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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Tragédia em Berlim: pesadelo para a Alemanha e para Angela Merkel

[A tragédia no mercado de Natal de Berlim coloca o governo de Angela Merkel contra as cordas e, certamente, provocará nova onda de xenofobia e de crescimento da extrema direita não só na Alemanha, como no resto da Europa. Podemos esperar dias mais tensos pela frente, com consequências imprevisíveis. Traduzo a seguir reportagem de Severin Weiland e Phillip Wittrock publicada no site Spiegel Online International.]

Ataque em Berlim, pesadelo da Alemanha, pesadelo de Merkel

Severin Weiland e Phillip Wittrock - Spiegel Online International, 20/12/2016


A chanceler alemã Angela Merkel assina o livro de condolências pelas vítimas do ataque de segunda-feira - (Foto: AFP)


A chanceler alemã Angela Merkel está no modo crise. Novamente. Mas, desta vez, a situação fere mais do que de vezes anteriores e sacudiu o país inteiro. Os ataques de verão em Würzburg e Ansbach foram simples anúncios ou indicações do banho de sangue da noite de segunda-feira. Agora, 12 pessoas estão mortas e dezenas mais feridas depois que uma pessoa invadiu com um caminhão um mercado de Natal no coração de Berlim.

Merkel esta plenamente ciente de que algo como o ataque na noite de segunda-feira poderia acontecer aqui também -- na realidade, era quase inevitável. Mas isso não diminuiu o choque. "Este é um dia difícil", disse a chanceler. O país, prosseguiu ela, "está unido em luto profundo". 

Quando Merkel leu seu comunicado na terça-feira sobre o ocorrido na noite anterior, ela disse o que tinha que dizer em tal situação. Expressou sua compaixão para com as vítimas e suas famílias, agradeceu àqueles que responderam prontamente à tragédia, expressou confiança no trabalho dos investigadores e anunciou que os executantes da agressão serão punidos devidamente. E prometeu: "Encontraremos forças para a vida que queremos viver na Alemanha -- livre, unida e aberta". Essas são palavras que deram voz ao seu estado de choque e à sua consternação, deram voz também à sua determinação para enfrentar o terror.

Um policial caminha perto da Igreja do Memorial do Kaiser Guilherme em Berlim. Muitas questões permanecem sem respostas após o ataque mortal na noite de segunda-feira contra um mercado de Natal em um destino turístico popular. 12 pessoas morreram nesse ataque, e pelo menos 48 ficaram feridas quando um homem ainda não identificado jogou um caminhão contra a multidão - (Foto: AFP)


Quase um dia havia decorrido após o ataque, mas os trabalhos de investigação e de limpeza na parte ocidental de Berlim ainda se desenrolavam  - (Foto: AP)


O caminhão Scania pertencia a uma empresa polonesa de transporte marítimo e foi carregado com vigas de aço. A polícia prendeu um suspeito mais tarde à noite, mas na terça-feira ainda não havia certeza se haviam prendido a pessoa certa. Um segundo homem foi encontrado morto no assento de passageiro. A polícia disse que era um cidadão polonês e que não havia sido o motorista do caminhão - (Foto: AFP)


Uma cidade de luto. Berlinenses e turistas colocaram flores, velas e mensagens pessoais no local do ataque - (Foto: Reuters)


Na terça-feira a chanceler alemã foi também ao local do ataque na Breitscheidplatz, em Berlim, e deixou flores em honra dos mortos e feridos - (Foto: DPA)


Políticos em estado de choque: o ministro do Interior alemão, Thomas de Mazière, esteve diante da imprensa na terça-feira e disse que havias poucas dúvidas de que o ocorrido fora um ataque terrorista. Entretanto, na mesma terça-feira, mais tarde, e declarou que o real responsável pelo ataque não havia sido ainda encontrado - (Foto: AFP)


A equipe de resgate reboca o caminhão que invadiu o mercado de Natal que estava cheio de gente. Ainda não se sabe onde e quando o suspeito do ataque roubou o caminhão utilizado no ataque - (Foto: Reuters) 


Acomodações para refugiados, dentro de um hangar do antigo e desativado Aeroporto de Tempelhof. Uma força especial da polícia investigou o local durante a noite. Na terça-feira, não mais parecia provável que um jovem paquistanês preso perto do local do atentado fosse o executante do ataque - (Foto: DPA)


Uma imagem do caminhão após o ataque. O motorista suspeito conseguiu escapar. Oficiais da polícia acreditavam que o haviam apreendido perto do memorial de Siegessäule, mas parece agora que prenderam o homem errado - (Foto: DPA)


Bombeiros examinam uma árvore de Natal derrubada no mercado onde ocorreu o ataque. "Foi uma noite ruim para Berlim e para o país. Como um número incontável de pessoas, estou muito chocado", disse o presidente alemão Joachim Gauck - (Foto: AP)


Uma cidade em estado de choque. Um placar eletrônico próximo ao local do ataque apresentava os dizeres "em compaixão e luto pelas vítimas e todos os afetados" - (Foto: AFP)


Em resposta ao ataque em Berlim, várias cidades com mercados de Natal começaram a implementar medidas de seguranças adicionais na terça-feira para impedir ataques semelhantes. Em Dresden, que abriga um dos mais famosos desses mercados, foram instaladas barreiras de concreto para impedir que veículos possam invadir as áreas de pedestres - (Foto: DPA)


Na França, alvo de ataques terroristas sérios nos últimos dois anos, medidas adicionais estão sendo adotadas também, como nesse mercado de Natal em Paris. O governou solicitou à população que seja mais vigilante, em resposta à ameaça - (Foto: AFP)


Até que o responsável pelo ataque seja encontrado, a situação permanecerá tensa em Berlim. Na terça-feira, autoridades admitiram que a pessoa que executou o ataque brutal provavelmente ainda está solta - (Foto: Reuters)


"Particularmente repulsivo"

Mas mesmo quando fazia seu comunicado, a chanceler estava plenamente ciente de que o tom correto, o excelente trabalho da polícia e a firmeza dos valores liberais não seriam suficientes para conter a crise. Isso ajuda a explicar porque ela transmitiu também uma mensagem política durante seus cinco minutos de presença pública.

Seria, disse ela, "particularmente difícil para todos nós tolerar uma situação em que o autor do ataque tenha vindo para a Alemanha como um refugiado". Seria, continuou ela, "particularmente repulsivo com relação aos muitos, muitos alemães que estão diariamente engajados em prestar assistência aos refugiados e com relação às muitas pessoas que realmente precisam de nossa proteção e que estão dando o melhor de si para se integrarem". 

Enquanto ela falava, não se sabia ainda que a polícia começara a duvidar de que o homem preso na noite de segunda-feira estivesse realmente envolvido no ataque. Esse homem, que aparentemente veio para a Alemanha como um refugiado do Paquistão há cerca de um ano, havia sido preso em local não muito distante do local do ataque. Os investigadores tinham a esperança de ter capturado o motorista do caminhão.

