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domingo, 22 de janeiro de 2017

Os migrantes contribuem com cerca de 10% da riqueza mundial

[A crise dos refugiados árabes e islâmicos em geral na Europa gerou uma discriminação injusta e cruel contra os imigrantes não só dessa onda, mas também contra os imigrantes em geral e estimulou o ressurgimento assustador de xenofobias e de ultranacionalismos de direita, empurrando a parte mais rica do mundo em termos econômicos e culturais para situações de confronto de dimensões e consequências imprevisíveis (ver postagem anterior). Hipocritamente, os críticos ferrenhos aos refugiados e imigrantes em geral estão usando essa crise dos refugiados -- que são migrantes forçados e não voluntários -- para atacar as imigrações em geral, omitindo os benefícios econômicos,  científicos e culturais que historicamente os estrangeiros imigrantes têm trazidos para os países que os acolhem. 

Vejamos alguns dados importantes sobre a migração em escala mundial, publicados pelo Banco Mundial em seu relatório de referência Migrants and Remittances Factbook 2016 (3rd edition) (Fatos sobre Migrantes e Remessas, 2016).

  • Mais de 247 milhões de pessoas, ou 3,4% da população mundial, vivem fora de seus países de origem. 
  • O principal destino das migrações são os Estados Unidos, seguidos por Arábia Saudita, Alemanha, Federação Russa, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido, França, Canadá, Espanha e Austrália. 
  • De acordo com os dados oficiais disponíveis, a via México-Estados Unidos é o maior corredor de migração no mundo com o registro de 13 milhões de migrantes em 2013. Os próximos maiores  corredores são Rússia-Ucrânia, Bangladesh-Índia e Ucrânia-Rússia.
  • Países menores tendem a ter as taxas mas alta de emigrações qualificadas. Perto de 93% das pessoas altamente qualificadas da Guiana viviam fora do país, vindo em seguida o Haiti (com 75,1%), Trindade e Tobago (68,2%) e Barbados (66,2%).
  • Excluindo os refugiados da Margem Esquerda (Palestina) e da Faixa de Gaza, no Oriente Médio, o número de refugiados em 2014 era de 14,4 milhões. Cerca de 86% dos refugiados são acolhidos por países em desenvolvimento. Turquia, Paquistão, Líbano, Irã, Etiópia, Jordânia, Quênia, Chade e Uganda são os maiores países anfitriões desse universo de pessoas. 
  • Em 2015, estima-se que os fluxos de remessa financeira globais excederam os US$ 601 bilhões. Deste montante, calcula-se que os países em desenvolvimento receberam cerca de US$ 441 bilhões, quase três vezes o montante da assistência oficial para seu desenvolvimento. O valor real das remessas, incluindo fluxos não registrados através de canais formais e informais, é estimado ser significativamente maior.
  • Em 2015, os principais países destinatários de remessas formais, registradas, foram Índia, China, Filipinas, México e França. Entretanto, como parcela de seu PIB, países menores foram os maiores destinatários: Tajiquistão (42%), Quirguistão (30%), Nepal (29%), Tonga (28%) e Moldávia (26%).
  • Países de altas rendas são as principais fontes das  remessas. Os Estados Unidos são, de longe, a maior delas, com a saída registrada de estimados US$ 56,3 bilhões em 2014. Em seguida vêm Arábia Saudita, Rússia, Suíça, Alemanha, Emirados Árabes Unidos e Kuwait. Os seis países do Conselho de Cooperação do Golfo (Omã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Qatar, Bahrein e Kuwait) foram responsáveis por US$ 98 bilhões de remessas para o exterior em 2014. 
A reportagem que traduzo a seguir, de Jean-Pierre Robin publicada no Le Figaro joga o devido foco na contribuição das migrações para a  riqueza mundial, com base em estudo feito pela McKinsey].

Os migrantes contribuem com cerca de 10% da riqueza mundial

Jean-Pierre Robin -- Le Figaro, 22/12/2016

As remessas financeiras de imigrantes para suas famílias totalizaram 580 bilhões de dólares em 2014. Na foto, serviço para transferências de dinheiro em Nova Iorque - (Foto: SIPANY/SIPA/SIPA)

Em comemoração pelo seu 25° aniversário, o Instituto Global McKinsey, cuja missão é analisar as  questões de produtividade, publicou um relatório sobre os migrantes e seu impacto na economia mundial. Ao tempo em que compõem hoje um grupo de cerca de 247 milhões de pessoas (que têm uma profissão, assim como suas famílias), ou seja 3,4% da população mundial, os migrantes contribuem com o montante de 9,4% do PIB mundial (algo como 6.700 bilhões de dólares, o equivalente à soma dos PIBs do Japão e da França).

"A despeito das inquietudes e das controvérsias que as cercam, as migrações transfronteiriças são o resultado normal de um mundo mais interconectado e de um mercado de trabalho mundial", observa o estudo, que se apresenta como uma defesa e ilustração dos fenômenos migratórios. A McKinsey estabelece desde o início a distinção entre "migrantes voluntários" (fala-se às vezes de migrantes econômicos), que constituem 90% do total, e os outros (10% , cerca de 25 milhões de pessoas) refugiados ou solicitantes de asilo. O pessoal das empresas multinacionais e os expatriados são migrantes, mas não os trabalhadores que se deslocam diariamente de uma fronteira para outra. Isso porque, por definição, "o migrante vive em um país onde não nasceu", o que exclui igualmente os imigrados de segunda ou terceira geração.

Da campanha eleitoral de Donald Trump, que propunha levantar um muro entre o México e os Estados Unidos, à guerra na Síria e aos emigrados africanos clandestinos, que enfrentam os riscos e perigos da travessia do Mediterrâneo, a polêmica só faz crescer. Incontestavelmente, os Estados Unidos são o primeiro destino dos migrantes (47 milhões), ainda que a União Europeia (mais a Suíça e a Noruega) constituam o principal território de acolhimento (58 milhões), esta cifra incluindo as migrações intraeuropeias. Hoje, os imigrantes representam 15% da população total dos Estados Unidos, 13% na Europa Ocidental e 48% nos países do Golfe árabe.

De um ponto de vista estritamente econômico os migrantes, e não unicamente as pessoas altamente qualificadas, são mais produtivos quando fora de seus países. Eles aportam cerca de "3 .000 bilhões de dólares a mais do que se ficassem em seus países de origem". Somente para a economia americana o aporte dos imigrantes é essencial, da  ordem de 2.500 bilhões de dólares, uma cifra considerável que equivale ao PIB da França e sobra a qual Donald Trump será levado a meditar.

Salários inferiores

Um estudo recente do Birô Nacional de Pesquisa Econômica [EUA] assinalava aliás que mais da metade dos PhD (os doutores em ciências) que trabalhavam nos setores dos Stem [acrônimo inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemáticas] eram imigrantes (trabalhando nos EUA sem ali terem nascido).

Da mesma forma, o aporte financeiro dos emigrantes para o desenvolvimento dos países onde nasceram é essencial. A McKinsey lembra que as remessas financeiras feitas pelo emigrantes às suas famílias totalizaram 580 bilhões em 2014. Tais remessas tornaram-se a principal forma de ajuda ao desenvolvimento, longe à frente da ajuda pública para esse fim. Esses fluxos financeiros são consideráveis para a Índia (70 bilhões de dólares em remessas), para a China (62 bilhões) e para as Filipinas (28 bilhões).

Outra questão muito debatida: "numerosos estudos acadêmicos têm demonstrado que a imigração não prejudica o emprego ou os salários dos autóctones", esclarece o estudo da McKinsey. Mesmo que ela possa ter efeitos negativos, que se observe um grande fluxo migratório numa região específica, que os imigrantes sejam substitutos diretos dos trabalhadores nacionais e que a economia do país de destino esteja em recessão. Por outro lado, os salários dos imigrantes são em compensação são de 20% a 30% inferiores às remunerações aos trabalhadores locais de mesma qualificação.

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DETALHES DO RELATÓRIO DO INSTITUTO GLOBAL MCKINSEY

Impacto e conveniência da migração global

Jonathan Woetzel, Anu Magdavkar, Khaled Rifai, Frank Mattern, Jacques Bughin, James Manyika, Tarek Elsmary, Amadeo Di Lodovico e Ashwin Hasyagar -- Novembro, 2016

Migração tornou-se um tema explosivo de debate em muitos países, mas a pesquisa do Instituto Global McKinsey (IGM) conclui que ela gera benefícios econômicos significativos --e uma integração mais efetiva dos imigrantes pode aumentar esses benefícios.

