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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Os seres humanos mais antigos estão na Austrália

[Traduzo a seguir reportagem de Javier Sampedro publicada no jornal espanhol El País.]

O professor Eske Willerslev fala com anciões aborígenes no sudoeste da Austrália - (Foto: Preben Hjost/Mayday Film)

Há populações humanas que até agora se viram pouco representadas nos estudos genômicos, como os primeiros povoadores da Austrália. Uma falha, porque a primeira leitura do genoma de 83 aborígenes daquele continente e de outras 25 pessoas de Papua Nova Guiné resultou em um tesouro científico. Os aborígenes australianos diferem entre si tanto como um espanhol de Cádiz difere de um chinês de Pequim. Isso implica que faz muito, muito tempo que os aborígenes ocuparam a Austrália, tanto que são a população viva mais antiga do planeta, e que saíram da África antes que o resto da humanidade.

Saber quantas vezes a humanidade saiu da África, quando ocorreram essas migrações e o que ocorreu com elas são perguntas essenciais sobre o passado de nossa espécie. Os cientistas apresentam agora em quatro pesquisas na revista Nature a melhor resposta que o conhecimento atual permite. O chefe de um dos trabalhos, Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague, garante que a pesquisa "foi fascinante, porque os aborígenes australianos são a população viva mais antiga da Terra". 

A comparação dos genomas aborígenes com os dos resto da humanidade, incluindo seus vizinhos asiáticos e oceânicos mais próximos, mostra que "emigraram da África antes" que os demais humanos modernos, há 60.000 anos ou mais, quando as atuais Austrália e Papua ova Guiné estavam unidas. Muitos milênios depois, quando o aumento do nível do mar isolou a Guiné da Austrália, os dois grupos interromperam seu fluxo genético -- deixaram de ter sexo -- resultando daí que sua distância genética á agora semelhante à que separa europeus e asiáticos orientais.

Mas, nem sequer a dos aborígenes foi a primeira migração de humanos modernos fora da África. Em outra pesquisa, Luca Pagani e seus colegas do Biocentro Estoniano de Tartu mostram que os atuais habitantes de Papua Nova Guiné carregam em seu genoma sinais apreciáveis (mais de 25% do DNA)de uma população humana mais antiga ainda, um grupo humano que se separou dos africanos antes que os euroasiáticos o fizessem.

Os cientistas estonianos deduzem que esses fragmentos genômicos provêm do sexo que deve ter havido entre os ancestrais dos papuanos e uma migração que fez o mesmo trajeto muito antes: saiu da África há uns 120.000 anos. As quatro pesquisas apresentadas na Nature estão assinadas por equipes de pesquisa genômica de 35 países, incluindo a Espanha. Elas revelam a complicação que a genômica está imprimindo à história do Homo sapiens, como já havia feito com os hominídeos.

Prossigamos com as perguntas: de onde  viemos? A resposta é: da África. Os primeiros ossos iguais aos nossos estavam ali há 150.000 anos. Mas, por que não saímos da África até dezenas de milênios depois, talvez 100.000 anos depois? Isso representa muito tempo, muito mais que a totalidade da nossa existência fora do continente que nos viu nascer. Os Homo sapiens originais só nos assemelhavam na aparência? Tinham ainda que evoluir seu cérebro até os nossos padrões? Extinguiram-se aqueles humanos "anatomicamente modernos", como se costuma chamá-los para sublinhar que eram mais idiotas do que nós?

Parece que não. David Reich, da Universidade de Harvard, e seus colegas apresentam também na Nature os genomas de 300 pessoas de 142 populações que, assim como os aborígenes australianos, estavam pouco representados nos estudos da variedade humana. Seu principal achado é muito marcante: demonstra que os humanos atuais começamos a divergir há 200.000 anos. Isso encaixa com a data de datação dos primeiros crânios iguais aos nossos. E confirma que nossos primeiros pais não se extinguiram, mas sim que seguem vivendo em nosso genoma.

A equipe de Harvard exibe sua sofisticação matemática com um dado assombroso: a velocidade de mutação genética aumentou cerca de 5% desde que saímos da África. A explicação para isso é curiosa: o tempo entre gerações diminuiu desde então, isto é, temos filhos quando somos mais jovens do que nossos ancestrais africanos. Quanto mais um indivíduo se reproduz, mais oportunidades de mutação permite aos filhos. Daí que os vírus sejam os regentes da evolução na Terra.

