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domingo, 22 de janeiro de 2017

Os migrantes contribuem com cerca de 10% da riqueza mundial

[A crise dos refugiados árabes e islâmicos em geral na Europa gerou uma discriminação injusta e cruel contra os imigrantes não só dessa onda, mas também contra os imigrantes em geral e estimulou o ressurgimento assustador de xenofobias e de ultranacionalismos de direita, empurrando a parte mais rica do mundo em termos econômicos e culturais para situações de confronto de dimensões e consequências imprevisíveis (ver postagem anterior). Hipocritamente, os críticos ferrenhos aos refugiados e imigrantes em geral estão usando essa crise dos refugiados -- que são migrantes forçados e não voluntários -- para atacar as imigrações em geral, omitindo os benefícios econômicos,  científicos e culturais que historicamente os estrangeiros imigrantes têm trazidos para os países que os acolhem. 

Vejamos alguns dados importantes sobre a migração em escala mundial, publicados pelo Banco Mundial em seu relatório de referência Migrants and Remittances Factbook 2016 (3rd edition) (Fatos sobre Migrantes e Remessas, 2016).

  • Mais de 247 milhões de pessoas, ou 3,4% da população mundial, vivem fora de seus países de origem. 
  • O principal destino das migrações são os Estados Unidos, seguidos por Arábia Saudita, Alemanha, Federação Russa, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido, França, Canadá, Espanha e Austrália. 
  • De acordo com os dados oficiais disponíveis, a via México-Estados Unidos é o maior corredor de migração no mundo com o registro de 13 milhões de migrantes em 2013. Os próximos maiores  corredores são Rússia-Ucrânia, Bangladesh-Índia e Ucrânia-Rússia.
  • Países menores tendem a ter as taxas mas alta de emigrações qualificadas. Perto de 93% das pessoas altamente qualificadas da Guiana viviam fora do país, vindo em seguida o Haiti (com 75,1%), Trindade e Tobago (68,2%) e Barbados (66,2%).
  • Excluindo os refugiados da Margem Esquerda (Palestina) e da Faixa de Gaza, no Oriente Médio, o número de refugiados em 2014 era de 14,4 milhões. Cerca de 86% dos refugiados são acolhidos por países em desenvolvimento. Turquia, Paquistão, Líbano, Irã, Etiópia, Jordânia, Quênia, Chade e Uganda são os maiores países anfitriões desse universo de pessoas. 
  • Em 2015, estima-se que os fluxos de remessa financeira globais excederam os US$ 601 bilhões. Deste montante, calcula-se que os países em desenvolvimento receberam cerca de US$ 441 bilhões, quase três vezes o montante da assistência oficial para seu desenvolvimento. O valor real das remessas, incluindo fluxos não registrados através de canais formais e informais, é estimado ser significativamente maior.
  • Em 2015, os principais países destinatários de remessas formais, registradas, foram Índia, China, Filipinas, México e França. Entretanto, como parcela de seu PIB, países menores foram os maiores destinatários: Tajiquistão (42%), Quirguistão (30%), Nepal (29%), Tonga (28%) e Moldávia (26%).
  • Países de altas rendas são as principais fontes das  remessas. Os Estados Unidos são, de longe, a maior delas, com a saída registrada de estimados US$ 56,3 bilhões em 2014. Em seguida vêm Arábia Saudita, Rússia, Suíça, Alemanha, Emirados Árabes Unidos e Kuwait. Os seis países do Conselho de Cooperação do Golfo (Omã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Qatar, Bahrein e Kuwait) foram responsáveis por US$ 98 bilhões de remessas para o exterior em 2014. 
A reportagem que traduzo a seguir, de Jean-Pierre Robin publicada no Le Figaro joga o devido foco na contribuição das migrações para a  riqueza mundial, com base em estudo feito pela McKinsey].

Os migrantes contribuem com cerca de 10% da riqueza mundial

Jean-Pierre Robin -- Le Figaro, 22/12/2016

As remessas financeiras de imigrantes para suas famílias totalizaram 580 bilhões de dólares em 2014. Na foto, serviço para transferências de dinheiro em Nova Iorque - (Foto: SIPANY/SIPA/SIPA)

Em comemoração pelo seu 25° aniversário, o Instituto Global McKinsey, cuja missão é analisar as  questões de produtividade, publicou um relatório sobre os migrantes e seu impacto na economia mundial. Ao tempo em que compõem hoje um grupo de cerca de 247 milhões de pessoas (que têm uma profissão, assim como suas famílias), ou seja 3,4% da população mundial, os migrantes contribuem com o montante de 9,4% do PIB mundial (algo como 6.700 bilhões de dólares, o equivalente à soma dos PIBs do Japão e da França).

"A despeito das inquietudes e das controvérsias que as cercam, as migrações transfronteiriças são o resultado normal de um mundo mais interconectado e de um mercado de trabalho mundial", observa o estudo, que se apresenta como uma defesa e ilustração dos fenômenos migratórios. A McKinsey estabelece desde o início a distinção entre "migrantes voluntários" (fala-se às vezes de migrantes econômicos), que constituem 90% do total, e os outros (10% , cerca de 25 milhões de pessoas) refugiados ou solicitantes de asilo. O pessoal das empresas multinacionais e os expatriados são migrantes, mas não os trabalhadores que se deslocam diariamente de uma fronteira para outra. Isso porque, por definição, "o migrante vive em um país onde não nasceu", o que exclui igualmente os imigrados de segunda ou terceira geração.

Da campanha eleitoral de Donald Trump, que propunha levantar um muro entre o México e os Estados Unidos, à guerra na Síria e aos emigrados africanos clandestinos, que enfrentam os riscos e perigos da travessia do Mediterrâneo, a polêmica só faz crescer. Incontestavelmente, os Estados Unidos são o primeiro destino dos migrantes (47 milhões), ainda que a União Europeia (mais a Suíça e a Noruega) constituam o principal território de acolhimento (58 milhões), esta cifra incluindo as migrações intraeuropeias. Hoje, os imigrantes representam 15% da população total dos Estados Unidos, 13% na Europa Ocidental e 48% nos países do Golfe árabe.

De um ponto de vista estritamente econômico os migrantes, e não unicamente as pessoas altamente qualificadas, são mais produtivos quando fora de seus países. Eles aportam cerca de "3 .000 bilhões de dólares a mais do que se ficassem em seus países de origem". Somente para a economia americana o aporte dos imigrantes é essencial, da  ordem de 2.500 bilhões de dólares, uma cifra considerável que equivale ao PIB da França e sobra a qual Donald Trump será levado a meditar.

Salários inferiores

Um estudo recente do Birô Nacional de Pesquisa Econômica [EUA] assinalava aliás que mais da metade dos PhD (os doutores em ciências) que trabalhavam nos setores dos Stem [acrônimo inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemáticas] eram imigrantes (trabalhando nos EUA sem ali terem nascido).

Da mesma forma, o aporte financeiro dos emigrantes para o desenvolvimento dos países onde nasceram é essencial. A McKinsey lembra que as remessas financeiras feitas pelo emigrantes às suas famílias totalizaram 580 bilhões em 2014. Tais remessas tornaram-se a principal forma de ajuda ao desenvolvimento, longe à frente da ajuda pública para esse fim. Esses fluxos financeiros são consideráveis para a Índia (70 bilhões de dólares em remessas), para a China (62 bilhões) e para as Filipinas (28 bilhões).

Outra questão muito debatida: "numerosos estudos acadêmicos têm demonstrado que a imigração não prejudica o emprego ou os salários dos autóctones", esclarece o estudo da McKinsey. Mesmo que ela possa ter efeitos negativos, que se observe um grande fluxo migratório numa região específica, que os imigrantes sejam substitutos diretos dos trabalhadores nacionais e que a economia do país de destino esteja em recessão. Por outro lado, os salários dos imigrantes são em compensação são de 20% a 30% inferiores às remunerações aos trabalhadores locais de mesma qualificação.

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DETALHES DO RELATÓRIO DO INSTITUTO GLOBAL MCKINSEY

Impacto e conveniência da migração global

Jonathan Woetzel, Anu Magdavkar, Khaled Rifai, Frank Mattern, Jacques Bughin, James Manyika, Tarek Elsmary, Amadeo Di Lodovico e Ashwin Hasyagar -- Novembro, 2016

Migração tornou-se um tema explosivo de debate em muitos países, mas a pesquisa do Instituto Global McKinsey (IGM) conclui que ela gera benefícios econômicos significativos --e uma integração mais efetiva dos imigrantes pode aumentar esses benefícios.

