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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Nomeação de mais um general (o terceiro) para o governo faz crescer receios sobre forte influência militar na administração Trump

[Antes mesmo de assumir formalmente as rédeas do país, Donald Trump já sinaliza com atos, atitudes e nomeações que o termo catastrófico pode ser uma palavra suave para seu governo. O número inédito de generais em sua equipe formal já acendeu todas as luzes amarelas nos EUA. Traduzo a seguir a essência de artigos publicados pelo jornal americano The Washington Post sobre isso. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. ]

Trump está se cercando de generais, e isto é perigoso

Philippe Carter e Loren Dejonge Schulman - The Washington Post, 30/11/2016

Mais  do que qualquer outro presidente eleito na memória recente, Donald Trump tem buscado militares de alta patente para povoar seu círculo íntimo de auxiliares. Em 24 de novembro, Trump anunciou que queria o general da reserva dos Fuzileiros James Mattis como seu secretário de Defesa -- um posto tradicionalmente destinado a um civil. Trump pensa também no general da reserva David Petraeus para secretário de Estado, no general da reserva da Marinha John Kelly para secretário de Estado ou secretário de defesa interna, e no almirante Michael S. Rogers como diretor de inteligência nacional. Seu conselheiro designado, Michael Flynn, aposentou-se do exército como general-de-divisão após décadas de atuação como oficial de inteligência militar. E o diretor indicado para a CIA, Mike Pompeo, formou-se na academia militar de West Point e serviu como oficial do exército durante a Guerra Fria.

O presidente eleito Donald Trump conversou com o general da reserva dos Fuzileiros James Mattis e vários outros ex-militares sobre vagas em seu governo - (Foto: Janin Botsford/The Washington Post)

David H. Petraeus, general da reserva e ex-diretor da CIA, na Trump Tower em Manhattan (NY) no início da semana passada - (Foto: Sam Hodgson, para o The New York Times) 


Há uma grande tradição americana de se ter militares veteranos em altos postos da administração política, desde os presidentes George  Washington e Dwight Eisenhower a oficiais seniores como o secretário de Estado Colin Powell na administração George W. Bush e o assessor de segurança nacional James Jones no governo Obama. Um governo típico, entretanto, começa com poucos generais recentes em postos chaves. Preencher tantos lugares com patentes da reserva, como Trump está propenso a fazer, é altamente inusitado.

Não há dúvidas de que esses homens trazem consigo uma tremenda experiência. Mas precisamos estar atentos e cautelosos quanto a estarmos demasiado dependentes ou apoiados em figuras militares. Grandes generais nem sempre são grandes funcionários de gabinetes. E se nomeados em números excessivos, podem enfraquecer ou destruir outra forte tradição americana: o controle civil de militares apolíticos.

Trump frequentemente desdenhou de líderes militares durante sua campanha eleitoral. Gabava-se de saber mais que os generais sobre como combater o Estado Islâmico. Repetidamente, criticou-os por anunciarem suas estratégias de ataques antes que estes ocorressem. Disse que tinham sido "reduzido a entulho" no governo Obama, e ameaçou até remover alguns de seus cargos quando assumisse a presidência.

Ainda assim, compreende-se porque ele os abraçaria agora. Os militares desfrutam da mais alta taxa de aprovação de qualquer instituição na sociedade americana. E contratar ex-generais é um modo seguro de ganhar legitimidade -- quer o presidente seja um senador por Illinois em primeiro mandato buscando cobertura, ou uma estrela de reality show de TV e magnata de cassinos que perdeu no voto popular e tem a reputação de ser um neófito em política externa.

É claro que as escolhas de Trump têm implicações além do teatro político. E legitimidade percebida não deve ser confundida com possibilidade de êxito em altos cargos civis.

Como quaisquer empregados em perspectiva, veteranos devem ser julgados com base em seus méritos mais além de seu posto militar ou de seu serviço militar. O registro histórico mostra que veteranos com status e qualificações semelhantes podem desempenhar-se de maneira muito diferente, quando nomeados para altos cargos. Consideremos os casos do general-de-divisão da reserva da Força Aérea Brent Scrowcroft, que foi assessor de segurança nacional dos governos Gerald Ford e George W. Bush, e o general-de-exército Alexander Haig, que foi secretário de Estado de Ronald Reagan. Cada um deles veio para seu cargo com credenciais militares impecáveis e considerável experiência em Washington. Scowcroft saiu-se brilhantemente, conduzindo um Conselho de Segurança Nacional eficiente que administrou a política externa americana quando a Guerra Fria acabou, a União Soviética se dissolveu e os EUA lutaram a Guerra do Golfo Pérsico. Haig teve um desempenho ruim, provocando (ou quase isso) várias crises entre civis e militares com sua militaresca afirmação de que estava no comando [do país] após a tentativa de assassinato de Reagan, e sua diplomacia altamente arrogante em relação à União Soviética. Haig demitiu-se um ano e meio depois de assumir o cargo.

É impossível saber se os veteranos de Trump serão mais parecidos com Scowcroft ou mais semelhantes a Haig.

Mattis, o monge guerreiro [pessoa que combina características de um monge -- profunda devoção religiosa e vida ascética -- com as de um guerreiro treinado para se envolver em conflitos violentos], mostrou seu gênio estratégico e operacional como general da marinha, mas lidar com e controlar a burocracia do Departamento de Defesa é outra coisa. (...) "Você não pode tocar o Pentágono como faz com a Primeira Divisão Naval".

Flynn é um iconoclasta cuja liderança apoiada em estratégia de terra arrasada no Comando Conjunto de Operações Especiais e na Agência de Inteligência da Defesa não permite prever bem como ele administrará o Conselho de Segurança Nacional, ou fará com que agências rivais trabalhem em conjunto. (...)

Petraeus personifica o líder militar moderno americano, mas seu estilo de liderança não encaixa bem com a CIA e seria provavelmente ainda um figurino pior para o Departamento de Estado ou outra agência governamental. [Esse "líder militar moderno americano" teve que renunciar ao cargo de diretor da CIA  em 2012, quando o FBI descobriu que ele mantinha um caso extraconjugal com Paula Broadwell, que ele escolhera para ser sua biógrafa.]

(...) E há uma dimensão social nas relações entre civis e militares que pode sofrer com a nomeação de líderes militares aposentados para  altos argos. A parcela de veteranos na sociedade está em declínio, como resultado de forças militares menores, a falta de alistamento militar, e uma população em crescimento. Sobram preocupações sobre como militares e civis se dividirão, e sobre como os militares se relacionarão com a sociedade quando uma decrescente porcentagem de americanos serve uniformizada ou tem relacionamento pessoal com quem o faz. Líderes militares seniores passaram todas sua vidas adultas dentro da bolha militar -- vivendo nas comunidades confinadas mais exclusivas da América, numa sociedade insular que tem seu próprio código legal, sua própria linguagem e seus próprios costumes. Nossos militares são ao mesmo tempo uma parte da América e apartados dela. Generais e almirantes emersos desse ambiente podem ser líderes e militares profissionais estelares, mas constituem-se em embaixadores improváveis para fazer a  ponte com os civis.

(...) O maior risco apresentado pela corrida de Trump para cortejar as altas patentes militares é a extensão em que nossa liderança militar pode tornar-se, em realidade ou percepção, uma instituição politizada. Isso poderia, como Dempsey [general da reserva Martin Dempsey] conjecturou, levar "administrações futuras a determinar quais líderes seniores militares seriam mais prováveis de concordar com eles, antes de colocá-los em postos de liderança sênior". No curto prazo, Trump pode estar satisfeito com militares politizados que parecem mais receptivos a ele. No longo prazo, entretanto, tanto o governo Trump quanto nossa segurança nacional sofrerão se essas nomeações solaparem a integridade institucional dos militares e corromperem sua liderança a serviço de fins políticos.

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Trump nomeia um terceiro general, gerando preocupações sobre forte influência militar

Philip Rucker e Mike DeBonis - The Washington Post, 7/12/2016


Presidente eleito Donald Trump encontrou-se com o general da reserva do Corpo de Fuzileiros Navais em 20 de novembro em Bedminster Township, NJ - (Foto: Drew Angerer/Getty Images)


O presidente eleito Donald Trump escolheu o general da reserva dos Fuzileiros John F. Kelly como secretário de Segurança Interna, recrutando assim um terceiro membro das altas patentes militares para servir nos níveis mais altos de sua administração.

