro até os nossos padrões? Extinguiram-se aqueles humanos "anatomicamente modernos", como se costuma chamá-los para sublinhar que eram mais idiotas do que nós?

Parece que não. David Reich, da Universidade de Harvard, e seus colegas apresentam também na Nature os genomas de 300 pessoas de 142 populações que, assim como os aborígenes australianos, estavam pouco representados nos estudos da variedade humana. Seu principal achado é muito marcante: demonstra que os humanos atuais começamos a divergir há 200.000 anos. Isso encaixa com a data de datação dos primeiros crânios iguais aos nossos. E confirma que nossos primeiros pais não se extinguiram, mas sim que seguem vivendo em nosso genoma.

A equipe de Harvard exibe sua sofisticação matemática com um dado assombroso: a velocidade de mutação genética aumentou cerca de 5% desde que saímos da África. A explicação para isso é curiosa: o tempo entre gerações diminuiu desde então, isto é, temos filhos quando somos mais jovens do que nossos ancestrais africanos. Quanto mais um indivíduo se reproduz, mais oportunidades de mutação permite aos filhos. Daí que os vírus sejam os regentes da evolução na Terra.

A espécie que fugia do frio

A teoria original out of Africa (fora da África) postulava que toda a humanidade atual que vive fora desse continente provém de um pequeno grupo de Homo sapiens que saiu dali há uns 50.000 anos. Os cientistas consideram agora que não houve uma, mas quatro migrações para fora da África que ocorreram ao longo dos últimos 120.000 anos. E que as quatro tiveram relação com as mudanças climáticas associadas às variações da órbita terrestre.

Segundo o modelo construído por Axel Timmermann e Tobias Friedich, da Universidade do Havaí em Honolulu, as migrações representam quatro ondas associadas às grandes formações glaciais desse período, que abarcaram estes quatro intervalos: 106.000-94.000; 89.000-73.000; 59.000-47.000 e 45.000-29.000 anos atrás. Os resultados de seu modelo se encaixam muito bem com os dados paleontológicos e arqueológicos. 

O destino da humanidade parece assim estar, depois de tudo, escrito nas estrelas, como diria um poeta antigo. Porque esses ciclos gelados foram causados diretamente pelas alterações da órbita terrestre. Outras mudanças climáticas de menor escala se associam a migrações de população de um caráter mais local.


sábado, 1 de outubro de 2016

Micróbios descobertos na Groenlândia, os mais antigos traços de vida sobre a Terra

[Traduzo a seguir reportagem de Jean-Paul Fritz, publicada no site francês L'Obs. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Essas camadas irregulares seriam um sinal de vida - (Foto: Allen Nutman/Nature)

Dois montículos de minerais de alguns centímetros, preservados no solo da Groenlândia e revelados pelo derretimento do gelo: essa foi a descoberta feita por uma equipe de pesquisadores que reivindica o título de prova mais antiga de traços de vida em nosso planeta. A equipe, reunida pelo professor Allen Nutman, da Universidade de Wollogong (Austrália), publicou em 1 de setembro corrente na revista Nature os resultados de suas pesquisas. 

Bactérias que criaram agitação

Rochas datadas de 3,7 bilhões de anos preservaram umas espécies de miniondas, deixadas na camada de sedimentos que repousavam antigamente no fundo do mar, são o único traço que teria sido deixado pela atividade de grupos de bactérias. A análise da composição química e da forma desses "montículos", que os especialistas chamam de estromatólitos [estromatólito pode ser definido como uma rocha fóssil formada por atividades de microrganismos em ambientes aquáticos que, quando acumulados no fundo de mares rasos, formam uma espécie de recife], permite compará-los a estruturas similares formadas hoje por certas bactérias marinhas. 

Pois seguramente, não há "esqueletos" nem "conchas" de micróbios, nem traços de "folhas de bactérias": os organismos vivos multicelulares capazes de deixar traços  identificáveis no solo chegaram muito mais tarde. Para encontrar provas de existências de vida apenas algumas centenas de milhões de anos após a formação da Terra, é portanto necessário analisar estruturas como os estromatólitos.

Resta saber se a descoberta feita pela equipe do professor Nutman é de fato uma prova irrefutável da presença de micróbios. Alguns de seus colegas põem isso em dúvida, como é o caso da paleontóloga Kathleen Gray que considera que "infelizmente não há prova convincente para uma reivindicação dessa importância". Da mesma forma, Tanja Bosak, geobiologista do Instituto Massachusetts de Tecnologia (MIT, na sigla inglesa), antes de se pronunciar gostaria de saber se os estromatólitos estudados têm pequenas quantidades de matérias orgânicas. 

