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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Como descobrir o Brasil por sua literatura, na visão argentina

[Traduzo a seguir artigo interessante de Natalia Blanc, na seção Ideas (Ideias) do jornal argentino La Nación. É sempre instrutivo ver como nos vêem no exterior fora dos estereótipos de mulatas, carnaval  e outras mesmices -- e, sem dúvida, a literatura é uma excelente janela para se observar um país. O texto apresenta um panorama atualizado de autores de projeção na nossa literatura, além de mostrar o sério e organizado interesse dos argentinos por nossa cultura. Tenho quase certeza de que nada semelhante existe no Brasil em relação à Argentina. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Um mapa em português: como descobrir o Brasil por sua literatura

Natalia Blanc -- La Nación, 24/01/2016

De Jorge Amado aos nomes mais novos, um guia de livros traduzidos para o castelhano para conhecer em profundidade, região por região, um país que tem muito mais a oferecer do que praias, a bossa nova e o futebol.

Em 1945, Jorge Amado publicou Bahia de Todos os Santos, um guia literário sobre o estado da Bahia em que ele descreve a cultura dessa região além de questões geográficas e turísticas. Também em romances do escritor baiano como Tenda dos Milagres e Gabriela, cravo e canela se percebe a alma, a poesia e a música de uma cidade como Salvador ou de pequenos povoados vizinhos. Assim como a música e o cinema refletem determinadas características sociais, é possível conhecer as diversas realidades de um país através da obra de autores clássicos e contemporâneos. De Joaquim Maria Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Oswald de Andrade e Graciliano Ramos a Silvano Santiago, João Gilberto Noll, Dalton Trevisan e Milton Hatoum, passando por Clarice Lispector, Chico Buarque e Ferreira Gullar: um guia literário para descobrir o Brasil, mais além do carnaval, do futebol e das praias.

"Há uma literatura brasileira atual na qual persiste um certo olhar regional, mas esse olhar já se transformou: é muito mais fragmentário e entrecruzado por outras problemáticas", explica Florencia Garramuño, diretora do Programa em Cultura Brasileira da Universidade de San Andrés.

Nesse olhar em que se entrecruzam o global e o local, a especialista situa autores como João Gilberto Noll, que nasceu em Porto Alegre e em suas histórias parte dessa cidade do Rio Grande do Sul para chegar a Londres (Lorde) ou Boston (Bandoleiros); o poeta Carlito Azevedo (do Rio de Janeiro à Ucrânia ou às colinas de Berkeley); Teixeira Coelho (São Paulo, Buenos Aires, Paris, Portugal); e Age de Carvalho (Amazonas e Alemanha).

Nos últimos anos, várias editoras argentinas começaram a publicar no país títulos fundamentais da literatura e da crítica brasileiras, com traduções muito boas para o espanhol. Corregidor abriu o caminho em 1999, com a coleção Vereda Brasil, que é dirigida por Garramuño, Gonzalo Aguilar (UBA - Universidade de Buenos Aires) e Maria Antonieta Pereira (Universidade Federal de Minas Gerais). Entre os 28 títulos que publicaram desde então, figuram os nomes mais representativos. Explica Aguilar: "Há escritores canônicos e novos. Assim, aparecem Oswald de Andrade, um dos vanguardistas mais importantes do século XX, autor de Escritos antropófagos [Manifesto Antropófago (ou Antropofágico), em português]; Graciliano Ramos (Vidas Secas, onde apresenta a problemática do Nordeste);  Clarice Lispector, que tem sua própria coleção; Silvano Santiago (Em liberdade) ou Carlito Azevedo (Monodrama).

Outros títulos emblemáticos dessa coleção pioneira são Poema sujo, de Ferreira Gullar, poeta, dramaturgo e crítico de arte nascido na cidade de São Luiz, capital do estado do Maranhão, que escreveu esse livro durante seu exílio em Buenos Aires na década de 1970. E Ubirajara, de José de Alencar, da zona do Ceará, um dos escritores mais destacados do romantismo brasileiro.

"Na literatura contemporânea o que mudou foi o conceito de representação, que foi substituído por uma ideia de apresentação de problemáticas contemporâneas que põem em questão a própria noção de realidade", continua Garramuño. A realidade, então, aparece em muitos dos autores brasileiros contemporâneos sob diferentes lupas. Podem ser histórias urbanas como a de Mãos de Cavalo (ed. Interzona), de Daniel Galera, nascido em Porto Alegre, que com este romance que descreve um percurso veloz de bicicleta pelas ruas de sua cidade natal foi finalista do prêmio Jabuti, o mais importante do Brasil. Ou um texto sobre a identidade e a memória, como Relato de um certo Oriente (ed. Beatriz Viterbo), o primeiro romance de Milton Hatoum, descendente de libaneses oriundo da cidade de Manaus, cujas tramas transcorrem nessa cidade, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

"A própria história do Brasil permitiu essa pluralidade de vozes. Mas pluralidade não implica um olhar provincial, mas sim, em alguns casos, uma certa pretensão universalista. Pode-se pensar na obra de Silvano Santiago (nascido em Minas Gerais) ou nos romances de Hatoum e observar uma espécie de tensão dialética entre o local e o universal", diz Aguilar. O crítico e docente ressalta uma tendência forte nos últimos anos, vinculada à produção literária das favelas. "Diferentemente do que ocorre na música popular, onde há muita mistura e as fronteiras são mais flexíveis, a literatura do Brasil permaneceu fechada durante muito tempo. Mas, nos últimos anos, produziu-se uma mudança muito forte com respeito a autores marginais, que começaram a ter uma participação importante tanto na esfera estatal como na sociedade civil. Assim surgiu a literatura vinculada ao marginal [no sentido de "à margem"], que busca construir uma comunidade e articular a possibilidade de uma literatura alternativa à dominante. Essa luta se dá fundamentalmente em São Paulo".

Enquanto em um romance como Eles eram muitos cavalos (ed. Eterna Cadencia) Luiz Ruffato narra um dia no ano 2000 na imensurável cidade de São Paulo, em Capão Pecado, de Ferréz, é relatada a vida real no interior da favela. Na opinião de Aguilar, "em Ferréz há uma forte identificação local como uma reflexão sobre o local de origem. Além de publicar seus livros a partir da favela, Ferréz conseguiu impor-se como uma marca: ativou blogs, desenhou camisetas com motivos de orgulho bairrista, construiu toda uma estratégia mais além do literário. É um fenômeno cultural dentro da sociedade capitalista". A circulação da literatura não oficial em São Paulo se dá nos saraus, serões literários que se difundiram em Buenos Aires na Feira Internacional do Livro de 2014.

No Rio de Janeiro, a  problemática das favelas foi exposta ao mundo no livro Cidade de Deus, de Paulo Lins, que chegou ao cinema em 2003 em um filme dirigido por Fernando Meirelles. A história viajou da favela onde nasceu Lins para Hollywood sem escalas: o filme teve quatro indicações ao Oscar. Do local ao global.

Da costa à selva

Dez títulos e dez autores que revelam dez regiões brasileiras.


Ilustração: La Nación [Clique na imagem para ampliá-la. Aqui, a autora do texto cometeu um engano: colocou Graciliano Ramos como pernambucano, quando na realidade ele nasceu em Alagoas.]

