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segunda-feira, 11 de novembro de 2013

EUA e Europa negociam R$ 1 bilhão do Brasil para construir telescópios gigantes

[A reportagem abaixo, de Rafael Garcia e Giuliana Miranda, foi publicada ontem (10/11) na Folha de S. PauloO que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]


Dois dos três projetos de telescópios mais ousados do planeta estão pleiteando, juntos, quase R$ 1 bilhão em ajuda do Brasil. Concorrentes, ambos permitirão ver pela primeira vez com detalhes a atmosfera de planetas fora do Sistema Solar, para buscar "gêmeos" da Terra, e medir a expansão do Universo em tempo real. E a disputa por descobertas futuras já incendeia rivalidades dentro da comunidade astronômica brasileira.


O menor dos projetos, o GMT (Giant Magellan Telescope), terá um espelho de 25 metros de diâmetro -- duas vezes e meia o tamanho do maior espelho de aumento usado hoje num telescópio.

A Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) anuncia na quinta detalhes do acordo que negocia para entrar do projeto, liderado por um consórcio americano. Desembolsando US$ 40 milhões (R$ 92 milhões), a agência obteria uma cota de 5% do tempo de observação no GMT.




O outro projeto em busca de auxílio brasileiro é o E-ELT (European Extremely Large Telescope), um monstro de 39 metros de diâmetro a ser construído pelo ESO (Observatório Europeu do Sul). O governo federal assinou em 2010 um acordo em que se compromete a desembolsar € 270 milhões de euros (R$ 836 milhões) em dez anos.

Dentro do ESO, que já está acolhendo astrônomos brasileiros mesmo antes da ratificação, o Brasil não tem cota fixa; tem de disputar tempo de telescópio com os outros 14 países do observatório. O acordo, porém, garante acesso não só ao futuro E-ELT, mas também ao VLT (Very Large Telescope), o maior telescópio óptico do mundo hoje, e ao Alma, o mais poderoso conjunto de radiotelescópios do planeta.

O acordo com os europeus foi aprovado anteontem pela Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados, mas precisa ser ratificado pelo plenário no Congresso para ter efeito. Pelos termos do acordo, o Brasil começa a pagar o valor total com parcelas menores, que crescem ano a ano. As três primeiras parcelas já estão vencidas e somam € 47,5 milhões (R$ 147 milhões). Se o acordo for ratificado, o país precisará quitar o valor.

Tanto o GMT quanto o E-ELT têm término previsto para depois de 2020, situam-se em montanhas no Chile e operam na região óptica do espectro de luz -- as ondas eletromagnéticas que o olho humano é capaz de captar.

O terceiro observatório gigante com projeto em andamento é o TMT (Telescópio de Trinta Metros), idealizado por astrônomos californianos. Hospedado no Havaí e com inauguração marcada para 2018, o aparelho está com financiamento atrasado e buscou apoio de chineses, indianos e japoneses.

Como o GMT e o E-ELT serão os únicos observatórios desse porte no hemisfério Sul, porém, é provável que entrem em concorrência direta por descobertas no céu austral, que de modo geral é mais rico que o boreal.

A proporção dos gigantes (clique na imagem para ampliá-la) - (Ilustração: Editoria de Arte/Folhapress - Fonte: Folha de S. Paulo).

A participação brasileira em cada um dos projetos está sendo negociada por grupos que já são rivais no país, o que despertou um clima de animosidade na academia. Enquanto defensores do acordo com os EUA dizem que a filiação ao ESO sai cara demais, opositores dizem que os americanos não oferecem acesso a nenhum telescópio antes de o GMT ficar pronto.

[Há qualquer coisa que não bate na história acima. O registro que tenho e que coloquei no blogue em janeiro de 2012 é que em 2010, no governo do NPA (Nosso Pinóqio Acrobata, Lula), o Brasil comprometeu-se a participar financeiramente da construção do ESO. A opção brasileira já teria sido portanto feita. Na época, o Brasil seria o 15° país a participar do projeto e o primeiro país não europeu nele incluído, e sua contribuição seria de 300 milhões de euros (quase R$ 1 bi, como diz a reportagem)].


terça-feira, 5 de novembro de 2013

Com a política externa petista capenga, regida pela NPS e dois chanceleres, o Brasil está se isolando do comércio mundial

[O Mercosul é um fracasso sob qualquer ponto de vista, mas o Brasil da visão curta e da política externa mequetrefe se apega a ele como no abraço dos afogados. Todo mundo -- até membros desse mercado comum -- está fazendo acordos bilaterais de comércio com todo mundo, exceto o Brasil, que se apega à letra morta desse tratado que diz que quem deve assinar esse tipo de acordo é o bloco como um todo. Com isso, estamos ficando à margem do comércio internacional. Criado pelo Tratado de Assunção de 1991, tendo já 22 anos portanto, o Mercosul continua de fraldas. Vejam a lista dos países com os quais ele fez tratados de livre comércio: Trinidade e Tobago, Palestina, África do Sul, Egito, Marrocos, Paquistão, Índia, Israel e Cingapura ... Recentemente, comemorava-se a adesão do Suriname a esse bloco. Isso está mais p'ra patota que p'ra bloco. A reportagem abaixo, do jornal Valor Econômico de 27/9, nos deixa ainda mais desanimados. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Um racha no Mercosul tende a se aprofundar envolvendo um acordo liderado pelos Estados Unidos para liberalização mais acelerada no comércio internacional de serviços. Agora é o Uruguai que pretende aderir ao acordo, que já conta com a participação do Paraguai [ou seja, os países menores do bloco têm mais visão e senso de oportunidade que o Brasil; falar de "racha" no Mercosul é redundância -- o bloco tem mais trincas e gretas do que um solo que não vê água há um ano].

A movimentação da China para entrar na negociação começa a estimular outros países a fazer o mesmo e deve ampliar o isolamento do Brasil nesse segmento do comércio global, que representou US$ 4 trilhões no ano passado.  A expectativa era que a decisão chinesa impulsionasse a adesão de países do Sudeste Asiático. Mas o Valor apurou que quem entrou primeiro na fila para aderir ao Trade In Services Agreement (Tisa) foi o Uruguai. Essa negociação foi lançada pelos americanos em 2012 em resposta ao impasse nas negociações globais da Rodada Doha.

As discussões no Tisa visavam inicialmente atualizar as regras existentes do Acordo de Serviços. Mas EUA e Japão recentemente submeteram as primeiras ofertas de acesso ao mercado, implicando compromissos efetivos de mais liberalização por parte dos participantes. Até recentemente, Brasil e Índia contavam com a China na resistência a essa negociação, julgando que isso diminuiria as chances para um acordo na Rodada Doha e podia enfraquecer o sistema multilateral.

A balança de serviços do Brasil tem um déficit estrutural que aumentou desde 2007. Em 2012, o déficit chegou a US$ 41,1 bilhões, com as importações tendo alcançado US$ 80,9 bilhões. O setor de serviços inclui o financeiro, telecomunicações transportes, construção, turismo, distribuição, movimento de profissionais e outros, e os parceiros reconhecem que o Brasil é relativamente aberto.

A ideia no Tisa é que os participantes se comprometam desde o início com a melhor abertura que ofereceram até agora em qualquer outro acordo, e, a partir daí, consigam ampliar as ofertas de acesso ao mercado. Com os EUA, União Europeia e proximamente a China no Tisa, isso significa que novas regras do jogo no setor de serviço serão feitas sem o Brasil. Mais tarde, a tendência é que essas regras sejam estendidas a todos os países.

Segundo negociadores, o Uruguai procurou os EUA, União Europeia Austrália para participar da negociação. O tema vai ser discutido hoje, ou na semana que vem, pelos atuais participantes, que são UE (28 países), Austrália, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Hong Kong, Islândia, Israel, Japão, Liechtenstein, México, Nova Zelândia, Noruega, Paquistão, Panamá, Paraguai, Peru, Coreia do Sul, Suíça, Taiwan e Turquia. [Cadê o Brasil?!]

O setor de serviços é um dos mais dinâmicos da economia internacional. A China quer investir no exterior mais nesse segmento.