A mensagem de Merkel foi um pedido para que os alemães evitassem suspeitar de todos os refugiados, de maneira generalizada. Ela está bem consciente das profundas divisões na sociedade alemã e está preocupada com o fato de que esse ataque possa envenenar a atmosfera ainda mais, o que pode tornar ainda mais difícil sua reeleição no outono de 2017.

E sua mensagem foi dirigida também a seus colegas políticos conservadores que sempre criticaram sua política em relação aos refugiados. Em primeiro lugar e principalmente Horst Seehofer, o combativo governador da Bavária que também é líder da União Social Cristã (CSU), o parido bávaro irmão dos Democratas Cristãos (CDU), partido de Merkel. Antes mesmo que a chanceler lesse seu comunicado, o gabinete bávaro reuniu-se em Munique.  Ficou claro que Seehofer havia sido profundamente afetado pelo ataque e olheiras escuras circundavam seus olhos.

Luta na direita

O que Seehofer disse então para as câmaras dos jornalistas soou como ainda outra declaração de guerra contra Merkel. "Devemos às vítimas, às suas famílias e a toda a população um repensar e um reajuste de todas as nossas políticas de imigração e de segurança".  Quando Seehofer diz "nossas políticas" ele na realidade se refere àquelas da chanceler.

Seehofer vem lutando há meses contra o curso da política de Merkel na crise dos refugiados. Ele não está preocupado apenas com manter o poder na Bavária, o preocupa também a crescente competição política na ala direita na figura do populista Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla alemã). Durante a noite, o AfD buscou ganhar impulso com base no ataque, culpando diretamente as políticas de Merkel por torná-lo possível em primeiro lugar e postando comentários debochados nas redes sociais.

Recentemente, o CDU e o CSU tentaram fazer as pazes em suas relações. Uma reunião conjunta de líderes dos dois partidos está programada para o início de fevereiro, quando o CSU está listado para anunciar seu apoio oficial à nova candidatura de Merkel à Chancelaria. Mas o ataque de segunda-feira pode obstruir esses planos, se Seehofer decidir que as reformas recentes para endurecer a legislação alemã para a não avançam o suficiente.

Mas, até os membros do CDU de Merkel estão agitados. Tomem, por exemplo, Klaus Bouillon, ministro do Interior pelo estado de Saarland, que inicialmente falou de um "estado de guerra" ao descrever o ataque de segunda-feira e mais tarde tentou recuar. "Evitarei usar o termo guerra no  futuro", disse ele, distanciando-se de seus próprios comentários. "É terrorismo".

"Não é o dia para falar de consequências"

A demanda imediata de Seehofer por consequências políticas em seguida ao ataque não caiu bem em Berlim. Thomas de Maizière, o ministro do Interior, fez na terça-feira uma atualização sobre o progresso das investigações e pareceu que o político do CDU escolheu cuidadosamente as palavras enquanto fazia isso. "Não recuemos", disse ele em um apelo à população. "Não os deixemos controlar nossas vidas com o medo".

Quando perguntado sobre sua resposta à demanda de Seehofer, o ministro do Interior ficou taciturno. Anunciou que iria visitar a cena do ataque mais tarde naquele dia junto com a chanceler e o ministro do Exterior, e que participaria de um serviço religioso depois disso. "Hoje", disse ele, "não é o dia para se falar de consequências".

Mais tarde nesse dia, de Maizière juntou-se a Merkel e ao  seu colega do SPD [Partido Social Democrata] Frank Walter Steinmeier quando estes depositaram flores em um memorial temporário para as vítimas. Quando ele assim fez, Seehofer e seus ministros de governo na Bavária se prepararam para convocar uma reunião especial do gabinete na terça-feira à tarde. Assuntos a serem discutidos: as políticas da Alemanha para segurança e refugiados.


Caminhão colide com mercado de Natal de Berlim - A foto mostra onde o caminhou entrou no mercado, o caminho por ele seguido e o local onde parou. É mostrada a localização do mercado na praça Breitscheid, do Centro Europa, do Memorial da Igreja do Kaiser Guilherme, do Waldorf Astoria, da avenida Kurfürstendamm, do shopping center Bikini, da rua Kant, da rua Hardenberg, da rua Budapeste e do parque do Jardim Zoológico. No gráfico abaixo da foto são mostrados por onde o caminhão entrou no mercado, o local em que ele atingiu uma barraca e deixou o mercado e parou, e a posição de uma fila de barracas do mercado - [Foto: Google Earth -- Mapa: Mapbox - Kartendaten OpenStreetMap-Mitwirkende (ODbL)]


Últimas notícias
  • Alemanha ordena caçada contra um suspeito tunisino -- A Alemanha emitiu uma ordem de busca por um homem tunisino cujos documentos de identidade foram encontrados na cabine do caminhão usado no ataque terrorista de segunda-feira à noite em Berlim. O processo de deportação dele havia sido interrompido porque ele não dispunha dos documentos necessários para isso.
A Alemanha está oferecendo uma recompensa de 100.000 euros por informações que levem à captura do suspeito Anis Amri - (Foto: BKA)
  • Berlinenses mantêm a compostura depois do ataque -- Como Berlim está lidando com o ataque ao mercado de Natal? Uma incursão pela cidade revela algo incrível e impressionante. As sementes de medo que os terroristas buscaram semear não parecem estar germinando por aqui.


sexta-feira, 8 de abril de 2016

Quanto custa realmente um alimento?

[Traduzo  a seguir um artigo muito interessante do site Spiegel Online International. Não deixem de acessar esse artigo no site, porque ele contém gráficos interessantíssimos que não podem ser copiados. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Colheita de soja no Brasil - (Foto: AP)

Um quilo e meio de batatas frescas nesta semana custa apenas € 1,29 em alguns supermercados alemães. Mas, essa é a história toda? Os custos ambientais são quase sempre completamente ignorados. Algumas pessoas, no entanto, estão tentando mudar isso. 

Um quilo e meio de batatas frescas por apenas € 1,29 [R$ 5,26], alface em oferta especial nesta semana por apenas € 1,49 [R$ 6,07]: as pechinchas das compras de mercado se acumulam sobre a mesa da cozinha. Morangos a € 3,99 o quilo [R$ 16,26] ainda são bastante caros, mas a estação na realidade ainda não começou. Então, como esses preços foram calculados, e eles refletem o valor real dos produtos? [Em 06/4/2016 o site do supermercado Zona Sul indicava: batata - R$ 4,99/kg; - alface lisa - R$ 3,69/unidade; - morango quase pronto - R$ 40,00/kg]

Os preços de bananas, carne, pão e de outros gêneros alimentícios são determinados basicamente por sua oferta e sua demanda -- e algumas vezes por subsídios, quotas e especulação de preços. Mas  os preços não incluem contribuições feitas pela natureza. Essas contribuições incluem coisas como o uso de água limpa ou terras férteis. Produtos químicos prejudiciais, gases ou partículas poluentes emitidos durante a produção não são igualmente determinados e explicitados no preço, nem para os produtores nem para os consumidores. 