A espécie que fugia do frio

A teoria original out of Africa (fora da África) postulava que toda a humanidade atual que vive fora desse continente provém de um pequeno grupo de Homo sapiens que saiu dali há uns 50.000 anos. Os cientistas consideram agora que não houve uma, mas quatro migrações para fora da África que ocorreram ao longo dos últimos 120.000 anos. E que as quatro tiveram relação com as mudanças climáticas associadas às variações da órbita terrestre.

Segundo o modelo construído por Axel Timmermann e Tobias Friedich, da Universidade do Havaí em Honolulu, as migrações representam quatro ondas associadas às grandes formações glaciais desse período, que abarcaram estes quatro intervalos: 106.000-94.000; 89.000-73.000; 59.000-47.000 e 45.000-29.000 anos atrás. Os resultados de seu modelo se encaixam muito bem com os dados paleontológicos e arqueológicos. 

O destino da humanidade parece assim estar, depois de tudo, escrito nas estrelas, como diria um poeta antigo. Porque esses ciclos gelados foram causados diretamente pelas alterações da órbita terrestre. Outras mudanças climáticas de menor escala se associam a migrações de população de um caráter mais local.


quarta-feira, 11 de maio de 2016

O fantástico Museu do Cais Branly, em Paris (I): Oceania


O Musée du Quai Branly (Museu do Cais Branly) é mais um fantástico museu da incrível Paris. Para esta postagem utilizei o catálogo do museu, a Wikipédia e o Google.

Segundo Jacques Chirac, presidente da França quando o museu foi criado (inaugurado em 20 de junho de 2006):

"A criação do Museu do Cais Branly, instituição original, inteiramente dedicada às artes e às civilizações da África, da Ásia, da Oceania e das Américas, nasceu de uma vontade política: fazer justiça às culturas extraeuropeias. Trata-se de reconhecer o lugar que ocupam suas expressões artísticas na nossa herança cultural. De reconhecer também nossa dívida com relação às sociedades que as produziram, assim como em referência aos seus países de origem com os quais a França mantém, com numerosos deles, laços particulares. 

Trata-se, ao romper com uma longa história de desdém, de dar o justo lugar a artes e civilizações por muito longo tempo ignoradas ou desconhecidas, de devolver toda sua dignidade a povos frequentemente humilhados, oprimidos, às vezes aniquilados pela arrogância, pela ignorância, pela tolice e pela cegueira.

Instituição cultural e científica de um tipo novo, ao mesmo tempo museu, centro cultural, lugar de pesquisas e de ensino, o Museu do Cais Branly proclama a recusa a qualquer hierarquia das artes, assim como a qualquer hierarquia de povos. Ele celebra a universalidade do gênio humano através da deslumbrante diversidade de suas expressões culturais".  (...)

O diretor do museu, Stéphane Martin, informa que cerca de 3.500 obras, das 300.000 que compõem o acervo do Branly, desenham para o visitante os contornos da identidade do museu. Organizado segundo quatro áreas geográficas -- África, Ásia, Oceania e Américas -- ligadas por "zonas de contato" tais como as Pequenas Antilhas ou a Insulíndia, esse percurso permanente se articula igualmente em função de grandes temas comuns. Cada continente é apresentado ao início por um "espaço de chamada", que reagrupa algumas obras particularmente emblemáticas e espetaculares. Esse vasto território propõe portanto uma lógica de visita ao público, que mantém no entanto uma total liberdade de escolha.

As grandes obras-primas selecionadas para a exposição permanente o foram por sua beleza, sua raridade e sua força de expressão, por seu interesse etnológico e técnico, ou pelo que nos dizem do espírito e da genialidade dos povos. Graças a diferentes níveis de comentários, cartazes, painéis ou programas multimídia. o visitante é convidado a situar na história e na geografia as obras que lhe são apresentadas e a se informar sobre seu contexto e seu uso nas sociedades que as produziram.

 O Museu do Cais Branly, visto do 3˚ andar da Torre Eiffel - (Foto: Wikipédia)



Fotos externas do Museu do Cais Branly - (Fotos: Google)



Logo na entrada ao interior do museu,  há uma corrente de palavras em movimento chamada "O Rio", que desce pela rampa sinuosa que leva da entrada do museu às suas principais galerias - (Foto: Wikipédia/Vídeo: meu) 


"O Rio" (um projeto do artista visual escocês Charles Sandison, radicado na Finlândia) contém 15.597 palavras de todos os povos e locais geográficos das coleções do museu, que vêm assim ao encontro do fluxo de visitantes do museu. Ao subir a rampa, instintivamente, o visitante tenta andar sobre essas palavras, palavras brancas, negras ou vermelhas. Algumas palavras são fixas, outras varrem o solo e, avançando, se espalham. Alguns visitantes dizem que esse "rio" os faz sonhar e mergulhar no imaginário de todos esses países e sítios.

