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sábado, 20 de agosto de 2016

Compra de terras agricultáveis brasileiras por estrangeiros: até onde isto é realmente de nosso interesse?

O governo Temer -- que continua interino, é bom lembrar -- "amadurece" uma forma de liberar a venda de terras no país para estrangeiros. Os argumentos para isso são ao meu ver pífios e altamente suspeitos e questionáveis. Para o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, "a mudança vai valorizar as terras brasileiras, além de aumentar a capacidade de financiamento da agricultura via bancos estrangeiros, uma vez que eles poderiam ter as terras como garantia. Entre os setores mais beneficiados, avalia, está o de papel e celulose, que poderá receber aportes mais robustos de fundos estrangeiros".

O uso do verbo "amadurecer" é malandro, esse verbo combina com agricultura... Segundo o ministro, o parecer da Advocacia-Geral da União de 2010 que vetou essa possibilidade em 2010 "pode ser refeito". Pode ser refeito por quê?!

A agricultura brasileira é um dos setores mais pujantes e avançados de nossa economia. Somos grandes produtores -- entre os maiores do mundo -- de grãos e alimentos. É altamente mecanizada e tem alta produtividade. Mas, o Brasil é também, e muito infelizmente, o maior consumidor de agrotóxicos do planeta -- acho que nisto pode estar um dos fios da meada dessa história repentina, num governo transitório, de se cogitar tão de repente de uma decisão tão complexa e tão questionável. Qualquer medida para se reduzir esse consumo de inseticidas, que rende bilhões aos produtores de agrotóxicos, ficará certamente muito mais difícil na agricultura privatizada por estrangeiros.

Outro aspecto importantíssimo nessa questão é o da segurança nacional -- sem extremismos e fricotes, isso indubitavelmente tem que ser considerado e levado muito a sério.

Já fiz várias postagens sobre o assunto, a saber:



Venda de terra para estrangeiros ficará ainda mais difícil -- 26/11/2011

Nesse texto menciono relatório recente da ONU sobre a estrangeirização de terras na América Latina, os esforços do governo Dilma (ora vejam, a madame fazendo algo correto e decente!) para fechar as brechas na legislação vigente sobre o assunto, em reação à pressão da bancada ruralista para o afrouxamento das regras vigentes. A subcomissão da Câmara que preparava um projeto de lei sobre a matéria era maciçamente dominada por aquela bancada -- de seus 16 integrantes, 15 eram da Frente Agropecuária! Empresas do agronegócio e do setor de celulose (este citado "coincidentemente" citado pelo ministro da Agricultura como argumento para liberar a venda de terras) doaram na época R$ 28,3 milhões para congressistas eleitos, a maioria da bancada ruralista. Onde tem dinheiro, tem coisa.

Uma preocupação do governo era com a China, cujo fundo soberano tem adquirido terras em outros países. A questão de soberania nacional no trato do tema é visível, notória e de extrema importância. Levantamento do Incra na época revelou que uma área do país equivalente à do Estado do Rio já estava na mão de estrangeiros.

É bom ficar de olho: Câmara quer afrouxar restrições para estrangeiro comprar terra no Brasil -- 13/6/2012

Menciono no texto que uma subcomissão da Câmara acabara de aprovar um relatório que permitia que empresas brasileiras com qualquer participação estrangeira adquirissem terras no país. Através de gráficos mostro como o assunto envolve a segurança alimentar alimentar no mundo, e a tremenda importância estratégica do controle de terras. A China é, junto com a Índia, uma das maiores importadoras de alimentos no mundo, o que explica clara e inequivocamente o porquê de seu interesse em controlar, em terras estrangeiras, a produção de alimentos que lhe interessam.

Estrangeiros aumentam compra de terras agrícolas em países emergentes, incluindo o Brasil -- 16/11/2012

A corrida por terras agrícolas levou investidores estrangeiros a adquirir pelo menos 83 milhões de hectares em países em desenvolvimento de 2000 a 2010, de acordo com análise do Deutsche Bank baseada em dados do Land Matrix, uma base pública de dados sobre negócios do gênero. O total calculado equivale a 1,7% da área agricultável global. Para efeito de comparação, o plantio de grãos no Brasil, um dos principais exportadores mundiais do setor, tende a ocupar pouco mais de 50 milhões de hectares na safra 2012/13, que está sendo semeada.

Investidores estrangeiros avançam sobre terras agricultáveis do Terceiro Mundo -- 22/02/2013

Cito no texto que vários países em desenvolvimento venderam ou fizeram leasing para estrangeiros de muitas de suas terras agricultáveis. A lista é liderada pela Libéria, que tem 100% de suas terras aráveis nas mãos de estrangeiros. O processo é conhecido como "apoderamento de terras" (land grabbing), e está afetando países na África, América do Sul, Ásia e Europa Oriental. Cerca de metade das terras aráveis das Filipinas está em poder de investidores estrangeiros. Na Ucrânia, companhias americanas garantiram para si mais de um terço das terras agricultáveis do país.
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Pelo visto acima, é patente a extrema importância dessa questão da posse de terras agrícolas por estrangeiros e sua repercussão para a soberania nacional não pode ser relegada a segundo plano. A pressão da bancada ruralista reflete interesses exclusivamente mercantis e não pode se sobrepor aos interesses maiores do país. O governo Temer, que se tem caracterizado por ceder facilmente a pressões para garantir votos e permanência no poder, não pode ameaçar nossa segurança para atender interesses comerciais de ruralistas. Um dos principais defensores de Temer no Senado é o senador Ronaldo Caiado, um dos principais líderes da bancada ruralista -- certamente, Caiado está por trás dessa manobra de liberação de venda de terras agrícolas do país a estrangeiros.

O caso do interesse da China em terras agricultáveis brasileiras é particularmente preocupante, por se tratar de uma economia estatal por natureza -- o uso do fundo soberano chinês para a compra de terras no exterior, como mencionado acima, reforça essa preocupação. É praticamente impossível que um chinês (pessoa física ou jurídica) proprietário de terras agrícolas no Brasil não tenha atrás de si o Estado chinês, muito direta ou pouco indiretamente. Assim pois, qualquer conflito de maior monta com esse proprietário chinês será um conflito com o Estado chinês, o que altera radicalmente a abordagem e a solução de qualquer problema.