A migração é uma característica determinante do nosso mundo crescentemente interconectado. Tornou-se um tema explosivo de debate em muitos países, o que enfatiza a importância de se entender os padrões da migração global e o impacto econômico que é criado quando pessoas se deslocam através das fronteiras do mundo.  Um relatório recente do Instituto Global McKinsey (IGM), People on the move: Global migration’s impact and opportunity (Pessoas em movimento: impacto e oportunidade da migração global, em tradução direta),  objetiva satisfazer essa necessidade.

Os refugiados podem ser a face da migração na mídia, mas 90% dos 247 milhões de migrantes do mundo cruzaram fronteiras voluntariamente, usualmente por razões econômicas. Fluxos migratórios voluntários são tipicamente graduais, impondo menos estresse sobre a logística e sobre o tecido social sobre os países de destino do que os fluxos de refugiados. A maioria dos migrantes voluntários é de adultos em idade de trabalho, o que faz aumentar a parcela da população que é economicamente ativa nos países de destino. 

Os 10% restantes restantes [dos 247 milhões de migrantes] são de refugiados e de pessoas que buscam asilo, que fugiram para outros países para escapar de conflitos e perseguições. Grosseiramente, metade dos 24 milhões de refugiados do mundo está no Oriente Médio e na África, repetindo o padrão dominante de fuga para um país vizinho. Mas, o recente surto de refugiados na Europa fez com que a atenção do mundo desenvolvido se voltasse para esse tema. Um relatório que acompanha este relatório, "Europe's new refugees: A road map for better integation outcomes" ("Os novos/recentes refugiados da Europa: um itinerário para resultados de integração melhores") examina os desafios e oportunidades que confrontam os países individualmente.

Enquanto alguns migrantes viajam longas distâncias a partir de seus países de origem, a maior parte da migração ainda envolve pessoas deslocando-se para países vizinhos ou para países da mesma parte do mundo (ver figura). Globalmente, cerca de metade de todos os migrantes se deslocou de países em desenvolvimento para países desenvolvidos -- na  realidade, este é o tipo de movimento que cresce mais rapidamente. Quase dois terços dos migrantes do mundo residem em países desenvolvidos, onde frequentemente preenchem as  carências de mão de obra desses países. De 2000 a 2014, os imigrantes contribuíram com 40% a 80% da força de trabalho nos principais países de destino.


A maior parte do fluxo migratório consiste de pessoas se deslocando para outro país na mesma parte do mundo -  Os 1o principais movimentos (1), população migratória total em milhões, 2015 - Na coluna da esquerda:
  • de países em desenvolvimento da Europa Oriental e da Ásia Central para países em desenvolvimento na Europa riental e Ásia Central: 22,9 
  • de países em desenvolvimento da América Latina para a América do Norte: 22,1
  • da África Subsaariana para a África Subsaariana: 15,0
  •  da Europa Ocidental para a Europa Ocidental: 12,1
  • do Oriente Médio e do Norte da África para o Oriente Médio e o Norte da África: 10,1
Na coluna da direita:
  • de países em desenvolvimento na Europa Oriental e na Ásia Central para a Europa Ocidental: 10,0
  • do Oriente Médio e do Norte da África para a Europa Ocidental: 9,7
  • da Índia para o Conselho de Cooperação do Golfo: 8,2
  • da Ásia Austral (excluindo Índia) para o  Conselho de Cooperação do Golfo: 7,2
  • de países desenvolvidos da Europa Oriental e da Ásia Central para a Europa Ocidental: 5,8
(1) Inclui movimento tanto entre como dentro de regiões
Fontes: Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU; Banco Mundial; análise do Instituto Global McKinsey

Deslocar mão de obra para locais de produtividade mais alta incrementa o PIB global. Migrantes de todos os níveis de aptidão contribuem para esse efeito, quer através de inovação e empreendedorismo quer liberando os nativos para trabalhos de valor mais elevado. De fato, os migrantes compõem apenas 3,4% da população mundial mas a pesquisa do IGM detecta que contribuem com cerca de 10% do PIB global. Contribuíram com aproximadamente US$ 6,7 trilhões para o PIB global em 2015 -- cerca de US$ 3 trilhões a mais do que teriam produzido em seus países de origem. As nações desenvolvidas absorveram mais de 90% desse resultado.

Taxas de emprego são ligeiramente menores para imigrantes do que para trabalhadores nativos nos principais países de destino, mas isso varia com o nível de aptidão e com a região de origem. Extensa evidência acadêmica mostra que a imigração não prejudica o emprego e os salários nativos, embora possam existir efeitos negativos de curto prazo se houver um grande fluxo de imigrantes em uma região pequena, se os imigrantes por suas aptidões competirem muito de perto com os trabalhadores nativos, ou se a economia de destino estiver passando por uma recessão. 

A concretização e absorção dos benefícios da imigração dependem de como os recém-chegados são integrados no mercado de trabalho e na sociedade de seu país de destino. Hoje, os imigrantes tendem a ganhar de 20% a 30% menos que os trabalhadores nativos. Mas, se os países estreitarem para 5% a 10% essa defasagem salarial através da integração mais efetiva dos imigrantes através vários aspectos de educação, moradia, saúde e engajamento comunitário, os imigrantes podem gerar um impulso anual adicional de US$ 800 bilhões a US$ 1 trilhão para a produção mundial. Este é um objetivo relativamente conservador, mas pode entretanto produzir efeitos positivos mais amplos nas economias de destino como taxas de pobreza mais baixas e uma produtividade geral mais alta.

As dimensões econômicas, sociais e cívicas da integração precisam ser abordadas holisticamente [com uma visão conjunta]. O IGM analisou como os 18 principais países de destino se desempenharam em 18 indicadores e verificou que nenhum país havia logrado resultados expressivos através de todas aquelas dimensões, embora alguns se saiam melhores que outros. Mas em destinações ao redor do mundo, muitos investidores estão tentando uma nova abordagem. Identificamos mais de 180 intervenções promissoras que oferecem modelos úteis para melhorar a integração. O setor privado tem um papel central a desempenhar nesse esforço -- e tem incentivos para fazê-lo. Quando as empresas participam, elas se posicionam para ter acesso a novos mercados e a grupos de novos talentos.

As apostas são altas. O sucesso ou falha da integração pode reverberar por muitos anos, pesando sobre se a segunda geração de imigrantes se torna um grupo de cidadãos plenamente participativos que atingem todo o seu potencial produtivo ou que permanecem em uma armadilha de pobreza [um mecanismo autoalimentado, que faz a pobreza persistir e do qual é difícil escapar]. 

Ler também: "Mais pobres que seus pais? Uma perspectiva nova sobre a desigualdade de renda"

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Se Obama é um muçulmano, Trump é um espião russo?

[Traduzo a seguir o comentário de Kathleen Parker, publicado no The Washington Post. O  que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

O presidente eleito Donald Trump conversa com repórteres - (Foto: Evan Vucci/AP)

Pra começar, uma atualização da história: durante os últimos nove anos, uns poucos americanos, na maioria liderados pelo nosso agora presidente eleito, insistiram em que Barack Obama é um muçulmano nascido no Quênia. 

Durante anos, Donald Trump foi incansável em sua insistência para que Obama provasse acima de qualquer suspeita, além do já comprovado, que havia nascido no Havaí e não no país de seu pai biológico. O fato de Obama dizer que é um cristão não era suficiente para persuadir os seguidores de Trump, que aparentemente sabem distinguir quem é cristão quando veem um.

Além disso, não há fundamento lógico para presumir que uma pessoa jovem que cresceu parte de sua vida em um dado país -- digamos, Indonésia -- necessariamente adote a religião dominante nesse país. Ele(a) poderia entretanto observar que, embora as pessoas tenham seus credos de diferentes modos, somos todos essencialmente iguais. Não importa a cruel e absurda presunção de que ser um muçulmano significa que alguém, ipso facto [por esse mesmo fato - ver postagem anterior], é uma "má pessoa". 

Respeitar os outros a despeito de diferenças é, falando genericamente, distintivo de uma alma iluminada assim como é desejável que caracterize um líder. Entretanto, quem apoiou Trump interpretou o lidar suave e brando de Obama com o 1,6 bilhão de muçulmanos do mundo como uma agenda secreta para estimular o Islã nos EUA -- apesar das operações  um tanto duras de Obama com drones, que eliminaram um bom número de maus elementos que eram ou se diziam ser muçulmanos.  

É digno de nota observar que essas mesmas pessoas que duvidam de Obama não se levantaram em suspeita quando o então presidente George W. Bush visitou uma mesquita imediatamente após o 11 de setembro. Tampouco, por enquanto, manifestaram qualquer preocupação com a abordagem indiferente de Trump com respeito ao ataque cibernético da Rússia contra os EUA.

Considerando-se essa história e as evidências recentes, não seria essa mais ou menos a hora de declarar que Trump é um espião  russo?