A vida teria mais de quatro bilhões de anos

Segundo o professor Nutman, esses fósseis têm 200 milhões de anos a mais que os estromatólitos mais antigos conhecidos, descobertos no oeste da Austrália, o que faria reviver as provas de existência de vida em um período muito antigo da história da Terra. "A importância dos estromatólitos é que não apenas nos fornecem uma prova evidente de vida antiga visível a olho nu, mas são também ecossistemas complexos", explica o cientista.

"Isso mostra também que num período tão longínquo quanto há 3,7 bilhões de anos, a vida microbiana já era variada. Essa diversidade mostra que a vida emergiu nas  primeiras centenas de milhões de anos de vida da Terra, o que é coerente com os cálculos dos biólogos que mostram a grande ancianidade do código genético da vida". 

LUCA [Last Universal Common Ancestor], o último ancestral comum universal dos seres hoje viventes na Terra, remontaria a 3,8 bilhões de anos, mas a vida pôde emergir antes disso. Um estudo publicado em outubro passado, ainda em discussão, destaca a descoberta de microorganismos em zircões [zircão: mineral de coloração variada, principal fonte de zircônio, usado como refratário e, quando incolor, como gema] de 4,1 bilhões de anos, o que complica ainda mais o calendário ...

O início cataclísmico da Terra

Para compreender melhor o problema de se  datar as origens da vida, é preciso remontar ao nascimento da Terra. Isto se efetuou quando do início do sistema solar (4,6 bilhões de anos), pela agregação, pouco a pouco, de grandes asteroides até formar-se uma grande bola esférica de rochas e gás (sua atmosfera primitiva). Mas inúmeros cataclismas marcaram sua história: ela teria sido atingida por um planeta do tamanho de Marte, o que teria formado a dupla Terra-Lua. [Se antes Terra e Lua eram um corpo só, por que e como depois da separação apenas a Terra ficou habitável?]

Posteriormente, eis que por volta de 4 bilhões de anos, veio o  que foi denominado o "grande bombardeio tardio" [também chamado de "intenso bombardeio tardio"]. Vê-se a prova disso levantando os olhos para a Lua: inúmeras de suas crateras se formaram nesse período, quando os asteroides caiam abundantemente sobre ela.

Com relação à origem da vida, há pois um limite inferior frequentemente colocado: ela teria surgido após o intenso bombardeio tardio, e os asteroides (e cometas) teriam trazido certos elementos necessários à sua aparição. As condições cataclísmicas causadas pelas quedas frequentes de grandes asteroides teriam impedido qualquer  tipo de vida antes disso. Vê-se que a descoberta feita pela equipe do professor Nutman se situa bem em tal calendário.

A importância para a vida ... em Marte e alhures

O interesse do estudo publicado na revista Nature não reside forçosamente na pedra com que ela contribuiu para a história da vida sobre a Terra. Os astrobiologisas, especialistas em estudo da vida possível em outros planetas, olham-no com muita atenção. Porque, se a vida pôde surgir muito rapidamente após a formação da Terra, isso significa que ela igualmente tenha podido aparecer muito rapidamente em outros planetas hoje inóspitos.

Esse é bem o caso de Marte. "Essa descoberta representa uma nova referência para as provas preservadas mais antigas da vida na Terra", explica o professor Martin Van Kranendonk, diretor do centro australiano de astrobiologia e coautor do estudo. "Ela mostra uma rápida emergência da vida sobre a Terra, e dá suporte à pesquisa da vida das rochas de ancianidade semelhante em Marte".  Porque o planeta vermelho teria tido um oceano e uma atmosfera mais espessa há cerca de 4 bilhões de anos. Condições semelhantes às da Terra de então -- se a vida pôde aparecer tão depressa em nosso planeta, por que não em Marte? Àluz de teorias recentes, poder-se-ia colocar a mesma pergunta com relação a Vênus, que poderia também ter tido um oceano em passado longínquo.