Há um outro detalhe importantíssimo envolvendo o assunto: o Brasil tem uma das maiores reservas de terras raras do planeta. Mesmo que a legislação garanta à União a posse dessas reservas, tenho como certo que não será nada simples a discussão sobre propriedade e exploração de reservas de terras raras em solo de propriedade chinesa no Brasil. Sobre terras raras no Brasil, ver também: Terras raras podem ser novo filão brasileiro.

Outro aspecto muito importante: é óbvio que grãos e alimentos produzidos por estrangeiros em suas terras brasileiras serão direcionados preferencial ou exclusivamente para destinos que lhes interessem, sem levar em conta nossas necessidades e interesses. Isso é particularmente verdadeiro quando se tratar de chineses.

É uma ilusão achar que a China é um excelente parceiro nosso, no que quer que seja. Os chineses têm uma experiência milenar em tudo o que fazem, são exímios negociadores e têm plena consciência do enorme poder de pressão que possuem. Não fazem nada que não lhes garanta o que desejam. Quem quiser ter uma boa noção da habilidade dos chineses também em negociações de alto nível, não pode deixar de ler o excelente livro "About Face - A History of America's Curious Relationship with China, from Nixon to Clinton", de James Mann (Alfred A. Knopf, 1998). 

Temos no Brasil um exemplo de uma cooperação fracassada com a China na área agrícola. Em 2011, a Chongqing Grain Group anunciou planos para construir na região de Barreiras, no oeste da Bahia, uma fábrica de esmagamento de soja, ferrovia e um polo gigante de armazenagem e transporte de grãos para exportação para a ChinaO valor total do empreendimento: 2 bilhões de dólares.

No entanto, até julho de 2014 a empresa só havia conseguido fazer a terraplenagem de uma área de 100 hectares, onde a unidade de processamento poderia um dia ser instalada. Com o projeto em espera, o mato e os arbustos começaram a crescer de novo no terreno limpo. A culpa pelo fracasso do empreendimento cabe aos dois lados, mas e uma sinalização clara de que  nem tudo é tão simples como se espera ou deseja.

Como alertado anteriormente, vê-se que toda a produção de soja desse projeto seria exportada para a China, que seria privilegiada em detrimento de nossos interesses em outros mercados.

Não podemos permitir que essa decisão sobre liberação da venda de terras brasileiras, especialmente as agrícolas, a  estrangeiros seja tomada sem mais nem menos, sem uma ampla discussão com a sociedade para analisar os reais interesses por trás disso.








sexta-feira, 8 de abril de 2016

Quanto custa realmente um alimento?

[Traduzo  a seguir um artigo muito interessante do site Spiegel Online International. Não deixem de acessar esse artigo no site, porque ele contém gráficos interessantíssimos que não podem ser copiados. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Colheita de soja no Brasil - (Foto: AP)

Um quilo e meio de batatas frescas nesta semana custa apenas € 1,29 em alguns supermercados alemães. Mas, essa é a história toda? Os custos ambientais são quase sempre completamente ignorados. Algumas pessoas, no entanto, estão tentando mudar isso. 

Um quilo e meio de batatas frescas por apenas € 1,29 [R$ 5,26], alface em oferta especial nesta semana por apenas € 1,49 [R$ 6,07]: as pechinchas das compras de mercado se acumulam sobre a mesa da cozinha. Morangos a € 3,99 o quilo [R$ 16,26] ainda são bastante caros, mas a estação na realidade ainda não começou. Então, como esses preços foram calculados, e eles refletem o valor real dos produtos? [Em 06/4/2016 o site do supermercado Zona Sul indicava: batata - R$ 4,99/kg; - alface lisa - R$ 3,69/unidade; - morango quase pronto - R$ 40,00/kg]

Os preços de bananas, carne, pão e de outros gêneros alimentícios são determinados basicamente por sua oferta e sua demanda -- e algumas vezes por subsídios, quotas e especulação de preços. Mas  os preços não incluem contribuições feitas pela natureza. Essas contribuições incluem coisas como o uso de água limpa ou terras férteis. Produtos químicos prejudiciais, gases ou partículas poluentes emitidos durante a produção não são igualmente determinados e explicitados no preço, nem para os produtores nem para os consumidores. 

"O capital natural [da natureza] bastante frequentemente é grátis. E bastante frequentemente é sub-avaliado porque é grátis", diz Richard Mattison, CEO da Trucost. Sua empresa assumiu a tarefa de por uma etiqueta  de preço na natureza. Utilizando modelos matemáticos, Mattison e sua equipe estão tentando identificar o valor que se perde quando empresas poluem ou destroem o meio ambiente. "Fazemos com que, seguramente, o valor desses sistemas naturais seja admitido e reconhecido", diz Mattison. Os cálculos da Trucost têm como objetivo ajudar as empresas a otimizar seus processos de produção, assessorar investidores no dimensionamento dos riscos ambientais e permitir que cientistas pesquisem melhor a dependência  da economia em relação aos recursos naturais.

George Monbiot considera que esse é o caminho errado a se tomar. Essa abordagem, disse o autor e ambientalista britânico em uma palestra em 2014, "significa não proteger o mundo natural das depredações da economia". Monbiot considera que colocar uma etiqueta de preço no meio ambiente é semelhante a subordinar sua proteção ao capitalismo. Princípios como comercialização e a busca de crescimento econômico, diz ele, têm sido extremamente danosos à vida do planeta. Ele considera que abordagens como a da Trucost estão tentando agora apresentar esses mesmos princípios como a salvação  do planeta.

Para Mattison, porém, a conexão entre recursos naturais e investimento financeiro é clara. "Em locais onde árvores foram cortadas vimos grandes secas, e a consequência dessas secas é que é preciso gastar dinheiro. E é dinheiro de fato que se está gastando: capital financeiro, porque o capital natural foi perdido".