Não, realmente não creio que ele seja um espião porque, diferentemente dele mesmo, não sou dada a ideias malucas. Mas, o que há com esse estilo de dois pesos e duas medidas? Em circunstâncias  semelhantes, quanto tempo você pensa que levaria para que Obama fosse chamado  de traidor por defender um país que tentou frustrar nosso processo eleitoral democrático? Isso levaria segundos.

Quão surreal é perceber que o homem que logo se tornará presidente esteve por longo tempo comprometido com um rumor saturado de paranoia e propagado por teóricos conspiratórios, cuja busca pela verdade se interrompe no ponto em que fatos e ignorância deliberada colidem. 

Quão perfeitamente terrificante é isso. 

E agora? O que obviamente é uma conspiração de lideranças, hackers e espiões russos Trump tem repetidamente rejeitado como exemplo de [serviço de] inteligência desprezível. Por que ele faria isso? Será porque é tão supersensível a críticas que não pode tolerar que alguém pense que foi beneficiado pelo ataque cibernético? Ou será porque sabia do ataque antecipadamente e não quer ser descoberto? É assim que  começam as teorias de conspiração. E aí, novamente, algumas vezes uma conspiração é apenas uma conspiração -- e um idiota é apenas um idiota.

Consideremos o que sabemos: o que há de melhor da nossa inteligência indica que a Rússia está por trás da pirataria (hacking) contra o Comitê Nacional dos democratas. Trump, que por longo tempo tem expressado sua admiração pelo presidente russo Vladimir Putin (uma vez um agente da KGB, sempre um agente da KGB), tem suas dúvidas quanto a isso.

Obviamente, Trump quer manter a narrativa de que ganhou de maneira justa e segura. E, claramente, alegações sobre uma interferência russa perturbariam seu ego. Mas é disso que se trata? Ego e narrativa? 

Sigamos além: é mais fácil Trump aliar-se com o nosso mais ameaçador adversário geopolítico (crédito para Mitt Romney) [o ex-candidato Romney à presidência americana chamou o regime de Putin de "o inimigo geopolítico número um dos EUA"] do que ele dar ouvidos ao que de melhor temos. Além disso, Trump disse que não receberá resumos diários da inteligência e alegadamente planeja reduzir o número de nossas agências de segurança.

Por  favor digam, de que lado está esse homem? Quando foi a última vez que se teve que fazer esta pergunta com relação a um presidente eleito?

Na sexta-feira, 6 de janeiro, Trump se reuniu com espiões americanos reais e outras pessoas que tentaram explicar-lhe algumas coisas, deixando em aberto a pergunta: Trump pode  aprender algo? Com base no comunicado dele em seguida ao encontro, parece que não. 

Na quinta-feira, James R. Clapper Jr., o diretor nacional de inteligência, disse ao Comitê de Serviços Armados do Senado que a agência está "agora ainda mais determinada" e que Trump está prejudicando a inteligência americana (que não se confunda com a ausência dela, diga-se, Trump). Para completar esse estado de coisas, o ex-diretor da CIA James Woolsey saiu da equipe de transição de Trump na quinta-feira em protesto por estar sendo baipassado. 

Em suma, quando o presidente eleito persiste em ficar num estado de negação, juntando-se ao inimigo contra os melhores interesses do seu próprio país, se é forçado a considerar que o próprio Trump representa uma ameaça à segurança nacional. 

Na Rússia, chamariam isso simplesmente de traição.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Nomeação de mais um general (o terceiro) para o governo faz crescer receios sobre forte influência militar na administração Trump

[Antes mesmo de assumir formalmente as rédeas do país, Donald Trump já sinaliza com atos, atitudes e nomeações que o termo catastrófico pode ser uma palavra suave para seu governo. O número inédito de generais em sua equipe formal já acendeu todas as luzes amarelas nos EUA. Traduzo a seguir a essência de artigos publicados pelo jornal americano The Washington Post sobre isso. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. ]

Trump está se cercando de generais, e isto é perigoso

Philippe Carter e Loren Dejonge Schulman - The Washington Post, 30/11/2016

Mais  do que qualquer outro presidente eleito na memória recente, Donald Trump tem buscado militares de alta patente para povoar seu círculo íntimo de auxiliares. Em 24 de novembro, Trump anunciou que queria o general da reserva dos Fuzileiros James Mattis como seu secretário de Defesa -- um posto tradicionalmente destinado a um civil. Trump pensa também no general da reserva David Petraeus para secretário de Estado, no general da reserva da Marinha John Kelly para secretário de Estado ou secretário de defesa interna, e no almirante Michael S. Rogers como diretor de inteligência nacional. Seu conselheiro designado, Michael Flynn, aposentou-se do exército como general-de-divisão após décadas de atuação como oficial de inteligência militar. E o diretor indicado para a CIA, Mike Pompeo, formou-se na academia militar de West Point e serviu como oficial do exército durante a Guerra Fria.

O presidente eleito Donald Trump conversou com o general da reserva dos Fuzileiros James Mattis e vários outros ex-militares sobre vagas em seu governo - (Foto: Janin Botsford/The Washington Post)

David H. Petraeus, general da reserva e ex-diretor da CIA, na Trump Tower em Manhattan (NY) no início da semana passada - (Foto: Sam Hodgson, para o The New York Times) 


Há uma grande tradição americana de se ter militares veteranos em altos postos da administração política, desde os presidentes George  Washington e Dwight Eisenhower a oficiais seniores como o secretário de Estado Colin Powell na administração George W. Bush e o assessor de segurança nacional James Jones no governo Obama. Um governo típico, entretanto, começa com poucos generais recentes em postos chaves. Preencher tantos lugares com patentes da reserva, como Trump está propenso a fazer, é altamente inusitado.

Não há dúvidas de que esses homens trazem consigo uma tremenda experiência. Mas precisamos estar atentos e cautelosos quanto a estarmos demasiado dependentes ou apoiados em figuras militares. Grandes generais nem sempre são grandes funcionários de gabinetes. E se nomeados em números excessivos, podem enfraquecer ou destruir outra forte tradição americana: o controle civil de militares apolíticos.

Trump frequentemente desdenhou de líderes militares durante sua campanha eleitoral. Gabava-se de saber mais que os generais sobre como combater o Estado Islâmico. Repetidamente, criticou-os por anunciarem suas estratégias de ataques antes que estes ocorressem. Disse que tinham sido "reduzido a entulho" no governo Obama, e ameaçou até remover alguns de seus cargos quando assumisse a presidência.

Ainda assim, compreende-se porque ele os abraçaria agora. Os militares desfrutam da mais alta taxa de aprovação de qualquer instituição na sociedade americana. E contratar ex-generais é um modo seguro de ganhar legitimidade -- quer o presidente seja um senador por Illinois em primeiro mandato buscando cobertura, ou uma estrela de reality show de TV e magnata de cassinos que perdeu no voto popular e tem a reputação de ser um neófito em política externa.

É claro que as escolhas de Trump têm implicações além do teatro político. E legitimidade percebida não deve ser confundida com possibilidade de êxito em altos cargos civis.

Como quaisquer empregados em perspectiva, veteranos devem ser julgados com base em seus méritos mais além de seu posto militar ou de seu serviço militar. O registro histórico mostra que veteranos com status e qualificações semelhantes podem desempenhar-se de maneira muito diferente, quando nomeados para altos cargos. Consideremos os casos do general-de-divisão da reserva da Força Aérea Brent Scrowcroft, que foi assessor de segurança nacional dos governos Gerald Ford e George W. Bush, e o general-de-exército Alexander Haig, que foi secretário de Estado de Ronald Reagan. Cada um deles veio para seu cargo com credenciais militares impecáveis e considerável experiência em Washington. Scowcroft saiu-se brilhantemente, conduzindo um Conselho de Segurança Nacional eficiente que administrou a política externa americana quando a Guerra Fria acabou, a União Soviética se dissolveu e os EUA lutaram a Guerra do Golfo Pérsico. Haig teve um desempenho ruim, provocando (ou quase isso) várias crises entre civis e militares com sua militaresca afirmação de que estava no comando [do país] após a tentativa de assassinato de Reagan, e sua diplomacia altamente arrogante em relação à União Soviética. Haig demitiu-se um ano e meio depois de assumir o cargo.

É impossível saber se os veteranos de Trump serão mais parecidos com Scowcroft ou mais semelhantes a Haig.

Mattis, o monge guerreiro [pessoa que combina características de um monge -- profunda devoção religiosa e vida ascética -- com as de um guerreiro treinado para se envolver em conflitos violentos], mostrou seu gênio estratégico e operacional como general da marinha, mas lidar com e controlar a burocracia do Departamento de Defesa é outra coisa. (...) "Você não pode tocar o Pentágono como faz com a Primeira Divisão Naval".