A escolha de Kelly por Trump -- e suas continuadas deliberações sobre escolher ainda mais dois militares para outros cargos -- aumentou as preocupações entre alguns membros do Congresso e especialistas em segurança nacional de que as políticas da nova administração possam ser desproporcionalmente moldadas por comandantes militares.

"Estou preocupado", disse o senador Chris Murphy (democrata - Connecticut), um membro do Comitê de Relações Exteriores. "Cada uma dessas pessoas pode ter grande mérito pessoal, mas  o que aprendemos ao longo dos últimos 15 anos é que quando olhamos os problemas no mundo sob a ótica militar, cometemos grandes erros".

Apesar de, regularmente, fazer comentários desrespeitosos sobre os generais do país na campanha eleitoral, Trump tem de longa data mostrado uma afinidade por eles. Ao moldar seu governo, Trump tem priorizado pessoas do tipo que um assessor descreveu como "capaz e desejoso de fazer, sem besteiras", que o presidente eleito vê como um contraste deliberado com as escolhas pessoais que Obama fez.

Se confirmados, Kelly e o candidato a secretário de Defesa James Mattis, um general da reserva dos Fuzileiros apelidado de "Cão Raivoso", se juntariam ao general-de-divisão de reserva do Exército Michael T. Flynn, escolhido por Trump para ser o conselheiro de segurança nacional da Casa Branca. Enquanto isso, o general da reserva do Exército David H. Petraeus está sendo considerado para ser secretário de Estado e o almirante Michael S. Rogers está na disputa pelo cargo de diretor da inteligência nacional.

Outras figuras com experiência militar estão povoando também a administração Trump, incluindo o deputado republicano Mike Romeo (Kansas), graduado pela academia militar de West Point e que serviu no Exército na Guerra do Golfo, indicado por Trump para dirigir a CIA, enquanto Stephen K. Bannon, um ex-oficial da Marina, será o estrategista-chefe e conselheiro sênior de Trump na Ala Oeste da Casa Branca.

Trump, que teve múltiplos adiamentos de recrutamento e não tem experiência militar além de seus anos em um internato militar (military boarding school), é tido como ter atração por generais pelo ar insolente e arrogante destes e ficar maravilhado com suas histórias dos campos de batalha.

Muitos daqueles que Trump vem entrevistando e consultando passaram grande parte da última década e meia intimamente envolvidos na guerra dos EUA contra o terrorismo global. As escolhas de Trump são também surpreendentes, considerando-se sua postura não-intervencionista na campanha eleitoral e suas críticas violentas contra a guerra no Iraque e outras aventuras militares.

(...) A forte confiança em, e dependência de, líderes militares por parte de Trump marcam um desvio de sua administração das administrações dos três presidentes que o antecederam, que escolheram poucos generais para os cargos mais altos, com altos e baixos nos resultados, e se apoiaram grandemente em pessoas que passaram décadas prestando serviços como civis -- políticos, acadêmicos ou advogados.

(...) Nas redes sociais houve nesta semana alguns comentários sarcásticos, dizendo que o gabinete que Trump está montando parece uma "junta militar". (...)

A maioria dos oficiais militares passou toda sua carreira dentro de organizações estruturadas, com equipes grandes e uma clara cadeia de comando. Algumas vezes eles se debatem com dificuldade no mundo ilimitado da política e de estratégias -- sem mencionar o que se espera sem um ambiente imprevisível na Casa Branca de Donald Trump.

"Grandes generais nem sempre são grandes funcionários de gabinetes", disse Phil Carter, um veterano da Guerra do Iraque e membro sênior do Centro para uma Nova Segurança Americana.

Ver também:

☛ "O que Trump pode não saber sobre os generais que tem em mira para altos cargos" (em inglês)

☛ "Assessor de segurança nacional de Trump disse que está pronto para se engajar em uma nova guerra mundial" (em inglês)




quarta-feira, 20 de abril de 2016

Líbia: mais um desastre subsequente a uma intervenção militar americana

Muito recentemente, o presidente Obama causou uma comoção diplomática com dois parceiros militares tradicionais dos EUA, França e Reino Unido, ao referir-se depreciativamente e sem rodeios à participação dos dois na intervenção militar na Líbia em 2011, capitaneada pelos americanos via OTAN. A imprensa americana, obviamente, foi mais autêntica que a brasileira ao reproduzir a fala de Obama. Segundo o site da revista The Atlantic, que entrevistou o presidente americano, Obama disse que a falta de concentração da Europa gerou o caos que ocorre na Líbia (como sempre, zero de mea culpa do lado americano).

Obama disse que o primeiro-ministro David Cameron (Reino Unido) "distraiu-se com um monte de outras coisas após a operação" e parou de prestar atenção na Líbia.  Cameron e o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy receberam a carga maior das críticas do presidente americano.

Com relação à França, Obama disse que "Sarkozy queria trombetear os voos que a França vinha fazendo na operação aérea, apesar do fato de que nós [americanos] tínhamos destruído todas as defesas aéreas líbias e, essencialmente, criado toda a infraestrutura necessária para a operação".

Embora considere que a intervenção tenha sido bem feita como poderia, Obama vê a Líbia hoje como uma "bagunça". Este é o termo diplomático, reservadamente, diz a revista (The Atlantic) que o entrevistou, ele se refere a esse país problemático como um "show de merda". Ele considera que isso ocorreu por razões que se devem mais à passividade dos aliados dos EUA e ao obstinado poder do tribalismo do que à incompetência dos americanos.

Por mais que se esforce, Obama não conseguirá apagar ou minimizar mais um enorme fracasso político-estratégico americano a partir de mais uma intervenção militar (que, segundo Obama, custou US$ 1 bilhão -- muito barato em termos de operações militares, disse ele).

Em 27/02/2016, o site do jornal International New York Times publicou uma reportagem inusitadamente longa (a versão impressa saiu em 01 de março corrente) de Scott Shane e Jo Becker sobre o caos em que está mergulhada a Líbia. O subtítulo da reportagem diz que "a queda de Gaddafi deu razão a (Hillary) Clinton inicialmente, até que a guerra civil e o Estado Islâmico se estabeleceram".

A reportagem descreve a impaciência de Hillary (então secretária de Estado) quanto à conclusão da intervenção militar multinacional, que lhe custara muito trabalho para organizar. Confirmada a queda de Gaddafi, ela teve seus momentos de glória e durante semanas foi exaustiva e abertamente louvada pelo Departamento de Estado.

Mas, assinala a reportagem, já havia sinais de que o triunfo teria vida curta e de que o vácuo deixado por Gaddafi era um convite para a violência e a divisão interna no país. Os líderes líbios interinos pareciam chocantemente desconectados, o assassinato de um destacado general rebelde reforçava o risco de "crimes por vingança", islamitas se apressavam para tomar o poder e havia uma indolente indiferença quanto ao desarmamento dos combatentes das milícias que haviam derrubado Gaddafi e agora ameaçavam a unidade do país (e eram financiados pelo Qatar).

Num encontro na Universidade de Trípoli, Harol Koh, o principal advogado do Departamento de Estado e membro da comitiva de Hillary, ouviu de um estudante: "Sabemos o que os EUA podem fazer com bombas. O que mais vocês podem fazer?".

A pressão da Líbia para eleições em julho de 2012, nove meses após a morte de Gaddafi, parecia prematura para alguns observadores.  Em janeiro de 2012 havia um inequívoco prenúncio de problemas. Em 5 de janeiro, Hillary recebeu um email de Sidney Blumenthal, seu velho amigo e assessor, detalhando o ambiente na Líbia: tensões entre islamitas e secularistas quanto ao papel da lei islâmica, combates entre milícias rivais associadas a duas cidades, e milicianos furiosos exigindo concessões.