A migração é uma característica determinante do nosso mundo crescentemente interconectado. Tornou-se um tema explosivo de debate em muitos países, o que enfatiza a importância de se entender os padrões da migração global e o impacto econômico que é criado quando pessoas se deslocam através das fronteiras do mundo.  Um relatório recente do Instituto Global McKinsey (IGM), People on the move: Global migration’s impact and opportunity (Pessoas em movimento: impacto e oportunidade da migração global, em tradução direta),  objetiva satisfazer essa necessidade.

Os refugiados podem ser a face da migração na mídia, mas 90% dos 247 milhões de migrantes do mundo cruzaram fronteiras voluntariamente, usualmente por razões econômicas. Fluxos migratórios voluntários são tipicamente graduais, impondo menos estresse sobre a logística e sobre o tecido social sobre os países de destino do que os fluxos de refugiados. A maioria dos migrantes voluntários é de adultos em idade de trabalho, o que faz aumentar a parcela da população que é economicamente ativa nos países de destino. 

Os 10% restantes restantes [dos 247 milhões de migrantes] são de refugiados e de pessoas que buscam asilo, que fugiram para outros países para escapar de conflitos e perseguições. Grosseiramente, metade dos 24 milhões de refugiados do mundo está no Oriente Médio e na África, repetindo o padrão dominante de fuga para um país vizinho. Mas, o recente surto de refugiados na Europa fez com que a atenção do mundo desenvolvido se voltasse para esse tema. Um relatório que acompanha este relatório, "Europe's new refugees: A road map for better integation outcomes" ("Os novos/recentes refugiados da Europa: um itinerário para resultados de integração melhores") examina os desafios e oportunidades que confrontam os países individualmente.

Enquanto alguns migrantes viajam longas distâncias a partir de seus países de origem, a maior parte da migração ainda envolve pessoas deslocando-se para países vizinhos ou para países da mesma parte do mundo (ver figura). Globalmente, cerca de metade de todos os migrantes se deslocou de países em desenvolvimento para países desenvolvidos -- na  realidade, este é o tipo de movimento que cresce mais rapidamente. Quase dois terços dos migrantes do mundo residem em países desenvolvidos, onde frequentemente preenchem as  carências de mão de obra desses países. De 2000 a 2014, os imigrantes contribuíram com 40% a 80% da força de trabalho nos principais países de destino.


A maior parte do fluxo migratório consiste de pessoas se deslocando para outro país na mesma parte do mundo -  Os 1o principais movimentos (1), população migratória total em milhões, 2015 - Na coluna da esquerda:
  • de países em desenvolvimento da Europa Oriental e da Ásia Central para países em desenvolvimento na Europa riental e Ásia Central: 22,9 
  • de países em desenvolvimento da América Latina para a América do Norte: 22,1
  • da África Subsaariana para a África Subsaariana: 15,0
  •  da Europa Ocidental para a Europa Ocidental: 12,1
  • do Oriente Médio e do Norte da África para o Oriente Médio e o Norte da África: 10,1
Na coluna da direita:
  • de países em desenvolvimento na Europa Oriental e na Ásia Central para a Europa Ocidental: 10,0
  • do Oriente Médio e do Norte da África para a Europa Ocidental: 9,7
  • da Índia para o Conselho de Cooperação do Golfo: 8,2
  • da Ásia Austral (excluindo Índia) para o  Conselho de Cooperação do Golfo: 7,2
  • de países desenvolvidos da Europa Oriental e da Ásia Central para a Europa Ocidental: 5,8
(1) Inclui movimento tanto entre como dentro de regiões
Fontes: Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU; Banco Mundial; análise do Instituto Global McKinsey

Deslocar mão de obra para locais de produtividade mais alta incrementa o PIB global. Migrantes de todos os níveis de aptidão contribuem para esse efeito, quer através de inovação e empreendedorismo quer liberando os nativos para trabalhos de valor mais elevado. De fato, os migrantes compõem apenas 3,4% da população mundial mas a pesquisa do IGM detecta que contribuem com cerca de 10% do PIB global. Contribuíram com aproximadamente US$ 6,7 trilhões para o PIB global em 2015 -- cerca de US$ 3 trilhões a mais do que teriam produzido em seus países de origem. As nações desenvolvidas absorveram mais de 90% desse resultado.

Taxas de emprego são ligeiramente menores para imigrantes do que para trabalhadores nativos nos principais países de destino, mas isso varia com o nível de aptidão e com a região de origem. Extensa evidência acadêmica mostra que a imigração não prejudica o emprego e os salários nativos, embora possam existir efeitos negativos de curto prazo se houver um grande fluxo de imigrantes em uma região pequena, se os imigrantes por suas aptidões competirem muito de perto com os trabalhadores nativos, ou se a economia de destino estiver passando por uma recessão. 

A concretização e absorção dos benefícios da imigração dependem de como os recém-chegados são integrados no mercado de trabalho e na sociedade de seu país de destino. Hoje, os imigrantes tendem a ganhar de 20% a 30% menos que os trabalhadores nativos. Mas, se os países estreitarem para 5% a 10% essa defasagem salarial através da integração mais efetiva dos imigrantes através vários aspectos de educação, moradia, saúde e engajamento comunitário, os imigrantes podem gerar um impulso anual adicional de US$ 800 bilhões a US$ 1 trilhão para a produção mundial. Este é um objetivo relativamente conservador, mas pode entretanto produzir efeitos positivos mais amplos nas economias de destino como taxas de pobreza mais baixas e uma produtividade geral mais alta.

As dimensões econômicas, sociais e cívicas da integração precisam ser abordadas holisticamente [com uma visão conjunta]. O IGM analisou como os 18 principais países de destino se desempenharam em 18 indicadores e verificou que nenhum país havia logrado resultados expressivos através de todas aquelas dimensões, embora alguns se saiam melhores que outros. Mas em destinações ao redor do mundo, muitos investidores estão tentando uma nova abordagem. Identificamos mais de 180 intervenções promissoras que oferecem modelos úteis para melhorar a integração. O setor privado tem um papel central a desempenhar nesse esforço -- e tem incentivos para fazê-lo. Quando as empresas participam, elas se posicionam para ter acesso a novos mercados e a grupos de novos talentos.

As apostas são altas. O sucesso ou falha da integração pode reverberar por muitos anos, pesando sobre se a segunda geração de imigrantes se torna um grupo de cidadãos plenamente participativos que atingem todo o seu potencial produtivo ou que permanecem em uma armadilha de pobreza [um mecanismo autoalimentado, que faz a pobreza persistir e do qual é difícil escapar]. 

Ler também: "Mais pobres que seus pais? Uma perspectiva nova sobre a desigualdade de renda"

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

União Europeia muda radicalmente de posição e decide reconhecer a China como economia de mercado -- os antecedentes dessa reviravolta

[No dia 23 de setembro passado, reunidos em Bratislava (Eslováquia) os ministros de comércio da União Europeia (UE) decidiram desarmar suas defesas contra a China, principal alvo de medidas antidumping do bloco por causa das exportações chinesas de aço e outros bens para a UE. Isso permitirá à UE reconhecer a China como economia de mercado e reduzirá o risco de uma guerra comercial entre eles.

Essa decisão em Bratislava marca uma reviravolta inesperada e completa da UE em relação à aceitação da China como uma economia de mercado, tendo em conta o exposto pela imprensa francesa imediatamente antes da citada reunião. Traduzo a seguir textos do caderno de economia do jornal francês Le Figaro de 23 de setembro passado, abordando a reação da União Europeia à concessão de status de economia de mercado à China. Pelas regras da OMC (Organização Mundial do Comércio) estabelecidas por ocasião da entrada da China na Organização em 2001, todos os países serão obrigados a reconhecer a China como economia de mercado a partir de 2016.  O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Comércio: queda de braço entre a Europa e a China

Le Figaro - 23/9/2016

Bruxelas se opõe ao status de economia  de mercado a ser concedido a Pequim. Uma ameaça ao emprego.