[O problema do Brasil no Mercosul e na América Latina tem nome e endereço -- chama-se Argentina. Como os hermanitos são grandes importadores de produtos brasileiros de alto valor agregado, a lógica reinante e predominante no Itamaraty é definitivamente não criar caso com esses vizinhos, para não dar "ruído" em nosso comércio com eles. Enquanto estive na área internacional da Eletrobras, toda vez que reclamava de descumprimentos de compromissos pelos argentinos e pedia que fossem enquadrados, recebia orientação expressa do Itamaraty para "maneirar" com os hermanitos -- é bom frisar que eles fazem o jogo para nos tirar o máximo possível sem contrapartida, nós é que somos otários por não fazermos o mesmo. É a velha política de "n" dobradiças na coluna vertebral  da nossa diplomacia. Além de sermos o único país do mundo a ter dois chanceleres em exercício -- quem se der o trabalho de examinar as lambanças da nossa política externa em Honduras, Bolívia e Venezuela, por exemplo, encontrará as 20 impressões digitais de Marco Aurélio Garcia. Só que elas aparecem em ordem inversa, primeiro vêm as dos membros inferiores.

Enquanto o Brasil banca o marido fiel rodeado de Ricardões pelas costas e dentro do quarto do casal -- e se delicia com essa posição masoquista de traído manso -- outros países da região vão se juntando para formar outros blocos e outros mercados comuns, como é o caso do MILA - Mercado Interado Latino-Americano, formado inicialmente por Chile, Colômbia e Peru e já com a adesão do México. O Mila já começa dando um banho de modernidade e estratégia no Mercosul: seus membros têm liberdade de negociar individualmente com quem quiserem.

Cheguei a participar de algumas negociações muito preliminares sobre a abertura do mercado internacional de serviços. São negociações muito complexas, em que o mercado brasileiro é extremamente cobiçado. Não vai ser com isolamento e apegado a um Mercosul já emborcado que nosso país vai conseguir defender seus interesses. Enquanto damos uma de ceguetas,  a turma -- incluindo vizinhos fronteiriços nossos e "parceiros" do Mercosul-- vai se mexendo e pode começar a comer o mingau pelas beiradas. Se bobearmos, ficaremos a ver o fundo do prato, limpinho, raspado com o miolo de pão do oportunismo correto, pragmático.]












domingo, 11 de agosto de 2013

Ditadura militar criou rede para espionar vizinhos

[Não há anjinhos nessa história de espionagem. Vejam a reportagem de ontem do jornal Estadão.]

Se hoje reclama da espionagem dos EUA, durante a ditadura o governo brasileiro criou uma rede oficial de recolhimento de dados sigilosos na tentativa de monitorar os segredos militares e estratégicos dos países vizinhos da América Latina. Arquivos secretos e inéditos do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), aos quais o Estado teve acesso e acabam de ser desclassificados pelo Arquivo Nacional, em Brasília, mostram que, numa reunião do órgão, em agosto de 1978, foi criado o "Plano de Informações Estratégicas Militares", que descreve o esquema de espionagem organizado pelo Brasil.

No Anexo A do arquivo é detalhado o "Plano de Busca Número 1", que, segundo o documento, "orienta, sistematiza, define responsabilidades e fixa prazos para as atividades de informações externas, relacionadas com o Plano de Informações Estratégicas Militares (Piem)". A tarefa era clara: fornecer ao governo brasileiro informações estratégicas e secretas dos países da América Latina, deixando apenas EUA e Canadá de fora do plano. O documento mostra que essa missão caberia não apenas a adidos militares brasileiros no exterior, mas também ao Itamaraty.

O item A do "Plano de Busca" determinava: "os adidos militares atenderão às necessidades de informações da Força Singular ou Forças Singulares que representam os países onde estão credenciados". O item B é mais direto ainda em relação à espionagem militar. "O Ministério das Relações Exteriores atenderá às necessidades de informações estratégicas militares dos países da América Latina onde as Forças Armadas não estejam representadas por adidos militares".

Uma detalhada planilha, chamada de "Apêndice Número 1 ao Plano de Busca Número 1" explica o que cada órgão de inteligência deveria investigar nos países vizinhos. Cinco órgãos de busca participavam dessa coleta de informações estratégicas. Quatro deles eram vinculados às Forças Armadas e o quinto era o Itamaraty, a quem cabia a tarefa mais ampla na captação de dados.

Informações. São informações de todos os tipos que estão preestabelecidas no documento e não deixam dúvidas de que o objetivo era descobrir segredos militares dos vizinhos. Entre as tarefas estão a coleta de informações sobre a estrutura geral dos ministérios militares; sua organização e funcionamento; composição de cada Força; comandos; efetivos e equipamentos; distribuição e ordem de batalha; serviço militar; forças terrestres, navais, aéreas e combinadas; zonas defendidas; bases e obras permanentes no interior e no litoral; estrutura de defesa antiaérea, instalações subterrâneas; organização logística de forças terrestre, naval e aérea; contingente demográfico em idade militar, criação de animais de guerra, população de equinos, material bélico e até atividades de guerrilheiros, entre muitos outros itens. Todas essas planilhas receberam a classificação de secretas pelo EMFA.

A periodicidade do envio dessas informações também estava definida no plano. A maioria deveria ser enviada anualmente, seguindo uma data fixada pelos militares. O levantamento sobre a organização das Forças Armadas dos vizinhos, por exemplo, deveria ser enviado todos os anos em abril, assim como os dados sobre instalações de defesa. Informações sobre logística militar tinham como prazo de entrega o mês de julho, mesmo prazo estipulado para envio de informações sobre movimentos guerrilheiros nos países observados.

Informações consideradas mais relevantes, como a de mobilização militar, deveriam ser repassadas para o governo brasileiro assim que fossem obtidas. Já se sabia que os diplomatas brasileiros, por instrução do governo militar, monitoravam as atividades de integrantes de grupos de esquerda no exterior durante a ditadura.

Monitoramento. Uma série de reportagens, publicada em 2007 pelo Correio Braziliense, mostrou que os adversários do regime militar eram acompanhados pela ação do Centro de Informações do Exterior (Ciex), que fazia parte da estrutura do Itamaraty. Por meio desse monitoramento, inúmeras prisões foram feitas.

Agora, os novos papéis do EMFA mostram que os militares brasileiros também se organizaram para usar a estrutura de trabalho dos adidos e dos diplomatas para recolher dados confidenciais que poderiam pesar a favor do Brasil no caso de um conflito com algum país vizinho.



terça-feira, 5 de março de 2013

Regime militar ajudou Pinochet com US$ 115 milhões

[Aos poucos vão aparecendo outros podres da ditadura militar tupiniquim. A ajuda de pai p'ra filho dada a Pinochet por seus companheiros de armas e de arrocho brasileiros certamente era a parte financeira da malfadada Operação Condor, de triste memória.]  

Documentos secretos do gabinete dos ex-ministros das Relações Exteriores revelam que a ditadura brasileira (1964-1985) deu uma ajuda financeira de US$ 115 milhões à ditadura chilena do general Augusto Pinochet, que assumiu o poder após golpe de Estado no Chile em 1973. O dinheiro foi enviado em três parcelas para aquisição de equipamentos militares.

Relatório considerado "secreto" e "urgente", em 26 de outubro de 1976, afirma que o Brasil prestava "importante ajuda", inclusive financeira, ao governo Pinochet. O empréstimo foi feito a juros camaradas, que podiam ser pagos em até dez anos, em prestações semestrais. Em valores atualizados, o valor corresponderia a R$ 1,3 bilhão.  Tratando os créditos como "empréstimos a termos especialmente favorecidos", os papéis enviados do Itamaraty ao Conselho de Segurança Nacional afirmam que o dinheiro era "para o reequipamento" do Exército do Chile.

Uma exposição de 9 de novembro de 1978 endereçada ao ex-presidente Ernesto Geisel pelo general Gustavo Moraes Rego Reis, secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional, diz como foram divididos os pagamentos.  O general afirma que a autorização inicial datou de 4 de novembro de 1974, um ano e dois meses após o golpe de Pinochet. O então presidente concedeu US$ 40 milhões "em condições excepcionais para os padrões brasileiros de financiamento oficial". Posteriormente, um documento de 30 de setembro de 1975 informa que o crédito foi ampliado em mais US$ 25 milhões --"nas mesmas condições da operação especial contratada anteriormente".

Segundo os papéis, "tais atendimentos" que visavam "garantia da segurança interna" do Chile mostraram-se "insuficientes". O documento diz que o embaixador do Chile pediu que o valor fosse ampliado em mais US$ 50 milhões" para "compra de material de emprego militar". 

