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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Tragédia em Berlim: pesadelo para a Alemanha e para Angela Merkel

[A tragédia no mercado de Natal de Berlim coloca o governo de Angela Merkel contra as cordas e, certamente, provocará nova onda de xenofobia e de crescimento da extrema direita não só na Alemanha, como no resto da Europa. Podemos esperar dias mais tensos pela frente, com consequências imprevisíveis. Traduzo a seguir reportagem de Severin Weiland e Phillip Wittrock publicada no site Spiegel Online International.]

Ataque em Berlim, pesadelo da Alemanha, pesadelo de Merkel

Severin Weiland e Phillip Wittrock - Spiegel Online International, 20/12/2016


A chanceler alemã Angela Merkel assina o livro de condolências pelas vítimas do ataque de segunda-feira - (Foto: AFP)


A chanceler alemã Angela Merkel está no modo crise. Novamente. Mas, desta vez, a situação fere mais do que de vezes anteriores e sacudiu o país inteiro. Os ataques de verão em Würzburg e Ansbach foram simples anúncios ou indicações do banho de sangue da noite de segunda-feira. Agora, 12 pessoas estão mortas e dezenas mais feridas depois que uma pessoa invadiu com um caminhão um mercado de Natal no coração de Berlim.

Merkel esta plenamente ciente de que algo como o ataque na noite de segunda-feira poderia acontecer aqui também -- na realidade, era quase inevitável. Mas isso não diminuiu o choque. "Este é um dia difícil", disse a chanceler. O país, prosseguiu ela, "está unido em luto profundo". 

Quando Merkel leu seu comunicado na terça-feira sobre o ocorrido na noite anterior, ela disse o que tinha que dizer em tal situação. Expressou sua compaixão para com as vítimas e suas famílias, agradeceu àqueles que responderam prontamente à tragédia, expressou confiança no trabalho dos investigadores e anunciou que os executantes da agressão serão punidos devidamente. E prometeu: "Encontraremos forças para a vida que queremos viver na Alemanha -- livre, unida e aberta". Essas são palavras que deram voz ao seu estado de choque e à sua consternação, deram voz também à sua determinação para enfrentar o terror.

Um policial caminha perto da Igreja do Memorial do Kaiser Guilherme em Berlim. Muitas questões permanecem sem respostas após o ataque mortal na noite de segunda-feira contra um mercado de Natal em um destino turístico popular. 12 pessoas morreram nesse ataque, e pelo menos 48 ficaram feridas quando um homem ainda não identificado jogou um caminhão contra a multidão - (Foto: AFP)


Quase um dia havia decorrido após o ataque, mas os trabalhos de investigação e de limpeza na parte ocidental de Berlim ainda se desenrolavam  - (Foto: AP)


O caminhão Scania pertencia a uma empresa polonesa de transporte marítimo e foi carregado com vigas de aço. A polícia prendeu um suspeito mais tarde à noite, mas na terça-feira ainda não havia certeza se haviam prendido a pessoa certa. Um segundo homem foi encontrado morto no assento de passageiro. A polícia disse que era um cidadão polonês e que não havia sido o motorista do caminhão - (Foto: AFP)


Uma cidade de luto. Berlinenses e turistas colocaram flores, velas e mensagens pessoais no local do ataque - (Foto: Reuters)


Na terça-feira a chanceler alemã foi também ao local do ataque na Breitscheidplatz, em Berlim, e deixou flores em honra dos mortos e feridos - (Foto: DPA)


Políticos em estado de choque: o ministro do Interior alemão, Thomas de Mazière, esteve diante da imprensa na terça-feira e disse que havias poucas dúvidas de que o ocorrido fora um ataque terrorista. Entretanto, na mesma terça-feira, mais tarde, e declarou que o real responsável pelo ataque não havia sido ainda encontrado - (Foto: AFP)


A equipe de resgate reboca o caminhão que invadiu o mercado de Natal que estava cheio de gente. Ainda não se sabe onde e quando o suspeito do ataque roubou o caminhão utilizado no ataque - (Foto: Reuters) 


Acomodações para refugiados, dentro de um hangar do antigo e desativado Aeroporto de Tempelhof. Uma força especial da polícia investigou o local durante a noite. Na terça-feira, não mais parecia provável que um jovem paquistanês preso perto do local do atentado fosse o executante do ataque - (Foto: DPA)