No mapa acima (mantive os títulos que os livros receberam em espanhol -- entre parênteses está o nome da editora):

AMAZONAS (Manaus)  -- Relato de un cierto Oriente (Beatriz Viterbo) - Milton Hatoum 

MARANHÃO -- Poema sucio (Corregidor) - Ferreira Gullar 

CEARÁ -- Ubirajara (Corregidor) - José de Alencar

PERNAMBUCO -- Infancia (Beatriz Viterbo) - Graciliano Ramos (que na verdade era alagoano e não pernambucano)

BAHIA -- Tienda de los milagros (Emece) - Jorge Amado

RIO DE JANEIRO -- Padre contra madre (Eterna Cadencia) - Joaquim Maria Machado de Assis

SÃO PAULO -- Ellos eran muchos caballos (Eterna Cadencia) - Luiz Ruffato

RIO GRANDE DO SUL (Porto Alegre) -- Bandoleros (Adriana Hidalgo) - João Gilberto Noll

PARANÁ (Curitiba) -- La trompeta del ángel vengador (Mardulce) - Dalton Trevisan

MINAS GERAIS -- Gran Sertões: Veredas (Adriana Hidalgo) - João Guimarães Rosa



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A tal da terceira idade

Recentemente, Ruy Castro e Cora Rónai escreveram crônicas sobre a chamada terceira idade, com diferentes abordagens. Ruy Castro voltou ao tema mais ou menos duas semanas depois (denunciando inclusive deturpações de seu texto original que circularam bastante na internet). Os textos, como sói acontecer com esses dois renomados e requintados escritores, são muito bem escritos, mas pesa neles um certo pessimismo e um certo mau humor com essa fase da vida. Acho que ambos estavam num mau dia, com o humor em baixa, o que acontece aos melhores dos mortais às vezes mais do que se espera e deseja.

A tal da terceira idade é uma experiência fascinante, não há a menor dúvida. O "fascinante" evidentemente só se aplica se houver predisposição positiva para enfrentá-la, caso contrário ela certamente será um calvário e um atalho para um fim triste. Voltarei a isto mais adiante.

Como toda experiência, a terceira idade nos traz surpresas positivas e negativas. Entre estas últimas a mais contundente é sem dúvida o enorme descompasso entre a mente e o corpo: este envelhece e se deteriora muito mais rápido que aquela (volto a frisar que isto só se aplica a quem entra mentalmente "inteiro" na terceira idade). Essa enorme defasagem nos impõe desafios extras, às vezes sutis outras vezes evidentes (mais isto que aquilo), que nos obrigam a cuidados adicionais obrigatórios, dentro e fora de casa. A começar pelo lado físico. Dentro de casa, por exemplo, qualquer altura acima da ponta dos pés é um forte convite a um tombo de resultados imprevisíveis, e uma escada tem que ser subida e descida degrau a degrau. Atravessar a rua, só com tempo de folga no sinal verde. Forçar a barra é uma burrice inconsequente e muito arriscada. Afobação não combina com nada, muito menos com a terceira idade.

Esse mesmo distanciamento mente x corpo nos reserva surpresas que nos espantam: por exemplo, a primeira vez que alguém lhe cede o lugar numa condução é um impacto. Você logo pensa: caramba, estou tão velho assim?!

A terceira idade nos provoca reações paradoxais. Nos tornamos mais compreensivos e tolerantes com certas coisas, mas absolutamente irritadiços e intolerantes com outras, em especial com aquelas que traduzem desrespeito, falta de educação, falta de civilidade e ausência de espírito comunitário -- estas grosserias nos levam (ou me levam) à beira da apoplexia. Onde isso acontece? Em qualquer lugar que tenha pelo menos dois brasileiros juntos. Lugares mais comuns: metrô, cinema, shoppings ... Isso ocorre -- ou pelo menos ocorreu -- em certo grau também com Ruy Castro e Cora Rónai, como se observa nos textos acima citados.

Mas, a terceira idade é também muito enriquecedora. A bênção dos netos é uma emoção permanente, renovada e indescritível. Conviver com essas criaturas maravilhosas ultrapassa qualquer expectativa. A saudável "competição" com os pais deles nas funções de educá-los e "deseducá-los" por si só vale o ingresso.

A terceira idade nos apresenta também, de maneira clara e inequívoca, a perfeita noção da finitude da vida. E este é um conceito muito desafiador e potencialmente muito perigoso. Uma mente despreparada e passiva pode levar a uma decisão profundamente desastrosa de, por exemplo, interromper aprendizados, realizações e conquistas sob a ótica absurdamente distorcida de que "não faz sentido acumular mais acervos, se o fim não está lá tão distante". Nada mais estapafúrdio! A vida é tão valiosa, rica e sublime que deixar de desfrutá-la sempre e permanentemente na plenitude da capacidade física e mental de cada é um erro ao mesmo tempo injustificável e imperdoável -- e que sai incrivelmente caro.

A terceira idade nos traz também uma descoberta no mínimo intrigante: o enorme poder de um suspiro, de um lamento ou de um gemido ... O que isso ajuda a vencer uma chatice é impressionante ...

Não vou entrar na seara dos problemas físicos e psicológicos acarretados pela terceira idade, eles foram suficientemente abordados por Ruy Castro e Cora Rónai. Apenas acho que, por serem inevitáveis e inexoráveis vários deles, a melhor filosofia é fazer de cada limão a melhor limonada possível. Simples assim.

O grande problema de que tenho conhecimento por leitura e por ouvir dizer  quanto à terceira idade são o desconforto e a extrema dificuldade de adaptação a ela experimentados por quem se aposenta. Vou abordar o problema no caso masculino, com o qual mais convivo e também por minha própria experiência. As mulheres, por sua própria natureza, costumam se sair melhor que nós também nessa fase da vida.

Tenho conhecidos e amigos qua caíram num vácuo e até em depressão após a aposentadoria, simplesmente por perderem a noção do que fazer da vida. Sei de casos até de suicídio por isso. Não há uma panaceia para o problema, cada pessoa é um caso, mas há algumas regras básicas de aplicação universal.

Viver intensamente a vida familiar. O "intensamente" não implica necessariamente fazer tudo junto, mas compartilhar tudo ao máximo (os bons e os maus momentos), dialogar frequentemente, viajar em grupo sempre que possível, reunir-se sempre que possível, estreitar ao máximo os laços internos. A força de uma família unida é insuperável e insubstituível. Uma base familiar unida, companheira e sólida é um gigantesco passo para uma velhice serena e feliz.

Manter a mente sempre em atividade e aberta a novas experiências. Um dos grandes medos de quem ingressa na terceira idade é a chegada do "alemão" (Alzheimer), um hóspede indesejável que não sai mais da casa que o hospeda. Esse é um mal horrível, infelizmente ainda sem cura. Sabe-se que certas células já se predispõem a "agasalhá-lo" já na meia-idade, ou até antes. Mas sabe-se também que manter a mente permanentemente ocupada e desafiada tem um tremendo poder de adiar ou até mesmo de eliminar a vinda do alemão.

Uma primeira e urgente preocupação/iniciativa de quem está para se aposentar, ou recém iniciou sua aposentadoria, é não só manter seus hobbies e distrações/ocupações preferidos, mas procurar permanentemente diversificá-los e expandí-los. Quem não os tem, necessita criá-los impreterivelmente, não importa seu valor absoluto ou relativo. Música, leitura, cinema, teatro, museus, gastronomia  (que pode ser boa sem assaltar o bolso), caminhadas, debates são sensacionais para isso. Atividades outras como por exemplo carpintaria, jardinagem, colecionar qualquer coisa, aprender e praticar idiomas, fazer cursos diversos e enriquecedores, explorar ao máximo a internet (sem dela ficar escravo) para expandir horizontes de informação e cultura, escrever, fazer passatempos que desafiam sua mente [palavras cruzadas (em mais de um idioma, se for de sua capacidade), jogos diversos (há por exemplo dois jogos interessantes que distraem e ensinam ao mesmo tempo: o freerice [que tem as opções Humanidades (Pinturas Famosas/Literatura/Fome no Mundo/Frases Famosas); -- Matemática (Tábuas de Multiplicação/ Matemática Básica (pré-Álgebra); -- Aprendizado de Idioma (Alemão/Espanhol/Francês/Italiano/Latim); -- Ciências (Anatomia Humana); -- Inglês (Vocabulário/Gramática); -- Química (Símbolos Químicos -- lista completa)/Símbolos Químicos (básicos); -- Geografia (Marcos Mundiais/Identificação de Países em Mapas/Capitais Mundiais/Bandeiras do Mundo)/Preparação para Exame] e o Letroca (um jogo para, a partir de letras embaralhadas, encontrar as diversas opções de palavras possíveis, com tempo marcado -- pode ser jogado em português, espanhol e inglês)].