Com respeito a Marte, a esquisa de estromatólitos poderia até mesmo ser facilitada: não há tectonismo de placas em Marte, e portanto as camadas sedimentares devem estar mais bem preservadas que na Terra.
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As belezas da Groenlândia ameaçada pelo derretimento do gelo


"A Groenlândia está em processo de derretimento", alerta o The New York Times (NYT) em um excelente artigo interativo em inglês, publicado em 27 de outubro passado - (Foto: AP Photo/Extreme Ice Survey, James Balog)

Como explica o NYT, os aumentos de temperaturas acarretam a formação de lagos sobre a superfície do gelo. A água circula em seguida nos rios, depois em cavidades profundas chamadas "moinhos", que a drenam para o oceano. "A calota glacial é porosa, como um queijo", afirma um pesquisador citado pelo jornal americano - (Foto: AP Photo/John McConnico)

 Este glaciar, visto no sudoeste da Groenlândia, perdeu três quilômetros de gelo em relação a 1935, afirma a equipe dinamarquesa que fez esta foto aérea para compará-la com uma imagem da época - (Foto: SIPANY/SIPA)

Imagem do mesmo local da foto anterior, tirada em 1935 - (Foto: de arquivo)

 Fissuras ou gretas importantes na baía de Melville, no sudoeste da Groenlândia. Elas resultam da aceleração do movimento dos glaciares, que deslizam rumo ao oceano em consequência do aquecimento - (Foto: NASA/Op. IceBri/REX Shu/SIPA)

Foto feita por Marketa Kalvachova, uma fotógrafa tcheca que corre o mundo em busca de glaciares. Assim como mostra o site Le Temps, os icebergs se tornam ao mesmo tempo mais numerosos e menores ao longo dos anos, devido ao escoamento mais rápido dos glaciares - (Foto: Marketa Kalvachova/Cater News Agency/SIPA)

Uma outra foto feita por Marketa Kalvachova, mais perto do gelo - (Foto: Marketa Kalvachova/Cater News Agency/SIPA)


Como mostrado em nossa apresentação de slides sobre o derretimento dos glaciares, a Groenlândia perde a metade de sua superfície glacial no verão. Entretanto, em 2012, essa diminuição chegou a 97%, uma amplitude raríssima - (Foto: AP Photo/Extreme Ice Survey, James Balog)


Um iceberg em processo de derretimento na costa de Ammasalik, uma ilha no sudoeste da Groenlândia. Se todo o gelo da Groenlândia derretesse, o nível do mar subiria 6 metros, informa o NYT - (Foto: John McConnico/AP/SIPA)


Esta foto, feita em 2011, mostra um cientista durante a instalação de um GPS que permitiria estudar os movimentos do glaciar Jakovshav, perto de Ilulissat [terceira maior povoação da Groenlândia, com 4.546 habitantes] - (Foto: AP Photo/Brennan Linsley)


Uma vista da cidadezinha de Ilulissat, declarada patrimônio mundial pela Unesco por seu fiorde com imponentes icebergs - (Foto: Ellen Creager/Detroit Free Press/MCT/Sipa USA)


A base científica Summit Station está situada no coração da Groenlândia, longe de tudo, a mais de 3.000m de altitude. Em seu artigo, o NYT informa que o governo americano gasta cerca de 1 bilhão de dólares por ano paa financiar a pesquisa científica no Ártico e na Antárdida - (Foto: AP Photo/Brennan Linsley)


Entretanto, o orçamento americano dedicado à pesquisa está na mira de alguns céticos climáticos pertencentes ao Partido Republicano, segundo os quais as mudanças climáticas não estão ligadas à atividade humana, relata o NYT. Na foto, pesquisadores no interior da Summit Station - (Foto: AP Photo/Brennan Linsley)


O mundo branco: um avião se prepara para o reabastecimento, próximo à Summit Station - (Foto: AP)



Um pescador inuíte [povo esquimó que habita o Alasca e a Groenlândia] em Iluissat, em julho de 2011 - (Foto: AP Photo/Brennan Linsley)


Ainda que isolada, a Groenlândia recebe visitantes de tempos em tempo, como esse navio do Greenpeace, o Arctic Sunrise, visto aqui sobre blocos de gelo no nordeste da Groenlândia - (Foto: Christian Aslund/ CATERS NEWS / SIPA)


O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, também se deslocou para aGroenlândia em março de 2014, sob a perspectiva da reunião de cúpula sobre o clima que se realizaria em Nova Iorque alguns meses mais tarde. Estava acompanhado pela primeira-ministra groenlandesa Aleqa Hammond (segunda à esquerda) e pela primeira-ministra dinamarquesa Hell Thorning-Schmidt. A Groenlândia pertence ao Reino da Dinamarca como país integrante, junto com a própria Dinamarca e as Ilhas Féroé - (Foto: AP Photo/POLFOTO, Leiff Josefsen)








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