Obtidos pela Folha graças à Lei de Acesso à Informação, os documentos revelam que o Brasil vendeu um sistema de telecomunicações para o Chile. Um documento de 1978 diz que foram 910 equipamentos de rádio no valor de US$ 3,3 milhões.


 Ação entre amigos: ditadura brasileira ajuda ditadura chilena (Geisel e Pinochet: qual terá sido a piada?) - clique na imagem para ampliá-la - (Ilustração: Editoria de Arte/Folhapress).


[Já que estamos tratando de democracia, e estamos em vias de ter a eleição de um novo papa, não custa nada lembrar dois momentos emblemáticos das relações da Santa Sé com certos tipos de governo:

Adolf Hitler saúda o Cardial Césare Orsenigo. (Fonte: USHMM - United States Holocaust Memorial Museum).



 João Paulo II e Pinochet na sacada do Palácio La Moneda, em Santiago, em abril de 1987 - (Foto: El Mercurio).]

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Mudanças no mapa latino ameaçam Mercosul

[O artigo abaixo me foi lembrado por um querido amigo, a quem agradeço.]

Surgiu uma novidade no mapa político e econômico da América Latina: México, Colômbia, Peru e Chile uniram-se com o objetivo de dar plena liberdade às suas empresas e aos seus 215 milhões de habitantes para transitar, estudar, trabalhar, movimentar capitais e fazer negócios sem precisar de licença prévia dos governos locais. É o que prevê a Aliança do Pacífico, o novo bloco regional cuja criação foi anunciada na semana passada pelos presidentes Felipe Calderón (México), Juan Manuel dos Santos (Colômbia), Ollanta Humala (Peru) e Sebastián Piñera (Chile). Está prevista a adesão do Panamá e da Costa Rica no segundo semestre.

Foi um movimento surpreendente, rápido e eficaz. Em dezembro de 2010, o então presidente peruano Alan García lançou a ideia, recebida com entusiasmo por México, Colômbia e Chile. Um ano depois, eles se reuniram e fixaram o prazo de seis meses para um entendimento definitivo. Em março, chegaram a um consenso em inédita reunião de cúpula, por teleconferência. Na quarta-feira (6), em Antofagasta, no deserto do Atacama, assinaram o acordo básico.

Trata-se de um compromisso ambicioso, no qual se pretende a livre circulação de pessoas, mão de obra, capitais, bens, serviços e mercadorias, integração de redes de ensino (especialmente universidades), instituições financeiras (Bolsas de Valores) e criação de instâncias institucionais comuns, supranacionais.

As regras desse novo bloco são simples: para entrar é preciso ter tratado de livre comércio com todos os sócios, ser uma democracia, possuir estabilidade jurídica e constitucional. Ao Panamá e à Costa Rica, provisoriamente “sócios-observadores”, faltam acordos comerciais. Definiu-se que em dezembro entra em vigor o regime de livre circulação de mercadorias, ou seja, eliminam-se barreiras aduaneiras e regras de origem sobre o que é produzido pelos sócios. Não é pouca coisa: México, Colômbia, Peru e Chile compõem um mercado de 215 milhões de consumidores, somam 35% do PIB da América Latina e são responsáveis por 55% das exportações desse pedaço do planeta.

Há aspectos geopolíticos relevantes. México, Colômbia, Panamá e Costa Rica são países bi-oceânicos, com saídas para o Pacífico e o Atlântico. Além disso, os integrantes da Aliança têm economias abertas, baseadas em acordos bilaterais de comércio com China, EUA, União Europeia, Japão, Coreia, Taiwan, Cingapura e os principais centros econômicos do Oriente Médio.  Na prática, significa que está nascendo um bloco político e econômico capaz de rivalizar com o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), fissurado pelas disputas entre sócios em torno de barreiras crescentes sobre um comércio regional de US$ 100 bilhões anuais.

Aliança define distanciamento do Chile, Peru e Colômbia do Mercosul

A Aliança marca um definitivo distanciamento do Chile, Peru e Colômbia do Mercosul, anulando todas as gestões prévias para suas participações no bloco do Atlântico Sul. Impõe o contraste de uma alternativa mais eficaz ao Mercosul, numa etapa em que Uruguai e Paraguai debatem a conveniência de continuar atados a um projeto de integração com escasso repertório de benefícios para suas economias. E deixa ainda mais isolados a Venezuela, o Equador e a Bolívia, onde floresce a desagregação política, social e econômica.

O tempo vai mostrar se os governos de México, Colômbia, Peru e Chile, com Panamá e Costa Rica, serão realmente capazes de converter a Aliança em “uma plataforma de articulação política, integração econômica e comercial e de projeção para o mundo, com ênfase na região Ásia-Pacífico”, como prevê a ata de constituição do novo bloco.

É certo, porém, que a iniciativa tem o frescor da inovação em um continente onde, depois de três décadas, o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai continuam patinando na retórica palanqueira sobre a integração como meio de ampliar os direitos sociais, políticos e econômicos de mais de 200 milhões de pessoas.

[Surge, assim, o primeiro grande desafio regional ao Mercosul, um organismo que apesar de seus 21 anos de idade continua se comportando como um pré-adolescente, com brigas, traições e molecagens frequentes entre seus componentes. A única unidade demonstrada por esse bloco até agora foi na escolha do Judas, saco de pancada e pato do grupo: o Brasil tem sido a escolha permanente dos outros três "parceiros" (Argentina, Paraguai e Uruguai), numa escolha que tem tudo para ser vitalícia. Somos a "mulher de malandro" do grupo, levando bordoada a torto e a direito, com uma resignação de traído manso.

O Mercosul tem como fundadores e membros permanentes a Argentina, o Brasil, o Paraguai e o Uruguai. São membros associados: Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru. Argentina, Brasil e Uruguai recentemente comportaram-se como coveiros e marginais do Mercosul, promovendo a suspensão do Paraguai do bloco e, com a rapidez de larápios de alto nível, promoveram a integração da Venezuela ao grupo. Coisa de mafiosos.

No quadro de membros permanentes ou associados do Mercosul, temos o seguinte quadro quanto a tratados de livre comércio ou acordos-quadros entre o bloco e terceiros, ou entre seus membros e terceiros:


Mercosul - com Bolívia, Chile, México, Peru e Israel 
Argentina - com Brasil, Chile, México, Paraguai e Uruguai
Bolívia - com Mercosul, México, Cuba e Venezuela
Brasil - com ALADI (Associação Latino-Americana de Integração, que inclui Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela), Argentina, Guiana, México, Paraguai e Uruguai 
Chile - com Austrália, China, Colômbia, EFTA (Associação Europeia de Livre Comércio, que inclui a Islândia, o Lichtenstein, a Noruega e a Suiça), Coreia, EUA, Japão, Malásia, Mercosul, México, Nafta, P4 (Parceria Econômica Estratégica Transpacífica - Nova Zelândia, Cingapura e Brunei Darussalam), Panamá, Peru, Turquia, União Europeia
Colômbia - com EFTA, EUA, México, Triângulo do Norte (El Salvador, Guatemala e Honduras)
Peru - com China, Cingapura, Coreia, EFTA, EUA, Tailândia
Venezuela - com ALADI, AEC (Associação de Estados das Caraíbas, que inclui Colômbia, Costa Rica, Cuba, El Salvador, Guatemala, México, Panamá e Venezuela), ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América, que inclui Bolívia, Cuba, Dominica, Antígua e Barbuda, Equador, Nicarágua, São Vicente e Granadinas, Venezuela),  Unasul (União de Nações Sul-Americanas, que integra o Mercosul e a Comunidade Andina, esta última compreendendo Bolívia, Colômbia, Equador e Peru), SELA (Sistema Econômico Latino-americano e do Caribe, que inclui Argentina, Bahamas, Barbados, Belize, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Granada, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai e Venezuela).


Da relação acima, vê-se que o Brasil e o Mercosul olham praticamente para o próprio umbigo em matéria de tratados comerciais, a Venezuela tem inúmeras parcerias, nas quais predomina a quantidade e não a qualidade dos parceiros, e o bom exemplo do Chile, uma economia pouco diversificada mas com relações comerciais formais com parceiros importantes. O Brasil, numa estratégia discutível de fidelidade canina ao Mercosul, tem renunciado à assinatura de tratados comerciais diretos com outros países, preferindo que isso se faça via Mercosul. O novo bloco regional entre Chile, Colômbia, Peru e México é um desafio não só ao Mercosul mas também à própria liderança regional do Brasil.]