Uma imagem do caminhão após o ataque. O motorista suspeito conseguiu escapar. Oficiais da polícia acreditavam que o haviam apreendido perto do memorial de Siegessäule, mas parece agora que prenderam o homem errado - (Foto: DPA)


Bombeiros examinam uma árvore de Natal derrubada no mercado onde ocorreu o ataque. "Foi uma noite ruim para Berlim e para o país. Como um número incontável de pessoas, estou muito chocado", disse o presidente alemão Joachim Gauck - (Foto: AP)


Uma cidade em estado de choque. Um placar eletrônico próximo ao local do ataque apresentava os dizeres "em compaixão e luto pelas vítimas e todos os afetados" - (Foto: AFP)


Em resposta ao ataque em Berlim, várias cidades com mercados de Natal começaram a implementar medidas de seguranças adicionais na terça-feira para impedir ataques semelhantes. Em Dresden, que abriga um dos mais famosos desses mercados, foram instaladas barreiras de concreto para impedir que veículos possam invadir as áreas de pedestres - (Foto: DPA)


Na França, alvo de ataques terroristas sérios nos últimos dois anos, medidas adicionais estão sendo adotadas também, como nesse mercado de Natal em Paris. O governou solicitou à população que seja mais vigilante, em resposta à ameaça - (Foto: AFP)


Até que o responsável pelo ataque seja encontrado, a situação permanecerá tensa em Berlim. Na terça-feira, autoridades admitiram que a pessoa que executou o ataque brutal provavelmente ainda está solta - (Foto: Reuters)


"Particularmente repulsivo"

Mas mesmo quando fazia seu comunicado, a chanceler estava plenamente ciente de que o tom correto, o excelente trabalho da polícia e a firmeza dos valores liberais não seriam suficientes para conter a crise. Isso ajuda a explicar porque ela transmitiu também uma mensagem política durante seus cinco minutos de presença pública.

Seria, disse ela, "particularmente difícil para todos nós tolerar uma situação em que o autor do ataque tenha vindo para a Alemanha como um refugiado". Seria, continuou ela, "particularmente repulsivo com relação aos muitos, muitos alemães que estão diariamente engajados em prestar assistência aos refugiados e com relação às muitas pessoas que realmente precisam de nossa proteção e que estão dando o melhor de si para se integrarem". 

Enquanto ela falava, não se sabia ainda que a polícia começara a duvidar de que o homem preso na noite de segunda-feira estivesse realmente envolvido no ataque. Esse homem, que aparentemente veio para a Alemanha como um refugiado do Paquistão há cerca de um ano, havia sido preso em local não muito distante do local do ataque. Os investigadores tinham a esperança de ter capturado o motorista do caminhão.

A mensagem de Merkel foi um pedido para que os alemães evitassem suspeitar de todos os refugiados, de maneira generalizada. Ela está bem consciente das profundas divisões na sociedade alemã e está preocupada com o fato de que esse ataque possa envenenar a atmosfera ainda mais, o que pode tornar ainda mais difícil sua reeleição no outono de 2017.

E sua mensagem foi dirigida também a seus colegas políticos conservadores que sempre criticaram sua política em relação aos refugiados. Em primeiro lugar e principalmente Horst Seehofer, o combativo governador da Bavária que também é líder da União Social Cristã (CSU), o parido bávaro irmão dos Democratas Cristãos (CDU), partido de Merkel. Antes mesmo que a chanceler lesse seu comunicado, o gabinete bávaro reuniu-se em Munique.  Ficou claro que Seehofer havia sido profundamente afetado pelo ataque e olheiras escuras circundavam seus olhos.

Luta na direita

O que Seehofer disse então para as câmaras dos jornalistas soou como ainda outra declaração de guerra contra Merkel. "Devemos às vítimas, às suas famílias e a toda a população um repensar e um reajuste de todas as nossas políticas de imigração e de segurança".  Quando Seehofer diz "nossas políticas" ele na realidade se refere àquelas da chanceler.

Seehofer vem lutando há meses contra o curso da política de Merkel na crise dos refugiados. Ele não está preocupado apenas com manter o poder na Bavária, o preocupa também a crescente competição política na ala direita na figura do populista Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla alemã). Durante a noite, o AfD buscou ganhar impulso com base no ataque, culpando diretamente as políticas de Merkel por torná-lo possível em primeiro lugar e postando comentários debochados nas redes sociais.