Qual o custo da natureza? 

Entretanto, como desflorestamento, poluição das águas ou emissões danosas podem ser convertidos em dinheiro? "Se você avaliar a água corretamente, ela será associada com escassez", diz Mattison. Agindo assim, significaria que "produtos que dependem de muita água onde a água é escassa tornar-se-ão mais caros" [mas, em que base alguém decidiu fazer um produto sedento de água onde ela é escassa?!]. Isso, porém, não é frequentemente o caso. "Por exemplo, em Jeddah (localizada no deserto da Arábia Saudita), o preço da água é de três centavos [de dólar] por metro cúbico, e em Copenhague a água  custa mais de US$ 7 por metro cúbico. Frequentemente, diz Mattison, subsídios são os culpados por tais disparidades no custo da água. A Trucost busca incluir tais  fatores em seus cálculos.

Mattison e sua equipe buscam também por cifras em outras formas de danos ambientais, como por exemplo os efeitos da poluição sobre seres humanos e o meio ambiente. Na China, por exemplo, emissões prejudiciais causam danos econômicos que valem de 5% a 10% do PIB do país, diz Mattison. Esses custos surgem sob a forma de custos médicos adicionais devidos a doenças respiratórias, colheitas ruins e danos a edifícios causados por chuva ácida. "O rendimento de colheitas na China é em média de 7% a 15% menos do que a média mundial", diz ele. "Em outras palavras, você precisa de mais terras para produzir por causa  da poluição do ar".

Com base nessa abordagem, a Trucost calculou quanto mais custaria um pacote de ceral para o café da manhã, uma garrafa de suco de fruta ou um pedaço de queijo se as demandas sobre a natureza fossem levadas em conta. Os resultados: o cereal custaria 49 centavos mais, o suco por volta de 16 centavos e o queijo tanto quanto 1 euro. Os cálculos para esses três gêneros alimentícios foram feitos usando valores padrões de mediana. Se fosse analisar os produtos pertencentes a uma marca específica, os resultados seriam mais variados. Preços diferem, dependendo de onde e como um produto é produzido. Além disso, é impossível incluir cada fator ambiental até seu último detalhe. Os cálculos seriam demasiado complexos.

Os custos reais

Amostras de cálculos para vários gêneros alimentícios.

[Aqui aparecem os gráficos da Trucost que não me foi possível reproduzir neste texto. Há um gráfico da análise de um pacote de 51g de cereal, 1 litro de suco e um pedaço de 34g de queijo. No gráfico de cada produto são destacados  em termos percentuais o preço de varejo, o valor da perda, dos poluentes do ar, dos poluentes do solo e da água, dos gases de efeito estufa e da água. Os custos encontrados foram (em dólar):

cereal para café da manhã (51g):
água -- 0,323
gases de efeito estufa -- 0,059
poluentes de água e solo -- 0,127
poluentes do ar -- 0,037
perdas -- 0,003
valor de varejo -- US$ 3,50

suco de fruta (1 litro):
água -- 0,083
gases de efeito estufa -- 0,047
poluentes de água e solo -- 0,022
poluentes do ar -- 0,028
perdas -- 0,004
valor de varejo -- US$ 3,0

queijo
água -- 0,457
gases de efeito estufa -- 0,389
poluentes de água e solo -- 0,166
poluentes do ar -- 0,16
perdas -- 0,007
valor de varejo -- US$ 6,50]

Para os três gêneros alimentícios, a água é o fator decisivo. Para o cereal, ela é necessária para cultivar o grão, para a produção do suco ela é necessária para fazer crescer o fruto, e as vacas precisam dela na produção do leite para se fazer o queijo. Fazendeiros pagam pela água que usam, mas o preço que por ela pagam não necessariamente reflete seu real valor. Se se levar em conta a disponibilidade de água no local da produção, ela tem um efeito significativo sobre o preço do produto. Para o cereal da amostra, por exemplo, o preço varia entre € 3,29 [R$ 13,40] e € 4,68 [R$ 19,07] dependendo do suprimento de água.

[Embora seja importante que nós, em nossas casas, procuremos evitar o consumo exagerado de água, o uso doméstico não é o principal responsável por esse elevado consumo. Se analisarmos detalhadamente as atividades que mais consomem água no mundo e também no Brasil, constataremos que existem várias atividades socioeconômicas que gastam ainda mais os recursos hídricos.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), é a atividade agropecuária a principal responsável pelo uso da água. De acordo com a entidade, 70% de toda a água consumida no mundo é utilizada na irrigação das lavouras, número que se eleva para 72% no caso do Brasil, que é um país com forte produção nesse setor da economia.

Depois do setor agrícola, vem a atividade industrial, que é responsável por 22% do consumo de água no mundo. Somente depois vem o uso doméstico, que é responsável por cerca de 8% de toda a utilização dos recursos hídricos. Esse cenário revela que não apenas as casas e os comércios devem economizar, mas também os setores primário e secundário da economia, adotando medidas de contenção da utilização de água.

Se considerarmos apenas a chamada água virtual do mundo, ou seja, a quantidade de água empregada para a produção econômica sem contar o consumo direto, a agricultura passa a deter 67% da utilização de água, seguida pelo cultivo de animais, com 23%, e depois pela indústria, com 10%. Isso significa que as medidas de economia da água inevitavelmente perpassam pela adoção de medidas no espaço rural.

Para se ter uma ideia dessa diferença de consumo, vamos considerar alguns exemplos: para produzir 1 kg de carne de boi, são utilizados 15,4 mil litros de água; uma camiseta de algodão custa 2,5 mil litros; uma tonelada de aço leva 300 mil litros; e um carro gasta mais de 400 mil. No meio agrícola, a soja é uma das campeãs, com 1,8 mil litro para cada quilo produzido – lembrando que o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores mundiais desse produto.]

O preço depende da água

Amostras de cálculos para os mesmos gêneros alimentícios acima, dependendo da disponibilidade de água.