Quinze anos após sua entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC), a China deverá obter em dezembro vindouro o status de economia de mercado ["economia de mercado é aquela em que as empresas não são controladas pelo Estado, e decidem por si mesmas o que produzir e vender, com base no que consideram como lucro factível ao fazê-lo" -- Longman Business English Dictionary, 2007, pág. 172; -- ou ainda, é uma economia em que os preços de bens e serviços são definidos por oferta e demanda]. Os europeus se opõem a isso, considerando que o Império do Meio não preenche os requisitos para essa classificação. Eles temem o impacto negativo disso sobre o comércio e o emprego, porque não poderão se proteger tão eficientemente como hoje contra as práticas de dumping das empresas chinesas [dumping é uma prática comercial que consiste em uma ou mais empresas de um país venderem seus produtos, mercadorias ou serviços por preços extraordinariamente abaixo de seu valor justo para outro país (preço que geralmente se considera menor do que se cobra pelo produto dentro do país exportador), por um tempo, visando prejudicar e eliminar os fabricantes de produtos similares concorrentes no local, passando então a dominar o mercado e impondo preços altos. É um termo usado em comércio internacional e é reprimido pelos governos nacionais, quando comprovado. Esta técnica é utilizada como forma de ganhar quotas de mercado]. Este tema crucial está na pauta de uma reunião ministerial que acontecerá hoje, 23 de setembro, em Bratislava.

A Europa quer evitar uma nova invasão de produtos chineses

Jean-Jacques Mével - Le Figaro, 23/9/2016

A China espera eliminar em dezembro um entrave às suas exportações. A UE se defende.

Nada de baixar a guarda antes de verificar o estoque de munições ... Em 11 de dezembro, após quinze anos de espera, a China deverá receber o status cobiçado de "economia de mercado" (SME, na sigla em francês) e consequentemente eliminar uma boa parte das defesas que protegem a Europa, assim como os  EUA e o Japão, contra as exportações chinesas baratas.

Essa é a leitura literal , defendida por Pequim, dos protocolos do acesso chinês à OMC assinados em 2001. A UE defende antes o espírito do texto, ou seja a necessidade de continuar a se proteger de um exportador invasivo dirigido com mão de ferro pelo binômio Estado-partido. A superprodução de aço chinesa, resultado de subvenções maciças em seguida à fixação de preços degradados para a exportação, terminou por convencer os mais reticentes. Nestes se incluem os britânicos, perplexos na primavera com a quebra da siderúrgica Tata Steel UK.

Um discurso ambíguo

Com a aproximação da data fatídica de 11 de dezembro, a Europa mantém um discurso ambíguo quanto à outorga do famoso "status" à maior potência exportadora do planeta. Ela [China] pretende "fazer o necessário para respeitar suas obrigações na OMC", diz-se em Bruxelas. É o tema que azeda o relacionamento com Pequim. Contudo, Jean-Claude Juncker [presidente da Comissão Europeia] nem mesmo o mencionou em um discurso interminável que marcou a retomada de atividades da UE. Washington e Tóquio, ao contrário, exibiram em público uma linha muito mais dura.

Sobre o tema, os europeus estão divididos por opiniões jurídicas contraditórias, interesses nacionais dissonantes (a Alemanha não quer arruinar um grande mercado) ou ainda por filosofias divergentes (o Reino Unido e a Escandinávia são bastiões do livre comércio). A UE se concentra em uma outra prioridade: com ou sem SME para a China, seja o que vier, será necessário dar musculatura às defesas contra a concorrência desleal, diz-se na Comissão. A Índia e a Rússia são igualmente visadas.

Planejar uma réplica unida, dotada de argumentos plausíveis, é o que está em jogo no encontro dos 28 ministros do Comércio Exterior em Bratislava. A Comissão pôs sobre a mesa um arsenal novo desde 2013, com direitos mais elevados e procedimentos mais rápidos contra as exportações a preços desleais e as subvenções diretas à produção. Em março, ela mais uma vez endureceu seu texto: "Devemos ser capazes de  reagir ao dumping com a mesma firmeza que os Estados Unidos", insistiu Jean-Claude Juncker.

Na reunião de Bratislava, mais uma vez as diferenças devem aplainadas. Enquanto os EUA impõem ao aço chinês taxas de importação de 265%, a Europa continua a se obrigar à regra barroca do "direito menor" (lesser duty rule = regra do imposto menor), ou seja um alinhamento com o que o resto do mundo pratica de mais baixo, o que quer dizer menos de  50%. O Reino Unido, a Holanda, a Europa nórdica e os países bálticos  se recusam a alterar seus planos e ideias, em relação aos demais países do bloco. Não se espera nenhum avanço prático em Bratislava. As decisões, se forem tomadas, virão de preferência da próxima cúpula europeia em 21 e 22 de outubro.

Três vias cheias de emboscadas para a União Europeia

Anne Cheyvialle e Manon Malhére -- Le Figaro, 23/9/2016

É preciso ou não conceder o status de economia de mercado (SEM, na abreviatura francesa) à China? A questão é econômica e politicamente sensível de tanto que são cruciais os riscos em termos de intercâmbios comerciais, de investimentos e sobretudo de emprego.

Intercâmbios comerciais em 2015

● 170 bilhões de euros de exportações europeias para a China
● 350 bilhões de euros de importações europeias da China
● 180 bilhões de euros, o déficit comercial daUE com a China

Represálias chinesas em caso de não concessão do status

Ao recusar o status de economia de mercado para a China, os europeus se expõem a represálias. Isso poderia começar com uma batalha jurídica. Se não se chegar a um acordo até a data limite de  11 de dezembro de 2016, Pequim poderá imediatamente acionar o órgão que regula as diferenças entre membros na OMC. Um procedimento que pode durar de três a cinco anos.

A queda de braço se dará também no terreno comercial, com a imposição de barreiras para limitar as importações oriundas da UE. Já houve precedentes. Na disputa entre Bruxelas e Pequim sobre painéis solares, as autoridades chinesas ameaçaram aplicar medidas antidumping sobre as importações de vinhos franceses e  italianos. Outro risco em caso de manutenção do impasse é a perda de contratos de negócios para as empresas europeias e uma baixa nos investimentos chineses na Europa. O presidente chinês Xi Jinping prometeu contribuir para o plano Juncker.

Perda de empregos se a China obtiver o status

A outorga do status de economia de mercado à China limitará de fato a capacidade de defesa comercial da UE frente a Pequim. Bruxelas deverá mudar seu método de cálculo para avaliar as práticas de dumping das empresas chinesas. Os europeus não poderão mais basear-se no custo de produção praticado em um terceiro país , a Turquia ou o Brasil, mas sim sobre o custo da China. Como será mais difícil provar que há dumping, o número de reclamações cairá. Resultado, avaliado pelo Cepil (centro de pesquisas sobre a economia mundial): as exportações chinesas para a UE poderiam aumentar de 3,9% a 5,3% em volume (entre 13 e 18 bilhões de dólares).

O impacto será ainda mais contundente se se levar em conta o fato de que certos produtores chineses aumentam seus preços por receio de medidas antidumping. No total, o Cepil calcula a alta possível das exportações chinesas entre 25 e 27 bilhões de euros. Como resultado, uma baixa na produção industrial da Europa, de 3,1 a 23 bilhões de euros. A indústria estará na primeira linha dos afetados, em particular a siderurgia, setor particularmente afetado pelo dumping chinês, assim como o setor eletrônico.

Os estragos sobre o emprego são de difícil avaliação. Como comprovação disso, as grandes diferenças de resultados entre um estudo e outro: de 63.600 a 234.000 para a Comissão Europeia e uma faixa muito mais alarmante avaliada pelo Instituto de Política Econômica, entre 1,7 e 3,5 milhões.

Uma terceira via a ser definida

Aceite ou não o status chinês, a Europa corre o risco sério de padecer com isso. Bruxelas planeja uma terceira via. A ideia seria reforçar os instrumentos de defesa comercial de que dispõe a UE, o que passa por uma modificação do método aplicado aos procedimentos antidumping. Esta solução permitiria também aos europeus se protegerem contra os  abusos das empresas chinesas , sem entretanto violar as regras internacionais.

Exatamente para isso, desde 2013, há uma proposição legislativa sobre as mesas dos governos europeus para modernizar o arsenal comercial, mas as negociações patinam por causa de divergências. Esse texto permitiria "acelerar os procedimentos antidumping e antisubvenção, e autorizaria a Comissão a instituir direitos/impostos maiores em certas circunstâncias", lembrou a Comissão Europeia em julho.