Após a queda de Gaddafi, com um mínimo de violência e uma amistosa liderança líbia interina, a Líbia foi rapidamente retirada do topo da agenda da administração Obama. As reuniões regulares sobre a Líbia na 'sala da situação', que frequentemente incluíam Obama, foram interrompidas.  A revolta na Síria, no coração do Oriente Médio e com o quádruplo da população da Líbia, assumiu o centro do cenário. A Líbia, disse Dennis B. Ross, um veterano especialista em Oriente Médio no Conselho Nacional de Segurança (NSC, na sigla inglesa), "foi preparada para a atuação de terceiros em nível operacional". A desatenção com o país não era uma simples negligência, era uma política, uma estratégia.

"O presidente estava no clima de 'não iremos fazer um outro Iraque'", disse Derek Chollet, então responsável pela Líbia no NSC. "E, por falar nisso, os europeus estavam o tempo todo dizendo 'não, não, nós estamos fazendo isso. Entendemos a situação e acreditamos na Líbia, ela está na nossa vizinhança".

Então, o presidente e o NSC definiram o que um alto funcionário chamou de "limites severos" para o papel dos americanos na Líbia: os EUA ajudariam apenas quando pudesse oferecer algo único em termos de capacitação, o faria apenas quando a Líbia explicitamente requisitasse tais serviços e apenas quando a Líbia pagasse por isso com suas receitas do petróleo. Na prática, isso significava que os EUA fariam muito pouco.

Embora o presidente francês Nicolas Sarkozy e o primeiro-ministro britânico David Cameron tivessem visitado a Líbia juntos, eles também estariam logo com suas atenções desviadas do país devido uma campanha por reeleição (Sarkozy) e preocupações econômicas.

Com o passar dos meses e com as lutas entre facções piorando, Hillary pressionou para que seu governo fizesse mais pela Líbia, solicitando por exemplo ao Pentágono para ajudar no treinamento das forças de segurança líbias. Mas ela não logrou êxito, pelas restrições de Obama e a resistência dos líbios. Até mesmo propostas simples sucumbiram. Quando Hillary propôs o envio de um navio-hospital para tratar combatentes líbios feridos, o NSC rejeitou a ideia.

Em fevereiro de 2012, Andrew Shapiro, secretário de Estado assistente para assuntos político-militares, tentava explicar o que os EUA estavam fazendo para guardar com segurança o vasto arsenal militar que Gaddafi havia deixado para trás -- uma notável exceção à política de não-intervenção. Shapiro descreveu os esforços para "galvanizar uma resposta internacional" à tarefa de localizar e destruir depósitos de armas. Mas, reconheceu que o programa de US$ 40 milhões que Hillary havia anunciado para isso não ia bem, mesmo quando ele alcançou as armas mais preocupantes, os Manpads, disparadores de mísseis apoiados nos ombros dos combatentes e capazes de derrubar uma aeronave.

"Quantos Manpads estão ainda desaparecidos? A resposta franca é 'não sabemos' e provavelmente nunca saberemos", disse Shapiro. "Não podemos descartar a hipótese de que algumas armas saíram da Líbia".

Enquanto a CIA movia-se rapidamente para guardar com segurança as armas químicas de Gaddafi, outros esforços falharam. "Havia um arsenal que acreditávamos ter 20.000 Manpads, mísseis terra-ar, mísseis SA-7, que basicamente desapareceram na boca insaciável do Oriente Médio e do norte da África", lembrou Robert M. Gates, o secretário de defesa dos EUA na época.

O plano inicial americano de comprar de volta o armamento dos milicianos através do governo interino líbio, com a assistência americana, não funcionou por causa dos líbios. Assim, o Departamento de Estado, atuando junto com a CIA, ficou encarregado de negociar isso com as milícias. Mas, havia pouco incentivo para que os milicianos vendessem suas armas. Como observou o Sr. Shammam, ex-porta-voz do governo interino: "Como é que você vai comprar um Kalashnikov [o famoso fuzil russo AK-47] por US$ 1.000 se, com essa arma, alguém pode fazer US$ 1.000 por dia raptando pessoas?".

Pior ainda, o programa incentivou as milícias a importar armas para vendê-las aos americanos.

No círculo mais próximo de Hillary, a euforia sobre os feitos dela na Líbia deu lugar a uma "perturbadora preocupação de fracasso", disse um assessor sênior da secretária. Assim, quando os líbios foram às urnas em 7 de julho, numa eleição considerada limpa por observadores internacionais, houve uma sensação de alívio por parte de Hillary e outros defensores da intervenção militar na Líbia. "Agora começa realmente o trabalho duro para construir  um governo efetivo e transparente que unifique o país", disse Hillary.

Mas a unidade do país já era impossível. Nas palavras de Gérard Araud, embaixador da França nos EUA: "De certo modo, essa unidade estava perdida desde o início. Foi o mesmo erro que cometeram no Iraque. Você organiza eleições num país sem experiência com transigências ou partidos políticos. Então, você tem uma eleição e pensa que tudo está resolvido. Mas, no final as realidades tribais ressurgem para assombrar o país".

Em vez de dar prioridade à desmobilização das milícias, o governo de transição líbio simplesmente começou a pagar salários aos combatentes, o que muitos deles consideraram como um dinheiro de proteção. "Não lhes dê salários por nada", lembra-se de pedir o Sr. Sagezli, chefe da Comissão de Assuntos dos Combatentes. "Dar dinheiro a um comandante significa dar força às milícias, gerar mais lealdade ao comandante, gerar mais armamentos e mais corrupção. Mas os políticos nunca me ouviram". Em vez disso, "os políticos começaram a suborná-los, para comprar lealdade".

Haig Melkessetian, um ex-agente de inteligência americano cuja empresa fazia a segurança das embaixadas europeias na Líbia, descreveu as milícias como uma "anarquia -- não há outra palavra para elas". Assassinatos e "o pior tipo de vigilantismo (fazer justiça com as próprias mãos)" tornaram-se comuns na Líbia. Se havia alguma pressão por parte de autoridades americanas ou europeias para que o governo líbio suspendesse seus pagamentos às milícias, ela não se fez ouvir.

Autoridades da coalizão moderada que governava o país solicitaram aos EUA que impedissem a rica nação do Qatar de continuar enviando dinheiro e armas para as milícias alinhadas com o bloco político islamita da Líbia. A pressão contra o Qatar foi barrada dentro do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa -- este último se opôs fortemente, porque havia uma história de 20 anos de estreita cooperação com o Qatar, que abriga bases americanas importantes. No final, não havia apetite para nada alem de uma diplomacia discreta.

Apenas no ano passado o presidente Obama repreendeu os países que estavam interferindo na Líbia, mas aí já era muito tarde. "Eles criaram os monstros com os quais lidamos hoje", disse o líder partidário líbio Abdallah, "que são essas milícias, que têm tanto poder que jamais se subordinarão a qualquer governo".

Em 8 de agosto de 2012, um mês após as eleições líbias, J. Christopher Stevens, embaixador americano na Líbia, enviou uma mensagem a Washington em que descrevia Bengasi (a segunda maior cidade líbia) como "oscilando entre a trepidação e a euforia, enquanto uma série de incidentes violentos tem dominado o cenário político", e alertou para a existência de um "vácuo de segurança". Stevens era considerado a autoridade americana que melhor conhecia a Líbia. Um mês depois do envio da mensagem, a missão dos EUA em Bengasi foi atacada e o embaixador Stevens foi um dos americanos mortos.

Se por um lado a tentativa de culpar Hillary pelo ataque em Bengasi certamente falharia, a noção de que a intervenção na Líbia se situava entre seus êxitos tornou-se solidamente mais desgastada. A Líbia não se adequaria às necessidades da política americana, quer como porrete quer como fanfarrice.

Quando Hillary deixou o Departamento de Estado em fevereiro de 2013, a guerra entre facções -- que se transformaria em guerra civil em 2014 -- estava num crescendo. O fluxo de refugiados que pagavam contrabandistas para uma viagem perigosa ao Mediterrâneo estava inchando. E o caos na Líbia daria nascimento a dois governos rivais -- um apoiado pelo Egito e os Emirados Árabes Unidos, e o outro com o suporte do Qatar, da Turquia e do Sudão -- provendo santuário para extremistas, aos quais logo se juntaram emissários do Estado Islâmico.