Recentemente, o CDU e o CSU tentaram fazer as pazes em suas relações. Uma reunião conjunta de líderes dos dois partidos está programada para o início de fevereiro, quando o CSU está listado para anunciar seu apoio oficial à nova candidatura de Merkel à Chancelaria. Mas o ataque de segunda-feira pode obstruir esses planos, se Seehofer decidir que as reformas recentes para endurecer a legislação alemã para a não avançam o suficiente.

Mas, até os membros do CDU de Merkel estão agitados. Tomem, por exemplo, Klaus Bouillon, ministro do Interior pelo estado de Saarland, que inicialmente falou de um "estado de guerra" ao descrever o ataque de segunda-feira e mais tarde tentou recuar. "Evitarei usar o termo guerra no  futuro", disse ele, distanciando-se de seus próprios comentários. "É terrorismo".

"Não é o dia para falar de consequências"

A demanda imediata de Seehofer por consequências políticas em seguida ao ataque não caiu bem em Berlim. Thomas de Maizière, o ministro do Interior, fez na terça-feira uma atualização sobre o progresso das investigações e pareceu que o político do CDU escolheu cuidadosamente as palavras enquanto fazia isso. "Não recuemos", disse ele em um apelo à população. "Não os deixemos controlar nossas vidas com o medo".

Quando perguntado sobre sua resposta à demanda de Seehofer, o ministro do Interior ficou taciturno. Anunciou que iria visitar a cena do ataque mais tarde naquele dia junto com a chanceler e o ministro do Exterior, e que participaria de um serviço religioso depois disso. "Hoje", disse ele, "não é o dia para se falar de consequências".

Mais tarde nesse dia, de Maizière juntou-se a Merkel e ao  seu colega do SPD [Partido Social Democrata] Frank Walter Steinmeier quando estes depositaram flores em um memorial temporário para as vítimas. Quando ele assim fez, Seehofer e seus ministros de governo na Bavária se prepararam para convocar uma reunião especial do gabinete na terça-feira à tarde. Assuntos a serem discutidos: as políticas da Alemanha para segurança e refugiados.


Caminhão colide com mercado de Natal de Berlim - A foto mostra onde o caminhou entrou no mercado, o caminho por ele seguido e o local onde parou. É mostrada a localização do mercado na praça Breitscheid, do Centro Europa, do Memorial da Igreja do Kaiser Guilherme, do Waldorf Astoria, da avenida Kurfürstendamm, do shopping center Bikini, da rua Kant, da rua Hardenberg, da rua Budapeste e do parque do Jardim Zoológico. No gráfico abaixo da foto são mostrados por onde o caminhão entrou no mercado, o local em que ele atingiu uma barraca e deixou o mercado e parou, e a posição de uma fila de barracas do mercado - [Foto: Google Earth -- Mapa: Mapbox - Kartendaten OpenStreetMap-Mitwirkende (ODbL)]


Últimas notícias
  • Alemanha ordena caçada contra um suspeito tunisino -- A Alemanha emitiu uma ordem de busca por um homem tunisino cujos documentos de identidade foram encontrados na cabine do caminhão usado no ataque terrorista de segunda-feira à noite em Berlim. O processo de deportação dele havia sido interrompido porque ele não dispunha dos documentos necessários para isso.
A Alemanha está oferecendo uma recompensa de 100.000 euros por informações que levem à captura do suspeito Anis Amri - (Foto: BKA)
  • Berlinenses mantêm a compostura depois do ataque -- Como Berlim está lidando com o ataque ao mercado de Natal? Uma incursão pela cidade revela algo incrível e impressionante. As sementes de medo que os terroristas buscaram semear não parecem estar germinando por aqui.


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

França: o assustador aliciamento de menores pelo Estado Islâmico

[É impressionante e assustador o que o governo francês já identificou no tocante ao aliciamento de menores de  idade franceses pelo Estado Islâmico. Traduzo a seguir textos publicados pelo jornal francês Le Figaro em 23/9/2016. Um deles é o de Christophe Cornevin. O que estiver entre  colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Segundo as informações obtidas pelo Le Figaro, 1.954 menores foram identificados como radicalizados na França. Esse é um número 121% maior que o obtido em levantamento feito em janeiro deste ano.