Essa solução alternativa permitiria proteger os europeus e satisfazer as exigências chinesas? Esta é no momento a grande incógnita, já que as medidas não estão ainda claramente definidas e o processo deverá demandar  vários meses. Enquanto espera, nada impedirá Pequim de pressionar e até mesmo adotar medidas de represália.

Pequim tenta intimidar e dividir os europeus

Sébastien Falletti - Le Figaro, 23/9/2016

Imperioso, o dragão chinês expõe suas garras. Impondo direitos aduaneiros de até 46% contra certos aços europeus, acusados de dumping, Pequim lançou uma advertência ameaçadora  à UE em 24 de julho. Se Bruxelas não reconhecer à China o status de economia de mercado até o fim do ano, como exigem os chineses, represálias serão adotadas.

Para os dirigentes da segunda economia mundial, tal status é um objetivo estratégico e uma recusa da Europa contra ele seria tomada como uma afronta. "É um caso sensível, porque ele supera o risco econômico com um forte viés político-simbólico. Esse status seria um reconhecimento de que a China doravante faz parte da corte dos grandes". É como nos Jogos Olímpicos!", analisa Françoise Nicole, diretora do Centro Ásia do Ifri [Instituto Francês de Relações Internacionais].

Quinze anos após seu acesso à OMC, o reconhecimento aos chineses de seu status de economia de mercado pelas grandes potências como a UE e os EUA seria uma nova etapa do retorno do gigante emergente ao primeiro plano do cenário mundial. Um contencioso ainda mais importante para o Partido, no momento em que investidores estrangeiros e também a população têm dúvidas sobre as perspectivas econômicas do mastodonte, cujo crescimento caiu para seu nível mais baixo dos últimos 25 anos. Já no anterior o regime chinês havia redobrado seus esforços para conseguir a inclusão do yuan no DES, a cesta de moedas do FMI [DES = Direito Especial  de Saque é composto por uma cesta de moedas que inclui o dólar, o euro, a libra e o iene. O DES pode complementar as reservas oficiais dos países-membros. Esses países também podem efetuar entre si trocas voluntárias de DES por moedas.], ao lado do dólar, do euro, do iene e da libra. Essa integração simbólica será efetivada em 1° de outubro.

Relação de interdependência

A batalha do SEM se insere na mesma perspectiva, mas se anuncia mais árdua, ao passo que os  EUA se opõem frontalmente, via OMC, às demandas de Pequim, apontando a dedo suas promessas não cumpridas em termos de abertura de mercado.

Fiel a seus hábitos, a China pressiona a UE apostando nas suas divergências internas, que permitem aos chineses evitar Bruxelas e atuar diretamente junto às capitais europeias. "Eles apostam na ameaça para ganhar a partida. Porque os europeus têm a tendência de pensar que necessitam muito menos da China do que o inverso. Na realidade, há uma interdependência. E o risco de guerra comercial é exagerado", avalia Françoise Nicolas. 

Ao regime chinês não interessa um conflito maior com seu principal parceiro comercial, no momento em que sua economia está envolvida em uma transição delicada que necessita de transferências de tecnologia. Os dirigentes chineses sabem que o tempo urge para armazenar energia, quando a onda populista pressiona por um retorno ao protecionismo no Velho Continente e a Brexit semeou inquietação em Pequim, privando a China de um aliado favorável à abertura.

[Com todo esse contexto exposto acima, não seria de se esperar a decisão da reunião em Bratislava de reconhecer a China como economia de mercado. No entanto, parecer ter vencido o pragmatismo: o mercado chinês é muito grande e importante para ser ignorado ou tratado com desdém e, como se viu pelas trocas comerciais entre UE e China em 2015, os chineses têm peso considerável no abastecimento do mercado europeu. Aguardemos o comportamento da China no comércio internacional e na OMC após dezembro deste ano.

De qualquer maneira, me soa esdrúxulo aceitar-se a China como economia de mercado pelo conceito mesmo deste título, tendo em conta a presença maciça do Estado na esmagadora maioria das empresas chinesas.] 



terça-feira, 11 de outubro de 2016

Carro elétrico: a corrente flui

[O carro elétrico avança a passos largos. Em Paris, por exemplo, já não é tão incomum ver alguns desses veículos plugados em locais específicos para eles, como mostra a foto abaixo que tirei na capital francesa, há duas semanas, de um carro elétrico mantido "abastecido" numa rua do 6° arrondissement.


Traduzo a seguir a reportagem de Thierry Étienne publicada no jornal francês Le Figaro. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

FUTUROLOGIA -- Apresentada em vários estandes do Mundial do Automóvel 2016 em Paris, a eletromobilidade vê crescer sua credibilidade e, com ela, a esperança de enfim sair de sua "confidencialidade".

No ano passado, as vendas de veículos elétricos cresceram 48% na Europa, beirando 100 mil emplacamentos. Durante o primeiro semestre de 2016, elas continuaram crescendo acima de 11%. Tais resultados encorajadores, a serem creditados às pioneiras da eletromobilidade que são BMW, Mitsubishi, Nissan, Renault ou ainda a Tesla, devem entretanto ser relativizados. Na escala do mercado europeu, o veículo elétrico não supera 0,56% das vendas. 

Em suma, os 1o% no horizonte 2020, previstos por Carlos Ghosn [CEO da Nissan e da Renault] em 2009, serão difíceis de serem alcançados. Mas a Renault não é a única a acreditar no futuro do automóvel de emissão zero. A poderosa indústria alemã, inclusive suas marcas premium, adere hoje ao seu chamado. Porque novas perspectivas se apresentam para o veículo elétrico. Não apenas na Europa, onde o diesel não é mais bem-visto, mas também na China, que carece de petróleo e onde a poluição atingiu um teto crítico, e nos Estados Unidos, onde uma restrição a emissões de CO₂ está em vias de ser imposta.

A Volkswagen vai tirar proveito da ocasião para limpar sua imagem [ver "Escândalo na indústria automobilística -- segredos sujos"]. Em 2025, apoiando-se em todas as suas marcas -- incluindo Audi, Bentley e Porsche -- o grupo disporá em seu catálogo de cerca de trinta modelos totalmente elétricos. Essa gama super "eletrizada" deverá assegurar um quarto das vendas do grupo. O protótipo I.D., baseado em uma plataforma dedicada MEB, nos dá uma primeira visão dessa nova geração da Volkswagen. Ele prevê uma berline [carro de 4 portas] compacta, que substituiria o e-Golf. Na expectativa, alguns fabricantes como a Hyundai, com seu modelo de 4 portas Ioniq, a Opel com o monoespaço Ampera-e, já estão prontas para entrar em ação. E as estrelas atuais da categoria que são o Renault ZOE, o Nissan Leaf, o BMW i3 e o Tesla S recebem todas elas uma bateria de mais capacidade, para aumentar significativamente sua autonomia.

O carro elétrico não está ainda pronto para suplantar seu equivalente a gasolina ou diesel mas, à vista do esforço desenvolvido pelos fabricantes, não há nenhuma dúvida sobre seu futuro [promissor]. Hoje, há na França 25 modelos de carros elétricos à disposição dos interessados.

Segundo pesquisa pela Ipsos entre 23 e 29 de agosto de 2016 ( feita a cada  2 anos desde 2012) sobre a imagem do carro elétrico com uma amostragem de 1.000 pessoas representativa da população francesa mostra a seguinte posição em comparação a 2014:

● Inovador: 94%
● Respeita o meio ambiente: 91%
● Agradável para dirigir: 88%
● Econômico: 80%
● Transmite segurança: 72%
● Confiável: 70%
● Prático: 66%

80% dos entrevistados estão prontos para mudar seus hábitos de mobilidade para melhorar a qualidade do ar.

Três freios ao desenvolvimento do carro elétrico

As novidades apresentadas pelos fabricantes no Mundial do Automóvel 2016  atestam os progressos alcançados pela propulsão elétrica. Os carros alimentados por bateria não são apenas econômicos, não poluentes (localmente) e silenciosos, mas são também agradáveis de dirigir graças ao torque instantâneo liberado pelo motor. Isso não muda o fato de que seu desenvolvimento permanece freado por restrições sérias.