As armas que tornaram tão difícil estabilizar a Líbia estavam aparecendo na Síria, Tunísia, Argélia, Mali, Níger, Chad, Nigéria, Somália, Sudão, Egito e Gaza, frequentemente nas mãos de terroristas, insurgentes e criminosos. No outono de 2012, agências de inteligência americanas produziram uma avaliação confidencial da proliferação de armas provenientes da Líbia. Michael T. Flynn, então chefe da Agência de Inteligência de Defesa, disse: "não tínhamos esse tipo de proliferação de armamentos desde, na realidade, o fim da guerra do Vietnã".

Uma crítica cínica começou a circular em Washington: no Iraque, os EUA intervieram e ocuparam o país -- e as coisas foram para o inferno. Na Líbia, os EUA intervieram mas não ocuparam -- e as coisas foram para o inferno. E na Síria, os EUA não intervieram (?!) nem ocuparam, e ainda assim as coisas foram para o inferno.

Isso era humor negro, para desviar a culpa de estrategistas políticos americanos perplexos para uma região atribulada. Mas, gerou uma questão séria com relação à Líbia: se a derrubada de um ditador odiado em um país pequeno e relativamente rico acarretou problemas de tais magnitudes, a intervenção americana foi de algum modo justificada?

"É verdade que as coisas deram errado", disse Sagezli, da comissão de combatentes. "Mas do ponto de vista da Líbia, as coisas não podiam dar certo. Tivemos 42 anos de domínio de Gaddafi, sem infraestrutura, um terrível sistema educacional, milhares de prisioneiros políticos, divisões entre tribos, destruição do exército. Quando se tem um país como esse, depor o ditador equivale a liberar a pressão da panela fervente".

PS - Dessa história toda, digo eu e não as fontes que usei, fica mais uma vez patente a extrema incompetência dos EUA para avaliar a fundo, previamente, os países em que irá intervir e gerar uma perspectiva minimamente correta do que ocorrerá nesses países após essa intervenção. De quebra, ficou registrado que Hillary Clinton tem ainda muito que aprender em termos de geopolítica e Oriente Médio.


quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A escalada da guerra na Síria, com as forças aérea e marítima russas

[Em postagem anterior ("Discurso de Putin na ONU mostra quem está no comando") comentei e reproduzi um artigo do jornal israelense Haaretz sobre a jogada de mestre do presidente russo no xadrez do Oriente Médio, com sua intervenção na guerra civil da Síria. A Rússia agora ampliou essa intervenção: além dos bombardeios por seus caças em território sírio, ela agora disparou contra a Síria mísseis de longo alcance a partir de sua frota no Mar Cáspio. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.] 



Quatro navios da Marinha Russa dispararam um total de 26 mísseis de cruzeiro contra posições do grupo terrorista Estado Islâmico na Síria, anunciou o ministro da Defesa russo Sergey Shoigu. Os mísseis foram disparados do Mar Cáspio. Os mísseis voaram cerca de 1.500km antes de acertarem seus alvos.
Os mísseis vieram da Frota Russa do Mar Cáspio, que faz fronteira com a Rússia, Irã e o litoral de outros três países. As armas de precisão atingiram todos os alvos pretendidos. Os ataques necessitaram da cooperação do Irã e do Iraque, pois os mísseis tiveram que viajar através de seu espaço aéreo para chegar à Síria. [A cooperação do Iraque nessa iniciativa militar russa é mais uma demonstração da perda de poder dos EUA e de seu fracasso no Iraque. Os americanos gastaram vidas e bilhões de dólares para "salvar" o Iraque, para ver agora este país ajudando seu arquirrival, a Rússia, a se impor na Síria e no Oriente Médio contra os interesses dos EUA.]
Os quatro navios que dispararam os mísseis foram a fragata Dagestan da classe “Gepard” e as corvetas Grad Sviyazhsk, Uglich e Veliky Ustyug da classe Buyan-M. Foram disparados mísseis Kalibr NK (Klub) de lançadores verticais. Os mísseis podem atingir alvos a 2.500km de distância, com precisão de 3 metros.
As trajetórias dos 26 mísseis de cruzeiro disparados de navios de guerra russos no Mar Cáspio contra 11 alvos na Síria cruzaram os céus do Irã e do Iraque. O Irã é um importante financiador de Bashar al-Assad, o conflituoso presidente sírio. As lideranças do Iraque mantêm laços estreitos com o Irã. - (Mapa: Laris Klarkis, The Washington Post) 
Navios de guerra russos disparando mísseis em direção à Síria (Ministério de Defesa russo/YouTube)
O presidente russo Wladimir Putin disse que os ataques com mísseis evidenciaram a competência das renovadas forças armadas russas
[Ao analisar a razão da presença russa na Síria, o jornal The Washington Post comenta que "a ampliada presença militar russa pode sinalizar a intenção de Moscou de desempenhar um papel mais direto no jogo final sírio -- ou, no mínimo, ajudar o regime do presidente sírio Bashar al-Assad a manter qualquer controle, por limitado que seja, sobre o país varrido pela guerra". 
Mas, ressalta o jornal, esse movimento pode não significar uma mudança significativa na política russa [no país e na região]. "A Rússia nunca fez segredo de sua cooperação tecnológico-militar com a Síria. Especialistas militares russos ajudam os sírios a dominar os equipamentos russos", disse aos jornalistas um porta-voz da chancelasria russa na quarta-feira passada.
Na quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, foi um pouco mais direto. "Temos sido sempre francos com relação à presença de nossos especialistas militares na Síria, que ajudam as forças armadas sírias a treinar e aprender como usar nosso equipamento", disse ele numa entrevista à imprensa em Moscou. "E se passos adicionais forem necessários, estaremos completamente prontos a tomá-los". 
No dia seguinte, Lavrov foi ainda mais além, argumentando que era essencial dar suporte ao regime sírio, se o mundo quiser derrotar os jihadistas do Estado Islâmico (EI). "Você não pode derrotar o Estado Islâmico apenas com ataques aéreos. É necessário cooperar com as tropas em terra, e o exército sírio é a força terrestre mais eficiente e poderosa para combater o EI". 
Há quem especule as ações da Rússia não são o reflexo de uma estratégia genuína, mas, em vez disso, de maneira mais crua, são as táticas de um regime autoritário se agarrando desesperadamente aos níveis de poder que lhe restam. "É o confronto entre a Rússia e o Ocidente que arrasta a Rússia para o Oriente Médio", disse à NBC News Nikolay Kozhanov, um acadêmico na usina de ideias (think tank) de Chatham House, de Londres.]   


sábado, 9 de agosto de 2014

Ocidente x Rússia, um entrevero recheado de hipocrisia e cinismo

No imbróglio Ocidente x Rússia por causa da derrubada do avião da Malaysia Airlines na Ucrânia não há nenhum anjinho, a começar pelos EUA. Em 3 de julho de 1988 um Airbus A-300 da companhia aérea iraniana Iran Air, que voava entre Bandar Abbas, no Irã, e Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, foi abatido logo após sua decolagem por dois mísseis disparados a partir de uma fragata americana (USS Vincennes) que patrulhava o Estreito de Hormuz - entre a costa norte do Irã e a costa sul dos Emirados Árabes Unidos. Todos que estavam a borda morreram -- 290 pessoas, sendo 66 crianças. A tripulação do USS Vincennes alegou ter confundido o Airbus com um caça iraniano. O governo da República Islâmica do Irã, recebeu dos Estados Unidos uma indenização de US$ 101,8 milhões. Fora a indenização, tudo o mais é idêntico às alegações dos separatistas russos na Ucrânia quanto à derrubada do avião da Malaysia.

Em 1 de setembro de 1983 um Boeing 747 sul-coreano, que pertencia a empresa Korean Airlines (KAL) foi derrubado por um caça soviético sobre a ilha de Sakhalin, localizada no extremo oriente russo, depois de ter se afastado de sua rota - o avião seguia do Aeroporto Internacional de Anchorage, no Alaska, para o Aeroporto de Gimpo, na Coréia do Sul. Os 269 passageiros e tripulantes morreram. Inicialmente, os soviéticos negavam o ataque, mas, cinco dias depois da derrubada, reconheceram a sua responsabilidade sob pressão internacional e depois de uma condenação do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A União Soviética alegou que a aeronave estava em uma missão de espionagem. Esse foi um dos momentos mais tensos da Guerra Fria. Além disso, o incidente foi um dos motivos que levaram o governo de Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos à época, a permitir o acesso mundial ao sistema utilizado pelos norte-americanos, o GNSS - atualmente conhecido como GPS.