Em uma  semana, quatro adolescentes foram apreendidos pela polícia antiterrorismo quando pretendiam entrar  em ação. Teleguiados a partir da  Síria através de mensagens criptografadas cada vez mais sofisticadas, esses jovens fazem parte dos 1.954 menores franceses radicalizados, o que corresponde a 18% do total dos indivíduos identificados por radicalização islâmica a partir de 2014. Entre os 689 franceses atuando em zonas de combate, 17 são menores. Destes, 6 foram mortos.

Segundo o Ministério do Interior, as mocinhas seriam cada vez mais numerosas entre os que sucumbem à influência dos recrutadores do Daech [abreviação árabe para "Estado Islâmico no Iraque e no Levante", uma organização terrorista hoje implantada na Síria e no Iraque, que busca exportar seu sistema de terrorismo para além do Levante (Líbia, Egito, Afeganistão, ...). Originária do braço iraquiano da al-Qaida, se desenvolveu no Iraque a partir de 2006; depois, na Síria, beneficiada pelo caos gerado pela repressão contínua do regime sírio desde  2011.].

Segundo o psiquiatra Patrick Amoyel, essa recrudescência se explica pelo fato de que "há um terreno de radicalização fértil para a adolescência". A partir de 2015, a proteção judiciária à juventude elaborou dois planos de luta contra  o terrorismo que garantiram o acompanhamento controlado de 600 menores. Deles, 34 já foram indiciados e 14 encarcerados.

Geração jihadista

Editorial, por Yves Thréad

Perante a lei, são menores. São crianças. Na realidade, estão prestes a semear o terror. São combatentes da jihad [guerra santa muçulmana]. Seu "sonho" é nosso pesadelo. E são franceses!

Quantos são? É assustador e inquietante. Seu número dobrou em nove meses no território nacional, onde não estão longe de chegar hoje a dois mil. Mais de quatrocentos outros vivem em zonas de guerra no Oriente Médio, para onde foram sozinhos, em grupo ou com seus pais. Alguns nasceram até sob o estrondo das armas, tendo como única nacionalidade a de serem futuras e potenciais bombas humanas. Receia-se o retorno de uns e a chegada de outros.

Uma geração de cadetes do islamismo -- meninos/jovens, mas  também cada vez mais meninas/moças -- está a caminho, em vias de se organizar. Muitos deles são convertidos, e todos não são nascidos em famílias fanáticas. Mas  todos são filhos da Internet, o canal de sua radicalização onde pregadores do Estado Islâmico e "imãs Google" fazem uma lavagem em seus cérebros. De um dia para outro. seus  comportamentos, seus hábitos e seus relacionamentos mudam até o momento em que soa o apelo para passar à ação. Quatro adolescentes, de 15 anos, foram recentemente interpelados na região parisiense pouco antes de fazerem algo pior.

O que fazer? Como detetar esses jovens, seguí-los uma vez identificados e evitar que o contágio se propague? O arsenal tradicional de medidas da justiça de menores está, seguramente, ultrapassada. Os meios de atuação dos serviços de informação e rastreamento nas redes sociais foram reforçados. Mas a amplitude da onda é tal, que as respostas são difíceis de serem ajustadas ou são inadequadas.

Face a esse  flagelo, a  retomada do controle de nosso sistema escolar se mostra urgente, distante das reformas demagógicas que foram introduzidas há quinze anos. É no momento em que se formam os espíritos, em que se forja o caráter, que convém ser intransigente.

Os menores estão no centro da estratégia do Daech

Christophe Cornevin - Le Figaro, 23/9/2016

Um aprendiz jihadista interpelado por policiais da DGSI [Direção Geral da Segurança Interna], em 10 de setembro, no 12° distrito de Paris - (Foto: Eric Baudet/Divergence)

Pesquisa - Quatro adolescentes ligados ao Estado Islâmico acabam de ser presos. Segundo nossas informações, cerca de 2.000 jovens de menos de 18 anos estão identificados como radicalizados na França.

Aluno brilhante e excelente tenista, esse colegial acabava de soprar suas 15 velinhas em 9 de setembro. Interpelado cinco dias depois no 20° distrito de Paris pela Direção Geral de Segurança Interna (DGSI), apoiada por homens da Raid [sigla francesa para Investigação, Assistência, Intervenção e Dissuasão, unidade de elite da polícia nacional francesa], esse jovem militante do jihadismo foi indiciado por associação com malfeitores terroristas em vias de cometer crimes. Detetado no visor dos serviços de informação à flor da idade, esse jovem de origem egípcia é suspeito de ter selecionado ataques em nome do Daech, antes de desistir disso. 