Um preço elevado

O primeiro freio é orçamentário. O preço de um compacto como o Nissan Leaf começa em 32.380 euros [cerca de R$ 116mil], incluindo a bateria. Isso decorre do custo muito alto da bateria de lítio-íon.  Há um viés de baixa no seu custo. Em 2010, precisava-se calcular com 1.000 dólares por kWh, contra 450 dólares atualmente. E os analistas prevêem 200 dólares por kWh no horizonte 2020.

Tomando o  exemplo do BMW i3, sua nova bateria de 33 kWh não representaria mais que 18% de seu preço de venda, contra os 40% de hoje. É preciso registrar que na França o comprador de um carro elétrico novo recebe um bônus ecológico de 6.300 euros, mais um superbônus de 3.700 euros se ele incluir na compra a entrega de um carro a diesel com mais de dez anos de idade.

Uma autonomia limitada

O segundo obstáculo a ser vencido pelo carro elétrico é sua baixa autonomia, mas se se tomar como base de comparação os valores de homologação NEDC [New European Driving Cycle], progressos importantes vêm de ser anunciados no salão de Paris. Apenas nascido, o Hyundai Ioniq (28 kWh) e seus 280 km de autonomia se vê ultrapassado por uma nova evolução do BMW i3 (33 kWh), capaz de  percorrer 300 km sem recarga, e também pelo modelo mais recente do Renault ZOE (41 kWh), com autonomia de 400 km. Ainda melhor, o Opel Ampera-e, com 60 kWh, ultrapassaria os 500 km. O novo recorde a ser batido é o estabelecido pela versão P100D do caríssimo Tesla (140.300 euros ≈ R$ 503 mil) -- graças à sua bateria de 100 kWh, ele reivindica de fato uma autonomia de 613 km.

Uma falta de terminais para carga da bateria

O terceiro e último empecilho ao desenvolvimento rápido do carro elétrico é o tempo necessário para a recarga de sua bateria que, conforme a instalação, pode levar de cerca de 30 minutos a uma dezena de horas. Isso põe em destaque uma falta flagrante de infraestruturas. Adicionando-se as instalações providas pelo Estado, as coletividades  locais e os atores privados (Nissan, Tesla, Ikea, Auchan, Leclerc, etc), a rede não ultrapassa 13.000 "tomadas". Isso é insuficiente, mas a lei relativa à transição energética para o crescimento verde, promulgada em 18 de agosto de 2015 no diário oficial francês (Journal Officiel) tem por objetivo instalar 7 milhões de pontos de recarga no território francês até 2030. Registrado.

O carro de corrida elétrico

Desde 2012, existe a chamada Fórmula E ou FIA Formula E Championship, que utiliza exclusivamente carros elétricos. A primeira corrida ocorreu em Beijing (Pequim) em 13 de setembro de 2014.

Um carro médio da Fórmula E tem uma potência de pelo menos 250 HP, e é capaz de acelerar de 0 a 100 km/h em 3 segundos e tem uma velocidade máxima de 255 km/h. O nível de ruído é de 80 dB, maior que os cerca de 70 dB gerados por um carro médio a gasolina. Os geradores utilizados para recarregar as baterias têm como combustível a glicerina, um subproduto da produção de biodiesel.

[O carro elétrico no Brasil

Em março deste ano, o Brasil e a Alemanha assinaram um acordo para incentivo ao carro elétrico. Esse documento visa aprimorar o desenvolvimento e a implantação de veículos elétricos. O projeto de 4 anos de duração vai receber o investimento de 5 milhões de euros do Ministério de Cooperação Internacional e Desenvolvimento Econômico da Alemanha (BMZ).

Dentre as ações previstas estão a criação de diretrizes para linhas de financiamento, apoio à disseminação de tecnologias inovadoras, bem como consultoria ao governo brasileiro, associações e representações do setor privado sobre a gestão da frota de veículos elétricos e híbridos.

"A Alemanha já possui 'know-how' em tecnologias de propulsão mais eficientes. A contribuição deles vai ser de extrema importância para o desenvolvimento de políticas públicas e criação de novos modelos de negócios”, afirmou Margarete Gandini, diretora do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), que coordenará a parceria.

Em 2015, o governo federal zerou o imposto de importação para veículos equipados com motores elétricos, que tinham alíquota de 35%. Híbridos já tinham alíquota entre zero e 7%, dependendo da cilindrada e da eficiência energética. Só estão contemplados os que podem levar até 6 pessoas e cujo motor a combustão não seja maior do que 3.0 litros.

A frota de carros "verdes" ainda é bem pequena no Brasil. Segundo levantamento da Associação Brasileira do Veículo Elétrico feito em setembro último, o país conta com cerca de 3 mil veículos elétricos e híbridos. A frota total do país, na época, era de 89,7 milhões de veículos, de acordo com o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). Atualmente, apenas um modelo de carro elétrico, o compacto BMW i3, é comercializado no país. Há 5 modelos de carros híbridos:o sedã FordFusion Hybrid, o hatch ToyotaPrius, o Lexus CT200, o Mitsubishi Outlander PHEV e o esportivo BMW i8, todos com preço acima de R$ 100 mil.

Segunda  fase do carro elétrico no Brasil completa 10 anos com muito trabalho a ser feito


A frota da Itaipu Binacional reúne veículos compactos, ônibus e até avião de  pequeno porte - (Foto: Itaipu/Divulgação)

A usina de Itaipu Binacional está comemorando os 10 anos do Programa Veículo Elétrico, iniciado em 2006 em parceria com a KWO, uma hidrelétrica suíça. O primeiro fruto do projeto já foi colhido em 2007, com a homologação do protótipo de um Fiat Palio Weekend elétrico. “Como não tínhamos nenhum especialista na área automotiva, procuramos por empresas que entendiam do ramo. Neste primeiro momento, apenas a Fiat se interessou em participar do projeto. O desenvolvimento do veículo foi rápido graças ao conhecimento compartilhado pela KWO”, relembra Celso Novais, coordenador do Programa VE.

A perua elétrica tem autonomia de 110 quilômetros e desenvolve velocidade máxima de 110km/h. O protótipo foi homologado para rodar nas ruas, com direito a testes de impacto e tudo o mais que era necessário, dando origem à produção de 100 veículos iguais, usados em Itaipu e na frota de várias empresas em caráter experimental. Concluído esse primeiro desafio, uma nova questão veio à tona, conta o coordenador do Programa VE: do que adianta fazer um veículo elétrico sem termos postos de abastecimento ou pessoal para fazer a manutenção?.

SOLUÇÕES -- A partir daí, foram desenvolvidas várias tecnologias ligadas ao veículo elétrico, a começar pela bateria de sódio, um projeto do Parque Tecnológico de Itaipu. Inicialmente, as baterias de tração foram importadas, uma vez que o Brasil estava muito defasado nesse setor. Esse tipo de bateria apresenta muitas vantagens: são estáveis (não explodem), não têm efeito memória e sua durabilidade é longa, chegando a 15 anos. Além disso, seus componentes são baratos e estão disponíveis em abundância. Do ponto de vista ambiental, elas são 100% recicláveis, e com baixo custo. “O custo da reciclagem da bateria de sódio corresponde a 1% do seu valor de produção, enquanto a reciclagem da bateria de lítio custa o dobro do seu valor de produção, por isso não e feita”, avalia Celso Novais.

Uma das surpresas é a linha de montagem do Renault Twizy: 17 montados de um total de 32 - (Foto: Itaipu/Divulgação)

Mas essa bateria tem uma desvantagem. Como ela não pode ser dividida em vários módulos, de forma a preencher os espaços ociosos do interior do veículo, acaba tendo um volume grande, inviabilizando seu uso em veículos de passeio. Em compensação, ela é uma opção interessante para veículos maiores, como ônibus. Outro tipo de uso para as baterias de sódio pensado pela equipe do Programa VE é em uma engenhosa estação de recarga de veículos elétricos. Como de forma geral as redes de energia locais não estão dimensionadas para o abastecimento rápido de vários veículos elétricos ao mesmo tempo, foi desenvolvido um sistema baseado no conceito caixa d'água. Trata-se de um contêiner cheio de baterias que são recarregadas lentamente para não sobrecarregar a rede, porém capazes de fazer a recarga rápida de vários veículos simultaneamente.