"O capital natural [da natureza] bastante frequentemente é grátis. E bastante frequentemente é sub-avaliado porque é grátis", diz Richard Mattison, CEO da Trucost. Sua empresa assumiu a tarefa de por uma etiqueta  de preço na natureza. Utilizando modelos matemáticos, Mattison e sua equipe estão tentando identificar o valor que se perde quando empresas poluem ou destroem o meio ambiente. "Fazemos com que, seguramente, o valor desses sistemas naturais seja admitido e reconhecido", diz Mattison. Os cálculos da Trucost têm como objetivo ajudar as empresas a otimizar seus processos de produção, assessorar investidores no dimensionamento dos riscos ambientais e permitir que cientistas pesquisem melhor a dependência  da economia em relação aos recursos naturais.

George Monbiot considera que esse é o caminho errado a se tomar. Essa abordagem, disse o autor e ambientalista britânico em uma palestra em 2014, "significa não proteger o mundo natural das depredações da economia". Monbiot considera que colocar uma etiqueta de preço no meio ambiente é semelhante a subordinar sua proteção ao capitalismo. Princípios como comercialização e a busca de crescimento econômico, diz ele, têm sido extremamente danosos à vida do planeta. Ele considera que abordagens como a da Trucost estão tentando agora apresentar esses mesmos princípios como a salvação  do planeta.

Para Mattison, porém, a conexão entre recursos naturais e investimento financeiro é clara. "Em locais onde árvores foram cortadas vimos grandes secas, e a consequência dessas secas é que é preciso gastar dinheiro. E é dinheiro de fato que se está gastando: capital financeiro, porque o capital natural foi perdido".

Qual o custo da natureza? 

Entretanto, como desflorestamento, poluição das águas ou emissões danosas podem ser convertidos em dinheiro? "Se você avaliar a água corretamente, ela será associada com escassez", diz Mattison. Agindo assim, significaria que "produtos que dependem de muita água onde a água é escassa tornar-se-ão mais caros" [mas, em que base alguém decidiu fazer um produto sedento de água onde ela é escassa?!]. Isso, porém, não é frequentemente o caso. "Por exemplo, em Jeddah (localizada no deserto da Arábia Saudita), o preço da água é de três centavos [de dólar] por metro cúbico, e em Copenhague a água  custa mais de US$ 7 por metro cúbico. Frequentemente, diz Mattison, subsídios são os culpados por tais disparidades no custo da água. A Trucost busca incluir tais  fatores em seus cálculos.

Mattison e sua equipe buscam também por cifras em outras formas de danos ambientais, como por exemplo os efeitos da poluição sobre seres humanos e o meio ambiente. Na China, por exemplo, emissões prejudiciais causam danos econômicos que valem de 5% a 10% do PIB do país, diz Mattison. Esses custos surgem sob a forma de custos médicos adicionais devidos a doenças respiratórias, colheitas ruins e danos a edifícios causados por chuva ácida. "O rendimento de colheitas na China é em média de 7% a 15% menos do que a média mundial", diz ele. "Em outras palavras, você precisa de mais terras para produzir por causa  da poluição do ar".

Com base nessa abordagem, a Trucost calculou quanto mais custaria um pacote de ceral para o café da manhã, uma garrafa de suco de fruta ou um pedaço de queijo se as demandas sobre a natureza fossem levadas em conta. Os resultados: o cereal custaria 49 centavos mais, o suco por volta de 16 centavos e o queijo tanto quanto 1 euro. Os cálculos para esses três gêneros alimentícios foram feitos usando valores padrões de mediana. Se fosse analisar os produtos pertencentes a uma marca específica, os resultados seriam mais variados. Preços diferem, dependendo de onde e como um produto é produzido. Além disso, é impossível incluir cada fator ambiental até seu último detalhe. Os cálculos seriam demasiado complexos.

Os custos reais

Amostras de cálculos para vários gêneros alimentícios.

[Aqui aparecem os gráficos da Trucost que não me foi possível reproduzir neste texto. Há um gráfico da análise de um pacote de 51g de cereal, 1 litro de suco e um pedaço de 34g de queijo. No gráfico de cada produto são destacados  em termos percentuais o preço de varejo, o valor da perda, dos poluentes do ar, dos poluentes do solo e da água, dos gases de efeito estufa e da água. Os custos encontrados foram (em dólar):

cereal para café da manhã (51g):
água -- 0,323
gases de efeito estufa -- 0,059
poluentes de água e solo -- 0,127
poluentes do ar -- 0,037
perdas -- 0,003
valor de varejo -- US$ 3,50

suco de fruta (1 litro):
água -- 0,083
gases de efeito estufa -- 0,047
poluentes de água e solo -- 0,022
poluentes do ar -- 0,028
perdas -- 0,004
valor de varejo -- US$ 3,0

queijo
água -- 0,457
gases de efeito estufa -- 0,389
poluentes de água e solo -- 0,166
poluentes do ar -- 0,16
perdas -- 0,007
valor de varejo -- US$ 6,50]

Para os três gêneros alimentícios, a água é o fator decisivo. Para o cereal, ela é necessária para cultivar o grão, para a produção do suco ela é necessária para fazer crescer o fruto, e as vacas precisam dela na produção do leite para se fazer o queijo. Fazendeiros pagam pela água que usam, mas o preço que por ela pagam não necessariamente reflete seu real valor. Se se levar em conta a disponibilidade de água no local da produção, ela tem um efeito significativo sobre o preço do produto. Para o cereal da amostra, por exemplo, o preço varia entre € 3,29 [R$ 13,40] e € 4,68 [R$ 19,07] dependendo do suprimento de água.

[Embora seja importante que nós, em nossas casas, procuremos evitar o consumo exagerado de água, o uso doméstico não é o principal responsável por esse elevado consumo. Se analisarmos detalhadamente as atividades que mais consomem água no mundo e também no Brasil, constataremos que existem várias atividades socioeconômicas que gastam ainda mais os recursos hídricos.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), é a atividade agropecuária a principal responsável pelo uso da água. De acordo com a entidade, 70% de toda a água consumida no mundo é utilizada na irrigação das lavouras, número que se eleva para 72% no caso do Brasil, que é um país com forte produção nesse setor da economia.

Depois do setor agrícola, vem a atividade industrial, que é responsável por 22% do consumo de água no mundo. Somente depois vem o uso doméstico, que é responsável por cerca de 8% de toda a utilização dos recursos hídricos. Esse cenário revela que não apenas as casas e os comércios devem economizar, mas também os setores primário e secundário da economia, adotando medidas de contenção da utilização de água.

Se considerarmos apenas a chamada água virtual do mundo, ou seja, a quantidade de água empregada para a produção econômica sem contar o consumo direto, a agricultura passa a deter 67% da utilização de água, seguida pelo cultivo de animais, com 23%, e depois pela indústria, com 10%. Isso significa que as medidas de economia da água inevitavelmente perpassam pela adoção de medidas no espaço rural.

Para se ter uma ideia dessa diferença de consumo, vamos considerar alguns exemplos: para produzir 1 kg de carne de boi, são utilizados 15,4 mil litros de água; uma camiseta de algodão custa 2,5 mil litros; uma tonelada de aço leva 300 mil litros; e um carro gasta mais de 400 mil. No meio agrícola, a soja é uma das campeãs, com 1,8 mil litro para cada quilo produzido – lembrando que o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores mundiais desse produto.]