Da esquerda para a direita os presidentes da Colômbia (Juam Mamanuel Santos), do Chile (Sebastián Piñera), do México (Felipe Calderón) e do Peru (Ollanta Humala), signatários de uma nova aliança comercial regional - (Foto: O Globo).

Blocos econômicos no mundo em 2008 - clique na imagem para ampliá-la -- (Fonte: Wikipedia).










terça-feira, 3 de julho de 2012

Mercosul, cada vez mais um saco de gatos

O Mercosul se confirma cada vez mais como uma bagunça, um saco de gatos, um tiroteio de um bando de cegos. O primeiro e principal contribuinte para esse fiasco é o Brasil, que não sabe liderar, tem medo de liderar, não tem política externa de Estado e sim de governo e de partido, é frouxo com seus vizinhos de uma maneira vergonhosa e, em assuntos externos, atua como um amador e aprendiz, substituindo a relação entre estadistas por um compadrio de baixo nível.

A operação casada para a entrada da Venezuela no Mercosul, usando-se o Paraguai como moeda de troca, é a mais recente demonstração inequívoca do estágio paleolítico daquilo que se afigura cada vez mais como um grupelho de amadores farristas do que uma associação entre países. A zorra é tamanha, que agora o Uruguai ameaça voltar atrás da decisão de admitir a Venezuela no bloco e acusa o Brasil (Dª Dilma) de tê-lo pressionado. O Brasil e a Argentina, que só se juntam em assuntos podres, responderam imediatamente que a proposta para entrada dos venezuelanos no Mercosul partiu do próprio Uruguai, via seu presidente José Mujica.

Até nesse detalhe de responder à acusação uruguaia o Brasil não se deu ao devido respeito -- pela Argentina se pronunciou, como de praxe e correto, sua chancelaria; pelo Brasil, falou nosso chanceler n° 2, Marco Aurélio Garcia, alcunhado de "assessor presidencial para assuntos internacionais", uma das inúmeras excrescências criadas por Lula, o Nosso Pinóquio Acrobata (NPA), encampadas pela nossa ex-guerrilheira. Nesse ínterim, nosso chanceler n° 1, ironicamente chamado Patriota, deve ter ficado ocupado com a lubrificação da dobradiça de sua coluna dorsal, hoje um prerrequisito indispensável para quem quiser ser ministro de Relações Exteriores do governo petista. Ritual à parte, Brasil e Argentina têm mais é que enfiar suas cabeças num buraco, como avestruzes que são em política externa, para se esconder do papelão que fizeram nesse imbróglio.

Quem deve estar se deliciando com essa ópera bufa, algo em que é especialista, é o bolivariano Hugo Chávez, chamego inconteste do NPA. A Venezuela só acrescenta quantidade ao Mercosul, em termos de qualidade só serve para reduzir ainda mais o baixíssimo nível do grupo.

Enquanto isso, no Uruguai a imprensa cai de borduna no governo por causa desse charivari da admissão da Venezuela, em que o chanceler uruguaio Luis Almagro aparentemente desacredita seu presidente Mujica e diz que foi contra o ingresso venezuelano no Mercosul.

Personalidade por personalidade, o melhor que o Brasil poderia fazer para manter seu "padrão" de política externa, era anistiar (coisa que sabemos fazer como poucos) Carlinhos Cachoeira e designá-lo como Alto-Representante Geral do Mercosul em substituição ao embaixador Samuel Pinheiro Guimarães (mais conhecido como Samuca no Itamaraty), que em boa hora deixou esse cargo e, com isso, melhorou bastante a assepsia dessa área do Mercosul. No mesmo ato de nomeação de Cachoeira seria atribuída ao tal Marco Aurélio Garcia a missão pioneira de plantar batatas e criar galinhas no alto do Pico da Bandeira.

domingo, 8 de abril de 2012

Justiça do Chile dá sinal verde para complexo hidroelétrico na Patagônia chilena

A Corte Suprema do Chile rejeitou na quarta-feira todos os recursos de parlamentares e associações ambientalistas, que pretendiam paralizar a construção de cinco usinas hidroelétricas no coração da Patagônia chilena. A votação foi de três votos a favor e dois contra [a construção das usinas].

Apesar de não existirem mais instâncias legais para recursos no Chile, os opositores ao projeto da represa HidroAysén, do qual participa a empresa espanhola Endesa com 51% do capital, em parceria com a chilena Colbún (49%), se mostram otimistas. "Na maioria das vezes as decisões da Suprema Corte se dão por unanimidade, e isto não ocorreu. No entanto, é justo reconhecer que não ganhamos. Mas vamos seguir lutando. Em 2007 ninguém conhecia esse assunto da represa. Agora, as pesquisas de opinião mostram que 70% da população são contra ela", frisa Hernán Sandoval, presidente da Corporação Chile Ambiente, uma das mais de 60 ONGs que se opuseram ao projeto.

O senador da província de Aysén, Antonio Horvath, do partido Renovação Nacional, que faz parte da coalizão do governo, se opõe ao projeto e acredita que ainda há muitas lutas pela frente. "Têm ocorrido várias irregularidades. Um dos juízes da Suprema Corte que se pronunciou a favor do complexo hidroelétrico possui ações da Endesa. É preciso revisar essa situação". O juiz citado, Pedro Pierry, afirma que suas ações da Endesa (109.840) fazem parte de seu fundo de pensão há 30 anos e, por isso, não vê que isso o inabilite a decidir como magistrado. [...] "Eu tampouco gosto de represas e de torres de alta tensão, mas o juiz não está encarregado disso, o juiz tem que ver a lei. As políticas públicas são ditadas pelo Governo, e as leis as faz o Congresso. Os juízes aplicam a lei, e o que fizemos foi aplicar a lei de acordo com os fatos", disse ele.

O complexo de HidroAysén compreende 5 usinas, com potência total de 2.750 MW. Os opositores ao projeto tentarão impedir nos tribunais a construção de umas 3.800 torres de alta tensão que ligarão as 5 usinas a Santiago de Chile. "Essas torres terão de 60 a 70 m de altura, e ao redor de cada uma se cortarão uns 70 m de vegetação ao longo de 2.200 km. Serão afetados uns 15.000 hectares ... Serão destruídos bosques milenares, em uma região em que a altura média das árvores é de 40 m. E haverá um impacto paisagístico impressionante, porque as torres sobressairão sobre o bosque", assinala Hernán Sandoval.

O vice-presidente da HidroAysén assegura, no entanto, que se instalará corrente contínua "apenas ao longo de 800 km, dos quais 162 km serão submarinos". - "Se cortarmos vegetação nativa, temos que reflorestar a mesma quantidade em uma zona equivalente ou superior em áreas vizinhas. Aprovar a construção das usinas nos tomou quase três anos. Esperamos que as linhas nos custem bastante menos tempo", disse ele. O senador Horvath, no entanto, acredita que ainda restam muitas opções aos opositores do projeto. "Isso apenas começou", conclui.

Confluência dos rios Baker e Chacabuco, onde a HidroAysén pretende construir uma de suas usinas - (Foto: Jorge Uzón/AP).

domingo, 11 de março de 2012

Os mistérios da Ilha de Páscoa (II) -- Os moais

[Ver postagem anterior sobre a Ilha de Páscoa].

Como dito na postagem anterior, os moais, as gigantescas estátuas de pedra que são a marca registrada dessa ilha, são ainda um mistério sob vários aspectos. Aproximadamente 50% das 887 estátuas documentadas até hoje permanecem ainda na vizinhança imediata de Rano Raraku, local da pedreira onde foram produzidas.  As demais estátuas, em sua maioria, foram transportadas para estruturas ou plataformas cerimoniais, o(a)s ahus, e ali colocadas eretas, em um feito que é uma das maiores façanhas megalíticas da pré-história do Pacífico. Rano Raraku é uma cratera vulcânica na planície a leste da ilha, fonte do material basáltico usado em 95% das estátuas da ilha.

O Projeto Estátuas da Ilha de Páscoa (EISP, em inglês - Easter Island Statue Project) , iniciado nos anos 1980s, é o mais longo inventário cooperativo e evolutivo de artefatos jamais realizado no contexto da pesquisa arqueológica da Ilha de Páscoa. Seus objetivos básicos e primeiros são científicos. Seu objetivo básico é tornar mais claras as complexidades da pré-história [da ilha], e integrar os moais na pré-história dos rapa nui. O projeto visa localizar, descrever, e entender o contexto e o uso originais de todas as estátuas, incluindo as que estão em museus, na expectativa de revelar seu significado.