A equipe de Itaipu também desenvolveu um eletroposto para recarga de veículos elétricos. São centenas espalhados dentro da usina e em alguns pontos na cidade de Foz do Iguaçu. Também voltado à recarga de elétricos, foi construída uma garagem para dois carros com o telhado repleto de painéis fotovoltaicos, o bastante para recarregá-los sem recorrer à rede elétrica. Já o Programa de Mobilidade Elétrica Inteligente (mob-i) faz a gestão em tempo real de uma frota de 22 veículos dentro de Itaipu, em Curitiba e em Brasília, fornecendo uma plataforma para o compartilhamento. Por meio do aplicativo do mob-i, o usuário tem acesso à localização desses veículos, podendo se deslocar até o mais próximo disponível.

Estação-container recarrega baterias lentamente para não sobrecarregar a rede - (Foto: Itaipu/Divulgação)

VEÍCULOS -- Dentro do galpão onde funcionam diversos laboratórios do Programa VE, o visitante “esbarra” com várias curiosidades. Uma das maiores surpresas é uma compacta linha de montagem do pequenino Renault Twizy. Em regime de CKD, já foram montados 17 de um total de 32 veículos. Claro que não se trata de uma produção voltada para a comercialização do carrinho elétrico, mas um estudo de tecnologias, assim como a proposição de ideias para seu aprimoramento. A frota do Programa VE ainda tem para estudos os Renault Zoe e Fluence elétrico, BMW i3 e os Fiat 500e e Panda elétrico.

Depois do Fiat Palio Weekend, a equipe do Programa VE ainda desenvolveu um Agrale Marruá 100% elétrico, com direito a tração 4x4, e dois ônibus elétricos. Visto que o híbrido é uma solução para o momento, já que não precisa de nenhuma infraestrutura adicional a ser implementada, um dos projetos mais promissores é o ônibus híbrido a etanol. “Na Europa, que usa o diesel no ônibus híbrido, a redução das emissões é de 30% a 40%. No Brasil, com o etanol, a queda das emissões varia entre 80% a 90%. Nós temos atualmente o percentual de emissões que a Europa terá apenas em 2025”, compara Celso Novais. Outro projeto em andamento é um Veículo Leve sobre Trilho (VLT) elétrico, mas um dos feitos mais importantes da equipe foi o desenvolvimento de um avião elétrico tripulado.

Outro projeto em andamento é um Veículo Leve sobre Trilho (VLT) elétrico - (Foto: Itaipu/Divulgação)

IMPACTO -- E qual seria o impacto se, da noite para o dia, todos os carros emplacados no Brasil passassem a ser elétricos? Haveria produção de energia elétrica suficiente para mais essa demanda? Nas contas de Celso Novais, sim. Ele levou em conta dados de 2011, quando a frota de carros do país era de 34 milhões de veículos e o emplacamento anual de automóveis e comerciais leves estava na casa dos 3,4 milhões. Considerando um veículo que roda em média 60 quilômetros por dia, haveria um acréscimo de 3,3% no consumo de energia. Como a renovação completa da frota ocorreria em 10 anos, no fim desse período seria necessário aumentar a produção de energia em 33%. “Como haveria um aumento gradual da demanda, a produção de energia elétrica daria conta do recado. Portanto, não existe essa preocupação”, garante Celso.]


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Síria, o abismo do mundo

[Durando já 5 anos e contabilizando 400 mil mortes, com uma alta porcentagem de civis e crianças entre elas, a guerra na Síria é um exemplo impressionante e inaceitável de violência desmedida, de absoluto descaso aos direitos humanos e de um lamentável show de força por parte dos EUA, da Rússia e do governo sírio de Bashar al-Assad. Além dos milhares de mortos, a guerra síria é a maior fonte de refugiados que tentam se estabelecer na Europa e vêm gerando uma das piores crises já enfrentadas pelos europeus. Traduzo a seguir a crônica de Christian Makarian sobre a Síria, publicada na revista e no site L'Express -- é um texto merecidamente duro sobre uma das  piores barbáries por que passam ou passaram o Oriente Médio e a Europa. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha  responsabilidade.] 

Síria, o  abismo do mundo

Christian Makarian - L'Express

O acúmulo de impasses na Síria não é somente uma catástrofe humanitária sem precedentes em todo o Oriente Médio árabe -- o que bastaria  amplamente para definir uma vergonha internacional. Ela é também a demonstração clara e evidente da impotência de nações que invocam ainda alguma forma de potência. Sob nossos olhares embaçados por tantas destruições, o cerco a Aleppo e o aniquilamento impiedoso dos oponentes a Bashar al-Assad, aos iranianos ou aos russos oferecem o espetáculo de um conflito que põe abaixo todo o sistema internacional, todas as engrenagens, todos os balizamentos de  um mundo que não controla em nada suas tensões nem suas extensões. Como um sifão gigante, a guerra da Síria criou um turbilhão infernal que arrasta aos abismos do nada todas as forças da razão, os cálculos militares e as lógicas diplomáticas.

A começar por esse centro de inação em que se tornou a ONU. À exceção dos diplomatas, quem se recorda de que a resolução 2254, votada nos últimos dias de 2015, pretendia preparar uma transição política em Damasco? Da mesma forma, quantas vezes a trégua acordada  entre Washington e Moscou, no passado 9 de fevereiro, foi violada? A que definição correspondem os termos "cores humanas" para Assad e os russos, já que eles se aproveitam disso para expulsar as populações civis das zonas que lhes dizem respeito?

Face a tanto cinismo, pelo menos os ocidentais poderiam se mostrar unidos. Ora, na semana passada dois aliados sinceros foram vistos mostrando suas divergências à vista de seus  adversários. Enquanto Barack Obama discorria sobre a complexidade crescente das relações mundiais e sobre a necessidade da paz, François Hollande marcou sua divergência com verdadeiros ímpetos de indignação e de censuras explícitas contra a falta de engajamento real dos americanos na Síria. Na mesma tribuna da ONU, Vladimir Putin insistiu no imperativo de defesa dos "Estados", segundo ele um horizonte que não pode ser ultrapassado, e denunciou os movimentos populares que ameaçam sua pseudoestabilidade.

O absurdo e a inutilidade do jogo das velhas potências compõem a segunda falência completa ligada ao desastre sírio. No momento em que as aspirações de toda a humanidade, reforçadas pela globalização, convergem para a cessação das matanças em massa, Washington e Moscou se comportam como superpotências anacrônicas. Obama e seu Secretário de Estado, John Kerry, não se privam de denunciar a Rússia como uma potência de uma outra época. Eles evidentemente não estão enganados, mas isso não resolve a contradição própria dos Estados Unidos: para quê serve o arsenal da maior potência militar de todos os tempos, se não for utilizado como o braço armado da diplomacia? Resultado: não se saberia melhor colocar em oposição duas ordens do mundo. Uma, aquela dos princípios humanos que tornam "inegociáveis" os valores ocidentais surge fraca, dividida, na verdade não operacional; a outra, que exalta as entidades pela força e pelo temor que inspiram, se mostra prestes a entrar em ação, mas  inteiramente dirigida contra os povos.

Por isso a  Rússia tem uma necessidade flagrante de vitória, e fará tudo para obtê-la ao preço de uma engrenagem que a aproxima cada vez mais das batalhas da Chechênia. A guerra da Síria não é apenas a guerra de Assad, é a de Putin, uma reconquista interior para fins de demonstração planetária. Face a essa tática que não sofre de limites humanitários nem territoriais (porque aí a partição seria o resultado), os Estados Unidos não parecem prontos -- em todo caso, não Hillary Clinton -- a mudar de  opinião. Eles não vêem o Oriente Médio senão como uma terra de derrotas sucessivas ...

[Como de praxe, nas abordagens de conflitos de que participam americanos e russos, a mídia ocidental costuma carregar mais nas tintas contra os  russos. No caso da  Síria, como se vê acima -- embora haja cargas fortes contra os EUA -- a história se repete. A participação americana na guerra síria é  tão condenável quanto a russa, e p'ra variar ambas estão em campos opostos. Olhando-se um mapa regional, vê-se que conflitos no Oriente Médio são conflitos fronteiriços à Rússia, o que explica, mas não justifica, o intervencionismo regional russo. O Oriente Médio é uma parte intrínseca e explícita da área de atuação geo-estratégica dos russos. Até onde isso é válido, é outra história. 