Em 2001, a Ucrânia admitiu que durante exercícios militares disparou contra um avião civil russo sobre o Mar Negro. Setenta e oito pessoas morreram.

O tratamento dado pelos EUA e pela UE (União Europeia) à anexação da Criméia pela Rússia -- questionável em termos -- nos reporta automaticamente à anexação do Texas e do Novo México pelos americanos, desmembrando-os do México. Não vejo atenuante no caso americano-mexicano que dê moral aos EUA para recriminar a Rússia pelo ocorrido com a Criméia.

Depois da derrubada do avião da Malaysia, teve início um jogo de empurra-empurra sobre os autores físicos e intelectuais da derrubada e o Ocidente, sob a batuta dos EUA, iniciou uma série de sanções econômicas contra a Rússia por sua anexação da Criméia e pelo apoio militar que estaria dando aos separatistas que provocaram aquela tragédia com o avião da Malaysia. Do ponto de vista estritamente geopolítico -- já que pelo lado humanitário, americanos , europeus e russos têm muito o que explicar -- o Ocidente aplicou à Rússia a mesma penalidade aplicada ou intentada à Síria, ao Irã e a Cuba. A semelhança de casos entre esses quatro países é zero. Peguemos os exemplos extremos, Síria e Cuba. Na Síria, a guerra civil já dura três anos e matou mais de 170 mil pessoas, um terço delas de civis, e as sanções não se concretizaram devido ao veto da Rússia e da China no Conselho de Segurança da ONU. O caso de Cuba é patético. O embargo dos Estados Unidos a esse país (descrito em Cuba como el bloqueo, termo em castelhano que, conforme as traduções oficiais em português, significa "embargo") é um embargo econômico, comercial e financeiro imposto a Cuba pelos Estados Unidos que se iniciou em 7 de Fevereiro de 1962 -- há 52 anos, portanto. Foi convertido em lei em 1992 e em 1995. Em 1999, o presidente Bill Clinton ampliou este embargo comercial proibindo que as filiais estrangeiras de companhias estadunidenses de comercializar com Cuba, a valores superiores a 700 milhões de dólares anuais. A medida está em vigor até os dias atuais, tornando-se um dos mais duradouros embargos econômicos na história contemporânea. É a história bizarra de um gigante que moveu céus e terra para destruir uma pulga que o incomodava -- ele não só não destruiu a pulga, como a empurrou para ainda mais longe da democracia que ele gigante diz defender.

Antes de continuar, uma perguntinha simples: por que o Ocidente e os EUA não têm o mesmo rigor de aplicar sanções econômicas ostensivas e duras contra Israel pelo massacre de Gaza como faz contra a Rússia por causa da Ucrânia, um conflito anos-luz distante da barbárie de Gaza?

Nivelar a Rússia com aqueles três outros países é uma heresia histórica, geopolítica e estratégica. A dimensão e a importância históricas, culturais e políticas da Rússia para o Ocidente e o mundo como um todo são gigantescas. A antiga União Soviética (URSS) -- composta pela Rússia e seus satélites -- foi o país que mais mortos teve na Segunda Guerra Mundial: cerca de 24 milhões de pessoas, das quais cerca de 51% eram civis. Os russos formavam, de longe, o maior contingente populacional da URSS. Sem a contribuição militar e humana principalmente dos russos mortos em batalha a história da humanidade seria outra, imprevisível, com a vitória de Hitler. Isso não pode jamais ser esquecido, nem pelo Ocidente nem pelo resto do mundo.

Reconhecer a importância histórica, política e cultural da Rússia não significa absolutamente dar-lhe carta branca para fazer o que quiser na sua área de influência, mas aplicar-lhe sanções carregadas de nuanças e afirmativas que se aplicam a uma republiqueta é um grave erro político que pode ter resultados e repercussões imprevisíveis. Ademais, há um milenar conceito de estratégia político-militar que não pode nem deve ser esquecido: jamais deixe o inimigo encurralado e sem saída. Não há estrategistas amadores do lado russo.

As novas sanções econômicas impostas pelos EUA, pela UE e pelo Canadá contra a Rússia atingiram um patamar expressivo e impactante, com reflexos extremamente negativos para a economia russa, que já enfrentava dificuldades antes mesmo dessa represália. Mais rápido do que o Ocidente esperava, a Rússia respondeu  às sanções impondo um embargo total de um ano às importações de alimentos e produtos alimentícios da UE e dos EUA. Austrália, Canadá e Noruega também foram enquadrados no embargo, que inclui carne (bovina, suína, e de frango, fresca e congelada) peixe, leite, queijo, legumes e frutas. Os russos cogitam ainda de proibir o sobrevoo do espaço aéreo da Sibéria, o que encareceria e muito os voos da Europa para a Ásia.

A Rússia importa US$ 43 bilhões por ano em alimentos e se tornou o maior destino das exportações de produtos agrícolas da UE, além de ser o segundo maior importador de frango americano. Para o governo russo, os europeus podem perder até 12 bilhões de euros com o embargo, 10% de tudo o que o bloco exporta ao mundo em alimentos. Para compensar a perda desses fornecedores, a Rússia voltou-se a novos exportadores de alimentos e o Brasil será um dos beneficiados. Negociações estão sendo feitas também com Equador, Chile e Argentina.


Negócios da Rússia (clique na imagem para ampliá-la) -- (Ilustração: Editoria de arte/Folhapress -- Fonte: Folha de S. Paulo)

A UE já mostra preocupação com o embargo russo. Numa iniciativa que comprova o nível de hipocrisia e cinismo com que lida com as relações comerciais com os russos, a UE entrou nesta terça-feira com uma queixa na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra um embargo da Rússia às exportações de carne suína do bloco. "Com esse embargo desproporcional há um grande impacto financeiro sobre a indústria de carne suína europeia e não pode passar em branco", afirmou o comissário de comércio da UE, Karel De Gucht. Cerca de 25% das exportações de carne suína da UE são para a Rússia. No ano passado, as vendas ao país totalizaram 1,4 bilhão de euros (US$ 1,9 bilhão).  Essa atitude da UE é simplesmente uma palhaçada, consagrada na declaração que emitiu em seguida ao anúncio do embargo russo: "A UE se reserva o direito de tomar as medidas adequadas contra Moscou, denunciando uma decisão 'claramente política' das autoridades russas". Se não são políticas, as sanções econômicas da UE à Rússia são o quê? "Técnicas"?

A Espanha já declarou que será o quinto país mais afetado na UE pela represália russa. A Alemanha, a maior economia do continente europeu, também contribuiu com sua parcela de hipocrisia e cinismo nesse imbróglio classificando o embargo russo de "forma inapropriada de pressão política que terá forte impacto nas economias alemã e europeia, assim como para os consumidores russos".

Quanto aos EUA, o embargo da Rússia às importações de alimentos da Europa e dos Estados Unidos imposto nesta quinta-feira (7/8) terá um impacto insignificante na economia americana, disse um alto funcionário do Tesouro. Repete-se uma velha história, uma velha lição que, apesar de reincidente, não é aprendida pelo Ocidente que não está inserido geograficamente na América do Norte. Beneficiado por sua posição geográfica, os EUA têm comandado conflitos bélicos e comerciais de caráter global e/ou regional distantes milhares de quilômetros de seu território e que, por isso, repercutem infinitamente menos em seu povo e em sua economia. Isso é verdade particularmente nos conflitos armados, incluindo a Segunda Grande Guerra, em que a população civil e cidades americanas nada sofreram e a indústria americana saiu fortalecida com o esforço de guerra, forjando a supremacia americana no  mundo. A grande e terrível exceção foi o 9 de setembro de 2001 em que, pela primeira vez, os civis americanos viram seu território invadido por guerrilheiros estrangeiros e sentiram na própria carne o terror de uma guerra que o país sempre conduziu fora de seus lares.