As galerias principais e o mezanino do museu, ligados por uma rampa sinuosa - (Foto: Wikipédia)


Peça do Museu do Cais Branly - (Foto: minha)

Oceania

A Oceania e a Insulíndia se compõem de conjuntos de arquipélagos, que se estendem depois do sul da Malásia até os confins do Pacífico Sul. Essa área histórica e cultural é interligada pela história de seu povoamento. Ela agrupa a Insulíndia -- Malásia oriental, Indonésia e Filipinas -- a Melanésia, a Polinésia, a Micronésia e a Austrália. Esse corte geográfico foi herdado dos trabalhos do navegador francês J-S. Dumont d'Urville, publicados em 1834. Ele serve de trama para a visita das coleções da Oceania, à exceção da Micronésia, pouco representada. Ao longo desse percurso geográfico são declinadas temáticas culturais e sociais tais como a conquista do prestígio, os intercâmbios, a iniciação, os funerais, a relação com os ancestrais e as divindades, as metamorfoses do corpo, ou ainda a modernidade.





Partes do pavilhão da Oceania - (Fotos: minhas)

Algumas máscaras da Oceania - (Foto: Google)

Máscara para coleta de dinheiro/Papua Nova-Guiné - (Foto: minha)

Tambores com fendas verticais/Ilha de Ambrym, Vanuatu, Melanésia - (Foto: Google)

Detalhe do conjunto acima - (Foto: Google)

Totens da Oceania - (Foto: minha)

Parte do pavilhão da Oceania - (Foto: Google)



Detalhe de escultura com aparência humana (ver foto acima desta), pertencente à sociedade secreta iniet dos Tolai, povo indígena da Península Gazelle e das Ilhas de Duque de York da Nova Bretanha do Leste, Ilhas Nova Guiné, Papua Nova-Guiné - (Fotos: Google)

Escultura do pavilhão da Oceania - (Foto: Google)

Máscara de fachada/Chambri, Papua Nova-Guiné, meio Sepik, meados do século XX - (Foto: Google)

Peças da Papua Nova-Guiné - (Foto: Google)

Máscara/Austrália, Queensland, estreito de Torres, século XIX - casco de tartaruga, fibras vegetais, penas de casuar (pássaro australiano) - (Foto: Google)

Um crânio de parente decorado/Papua Nova-Guiné, fim do século XIX - (Foto: Google)

Máscara/Papua Nova-Guiné, Ilhas Salomão, ilha Bougainville, início do século XX - casca de árvore batida, madeira, bambu e pigmentos - (Foto: Google)

Máscara de inhame (?) (detalhe)/Abelam, Papua Nova-Guiné - (Foto: Google)

Figura feminina esculpida na base de um tronco, do  qual duas raízes serviram para fazer as pernas separadas. Repousava sobre uma travessa localizada no interior da casa dos homens, logo atrás da fachada, não sendo visível do exterior. Representa uma ancestral feminina associada ao som das flautas - (Foto: Google)

Crânio de ancestral usado em cerimônias de iniciação/Asmat, Indonésia, séc. XX - (Foto: Google)

Manequim funerário rambaramp/Pequenas Nambas, Vanuatu, sul da ilha de Malekula - osso, madeira, pasta vegetal, pigmentos, teia de aranha, dentes de porco,plumas, fibras vegetais, 178 x 44 cm - (Foto: Google)

Máscara coberta, de passagem de grau/patente - Vanuatu, ilha de Malekula - (Foto: Google)

Máscara/Papua Nova-Guiné, ilhas Salomão, ilha de Nissan, início do século XX - madeira, rotim (uma palmeira), cortiça batida, pecíolo de palmeira, resina, pigmentos, 55,5 x 40,2 cm


Máscara-elmo/Kapriman, Papua Nova-Guiné, meio Sepik,início do séc. XX - vime, bambu, pigmentos - (Foto: Google) - O rio Sepik é um rio do nordeste da Nova Guiné com cerca de 1.120 km. Praticamente todo o seu percurso está na Papua-Nova Guiné.