A visão clássica dos moais é sempre a de uma figura incompleta, com apenas a cabeça ou, no máximo, o tronco, e isso sempre deu a impressão de que essa era a intenção de quem as fez.





Exemplos de moais - (Fotos: Google).

O que parece que ninguém pensava, ou esperava, é que tais estátuas tivessem na realidade um corpo completo, o que acabou sendo revelado pelo projeto EISP. No entanto, no litoral da ilha há moais submersos de corpo inteiro que podem ser observados em mergulhos que são uma das atrações turísticas da Ilha de Páscoa. Seria portanto lógico pensar que as estátuas em terra firme tivessem a mesma características.

Uma das teorias sobre o desaparecimento dos habitantes originais de Rapa Nui foi a superpopulação que levou a conflitos internos e falta de alimentos. Agora surge outra hipótese: um enorme deslizamento pode ter varrido a ilha e sua civilização. Isso aniquilou a população e fez com que as estatuas ficassem com boa parte do seu corpo sob a terra.


Agradeço a Agenor Magalhães e Paulo Bouhid o envio das fotos que mostro a seguir.







sábado, 10 de março de 2012

Os mistérios da Ilha de Páscoa (I)

Agradeço a Agenor Magalhães por ter me despertado a atenção para o tema desta postagem.

Situada a 3.700 km da costa do Chile, a Ilha de Páscoa (4.888 hab., estimativa de 2010) constitui a província chilena de Isla de Pascua -- é um dos lugares habitados mais isolados do mundo. Em idioma nativo, a ilha é conhecida como Rapa Nui ("ilha grande") ou Te pito o te henua ("umbigo do mundo") -- os nativos, os rapanui, constituem cerca de 60% da população. A grande atração da ilha são as suas mais de 800 gigantescas estátuas de pedra, os moais, que teriam sido construídas entre 1200dC e 1500 dC pelo povo rapanui.


Os moais, cujas cabeças ostentam "pukaos" - cilindros de pedra vermelha pesando até doze toneladas, possivelmente representando um cocar de penas vermelhas - representam, de modo estilizado, um torso humano masculino de orelhas longas, sem pernas [visíveis -- ver na parte II desta postagem]. Em sua maioria, medem entre 4,5 a 6 metros de comprimento e pesam entre 1 a 27 toneladas. A maior delas, entretanto, tem mais de 20 metros de altura. Sua construção, como foram transportados e o que efetivamente representam permanecem um mistério ainda indecifrado. Segundo a teoria mais aceita sobre a ilha, os moais teriam sido erguidos pelos primeiros habitantes, os "rapanui", como uma homenagem aos líderes mortos, o que explicaria o fato de estarem todos de costas para o mar, ou seja, de frente para o interior da ilha onde ficavam as aldeias.

Todas as estátuas teriam sido derrubadas [por quem?] de  seus ahus (plataformas) no século 17 -- a partir de 1956 algumas delas foram restauradas.


Outro conjunto de moais.

Os moais não são o único mistério da Ilha de Páscoa -- a escrita dos rapanui, o rongo-rongo, nunca pôde ser decifrada.  O rongo-rongo é uma escrita pictográfica, registrada em entalhalhes feitos em tabuletas de madeira e em outros artefatos da ilha. O sistema não é conhecido nas ilhas vizinhas. A explicação corrente é que o rongo-rongo foi criado pelos nativos como imitação do sistema que espanhóis ali introduziram no século XVIII, em 1770. Entretanto, apesar desta alegada origem recente, nenhum arqueólogo ou linguísta conseguiu decifrar os documentos rapanui.

Rongo-rongo, o sistema de escrita dos rapanui, permanece indecifrado e pode guardar a explicação para o mistério dos moais. 


As semelhanças entre os sinais do rongo-rongo (sempre a segunda coluna à direita na imagem acima -- clique na imagem para ampliá-la) e a antiga escrita hindu (sempre a primeira coluna à esquerda na imagem acima) foram observadas por Wilhelm de Hevesy, em 1932.


Quando os primeiros europeus chegaram à ilha da Páscoa, o lugar era um ecossistema praticamente isolado que estava sofrendo os efeitos do desgaste dos recursos naturais, desflorestamento e superpopulação. Nos anos seguintes esta população foi devastada por doenças européias e pelo comércio de escravos. Em 1877, havia pouco mais de 100 habitantes na ilha. [A estimativa para 2010 era de 4.888 habitantes]. Neste processo, o rongo-rongo quase desapareceu. Os colonizadores decidiram que a escrita fazia parte do paganismo popular e devia ser banida junto com outras tradições "heréticas". Os missionários obrigaram os nativos a destruir a tábuas de rapanui.

Em 1864, o padre Joseph Eyraud tornou-se o primeiro não-ilhéu a registrar o Rongorongo. Ele escreveu antes do último declínio da sociedade da ilha: "Em todas as casas pode-se encontrar tabuletas de madeira e outros objetos com a escrita hieroglífica." Eyraud não pôde encontrar ninguém que pudesse traduzir os textos; o povo tinha medo de tratar do assunto por causa das proibições dos missionários. Em 1886, William Thompson, do navio americano USS Mohican, em viagem na ilha, coletando objetos para o National Museum, de Washington, se interessou pela escrita dos nativos. Ele obteve duas raras tabuletas e conseguiu que um ilhéu traduzisse o texto. A transcrição obtida é um dos poucos documentos que podem servir de parâmetro para decifrar o rongo-rongo.

 Os estudos continuaram nas décadas seguintes. Em 1932, Wilhelm de Hevesy tentou encontrar uma conexão entre o rongo-rongo e a escrita hindu. Ele havia encontrado correlação entre as duas escritas em 40 exemplos de símbolos mas suas conclusões não foram adiante. Em 1950, Thomas Barthel foi o primeiro lingüísta contemporâneo a se interessar pelo rongo-rongo. Barthel estabeleceu que o sistema era composto de 120 elementos básicos que, combinados, formavam mil e quinhentos diferentes signos que representam objetos e idéias. A tradução é extremamente difícil porque, um único símbolo pode representar uma frase inteira. Uma grande conquista de Barthel foi identificar um artefato conhecido como Mamri como um calendário lunar.

As pesquisas mais recentes têm sido conduzidas pelo linguísta Steven Fisher. Entre os muitos exemplares da escrita estudados por ele destaca-se uma peça que pertenceu a um chefe nativo da ilha. O objeto é coberto de pictografias. Estudando essas figuras, Fisher descobriu que as unidades de significação do rongo-rongo são tríades, compostas de três signos. Um dos textos logo mostrou ser um canto religioso e o estudo de outros levou o linguísta à concluir que todos os textos da Ilha de Páscoa são relacionados a mitos da criação.

A escrita rongo-rongo continua instigando os pesquisadores. Hoje, apenas 25 tabuletas e objetos sobreviveram à devastação do tempo. Antropólogos e arqueólogos têm esperança de conseguir traduzir os pictogramas que podem revelar o mistério dos Moais, as estátuas colossais da ilha. Há quem acredite que os Moais foram erigidos pelos últimos remanescentes do continente perdido da Lemúria que, de acordo com a tradição ocultista, abrigou a terceira humanidade ou Terceira Raça Humana, quando os homens eram "gigantes" semelhantes às estátuas.

(continua)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Homens chilenos enfrentam tabu e denunciam agressões feitas por mulheres


Os homens chilenos passaram a ter coragem para denunciar à polícia a agressão que sofrem das suas mulheres em casa, segundo levantamento nacional realizado pelos Carabineros (a polícia chilena), ligada ao Ministério do Interior e Segurança Pública.  Essas denúncias aumentaram 14,9% no ano passado em comparação com 2010, disse à BBC Brasil a assessoria da Direção de Proteção Policial da Família, que integra a estrutura dos Carabineros. Em 2010, houve 14.451 denúncias de agressões perpetradas por mulheres. Já em 2011, foram registradas 16.607 queixas à polícia.