O preço depende da água

Amostras de cálculos para os mesmos gêneros alimentícios acima, dependendo da disponibilidade de água.

[Aqui também não foi possível reproduzir os gráficos da reportagem. Os preços são dados em dólar. Custos encontrados para as mesmas amostras:
● cereal para café da manhã -- preço médio: US$ 4,07 -- faixa de variação: US$ 3,74 - US$ 5,33]
suco -- preço médio: US$ 3,19 -- faixa de variação: US$ 3,11 - US$ 3,35
queijo -- preço médio: US$ 7,68 -- faixa de variação: US$ 7,26 - US$ 8,22.]

Cálculos difíceis

Entretanto, para Mattison, CEO da Trucost, variáveis como essas não são razão para que não se façam tais análises. Sua empresa trabalha até com a Organização para Alimentos e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), da ONU. Juntas, estão desenvolvendo diretrizes que visam a prover assistência quando se tratar de estimar a quantidade de capital natural usada na produção de alimentos. Em um relatório conjunto, Trucost e FAO calcularam quanto capital natural é utilizado na produção de diferentes colheitas e de  produtos de carne, dependendo do local onde  foram produzidos. Aqui também foram encontradas diferenças significativas.

Custos para agricultura no Brasil, por exemplo, são frequentemente particularmente elevados porque muito das terras usadas tanto para agricultura quanto para pastagem estava uma vez coberto pela floresta amazônica. O alto custo da produção de aves domésticas na Indonésia, ao contrário, pode ser rastreado até as emissões de gases de efeito estufa, que são particularmente extremas no país. Quando se trata do cultivo de cereais, a Alemanha tem ranking baixo por causa das quantidades relativamente grandes de fertilizantes que utiliza.

Capital natural exigido para produção agrícola

Custos em dólares por tonelada

[Aqui também não foi possível reproduzir os gráficos da reportagem. Os preços são dados em dólar/tonelada. Fiz uma tabela com os principais países e respectivos resultados do estudo:




Alemanha Austrália Brasil China EUA França Holanda Rússia
Milho
x
x
1030
672
286
1606
x
x
Arroz
x
x
x
566
x
x
x
x
Soja
x
x
1367
x
618
x
x
x
Trigo
2700
x
618
723
x
1409
x
414
Carne (boi)
x
31071
444
19566
23313
x
x
x
Porco
4969
x
x
6343
2177
x
26222
x
Aves domésticas
x
x
2537
2236
2136
x
x
2729

Pó mágico

Mas, esses cálculos podem ter influência sobre a produção de gêneros alimentícios e de outros produtos? Para Mattison, o objetivo é promover uma nova maneira de pensar que, no final, resultará em uma produção mais sustentável. "Não diria que em cada caso o alimento deve se tornar mais caro. Diria apenas que precisamos baixar o custo real dos alimentos". Sua empresa está preparando os fundamentos para que isso aconteça.

O ambientalista Monbiot, entretanto, não considera que colocar uma etiqueta de preço resolva de fato qualquer problema. "Dinheiro, diz ele, não é nenhuma espécie de "pó mágico que você espalha sobre todos os problemas não resolvidos". Em vez disso, diz ele, a ideia de capital natural simplesmente aumentará o poder daqueles que têm dinheiro.

Mattison, o CEO da Trucost, também admite que os cálculos em si mesmos não mudarão muito. Mas acredita que a mudança virá uma vez eliminados os subsídios danosos -- tais como os subsídios para combustíveis fósseis, fertilização excessiva e água em regiões áridas. "Na Arábia Saudita eles costumavam ter  um subsídio muito significativo para a água. Na realidade, eles costumavam dar água de graça para a pecuária de leite e as vacas eram borrifadas com água todos os dias. Essa água era produzida por dessalinização, um processo muito caro e também muito prejudicial  ao meio ambiente porque é muito intensivo em carbono".

Em alguns casos, diz Mattison, dependência de fontes naturais pode ser significativamente reduzida pelo retorno a métodos de produção tradicionais e mais sustentáveis. A Unilever, por exemplo, treinou 400.000 produtores de chá em vários países para espalhar o uso do enxerto nas plantas de chá nas suas lavouras. Esse método poupa ao mesmo fertilizante e dinheiro.



  


terça-feira, 22 de março de 2016

"Está se esgotando o tempo para conseguirmos uma solução para os refugiados", diz ministro das Finanças alemão

A questão dos refugiados está sendo muito mais traumática e devastadora para a União Europeia (UE) do que a crise financeira, por violar conceitos básicos de democracia e de direitos humanos que se julgavam ser seus pilares fundamentais. O fluxo ininterrupto de pessoas escorraçadas de seus países por conflitos armados e perseguições pegou de surpresa os países da UE, que absolutamente não se entendem entre si sobre como resolver o problema. A última mensagem da UE para os refugiados é "fiquem em casa, não venham para a Europa", numa tentativa de evitar mais uma catástrofe humanitária.

Os inúmeros postos de controle instalados em diversas fronteiras para conter a onda de refugiados têm tido também um efeito danoso sobre o comércio interfronteiriço, tornando-o mais lento e dificultando o deslocamento de pessoas que trabalham num país vizinho ao seu. Problemas adicionais que contribuem para aumentar a reação contra os refugiados.

O movimento contra a entrada de refugiados em diversos países da UE evidenciou que união de princípios está longe de ser o forte desse grupo. A Áustria quer limitar em 37.500 a entrada de refugiados no país em 2016. O gráfico abaixo retrata a disparidade das reações dentro da UE quanto à prestação de ajuda aos refugiados. Observa-se que estão no leste europeu os países mais avessos a ajudá-los, com a Itália engrossando o grupo. Grécia, Itália e Turquia se tornaram pontos nevrálgicos e países-chaves no controle da entrada de refugiados na Europa, o que provocou uma carga brutal de problemas para esses países (principalmente à já combalida Grécia). A Turquia aproveitou a chance para impor à UE uma série de condições para fechar a "rota dos Balcãs" aos refugiados: quer 6 bilhões de euros para isso, a isenção de visto para cidadãos turcos entrarem no Espaço Schengen (UE) e o relançamento do processo de adesão do país à UE. Crise humanitária serve também para se fazer chantagem.


Parte visceral do problema dos refugiados, a concessão de asilo para eles na UE começa a provocar novas discussões e dissensões na Comunidade Europeia. Bruxelas já cogita centralizar e alterar as regras de asilo vigentes na UE ("Convenção de Dublin"), o que já provocou reação imediata do Reino Unido, que vê nisso mais uma usurpação de poder dos países pela UE, com repercussão direta no referendo que o país fará no dia 23 de junho vindouro para decidir se permanece ou não na UE.

Os países do leste europeu alegam que a solução da crise cabe primeiro aos países colonizadores, com o que concordo plenamente. Ver postagem anterior:

"A crise dos imigrantes ilegais e refugiados na Europa -- europeus colhem hoje o que semearam ontem".