Além de alguns dos hobbies acima, acrescentei um que que me ocupa intensamente e me dá uma enorme satisfação, que foi criar e manter este blogue, o BomLero -- escrito unicamente em português, ele está neste exato momento em que escrevo com 384.176 acessos, com seguidores em países tão diversos como Vietnã, Coreia do Sul, EUA, Irlanda, Israel, Alemanha, Espanha, Índia, Eslováquia, Polônia, Rússia, Ucrânia, Portugal, México, Itália e outros (o Google Blogger atualiza e informa isso o tempo todo). Decidi fazê-lo sem enfoque único e específico, mas aberto como um jornal, porque acredito que isso me permite ser mais útil aos meus seguidores ao mesmo tempo em que me apresenta um desafio maior e constante, que é o de buscar notícias diferenciadas e interessantes em fontes diversas que consigo dominar.

Combater o sedentarismo. Cerca de 70% da população mundial sofrem os riscos do sedentarismo, responsável por mais de 50% das mortes por infarto. A falta de exercício pode ser um fator de risco tão grave para o coração quanto a hipertensão, diabetes, tabagismo, colesterol alto ou obesidade - e, se associado a esses, pior ainda. Para se ter uma ideia, de acordo com os dados da Organização Mundial de Saúde, 70% da população mundial são de sedentários. E a falta de atividade física, somada a uma alimentação não-balanceada, é responsável por 54% do número de mortes por infarto. Já um estilo de vida ativo pode ajudar a reduzir o risco de morte em até 40%.

"A atividade física ajuda a baixar os níveis de colesterol e melhorar o controle do diabetes, além de auxiliar no equilíbrio da pressão arterial e melhorar a capacidade respiratória", explica o cardiologista Marcos Bubna. "São atividades simples, como caminhada, corrida, natação ou andar de bicicleta, que podem salvar muitas vidas", completa.

O ideal, segundo os parâmetros da Sociedade Brasileira de Cardiologia, é praticar uma atividade aeróbica pelo menos quatro dias por semana, com um mínimo de 40 minutos de duração, que podem ser divididos em dois ou três períodos diários. "Antes de iniciar seu programa de atividade física é muito importante um bom check-up do coração, um eletrocardiograma, o teste de esforço e a consulta com um cardiologista. Esse cuidado pode dar muito mais segurança ao exercício e para prevenção cardíaca", reforça Bubna.

Ficar muito tempo sentado é considerado hoje tão maléfico quanto o tabagismo. Um estudo australiano publicado em outubro de 2012 no British Journal of Sports Medicine comparou ficar sentado e o tabagismo. De acordo com o estudo, cada hora de televisão que as pessoas assistem, presumivelmente sentadas corta cerca de 22 minutos de sua vida útil, enquanto estima-se que os fumantes encurtam suas vidas por cerca de 11 minutos por cigarro.


Veja algumas dicas simples para deixar o sedentarismo de lado, respeitando sempre as eventuais limitações de  cada pessoa : 

- Adotar quatro dias na semana para fazer uma caminhada -- além dos benefícios para o coração, a prática ajuda no bem-estar;
- Levantar-se para falar com alguém que esteja próximo, ao invés de chamá-lo pelo telefone;
- Aproveitar toda e qualquer oportunidade para se locomover andando;
- Para subir ou descer um andar, prefira a escada a menos de algum impedimento de força maior.

Caminhar é o mais simples e acessível dos remédios, e seguramente um dos mais prazerosos. Lhe permite várias opções mentais junto com o exercício físico: não pensar em nada e só curtir o entorno (a melhor alternativa), ou pensar em planos e coisas leves. Levar problemas para a caminhada é besteira, sai o tiro pela culatra. Se você tiver um desses relógios que registram o batimento cardíaco verá que isso não falha: se você caminhar pensando em problemas que o atormentam, o coração inevitavelmente se acelera.

Não veja a terceira idade como um castigo. Enfim, a terceira idade tem aspectos e prazeres que igualam ou facilmente superam as mazelas físicas e outros problemas que quase sempre ou inevitavelmente traz, é só saber encontrá-los e desfrutá-los. Otimismo e alto astral são indispensáveis para um suave navegar nesse oceano especial da vida, e em qualquer outro, claro. E isso está longe de ser demagogia ou algo para inglês ver. Basta, por exemplo, ouvir a música e meditar a letra de "Tocando em Frente", de Almir Sater e Renato Teixeira, que tem versos simplesmente geniais e definitivos como "Cada um de nós compõe a sua história/Cada ser em si carrega o dom de ser capaz, de ser feliz".


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A genialidade de Millôr Fernandes (III)

Ver postagem anterior.

A fonte desta postagem continua sendo o livro "Millôr Definitivo - A Bíblia do Caos" (L&PM Pocket, 1ª edição 1994, reimpressão, 2013). O que estiver entre colchetese em itálico é de minha responsabilidade.


Millôr Fernandes - (Foto: Google)

Batota [fraude em jogo]

Além de transformarem o Brasil num cassino, viciaram a roleta.

Bêbado

O bêbado é o subconsciente do abstêmio.

Beber

‣ Há pessoas que só bebem em circunstâncias muito especiais. Mas consideram especiais todas as circunstâncias em que bebem.

‣ Deve-se beber moderadamente, isto é, um pouco todos os dias.Isso não sendo possível, beber muito, sempre que der. Mas  o  abuso, como a moderação, tem que ser aprendido. O amador que abusa tende a ficar desabusado. (Decálogo do bom bebedor, 1971).

‣ Beber é ruim. Mas é muito bom.

Belle-époque

Não tinham água encanada, sabonete, cinema, permissividade, CD; eram de uma formalidade e hipocrisia extraordinárias, acreditavam no capital como um direito divino. Bonita época!

Besteira

Sempre houve muita besteira no mundo. Mas, no momento em que a tecnologia da comunicação se juntou com o enrolo ideológico, as besteiras se tornaram mais amplas e mais sinistras.

Brasil

‣ Brasil, país do faturo.

‣ Brasil: país governado por um gigantesco tour-de-farsa. 

‣ Cabral descobriu o Brasil quando estava procurando o acaso.

‣ É evidente que Deus, o supremo arquiteto, projetou o Brasil como uma sala de estar. Mas os proprietários preferem usá-lo como depósito de lixo.

‣ O Brasil é, sempre foi, uma empresa unifamiliar.

‣ Este é o país onde há a maior possibilidade de se criar um mundo inteiramente novo. Caos não falta.

‣ Responda depressa: por que o Brasil tem que ser sempre assim? Qual a justificativa para tanta assimneza?

‣ A sociedade brasileira é uma das mais curiosas do mundo. Mal tem condição de te dar um emprego de salário mínimo. Mas, se um pobre transgride suas regras, bota-o numa prisão que custa seis salários mínimos.

‣ Brasil -- desse mato não sai coelho. Sai é Jacaré, Antônio Carlos Magalhães, cobra, José Sarney, hiena, Paulo Maluf ... (1987)

‣ Brasil, condenado à esperança.

‣ Brasil, país do futuro. Sempre.

‣ Este governo é, no máximo, medíocre material pruma comédia de costumes. (1984)

‣ O Brasil está cada vez mais cheio de pobremas.

Brasileiro cordial

O brasileiro é cheio de cordialidade e bom coração. Quando você encontrar por aí um cafajeste roubando e matando pode perguntar imediatamente "Who are you?", porque se trata certamente de um gringo.

Brasília

‣ Brasília: o maior crime político cometido contra o Brasil.

‣ Brasília é o desnecessário tornado irreversível.

‣ Brasília prova; os países também se suicidam.

‣ Brasília desestimula qualquer um a fazer o que sabe, mas estimula todo mundo a meter a mão no que bem entende.

‣ Brasília foi o marco da descapitalização (em ambos sentidos) do país.

‣ Nas noites de Brasília, cheias de mordomia, todos os gastos são pardos.