Flynn é um iconoclasta cuja liderança apoiada em estratégia de terra arrasada no Comando Conjunto de Operações Especiais e na Agência de Inteligência da Defesa não permite prever bem como ele administrará o Conselho de Segurança Nacional, ou fará com que agências rivais trabalhem em conjunto. (...)

Petraeus personifica o líder militar moderno americano, mas seu estilo de liderança não encaixa bem com a CIA e seria provavelmente ainda um figurino pior para o Departamento de Estado ou outra agência governamental. [Esse "líder militar moderno americano" teve que renunciar ao cargo de diretor da CIA  em 2012, quando o FBI descobriu que ele mantinha um caso extraconjugal com Paula Broadwell, que ele escolhera para ser sua biógrafa.]

(...) E há uma dimensão social nas relações entre civis e militares que pode sofrer com a nomeação de líderes militares aposentados para  altos argos. A parcela de veteranos na sociedade está em declínio, como resultado de forças militares menores, a falta de alistamento militar, e uma população em crescimento. Sobram preocupações sobre como militares e civis se dividirão, e sobre como os militares se relacionarão com a sociedade quando uma decrescente porcentagem de americanos serve uniformizada ou tem relacionamento pessoal com quem o faz. Líderes militares seniores passaram todas sua vidas adultas dentro da bolha militar -- vivendo nas comunidades confinadas mais exclusivas da América, numa sociedade insular que tem seu próprio código legal, sua própria linguagem e seus próprios costumes. Nossos militares são ao mesmo tempo uma parte da América e apartados dela. Generais e almirantes emersos desse ambiente podem ser líderes e militares profissionais estelares, mas constituem-se em embaixadores improváveis para fazer a  ponte com os civis.

(...) O maior risco apresentado pela corrida de Trump para cortejar as altas patentes militares é a extensão em que nossa liderança militar pode tornar-se, em realidade ou percepção, uma instituição politizada. Isso poderia, como Dempsey [general da reserva Martin Dempsey] conjecturou, levar "administrações futuras a determinar quais líderes seniores militares seriam mais prováveis de concordar com eles, antes de colocá-los em postos de liderança sênior". No curto prazo, Trump pode estar satisfeito com militares politizados que parecem mais receptivos a ele. No longo prazo, entretanto, tanto o governo Trump quanto nossa segurança nacional sofrerão se essas nomeações solaparem a integridade institucional dos militares e corromperem sua liderança a serviço de fins políticos.

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Trump nomeia um terceiro general, gerando preocupações sobre forte influência militar

Philip Rucker e Mike DeBonis - The Washington Post, 7/12/2016


Presidente eleito Donald Trump encontrou-se com o general da reserva do Corpo de Fuzileiros Navais em 20 de novembro em Bedminster Township, NJ - (Foto: Drew Angerer/Getty Images)


O presidente eleito Donald Trump escolheu o general da reserva dos Fuzileiros John F. Kelly como secretário de Segurança Interna, recrutando assim um terceiro membro das altas patentes militares para servir nos níveis mais altos de sua administração.

A escolha de Kelly por Trump -- e suas continuadas deliberações sobre escolher ainda mais dois militares para outros cargos -- aumentou as preocupações entre alguns membros do Congresso e especialistas em segurança nacional de que as políticas da nova administração possam ser desproporcionalmente moldadas por comandantes militares.

"Estou preocupado", disse o senador Chris Murphy (democrata - Connecticut), um membro do Comitê de Relações Exteriores. "Cada uma dessas pessoas pode ter grande mérito pessoal, mas  o que aprendemos ao longo dos últimos 15 anos é que quando olhamos os problemas no mundo sob a ótica militar, cometemos grandes erros".

Apesar de, regularmente, fazer comentários desrespeitosos sobre os generais do país na campanha eleitoral, Trump tem de longa data mostrado uma afinidade por eles. Ao moldar seu governo, Trump tem priorizado pessoas do tipo que um assessor descreveu como "capaz e desejoso de fazer, sem besteiras", que o presidente eleito vê como um contraste deliberado com as escolhas pessoais que Obama fez.

Se confirmados, Kelly e o candidato a secretário de Defesa James Mattis, um general da reserva dos Fuzileiros apelidado de "Cão Raivoso", se juntariam ao general-de-divisão de reserva do Exército Michael T. Flynn, escolhido por Trump para ser o conselheiro de segurança nacional da Casa Branca. Enquanto isso, o general da reserva do Exército David H. Petraeus está sendo considerado para ser secretário de Estado e o almirante Michael S. Rogers está na disputa pelo cargo de diretor da inteligência nacional.

Outras figuras com experiência militar estão povoando também a administração Trump, incluindo o deputado republicano Mike Romeo (Kansas), graduado pela academia militar de West Point e que serviu no Exército na Guerra do Golfo, indicado por Trump para dirigir a CIA, enquanto Stephen K. Bannon, um ex-oficial da Marina, será o estrategista-chefe e conselheiro sênior de Trump na Ala Oeste da Casa Branca.

Trump, que teve múltiplos adiamentos de recrutamento e não tem experiência militar além de seus anos em um internato militar (military boarding school), é tido como ter atração por generais pelo ar insolente e arrogante destes e ficar maravilhado com suas histórias dos campos de batalha.

Muitos daqueles que Trump vem entrevistando e consultando passaram grande parte da última década e meia intimamente envolvidos na guerra dos EUA contra o terrorismo global. As escolhas de Trump são também surpreendentes, considerando-se sua postura não-intervencionista na campanha eleitoral e suas críticas violentas contra a guerra no Iraque e outras aventuras militares.

(...) A forte confiança em, e dependência de, líderes militares por parte de Trump marcam um desvio de sua administração das administrações dos três presidentes que o antecederam, que escolheram poucos generais para os cargos mais altos, com altos e baixos nos resultados, e se apoiaram grandemente em pessoas que passaram décadas prestando serviços como civis -- políticos, acadêmicos ou advogados.

(...) Nas redes sociais houve nesta semana alguns comentários sarcásticos, dizendo que o gabinete que Trump está montando parece uma "junta militar". (...)

A maioria dos oficiais militares passou toda sua carreira dentro de organizações estruturadas, com equipes grandes e uma clara cadeia de comando. Algumas vezes eles se debatem com dificuldade no mundo ilimitado da política e de estratégias -- sem mencionar o que se espera sem um ambiente imprevisível na Casa Branca de Donald Trump.

"Grandes generais nem sempre são grandes funcionários de gabinetes", disse Phil Carter, um veterano da Guerra do Iraque e membro sênior do Centro para uma Nova Segurança Americana.

Ver também:

☛ "O que Trump pode não saber sobre os generais que tem em mira para altos cargos" (em inglês)

☛ "Assessor de segurança nacional de Trump disse que está pronto para se engajar em uma nova guerra mundial" (em inglês)




sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Jogos Olímpicos de 2016: quando os atletas israelenses são boicotados

[Traduzo a seguir reportagem do jornal francês L'Obs sobre a participação dos atletas judeus na Rio 2016. O que o texto diz não aparece na mídia, pelo menos na brasileira.]

Vários atletas se recusaram a competir com israelenses, e até mesmo de andar num mesmo ônibus com eles. Incidentes que ocorrem regularmente quando há competições.

O judoca egípcio Islam El Shehaby (de branco, enfrentando um judoca afegão no campeonato mundial de 2015) deve enfrentar um israelense hoje, sexta-feira, o que provoca controvérsia e debate no Egito - (Foto: Jack Guez/AFP)

Uma vez mais, os conflitos do Oriente Médio entram em uma competição esportiva sem serem convidados. A Carta Olímpica é clara: "É proibida toda forma de discriminação de um país ou de uma pessoa baseada, entre outras, em considerações de política, de religião". Mas, na realidade, essas considerações entram seguramente em cena, e os incidentes diplomáticos daí resultantes não são raros. Os Jogos do Rio não são exceção.

O site Atlantico relata que Joud Fahmy, uma judoca saudita, anunciou no domingo passado que não participaria de sua primeira luta dos Jogos Olímpicos contra a atleta mauriciana [das ilhas Maurício] Christianne Legentil. Antes da luta, "autoridades esportivas sauditas anunciaram no Twitter que a esportista se ferira nos braços e nas pernas durante o treinamento", diz o site.

Mas, segundo as mídias israelenses, esse abandono seria na realidade uma manobra para evitar o combate (em caso de vitória contra a mauriciana) contra Gili Cohen, uma atleta israelense. A Arábia Saudita e Israel não têm relações diplomáticas, lembra o site Atlantico: "O reino saudita não autoriza seus habitantes a visitarem o país hebreu, e não concede visto aos cidadãos de Israel".  