A Europa acertou em 18 de março com a Turquia a mudança radical que vai aplicar a partir de agora para a crise de refugiados. Após dois dias quase ininterruptos de negociações em Bruxelas, os 28 países da UE e primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu, fecharam um acordo que permite à Europa devolver à Turquia todos os imigrantes –inclusive os refugiados– que chegarem às ilhas gregas a partir de domingo. Em troca, a UE vai ativar um procedimento de recebimento de sírios mais amplo do que o atual. Com esse pacto polêmico, a UE espera fechar a rota migratória pelo mar Egeu.

Todo esse pano e fundo reforça a validade e a oportunidade da entrevista do ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, ao site Spiegel Online International sobre a questão dos refugiados na Europa, especialmente nos países da União Europeia (UE), que traduzo a seguir. O fluxo ininterrupto de milhares de refugiados à Europa transformou-se no pior pesadelo dos europeus na história recente do continente. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.

O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, diz que a Europa precisa investir tanto dinheiro quanto possa e tão prontamente quanto possível no Oriente Médio e na África, para reduzir a imigração oriunda dessas regiões - (Foto: Reuters)

Spiegel Online -- Ministro, o governo austríaco anunciou recentemente planos para estabelecer limites mais elevados para o número de refugiados que irá aceitar. O Sr. simpatiza com essa decisão?

Schäuble -- Tive que parar para respirar quando ouvi que não tínhamos sido consultados sobre essa decisão. Em meses recentes, a chanceler alemã fez sempre um esforço para estabelecer consultas com a Áustria. Mas, sabemos que as capacidades dos estados membros da União Europeia não são infinitas. Assim sendo, faz pouco sentido para nós criticarmos uns aos outros. Todos nós aceitamos a decisão da Suécia de também introduzir controles de fronteiras. E esse é um país que durante décadas foi o mais aberto à imigração.

Spiegel Online -- A Alemanha ficará cedo sozinha e isolada com suas políticas para refugiados?

Schäuble -- Não. Na Europa, reconhecemos que as pressões que provocam migração têm que ser reduzidas. Se o sistema Schengen (de deslocamento livre intrafronteiriço) for destruído, a Europa ficará em sério risco -- política e economicamente. Essa é a razão pela qual nós europeus temos que investir bilhões na Turquia, na Líbia, na Jordânia e em outros países na região tão rapidamente quanto possível -- todo mundo, na capacidade de cada um.

Spiegel Online -- Sua proposta de introduzir um imposto sobre combustíveis para financiar essa ajuda foi recentemente repelida. Não foi bem recebida nem mesmo entre seus aliados conservadores naAlemanha.

Schäuble -- No momento, estamos felizes por termos um superávit orçamentário e não precisarmos desse imposto. Mas a Alemanha não assumir essa tarefa por sua conta, isso está claro. é por isso que sugeri que países com finanças mais apertadas pensem a respeito desse imposto. Não temos no momento o tempo necessário para essa discussão. 

Spiegel Online -- Não seria mais fácil ganhar apoio para um sistema com quotas claras e definidas para compartilhar o ônus? Esse tipo de sistema já existe, quando se trata de ajuda financeira para países como a Grécia. 

Schäuble -- Nosso tempo está se esgotando para tais soluções. Donald Tusk, o presidente do Conselho da UE, disse que temos até fevereiro. Sempre tive a esperança de que a Comissão Europeia surgiria com um plano antes desse prazo. Mas, sei que o presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, está fazendo tudo o que pode para isso. 

Spiegel Online --  Houve também carência de tempo quando do socorro aos bancos e a alguns membros da eurozona. Apesar disso, soluções provisórias foram logo substituídas por estruturas nas quais havia um claro compartilhamento do ônus. Esse não seria também o caso da crise dos refugiados?

Schäuble -- Sim, claro. Mas, ao contrário da crise do euro, alguns dos nossos parceiros na UE pensam que o problema não tem efeito sobre eles. Acho que estão errados, mas é isso o que pensam. 

Spiegel Online -- O Sr. recentemente separou 12 bilhões de euros do superávit orçamentário para cuidar dos custos associados com a crise dos refugiados. Para onde irá esse dinheiro?

Schäuble -- Cerca de metade disso já havia sido incluído no orçamento de 2016 -- para dar assistência a estados e municípios para que forneçam abrigos, por exemplo. E está claro para nós que teremos que ficaremos mais envolvidos na regiões vizinhas a nós, de modo que as pressões da migração não sejam tão altas para elas. É claro que as negociações orçamentárias serão difíceis, como sempre são. Acho que teremos que gastar mais em defesa, infraestrutura, para ampliação da rede de banda larga e também para segurança doméstica.  

Spiegel Online -- O Sr. acha que os ataques sexuais cometidos em Colônia na véspera do Ano Novo fazem com que seja mais urgente investir em segurança? 

Schäuble -- Ficou claro de um tempo para cá que temos que fazer mais pela segurança doméstica e externa. Estou preparado para isso. E estava preparado mesmo antes de Colônia.  

Spiegel Online -- Por duas vezes o Sr. conseguiu submeter um orçamento equilibrado. Quando ollha para a frente, para continuar essa tendência, o que o preocupa mais: os possíveis efeitos da crise da China sobre a Alemanha, ou o fim dos juros extremamente baixos, que têm permitido à Alemanha poupar bilhões?

Schäuble -- Na realidade, eu preferiria ter taxas de juros mais elevadas.

Spiegel Online -- Mas isso dificultaria equilibrar seu orçamento.

Schäuble -- Sim, mas nos níveis correntes as taxas de juros não estão cumprindo sua função econômica. Isso leva a flutuações extremas. No momento estamos enfrentando uma coleção completa de dificuldades para prever desdobramentos -- da situação na China à queda no preço do petróleo às preocupantes notícias de alguns bancos na Europa e nos EUA. Tudo isso está interligado: a dívida das empresas em nível mundial é elevada, e há muito dinheiro em circulação. É por isso que as reformas estruturais necessárias não estão sendo feitas. Não sei quantas resoluções do FMI e do G-20 já escrevemos dizendo que tais reformas são necessárias para um novo crescimento.

Spiegel Online -- A situação atual nos mercados faz lembrar o investidor americano George Soros da última crise financeira.

Schäuble -- Soros ganhou um bocado de dinheiro com tais rumores, ao longo de sua carreira.

Spiegel Online -- Então o Sr.não está preocupado com uma nova crise?

Schäuble -- Acabo de dizer que estamos enfrentando um conjunto completo de desenvolvimento do tipo crise, que temos de acompanhar bem de perto. Mas temos também de ser cuidadosos quanto ao que apontamos como indicadores de crise. Na China, sempre se disse uma taxa de crescimento de dois dígitos seria perigosa. Agora, o país tem uma taxa de crescimento de 6,9% e, de repente, pensa-se que isto é uma catástrofe para a economia global. O significativo colapso dos preços do petróleo mostra também que eram antes demasiado elevados. A política financeira tem de ser cautelosa, para não provocar constantemente tais exageros. Nosso orçamento equilibrado tem uma função psicológica importante. É um sinal de que não podemos continuar a constantemente assumir dívidas.