O Instituto Eisenhower, organizado no Gettysburg College (Pennsylvania) em homenagem ao general americano na Segunda Grande Guerra e presidente dos EUA de 1953 a 1961, no seu documento "O que a União Soviética vivenciou na Segunda Grande Guerra", de J. T. Dykman, diz bem: "Os americanos têm pouca noção do que a União Soviética vivenciou na Segunda Guerra Mundial. Nenhuma cidade dos Estados Unidos foi sitiada, nem uma bomba sequer foi lançada por um avião inimigo em qualquer dos nossos 48 estados, parte alguma de nossa população foi escravizada, morreu de fome ou foi assassinada e nenhum povoado, vilarejo ou cidade foi completamente destruído ou chegou mesmo a ouvir um tiro disparado em gesto de cólera".

No caso das sanções à Rússia, a UE cedeu mais uma vez à pressão americana e, por isso, pagará a parte maior da conta.

As sanções americano-europeias à Rússia têm amplo espectro, e afetam as áreas industrial, tecnológica e financeira. Novamente, a proximidade geográfica faz com que o baque econômico-financeiro inevitável no comércio bilateral seja maior para UE que para os EUA. E, certamente, os americanos são candidatos naturais a fornecer aos europeus uma razoável gama de produtos e serviços que os russos deixarão de fornecer.

No campo militar a história é monótona e tragicamente a mesma. Com a proliferação de conflitos armados pelos quatro cantos do planeta, as grandes indústrias bélicas estão faturando como nunca e os principais países fornecedores contam-se pelos dedos de u'a mão -- é só dar uma olhada na composição permanente do Conselho de Segurança da ONU. Vale lembrar que a Alemanha forneceu submarinos a Israel, que os equipou com mísseis nucleares.

O planeta Terra virou palco de várias óperas bufas, travestidas de "defesas da democracia".




domingo, 24 de junho de 2012

Turquia leva derrubada de caça pela Síria ao Conselho de Segurança da ONU

[A Síria continua massacrando a oposição ao governo de Bashar al-Assad, a matança inclui civis, mulheres e crianças, a ONU já virou objeto de galhofa no Oriente Médio no caso sírio de tanto gastar seu verbo e não fazer nada para estancar esse morticínio (o seu ex-Secretário-Geral Kofi Annan, designado pela ONU para acertar com a-Assad um cessar fogo, já ficou rouco de tanto falar e não ser ouvido), a China e a Rússia se opõem terminantemente a uma ação armada contra a Síria, e o mundo assiste perplexo a essa ópera burlesca.  A novidade mais recente na região foi a derrubada de um caça turco pela Síria, e a Turquia foi à ONU reclamar disso, como noticiou hoje a Folha de S. Paulo.]

A Turquia elevou o clima de tensão com a Síria ao recorrer ao Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) e à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) neste domingo. Os turcos querem debater a derrubada de um caça de sua Força Aérea pelo país árabe. Segundo o ministro das Relações Exteriores turco, Ahmet Davutoglu, o país vai levar o incidente aos órgãos internacionais porque caça foi derrubado pelos sírios enquanto voava em espaço aéreo internacional.

Ministro turco de Relações Exteriores, Ahmet Davutoglu - (Foto: Adem Altan/France Presse).

Comunicado oficial de Ancara (capital da Turquia) diz que o caça decolou às 8h30 de sexta-feira da base aérea de Malatya e desapareceu dos radares uma hora e meia mais tarde. 

A Otan se reunirá para tratar do caso nesta terça-feira (26).  De acordo com o artigo 4 da aliança atlântica, os membros da Otan podem consultar a instituição sempre que, "na opinião de um deles, esteja ameaçada sua integridade territorial, a independência política ou a segurança". A Turquia não invocou o artigo 5, ativado quando se constata agressão militar contra um dos membros da Otan.  [Todo esse burburinho de tentar resolver só no papo a situação da Síria, com zero de medida retaliatória contra a ditadura que está há 12 anos no poder em Damasco (o Brasil está no time que defende o "poder do gogó"), demonstra que a Síria não é uma Líbia e o Ocidente quer pensar mil vezes antes de peitar a China e a Rússia numa região que é um barril de pólvora -- basta dar uma olhada na localização geográfica da Síria para se perceber sua importância estratégica]:

Localização geográfica da Síria (mapa inclui as colinas de Golan, conquistadas aos sírios por Israel na Guerra dos Seis Dias em 1967) - (Fonte: Wikipedia). 

Incidente diplomático

Na sexta, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, evitou culpar Damasco pela derrubada. No sábado, o presidente turco, Abdullah Gül, admitiu que o caça "poderia ter vulnerado" o espaço aéreo sírio. Davutoglu confirmou a invasão e disse que a aeronave foi abatida 15 minutos depois. O chanceler disse que o avião turco voava sem armamentos, que a missão era para testar os radares de defesa turcos e que a Síria não emitiu nenhuma advertência antes de abatê-lo. 

Os dois tripulantes ainda não foram encontrados. Navios de resgate turcos em coordenação com as autoridades sírias procuram os oficiais desaparecidos há mais de 48 horas.  Os destroços do avião foram encontrados no Mediterrâneo neste sábado, perto da costa síria, a 1.300 metros de profundidade. 

Intervenção internacional

Na imprensa turca, persiste a incerteza sobre a intenção de Damasco em derrubar o avião. Um conflito bélico neste momento poderia culminar em uma intervenção militar estrangeira na Síria e acabar com a repressão do regime de Bashar al Assad.  A Turquia descartou até agora intervir diretamente no conflito, mas já condenou com duras palavras a repressão do ditador sírio. Ancara disse se reservar à possibilidade de tomar medidas se a segurança ou estabilidade do país for ameaçada. 

Mais de 30 mil refugiados sírios estão em vários acampamentos na Turquia. No país também estão os dirigentes do Exército Sírio Livre, guerrilha composta sobretudo de soldados desertores que lutam contra o regime de Damasco. 

Provocação síria

"Bashar al Assad sempre ameaçou que o conflito sírio poderia incendiar toda a região se houvesse uma intervenção externa; ao derrubar o avião turco, ele lança essa carta", disse Hefiz Abdulrahman, membro do Conselho Nacional Turco, órgão que tenta agrupar a oposição a Assad. "Atualmente há muita gente indecisa na Síria, mas elas apoiariam o regime no momento em que houver um inimigo externo crível", disse Abdulrahman. "Por isso a tensão é conveniente a Assad".

Para o ativista, a derrubada foi uma provocação consciente. "A Síria nunca dispara em caças israelenses que sobrevoam frequentemente seu território porque não deseja uma guerra com Israel".

 O primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan - (Foto: Google).

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

EUA reconhecem erros no ataque que matou soldados paquistaneses na fronteira com o Afeganistão

Perto do fim de novembro passado, um ataque aéreo da OTAN a um posto militar na fronteira entre Afeganistão e Paquistão resultou na morte de 24 soldados paquistaneses e gerou uma crise gravíssima nas já tensas relações do Paquistão com os EUA (que, na realidade, são o cérebro e o principal executor militar das chamadas "forças de coalizão" na região). Como sempre, os americanos relutam em aceitar que erraram, juram de pés juntos que não tiveram nada com o ocorrido e, passado um mês ou mais depois, vêm a público admitir seu erro, como é o caso agora, conforme reportagem do The Washington Post (WP), parte da qual está traduzida abaixo.

Militares americanos reconheceram hoje que comandos no Afeganistão cometeram sérios erros durante um ataque na fronteira afegano-paquistanesa no mês passado, no qual 24 oficiais de polícia paquistaneses foram mortos. Um relatório sobre o incidente de 25 de novembro concluiu que "uma coordenação inadequada entre oficiais militares dos EUA e do Paquistão", e informação de mapas errônea fornecida pela OTAN às autoridades paquistanesas foram as responsáveis por aquele erro crasso [para a palavra inglesa "blunder" cabe também a tradução "asneira", que me parece ser a mais pertinente, no caso], que adicionou uma enorme tensão nas já atormentadas relações entre Washington e Islamabad. [Falar em "má coordenação" e "mapas errados", quando uma das partes envolvidas é a maior potência militar do planeta, que dispõe de um arsenal bélico de ponta, satélites e aviões espiões, e de um serviço de inteligência sofisticadíssimo, me soa como chamar o mundo de trouxa e não querer reconhecer que seus militares desse ataque são uns irresponsáveis.]