Segundo dados da polícia chilena, o total de denúncias dos homens agredidos em casa vem subindo pelo menos desde 2006. Naquele ano, foram realizadas 2,1 mil denúncias. Em 2009, esse total foi de quase 7 mil. "Existe uma mudança de comportamento na sociedade chilena, que agora inclui a decisão dos homens de procurarem a polícia quando agredidos pelas esposas", disseram as autoridades. 
No ano passado, ainda segundo os dados oficiais, quase 5 mil mulheres foram detidas por agressões físicas contra seus parceiros.

País com cerca de 17 milhões de habitantes, o Chile foi apontado durante muitos anos como o mais fechado às mudanças sociais e culturais da América do Sul, tendo sido, por exemplo, um dos últimos do mundo a permitir o divórcio. Mas para o psicólogo Gonzalo Ulloa, vice-delegado do Instituto de Criminologia da Polícia Investigativa do Chile (PDI), os resultados do levantamento confirmam as transformações de comportamento do homem e da sociedade chilenos.

Ulloa disse que o país está dando sinais de que está passando de uma sociedade machista para uma sociedade com "machismo light". Segundo ele, os homens estão "superando o tabu, a preocupação com as gozações na rua e criando coragem" para denunciar suas mulheres no caso de uma agressão por parte delas. "Numa sociedade patriarcal como a chilena, mas que está vivendo profundas mudanças, o homem decidiu denunciar porque sua tolerância chegou ao limite. Houve um esgotamento por parte dele após violência crônica por parte da companheira. Ele já não está mais preocupado com a chacota social", afirmou.

Para o especialista, é a nova atitude do homem que basicamente explica o aumento nas estatísticas - e não significa necessariamente que mais homens estejam apanhando em casa. Ou seja, na sua avaliação, eles já vinham sendo agredidos, mas agora decidiram registrar na delegacia.

Segundo o psicólogo, hoje as mulheres saem para trabalhar e às vezes ganham mais do que os maridos. Com a independência financeira, observou Ulloa, elas também ficaram mais rigorosas com eles. "Simultaneamente, o homem está se vendo mais como humano e entende que tem o mesmo direito que a mulher, o de reclamar (e de fazer a queixa policial). E assim ele está perdendo a vergonha de denunciar (os maus tratos)", afirmou o psicólogo.

Ulloa ressalvou, porém, que a mudança de comportamento dos homens chilenos é detectada principalmente nas classes mais informadas e economicamente mais elevadas. "Nas camadas de menor nível econômico-social o machismo clássico continua o mesmo", disse. Ao mesmo tempo, nesses setores menos favorecidos, quando elas os agridem é com "violência física".

Já nos classes médias e mais abastadas, elas empregam a violência psicológica e a desvalorização do parceiro, e "em menor medida", também "a violência sexual".

De acordo com o levantamento de Carabineros, apesar da mudança de comportamento dos homens, as mulheres ainda são as principais vítimas e são responsáveis pela maior parte das queixas policiais, denunciando agressões cometidas por homens. Das mais de 120 mil denúncias policiais realizadas no ano passado à Direção de Proteção Policial da Família, 96 mil foram feitas por mulheres (79,9%), contra 16,6 mil (13,7%) das feitas por homens que se dizem agredidos em casa. Outras, cerca de 5% do total, dizem respeito a denúncias relacionadas a maus-tratos de idosos e crianças.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Chile muda a expressão ditadura por "regime militar" nos livros didáticos e provoca duras críticas da oposição

A decisão do governo de Sebastian Piñera de mudar nos livros didáticos do ensino básico a denominação do governo de Augusto Pinochet de "ditadura" para "regime militar" deflagrou uma forte polêmica com a oposição, que denuncia um desejo de maquiar a realidade -- dentro inclusive da coalizão governante, de direita, há quem discorde da modificação.

O episódio seria quase que apenas uma anedota, não fosse pelo fato de não ser o único que ocorreu nos quase dois anos do governo de Piñera, que pôde chegar ao [palácio de] La Moneda, depois de 20 anos e quatro administrações de centro-esquerda, justamente por ter sido um opositor da ditadura.

A troca de "ditadura" por "regime militar" foi proposta pelo ex-ministro da Educação Felipe Bulnes e aprovada em 9 de dezembro pelo Conselho Nacional de Educação, do qual participam diferentes setores. O novo conceito, mais genérico mas, por sua vez, menos preciso e descritivo do que significou para os chilenos o governo de Pinochet (1973-1990), será adotado nos textos escolares de Linguagem, História, Geografia e Ciências Sociais dos alunos do primeiro ao sexto grau.

O novo ministro da Educação, Harald Beyer, um acadêmico conservador e rigoroso que chegou ao cargo às vésperas do final do ano, em substituição a Bulnes, teve que estrear defendendo a mudança de conceito, acidamente criticada através das redes sociais. "Eu reconheço que foi um governo ditatorial, portanto não tenho problemas", afirmou Beyer, mas se usa o termo mais genérico que é "regime militar". A coordenadora de currículos do Ministério da Educação, Loreto Fontaine, explicou em declarações ao portal eletrônico El Mostrador que o conceito de regime militar admite que "pode haver pontos de vista e experiências diferentes" na descrição do período.

A administração de Piñera tem estado repleta de pequenos incidentes desse tipo, e a ele próprio não lhe agradam essas manifestações ou deslizes, como se queira denominá-las. Em novembro, uma funcionária do La Moneda enviou em nome do presidente suas "felicitações e os melhores votos de sucesso" ao ato de homenagem ao ex-torturador Miguel Krasnoff, condenado a 144 anos de prisão em 23 acusações de violação de direitos humanos, e Piñera a demitiu do cargo.

Na oposição, o presidente do Partido Socialista, Osvaldo Andrade reagiu ao conceito de regime militar com um exemplo de zoologia: "Tem orelhas de gato, corpo de gato, mia como gato, e alguns querem que se chame cachorro. Isso é ditadura, ponham-lhe o nome que queiram".

Para a diretora do Instituto de Direitos Humanos, Lorena Fríes, há setores no governo que ficam incomodados com o conceito de ditadura, "mas é a verdade e se usa em todas as partes do mundo em que houve regimes totalitários que violaram de maneira grave e sistemática os direitos humanos". A presidente do  Grupo de Familiares de Detidos Desaparecidos, Lorena Pizarro, considerou a modificação como uma ofensa e uma falta de respeito grave que "altera a verdade da história". A polêmica chegou inclusive à direita, onde os setores mais liberais -- e próximos ao próprio Piñera -- reconhecem que Pinochet foi ditador.

Ainda que as editoras de livros didáticos tenham liberdade para sua elaboração, se respeitam os conteúdos curriculares, é difícil que ignorem a decisão do Ministério. O Conselho de Educação pode reverter ou revisar a medida, depois da polêmica que ela desencadeou. Um de seus membros, Alejandro Goic, reconheceu que a modificação do conceito lhes passou despercebida e que o Ministério da Educação não os informou previamente. Goic espera que a decisão possa ser revertida, porque "as ditaduras têm que ser chamadas de ditaduras e as democracias, de democracias", segundo declarou à Rádio Cooperativa.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Por economia de energia, Chile pede abandono das gravatas no verão

As autoridades do Chile estão incentivando os homens a deixar de usar gravatas durante o verão para economizar energia.  O ministro de Energia chileno, Rodrigo Alvarez, disse que a medida deve ajudar a reduzir o uso de ar-condicionado, gerando economia de eletricidade.

Segundo o ministro, deixar a temperatura de um escritório aumentar entre 1°C e 3°C pode reduzir o gasto de energia em cerca de 3%. Em um comunicado, Alvarez disse que, se os setores público e privado implementarem esta medida entre janeiro e março, a economia pode chegar a US$ 10 milhões. O ministro afirmou que a ideia de encorajar os trabalhadores a abandonar as gravatas já foi adotada com sucesso em países com o Japão e a Espanha.  "Esta pequena medida vai ajudar a eficiência energética do país. Reduzir o uso do ar-condicionado vai levar à economia de energia", disse.

Alvarez também disse que a população pode reduzir o consumo de energia em casa, por exemplo, desligando aparelhos eletrônicos que não estão sendo usados. O correspondente da BBC em Santiago Gideon Long afirma que a produção de eletricidade no Chile durante o verão é sempre limitada, já que o calor reduz o nível dos reservatórios usados na geração de energia hidrelétrica.