Foi o quarto adolescente em uma semana a cair nas redes do antiterrorismo. Todos estavam sob o  comando de Rachid Kassim, propagandista virulento do Daech suspeito de teleguiar através da rede criptografada Telegram atentados na França a partir da zona iraquiano-síria. O primeiro, um menor de 15 anos , indiciado e encarcerado, projetava um ataque jihadista na França. Preso em Rueil-Malmaison (Alto Sena), tinha  sido descoberto na rede Telegram em ligação com Rachid Kassim. Para espanto de suas pessoas mais próximas, um aprendiz jihadista também de 15 anos foi por sua vez apreendido no 12° distrito. Sob prisão domiciliar desde os atentados de 13 de novembro e já visado por uma ficha S [que identifica pessoas potencialmente perigosas para a "segurança do Estado"], reconheceu ter desejado "morrer como um mártir depois de matar todo um bando de "kouffars" (infiéis)" com arma branca. Ia passar à ação para semear a morte ao acaso da "Coulée verte" de Paris ["Coulée verte" é um parque no sul de Paris, situado ao lado ou abaixo das linhas do TGV (trem de alta velocidade) atlântico, entre o boulevard periférico de Paris e Massy].

Longe de serem casos isolados, esses "filhotes de leão" recrutados pelo Estado Islâmico parecem se multiplicar, a despeito dos reveses militares da organização terrorista na zona iraquiano-síria. Segundo um balanço de 15 de setembro que chegou ao conhecimento do Le Figaro, 1.954 menores estão identificados como radicalizados na França. Ou seja, 18% do total de 11.912 indivíduos detetados após a implantação da plataforma antijihadista em abril de 2014. Mesmo que permaneça proporcionalmente estável, a parcela de pessoas com menos de 18 anos explodiu em 121% em relação  a janeiro deste ano (882 casos). "A ação dos serviços de informação está mais intensa do que nunca", enfatizou o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, alarmado com o número de "apelos à morte lançados por um certo número de militantes em ação na Síria, que utilizam meios criptografados para convocar franceses cada vez mais jovens para que passem à ação".

Desvantagem das meninas e moças

"Os menores franceses tornaram-se o alvo de uma técnica dita de 'saturação'", descreve um alto participante da luta antiterrorista. "Muitas vezes em situação de fracasso escolar e de ruptura familiar devida a divórcio dos pais, esses jovens desequilibrados são inicialmente abordados na rua por um amigo de um amigo que, cheio de falsa empatia, lhes dá o hashtag da rede criptografada Telegram de "sargentos" recrutadores do Daech instalados não só na Síria, mas também na França. Uma vez com conexão segura e sob o controle mental de "gurus" como Rachid Kassim ou mesmo de Omar Omsen, autor de numerosos vídeos de propaganda direcionados a adolescentes, eles são bombardeados por uma centena de mensagens diárias", testemunha esse especialista. "Como você está vestido(a)?", "Que orações fez esta manhã?", "Quem você encontrou?", "Você apertou a mão de um homem hoje?", "Não saia sozinho(a)", ... Bem experiente, a lavagem cerebral é enfeitada com discursos enganadores exaltando o mito de um califado onírico, digno de um conto das Mil e Uma Noites.

Segundo o painel de avaliação da Praça Beauvau [onde está localizado emParis o Ministério do Interior, desde 1861], as meninas e moças tornam-se cada vez mais numerosas no aliciamento de radicalização do que os meninos e rapazes. Cerca de um milhar delas caíram no "liquidificador". Um policial de alto escalão explica essa "feminilização" do recrutamento pelo "kit de vida" que o Daech promete àquelas que sonham encontrar o príncipe encantado nas zonas de combate, seengajar no humanitário e fundar uma família para repovoar um califado fantasioso. "As jovens são mais dispostas, porque pensam que não serão enviadas para combater antes dos jovens", esclarece o Ministério do Interior. "Diferentemente destes, elas não vêem o banditismo como uma válvula de escape ...".