Canguru fêmea/Austrália, terra de Arnhem ocidental, ilha Croker, meados do século XX - pintura sobre casca de eucalipto, 73 x 70 cm - Artista: Billy Yirawala - (Foto: Google)

Namarwon, deus do trovão/Austrália, terra de Arnhem ocidental, ilha Croker, meados do séc. XX, pintura em casca de árvore  - 77 x 50 cm - Artista: Jimmy Midjaw-Midjaw - (Foto: Google)

Uma tapa (casca de árvore, tecido vegetal batido, cortiça batida e decorada pelas mulheres, muito presente na Oceania) com motivos geométricos/Samoa, Polinésia - (Foto: Google)

Sonho de dois homens/Paddy Jupurrurla Nelson, Yuendumu, Oceania  etnia Warlpiri - pintura acrílica sobre tela, 1991 - (Foto: Google) 


Buraco com água no grande deserto de areia/Austrália Ocidental, Balgo, pintura acrílica sobre tela, 1996, 81 x 121 cm - Artista: Helicopter Joe Tjungurrayi



Helicopter Joe Tjungurrayi (1947-) - Austrália Ocidental - (Foto: Google)


Cerimônia funerária/Austrália, terra de Arnhem central, Millingbi, meados do séc. XX, 73,5 x 48 cm - Artista: David Malangi - (Foto: Google)


David Malangi (Austrália, 1927-1998) - (Foto: Google)



Tapa/Austrália, terra de Arnhem, comunidade Yirrkala - trabalho com casca de eucalipto, 1996 - (Foto: Google)


Jóia Mamuli em ouro/Indonésia, ilha Sumba, sécs. 19 - 20 - (Foto: Google)


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(tema da próxima postagem: Ásia)






  






sexta-feira, 16 de novembro de 2012

EUA vão liderar produção mundial de petróleo

[Descortina-se uma reviravolta significativa no cenário energético internacional, com profundas implicações geoestratégicas e um fortalecimento do poderio americano. É o que se depreende de reportagem de hoje do Estadão.]

Os Estados Unidos vão superar a Arábia Saudita e se tornarão os maiores produtores de petróleo até aproximadamente 2017, e exportadores líquidos até 2030, informa a Agência Internacional de Energia (AIE). Este aumento da produção, associado a novas políticas destinadas a melhorar a eficiência na área energética, tornará os EUA "praticamente autossuficientes" para atender às suas necessidades de energia em cerca de duas décadas - numa "drástica reviravolta das tendências atuais" nos países mais desenvolvidos, mostra novo relatório divulgado pela AIE.

"Os alicerces dos sistemas globais de produção de energia estão mudando", afirmou em entrevista, antes da divulgação do documento, Fatih Birol, principal economista da organização com sede em Paris que elabora a publicação anual "Perspectiva Mundial de Energia". A AIE previra anteriormente que a Arábia Saudita se tornaria líder em produção até 2035. O relatório também previu que a demanda global de energia cresceria de 35% a 46% de 2010 a 2035, dependendo da entrada em vigor das políticas propostas. A maior parte desse crescimento virá da China, Índia e Oriente Médio, onde os consumidores estão aumentando rapidamente. As consequências têm "enorme potencial" para os mercados globais de energia e comércio, informou o relatório.

Birol observou, por exemplo, que o petróleo do Oriente Médio, outrora destinado aos EUA, provavelmente seria enviado para a China. O carvão mineral nos EUA, cuja demanda está em declínio no mercado interno, já caminha rumo à Europa e à China.

Há vários componentes desta repentina mudança de rumo da oferta energética mundial, mas o principal é o reativação da produção de petróleo e gás nos EUA, particularmente pelo fato de terem sido encontradas novas reservas de petróleo e gás. A ampla adoção de técnicas, como fragmentação hidráulica e perfuração horizontal, tornou essas reservas muito mais acessíveis, e, no caso do gás, resultou num imenso excedente que provocou a queda violenta dos preços.

O relatório prevê que os EUA vão superar a Rússia, tornando-se os maiores produtores de gás em 2015. As afirmações categóricas e as previsões específicas da AIE conferem um peso maior às tendências que no ano passado se tornaram mais claras. "Essa conclusão impressionante confirma grande parte das recentes projeções", disse Michael A. Levi, pesquisador sênior em energia e meio ambiente para o Conselho de Relações Exteriores. 'Boa notícia'. Criada em 1974, depois da crise do petróleo, por um grupo de nações importadoras de petróleo, inclusive os EUA, a AIE monitora e analisa as tendências com a finalidade de garantir uma oferta confiável e sustentável.