[É instrutivo e importante comparar o conceito de orçamento equilibrado dos alemães e os orçamentos fajutos de Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saia). Primeiro, ela enviou um orçamento ao Congresso um orçamento com um enorme déficit explícito, o que provocou imediatamente o rebaixamento do Brasil por duas das três principais agências de classificação de riscos. Depois, com a ajuda pilantra de suas vacas de presépio na Comissão Mista do Orçamento (CMO) do Congresso, a madame propôs um orçamento para 2016 que conta com receita fictícia, que não existe ainda e dificilmente existirá, como é o caso da CPMF (a velha história do ovo dentro da galinha) -- ou seja, na realidade o orçamento continua deficitário, no valor correspondente à receita "oriunda" da CPMF. Enquanto Angela Merkel propõe, na Alemanha, um orçamento realista e equilibrado, nossa (govern)anta apresenta um orçamento fictício, fecal e chantagista.]

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O tsunami da Volkswagen: revista alemã mostra bastidores do escândalo das emissões fraudadas

[A reportagem traduzida abaixo, publicada em Spiegel Online International (o site em inglês da prestigiosa revista alemã Der Spiegel - O Espelho) mostra a visão alemão da fraude perpetrada por uma das empresas ícones da indústria alemã. A reportagem é de Dietmar Hawranek, Christoph Pauly e Barbara Schmid.] 

A reputação da Volkswagen está em frangalhos depois que foi revelado que a empresa, durante anos, fraudou intencionalmente regras sobre emissões - (Foto: Reuters)

A Volkswagen está lutando para aceitar e lidar com o vasto escândalo das emissões de carros de sua fabricação. Ações na justiça, inquéritos oficiais e um rebaixamento potencial de sua classificação: a empresa está frente a uma miríade de riscos. O preço final disso pode ser da ordem de dezenas de bilhões de euros. 

Na terça-feira, 29/9, surgiram as primeiras boas notícias para a Volkswagen (VW) depois de um certo tempo. A diretoria da empresa estava em reunião, sob a liderança do recém-empossado CEO Matthias Müller, e técnicos da área de desenvolvimento estavam relatando como haviam planejado equipar 11 milhões de veículos com sistemas de filtragem de emissões conformes com a legislação pertinente. 

Essa é a tarefa mais premente para a VW, no momento em que busca enfrentar o vasto escândalo das emissões que ela mesma gerou. A Agência Federal de Transportes Motorizados da Alemanha deu-lhe a data limite de 7 de outubro para a apresentação de planos sobre como ela propõe resolver seu problema com as emissões de seus veículos. Se ela não o fizer, os veículos envolvidos podem ser declarados inadequados para circular -- o que significaria que seus proprietários não poderão mais dirigi-los. Isso seria o maior desastre possível para essa empresa automobilística. 

Mas, na terça-feira, os engenheiros da VW estavam otimistas pelo fato de mais da metade dos veículos questionados não necessitarem mais do que uma atualização de software, o que custaria meros 60 euros por veículo. Outros modelos exigiriam um esforço maior, com a modernização custando várias centenas de euros por veículo. No total, entretanto, resolver o problema poderia não ser tão caro como inicialmente se temia, disseram os especialistas da VW, para grande alívio dos diretores da companhia. 

Desde 20 de setembro, quando o então CEO Martin Winterkorn admitiu que a VW havia durante anos fraudado os testes de emissão por meio de um software ilegal, a maior empresa automobilística da Europa entrou em crise. Os dirigentes da empresa não sabiam por onde começar. "É como se tivéssemos sido atingidos por um tsunami", disse um deles. 

Soterrada por inquéritos

Os consultores jurídicos da empresa estavam assoberbados com inquéritos de autoridades nacionais de ambos os lados do Atlântico e por advogados que estavam notificando a companhia com ameaças de ações legais. Além disso, especialistas financeiros da VW tinham que elaborar planos para o caso de a empresa perder nível de classificação, o que aumentaria os custos de seus empréstimos. E os gerentes de vendas tinham que surgir com promoções para ajudar os vendedores de carros da empresa. Os modelos a diesel estão agora extremamente difíceis de sair do estoque sem descontos significativos. 

E há ainda a investigação da companhia, que espera descobrir rapidamente como o escândalo pôde ocorrer, em primeiro lugar, e quem foi seu responsável. Como o desenvolvimento do motor diesel questionado começou lá em 2005, documentos, registros e emails dos últimos 10 anos terão que ser examinados. 

Mas os envolvidos na investigação receberam também pistas da imprensa -- como, por exemplo, de que a Bosch, fornecedora da VW, alertou inicialmente a Volkswagen contra o uso do software questionado. Mas os investigadores da VW não conseguiram encontrar uma mensagem dessa natureza nos registros da empresa. A Bosch foi então contactada por eles, com a solicitação de que enviasse uma cópia da citada correspondência para a sede da VW em Wolfsburg. 

Até agora, foram suspensos quatro dirigentes responsáveis pelo desenvolvimento de motores para veículos. O que ocorreu com eles foi semelhante à experiência vivida pelo diretor da Audi Ulrich Hackenberg, um confidente de longa data de Winterkorn e, até poucos dias atrás, um dos homens mais poderosos da VW. Ele foi informado de sua suspensão imediata pelo departamento de pessoal, foi solicitado a devolver seu celular da empresa e a deixar sua sala. Foi-lhe dito também para não por mais os pés nas instalações da empresa. 

Wolfgang Hatz e Heinz-Jakob Neusser, chefes de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) da Volkswagen e da Porsche, respectivamente, tiveram destinos semelhantes. No caso de Neusser há uma causa provável: alega-se que um empregado da empresa ter-lhe-ia falado em 2011 sobre o uso do software de emissões proibido.

Essas medidas são vitais, no momento em que a companhia busca descobrir o que deu errado e começa o que promete ser um longo processo para restabelecer sua reputação. Alguns dos dirigentes suspensos, com certeza, retornarão a seus postos uma vez provado que não tiveram nada a ver com a implementação do software questionado. Mas, por ora, o desenvolvimento de novos modelos na VW e em suas afiliadas sofreu uma paralização estridente. Os velhos chefes se foram, novos chefes têm ainda que ser designados e projetos não podem avançar. 

Ainda um outro risco

Isso, entretanto, é um preço baixo a pagar em comparação com o que provavelmente está por vir. Müller, o novo CEO da VW, que chefiava a Porsche antes de sua promoção, exigiu uma investigação "implacável e vigorosa". Mas, com a própria existência da empresa sob risco, mesmo isso pode não ser suficiente. Ninguém sabe o valor final da conta depois que os veículos afetados forem modificados, as ações legais de consumidores e acionistas forem decididas e as multas pagas. Pode ser 10 bilhões, 20 bilhões ou até 30 bilhões de euros, sem mencionar a perda potencial de vendas com uma fuga de compradores de veículos VW.