‣ O cavalo é um elefante projetado pelo Planalto. Na hora do acabamento tinham desaparecido vinte por cento. (E o pessoal ainda anunciou o fato como uma vitória. Vários projetos anteriores de cavalo resultaram em coelhos e tartarugas.)

Cara de pau

Cara de pau mesmo eu vi ontem. O coroa da Mercedes com ar refrigerado tentando conquistar a mulatinha bonita, em pé no ônibus.

Características

‣ Disse o assessor: "Meu governador é um verdadeiro rato de biblioteca". Disse o assessor de outro governador: "Pois o meu nem entra em biblioteca".

‣ Collor não só tem aquilo roxo, como é pau pra toda obra, sempre com o Cooper feito. (1991)

‣ Nada une mais os brasileiros do que a corrupção. Nada os divide mais do que a probidade.

Carapinha

Carapinha é uma cabeleira cheia de problemas raciais.

Caráter

‣ Caráter é aquilo que faz você melhor do que é. Ou impede você de ser pior, sei lá.

‣ Se o mundo fosse feito à base de caráter, ia faltar muito material.

‣ Tanta plástica no rosto, no seio, na bunda e ninguém aí pra inventar uma plástica no caráter.

Causa e efeito

O homem põe, e a mulher fica indisposta.

Causa-mortis 

Cinquenta por cento dos doentes morrem de médico.

Cautela

‣ Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, desde que a galinha não seja alimentada a ração com aditivo químico.

‣ É porque quase todos agimos com muita cautela que uns poucos podem ser extremamente audaciosa.

Cavalo

‣ O cavalo é o mais belo animal na criação; sem querer desfazer da pessoa que o monta.

‣ Não resta a menor dúvida de que cavalo é um ser humano como outro qualquer, sem desfazer do presidente que o monta. (Sobre o general João Figueiredo, apaixonado equinólogo. 1983)

Cego

Em terra de cego quem tem um olho não diz a ninguém que o rei está nu.

Cidadania

‣ Cidadão, não deixe de votar. A corrupção precisa de você.

‣ Não pergunte o que o Brasil pode fazer por você. Pergunte o que ele pode fazer por mim. (1965)

‣ Para defendermos os direitos civis temos antes que ser civis direitos.

Cidadão

‣ Cidadão, neste país em que não há qualquer cidadania, passou a significar só cidade grande.

‣ Não pergunte o que seu país pode fazer por você -- pague a Comlurb, o IPTU, o IPVA e os 72 impostos gerais e vê se não chateia.

‣ Um pouco de esquerda, um pouco de direita, um pouco de individualismo, em suma, total hesitação, eis o cidadão ideal para ser robotizado.

Ciúme

‣ O ciúme é o álibi de quem não ama.

‣ Ovo de Páscoa: o motivo por que o galo matou o pavão.

Civil

Sou civil de nascença.

Civilização

‣ Devido a constantes provocações, mais cedo ou mais tarde as nações civilizadas são obrigadas a atacar os povos bárbaros.

‣ Quando é que os milicos vão admitir que civilização vem de civil?

‣ A civilização começou quando todos os seres humanos começaram a comer em horas certas e não mais apenas quando tinham fome.

‣ Chama-se de civilização o esforço conjunto da humanidade durante milhões de anos para se autodestruir estupidamente.

‣ Nesse ritmo de incompetência as civilizações tropicais vão acabar morrendo de frio.

Civismo

Criança, ama com fé e orgulho a terra em que nasceste: não verás jamais outro loteamento como este.






sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A genialidade de Millôr Fernandes (II)

Ver postagem anterior. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.

Para esta postagem me baseei no livro Millôr - Hai-Kais (Ed. L&PM Pocket, 2014 -- www.lpm.com.br), que recomendo fortemente.

Hai-Kus ou Hokkus

(pequena introdução para os não iniciados) -- Millôr Fernandes

O Haiku aparece em geral nos nossos dicionários com a grafia de Hai-Cai por dois motivos básicos: o primeiro, a guerra que os filólogos patrícios resolveram deflagrar à linda letra K, pelo simples fato dela ter aquele ar agressivamente germânico e só andar com passo de ganso. A batalha é, evidentemente, perdida, pois a letra teima em permanecer na língua, inclusive firmando-se na imagem, hoje quase mítica, de JK, também artificialmente banido da vida política brasileira.

O segundo motivo do não uso da grafia Haiku é a homofonia da segunda sílaba com outra palavra da língua portuguesa, designativa de certa parte do corpo de múltipla importância fisiológica. Essa palavra os filólogos só usam a medo. Quando a colocam no dicionário fazem sempre questão de acrescentar (chulo). Assim, entre parênteses.

Resolvi -- e não entro em detalhes para não alongar esta explicação -- usar a grafia (comprometida) Hai-Kai, para as composições deste livro. O Hai-Kai é um pequeno poema japonês composto de três versos, dois de cinco sílabas e um -- o segundo -- de sete. No original não tem rima, que geralmente lhe é acrescentada nas traduções ocidentais. A época do aparecimento do Hai-Kai é controversa, e sua popularização deu-se no século XVII, sobretudo através da produção de Jinskikiro Matsuo Bashô, simbolista inspirado profundamente em impressões naturais (sobretudo paisagísticas) e adepto do Zen: 

A nuvem atenua
O cansaço das pessoas
Olharem a lua.

Em cima da neve
O corvo esta manhã
Pousou bem de leve.

Contudo, há quem afirme que Bashô foi ultrapassado, tanto em popularidade quanto em inspiração, pelo poeta do século posterior (XVIII) Yataro Kobayashi (Issa):

Vem cá passarinho
E vamos brincar nós dois
Que não temos ninho.

Bem hospitaleiro
Na entrada principal
Está o salgueiro.

Apesar de sua forma frágil, quase volátil, dependendo da imagística mais do que qualquer outra poesia, uma implosão, não uma explicitação, o Hai-Kai é, contudo, uma forma fundamentalmente popular e, inúmeras vezes, humorística, no mais metafísico sentido da palavra:

Roubaram a carteira
Do imbecil que olhava
A cerejeira.

Eu vi meu retrato
Bem no fundo do lago
Diz o olhar do pato.

Meu interesse pelo Hai-Kai como forma de expressão direta e econômica começou em 1957, quando eu escrevia uma seção de humor (Pif-Paf) na revista O Cruzeiro.

Passei a compor alguns quase semanalmente usando, porém, apenas os três versos da forma original, não me preocupando com o número de sílabas. Os Hai-Kais deste livro foram compostos entre 1959 e 1986. 

Hai-Kais de Millôr Fernandes

Prometer
E não cumprir
Taí viver.


Morta, no chão
A sombra
É uma comparação.


No aeroporto, puxa-sacos
Se despedem
De velhacos.


Nunca tive medo, gente,
Se, onde há perigo,
Alguém vai na frente.


Esnobar
É exigir café fervendo
E deixar esfriar.


Eu vim com pão, azeite e aço;
Me deram vinho, apreço, abraço:
O sal eu faço.


Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a Lua.


À nossa vida
A morte alheia
Dá outra partida.


Envelhecido, cheio de saudade
Ando na multidão
Sempre da mesma idade.


É tudo natural:
A galinha -- poedeira
O galo -- teatral.


Fiquei bom da vista!
Depressa,
Um oculista!


É meu conforto
Da vida só me tiram
Morto.


O umbigo
Devia ser
Só pro amigo.


A caveira é bem rara
Pois não pensa nem fala:
Só encara.


A girafa, calada,
Lá de cima vê tudo
E não diz nada.


Eis o meu mal
A vida pra mim
Já não é vital.


Com que grandeza
Ele se elevou
Às maiores baixezas!


Probleminhas terrenos:
Quem vive mais
Morre menos?


O cético sábio
Sorri
Só com um lábio.


Não esmaguem a barata
Sua nojeira
É inata.


Por fim se descobriu;
O soldado desconhecido
É um civil.


Pensa o outro lado:
Só quem tem fama
É difamado.