Segundo Levi, o relatório da AIE é uma "boa notícia" para os EUA, pois destaca as novas fontes de energia. Mas recomendou cautela, pois ser autossuficiente não significa evitar a gangorra dos preços, estabelecidos pelos mercados globais. Além disso, observou, a projeção da AIE em relação à autossuficiência dos EUA pressupõe que o país aumentará o número de quilômetros rodados por litro de gasolina nos carros e a eficiência da energia nas casas.  Segundo Birol, a previsão da AIE de um aumento da autossuficiência dos EUA foi de 55%, refletindo um crescimento da produção petrolífera, e 45% como reflexo da melhoria da eficiência energética, fundamentalmente por causa das novas normas de economia de combustível para carro do governo Obama. E acrescentou que serão necessárias medidas mais rigorosas para promover a eficiência da energia nos EUA e em muitos outros países.

O relatório afirma que vários outros fatores também poderão ter consideráveis efeitos nos mercados mundiais nos próximos anos. Entre eles, a recuperação da indústria petrolífera iraquiana, o que permitirá aumentar a oferta, e a decisão de alguns países, como Alemanha e Japão, de abandonar a energia nuclear após o desastre de Fukushima. As novas fontes de energia ajudarão a economia americana, disse Birol, fornecendo energia barata ao mundo. A AIE estima que os preços da eletricidade serão cerca de 50% mais baratos nos EUA que na Europa, em grande parte por causa de um aumento do número de usinas a gás natural barato, o que poderia ajudar a indústria e os consumidores.

Mas a mensagem tem um significado mais grave para o planeta, em termos das mudanças climáticas. Embora o gás natural seja frequentemente enaltecido por produzir emissões de carbono relativamente baixas comparadas ao petróleo ou ao carvão, o novo mercado global de energia poderá favorecer a produção de níveis perigosos de aquecimento. A redução da dependência dos EUA do carvão significará somente que o carvão irá para outros países, aponta o relatório. E o uso de carvão, agora o combustível mais poluente, continuará aumentando em outros locais do planeta. A demanda de carvão da China chegará ao pico em 2020, e permanecerá estável até 2035, prevê o documento, enquanto em 2025 a Índia ultrapassará os EUA como segunda maior consumidora de carvão.

O relatório adverte que somente um terço das reservas comprovadas de combustíveis fósseis deveria ser utilizado até 2050, a fim de limitar o aquecimento global em 2 graus Celsius, como muitos cientistas recomendam. Mas essa restrição é improvável sem um tratado compulsório até 2017, que exija que os países limitem o aumento das suas emissões, concluiu Birol. / (Tradução de Anna Capovilla).

terça-feira, 20 de março de 2012

A lamentável e ainda inexplicada morte do jovem brasileiro na Austrália

Primeiro foi Jean Charles de Menezes, 27 anos, morto em Londres em 22 de julho de 2005; agora, foi Roberto Laudisio Curti, de 21 anos, morto em Sydney, Austrália, em 18 de março de 2012. Pontos em comum nas duas mortes: ambos foram mortos pela polícia, e as duas polícias são de países da Comunidade Britânica ou Comunidade das Nações (Commonwealth). O primeiro assassinato, perpetrado pela Scotland Yard, foi varrido para debaixo do tapete, ninguém foi punido -- e o segundo, cometido pela polícia australiana, parece caminhar para o mesmo desfecho.

As alegações policiais, nos dois casos, são escapistas e revoltantes. Jean Charles teria sido confundido com um suspeito de terrorismo, e Roberto teria roubado um pacote de biscoitos e/ou estaria drogado. Jean Charles foi morto a tiros, e Roberto com disparos de tasers. O que é um taser? É uma arma de eletrochoque, que usa corrente elétrica para impossibilitar o controle voluntário dos músculos e provoca fortes contrações musculares involuntárias. Embora introduzido e considerado como uma arma não letal, o taser tem tido seu uso sujeito a controvérsia, com a incidência de vários incidentes com sua utilização, envolvendo ferimentos sérios ou mesmo morte. Em 2009, a Taser (que emprestou seu nome à arma que fabrica) lançou o modelo X3, capaz de atirar três vezes sem recarga -- este pode ter sido o modelo usado contra Roberto.