No plano judiciário, o contencioso terrorista se traduz pelo indiciamento de 37 menores e o encarceramento de onze rapazes e três moças. O aprisionamento de uma adolescente de 16 anos interpelada no início de agosto quando de uma captura antiterrorista testemunha a vontade do Estado de por fim ao Islã radical. A adolescente também estava em contato com Rachid Kassim. Assim como uma jovem de 18 anos interceptada no mesmo momento em Clermont-Ferrand.

No caos das zonas de combate, o quadro não é menos sombrio. Segundo nossas informações, os serviços especiais registraram 17 adolescentes entre os 689 combatentes voluntários franceses engajados sob a bandeira do Daech. Seis outros aí encontraram a morte. Alguns outros participaram de simulações macabras de execuções, à semelhança do suposto filho de Sabri Essid, antigo mentor do matador de Toulouse Mohamed Merah, filmado aos 12 anos em um vídeo terrível no qual executa um "espião do Mossad"com uma bala na cabeça, enquanto gritava "Allah akbar!" [Deus é grande!].

Ouvido em 10 de maio último pela comissão da defesa nacional do Palácio Bourbon [sede da Assembleia Nacional da França], o chefe da DGSI Patrick Calvar revelou: "Cadastramos cerca de 400 menores na zona considerada (...), dos quais um terço nasceu ali e tem pois menos de 4 anos". De acordo com a União de Coordenação da Luta Antiterrorista (Uclat), eles seriam entre 130 e 140. "Vítimas de um trauma de nascença, essas crianças muito jovens absorveram o medo e a guerra como esponjas", testemunha um analista de informação. "Mesmo que o Estado faça tudo para recuperá-las, elas correm o risco de voltar à França com um limite de tolerância à ultraviolência que nada tem a ver com o que jamais se viu ...". Além das questões de legalidade que seu retorno provocará, Patrick Calvar apontou "problemas reais de  segurança" porque esses menores estão "condicionados", "instrumentalizados pelo Daech" e "se exercitam com armas de fogo".

Em um relatório parlamentar dedicado aos meios do Daech, Jean-Fréderic Poisson e Kader Arif se questionam sobre a confissão/admissão de culpa dessas crianças e sua responsabilização: "Daech derrotado, as autoridades locais admitiriam isso? Qual seria o status jurídico delas?". Retomando a ideia de uma "bomba-relógio", eles consideram que "essas crianças têm vocação para ficar onde  estão ou, se nascidos de pais estrangeiros, poderiam retornar para o país de seus pais". E acrescentam: "Nos dois casos, é preciso determinar o regime jurídico que lhes é aplicável: qual é sua nacionalidade? Que autoridade tem condições de lhes conceder um passaporte ou mesmo uma certidão de nascimento?".

Por ora, os poucos que conseguiram sair das garras das unidades de combate regressaram à França dizendo-se "enfadados com a jihad". Esse foi notadamente o caso de Yacine e Ayoub, de 15 e 16 anos, ambos nascidos em Toulouse e companheiros de liceu, ambos desaparecidos na Síria em janeiro de 2014 antes de se encontrarem envolvidos na época com Jabhat-al-Nosra, um grupo filiado à al-Qaida. No final de agosto, o Ministério Público de Paris abriu uma nova investigação para reencontrar Ayoub. Atualmente um jovem maior de  idade, ele conseguiu chegar à Síria com toda discrição, via Bulgária e depois Turquia.

À semelhança da Alemanha crepuscular de 1945 o Daech, perdendo a influência, iria recorrer às mulheres e às crianças para continuar sua guerra louca contra as "cruzadas"? Ninguém sabe ao certo. O ex-juiz antiterrorista Marc Trévidic assegurou no canal France Inter: "É preciso sobretudo não acreditar que o Daech não tem senão mulheres e crianças: isso é para ocupar território. O que não  quer dizer não haja pessoas mais profissionais que preparam coisas muito mais graves".

O ódio e o fanatismo não esperam pelo número de anos. Eles inoculam seu veneno poderoso em espíritos mais jovens para conseguir atos indescritíveis, como no dia de janeiro último em que, não distante do instituto franco-hebraico de Marselha, um estudante secundarista de origem curda agrediu com golpes de cutelo um homem que usava um quipá. Tendo agido em nome do Daech, porque aos seus olhos "os muçulmanos da França desonram o Islã e o exército francês protege os juízes", o estudante era até então considerado pelos professores como "bom aluno, estimado pela equipe pedagógica"; festejou seus 16 anos atrás das grades.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A França e seus atritos gratuitos com os devotos do islamismo: agora é a proibição do burquini em algumas de suas praias

[Traduzo a seguir artigo de Cécilie Deffontaines, publicado no jornal francês L'Obs, abordando mais um problema dos franceses com a adoção de costumes islâmicos em seu território. Além de Cannes, as localidades de Villeneuve-Loubet e Sisco (Córsega) também proibiram o uso do traje de banho feminino, conhecido como burquini.  É mais um capítulo da complicada e tensa novela da integração da população de origem árabe, principalmente os devotos do islamismo, à sociedade francesa. 