Lá está o magistrado
Com seu ar
De injustiçado.


O inacreditável é crível
Mas o impossível
Não é possível.


Goze.
Quem sabe essa
É a última dose?


Há colcha mais dura
Que a lousa
Da sepultura?


Maravilha sem par
A televisão
Só falta não falar.


Com pó e mistério
A mulher no espelho
Retoca o adultério.


O irmão siamês
É um invento
Chinês.


O pato, menina,
É um animal
Com buzina.


Nada tem nexo.
Tudo é apenas 
Um reflexo.


Coisa rara:
Teu espelho
Tem a minha cara.


Nos dias quotidianos
É que se passam
Os anos.


Na vida, o gozado
É que nem o palhaço
É engraçado.


Diz pensar livre pensar.
Livre-pensar
É só pensar.


Vê-se, pelo trajar,
Que seu estado civil
É militar.


É impudico
Só ter fortuna
O rico.


Mulatas na pista,
Perco a vontade
De ser racista.


Santo de verdade:
Um egoísta
Da generosidade.


Pra ser feliz de verdade
É preciso encarar
A realidade.


Será que o doutor
Cobra pela cura
Ou cobra a dor?


Na penumbra, a sós.
Quando a luz se acende
Já não somos nós.


Democracia é um espeto!
Pra mim, é preto no branco
Pra ele, é branco no preto.


Se só ouvir
Eu nunca vou
Me repetir.


Por que lutam os bravos?
Querer liberdade
É coisa de escravos.


Meu protesto
É só andar com pessoas 
Que detesto.


Nunca esqueça:
A vida
Também perde a cabeça.



quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Cultura e acervos culturais, valores também descuidados e desprezados pelos governos petistas

[Sei que a petralhada vai se aborrecer e se irritar com mais esta postagem mas, como já dizia Vicente Matheus (o folclórico ex-presidente do Corinthians), quem está na chuva é para se queimar. Essa curriola não pode achar que depois de 12 anos desgovernando o país e acobertando/estimulando negociatas, mutretas e malfeitos pode continuar essa palhaçada de jogar sempre a culpa nos governos de FHC. O país não é composto apenas de viciados no número 13, que dirigem o país só olhando pelo retrovisor e por isso vivem castigando o Brasil com trombadas, derrapagens e capotagens de todos os tipos e formas na economia, na educação pública, na saúde pública, no transporte público, na segurança pública, na infraestrutura em geral, na política externa, etc, etc . "Procurando FHC" é o filme preferido da petralhada.

Os dois primeiros governos do PT foram comandados por um cidadão, o NPA (Nosso Pinóquio Acrobata), que por força do berço resolveu usar seu caso pessoal de baixa escolaridade como um exemplo a ser seguido pela população brasileira e não como uma (honrosa) exceção a ser evitada. Já o terceiro governo petista ficou sob as rédeas de Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saia), uma pessoa que jamais deixou transparecer qualquer grau de sensibilidade para qualquer coisa que envolvesse educação e cultura. Sua antológica incapacidade de se expressar de maneira inteligível compõe seu perfil de troglodita. Para a madame, cultura é frescura da burguesia.

A Biblioteca Nacional (BN) -- a maior da América do Sul e a 7ª maior do mundo -- é um exemplo requintado, acabado e inequívoco de como a cultura lato sensu é considerada um produto absolutamente supérfluo pelo PT e seus governos. Para a petralhada, cultura é mania da "elite branca" -- a tal que vaiou Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saia) na abertura da Copa do Mundo, na tosca avaliação da própria vaiada. Em 23/11/2013 fiz uma postagem denunciando o abandono em que se encontrava havia mais de um ano o prédio principal da BN na Cinelândia (Rio de Janeiro): sistema de ar condicionado pifado, instalações elétricas precárias, goteiras, coleções raras e valorosas se deteriorando, etc, etc. Em outra postagem, de 27/12/2012, mostrei que o governo também petista de Jacques Wagner, na Bahia, deixara a maior parte das instalações do Arquivo Público do estado sem luz elétrica durante três anos. 

No rol das besteiras que fez na área da cultura, Dilma NPS nomeou Ana Buarque de Hollanda para essa pasta, crente de que pelo fato de ser irmã e Chico Buarque aquela senhora necessariamente entendia do assunto -- o resultado foi um fracasso retumbante. Desde setembro de 2012, o Ministério da Cultura é chefiado por Marta Suplicy, especialista apenas no uso de botox em si mesma. Sua incompetência e sua desídia no tema cultura são retratadas no abandono criminoso de instituições como a BN e, last but not least, no financiamento de "adaptações" de texto de Machado de Assis e do romance A Pata da Gazela, de José de Alencar, uma estupidez com o mais genuíno DNA petista.

Agora, o jornal O Globo denunciou em 07 de outubro corrente o estado de calamitoso e irresponsável abandono em que se encontra o prédio da BN na zona portuária do Rio de Janeiro.  Reproduzo a seguir essa reportagem.]

Obras raras da Biblioteca Nacional na Zona Portuária são destruídas por mofo e até ratos

Alessandro Lo-Bianco -- O Globo, 07/10/2014



Edifício da Biblioteca Nacional na Zona Portuária: depósito tem obras em mau estado de conservação - (Foto: Pedro Kirilos / Agência O Globo)
Longe dos olhos do público, documentos e livros raros estão se deteriorando pela ação de traças, mofo e até ratos num prédio na Região Portuária em que a Fundação Biblioteca Nacional guarda parte de seu acervo. Um dos casos mais graves é o da coleção M-18, que reúne quatro mil livros do século XVIII. O material, doado à biblioteca em 1910, até hoje não foi catalogado. A coleção está armazenada em estantes, num dos depósitos de periódicos, no terceiro andar, por falta de espaço no Departamento de Obras Raras. Alguns livros apresentam mofo e traças, que já consumiram várias páginas. Em outras publicações, não é mais possível ler o texto, devido a manchas amareladas nas folhas, por problemas na conservação.

Num relatório de 1917, a direção da biblioteca já manifestava preocupação com a coleção M-18 e ressaltava que a falta de pessoal, a Primeira Guerra Mundial, as mudanças políticas e a escassez de recursos impediam o tratamento do acervo. Perguntada sobre o estado de conservação do material, a Biblioteca Nacional informou que aguarda a contratação de 40 concursados para acelerar o processo de tratamento das obras e disponibilizá-las ao público.


A coleção M-18, que reúne quatro mil do século XVIII, apesar de ter sido doada à Biblioteca Nacional em 1910 até hoje não está disponível para consulta pelo público -- (Foto: Alessandro Lo-Bianco/O Globo)

Segundo a diretoria da Associação de Servidores da Biblioteca Nacional, o prédio anexo tem sido utilizado como depósito de obras e materiais há mais de uma década, apesar de o ambiente ser inadequado para o armazenamento, e os danos sofridos pelo acervo são irreversíveis. “As condições do anexo são as piores entre os locais de armazenamento de acervo da Biblioteca Nacional”, afirmou, por meio de nota. A entidade também disse que, na sede da Avenida Rio Branco, o acervo é guardado em condições inadequadas, pois o sistema de ar-condicionado funciona de forma precária.

Para pesquisador, situação "é uma vergonha"

De acordo com o arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti, é inadmissível que o acervo M-18 ainda não esteja disponível para consultas, pois a biblioteca o recebeu há mais de cem anos: "O que acontece nos depósitos da biblioteca é um escárnio com a cultura. É uma vergonha. Esses arquivos estão sobrevivendo hoje do carinho de funcionários que estão para se aposentar. Quando eles saírem, vai virar uma bagunça ainda maior. Isso representa o descaso de um país que vê o investimento cultural como algo supérfluo a serviço de uma elite".

Outro material que corre o risco de se perder é o acervo do historiador Marcello de Ipanema, guardado em caixas de papelão, no segundo andar do prédio anexo. Ainda segundo a nota da diretoria da Associação de Servidores da Biblioteca Nacional, o material foi doado pela família do historiador em 2005 e parte dele se encontra em “estado de decomposição”: "O acervo nunca recebeu tratamento técnico adequado, acumulando poeira, fuligem e sofrendo ataques de insetos e roedores".