A falta de coordenação [o texto da reportagem do WP fala inicialmente em "coordenação inadequada", e agora se refere a "falta de coordenação", e essas duas expressões não são exatamente a mesmíssima coisa -- não fica claro se a ambiguidade é do jornal ou do relatório militar] e o mapeamentpo incorreto "resultaram em um mal-entendido quanto à real localização das unidades militares paquistanesas", disse o Pentágono em um comunicado na manhã de hoje. "Isto, associado a outras falhas de informação sobre as atividades e as localizações de unidades de ambos os lados, contribuiu para o trágico resultado". -- "Pela perda de vidas, e pela falta de coordenação adequada entre as forças dos EUA e do Paquistão que contribuiu para aquela perda, apresentamos nosso mais profundo pesar", disse também o Pentágono.

O comunicado [do Pentágono] parece não ter o nível do pedido de desculpas demandado por Islamabad. Aquele texto disse que "as forças americanas agiram em defesa própria e com a intensidade apropriada, após terem sido alvejadas", e afirmou que as forças americanas não visaram intencionalmente as forças de segurança paquistanesas ou deliberadamente iludiram os oficiais de ligação paquistaneses.

"Analisaremos as conclusões cuidadosamente e, então, formularemos nossa resposta", disse aos jornalistas nesta quinta-feira o porta-voz do ministério do Exterior paquistanês, Abdul Basit, antes que fossem divulgadas nos EUA as conclusões preliminares [do relatório].

Autoridades paquistanesas dizem que o ataque, que começou pouco antes da meia-noite, continuou ainda por longo tempo após oficiais de ligação paquistaneses terem alertados os americanos de que ataques aéreos estavam visando forças de segurança paquistanesas.


terça-feira, 29 de novembro de 2011

Paquistão avisa EUA que relações não serão mais as mesmas após mortes em ataque da OTAN

O primeiro-ministro paquistanês advertiu nesta segunda-feira que as relações de seu país com os EUA não podem continuar como estão, depois que aviões da OTAN mataram 24 soldados paquistaneses no fim de semana. "Negócios como de costume não existirão mais", Yusuf Raza Gilani disse à CNN em uma entrevista. "Precisamos de algo muito maior para reparar meu país".

Os comentários de Gilani evidenciam como se tornaram tensas as relações EUA-Paquistão depois do incidente do fim de semana, que desgastou ainda mais as já atribuladas relações entre os dois países. O que já era uma desconfortável relação entre os dois, mudou para pior em meados deste ano depois que as autoridades americanas deixaram suas contrapartes paquistanesas sem conhecimento prévio do ataque que matou Osama Bin Laden.

Gilani disse que seu país continuará a cooperar com Washington apenas se o relacionamento for baseado em "respeito e interesses mútuos". Perguntado se hoje esse era o caso, o primeiro-ministro respondeu: "No momento, não", acrescentando: "Se não posso proteger a soberania de meu país, como podemos dizer que isso é respeito mútuo e interesse mútuo?".

Um ataque aéreo liderado pela OTAN na madrugada de sábado a um posto de controle na fronteira Paquistão-Afeganistão foi, na realidade, uma resposta a um ataque contra soldados afegãos que aparentemente se originou naquele posto, de acordo com o que autoridades afegãs disseram à agência Associated Press.  Falando sob condição de anonimato, essas autoridades disseram que soldados afegãos operando naquela região montanhosa ficaram sob fogo na madrugada de sábado, e solicitaram o ataque à Força Internacional de de Segurança. Os postos na área fronteiriça têm ocupantes mistos, entre soldados paquistaneses e militantes, o que poderia ter contribuído para a confusão em se saber quem na realidade estava atirando nos soldados afegãos.

As tensões, já em alto nível, poderiam tornar-se ainda piores se o grande número de caminhões de suprimento das forças de coalizão agora em espera na fronteira -- fechada no sábado por autoridades paquistanesas indignadas -- sofressem um ataque na perigosa área da fronteira.

A BBC informou que o ataque ocorreu às 2h da manhão no posto de controle de Salala, a cerca de 2,5 km da fronteira afegã, e alegadamente foi efetuado pela Força Internacional de Segurança liderada pela OTAN. Autoridades da OTAN disseram que estão realizando uma investigação detalhada do incidente.

O comandante da Força, Gen. John R. Allen, emitiu um comunicado, dizendo: "Minhas mais sinceras e profundas condolências pessoais se dirigem às famílias e entes queridos de quaisquer membros da Força Paquistanesa de Segurança que possam ter sido mortos ou feridos".

O referido ataque aéreo foi o mais violento e mortífero desse tipo nos 10 anos da guerra no Afeganistão.

O enterro de soldados paquistaneses mortos em ataque aéreo da OTAN na fronteira com o Afeganistão - (Foto: AFP/Getty Images).

Caminhões de suprimentos para as forças da OTAN  no Afeganistão estacionados no cruzamento da fronteira com o Paquistão em Torkham - (Foto: STR/AFP/Getty Images).

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Armas químicas de Kadhafi provocam novas preocupações

Documentos que mostram o embarque de milhares de máscaras de gás e roupas de proteção contra armas químicas para os focos de resistência ainda existentes de Muammar Kadhafi, nas últimas semanas de seu regime, geraram novas preocupações na quarta-feira quanto à possibilidade de as forças do líder líbio deposto ter acesso ao mortal gás de mostarda. Aquele material foi encontrado em armazens enormes localizados nos arredores de al-Ajelat, uma cidade a 50 km a oeste de Trípoli.

O Pentágono e uma agência internacional de monitoramento disseram que os estoques restantes de Kadhafi estão bem guardados. Mas, sabe-se que mais de 11 ton de gás de mostarda estão acumuladas em um país sem uma autoridade central forte e no qual as armas estão proliferando rapidamente. Os rebeldes líbios se mostram preocupados com um acesso das forças de resistência de Kadhafi ao gás de mostarda, e que este seja usado num último esforço para conter o avanço da oposição. "Ainda não aconteceu, mas não é impossível para alguém como Kadhafi", disse Mohammed Benrasali, um membro sênior da equipe de estabilização da Líbia.

Comandantes rebeldes que essa preocupação com as armas químicas é a razão pela qual estão se movendo cautelosamente, enquanto tentam expulsar as tropas leais a Kadhafi de sua cidade natal e de um posto militar chave no deserto de al-Jufrah.

Kadhafi já usou armas químicas antes, durante uma guerra com o vizinho Chade em 1987.  Mas, ele concordou em desmontar seu programa de armas de destruição em massa em 2003, em troca de uma reaproximação com o Ocidente. Para demonstrar seu comprometimento com isso, Kadhafi ordenou a destruição de 3.300 peças de artilharia que poderiam ser usadas para lançar armas químicas. Mas, os estoques de gás mostarda custaram mais tempo para serem eliminados. Um telegrama da embaixada americana de novembro de 2009, vazado pelo WikiLeaks, insinua que Kadhafi estava deliberadamente retardando suas decisões e ações nesse sentido, para manter força e obter compensação maior.

Como resultado, 11,25 ton do gás venenoso estavam ainda na Líbia quando a rebelião contra Kadhafi começou em fevereiro, de acordo com a Organização pela Proibição de Armas Químicas, uma instituição internacional que trabalha em estreito relacionamento com a ONU. Há muitos anos atrás , Kadhafi fechou três instalações onde fabricava os gases sarin e mostarda.

Autoridades americanas se mostravam céticas na quarta-feira quanto às declarações de que as tropas leais a Kadhafi estavam se preparando para usar armas químicas -- ou mesmo que as possuíssem. Um dessas autoridades, que se manifestou com a condição de permanecer no anonimato, disse que os estoques remanescentes de gás mostarda que Kadhafi possui são considerados seguros e bem guardados. Esses estoques estão armazenados em contêiners volumosos, diz ele, e são de uso difícil.

domingo, 28 de agosto de 2011

Onde está Kadhafi?