"Eles matam nossa gente"

Sempre no judô, é também um combate entre um egípcio e um israelense que provoca problemas. Hoje, 12 de agosto, Islam El Shehaby deve enfrentar Or Sasson, na categoria de mais de 100 kg.Um encontro que gera debate nas redes sociais egípcias, como explica o site Cairoscene. Para alguns egípcios, Islam El Shehaby deve retirar-se, porque toda relação com Israel deve ser evitada, inclusive em estádios e ginásios. No Facebook, um internauta solicita ao esportista egípcio que não lute nestes termos: "É uma decisão difícil, entretanto isso é melhor do que normalizar [nossas relações com] aqueles que matam nossa gente"

Ao contrário, para outros internautas seu judoca deve lutar, porque uma vitória simbolizaria uma vitória do Egito contra o estado judeu. No entanto, como sublinha o site Cairoscene, a vitória está longe de ser garantida porque El Shehaby é o 25° do ranking mundial e Sasson é o 5°.

Segundo um site de informação israelense, o combate deverá ocorrer apesar dessas discussões. O presidente do comitê olímpico egípcio teria declarado que ainda que deplore esse encontro com um israelense, "ninguém está autorizado a destruir os sonhos de um jovem egípcio nos Jogos Olímpicos simplesmente porque o adversário é um israelense". 

Um ônibus para duas delegações

Essas tensões permanecem alguns dias após um primeiro incidente no dia 5 de agosto. Antes da cerimônia de abertura, os atletas libaneses não permitiram que os atletas israelenses entrassem no ônibus que os levaria ao estádio do Maracanã.

Líbano e Israel estão oficialmente em guerra, e não mantêm nenhuma relação diplomática. "Pedi que fechassem a porta [do ônibus], mas os atletas israelenses insistiram em entrar", conta Salim al-Haj Nicolas, chefe da delegação libanesa.

De seu lado, o treinador da equipe de vôlei israelense, Udi Gal, para quem "se evitou um incidente internacional" (as duas delegações, ao final, tomaram dois ônibus diferentes), reagiu nas redes sociais: "Tudo isso não constitui exatamente o oposto do que representa o Olimpismo, e a delegação libanesa não agiu contra ele?".

Depois, em uma segunda postagem continuou: "Esse incidente vergonhoso serviu apenas para nos motivar. O espírito olímpico é a única coisa que importa, e estamos aqui para protegê-lo e sustentá-lo com orgulho"

Casos marcantes, de grande repercussão, são frequentes

Não é a primeira vez que esse tipo de conflito explode em Jogos Olímpicos. Os esportistas israelenses são regularmente alvos de boicotes. Já em Atenas, em 2004, o judoca iraniano Arash Miresmaeili havia se recusado a enfrentar um israelense. O The Washington Post relata que o governo iraniano deu a esse seu atleta um prêmio de US$ 155.000 por sua atitude, um montante concedido normalmente a vencedores.

Em 2008, foi o nadador Mohamed Ali Rezaei, também iraniano, que se declarou enfermo antes da prova dos 100 m, da qual participaria também um nadador israelense. O jornal francês Le Figaro enfatiza que esse atleta iraniano está "acostumado a fazer isso": ele já havia se ausentado, pelas mesmas razões, de provas no campeonato mundial de Roma em 2009 e em Shanghai em 2011.

Não é apenas em Jogos Olímpicos que se observam esses casos de boicote. Em 2013, em um torneio no Uzbesquistão por exemplo, o tenista tunisiano Malek Jaziri foi constrangido a não jogar contra o israelense Amir Weintraub, que conhece bem e aprecia, após receber um email da federação tunisiana de tênis: "Caro Malek, em seguida à reunião desta tarde no Ministério da Juventude e dos Esportes [...], tenho o imenso pesar de informá-lo de que você está obrigado a não jogar contra o jogador israelense"

Um ano e meio mais tarde, quando do torneio de Montpellier em fevereiro de 2015, Malek Jaziri abandonou a disputa antes de enfrentar o número 1 israelense, Dudi Sela.

Apesar de tudo, terminemos com uma nota positiva. O esporte é também às vezes, e felizmente, a ocasião para superar as diferenças. A foto da ginasta sul-coreana e da ginasta norte-coreana fazendo um selfie ficará sem dúvida como uma das imagens fortes dos Jogos Olímpicos do Rio.

A ginasta sul-coreana Lee Eun-ju faz selfie com a norte-coreana Hong Un-jong, durante treino de ginástica artística, na Arena Olímpica - (Foto: Dylan Martinez/Reuters)





quinta-feira, 28 de julho de 2016

O motivo real por que os judeus não votarão em Trump

[A candidatura de Donald Trump continua provocando reações enormes, dentro e fora dos EUA. Traduzo a seguir artigo do rabino Eric H. Yoffle publicado no prestigioso jornal israelense Haaretz, abordando o sentimento da comunidade judaica em relação aos extremismos do candidato republicano. Eric H. Yoffle é rabino, escritor e professor em Westfield, Nova Jersey (EUA); foi presidente da União para Reforma do Judaísmo. O artigo é interessante por mostrar o pensamento sobre Trump dos judeus americanos, uma comunidade extremamente influente na sociedade e nos governos americanos. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

O candidato presidencial republicano Donald Trump discursa para os delegados no final do último dia da Convenção Nacional Republicana em 21 de julho de 2016, em Cleveland, Ohio - (Foto: Timothy A. Clary, AFP)

O nacionalismo racista do candidato republicano, suas insinuações antissemitas, sua posição em relação a Israel e seus ataques contra muçulmanos e imigrante são todos profundamente ofensivos. Mas não é isso que está aterrorizando a maioria dos judeus americanos. 

Na minha opinião, é claramente desanimador ver nossa vida política nacional transformar-se em um gigantesco reality show ["reality show" é o nome dado aos programas de televisão baseados na vida real -- exemplo mais famoso desse tipo de show é o deprimente Big Brother, criado em 1999 por John de Mol]. Por isso, estou aliviado com o fato de, finalmente, a Convenção Nacional Republicana ter acabado. Ela nos submeteu a uma dose ainda maior daquilo que temos vivido desde que Donald Trump entrou na corrida presidencial. Muitas coisas aconteceram na convenção, exceto uma avaliação sóbria dos temas abordados.

Ainda assim, estou razoavelmente confiante, embora inseguro, de que Trump perderá a eleição em novembro. O que é certo, entretanto, é que, ganhe ou perca, ele não terá os votos dos judeus americanos nesse outono.

Muitos judeus votarão em Hillary Clinton porque, como eu, a vêem como dura, experiente e altamente qualificada para ser presidente, sem mencionar que é uma amiga do povo e do estado judeus. Mas, mesmo aqueles que não gostam muito de Hillary ou que têm votado nos republicanos há anos apoiarão Hillary de forma esmagadora.

Como Jennifer Rubin relata no The Washington Post, membros da diretoria da Coalizão Judaica Republicana, que constitui a mais leal base de apoio judeu ao Partido Republicano, estão em sua maioria se recusando a dar dinheiro para a campanha de Trump. E embora Rubin seja uma voz conservadora agressiva, ela prevê com consternação que Hillary pode receber 90% do voto judeu.

A questão importante, obviamente, é por que isso. A maioria dos comentários na imprensa judaica tem focalizado temas específicos: a opinião de Trump sobre Israel, sua reação ao antissemitismo de seus partidários e seus ataques contra muçulmanos e imigrantes. Entretanto, se você conversar com judeus de todas as convicções descobrirá que para eles as políticas e posições de Trump são em sua maioria irrelevantes.

Mensagens e plataformas políticas, não importa quão ultrajantes, podem ser alteradas, bajuladas ou reformuladas. De tempo em tempo, todo candidato diz coisas ultrajantes e ofensivas. Mas o que não ser mudado é o caráter fundamental do candidato. E o que ouço agora de judeus americanos é a aterrorizada conclusão de que Trump não é um populista de pensamento independente, como se pensou originalmente, mas um verdadeiro maníaco, rezando pelo mesmo catecismo que déspotas e homens cruéis têm usado há tempo para seus próprios propósitos. 

Imaginem a seguinte sequência de eventos: Trump é eleito presidente e decide que, dando seguimento à sua proposta mais popular, proibirá por Decreto Executivo a entrada nos EUA de imigrantes oriundos de países muçulmanos, pelo menos até que eles, na opinião dele Trump, possam ser "adequadamente vetados". Grupos liberais desafiam legalmente o presidente e a Suprema Corte invalida o Decreto Executivo por 6 a 2. Em discurso televisado à nação, Trump afirma que a Corte excedeu-se em sua autoridade, ignorou a vontade do povo e interpretou erroneamente a Constituição. Os juízes liberais, fiz ele, foram discriminatórios contra ele, mencionando os comentários críticos contra ele pela juíza [da Suprema Corte] Ruth Bader Ginsberg antes da eleição. Assim, a decisão da Corte fora uma afronta pessoal ao presidente da República recém-eleito, e em qualquer caso essa é uma matéria que está corretamente dentro da competência do presidente. O Decreto Executivo persiste, declara o presidente Trump, e será executado na íntegra pelas autoridades da imigração.