Os franceses continuam completamente perdidos e desnorteados quanto a lidar com os islâmicos em seu país. Enquanto direta e/ou indiretamente estimulam a formação de guetos por essas pessoas por vários motivos, principalmente por pura discriminação, o que as leva a agarrar-se ainda mais a seus costumes e tradições, o governo francês frequente e repetidamente impõe proibições ao uso desses mesmos costumes e tradições, acirrando ainda mais os ânimos de revolta dos atingidos por essas medidas. Desde dezembro de 2015, a França fechou 20 mesquitas consideradas radicais e formadoras de extremistas islâmicos. Em abril de 2011, entrou em vigor na França a proibição (criada por lei em 2010) do uso da burca e do niqab no espaço público. Em julho de 2014, o Tribunal Europeu de Direitos Humanos aprovou de forma final e inapelável essa lei francesa. Agora, surge a proibição ao burquini. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.















Tipos de burca - (Fotos: Google)


Tipos de niqab - (Fotos Google)



Tipos de burquini - (Fotos: Google)]

Em foto de arquivo, Nissrine Samali entra no mar usando a veste tradicional islâmica em Marseille, no sul da França - (Foto: AP Photo)O uso do burquini está no centro de polêmicas nos últimos dias. De onde vem ele? Quem o usa? É legal proibí-lo? O "L'Obs" faz uma análise dos principais pontos da questão.O tribunal administrativo de Nice rejeitou em 13 de agosto corrente o pedido de suspensão, em regime de urgência, da portaria municipal emitida em 28 de julho pela prefeitura de Cannes para proibir o banho com burquini nas praias. Pessoas físicas (três mulheres) e uma associação contra a islamofobia, o Grupo Contra a Islamofobia na França (CCIF, na sigla francesa), que se sentiram afetadas pela portaria, foram assim obstadas pela justiça, no limiar de uma batalha jurídica que se anuncia dura.A CCIF já manifestou sua intenção de apelar ao Conselho de Estado contra essa determinação. O L'Obs disseca a polêmica.O que queria o prefeito de Cannes?O prefeito de Cannes, David Lisnard, do partido Os Republicanos [de Nicolas Sarkozy], quis proibir o uso do burquini nas praias de sua cidade através de uma portaria municipal publicada no dia 28 de julho."Uma roupa de praia que manifesta de maneira ostensiva uma preferência religiosa, quando a França e os locais de culto religioso são atualmente alvos de ataques terroristas, tem a natureza de criar riscos de perturbação da ordem pública (agrupamentos de pessoas, tumultos, etc) que é preciso prevenir", indicava o texto da portaria para justificar a proibição.
O prefeito de Cannes, David Lisner - (Foto: Valérie Hache/AFP)O texto invoca também razões de segurança: o traje de banho não deve "complicar as operações de salvamento em caso de afogamento".Tratava-se portanto de proscrever até 31 de agosto, data do fim da aplicação da portaria, "para toda pessoa que não tenha uma vestimenta correta, respeitadora dos bons costumes e da laicidade". A transcrição a essa determinação seria punida com uma multa de 38 euros.Lionnel Luca, o deputado (também do Os Republicanos)-prefeito de Villeneuve-Loubet, localizada também nos Alpes Marítimos, imitou o prefeito de Cannes e emitiu também uma portaria, datada de 5 de agosto. Essa portaria indica que "é proibido o acesso a banho público, de 1 a 31 de agosto, a toda pessoa que não dispuser de um traje correto, respeitador dos bons costumes e da laicidade, e que respeite as regras de higiene e de segurança adaptadas ao ambiente marítimo público". "Chamou-me a atenção em uma de nossas praias um casal cuja mulher se banhava vestida, conta Lionnel Luca, e considerei que aquilo não tinha razão de ser por razões de higiene e era desaconselhável tendo em conta o contexto geral".[As razões alegadas pelas duas portarias para proibir o burquini nas praias me soam absolutamente descabidas e ridículas, piorando desnecessária e perigosamente o relacionamento com a comunidade islâmica e complicando por tolice a integração dessa gente à sociedade francesa.]Qual é a origem do burquini?Essa roupa de banho islâmica nasceu na ... Austrália. Foi uma estilista de origem libanesa, Aheda Zanetti, que inventou essa roupa de duas peças, uma (na parte superior) sobre a outra (na parte inferior), que cobrem inteiramente o corpo e os cabelos, deixando aparecer apenas as mãos, os pés e o rosto. É feita com o mesmo material de um maiô clássico. 