Raramente passa-se um dia sem o aparecimento de ainda outro risco. Na Alemanha, por exemplo, as manipulações das emissões podem resultar numa grande conta de impostos retroativa. "Não foram apenas os consumidores que foram enganados quanto à descarga de emissões", diz Thomas Kutschaty, secretário de Justiça do estado de Reno-Westfália do Norte. "O estado foi enganado também, quando se trata de taxas de registro de veículos". No código penal alemão, observa Kutschaty, existe algo como "atuação criminal", que se refere à perpetração de um crime por uma terceira parte -- tal como no caso de proprietários de veículos VW a diesel, que sem saber estavam violando as leis de emissões da Alemanha. 

Proprietários de veículos registrados entre final de 2008 e meados de 2009 e que receberam uma classificação de emissões Euro 5 não eram devedores de quaisquer impostos durante certo tempo. Se se concluir que aquela classificação foi incorreta, isso pode significar que foram perdidos milhões de euros em receita potencial [de impostos]. Especialistas financeiros da VW contestam este argumento, mas a discussão serve para ilustrar como obscura está hoje a situação para a empresa. 

O ex-CEO da Volkswagen Martin Winterkorn e o diretor financeiro da empresa Dieter Pötsch - (Foto:AFP)

A Volkswagen, diz o novo CEO Müller, está frente ao "maior teste da história da empresa". 

Ainda assim, parece como se alguns dos mais importantes atores desse drama ainda têm que chegar a essa conclusão, Martin Winterkorn em particular. De início, ele se recusou a sair do cargo de CEO, mesmo estando claro que tinha que se responsabilizar pelo escândalo não importa quando ele tomou ciência disso pela primeira vez. O Conselho de Administração teve no final que forçar sua renúncia. 

Dificuldade para tomar decisões

E então, quando finalmente renunciou, Winterkorn não deixou todos os cargos que ocupava na empresa. Ele pretende permanecer como presidente da Porsche Automobil Holding SE. "Ele é inaceitável nesse cargo", diz um diretor da Porsche. A Holding, afinal, controla 52% da VW que pertencem às famílias Porsche e Piëch e é assim responsável por pressionar para que avance a investigação do escândalo. Isto não é possível com Winterkorn no comando. 

Mas Wolfgang Porsche, que preside o Conselho de Administração da Porsche Automobil Holding, tem dificuldades para tomar decisões. Ele é o segundo personagem neste drama que aparentemente não percebeu ainda que o mundo da VW foi fundamentalmente alterado com o escândalo das emissões. 

Porsche, por exemplo, continua insistindo para colocar o chefe financeiro da VW Dieter Pötsch como o próximo presidente do Conselho de Administração. As famílias Porsche e Piëch aceitaram Pötsch apenas após longas discussões, e Wolfgang Porsche aparentemente não vê razão para mudar de curso agora. 

Pötsch é bem respeitado, tanto por bancos como por investidores. Mas, a falta de transparência no lidar com o mercado é um dos miniescândalos dentro do escândalo maior das emissões. A VW foi honesta com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, na sigla em inglês) em 3 de setembro, admitindo que durante anos havia utilizado um software proibido para contornar as exigências relativas a emissões. Naquele dia, no mais tardar, deveria ter emitido uma informação pública sobre isso. Os regulamentos mobiliários alemães exigem uma "divulgação imediata" de informação que possa significativamente influenciar os preços das ações de uma companhia. 

Esse é claramente o caso, quando se trata do escândalo das emissões. Mas o chefe financeiro da VW permaneceu em silêncio durante 17 dias. Durante este período, centenas de milhares de investidores compraram ações da VW. Quando o escândalo finalmente tornou-se público em 20 de setembro os preços das ações da VW afundaram em 40%, custando 35 bilhões de euros aos acionistas.

Papéis incompatíveis

Autoridades judiciárias dos EUA, em conjunto com a Autoridade Federal de Supervisão Financeira da Alemanha e com promotores públicos alemães, planejam interrogar Pötsch. É certamente possível que ele não soubesse de nada ou que tenha uma resposta satisfatória. De fato, um relatório aparentemente conclui que ele não podia ser responsabilizado. Mas o chefe financeiro ainda é uma figura central nesse imbróglio -- e como presidente do Conselho de Administração, ele seria responsável por liderar a investigação. Esses dois papéis são incompatíveis. 

O estado da Baixa Saxônia é o segundo maior acionista da VW, detendo 20% de seu capital. Mas, ele também parece não estar à altura dos acontecimentos. Seu governador Stephan Weil reclamou que "era impossível ter informação sobre a estratégia da diretoria", acrescentando que apenas soube do escândalo ao ler seu jornal. "Estou extremamente irritado", disse ele -- como se não tivesse responsabilidade de se manter atento sobre a companhia de que seu estado é parcialmente dono. 

E o que dizer de Martin Winterkorn? O chefe de longa data da VW está irritado, dizem aqueles que lhe são próximos. Ele se vê como a vítima de um grupo de desenvolvedores que instalou software ilegal secretamente, sem que ele soubesse. Ele se vê como a vítima de diretores da VW cuja arrogância hostilizou autoridades americanas. E ele se vê como vítima dos membros do Conselho de Administração que o forçaram a renunciar. 

Agora, Winterkorn requer que lhe paguem 10 milhões de euros que ainda lhe são devidos de  acordo com seu contrato, que expira no final de 2016 -- € 10 milhões que se somarão aos € 76 milhões que já ganhou nos últimos cinco anos como o executivo de mais alto salário da Alemanha.





segunda-feira, 20 de julho de 2015

Crise grega aumentou o distanciamento entre a França e a Alemanha

[Os desdobramentos da crise grega não cessam, e ninguém sabe exatamente onde chegarão. A única certeza é que, a rigor, não haverá vencedores. Em postagem anterior já manifestei minha opinião de que a Grécia não é confiável e está chantageando a UE (União Europeia). Paparicá-la só faz piorar o imbróglio que a própria Grécia e a UE enfrentam.

Após 17 horas de negociações, em 13/7/2015 os líderes da zona do euro chegaram por unanimidade a um acordo para um terceiro plano de resgate para salvar a Grécia. Esse pacote pode chegar a 86 bilhões de euros em três anosOs credores, no entanto, exigem que Atenas aprove novas leis nas próximas 48 horas, obrigando o país a aplicar as medidas prioritárias exigidas em troca do resgate. Como disse antes, esse é um acordo de perdedores. Alexis Tsipras recuou de suas posições de campanha eleitoral, o que configura mais um estelionato eleitoral, e por isto mesmo a situação não é tranquila. O parlamento grego pode derrotar Tsipras e a UE, e tudo volta a um novo imbróglio ampliado.

Economistas dizem que a própria Grécia foi o primeiro país a dar calote de forma registrada, no ano 377 antes de Cristo, quando uma dezena de polis - cidades gregas - decidiram não cumprir com suas obrigações financeiras. Desde então, o destino financeiro dos gregos tem sido cíclico: deixaram de pagar suas dívidas em várias ocasiões.

Considerando-se uma moratória como uma crise de dívida externa produzida por instabilidade política, guerras e revoluções, historiadores econômicos consideram que o pior devedor da história é a Espanha. O país teve 14 crises relacionadas com compromissos financeiros desde 1800, segundo estudo compilado por Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, da Universidade de Harvard, e outros investigadores como o economista Miguel Ángel Boggiano, da Universidad de San Andrés, em Buenos Aires.