Os EUA têm interesses e preconceitos no mundo todo, o que torna seu intervencionismo planetário -- e quando há superposição ou continuidade dessas áreas estratégicas, como agora no Oriente Médio, o confronto entre EUA e Rússia é inevitável. As razões pelas quais os russos apoiam Assad e os EUA querem derrubá-lo prendem-se, a meu ver, muito mais ao antagonismo tradicional entre essas potências do que propriamente à conceituação de quem é bandido e de quem é mocinho. Tanto os EUA quanto a Rússia têm péssimo currículo no que se refere a intervenções militares fora de seus territórios. Os russos fracassaram redondamente na invasão do Afeganistão, que durou 10 anos (1979-1989). Líbia, Iraque e Afeganistão são exemplos claros de fracassos gigantescos dos americanos no Oriente Médio e redondezas.

Os Estados Unidos têm adotado posições um tanto ou quanto bastante  cínicas e hipócritas no que se refere à sua participação na guerra síria. Em março deste ano, Obama fez duras críticas aos seus aliados europeus e do Oriente Médio na intervenção militar na Síria, e  os culpou pelo fracasso da intervenção militar nesse país. 

Em entrevista publicada pela revista The Atlantic, Obama declarou que alguns países da Europa e do Golfo Pérsico são ‘oportunistas’ porque insistem que os EUA se envolvam em complicados conflitos que pouco têm a ver com seus interesses. "Nas últimas décadas, tem gente que adotou o hábito de nos empurrar para atuar e depois se mostram pouco dispostos a implicar-se”, destacou Obama. Não dá para engulir essa história de que os EUA possam participar, com dinheiro e vidas americanos, de intervenções militares "que pouco têm a ver com seus interesses". É óbvio que isso não existe, é impossível. Assim como não dá p'ra acreditar que os EUA se transformem em massa de manobra e marionetes de países como Arábia Saudita e França, para citar apenas dois.

O que é patente é que os EUA intervêm e/ou criam conflitos em lugares e países a milhares de quilômetros de seu território, o que faz com que não haja sequelas secundárias territoriais ou sociais dessas intervenções sobre os americanos -- ao contrário do que aconteceu na Líbia, no Iraque, no Afeganistão e agora na Síria. Nesses países o caos político e social, e a geração de hordas de refugiados, são as faces mais visíveis desses fracassos -- e quem paga a maior parte ou totalidade da conta disso, além evidentemente dos países locais direta e indiretamente envolvidos, é a Europa e não os EUA. ] 


A conta da Brexit: saída do Reino Unido poderá custar bilhões à União Europeia

[A guerra na Síria, as eleições americanas, a reunião do G-20, a crise infindável dos refugiados, o terrorismo -- tudo isso tem contribuído para tirar das manchetes o tema da Brexit -- saída do Reino Unido (RU) da União Europeia (UE) -- que está longe de ser formalmente deflagrado e mais ainda de ser concluído. E as implicações disso para ambos os lados estão também distantes de serem completamente dimensionadas. Traduzo a seguir reportagem de Peter Müller, Christian Reiermann e Christoph Sult sobre isto, publicada no  site Spiegel Online International. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

As primeiras-ministras Theresa May (Reino Unido) e Angela Merkel (Alemanha) em Berlim - (Foto: Getty Images)

Há vezes em que a política espelha a vida real. Ninguém sabe disso melhor que o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker, um homem que não faz segredo do fato de ter uma grande experiência, tanto privada quanto profissionalmente.

Daí porque ele tem uma ideia muito concreta de como os europeus devem agir quando o RU se afastar da UE. "Quando sua namorada o deixa, você não pode fixar-se nela para sempre", brincou ele recentemente com um grupo de pessoas próximo a ele. "Em algum momento, é a hora de buscar outras garotas". 

A analogia do chefe da Comissão deixa entretanto de levar em conta um ponto importante: uma relação é fácil de ser rompida se a dupla não estiver casada. Porém, quando um casamento de décadas termina, a separação pode na realidade tornar-se muito complicada -- e algumas vezes, sai extremamente cara para uma das partes.

Isso se aplica também à ligação de mais de 40 anos entre o RU e a UE. Em 23 de junho, a maioria dos britânicos votou pelo término de sua participação na UE, uma decisão de significância global. As ondas de choque que o voto britânico geraram nas capitais europeias e em Bruxelas não perderam seu impacto.

A vida continua?

Quando os líderes dos demais 27 membros da UE se reunirem no próximo dia 16 em Bratislava, capital da Eslovênia, para discutir as consequências da Brexit, o RU não estará mais à mesa. A chanceler alemã Angela Merkel guarda a esperança de que a reunião mande uma mensagem de um novo começo -- nas políticas de defesa e segurança, e nas medidas para criação de empregos, principalmente no sul da Europa. A vida continua, mesmo sem os britânicos: esta é a mensagem que a reunião tem de enviar.

Entretanto, os anos vindouros serão definidos mais pelo divórcio iminente do que por memorandos vagos de uma reunião de cúpula. Com a saída do RU, a UE perderá mais do que apenas força política e econômica -- ela verá também bilhões de euros desaparecerem de seu orçamento. Para a Alemanha, em particular, as consequências podem ser significativas.

"Não me peça para dizer-lhe qual será o fim do caminho", disse defensivamente Michel Barnier na semana passada, acrescentando que o processo sequer começou. O ex-ministro de Relações Exteriores francês e atual comissário da UE está encarregado de negociar com o RU em nome dos restantes membros da União, e desfruta da confiança da chanceler alemã Angela Merkel.

Na semana passada, Barnier falou publicamente pela primeira vez desde sua indicação como um convidado da usina de ideias (think tank) Bruegel, sediada em Bruxelas. O evento se realizou em um luxuoso museu automobilístico. Mas, se Barnier conseguir seu intento, isto pode logo ser tudo o que resta do Reino Unido (RU) na sede europeia em Bruxelas. "Estou esperando para começar. Estarei pronto amanhã para negociar, falando francamente".

Será um desafio difícil -- muito é tido como suposto ou garantido. Particularmente sensível será a questão quanto a se os cidadãos europeus terão ainda o direito irrestrito de morar e trabalhar no RU, um item crucial no mercado interno da União Europeia (UE). E, obviamente, há muito dinheiro em jogo.

10 bilhões de euros ou mais

Solicitados pela Comissão Europeia e pela Secretaria Geral do Conselho Europeu, os primeiros cálculos sobre quão cara pode ser a Brexit para os restantes 27 membros da UE acabam de ser concluídos. De acordo com um estudo, as receitas líquidas injetadas na UE a partir do RU por ano oscilam entre 14 e 21 bilhões de euros. Se subtrairmos disso o dinheiro que o RU recebe de volta de Bruxelas, o orçamento da UE encolheria em até 10 bilhões de euros por ano.

Redistribuição

entre os membros da UE em 2015, em bilhões de euros [infelizmente o gráfico do texto original não pode ser copiado].

Mas poderia ser até pior. A dedução às contribuições do RU para a UE negociadas por Margaret Thatcher levaram a uma economia de mais de 110 bilhões para os britânicos ao longo dos anos. Considerando que outros pagadores líquidos, incluindo a Alemanha, não queriam ser responsabilizados pelos custos adicionais que isso gerou, eles também receberam um desconto. Além da Alemanha, a Holanda, a Suécia, a Áustria e a Dinamarca atualmente desfrutam também de uma redução sobre o que têm pagar para o orçamento da UE. Após a Brexit, essa discordância pode se intensificar, especialmente tendo em conta que a França, que também é um pagador líquido, não recebe absolutamente nenhum desconto.

Um trabalho elaborado pelo Centro para Política [= plano de ação] Europeia (CEP, na sigla em inglês), previsto para ser apresentado em Berlim esta semana, mostra números de magnitude similar. O estudo abrangente sobre redistribuição na UE indica que os membros restantes da UE, em especial a Alemanha, estão enfrentando cargas financeiras adicionais significativas.

De 2008 a 2015, a contribuição do RU para a UE aumentou a cada ano, a ponto de tornar o RU o terceiro maior contribuinte líquido para o orçamento da UE, registra o estudo, com o montante médio anual pago pelo RU atingindo 6,5 bilhões de euros durante esse período. Os únicos países que pagam mais do que isso para a unidade europeia são Alemanha e França.