Um dos livros do historiador Marcello de Ipanema: as páginas em mau estado são exemplos da degradação do acervo que está guardado no prédio anexo, na Região Portuária do Rio de Janeiro -- (Foto: Alessandro Lo-Bianco/O Globo)


Marcello de Ipanema foi por muitos anos membro de um conselho estadual responsável pelo tombamento de bens históricos e culturais, e fez estudos sobre a história da imprensa no Estado do Rio. Segundo pesquisadores, o material mostra como eram catalogados e mapeados bens patrimoniais, culturais e naturais da cidade. Em meio às caixas, há páginas soltas e corroídas da obra “Francisco Manoel da Silva e seu tempo”, do musicólogo e professor Ayres de Andrade Júnior, morto na década de 70. A publicação, que nunca foi reeditada, conta a história musical do Rio entre 1808 e 1865.

A Biblioteca Nacional nega que o acervo de Marcello de Ipanema esteja em estado de deterioração, mas admite que ainda não foi tratado e que estaria sendo encaminhado para ser processado e disponibilizado ao público. Por meio de nota, a instituição informou ser impossível, diante do quadro insuficiente de funcionários, processar todo o acervo. A biblioteca recebe, mensalmente, mais de 25 mil publicações. Segundo a instituição, será feita uma reforma no prédio da Região Portuária, que ampliará em 12 mil metros quadrados a área útil atual, de 15 mil metros quadrados, permitindo a melhora na conservação e na organização.

Também guardado no prédio anexo, o “Saltério de Genebra” tem bolor e páginas rasgadas. A obra é uma compilação de 150 salmos de Davi, metrificados e musicados com notação característica do século XVI. O historiador espanhol especializado em documentos religiosos Magno Rayol, que fazia pesquisas na biblioteca, ressalta a importância da obra: "Trata-se de uma raridade. Procurei esse material em bibliotecas de outras partes do mundo e soube que estaria aqui. Ele foi entregue à biblioteca há mais de uma década e é único. Se ele se estragar de vez, perderemos uma parte importante do passado".

No depósito cinco, há ainda inúmeros manuscritos de compositores doados à Divisão de Música em péssimo estado, obras em latim e pergaminhos com anotações carimbadas pelo Vaticano dos séculos XIV e XV. A “Ícaro y Dédalo”, do compositor da corte espanhola Juan Hidalgo, está praticamente despedaçada. Próximo dali, amontoada em caixas, há uma peça instrumental de Vivaldi, mofada e corroída, separada em fascículos.

Biblioteca tem 16 técnicos em restauração

No depósito seis, há partituras, periódicos nacionais e estrangeiros, além de edições de manuscritos de grandes mestres da música popular e erudita brasileira, como Ernesto Nazareth e Pixinguinha, doados pela família deste último.

Segundo a Biblioteca Nacional, as áreas de curadoria do acervo estabelecem os critérios de prioridade para restauração e identificam as obras em mau estado de conservação. “Atualmente a biblioteca está com 16 técnicos em restauração para atender à demanda de um acervo estimado em dez milhões de peças”. A biblioteca também informou que este ano adquiriu uma máquina empacotadora a vácuo e que o aparelho embala até mil peças por dia. “Com o uso dessa tecnologia, ganharemos espaço e arrumaremos melhor o acervo sob a nossa guarda”, informou.
Por nota, o Ministério da Cultura informou que fez investimentos nas áreas de preservação e acervo da Biblioteca Nacional que somaram R$ 2,6 milhões em 2012 e R$ 2,5 milhões em 2013. Em 2014, devido aos cortes no orçamento federal, o investimento liberado para a área foi de R$ 1,3 milhão. O órgão afirmou que o o repasse total de recursos para a biblioteca entre 2012 e 2014 foi de R$ 35 milhões.

A sétima maior do mundo

A Fundação Biblioteca Nacional é considerada pela Unesco a sétima maior do mundo e a maior da América Latina. Mensalmente, recebe cerca de 25 mil obras, e seu acervo atual totaliza cerca de dez milhões de peças. Foi criada a partir da Real Biblioteca de Portugal, trazida pela família real ao Brasil em 1808. Seu núcleo original é a antiga livraria de dom José, organizada sob a inspiração de Diogo Barbosa Machado, abade de Santo Adrião de Sever, para substituir a Livraria Real, e que foi consumida pelo incêndio ocorrido depois do terremoto de Lisboa, em 1º de novembro de 1755. Seu constante crescimento se deu por meio de aquisições e doações possibilitadas pela Lei do Depósito Legal, que determina o envio à biblioteca de um exemplar de tudo o que se publica no Brasil. Fazem parte da sede laboratórios de restauração e conservação de papel. O acervo digital da biblioteca conta com 870.821 documentos, que podem ser acessados pelo site da fundação. A Biblioteca Nacional tem dois armazéns na sede, localizada na Avenida Rio Branco, sendo um para periódicos e outro para obras gerais, distribuídos em 13.704 metros quadrados. O prédio anexo da biblioteca fica na Avenida Rodrigues Alves. Entre as principais coleções do acervo, estão a Barbosa Machado, a De Angelis, além da “Collecção D. Thereza Christina Maria", composta por 48.236 volumes.

domingo, 27 de julho de 2014

A genialidade de Millôr Fernandes

No momento em que a Flip, em Paraty, se prepara para homenagear Millôr Fernandes, me parece mais do que oportuno dar um pequeno mergulho na biografia e no legado desse gênio da  nossa cultura. Para esta postagem me baseei em pesquisas pessoais na internet e no livro "Millôr definitivo: A Bíblia do Caos"- L&PM Pocket, 2013.


Millôr Fernandes


Millôr Fernandes (1923-2012)  - (Foto: Agência Estado)


Millôr Fernandes nasceu no Méier, subúrbio do Rio de Janeiro. Millôr nasceu em 16 de agosto de 1923, mas só foi registrado em 27 de maio de 1924. Por isso, tinha duas datas de aniversário e, nos documentos, ainda tinha 87 anos quando morreu em 27 de março de 2012. Em mais de meio século de atuação permanente na imprensa, no teatro, na literatura e nas artes plásticas tornou-se uma das maiores personalidades de seu tempo. Combativo (“hay gobierno, soy contra”) como poucos, praticou o ideal de independência intelectual, tendo sido perseguido pelas ditaduras que assolaram o país neste século. Escreveu, traduziu e adaptou mais de uma centena de peças de teatro (Shakespeare, Pirandello, Molière, Racine, Brecht, Tchekov, Gorki, Fassbinder e muitos outros). Entre elas destacam-se os clássicos, Liberdade, liberdade (com Flávio Rangel),É..., Homem do princípio ao fim, Flávia, cabeça, tronco e membros, Um elefante no caos, Os órfãos de Jânio. Escreveu ainda 30 anos de mim mesmo, O livro vermelho dos pensamentos de Millôr, Todo o homem é minha caça, Tempo e contratempo, Poesias, Millôr definitivo – A Bíblia do Caos, entre dezenas de livros editados.

 Considerado "um dos poucos escritores universais que possuímos", na opinião do crítico Fausto Cunha, Millôr é carioca do Méier – segundo alguns seu nome seria Milton, não fosse um erro do tabelião – filho de Francisco Fernandes e de Maria Viola Fernandes. Seu pai, engenheiro emigrante da Espanha, morre em 1925, com apenas 36 anos. A família começa a passar dificuldades, e sua mãe fica horas em frente a uma máquina de costura para poder sustentar os quatro filhos. Apesar do aperto, o autor teve uma infância feliz, ao lado de dez tios, 42 primos e primas e da avó italiana D. Concetta de Napole Viola. A chegada ao Brasil das histórias em quadrinhos, em 1934, fazem Millôr dar vazão à criatividade e, sob a influência de seu tio Antônio Viola, tem seu primeiro trabalho publicado em um órgão da imprensa – O Jornal, do Rio de Janeiro, tendo recebido o pagamento de dez mil réis. Era o início do profissionalismo, adotado e defendido para sempre.