O problema real com a candidatura Trump não se refere a qualquer tema isolado mas ao fato de que isso não parece um cenário irreal para um presidente Trump. E um número substancial de americanos, talvez até uma maioria, acredita nisso -- o que se torna a razão pela qual é provável que Trump perca a eleição. Um showman acionado por seu ego e que fala direta e francamente, Trump, se eleito, seria um individualista com uma crise constitucional à espreita. Ao mesmo tempo, é impossível imaginar um tal cenário com uma presidente Hillary Clinton. Nesse sentido, Hillary é um político tradicional e é inimaginável que sua eleição represente um desafio ao nosso sistema constitucional.

É por isso que 90% dos judeus americanos não votarão em Trump. Judeus, sejam eles democratas ou republicanos, são liberais (com "l" minúsculo). De maneira esmagadora, apoiam uma classe média forte e desejam ardentemente estabilidade e segurança na política. Do mesmo modo, como um povo oprimido e perseguido por quase dois milênios, os judeus têm mais experiência com ditadores e demagogos do que a maioria dos outros americanos. têm também um entendimento mais completo de precisamente quão frágeis são os governos democráticos modernos.

E essa fragilidade parece especialmente pronunciada exatamente agora. A América tem mantido suas instituições democráticas logrando, com dificuldade, efetuar um delicado ato de equilíbrio: em um lado da balança, um assertivo nacionalismo americano enraizado em ideais democráticos comuns, união cultural, e persuasivos rituais nacionais; do outro lado, abrangência, um notável grau de diversidade, e garantias constitucionais de direitos individuais [não é o que se tem visto com os assassinatos em massa e os conflitos raciais que têm abalado a sociedade americana]. Nenhum outro país conseguiu preservar esse equilíbrio exatamente da mesma maneira. Mesmo entre as democracias mais avançadas e industrializadas, o nacionalismo geralmente repousa tanto no tribalismo [no sentido de um forte sentimento de identidade com, e lealdade a, uma tribo ou grupo] quanto em valores compartilhados, e as liberdades individuais e a liberdade religiosa são frequentemente prejudicadas e enfraquecidas de uma maneira que não tolerariam [novamente, os atos de violência na sociedade americana nos últimos anos desmentem categoricamente esta afirmativa].

Observando o sistema americano de governo constitucional, os judeus sabem que têm vivido aqui como uma pequena minoria com uma segurança e uma dignidade que não encontraram em nenhum outro lugar no mundo. Mas, eles sabem também que governos democráticos estáveis não se tornam realidade facilmente, ou naturalmente, ou sem um esforço continuado. E agora, aparece Donald Trump, ameaçando o equilíbrio constitucional de um modo inimaginável desde os anos 1930.

O nacionalismo de Trump não é baseado em valores, mas sim em racismo. Ele fala a língua do nacionalismo branco, algumas vezes abertamente e algumas vezes por insinuações. Ele despreza os imigrantes e a diversidade que têm sido, ambos, um fato e um valor na América. Ele incita o ódio. Ele é um nativista [adepto do nativismo, pensamento político, especialmente nos EUA nos anos 1800, que favorecia os interesses dos habitantes estabelecidos em detrimento dos direitos dos imigrantes] e um Birther [pessoa que acredita que Barack Obama, presidente americano desde 2009, não nasceu nos EUA e, portanto, não é elegível para ser presidente do país] que lança dúvidas de uma maneira especialmente desagradável sobre a legitimidade e o americanismo do primeiro presidente negro do nosso país. Ele se comporta no limiar do fascismo.

A verdade simples é que os judeus olham para o potencial de disrupção/rompimento de uma presidência Trump e estão aterrorizados. E mesmo quando Trump faz um esforço para parecer "presidencial", como fez en passant em seu discurso no encerramento da convenção republicana, ele não convence ninguém. Retirada a fala narcisista, Trump fica irreconhecível -- um candidato completamente diferente que, sabemos, desaparecerá amanhã, se não em uma hora a partir de agora.

Como presidente, Trump protegerá o Estado de Israel e outros importantes aliados dos EUA? Na minha visão pessoal, ele não o fará. Entretanto, seus pronunciamentos sobre política externa é um tal amontoado de coisas que é impossível saber com segurança o que ele fará. Mas os judeus americanos tomarão suas decisões de como votar em novembro por razões completamente diferentes. E a esmagadora maioria não votará em Trump pela simples razão de estarem temerosos pela América.

sábado, 23 de julho de 2016

Donald Trump: o candidato do apocalipse

[Traduzo a seguir o editorial do The Washington Post de 21 de julho. Ninguém de sã consciência pode ficar indiferente às eleições americanas, principalmente quando há o risco de se eleger um débil mental como Donal Trump. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Convenção do Partido Republicano que confirmou Donald Trump como candidato à presidência dos EUA - (Foto: Google - Obs.: esta foto não é do editorial do The Washington Post, cujas fotos não podem ser reproduzidas)

Estes são tempos de ansiedade na América. Apesar do firme, embora lento, crescimento da economia e da ausência de uma guerra relevante, as pessoas permanecem aflitas com um sentimento de baixo desempenho nacional e uma miríade de doenças sociais, mais recentemente com o surto de tiroteios fatais com cores raciais cometidos por agentes da lei e contra eles [sem de maneira nenhuma querer justificar uma intervenção militar americana ou outra qualquer onde quer que seja, não se pode considerar "irrelevante" a guerra civil na Síria, principal fonte do problema dos refugiados que convulsiona a Europa, na qual estão envolvidos, entre outros, os EUA, a Rússia e a França]. Uma recente pesquisa Gallup assinala que apenas 17% dos americanos se sentem satisfeitos com a maneira como as coisas caminham, a porcentagem mais baixa desde outubro de 2013 -- e abaixo 12 pontos apenas no mês passado. 

Para muitos, obviamente, um motivo de preocupação é Donald Trump, que aceitou na tarde desta quinta-feira sua candidatura pelo Partido Republicano à presidência americana. Beligerante e errático, Trump tem entretanto uma chance séria de ganhar em novembro. No seu discurso de aceitação da indicação, ele buscou aumentar suas chances políticas pela única maneira que conhece: inflamando a angústia e a ansiedade públicas, com o objetivo de explorá-las.

Trump tomou desafios reais e os reformulou em termos que foram não apenas exagerados, mas também apocalípticos. "Os ataques à nossa polícia e o terrorismo em nossas cidades ameaçam nosso próprio modo de viver", afirmou. Embora abordasse temas variando de segurança pública a imigração e comércio, as soluções propostas por Trump tinham todas uma mesma premissa: a maneira de superar dificuldades é pelo uso da força. Para empresas americanas que usam do direito de produzir no exterior, a administração Trump imporá "consequências" não especificadas. Um muro gigantesco bloqueará imigrantes e traficantes de drogas ao longo da fronteira com o México. Um esquema de "lei e ordem" -- uma velha metáfora usada por Richard Nixon e George Wallace que Trump tirou do esquecimento -- será restaurado.

Talvez politicamente eficazes por causa de sua simplicidade, as agora famiiares formulações de Trump falhariam como políticas de fato -- porque são simplistas. Não há perspectiva prática, por exemplo, de construir o muro que ele insistentemente defende; mesmo se construído, traficantes de drogas e outros poderiam afinal construir túneis sob ele. E, como sempre, em seu discurso de aceitação não acrescentou detalhes que pudessem qualquer pessoa do contrário.

Quanto a lei e ordem, o presidente tem no máximo influência indireta sobre as milhares de agências de execução da lei país afora. Para ser levada a sério, a afirmação de Trump de que "a segurança será restaurada" no dia da oficialização de sua candidatura implica uma vasta federalização de uma função tradicionalmente estadual e local, ao contrário da lei e costumes longamente vigentes -- sem mencionar a doutrina de governo reduzido/mínimo do Partido Republicano, que tão tola e hipocritamente atrelou seu vagão à estrela de Trump. Para comunidades tensas necessitando de um rigor sutilmente diferenciado que chefes de polícia como David O. Brown, de Dallas, têm aplicado com êxito, um presidente Trump projetaria uma atitude repressiva a partir da Casa Branca, desprotegida por um retalho de sensibilidade, racismo ou de outra maneira. O resultado seria menos segurança, nada além disso.