[Aqui também não foi possível reproduzir os gráficos da reportagem. Os preços são dados em dólar. Custos encontrados para as mesmas amostras:
● cereal para café da manhã -- preço médio: US$ 4,07 -- faixa de variação: US$ 3,74 - US$ 5,33]
suco -- preço médio: US$ 3,19 -- faixa de variação: US$ 3,11 - US$ 3,35
queijo -- preço médio: US$ 7,68 -- faixa de variação: US$ 7,26 - US$ 8,22.]

Cálculos difíceis

Entretanto, para Mattison, CEO da Trucost, variáveis como essas não são razão para que não se façam tais análises. Sua empresa trabalha até com a Organização para Alimentos e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), da ONU. Juntas, estão desenvolvendo diretrizes que visam a prover assistência quando se tratar de estimar a quantidade de capital natural usada na produção de alimentos. Em um relatório conjunto, Trucost e FAO calcularam quanto capital natural é utilizado na produção de diferentes colheitas e de  produtos de carne, dependendo do local onde  foram produzidos. Aqui também foram encontradas diferenças significativas.

Custos para agricultura no Brasil, por exemplo, são frequentemente particularmente elevados porque muito das terras usadas tanto para agricultura quanto para pastagem estava uma vez coberto pela floresta amazônica. O alto custo da produção de aves domésticas na Indonésia, ao contrário, pode ser rastreado até as emissões de gases de efeito estufa, que são particularmente extremas no país. Quando se trata do cultivo de cereais, a Alemanha tem ranking baixo por causa das quantidades relativamente grandes de fertilizantes que utiliza.

Capital natural exigido para produção agrícola

Custos em dólares por tonelada

[Aqui também não foi possível reproduzir os gráficos da reportagem. Os preços são dados em dólar/tonelada. Fiz uma tabela com os principais países e respectivos resultados do estudo:




Alemanha Austrália Brasil China EUA França Holanda Rússia
Milho
x
x
1030
672
286
1606
x
x
Arroz
x
x
x
566
x
x
x
x
Soja
x
x
1367
x
618
x
x
x
Trigo
2700
x
618
723
x
1409
x
414
Carne (boi)
x
31071
444
19566
23313
x
x
x
Porco
4969
x
x
6343
2177
x
26222
x
Aves domésticas
x
x
2537
2236
2136
x
x
2729

Pó mágico

Mas, esses cálculos podem ter influência sobre a produção de gêneros alimentícios e de outros produtos? Para Mattison, o objetivo é promover uma nova maneira de pensar que, no final, resultará em uma produção mais sustentável. "Não diria que em cada caso o alimento deve se tornar mais caro. Diria apenas que precisamos baixar o custo real dos alimentos". Sua empresa está preparando os fundamentos para que isso aconteça.

O ambientalista Monbiot, entretanto, não considera que colocar uma etiqueta de preço resolva de fato qualquer problema. "Dinheiro, diz ele, não é nenhuma espécie de "pó mágico que você espalha sobre todos os problemas não resolvidos". Em vez disso, diz ele, a ideia de capital natural simplesmente aumentará o poder daqueles que têm dinheiro.

Mattison, o CEO da Trucost, também admite que os cálculos em si mesmos não mudarão muito. Mas acredita que a mudança virá uma vez eliminados os subsídios danosos -- tais como os subsídios para combustíveis fósseis, fertilização excessiva e água em regiões áridas. "Na Arábia Saudita eles costumavam ter  um subsídio muito significativo para a água. Na realidade, eles costumavam dar água de graça para a pecuária de leite e as vacas eram borrifadas com água todos os dias. Essa água era produzida por dessalinização, um processo muito caro e também muito prejudicial  ao meio ambiente porque é muito intensivo em carbono".

Em alguns casos, diz Mattison, dependência de fontes naturais pode ser significativamente reduzida pelo retorno a métodos de produção tradicionais e mais sustentáveis. A Unilever, por exemplo, treinou 400.000 produtores de chá em vários países para espalhar o uso do enxerto nas plantas de chá nas suas lavouras. Esse método poupa ao mesmo fertilizante e dinheiro.



  


domingo, 20 de julho de 2014

A China é um parceiro confiável?

[No momento em que o namoro Brasil-China está nas manchetes, com a assinatura de 32 acordos de cooperação assinados entre os dois países, é interessante constatar que até agora fracassou um projeto agrícola de grande porte no Brasil, nos alertando de que, de repente, nem tudo que tem a assinatura chinesa é de execução garantida -- parte da culpa é nossa, mas os chineses também têm culpa no cartório. A reportagem abaixo foi publica no site Exame.com em 04/4/2014. O que estiver em itálico entre colchetes é de minha responsabilidade.]



Vista geral do terreno onde a Chongqing Grain Group planeja construir uma fábrica de esmagamento e processamento de soja, perto de Barreiras, na Bahia, em fevereiro

Vista geral do terreno onde a Chongqing Grain Group planeja construir uma fábrica de esmagamento e processamento de soja, perto de Barreiras, na Bahia, em fevereiro - (Foto: Ueslei Marcelino/Reuters - Fonte: Exame)

Vista geral do terreno onde a Chongqing Grain Group planeja construir uma fábrica de esmagamento e processamento de soja, perto de Barreiras, na Bahia, em fevereiro

 Terreno da Universo Verde, subsidiária da Chongqing Grain Group: até agora a empresa só conseguiu fazer a terraplenagem de uma área de 100 hectares(Foto: Ueslei Marcelino/Reuters - Fonte: Exame)

Barreiras - Nenhuma placa em um campo árido no Nordeste do Brasil indica que ali será o centro de uma das mais ambiciosas incursões agrícolas da China na América do Sul.

Em 2011, a Chongqing Grain Group anunciou planos para construir na região de Barreiras, no oeste da Bahia, uma fábrica de esmagamento de soja, ferrovia e um polo gigante de armazenagem e transporte de grãos para exportação para a China. O valor total do empreendimento: 2 bilhões de dólares.