Em 1935, também com 36 anos, falece sua mãe, o que leva os irmãos Fernandes a ter uma vida dificílima. Estuda na Escola Ennes de Souza, de 1930 a 1935, por ele chamada de Universidade do Meyer, mas que na verdade era uma escola pública. Diz dever tudo o que sabe a sua professora, Isabel Mendes, depois diretora e hoje nome da escola. Se emociona ao falar sobre ela "...uma mulatinha magra e devotada, que me ensinou tudo que se deve aprender de um professor ou de uma escola: a gostar de estudar. Depois disso, pode-se ser autodidata. Escola, a não ser para campos técnicos/experimentais, é praticamente inútil".

Trabalhou, em 1938, com o Dr. Luiz Gonzaga da Cruz Magalhães Pinto, entregando o remédio para os rins "Urokava" em farmácias e drogarias. Durou pouco esse emprego.  Ciente da necessidade de se aprimorar, estuda no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro de 1939 a 1943. Em 1944 é co-diretor da revista A Cigarra, do Rio de Janeiro. Em 1945 inicia a publicação de seus trabalhos na revista O Cruzeiro, com o "Pif-Paf". 

Nos anos seguintes, já integrado à intelectualidade carioca, convive com Péricles, criador de "O Amigo da Onça", Nelson Rodrigues, David Nasser, Jean Manson, Alfredo Machado, Fernando Chateaubriand, Emil Farhat e Accioly Netto, entre outros. Em 1948 vai, como correspondente da revista O Cruzeiro, para uma estadia de três meses em Hollywood, Califórnia, temporada que passa ao lado do cônsul Vinícius de Moraes, do cientista César Lates e da estrela Carmen Miranda. A partir de 1950, faz colaboração diária no jornal Diário da Noite, Rio de Janeiro.

Em 1958  foi censurado pelo mais liberal de todos os presidentes da República: Juscelino Kubitschek. Seu programa de TV, "Lições de um Ignorante", foi proibido após uma crítica à primeira dama do país: "Dona Sarah Kubitschek chegou ontem ao Brasil depois de cinco meses de viagem à Europa e foi condecorada com a Ordem do Mérito do Trabalho." Em 1961 trabalhou sete dias no jornal Tribuna da Imprensa, Rio, que mais tarde pertenceu a seu irmão Hélio Fernandes. Foi demitido por ter escrito um artigo sobre a corrupção na imprensa. Os editores, o poeta Mário Faustino e o jornalista Paulo Francis pediram também demissão em solidariedade.

Colabora com coluna diária no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, em 1962. "Esta é a Verdadeira História do Paraíso", doze páginas em cores, é publicada na revista O Cruzeiro, em 1963, provocando a ira da própria revista e de leitores católicos. Millôr deixa O Cruzeiro. A partir de 1964, e até 1974, colabora semanalmente no jornal Diário Popular, de Portugal. A página mereceria um comentário especial do ditador Oliveira Salazar: "Este gajo tem piada. Pena que escreva tão mal o português." De 1967 até nossos dias, tem marcado sua presença em jornais e revistas nacionais como o Correio da Manhã, Revista Diners, Veja,O Pasquim, revista IstoÉ, Jornal do Brasil, O Dia, Folha de São Paulo, entre outros.

Millôr morreu em 27 de março de 2012, aos 88 anos, no Rio.

O que vem a seguir foi retirado do livro "Millôr definitivo: A Bíblia do Caos".

Abecedário


O A é uma letra com sótão. Chove sempre um pouco sobre o à craseado.
O B é um l que se apaixonou pelo 3. O b minúsculo é uma letra grávida.
Ao c só lhe resta uma saída. O ç cedilha, esse jamais tira a gravata.
O  D é um berimbau bíblico.
O e minúsculo é uma letra esteatopígia (esteatopígia, ensino aos mais atrasadinhos, é uma pessoa que tem certa parte do corpo, que fica atrás e embaixo, muito feia). O E ri-se eternamente das outras letras.
O F, com seu chapéu desabado sobre os olhos, é um gângster à espera de oportunidade. O f minúsculo é um poste antigo.
A pontinha do G é que lhe dá esse ar desdenhoso. O g minúsculo é uma serpente de faquir.
O H é uma letra duplex. A parte de cima é muda. Serve também como escada para as outras letras galgarem sentido. O h minúsculo é um dinossauro.
O I maiúsculo é guarda, em seu porte de letra, um pouco de número I romano. O i minúsculo é um bilboquê.
O J, com seu gancho de pirata, rouba às vezes o lugar do g. O j minúsculo é uma foca brincando com sua bolinha.
Vê-se nitidamente: o K é uma letra inacabada. Por enquanto só tem andaimes. Parece que vão fazer um R. Junto com o k minúsculo o K maiúsculo treina passo-de-ganso.
O L maiúsculo parece um l que extraíram com raiz e tudo. Mas o l minúsculo não consegue disfarçar que é um número 1 espionando o alfabeto.
O M maiúsculo é um gráfico de uma firma instável. O m minúsculo é uma cadeia de montanhas.
O N é um M perneta. No n minúsculo pode-se jogar críquete com a bolinha do o.
O O maiúsculo é um buraquinho no alfabeto.
O p é um d plantando bananeira.
O Q maiúsculo anda sempre com o laço do sapato solto. O q minúsculo é um p se olhando de costas no espelho.
O R ficou assim de tanto praticar halterofilismo.
Sente-se que o s é um cifrão fracassado. O S maiúsculo é um cisne orgulhoso.
Na balança do T se faz jusTiça.
O U é a ferradura do alfabeto, protegendo o galope das idéias. O u minúsculo é um n com as patinhas pro ar.
O v é uma ponta de lança.
O x é uma encruzilhada.
O Y é a taça onde bebem as outras letras. Desapareceu do alfabeto porque se entregou covardemente, de braços para cima.
O W são vês siameses.
O Z é um caminho mais curto entre dois bares. O z minúsculo é um s cubista.

Abdômen
Abdômen: palavra machista significando barriga pra ambos os sexos. Deveria haver também abdmulher.

Abertura política
O generalíssimo Geisel quer a abertura política lenta e gradual! Se Hércules seguisse esse princípio teria lavado as estrebarias de Augias com um regador e aquilo estava cheio de bosta até hoje. (1977)


Abismo

O Brasil já está à beira do abismo. Mas ainda vai ser preciso um grande esforço de todo mundo pra colocarmos ele novamente lá em cima.

Aborto
A Igreja continua contra o aborto. O Papa ainda não descobriu seu lado feminino.

Abulismo
Quem nasce pra to be or not to be nunca chega a ser. (Sobre o Presidente Sarney, 1987)

Ação
O homem põe, Deus dispõe, e o Diabo cai na gargalhada.

Acaso

● Deus criou o sol. E as árvores, e os animais, e os minerais. Mas, de repente, para absoluta surpresa sua, olhou e viu,maravilhado, que cada coisa tinha uma sombra. Nessa, francamente, ele não tinha pensado. (A verdadeira história do paraíso. 1958)
● É evidente que o Universo foi feito por acaso -- como a represa de Assuã, a Crítica da Razão Pura e a Capela Sistina.

Acordo
Está bem. Deus é brasileiro. Mas pra defender o Brasil de tanta corrupção só colocando Deus no gol.

Adesão
Não é em tudo que estou de acordo com a juventude. Agora, essa permissividade, essa revolução sexual, não sei não, mas é uma coisa que me interessa muito.

Adiamento
Não há problema tão grande que não caiba no dia seguinte. Morrer, por exemplo, é uma coisa que se deve deixar sempre pra depois.


Adivinho

Amanhã vai ser um dia esplêndido, mas não sei se melhor do que ontem -- como dizia o adivinho desmemoriado.