Trump começou seu discurso apresentando-se como o portador de uma verdade dolorosa mas necessária. Para muitos de seus ouvintes, suas palavras expressaram uma realidade emocional que é sentida profundamente. Há um medo real no país; há uma dor real. Mas, para abordar isso será necessária uma liderança de fato, não a do tipo desejoso e demagógico incorporado por Trump na quinta-feira à noite.


terça-feira, 19 de julho de 2016

Após Nice, não dêem ao Estado Islâmico o que ele está pedindo

[Traduzo a seguir artigo de Mutaza Hussain, publicado no site The Intercept. Um detalhe interessante é o autor ser de origem árabe. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Não se sabe ainda muito sobre Mohamed Lahouaiej Bouhlel, o francês de 31 anos que a polícia diz ser o responsável por um ato horrendo de assassinato em massa na noite passada [o artigo foi publicado em 15/7] na cidade de Nice, sul da França. Após a matança, o presidente francês François Hollande classificou o ataque de "terrorismo islâmico", ligado ao grupo militante do Estado Islâmico (EI).  Partidários do EI online deram eco a essa afirmação, reivindicando a responsabilidade pelo ataque como outro golpe contra seus inimigos na Europa ocidental. 

Enquanto o motivo do ataque ainda está sob investigação, vale examinar porquê o EI está tão ansioso para reivindicar tal incidente como de sua autoria. Superficialmente, jogar um caminhão contra uma multidão reunida para assistir a uma queima de fogos na data da queda da Bastilha parece um ato de puro niilismo. Nenhum objetivo militar foi atingido. Relatórios iniciais sugerem que a matança pode levar aos ataques franceses aos territórios do EI já em diminuição no Iraque e na Síria. E muçulmanos franceses, muitos deles supostamente mortos no ataque, provavelmente enfrentarão represálias de segurança e reação popular de um público irritado e receoso na esteira de outro incompreensível ato de assassinato em massa.

Mas, os comunicados do EI e a história mostram que um resultado como esse é exatamente o que o EI busca. Na edição de fevereiro de 2015 de sua revista online Dabiq, o grupo pediu por atos de violência no ocidente que "eliminariam a zona cinzenta" por via de semear a divisão e criar um conflito insolúvel nas sociedades ocidentais nentre muçulmanos e não-muçulmanos. Um tal conflito forçariam os muçulmanos que vivem no ocidente a "ou abandonar a religião ... ou migrar para o Estado Islâmico, escapando assim da perseguição dos governos e cidadãos que a eles se opõem".  

Essa estratégia de usar a violência para forçar divisões na sociedade imita a tática do grupo no Iraque, onde usou ataques provocativos contra a população xiita para, deliberadamente, deflagrar um conflito sectário, que continua enfurecido até hoje.

Pode ser que o EI não tivesse linha de comunicação direta com Bouhlel. Diferentemente de muitos outros agressores, ele não havia estado no radar dos serviços de segurança franceses. Não há indícios de que tenha recebido treinamento ou viajado para território do EI. Informações iniciais de quem o conhecia mostram o retrato de um homem deprimido e irritado, que "passou muito de seu tempo em um bar, onde jogava e bebia". Tinha um histórico de crimes triviais, incluindo uma prisão em maio deste ano após um incidente de violência no trânsito. 

Mas, de certo modo, esses detalhes não importam. O modelo de terrorismo do EI reside em armar indivíduos tais como Bouhlel; o grupo convoca os jovens, os revoltados e os sem rumo mundo afora para atacar em seu nome os que estão à sua volta. Deste modo, o oder de insurgentes desesperados é amplificado através de uma combinação de mídia social e propaganda do feito. Um texto de  catequese usado elo grupo, intitulado "A Administração/Gestão da Selvageria" (The Management of Savagery), prescreve ataques terroristas como um meio de "inflamar a oposição", de arrastar pessoas comuns para o conflito "querendo ou não, de modo que cada pessoa irá para o lado que apoia". 

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No ocidente, ataques mortais em Paris, Bruxelas, Orlando e alhures trazem para mais próximo da realização o objetivo do Estado Islâmico de um mundo dividido.
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Partidos de extrema-direita hostis às minorias estão ganhando popularidade na Europa, enquanto nos EUA pesquisas mostram um significativo apoio popular a medidas até então impensáveis, como a de banir do país pessoas muçulmanas que não sejam cidadãos americanos. Como um furacão em câmara lenta, cada e todo ato de violência parece fazer um dano incremental à possibilidade de se ter uma sociedade tolerante e liberal.

Após o ataque em Nice, o ex-presidente da câmara de deputados americana Newt Gingrich botou lenha na fogueira demandando por "examinar toda pessoa aqui que tenha background muçulmano", acrescentando: "quem acreditar na sharia [direito islâmico] deve ser deportado". Essa foi uma declaração um tanto irônica de Gingrich, que em anos passados ajudou a providenciar espaço para que funcionários muçulmanos pudessem rezar no Congresso americano, e participou no planejamento de sessões para o Instituto Islâmico de Livre Mercado, um grupo de defesa do mercado livre e apoia produtos financiados segundo a sharia. 

A explosão de Gingrich, por mais que seja impraticável, reflete efetivamente um endurecimento dos sentimentos da população. À medida que o tempo passa e continuam os ataques de lobos solitários e de outros em nome do EI, não é inimaginável que propostas como a dele ganhem impulso.

Mas, de uma perspectiva tanto estratégica quanto moral, a pior coisa que se pode fazer em resposta ao horror de ocorrências como a de Nice seria dar ao EI o que ele diz que quer: polarização e ódio comunitário. Propostas para limpeza étnica ou "guerra civilizatória" podem satisfazer um desejo de dar ideia de força, mas na realidade elas alimentam a narrativa do grupo quanto a um mundo irrevogavelmente dividido por linhas religiosas. 

A Europa ocidental enfrentou ondas maiores de terrorismo no passado sem ceder à estratégia dos terroristas ou sacrificar seus valores intrínsecos. A crise do Estado Islâmico exigirá um nível semelhante de firmeza e lealdade. Mas, somente reconhecendo a armadilha que ela armou é que poderemos evitar infligir uma derrota em nós mesmos muito pior que a que um grupo insurgente desesperado e fanático jamais poderia esperar conseguir por si mesmo.

[O artigo nos dá mais uma dimensão da extrema dificuldade de combater o terrorismo e muito mais ainda de eliminá-lo. Trata-se de um inimigo sem rosto e sem uniforme, que mata impiedosamente quaisquer pessoas, inclusive compatriotas. Os chamados lobos solitários, como o de Nice, ampliaram de maneira assustadora  a imprevisibilidade de ataques terroristas. O ocidente está simplesmente desnorteado com esse inimigo que foge a todos os padrões até então estabelecidos. Geradores da onda de refugiados que invadem a Europa, entre os quais se infiltram terroristas, os países europeus estão colhendo hoje os frutos amargos de seus atos na África e no Oriente Médio. 

Ver também:
O Islã na Europa e no mundo
Ataques reabrem debate sobre integração de imigrantes na França
☛ A crise dos imigrantes ilegais e refugiados na Europa -- europeus colhem hoje o que semearam ontem]

domingo, 24 de abril de 2016

O Holocausto: suas vítimas não foram apenas os judeus, diz historiador israelense

[Traduzo a seguir um artigo inusitado e muito importante de Daniel Blatman, publicado no prestigioso jornal israelense Haaretz. Pela primeira vez em toda a minha vida vejo judeus tendo a coragem de declarar em público que no Holocausto não foram vitimados apenas judeus, mas também milhões de outras pessoas de outras etnias e raças, com destaque para ciganos e poloneses, além prisioneiros soviéticos, homossexuais e vítimas de eutanásia. Isso significa dizer que, ao contrário do que se propaga, os judeus não foram as únicas grandes vítimas do Holocausto. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. O autor do artigo é um historiador da Universidade Hebraica de Jerusalém.]

Um policial alemão interroga uma cigana - (Foto: Arquivos Federais Alemães)

A tragédia de milhões de não-judeus vítimas dos nazistas merece ser lembrada e reconhecida, como apontam os autores de um livro recente. Entretanto, embora sua iniciativa seja digna de louvor, ela não atingiu seu objetivo.

“Hakorbanot Haloyehudim shel Hamishtar Hanazi” ("As Vítimas Não-Judaicas do Regime Nazista"), editado por Yair Auron e Sarit Zaibert, publicado pelos próprios autores (em hebraico), 207 págs, 60 shekels (R$ 55,87). Pode ser comprado pela internet via saraz1@13.net .

Nos anos 1970, surgiu uma discussão violenta entre o caçador de nazistas Simon Wiesenthal e dois destacados historiadores do Holocausto, Yehuda Bauer e Michael Marrus. O tema da discussão: Quem deve ser classificado como uma vítima do Holocausto? Wiesenthal insistia em que o número total de vítimas foi de 11 milhões -- seis milhões de judeus e outros cinco milhões de vítimas de outros países, entre eles os ciganos e os poloneses. Os dois historiadores judeus discordaram veementemente e argumentaram que Wiesenthal não podia fornecer nenhuma prova concreta daquele número: cinco milhões de vítimas a mais do genocídio nazista.