No entanto, até hoje, a empresa só conseguiu fazer a terraplenagem de uma área de 100 hectares, onde a unidade de processamento poderia um dia ser instalada. Com o projeto em espera, o mato e os arbustos estão começando a crescer de novo no terreno limpo.

Os planos paralisados são exemplos das dificuldades enfrentadas pelos investimentos chineses outrora promissores no Brasil. A notória burocracia brasileira, a desaceleração econômica do país e uma desconfiança profunda em relação à fome chinesa por terras parecem explicar por que o campo ainda está vazio. Uma investigação da Reuters no ano passado descobriu que, após uma onda de anúncios de investimento nos últimos anos, até dois terços dos projetos chineses no Brasil enfrentam atrasos ou nunca saíram do chão.

O governo do Estado da Bahia diz que os planos do grupo Chongqing ainda estão se movendo para a frente --lentamente. "É apenas em um processo burocrático", disse Josalto Alves, porta-voz da Secretaria de Agricultura da Bahia. Segundo ele, a fábrica precisa da aprovação de um governo municipal, bem como licenças ambientais. Não está claro se a Chongqing abandonou os outros elementos do projeto.

Representantes da empresa na China e em sua subsidiária na Bahia, chamada Universo Verde, recusaram-se a responder repetidos pedidos de entrevista. Alves disse que a empresa ainda está avaliando projetos de infraestrutura, apesar de outras autoridades locais dizerem à Reuters que as empresas brasileiras tendem a construir o polo ferroviário. Margaret Myers, diretora do programa para a China e América Latina na Inter-American Dialogue, uma empresa de análise com sede em Washington, suspeita que os atrasos são causados por mais do que burocracia.

A Chongqing Grain Group originalmente planejava não apenas construir uma unidade, mas também adquirir grandes extensões de terras ao redor, segundo a imprensa brasileira. Na época, os legisladores brasileiros expressaram preocupações de que a China estava interessada em garantir o máximo de recursos naturais que podia, com pouco benefício para o Brasil, um dos poucos países no mundo com novas terras disponíveis para a agricultura. Myers disse que o projeto da Chongqing foi amplamente percebido como uma "apropriação de terras". 

O governo brasileiro reforçou restrições à propriedade de terras por estrangeiros em 2010, exatamente quando as negociações dos detalhes do projeto estavam em andamento. Autoridades disseram privadamente que a nova legislação foi destinada principalmente a China. [Ver postagens anteriores sobre a compra de terras no Brasil por estrangeiros, em 13/7/2012, em 16/11/2012, em 25/11/2011 e em 22/2/2013. Esse assunto possui contornos de segurança nacional, principalmente no caso de empresas chinesas que, em sua esmagadora maioria, são estatais.]

O governo do Estado da Bahia passou anos cortejando a Chongqing e ainda tem um escritório na China. A China compra a maior parte da soja enviada pelo Brasil ao exterior. Mas empresas agrícolas chinesas parecem estar mudando sua abordagem após desafios recentes. Em vez de controlar toda a cadeia de produção de soja, algo que pretendia fazer na Bahia, a China tem buscado recentemente a aquisição de casas comerciais de produtos agrícolas. Na quarta-feira, 02/4, a maior trading de grãos da China, a Cofco, concordou em pagar 1,5 bilhão de dólares por uma participação majoritária na unidade de agronegócio do Grupo Noble, com sede em Cingapura.

A compra seguiu o acordo da Cofco, em fevereiro, para comprar uma participação de 51 por cento na trading de grãos holandesa Nidera, naquela que foi a primeira grande compra de uma casa de comércio por uma empresa agrícola estatal chinesa. A Cofco agora vai ser capaz de comprar suprimentos de soja diretamente no Brasil e em outros países produtores, e processá-los em ração animal na China. Isso permitiria aos chineses trabalhar com menor interferência das quatro grandes tradings de grãos do mundo: ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus . Isso pode ser mais viável do que tentar entrar no jogo do Brasil, onde empresas dos EUA e da Europa têm unidades para esmagar e negociar soja há décadas.

No oeste da Bahia, unidades da Cargill e Bunge já têm acordos para comprar soja de produtores locais. "As indústrias são muito bem estabelecidas e é difícil para os recém-chegados entrarem, mesmo para aqueles tão persistentes chineses", disse Carlo Lovatelli, presidente da Abiove, que reúne as indústrias de soja do Brasil.

A cidade de Barreiras vai analisar a proposta da Universo Verde para o plano de planta de esmagamento em breve, disse Adalto Soares, porta-voz do gabinete do prefeito, nesta semana. A planta seria integrada com um novo distrito industrial planejado para a cidade, que incluiria um porto seco com acesso ferroviário --agora suscetível de ser construído por empresas brasileiras, disse ele.

[No contexto da recente reunião dos Brics em Fortaleza  a China, com o ostensivo apoio do Brasil, conseguiu um precioso espaço adicional na América do Sul para ampliar sua posição estratégica no continente. O governo Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saias) convidou os presidente a virem ao país durante a reunião dos Brics. O Brasil petista ajudou a raposa chinesa a entrar no galinheiro sul-americano e roubar-lhe espaço político-estratégico. É impensável a hipótese de que a China faça o mesmo com o Brasil na Ásia, na África ou alhures. Muito menos em seu próprio mercado. Apesar da venda de 60 jatos aos chineses consumada agora, a Embraer tem penado para produzir aviões em sua fábrica na China.

Um dos grandes resultados para a China nesse envolvimento com países sul-americanos, com o estímulo brasileiro, foi investir, negociar, financiar e conseguir contratos na Argentina -- algo em torno de 11 bilhões de dólares. Esse espaço chinês na Argentina o Brasil jamais conseguirá desfazer, e ele certamente se ampliará.