Administração
Com esse pessoal que está no governo não se administra nem o Tivoli Parque.


Adulto

Um homem é adulto quando começa a gastar mais do que ganha.

Advertência
Missão urgente para a lei e a justiça: obrigar os jornais a imprimir em seus cabeçalhos: "Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência".


Aferição

De uma coisa estou certo: sou bem pior do que os melhores -- mas um pouquinho melhor do que os piores.

Afinidade
Quando duas pessoas odeiam a mesma pessoa têm a impressão de que se estimam.

Afirmativa
Nem só de pão vive o homem. E nem só desse tipo de afirmativa idiota.

Afrodisíaco
● O melhor afrodisíaco ainda é a carência prolongada.
● Só conheço um afrodisíaco -- a mulher.

Agonia
Agonia: o monólogo final.

Alagoas
Os alagoanos de Collor; por onde eles passam só cresce a grana. (1992)

Álcool
O álcool, tomado com moderação, não oferece nenhum perigo, nem mesmo em grandes quantidades.

Alfabetização
No meu tempo vovô via a uva. Hoje, Ivo come a Eva.

Álgebra
Afinal de contas, o que é álgebra: uma promiscuidade inacreditável de números e letras ou apenas uma suruba de ângulos e hipotenusas?


Alkaseltzer

A invenção do alkaseltzer foi uma tempestade num copo d'água.


Ambiguidade

Como é mesmo que Stefan Zweig disse: "País do futuro" ou "País do faturo"?


Ameaça

Os banqueiros não perdem por esperar. Ganham.


Americanismo

Tão americanizado que em vez de dizer outrossim, dizia outroyes.


Amnésia

E como dizia Dom Pedro I, acordando de ressaca no dia 8 de setembro: "Eu ontem, de pileque, proclamei o quê?"


Amor

Lição primeira e única -- amor não é coisa para amador.


Analfabeto

● Quem não lê é mais analfabeto do que quem não sabe ler.
● Os analfabetos têm falta de vitamina ABC.


Análise

Como me acho um cara ótimo, me sinto muito mal nos momentos em que me acho péssimo; mas, como um cara ótimo como eu se achar ocasionalmente um cara péssimo revela a si mesmo uma boa autocrítica, é nos momentos em que me acho péssimo que me acho melhor do que antes; mas, aí penso que estou falsificando. Que só estou me criticando  e me achando péssimo pra me achar melhor. E então me acho muito pior.


Análise grupal

A análise grupal é o prêt-à-porter da psicanálise.


Analista

Analista é um sujeito que, partindo de premissas falsas, consegue chegar a conclusões perfeitamente equivocadas.


Anatomia

Anatomia é essa coisa que os homens também têm, mas que nas mulheres fica muito melhor.


Andorinha

Uma andorinha só, tem que conhecer melhor os provérbios. E comprar um casaco.


Aniversário

● No aniversário, enquanto os convidados comemoram mais um ano, o aniversariante lamenta menos um.

● Cada vela soprada no bolo de aniversário é parte da contagem regressiva.


Anticoncepcional

O maior anticoncepcional é o mau hálito.


Aparelho digestivo

O aparelho digestivo se compõe de boca, língua, laringe, esôfago, estômago, intestino, garfo e faca.


Aparência

● As coisas nem sempre são tão ruins quanto parecem. Mas quase sempre são.

● O importante não é pensar, é ter expressão de pensador.

● As aparências não enganam: quando você vê um cara vestido de general, há enorme probabilidade de que ele seja isso.


Apartheid

Na África do Sul ninguém pratica tiro ao alvo -- só no negro. (1975)


Apelido

"Meu bem" é o nome de solteiro do marido.


Aprendizado

● Para aprender muito é fundamental, antes de mais nada, ser bastante ignorante.
● Aprende-se muito mais ignorância nas faculdades do que no meio da rua.


Aprimoramento

O primeiro homem Deus fez do barro. A primeira mulher Deus fez de uma costela do homem. Só o terceiro ser humano foi feito em conjunto, pelo homem e pela mulher, usando o instrumento próprio no lugar adequado.


Arca de Noé

Na escuridão da Arca nasceram os primeiros híbridos. Bissexuais.


Armando Falcão

É sabido que a morte suaviza todos os nossos julgamentos. Mas, pra eu mudar de opinião a respeito do Armando Falcão, ele vai ter que morrer pelo menos meia dúzia de vezes. (Armando Falcão foi ministro da Justiça no período mais negro da ditadura militar.)


Arrependimento

Se o homem das cavernas soubesse o que ia acontecer, teria ficado lá dentro.


Ás

O inventor do baralho já apoiava a ditadura (ou a eminência parda?). Se não, que diabo quer dizer essa carta, ás, que vale mais que um rei?


Assembleia

Assembleia é uma cambada de parlamentares. (Novos coletivos).


Assessoria

Deus é bom. Está é muito mal cercado.


Assiduidade

Apesar de sexagenário, ele fazia sexo quase todos os dias. Quase no domingo, quase na segunda-feira, quase na terça ...


Astronomia

O fato é que depois de viajar anos, esse Voyager não descobriu nenhuma forma de vida inteligente pelaí. O Cosmos, ao que parece, é igualzinho à Terra.


Ateísmo

● O sujeito que me fará acreditar na imortalidade da alma ainda está pra ressuscitar.

● O ateísmo é uma espécie de religião em que ninguém acredita.


Ateu

No longo prazo um ateu não tem futuro.


Autobiografia

Estou escrevendo minha autobiografia. Mas ainda não decidi se vou morrer no fim.


Autocrítica

● Toda vez que, na intimidade do banheiro, ficava nua, ela morria de rir de seus admiradores.

● Por que nunca nenhum país ergueu um monumento autocrítico -- o Arco da Derrota?

● Todo mundo viu; o ministro, na televisão, disse uma verdade e corou de vergonha.


Autodefesa

Quem não tem boa aparência acha sempre que as aparências enganam.


Autodidata

O autodidata é o único sujeito que não pretende saber mais do que o professor.


Autópsia

● Eu acredito em autocrítica e autoanálise. Não acredito é em autoautópsia.

● Quando fizerem minha autópsia encontrarão o Rio no meu coração. (1973)


Autoritário

Autoritário é o sujeito que lhe dá a resposta sem que você faça a pergunta.


Avaliação

Quando eu nasci os obstetras me acharam perfeitamente normal. Mas os designers balançaram a cabeça.


Azar

● O Brasil é um país sem sorte. Porque se alia à Igreja Católica. A Igreja Católica tem muita urucubaca. Se eu fosse presidente a primeira coisa que fazia era nomear um ministro de umbanda para fechar o corpo do país. Todo despacho importante do presidente seria numa sexta-feira, numa encruzilhada, acompanhado de um ministro tranca-ruas.

● Deus no sétimo dia descansou. Aí choveu paca e não deu praia.


Bagagens

O difícil, quando forem comuns as viagens interplanetárias, será a gente descobrir o planeta em que foram parar as bagagens.


Baianidade

● E como dizia o baiano: "A inércia pra mim é uma orgia".

● Baiano só tem pânico no dia seguinte.


Bajulação

No Planalto muita gente de quatro fingindo que está apenas procurando a lente de contato.


Bala perdida

Bala perdida é expressão definitivamente inadequada. A bala pode ter vindo não se sabe de onde. Pode não ter sido disparada para alcançar quem alcançou. Mas perdida não está. Perguntem à pessoa atingida.


Barrabás

Apesar de ladrão, Barrabás foi absolvido em lugar de Cristo. É por isso que todos devemos imitar Barrabás. (Falsa cultura)


Batata

A batata pertence ao reino vegetal, espécie cormófilas, divisão dos fanerógamos, subdivisão dos angiospermas, classe das dicotiledôneas, ordem das personadas, espécie das tuberosas -- mas, frita fica deliciosa.



Charges do Millôr (fonte: Google)
















Charge política de Millôr Fernandes Foto: Reprodução / Site oficial





Charge de Millôr Fernandes Foto: Reprodução / Site oficial