Essa, entretanto, não era uma discussão sobre o número de vítimas; talvez fosse uma discussão numerológica. A discordância referia-se à identidade das vítimas nazistas. "Os seis milhões" era uma expressão de significado quase místico, que havia deitado raízes no consciente coletivo e na memória do Holocausto sustentada em vítimas  e manipulada em Israel e no mundo judaico. Trata-se de um tabu intocável, e violá-lo com a inclusão de outras vítimas ameaça a crença pseudorreligiosa na unicidade/singularidade do Holocausto, que é uma componente fundamental da identidade da sociedade israelense.

Quebrar o tabu acarretaria lidar com uma memória coletiva diferente, assim como reconhecer que o nazismo era muito mais do que o inimigo tão  somente dos judeus -- que ele era o inimigo de toda a humanidade. Além dos judeus, os nazistas assassinaram milhões de outras pessoas apenas porque pertenciam a um grupo que o nazismo decretou como não merecendo existir. Cada um desses grupos tinha sua própria história específica. E a tragédia de cada um deles merece ser lembrada como parte de um amplo mosaico de memórias, no qual um espaço igualitário é concedido a todas as vítimas do nazismo e às vítimas de outros genocídios.

O livro modesto editado por Yair Auron e Sarit Zaoibert tenta cumprir essa missão, que é de importância histórica crucial, mas o que consegue é principalmente transmitir uma crucial mensagem humana. É uma missão quase impossível no Israel violento, racista e protofascista de 2016. A característica dos artigos do livro e o material de algumas de suas fontes sugerem que ele está direcionado a alunos do curso secundário ou ao leitor genérico, que quer ampliar seu conhecimento sobre um assunto em relação ao qual quase não há textos disponíveis em hebraico. E embora a iniciativa dos editores seja bem-vinda, o resultado é decepcionante e até mesmo piegas.

A coletânea consiste de um grupo de artigos sobre vítimas não-judaicas do nazismo: ciganos, Testemunhas de Jeová, vítimas de eutanásia, homossexuais e outros prisioneiros de campos de concentração. Há também um texto genérico sobre a política de melhoria racial perseguida pela Alemanha nazista. Adicionalmente, matérias de várias fontes são anexadas aos artigos, embora não compartilhem um denominador comum. Elas consistem de testemunhos e memórias, trechos da autobiografia de Gunter Grass "Peeling the Onion" ("Descascando a Cebola"), passagens literárias, uma seção de uma peça sobre homossexuais nos campos de concentração, passagens sobre locais celebrativos (memoriais). [Gunter Grass (Danzig16 de outubro de 1927 – Lübeck13 de abril de 2015) foi um autorromancistadramaturgopoetaintelectual, e artista plástico alemão. Sua obra alternou a atividade literária com a escultura, enquanto participava de forma ativa da vida pública de seu país. Recebeu o Nobel de Literatura de 1999. Também é reconhecido como um dos principais representantes do teatro do absurdo da Alemanha. Seu nome é por vezes grafado Günter Graß].

Se o objetivo era tornar acessível material que sensibiliza o público mais jovem, os editores deveriam ter sido melhor assessorados para dedicar tempo e esforço para incluir testemunhos importantes de sobreviventes dos vários grupos de vítimas cobertos pelo livro. Numerosos testemunhos desse gênero estão atualmente disponíveis, com exceção dos infelizes que foram assassinados no programa de eutanásia, dos quais obviamente não há sobreviventes. Até no caso dos homossexuais -- um grupo cujo destino não foi investigado durante muitos anos, por causa da relutância dos sobreviventes em ver suas histórias tornadas públicas -- há hoje material básico disponível muito mais importante do que o fornecido pelo livro. 

As pesquisas históricas que constituem a espinha dorsal do livro não são de uma qualidade uniforme. Em contraste com vários artigos que apresentam uma explicação ordenada e adequada de seus temas, como o artigo de Moshe Zimmerman sobre homossexuais e sobre os chamados elementos "associais", e o artigo de Nira Feldman sobre as vítimas de eutanásia, os outros artigos são superficiais e desatualizados e até errados ou incorretos na interpretação que apresentam. 

Um exemplo é o artigo de Yehuda Bauer sobre os ciganos. Indubitavelmente, apesar de ser ele um celebrado pesquisador do Holocausto, o  trabalho acadêmico de Bauer não está identificado com o genocídio de ciganos. Sua contribuição no livro é o abstrato ou resumo de de um artigo que escreveu há um tempo atrás sobre o assunto. Estudos importantes sobre o tema foram escritos desde então por pesquisadores alemães e americanos, e eles deveriam ter sido citados. Na realidade, os ciganos deveriam ter recebido um tratamento mais exaustivo e completo no livro, porque são um grupo étnico cuja perseguição e assassinato derivaram da mesma visão racista global subjacente à perseguição e ao assassinato dos judeus.

Ainda mais confusa é a pesquisa feita pelo historiador Gideon Greif sobre os prisioneiros dos campos de concentração no período inicial, até a deflagração da Segunda Guerra Mundial em 1939. O objetivo declarado do livro ora analisado é tratar das vítimas não-judaicas do nazismo. Ainda assim, Greif tenta de todas as maneiras possíveis incluir os judeus -- um grupo pequeno e não particularmente central entre os prisioneiros dos campos até o "Massacre de novembro" em 1938 -- e mesmo então, apenas por um curto período. Nenhuma menção é feita, por exemplo, ao fato de que a rede de campos de concentração não foi criada ou direcionada para servir à política antijudaica nazista nos anos 1930.

Em vários pontos, Greif quase se desculpa pelo fato de não haver judeus entre os prisioneiros que foram mandados para os campos de concentração antes do rompimento da guerra.  A razão é que eles, judeus, não eram classificados como opositores políticos sujeitos a perseguição, ou que nenhum judeu se encaixava na definição vaga de pessoas "associais". No entanto, quando Greif efetivamente apresenta um testemunho, ele é de um prisioneiro judeu.

Erros corriqueiros aparecem também na pesquisa não convincente de Greif. Por exemplo, ele sustenta que não havia lei nos campos e que a violência dos nazistas era arbitrária e administrada segundo leis não escritas, especificadas pela S.S. [S.S. = Schutzstafel = Tropa de Proteção]. Na realidade, esse foi o período em que as operações nos campos de concentração eram moldadas por seu primeiro comandante, Theodor Eicke. O código de gestão desses campos que Eicke escreveu era um documento vinculante, e as regras que estabeleceu eram obedecidas por seus subordinados. Isto não quer dizer que os prisioneiros não sofreram violência, mas esta não pode ser classificada de arbitrária porque era precisamente isto que Eicke buscou evitar. 

Outro artigo altamente problemático é o do acadêmico Isaac Lubelsky, sobre racismo e melhoria racial na Alemanha nazista. Lubelsky começa com uma pesquisa apressada e desatenta sobre o desenvolvimento do conceito de Darwinismo Social no século 19 e sua influência no modo de pensar de Hitler. Ele então propõe que a ideia evolucionária, que vê uma conexão entre a existência ambiental de um grupo humano específico e seu desenvolvimento mental, cognitivo e fisiológico prevalecia não apenas entre pensadores e cientistas durante a era do racismo no século 20, mas era aceita também por muitas pessoas de boa índole que não podiam ser suspeitas de abrigar tendências racistas. Por exemplo, o poeta Saul Tchernichovsky, que escreveu que o "homem é moldado pela paisagem de sua terra natal". 

De fato, se adotarmos a interpretação dada a essa obra poética pelo acadêmico de literatura Dan Miron, o que ocorre é exatamente o oposto. A ideia aqui, explica Miron, é que o homem é feito segundo um certo modelo, esquema , paradigma que supõe uma dimensão concreta no molde da paisagem de sua terra natal. Em outras palavras, as matérias de que uma pessoa é feita criam o molde ou modelagem da paisagem de sua terra natal -- e não o contrário. A influência do Darwinismo Social aqui não é prontamente visível. 

Esses são apenas uns poucos exemplos dos problemas que marcam esse livro. Grupos importantes de vítimas estão nele completamente ausentes. Entre eles estão os prisioneiros de guerra soviéticos, o segundo maior grupo de vítimas (mais de três milhões) aniquiladas pelos nazistas. Também ausentes estão os poloneses, que sofreram um violento ataque combinado de limpeza étnica e assassinato em massa. 

Em resumo, o livro se constitui em uma oportunidade perdida. Uma coleção séria de artigos em hebraico sobre vítimas não-judaicas do genocídio nazista seria de enorme importância. Se essa tentativa inicial infeliz estimular a publicação de um livro desse  tipo, o livro de Auron e Zaibert terá atingido seu objetivo.