A América Latina é o novo -- ou mais um -- campo de batalha econômico entre China e EUA. Nada me tira da cabeça que essa atitude de Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saias) de apoiar a "ocupação" da China nas nossas redondezas faz parte da miopia petista de "represálias" contra os EUA, para não deixar esmaecer a animosidade entre nós e os americanos. A China já entrou firme no setor energético brasileiro, na área elétrica e no pré-sal. Há evidências claras de que a China tem utilizado a Argentina para burlar as medidas do governo brasileiro para proteger nossa indústria de uma invasão de produtos chineses.

Enquanto se discute o papel do BNDES no financiamento a obras de infraestrutura no exterior, a China ganha espaço silenciosamente nos serviços de engenharia da América Latina e já se apresenta como uma ameaça às pretensões de empresas brasileiras em países vizinhos. Em 2003, os asiáticos detinham participação de 1,8% no mercado latino-americano de grandes obras de engenharia. Essa fatia, impulsionada por financiamento de longuíssimo prazo e compras de petróleo com pagamento antecipado, subiu sete vezes em uma década e alcançou 12,1% em 2012.

A presença cada vez mais agressiva de construtoras chinesas se coloca como ameaça ao crescimento das grandes empresas brasileiras (Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS e Camargo Corrêa) na América Latina e na Ásia. Segundo um executivo de uma empreiteira nacional, a agressividade da China não está tanto no custo do crédito -- com o qual o BNDES consegue competir --, mas nos prazos do financiamento e no volume de desembolsos. Enquanto o banco de fomento brasileiro dá entre oito e dez anos de prazo nos empréstimos a serviços de engenharia, com dois a quatro anos de carência, os chineses oferecem até 30 anos de financiamento e carência raramente inferior a cinco anos. "Outro aspecto a notar é a liberação dos recursos. O BNDES demora até 480 dias, após a aprovação do financiamento, para fazer o primeiro desembolso. A China faz isso em 120 dias", diz o executivo.

Outro expediente adotado por Pequim, especialmente na Venezuela, é fechar grandes contratos de compra de petróleo com entrega durante anos, mas pagamento antecipado. O dinheiro se volta justamente para obras executadas por empreiteiras chinesas.

Os gráficos abaixo nos dão uma ideia da posição relativa entre Brasil e China na América Latina em termos de serviços de engenharia (clique na imagem para ampliá-la):






É ilusão pretender superar a experiência e a inteligência milenares chinesas em negociações bi e multilaterais, mas o Brasil regrediu tremendamente nos últimos 12 anos nessas áreas e em política externa em termos gerais. E é sempre bom não esquecer que um contencioso com uma estatal chinesa é, em última análise, um contencioso com o Estado chinês. ]







domingo, 6 de abril de 2014

Grande projeto agrícola da China na Bahia não sai do papel, mas chineses são uma pedra no nosso sapato

[No momento em que o namoro Brasil-China está nas manchetes, com a assinatura de 32 acordos de cooperação entre os dois países, é interessante constatar que até agora fracassou um projeto agrícola de grande porte da China no Brasil, o que pelo menos serve como alerta de que de repente nem tudo que tem a assinatura chinesa é garantido. A reportagem abaixo foi publicada no site Exame.com em 04/4/2014. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]


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Vista geral do terreno onde a Chongqing Grain Group planeja construir uma fábrica de esmagamento e processamento de soja, perto de Barreiras, na Bahia, em fevereiro - (Foto: Ueslei Marcelino/Reuters - Fonte: Exame.com).

Nenhuma placa em um campo árido no Nordeste do Brasil indica que ali será o centro de uma das mais ambiciosas incursões agrícolas da China na América do Sul. Em 2011, a Chongqing Grain Group anunciou planos para construir na região de Barreiras, no oeste da Bahia, uma fábrica de esmagamento de soja, ferrovia e um polo gigante de armazenagem e transporte de grãos para exportação para a China. Valor total do empreendimento: 2 bilhões de dólares. No entanto, até hoje, a empresa só conseguiu fazer a terraplenagem de uma área de 100 hectares, onde a unidade de processamento poderia um dia ser instalada.

Com o projeto em espera, o mato e os arbustos estão começando a crescer de novo no terreno limpo. Os planos paralisados são exemplos das dificuldades enfrentadas pelos investimentos chineses outrora promissores no Brasil. A notória burocracia brasileira, a desaceleração econômica do país e uma desconfiança profunda em relação à fome chinesa por terras parecem explicar por que o campo ainda está vazio. Uma investigação da Reuters no ano passado descobriu que, após uma onda de anúncios de investimento nos últimos anos, até dois terços dos projetos chineses no Brasil enfrentam atrasos ou nunca saíram do chão.

O governo do Estado da Bahia diz que os planos do grupo Chongqing ainda estão se movendo para a frente -- lentamente. "É apenas em um processo burocrático", disse Josalto Alves, porta-voz da Secretaria de Agricultura da Bahia. Segundo ele, a fábrica precisa da aprovação de um governo municipal, bem como licenças ambientais. Não está claro se a Chongqing abandonou os outros elementos do projeto. Representantes da empresa na China e em sua subsidiária na Bahia, chamada Universo Verde, recusaram-se a responder repetidos pedidos de entrevista.

Alves disse que a empresa ainda está avaliando projetos de infraestrutura, apesar de outras autoridades locais dizerem à Reuters que as empresas brasileiras tendem a construir o polo ferroviário. Margaret Myers, diretora do programa para a China e América Latina na Inter-American Dialogue, uma empresa de análise com sede em Washington, suspeita que os atrasos são causados por mais do que burocracia.

A Chongqing Grain Group originalmente planejava não apenas construir uma unidade, mas também adquirir grandes extensões de terras ao redor, segundo a imprensa brasileira. Na época, os legisladores brasileiros expressaram preocupações de que a China estava interessada em garantir o máximo de recursos naturais que podia, com pouco benefício para o Brasil, um dos poucos países no mundo com novas terras disponíveis para a agricultura. Myers disse que o projeto da Chongqing foi amplamente percebido como uma "apropriação de terras".