A fortaleza onde vivia foi invadida, os rebeldes controlam o aeroporto internacional mais próximo, e líderes mundiais, incluindo o presidente Obama, estão anunciando que seus 42 anos de governo se acabaram. Mas, uma grande pergunta permanece sem resposta: onde está Muamar Kadhafi?

Combatentes rebeldes que vasculharam o vasto complexo de Bab al-Aziziya na capital líbia na terça-feira encontraram caixas com armas e munições, mas nada de Kadhafi. Com o aeroporto internacional de Trípoli também sob o controle das forças do Conselho Nacional de Transição, as opções para uma fuga se estreitaram. Mukthar al-Ahmar, que liderou os rebeldes na tomada do aeroporto, disse que lá houve combates violentos na quarta-feira e especulou que combatentes leais a Kadhafi estavam tentando "garantir uma rota segura para Kadhafi fugir de Trípoli".

"Ele [Kadhafi] não parece ter muito controle de alguma coisa que seja", disse a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Victoria Nuland, aos jornalistas na terça-feira. "É curioso que ele ainda não tenha sido visto".  Então, onde Kadhafi pode estar?

O Professor Abubaker Saad, um ex-assessor de Kadhafi, descreveu para a CNN um sistema de bunkers sob a fortaleza de Kadhafi em Trípoli que poderia servir de esconderijo. Entretanto, Saad observou que a OTAN e os EUA haviam bombardeado aquele complexo com bombas antibunker, e por isso duvidava que Kadhafi lá estivesse escondido. "É preciso lembrar que ele é um militar", disse Saad. Ele sabe que eles têm armas que podem penetrar naqueles bunkers, por isso estou descartando a ideia de que ele ainda esteja lá". Saad observou também, que as recentes comunicações públicas de Kadhafi, como um comunicado divulgado pelo rádio e uma noticiada chamada telefônica para a Rússia foram mensagens de áudio para evitar a identificação de seu paradeiro. 

Houve especulações de que havia túneis do bunker de Kadhafi até o hotel Rixos, onde cerca de 35 jornalistas estão detidos contra sua vontade por militares de baixa patente leais a Kadhafi. Mas Matthew Chance, da CNN, que está nesse grupo, disse que jornalistas vasculharam o hotel de cima a baixo e não viram nenhuma evidência de passagens secretas.

Autoridades americanas pediram que Kadhafi deixasse claro, não importa onde esteja, que sabe já não é mais líder do país. Os EUA querem que Kadhafi emita um "comunicado afirmativo e confiável" para a comunidade internacional e para aqueles que lhe são leais e ainda lutam em Trípoli, dizendo que "entende que sua liderança  acabou, para que cada um possa seguir em frente", disse Nuland. [Acho simplesmente ridículo esse tipo de exigência americana!]

Enquanto não se tem notícia do paradeiro de Kadhafi, pelo menos uma fonte fora da Líbia -- o chefe da Federação Mundial de Xadrez -- disse à agência russa de interfax que falou com ele na terça-feira. De acordo com Kirsan Ilyumzhinov, Kadhafi lhe disse por telefone que "está vivo e bem em Trípoli, e não sairá da Líbia".

Observadores citam três possíveis cenários para o futuro imediato de Kadhafi -- sua morte nas mãos das forças rebeldes, sua captura, ou sua fuga ou exílio em outro país.

Kadhafi e seu segundo filho mais velho, Saif al-Islam Kadhafi, estão indiciados sob a alegação de crimes contra a humanidade Tribunal Criminal Internacional de Haia (Holanda). Países considerados como locais possíveis para exílio de Kadhafi incluem a Venezuela, durante meses objeto de rumores como destino do ex-líder líbio. Kadhafi e o presidente venezuelano Hugo Chávez têm uma estreita relação, forjada em parte pela oposição que compartilham contra a influência dos EUA no mundo. Em 2009, Chávez compareceu junto com Rober Mungabe, do Zimbábue, e o rei Abdullah, da Jordânia, a uma ostentosa comemoração pelos 40 anos de Kadhafi no poder. No mesmo ano, um novo estádio de futebol na cidade de Benghazi, hoje ocupada pelos rebeldes, recebeu o nome do presidente venezuelano.

O Zimbábue é considerado também um possível destino de exílio para Kadhafi, devido a sentimentos compartilhados pelo líbio e por Mungabe: um interesse pela solidariedade pan-africana, um desdém pela influência colonialista, e a ignomínia de serem evitados pela comunidade internacional.

A Arábia Saudita é um país que pode ser um país mais adequado ao jeito beduíno de Kadhafi. Os sauditas acolheram o líder deposto da Tunísia, Zine El Abidine Ben Ali, depois da revolta que ajudou a incendiar neste ano o Oriente Média e o norte da África, incluindo a Líbia. No entanto, as relações de Kadhafi com a Arábia Saudita esfriaram desde que os sauditas acusaram os líbios de tentar matar seu rei vários anos atrás, e seria improvável que o rei do deserto aceitasse agora um Kadhafi exilado, disse Christopher Boucek, um especialista em Arábia Saudita da Dotação Carnegie para a Paz Internacional.

Outros países mencionados como destinos possíveis para Kadhafi incluem Cuba, Síria e Sudão.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Combates explodem ao redor do quartel-general de Kadhafi

Pelo visto, cai mais um ditador no mundo árabe e, no fundo, no fundo, o petróleo faz mais uma vítima ...

Combates violentos explodiram nesta segunda-feira em Trípoli em volta do quartel-general do líder líbio Muamar Khadafi, horas após rebeldes terem assumido o controle da maior parte da capital. Não havia informações sobre se Khadafi estava no local, ou sobre qual seria seu paradeiro. Uma fonte diplomática disse à AFP que Khadafi poderia estar no QG, mas a informação não foi confirmada. Khadafi não é visto em público desde maio, apesar de ter divulgado desde então, com frequência, mensagens em áudio e vídeo de locais não divulgados.

No começo da manhã (horário local), tanques saíram do QG do líder líbio - conhecido como Bab al-Azizia - e começaram a disparar, segundo um porta-voz dos rebeldes. Há intensa troca de tiros na área. Os rebeldes encontraram pouca resistência à medida que avançavam pela cidade no sábado e no domingo, assumindo rapidamente o controle de leste, sul e oeste da capital. Um porta-voz dos rebeldes disse, entretanto, que forças pró-Khadafi ainda controlam de 15% a 20% de Trípoli.

Os rebeldes começaram a entrar em Trípoli na noite de sábado e intensificaram os ataques durante o domingo. O confronto em diversas áreas da cidade deixou centenas de mortos. O porta-voz do regime de Khadafi, Moussa Ibrahim, disse que 1.300 pessoas foram mortas na cidade nas últimas 24 horas. O número não pode ser confirmado de forma independente.

Havia pontos de conflito em vários bairros, um deles no entorno do hotel que hospeda a imprensa internacional. Segundo o correspondente da BBC em Trípoli, Matthew Price, o local ainda estava sob poder do governo, mas rebeldes tentavam assumir o controle. O Tribunal Penal Internacional (TPI) confirmou que um dos filhos de Khadafi, Saif al-Islam, foi capturado na capital. Ele era considerado o sucessor do pai no governo líbio. Os rebeldes afirmam ainda que um outro filho de Khadafi – Mohammed - teria se rendido, assim como a guarda pessoal do líder líbio, mas a informação não pode ser confirmada por fontes oficiais.

O presidente do Conselho Nacional de Transição, a coalizão rebelde, Mustafa Mohammed Abdul Jalil, disse que os rebeldes poriam fim à sua ofensiva se Khadafi anunciasse sua saída.  Falando sobre a captura do filho de Khadafi, Jalil disse que ele estava sendo mantido "em um local seguro até que seja entregue ao judiciário". Ele acrescentou que as forças rebeldes garantiriam a Khadafi e seus filhos uma saída segura do país.
 Mapa aéreo (Microsoft) das áreas dos combates pela tomada de Trípoli (Fonte: BBC Brasil).