Em uma medida parecida com a chilena, o presidente da Coreia do Sul, Lee Myung-bak, afirmou que, neste inverno no hemisfério norte, reduzirá o termostato do aquecedor de seu gabinete e usará roupas de baixo mais quentes. Enfatizando a importância econômica de poupar energia, Lee pediu que todas as empresas e cidadãos cooperem com os esforços do país em controlar a demanda por energia.

Governo do presidente Piñera (esquerda) pede que população poupe energia -- (Foto: Reuters).

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Presidentes latino-americanos criam novo bloco regional e deixam EUA de fora

É impressionante o fascínio que os dirigentes sul-americanos têm pela criação de blocos entre eles -- adoram se juntar em patota e arranjar uma sigla que funcione bem auditivamente em espanhol e português. Depois, se juntam num convescote e celebram como se tivessem descoberto a pólvora e salvado a lavoura. A reportagem abaixo, da BBC Brasil, nos dá conta do nascimento de mais um produto dessa "criatividade" sul-americana.

Presidentes e representantes dos 33 países da América Latina se reúnem nesta sexta-feira, em Caracas, para formalizar a criação da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac).  Será a primeira vez que os países do continente se articulam em uma mesma plataforma política - com a tarefa de tentar aprofundar a integração regional - sem a presença dos Estados Unidos e do Canadá. [Como Lula, o Nosso Pinóquio Acrobata, quando presidente culpou "a turma de olhos azuis" pelo caos econômico mundial de 2008, e aí os vilões eram os EUA, está me parecendo que esse novo clube foi planejado e lançado para ostensiva e acintosamente discriminar esses vizinhos do norte -- como se isso vá convencer alguém da "independência" dos sócios desse novo clube, e vá resolver os problemas desse pessoal.]

Segundo analistas, a Celac nasce com o desafio de criar uma organização capaz de gerar consenso entre os países e cuja institucionalidade seja capaz de implementar políticas de integração autônomas em relação aos Estados Unidos. Entre as contradições a serem enfrentadas pelo bloco está a de construir políticas comuns em uma região ainda marcada por diferentes níveis de desenvolvimento econômico, pobreza, crime organizado e, em especial, antagonismos no campo político-ideológico.

O presidente venezuelano Hugo Chávez, conhecido pelas críticas ao governo de Washington, e pelo discurso anti-imperialista em encontros regionais, adotou um tom moderado ao falar sobre a nova organização regional e reconheceu que ela deverá respeitar a heterogeneidade dos países e de seus projetos, estejam eles à esquerda ou à direita do campo político. "Temos que ter muita paciência, muita sabedoria. Não podemos deixar-nos levar pelas ideologias governantes em um país ou outro", disse Chávez na última quinta-feira, minutos antes de receber a presidente Dilma Roussef no Palácio de governo. "Este processo tem que ser independente do socialismo cubano, do socialismo venezuelano, ou do sistema de governo e ideologia do governo do Brasil, da Colômbia (...) é a união política, geopolítica, e sobre esta união vamos construir um grande polo de poder do século 21".

 O primeiro debate do grupo, realizado na noite desta quinta-feira, já mostrou como deve ser difícil conseguir o consenso entre os países do novo bloco. Os países não chegaram a um acordo sobre como será o mecanismo para a tomada de decisões - por unanimidade ou por maioria qualificada. O debate deve ser retomado nesta sexta-feira. [Alguém pode esperar algo diferente disso?...]

O maior desafio para a Celac será "passar da afirmação de uma identidade e articulação política a uma institucionalidade que permita aos países tomar decisões", disse à BBC Brasil Luis Fernando Ayerbe, coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Unesp. Uma das propostas do documento constitutivo da Celac é um protocolo de defesa da democracia e direitos humanos, aos moldes da cláusula anti-golpe de Estado estabelecida pela Unasul (União de Nações Sul-Americanas).

Entre as divergências iniciais está a posição do novo bloco a respeito do futuro da Organização de Estados Americanos (OEA), cujo papel passou a ser questionado durante a crise boliviana, em 2008 e depois do golpe de Estado em Honduras, em 2009. Venezuela, Equador e Bolívia defendem que a OEA já teria cumprido seu papel histórico no hemisfério e deve ser substituída. "Não é possível que os conflitos latino-americanos tenham que ser tratados em Washington", defendeu o presidente equatoriano Rafael Correa, dias antes da Cúpula. "(Espero) que mais cedo que tarde (a Celac) possa substituir a OEA, que historicamente tem tido grandes distorções", acrescentou. Esta posição, no entanto, ainda não é um consenso entre a maioria dos países da região, que até agora preferem defender a coexistência das duas instituições.

Para o analista internacional Edgardo Lander, professor da Universidade Central da Venezuela, a Celac tende a contribuir para o enfraquecimento da OEA, mas ainda é cedo para falar de sua extinção. "A substituição da OEA pela Celac não será fruto de um decreto ou de declarações a favor ou contra, e sim pelas vias de fato", disse à BBCBrasil. Lander cita como exemplo a atuação da Unasul na resolução do conflito da Bolívia, em 2008, que ele considera 'decisiva'. "Se a Celac mostrar que pode solucionar os conflitos regionais sem a intervenção dos Estados Unidos, o papel da OEA vai perder força naturalmente".

Para o o economista americano Mark Weisbrot, co-diretor do Center for Economic and Policy Research, de Washington, a Celac é criada em um momento em que a América Latina se consolida como uma região "mais independente do que nunca". "Washington ainda é o principal problema no hemisfério, especialmente com respeito à democracia e à auto-determinação nacional", disse Weisbrot à BBC Brasil.

 O analista político venezuelano Carlos Romero, professor de estudos internacionais da Universidade Central da Venezuela, diz que a criação da Celac é um "passo positivo que marca um processo de maturidade política"da região. No entanto, ele afirma que isso não necessariamente significará a existência um bloco antagônico a Washington. "Os EUA já não exercem a mesma tutela do passado", diz.

Os especialistas concordam que o Brasil tende a assumir um papel de "liderança natural" na Celac, protagonismo que antes era dividido com o México quando se tratava do hemisfério como um todo. "O Brasil é uma potência regional, tem sido (protagonista) pró-democracia e em defesa independência regional na América Latina. Deve ajudar a desempenhar este papel dentro Celac", disse Mark Weisbrot.

O governo brasileiro vê a Celac como o "terceiro anel" do processo de integração regional, seguido do Mercosul e da Unasul. A reunião de Cúpula para a abertura da Celac havia sido marcada para 5 de julho, mas foi adiada imediatamente após o presidente venezuelano Hugo Chávez ser diagnosticado com câncer, no final de junho.

A Celac unificará as estruturas do Grupo do Rio, mecanismo de consulta internacional regional criado em 1986, e da Calc (Comunidade América Latina e Caribe) e deve trabalhar em cinco áreas: política, energia, desenvolvimento social, ambiente e economia.

Grupo enfrentará o desafio de implementar políticas independentes dos EUA - (Foto: AFP).

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Cresce no Chile oposição a concessões à Bolívia

Um forte crescimento de rejeição a que se façam concessões em resposta à demanda marítima da Bolívia aparece refletido na edição 2011 da Pesquisa Nacional Bicentenário, efetuada pela Universidade Católica (UC) [do Chile] e pela empresa Adimark.  [Em consequência de sua derrota para o Chile na chamada Guerra do Pacífico (que envolveu também o Peru) no século 19 (1879-1883), a Bolívia perdeu para os chilenos a província de Antofagasta, ficando sem saída soberana para o mar].

Se há cinco anos, 33% preferiam "não dar nada" à Bolívia e 47% defendiam que se oferecessem benefícios àquele país para que ocupasse os portos locais, em 2011 a tendência se inverteu: 48% defendem a tese de "não ceder nada" à Bolívia e 40% preferem dar-lhe benefícios econômicos. No mesmo período, passou de 13% para 9% o percentual de apoio à concessão de uma faixa litorânea aos bolivianos.

Essa é uma tendência que se vê reforçada pelo fato de que 73% consideram que, ainda que a Corte de Haia tenha decidido contra o Chile no litígio por limites marítimos com o Peru, o país não deve ceder território "por motivo algum".

"Essa intransigência geopolítica dos chilenos deve ser vista com preocupação, porque dá pouca margem aos governos para atuar com prudência e moderação", analisa o diretor do Instituto de Sociologia da UC, Eduardo Valenzuela.