Em 2015, detectou o estudo, o RU estava em segundo lugar: os britânicos pagaram 12,7 bilhões de euros a mais sobre o que receberam da UE. Comparativamente, a Alemanha pagou 15,6 bilhões de euros. O trabalho concluiu também que os britânicos efetuaram uma contribuição per capita naquele ano maior do que a feita pela Alemanha naquele ano. "Após a saída do RU da UE, esse montante líquido terá que ser redistribuído entre outros estados membros", escreve o autor do relatório do CEP, Matthias Kullas. "Os outros principais pagadores líquidos -- especialmente Alemanha, França e Itália -- enfrentarão custos adicionais significativos".

A Brexit pode também levar a frustrações financeiras dolorosas para  o Banco de Investimentos Europeu (EIB, na  sigla inglesa), calculou Kullas. Se os britânicos retirarem sua fatia de capital no banco de desenvolvimento, isso resultará em uma redução financeira de bilhões de euros. O EIB seria forçado a fazer menos empréstimos -- empréstimos que são vitais para projetos de infraestrutura por todo o continente europeu.

De acordo com Kullas, os britânicos até agora têm suportado a maior carga no banco. Sua parcela no capital da instituição é de 16%, mas eles se beneficiam com apenas 8,8% dos empréstimos. Nenhum outro país tem um desequilíbrio maior que esse.

Um preço alto para a Alemanha

O ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble, da União Democrática Cristã, partido da chanceler Angela Merkel, já determinara a seus especialistas que calculassem o que a Brexit significaria para o orçamento federal da Alemanha. Em uma recomendação interna, seus assessores alertaram que a saída do RU da UE significaria "a perda do segundo maior pagador líquido" do grupo. Em seguida à Brexit, a participação alemã na força econômica total da UE subiria dos atuais 21% para 25%. A consequência disso seria "um aumento na participação alemã no financiamento do orçamento da UE de cerca de 4,5 bilhões de euros por ano em 2019 e 2020", disseram eles.

As hipóteses se basearam na estrutura financeira atual e não incluíram "nenhuma compensação concebível". Como um  exemplo, o estudo cita as possíveis contribuições futuras do RU se ele continuar a ter acesso ao mercado interno da UE. Os exemplos aqui foram a Suíça e a Noruega que, apesar de não serem membros da UE, contribuem para o orçamento da UE. As taxas são essencialmente o preço da admissão a uma das maiores zonas de  livre comércio do mundo.

Como membro do mercado interno, a Noruega tem que pagar cerca da metade do que seria exigido como contribuição caso fosse um estado membro pleno da UE. Se o RU optar por esse modelo, isso significaria uma redução menor para o orçamento total da UE.

O estudo do Ministério das Finanças da Alemanha fornece também outro exemplo: um denominado "Programa de Redução do Teto". O ministério de Schäuble considera possível que a UE tenha que adotar um significativo aperto de cinto em termos fiscais, caso o RU deixe de participar do orçamento do grupo.

Já por um longo tempo, especialistas do Ministério das Finanças alemão têm pensado seriamente sobre possíveis "novas prioridades" para os gastos da UE. "Como será formatado o orçamento da UE no futuro?", perguntava o título de uma conferência interna recente em Berlim, em meados de julho, para a qual o ministério de Schäuble convidou também altos funcionários da Comissão Europeia e outros estados membros.

Com o objetivo de reduzir a perda financeira, outros estados membros estão igualmente buscando meios e caminhos para reduzir os gastos da UE. A principal área sob revisão de especialistas fiscais é a da ajuda à agricultura que, perfazendo cerca de 55 bilhões de euros por ano, é uma das maiores rubricas do orçamento. Por exemplo, os pagamentos diretos que cada fazendeiro europeu recebe por cada hectare de terra que possui, sem quaisquer condicionamentos, passaram a ser criticados.

Até agora, ninguém em Berlim ou Bruxelas está seguro quanto a quais medidas serão usadas para proteger a UE dos desafios criados pela saída de um estado membro. Podem ser uma redução de gastos, contribuições continuadas por parte do RU ou uma taxa adicional para os estados membros restantes.

Negativa em Bruxelas

Enquanto o RU não tomar o passo legal de declarar sua intenção de deixar a UE acionando o Artigo 50 [do Tratado de Lisboa], altas autoridades seniores da UE estão basicamente ignorando o assunto [*]. Em uma reunião fechada da Comissão cidade belga de Knokke, de resorts de alto luxo, no final de agosto, nenhuma das altas autoridades da UE presentes trouxe à mesa a questão da Brexit. Na quarta-feira passada, entretanto, pelo menos um membro da comissão ousou apresentar o assunto para debate, com Günther Oettinger, da Alemanha, advertindo seus colegas de que eles precisam afinal começar a considerar os efeitos que a saída do RU pode ter sobre o orçamento da UE. Suas palavras caíram no vazio.

"Acho muito possível que os britânicos saberão exatamente o que querem no início das negociações, mas que a Europa ainda não será capaz de falar através apenas de uma voz", alertou recentemente Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu. As dificuldades começam com o fato de que ainda não está claro qual o tipo de relacionamento futuro os britânicos buscarão em relação à UE. Isto, entretanto, determinará o preço dos futuros laços. Está claro que o governo não obterá o acesso abrangente que aspira ao mercado interno europeu sem pagar um preço por isso. "Se houver participação em várias áreas de atuação, então a quantia esperada para ser liberada pelo país aumentará também", diz Jens Geier, do partido dos Social-Democratas, de centro-esquerda, que é vice-presidente do Comitê de Orçamento do Parlamento Europeu.

Um exemplo são os programas focados em promover pesquisa científica, como o Horizon 2020. Como deles participam universidades britânicas de destaque como Oxford e Cambridge, tanto os  europeus como os britânicos têm interesse em que a cooperação continue. Mas se os britânicos quiserem usufruir dos subsídios disponíveis através de programas como esse, terão também que continuar a financiá-los.

Além disso, programas caros da UE como os subsídios regionais estão vinculados ao mercado interno. Se Londres quiser continuar com sua participação neles, terá também que pagar sua quota para isso. "Os britânicos podem meter-se na estranha situação de pagar por políticas regionais mas não receber nada de volta, novamente", diz Geier.

Particularmente confuso para  a UE é o fato de que está programada para, em breve, revisar seu orçamento, a denominada Estrutura Financeira Multianual, com a Comissão planejada para anunciar suas sugestões nas próximas semanas. Um dos principais tópicos será verificar se os estados membros estão preparados para prover dinheiro adicional a Bruxelas, à luz dos novos desafios criados pela crise dos refugiados.

Permanecendo fiel a princípios

Se os britânicos continuarem a retardar sua saída da UE, surgirá uma situação complicada [*]. Os estados membros serão forçados a negociar as finanças do bloco ao mesmo tempo em que começam as negociações sobre a Brexit. Mas, como Bruxelas poderá determinar seu orçamento sem saber com quanto os britânicos contribuirão para ele?

Nesse sentido, as conversações atuais entre Bruxelas e a Suíça sobre um novo acordo estrutural podem gerar um modelo para os entendimentos com os britânicos. Um dos principais pontos de conflito ou impasse nas conversações é a denominada movimentação livre de pessoas, sobre a qual Bruxelas recusa quaisquer limitações. A mensagem para os britânicos é clara: o divórcio pode ficar caro, mas a  UE não pretende abandonar seus princípios.

____________
[*] No dia 2 de outubro corrente, a primeira-ministra britânica Theresa May anunciou que o Reino Unido vai iniciar formalmente o processo de desligamento da União Europeia (UE) até o fim de março de 2017. Isso significa a abertura de uma contagem regressiva de dois anos até que o processo da Brexit seja concluído

O calendário, no entanto, ainda não veio acompanhado de uma estratégia clara de negociação com Bruxelas. Londres segue afirmando que deseja um acordo de livre-comércio, mas sem livre circulação de europeus pela ilha.

No dia 5 de outubro, a primeira-ministra britânica antecipou "duras" negociações para a saída do Reino Unido da União Europeia e garantiu que seu governo trabalhará para conseguir que o país seja "independente". Vê-se, pois, que há ainda um longo e espinhoso caminho pela frente até que a Brexit seja definitivamente concluída.]