O governo brasileiro reforçou restrições à propriedade de terras por estrangeiros em 2010, exatamente quando as negociações dos detalhes do projeto estavam em andamento. Autoridades disseram privadamente que a nova legislação foi destinada principalmente à China. [Ver postagens anteriores sobre a compra de terras no Brasil por estrangeiros, uma em 13/7/2012 e outra em 16/11/2012. Esse assunto possui contornos de segurança nacional, principalmente no caso de empresas chinesas que, em sua esmagadora maioria, são empresas estatais.]

O governo do Estado da Bahia passou anos cortejando a Chongqing e ainda tem um escritório na China.

A China compra a maior parte da soja enviada pelo Brasil ao exterior. Mas empresas agrícolas chinesas parecem estar mudando sua abordagem após desafios recentes. Em vez de controlar toda a cadeia de produção de soja, algo que pretendia fazer na Bahia, a China tem buscado recentemente a aquisição de casas comerciais de produtos agrícolas.

Na quarta-feira, a maior trading de grãos da China, a Cofco, concordou em pagar 1,5 bilhão de dólares por uma participação majoritária na unidade de agronegócio do Grupo Noble, com sede em Cingapura. A compra seguiu o acordo da Cofco, em fevereiro, para comprar uma participação de 51 por cento na trading de grãos holandesa Nidera, naquela que foi a primeira grande compra de uma casa de comércio por uma empresa agrícola estatal chinesa.

A Cofco agora vai ser capaz de comprar suprimentos de soja diretamente no Brasil e em outros países produtores, e processá-los em ração animal na China. Isso permitiria aos chineses trabalhar com menor interferência das quatro grandes tradings de grãos do mundo: ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus. Isso pode ser mais viável do que tentar entrar no jogo do Brasil, onde empresas dos EUA e da Europa têm unidades para esmagar e negociar soja há décadas.

No oeste da Bahia, unidades da Cargill e Bunge já têm acordos para comprar soja de produtores locais. "As indústrias são muito bem estabelecidas e é difícil para os recém-chegados entrarem, mesmo para aqueles tão persistentes chineses", disse Carlo Lovatelli, presidente da Abiove, que reúne as indústrias de soja do Brasil.

A cidade de Barreiras vai analisar a proposta da Universo Verde para o plano de planta de esmagamento em breve, disse Adalto Soares, porta-voz do gabinete do prefeito, nesta semana. A planta seria integrada com um novo distrito industrial planejado para a cidade, que incluiria um porto seco com acesso ferroviário -- agora suscetível de ser construído por empresas brasileiras, disse ele.

[No contexto da recente reunião dos Brics em Fortaleza a China, com o apoio do Brasil, conseguiu um precioso espaço adicional na América do Sul para ampliar sua posição estratégica no continente. O Brasil petista ajudou a raposa chinesa a entrar no galinheiro sul-americano, e roubar-lhe espaço político-estratégico. Não há a mínima hipótese de que a China faça o mesmo com o Brasil na Ásia ou na África por exemplo. Nem mesmo no próprio mercado chinês. Reciprocidade não é o forte da República Popular da China. 

Um dos grandes resultados para a China nesse envolvimento com os países sul-americanos, com o estímulo brasileiro, foi investir , negociar, financiar e conseguir contratos na Argentina -- algo em torno de 11 bilhões de dólares.  Esse espaço chinês na Argentina o Brasil jamais conseguirá desfazer e, certamente, ele se ampliará.

A América Latina é o novo -- ou mais um -- campo de batalha econômico entre China e EUA. Nada me tira da cabeça que essa atitude de Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saias) de apoiar a "ocupação" da China nas nossas redondezas faz parte da miopia petista de "represálias" contra os EUA, para não deixar esmaecer a animosidade entre nós e os americanos. A China já entrou firme no setor energético brasileiro, na área elétrica e no pré-sal. Há evidências claras de que a China tem utilizado a Argentina para burlar as medidas do governo brasileiro para proteger nossa indústria de uma invasão de produtos chineses.

Enquanto se discute o papel do BNDES no financiamento a obras de infraestrutura no exterior, a China ganha espaço silenciosamente nos serviços de engenharia da América Latina e já se apresenta como uma ameaça às pretensões de empresas brasileiras em países vizinhos. Em 2003, os asiáticos detinham participação de 1,8% no mercado latino-americano de grandes obras de engenharia. Essa fatia, impulsionada por financiamento de longuíssimo prazo e compras de petróleo com pagamento antecipado, subiu sete vezes em uma década e alcançou 12,1% em 2012.

A presença cada vez mais agressiva de construtoras chinesas se coloca como ameaça ao crescimento das grandes empresas brasileiras (Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS e Camargo Corrêa) na América Latina e na Ásia. Segundo um executivo de uma empreiteira nacional, a agressividade da China não está tanto no custo do crédito -- com o qual o BNDES consegue competir --, mas nos prazos do financiamento e no volume de desembolsos. Enquanto o banco de fomento brasileiro dá entre oito e dez anos de prazo nos empréstimos a serviços de engenharia, com dois a quatro anos de carência, os chineses oferecem até 30 anos de financiamento e carência raramente inferior a cinco anos. "Outro aspecto a notar é a liberação dos recursos. O BNDES demora até 480 dias, após a aprovação do financiamento, para fazer o primeiro desembolso. A China faz isso em 120 dias", diz o executivo.

Outro expediente adotado por Pequim, especialmente na Venezuela, é fechar grandes contratos de compra de petróleo com entrega durante anos, mas pagamento antecipado. O dinheiro se volta justamente para obras executadas por empreiteiras chinesas.