Por sua parte, o diretor do Centro de Estudos Internacionais da UC, Juan Emilio Cheyre, interpreta os dados como uma manifestação "da certeza dos chilenos de que todo o território que temos pertence legitimamente ao nosso país e, por conseguinte, devemos continuar exercendo plena soberania sobre ele, e a maioria não está disposta a ceder aquilo que sente como bem próprio". 

Além dos temas políticos, a pesquisa analisou as percepções dos chilenos com relação aos imigrantes. As respostas mostram que 60% opinam que o país deve tomar medidas fortes para expulsar aqueles que chegam ilegalmente. Mas, se eles se estabelecem legitimamente, a posição é de que tenham acesso aos benefícios sociais. "Isto mostra que o Chile é um país que está disposto a tratar o imigrante como ser humano, inclusive concedendo-lhe benefícios que em outros países se espera prestar apenas aos cidadãos nacionais", disse Cheyre.

Enquanto isso, Valenzuela enfatiza que "nos países em que o fluxo imigratório é maior, e os serviços sociais são mais caros e onerosos, existe muita reticência quanto a equiparar os direitos sociais de uns e outros [cidadãos e imigrantes]. No Chile não se verificam essas condições: os imigrantes não pesam demasiado sobre os sistemas de bem-estar [social] que, além disso, não oferecem tampouco grandes serviços.

Especificamente com respeito aos imigrantes peruanos e bolivianos, 39% opinam que "nunca serão completamente chilenos", e 57% consideram que [eles] limitam as possibilidades dos chilenos em achar emprego. Segundo o sociólogo, "pesa demais a hostilidade geopolítica nessas respostas".

Fronteiras do Chile, Peru e Bolívia antes e depois da Guerra do Pacífico - (Mapa: Wikipedia).

Banco Santander venderá 7,8% de sua filial no Chile

Pelo visto, o espanhol Banco Santander está procurando fazer caixa, vendendo fatias de suas filiais no exterior -- pelo menos na América do Sul. Depois de anunciar a intenção de vender 3% de sua filial brasileira, o banco faz anúncio semelhante para sua filial chilena.

De acordo com o jornal chileno El Mercurio, uma das maiores operações do mercado bursátil chileno será realizada nos próximos dias pelo grupo espanhol Santander, do empresário Emilio Botín -- o banco espanhol irá vender 7,8% da propriedade do Banco Santander Chile, através da empresa Teatinos Siglo 21.

Com a venda, o grupo espanhol busca levantar novos recursos para capitalizar-se no Chile. Segundo explicou o banco, o objetivo é atingir um "core capital" ou "capital principal" [o mesmo que "share capital", quando se fala do capital de instituições financeiras] de 10% em 30 de julho de 2012, e assim situar-se acima das exigências regulatórias europeias.

No Chile, a colocação do pacote acionário será liderada por Santander GBM em conjunto com LarrainVial. No exterior, haverá a participação, em diversas modalidades, de Global Coordinator, BofA Merrill Lynch e Credit Suisse, além do Citigroup. O road show se realizará entre os dias 23 de novembro e 5 de dezembro, e incluirá Europa, Estados Unidos e Chile.

Após a operação, o grupo Santander reduzirá seu controle da filial chilena a 67% do capital desta, mantendo-se pois como seu principal acionista.

Por falar em Santander e Emilio Botín, este empresário, que é o presidente mundial do grupo Santander, encontrou-se nesta terça-feira com a presidente Dilma Rousseff e reafirmou-lhe compromissos com o Brasil, segundo sua assessoria de imprensa. Conforme Botín, o Brasil tem grandes companhias muito bem geridas e em processo de internacionalização. "Espanha e Europa podem ser boas oportunidades para sua expansão. O Banco Santander está muito comprometido em apoiar a internacionalização das empresas brasileiras", diz em nota. Botín também disse estar convencido de que as relações comerciais e investimentos entre os dois países vão crescer nos próximos anos e isso será bom para ambos.

O encontro aconteceu um dia depois de o Santander da Espanha informar que planeja vender uma fatia de 7,8% na sua unidade no Chile. Com base no valor de mercado do Banco Santander Chile, de US$ 14,25 bilhões, a venda da participação pode render US$ 1,1 bilhão.
 

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O mercado de vinhos brasileiro vs os mercados chileno e argentino

O artigo abaixo foi publicado no site Winetag em 26/10/11 por Mateus V.  A transcrição desse texto não significa que concorde com ele -- pelo contrário, eu o acho de uma superficialidade campeã, mas tem pelo menos o mérito de abordar um assunto que é pouco ou nada ventilado na mídia brasileira.

Devido à complexidade e às diferentes realidades da vitivinicultura no Brasil, este artigo limita-se à viticultura destinada para vinhos finos. Tomamos como ponto de partida a vinda  dos imigrantes europeus que chegaram ao Sul do Brasil no final do século XIX, os grandes disseminadores da vitivinicultura. A questão do artigo é: porque a nossa vitivinicultura não teve uma projeção similar à da Argentina e à do Chile, se temos uma história tão recente quanto?

A atividade começou a ter importância econômica no início do século XX com o surgimento das cooperativas e de algumas empresas privadas. Vários motivos fizeram com que nossa vitivinicultura não tivesse o reconhecimento e o respaldo internacional como a Chilena e a Argentina. A partir dos anos 70 muitos investidores estrangeiros se instalaram nestes dois países. Ambos possuem clima seco, muito favorável ao cultivo da videira, e uma topografia de fácil mecanização, com possibilidade de produção de vinhos em grande escala e, consequentemente, com um custo muito menor do que o nosso. Assim, puderam criar uma política voltada para a exportação. Vinhos com uma qualidade média, mas com muita regularidade, que conquistaram os grandes mercados consumidores e influentes no mundo do vinho.


Somente de uns anos pra cá que o Brasil começou efetivamente a pensar no mercado externo. Primeiro porque tínhamos um imenso mercado interno a ser explorado antes de nos aventurarmos para fora. Segundo, devido à falta de competitividade gerada pela alta tributação do produto brasileiro, que supera os 40%, ao passo que a dos vinhos do Mercosul gira em torno de 20%. [Sendo enólogo, o autor tem que saber que o problema de mercado de nossos vinhos tintos, por exemplo, vai muito além do valor de tributação -- nossas condições climáticas e de terroir são muito complicadas para esse tipo de vinho. Já nossos espumantes são de alta qualidade e não fazem feio em mesa alguma, mas aí a tributação absurda os castiga nos preços. O autor deveria ter se estendido um pouco mais no assunto.]

Também podemos atribuir o atraso brasileiro ao cultivo de uvas híbridas e americanas. Elas sempre imperaram por aqui e criou-se um mercado para estes vinhos. Como lá fora o uso destas uvas para vinho é proibido, nosso vinho nunca teve muita chance de se tornar expressivo. Aliado a isso está o conceito de “status” que o produto estrangeiro tem para muitos brasileiros. Precisamos exportar vinho, conquistar o mercado externo para refletir aqui e convencer o mercado interno de que temos qualidade. É isso que está fazendo um grupo de vinícolas, que conjuntamente num programa de exportação estão dando visibilidade e convencendo os grandes críticos.


Mais recentemente, a partir dos anos 2000, a vitivinicultura brasileira ganhou um forte impulso com o surgimento de novas regiões produtoras e pela busca incessante de melhores “terroirs”. Empresários de outros ramos entraram no mundo do vinho focados na qualidade, e trouxeram consigo empreendorismo e ousadia. Estão criando produtos muito interessantes, mas ao mesmo tempo, por serem muitas vezes projetos ambiciosos e glamourosos, podem pecar no preço, já que acreditam que o consumidor deve pagar por isso.  Mas é preciso que elas pensem em maneiras eficazes de conquistar o mercado.

Em termos gerais, estamos vivendo um grande momento no setor. As vendas do vinho nacional estão em crescimento tanto internamente quanto no mercado externo. A qualidade e a confiabilidade do consumidor em nosso produto são cada vez maiores. Temos já 4 cursos de enologia no país e institutos de pesquisa, como a Embrapa Uva e Vinho, referência internacional em pesquisas. Nossos profissionais estão buscando inspiração fora da Itália (até pouco tempo existia muito apego às regiões de origem dos descendentes de imigrantes). Há também uma grande expectativa em torno da Copa do Mundo e das Olimpíadas para adivulgação do vinho brasileiro. Então, temos tudo para dar certo! [Esta conclusão, com exclamação e tudo, é de doer!]