Boggiano disse que, nesse ranking, default e reestruturação são considerados fenômenos similares.

Os países que mais deram calote
PaísesCalote ou reestruturações
Espanha14
Venezuela, Equador11
Brasil10
França, Costa Rica, México, Perú, Chile, Paraguai9
Argentina, El Salvador, Alemanha (incluindo Prússia, Hesse, Schleswig-Holstein e Vestfália)8
Colômbia, Uruguai, Portugal7
EUA, Bolívia, Turquia, Rússia, Grécia, Império Austro-Húngaro6
Nigéria5

O não-pagamento de cerca de US$ 95 bilhões pela Argentina em 2001 é considerada por economistas como Jill Hedges como o maior default soberano da história.
Entre os diversos problemas consideráveis gerados pela crise grega estão o afloramento e/ou o agravamento das divisões entre países da zona do euro. A reportagem que traduzo a seguir, de Fabrice Nodé-Langlois, foi publicada pelo jornal francês Le Figaro.  O texto ajuda a conhecer os bastidores da decisão de se dar à Grécia um terceiro plano de resgate  . O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.] 

No sábado, 11/7/2015, o Eurogrupo caminhou para a "confrontação"- (Foto: Olivier Hoslet/AP)
Contrariando os esforços de François Hollande para assegurar a manutenção de Atenas na zona do euro, Angela Merkel e seus aliados exigiam domingo (12/7/2015) à noite medidas de Alexis Tsipras, antes de discutir um terceiro plano de ajuda europeu aos gregos.

Se não devesse existir senão um único ponto de convergência entre todos os participantes desse novo fim de semana de intensas negociações em Bruxelas sobre o destino da Grécia, esse foi de que as trocas de argumentos terão sido "extremamente duras, até mesmo extremamente violentas", segundo um participante da reunião fechada de ministros no sábado.  

Os chefes de Estado e de governo dos 19 países da zona do euro prosseguiam suas discussões tarde da noite no domingo, após intercambiarem as informações de seus ministros de finanças. Estes últimos haviam disputado uma maratona de 14 horas na eurozona, interrompida pela noite. Praticamente seis meses depois da vitória eleitoral do líder da esquerda radical grega Syriza, Alexis Tsipras, a confrontação entre Atenas e seus credores devia chegar a um fim. O que estava em jogo era salvar a Grécia de uma falência iminente, ou deixá-la sair da zona do euro -- a famosa Grexit -- e mergulhar no desconhecido.
François Hollande preveniu ao chegar a Bruxelas: "O que está em jogo não é somente a Grécia, o que está em jogo é a Europa. A França fará de tudo para chegar a um acordo nesta noite". À sua frente, o tom de Angela Merkel era outro: "Haverá discussões duras, e não haverá acordo a qualquer preço".

A sequência havia, no entanto, começado sob bons auspícios. Após a adoção das últimas propostas de reformas gregas pelo parlamento de Atenas, na sexta-feira, a troika [União Europeia (UE), Banco Central Europeu (BCE) e o FMI] as haviam acolhido de modo "positivo". Logicamente, já que essas reformas visavam a sanear o orçamento grego (aumento do IVA - Imposto sobre Valor Agregado, aumento da idade mínima de aposentadoria, criação de uma autoridade fiscal independente, entre outras medidas), elas retomavam em grande parte as exigências europeias do 25 de junho, exatamente a prescrição austera rejeitada por 61,3% dos votantes gregos no dia 5 de julho. 

Mas, no sábado, o Eurogrupo caminhou para a confrontação, nas palavras de Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, convidado para a reunião. Na linha de frente do núcleo duro, a Alemanha e a Finlândia. Berlim considerava insuficientes as medidas de Atenas, argumentando principalmente que a situação econômica da Grécia "havia se deteriorado consideravelmente desde vários meses". Quanto ao governo finlandês, ele se opunha a um novo plano de ajuda financeira, que não passaria pela barreira de seu parlamento. Na realidade, "uma parte dos ministros tinha claramente na cabeça a ideia de que a melhor solução era a saída [da Grécia] da zona do euro", comenta um participante desse enfrentamento. Segundo essa fonte, Mario Draghi não gostou que a opinião da troika não fosse respeitada.

"Um plano muito ruim", avaliam os gregos

Chefiada pelo novo ministro das Finanças, o muito policiado Euclide Tsakalotos, a delegação grega ao Eurogrupo multiplicou esforços para dar garantias de seriedade. Tratava-se de restaurar a confiança e a credibilidade, duramente deterioradas entre os parceiros. A Grécia se comprometeu a fazer votar leis em um prazo recorde -- antes de 15 de julho! -- imposto pelos credores sobre as principais reformas [ver aqui a lista destas reformas]

O Eurogrupo finalmente produziu um texto, do qual os chefes de Estado deveriam eliminar os últimos pontos de divergência. Uma medida, entre as colocadas sobre a mesa, é doravante considerada indispensável pela Alemanha. Trata-se de um fundo que geriria os ativos gregos a serem privatizados. O projeto de acordo menciona 50 bilhões de euros. Uma cifra muito exagerada segundo Martin Schulz, tendo em vista o valor dos bens suscetíveis de serem privatizados. Esses ativos seriam postos sob arresto ou embargo judicial pelos credores, a fim de resgatar a dívida. Uma perspectiva humilhante para o governo de Tsipras, que se fez eleger prometendo escapar da tutela da troika [Este fundo será estabelecido na Grécia e gerido pelas autoridades gregas sob a supervisão das instituições europeias pertinentes]. Por volta das 22h do domingo, um delegado grego qualificava de "muito penosas" as medidas do Eurogrupo. Os chefes de Estado tentavam achar um meio-termo, especialmente sobre o tema muito sensível desse fundo.

Em troca dessas garantias tangíveis, os chefes de Estado esperavam dar mandato à Comissão e ao Eurogrupo para que se abrissem negociações sobre um terceiro plano de ajuda à Grécia. Esse sinal político forte permitiria ao BCE aumentar sua injeção de recursos financeira e contínua aos bancos gregos desde segunda-feira. A Grécia batalhava para que fosse mencionada a reestruturação de sua dívida no documento final. 

A negociação do novo plano de resgate, cujo montante é quantificado pelo Eurogrupo entre 74 e 86 bilhões de euros (dos quais uma parte destina-se ao resgate da dívida dos bancos) poderia durar até o final de julho, explicou uma fonte próxima às negociações. Vários parlamentos, entre os quais o da Alemanha e o da Finlândia, terão que autorizar essas tratativas. Um prazo um pouco longo, avalia uma fonte grega, tendo em vista a situação crítica dos bancos e do Tesouro gregos. Uma "ponte" financeira estava sob análise para permitir à Grécia escapar do calote frente ao BCE no dia 20 de julho. 

No final da noite de domingo, a possibilidade de um fracasso não estava apesar de tudo descartada. O documento do Eurogrupo previa explicitamente o "final ruim", ou seja a Grexit