Roberto estava em Sydney (capital do estado de New South Wales - NSW) estudando inglês há menos de seis meses, e morava na cidade com sua irmã casada e ali radicada. O jornal australiano Brimbank Weekly faz seu relato sobre a morte de Roberto. Fala do sentimento de perda e de perplexidade da família do rapaz, que era querido por todos, parentes e amigos. Relata que o ministro das Relações Exteriores brasileiro ordenou ao consulado do país na cidade que prestasse auxílio à família de Roberto e "obtivesse os necessários esclarecimentos das autoridades australianas", segundo a Agência France-Presse (AFP).

O diretor da agência internacional estudantil Information Planet, que traz cerca de 1.500 brasileiros a Sydney a cada ano, disse que "o incidente comprometeu a imagem internacional da Austrália".

A polícia australiana disse acreditar que Roberto estava numa loja de conveniências na King Street cerca de meia hora antes de morrer, onde testemunhas disseram que ele estava "espumando pela boca" e dizendo coisas sem nexo. Ainda não está claro quantos tasers foram disparados quando a polícia perseguia Roberto. O escritório do ouvidor de NSW confirmou que, de maneira independente, supervisionaria as investigação sobre a morte de Roberto. Inexplicavelmente, não foram ainda divulgadas as imagens da câmara de segurança da loja de conveniências durante a permanência de Roberto ali.

Se examinarmos as fotos abaixo, que mostram o corpo estendido e coberto de Roberto com um policial ao lado, podemos ver pela diferença de iluminação que o corpo do brasileiro teria ficado algumas horas na calçada.

Fico imaginando a reação da mídia e da opinião pública inglesa e australiana, se Jean Charles e Roberto fossem, respectivamente, um inglês e um australiano, morto o primeiro pela polícia carioca no Rio e o segundo pela polícia paulista, em São Paulo ...

Roberto Laudisio Curti, 21 anos, morto pela polícia de Sydney (Austrália) em 18/3/2012 - (Foto: Facebook.com).

Policial delimita a área à volta do corpo de Roberto - (Foto: Damian Shaw).

 Policial fotografa o local onde está o corpo coberto de Roberto - (Foto: Damian Shaw).

Policial monta guarda ao lado do corpo de Roberto (observem a iluminação ambiente e comparem-na com a das fotos anteriores) - (Foto: Steve Harris).

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Austrália quer criar "maior reserva natural marinha do mundo". Já o Brasil ...

O governo australiano anunciou sua intenção de criar a maior reserva natural marinha do mundo, na barreira de corais da sua costa.

Segundo o ministro australiano do Meio Ambiente, Tony Burke, serão introduzidos novos limites para a atividade da pesca e a extração de gás e petróleo será proibida em uma área de quase um milhão de quilômetros quadrados. O oceano localizado no nordeste da chamada Grande Barreira de Corais abriga inúmeras espécies consideradas em risco de extinção no mundo, bem como um grande número de tubarões e atum.

A maior reserva natural do mundo atualmente se localiza ao redor das ilhas Chagos, possessão britânica no Oceano Índico.

A área proposta pela Austrália abarcaria os destroços de navios americanos e japoneses afundados durante a Segunda Guerra Mundial.

[Enquanto a Austrália assume essa postura digna e exemplar, o Brasil continua displicente e criminosamente fazendo vista grossa à proteção de seus recursos naturais.  No recentíssimo desastre do vazamento do poço da Chevron na costa do Estado do Rio o governo, via ANP, deixou que transcorressem duas semanas até "enquadrar" a petrolífera americana. No capítulo florestas, o Brasil desmata mais que os demais países do grupo Brics. O paraíso de Fernando de Noronha passa por um processo de favelização.  -- O próximo paraíso natural brasileiro sob ameaça de danos, ou mesmo de destruição, por possível exploração de petróleo em suas vizinhanças é o arquipélago de Abrolhos, no litoral da Bahia, o complexo natural mais importante do Atlântico Sul. No dia 02 de setembro deste ano, o jornal O Estado de S. Paulo noticiava que a exploração de petróleo na costa ameaça Abrolhos.

Que a iniciativa da Austrália nos sirva de exemplo e lição.]

A barreira de corais da Austrália - (Foto: Google).

A barreira de corais da Austrália - (Foto: Google).

O arquipélago de Abrolhos, no litoral da Bahia - (Foto: Google).

Exemplo de vida marinha em Abrolhos - (Foto: Google).

Exemplo de vida marinha em Abrolhos - (Foto: Google).