Os gráficos abaixo nos dão uma ideia da posição relativa entre Brasil e China na América Latina em termos de serviços de engenharia (clique na imagem para ampliá-la):




É ilusão pretender superar a experiência milenar e a inteligência chinesas em negociações bi e multilaterais, mas o Brasil regrediu tremendamente nos últimos 12 anos nessas áreas e em política externa em termos gerais.]









segunda-feira, 31 de março de 2014

Especialistas alertam sobre os efeitos da poluição chinesa na agricultura do país

[A China continua sendo uma das principais fontes de poluição do planeta. O texto parcialmente traduzido abaixo foi publicado pelo jornal espanhol El País em 26/2. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

A espessa camada de poluição, com níveis classificados de "muito perigosos", que há uma semana afeta regiões do norte e do centro da China -- entre elas Pequim (ou Beijing, como querem alguns) -- mantém muitas pessoas trancadas em suas casas, as crianças sem poder sair aos pátios das escolas e fábricas com produção suspensa ou reduzida. Nesta quarta-feira, a capital chinesa viveu seu sexto dia de alerta laranja pela poluição -- o segundo nível mais alto, numa escala de quatro -- desde que foi decretado pela primeira vez na cidade na sexta-feira passada. Pequim se asfixia envolta em uma neblina tóxica cinza, que esconde os edifícios e fez com que se esgotassem as máscaras protetoras no comércio e nas páginas da internet.



Turistas se protegem com máscaras contra a poluição em Pequim - (Foto: Rolex de la Pena/Efe - Fonte: El País).

Mas, a poluição grave habitual na China [ver postagens anteriores que abordam a poluição chinesa, uma de 01/11/2013 e a outra  de 03/3/2011], que provoca a morte prematura de milhares de pessoas no país a cada ano e fez piorar o número de vítimas de câncer de pulmão na capital, tem outros efeitos paralelos com consequências catastróficas potenciais sobre a agricultura e a alimentação.

He Dongxian, professora na Universidade de Agricultura da China, em Pequim, assegura que uma experiência realizada na municipalidade durante meses recentes mostrou um retardo drástico no processo de fotossíntese -- que permite às plantas se desenvolverem, como informa o jornal South China Morning Post, de Hong Kong. Nos testes, sementes de pimentões e tomates -- que normalmente demoram 20 dias para converter-se em plantas de sementeira com luz artificial em um laboratório, levaram mais de dois meses para germinar em uma estufa nos arredores de Pequim.

He afirma que membranas e poluentes que aderem à superfície das estufas reduz à metade a quantidade de luz que chega às plantas, o que afeta de forma radical o processo de fotossíntese pelo qual as plantas transformam a luz em energia química.

A pesquisa afirma que a maioria das plantas que germinaram era de plantas fracas ou estavam doentes, o que "reduzirá a produção agrícola este ano". Ela adverte também que, se a neblina tóxica persistir ou se intensificar, a produção de alimentos na China sofrerá "consequências devastadoras", informa o jornal citado. [Isto poderá ter um impacto dramático sobre o comércio de alimentos e grãos no mundo, em princípio certamente benéfico para o Brasil caso não haja quebras expressivas de safras  devido à adversidade climática que tem ocorrido, sem falar nas recorrentes limitações de nossa infraestrutura portuária.]

"Um grande número de representantes de empresas agrícolas têm acudido de repente a encontros acadêmicos sobre fotossíntese nos últimos meses, em busca desesperada por soluções", assinala He. "Nossos colegas de outros países têm se mostrado comovidos com o fenômeno, porque em seus países nunca ocorreu algo igual". Algumas empresas estudam instalar equipamentos de iluminação artificial, e muitas fazendas aumentaram significativamente o uso de hormônios vegetais para estimular o crescimento das plantas, informa o jornal de Hong Kong.

A concentração de partículas finas ou PM2,5 -- aquelas que têm 2,5 micrômetros ou menos de diâmetro -- alcançou nesta quarta-feira de manhã em Pequim 557 microgramas por metro cúbico, de acordo com medições da embaixada dos EUA. Esse valor supera em mais de 22 vezes o limite máximo de 25 microgramas recomendado pela OMS - Organização Mundial da Saúde. A Agência de Proteção Ambiental americana [EPA, em inglês] considera como muito perigosas as concentrações acima de 300 [microgramas por m³]. Ao cair da noite a concentração havia caído para 82, graças a uma leve chuva. Este nível ainda é considerado como "prejudicial à saúde". A Academia de Ciências de Shanghai publicou este mês um relatório em que assinala que a poluição converteu Pequim em uma cidade "praticamente inabitável" para o ser humano.

(...)

Um habitante da cidade de Shijiazhuang, capital da província de Hebei e uma das cidades com ar de pior qualidade no país, se converteu nesta semana naquela que é considerada a primeira pessoa na China que processa o governo por não ter impedido a poluição. O demandante, Li Guixing, requereu a um tribunal que o Departamento de Proteção Ambiental de Shijiazhuang indenize os cidadãos pela poluição que afeta a cidade de forma contínua. A demanda de Li é uma amostra da crescente conscientização ecológica e descontentamento da população pela degradação provocada por três décadas de desenvolvimento meteórico sem atentar para as consequências ambientais.

A embaixada espanhola na China também fez eco à situação. O consulado em Pequim colocou um aviso em seu site depois que foi decretado o alerta laranja na cidade na sexta-feira. Nesse aviso "se recomenda que se tomem as medidas necessárias para evitar no possível os efeitos adversos da poluição, enquanto seus índices permanecerem elevados". A nota recomenda que "se devem evitar no possível as atividades e sobretudos os esforços físicos ao ar livre", e afirma que é "altamente recomendável a utilização de máscaras com nível de proteção de pelo menos FFP2" [para informações sobre os níveis de proteção FFP, ver aqui -- as partículas finas PM2,5 atingem os alvéolos e o tecido mais profundo dos pulmões]. A nota afirma também que devem ser "suprimida a ventilação de residências com purificadores de ar e se deve manter índices de umidade adequados". [Consultei o site da embaixada do Brasil na China.  Nele não existe absolutamente nada referente a precauções a serem tomadas contra a poluição no país, o que mostra que nossos diplomatas ali estão se lixando para a saúde dos brasileiros que por ali se aventurem. É o estilo Itamaraty de ser e agir.] 




20 de fevereiro - A imagem de satélite mostra a nuvem de sujeira na região de Pequim (Foto: Nasa)


25 de fevereiro - As nuvens de sujeira se espalham para a Coréia do Norte, a Coréia do Sul e o Japão (Foto: Nasa)