A estilista Aheda Zanetti (à esquerda) com a modelo Mecca Laalaa - (Foto: Anoek de Groot/AFP)A palavra "burquini" (ou "burkini") é composta de "burca" (ou "burka") e "biquini" (ou "bikini"), duas roupas que cobrem o corpo de maneira [muito] desigual.Quem o usa?É difícil dizer o número de mulheres que o vestem para banhar-se. As piscinas [francesas]  proíbem seu uso por razões de higiene, assim como proíbem o short para os homens.Em Aurillac [cidade da região de Auvergne, centro-sul da França], em junho, uma mulher apresentou queixa porque a proibiram de usar o burquini nas piscinas do centro aquático, como informou o jornal La Montagne.É lícito proibí-lo na praia?A lei de 11 de outubro de 2010 proíbe, em espaço público, o uso de véu que esconda o rosto. Isso portanto não diz respeito ao burquini.A portaria de Cannes é "ilegal, discriminatória e inconstitucional", declarou o advogado do CCIF, Sefen Guez Guez, que recorreu à justiça em regime de urgência para contestá-la."A lei hoje na França não permite proibir o acesso a praias por causa da simbologia de trajes religiosos. Há apenas a lei de 2004 , que afeta os alunos do ensino público", explicou ele.A portaria é também "inconstitucional", porque "a Constituição garante o livre exercício de cultos", argumenta Guez Guez. A liga de direitos humanos local disse que também pediria diante do tribunal administrativo a suspensão da portaria, e que apresentaria queixa contra o prefeito."Não se proibiu o véu, nem o quipá, nem as cruzes, proibi simples um uniforme que é o símbolo do extremismo islâmico. É preciso parar de querer fazer dessa portaria uma caricatura. Vivemos em um espaço público comum, há regras a serem respeitadas", comentou o prefeito.  O que diz a justiça?O tribunal administrativo de Nice rejeitou formalmente em 13 de agosto o pedido de suspensão da portaria que lhe foi submetido pelo CCIF. A corte fundamentou sua decisão quanto à forma e o mérito da petição, ao mesmo tempo:● O juiz do caso, M. Lemaître, descarta o caráter de urgência porque "os requerentes submeteram no dia 12 de agosto o pedido de urgência para contestar a portaria do prefeito de Cannes do dia 28 de julho, que não sofreu contestação desde que foi afixada nos locais do município previstos para isso, assim como nas praias".● A sentença observa igualmente que "são respeitadas as disposições do artigo 1° da Constituição segundo o qual 'a França é uma república laica', que proíbe a quem quer que seja de se prevalecer de suas crenças religiosas para se livrar dos regulamentos comuns que regem as relações entre comunidades públicas e privadas". ● O juiz assinala igualmente "que no contexto do estado de emergência [na França] e dos recentes atentados islâmicos ocorridos notadamente em Nice há um mês [...], o uso de um traje diferenciado e característico, diferente de um traje de  banho habitual, pode de fato ser interpretado como, nesse contexto, não sendo um simples sinal de religiosidade". O advogado do CCIF, Sefen Guez Guez, manifestou sua intenção de, em nome de seu cliente, apesar dessa sentença ao Conselho de Estado, afirmando que "essa decisão abre as portas para a proibição de qualquer sinal religioso em espaço público". Ele se espanta igualmente por "não ter tido conhecimento "senão em 11 de agosto" dessa portaria de 28 de julho, que o caráter de urgência não tenha sido admitido, e que para uma decisão tão importante nenhuma audiência pública para debate do contraditório tenha sido cogitada".  

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Hora para um plano B: a Europa não pode ser chantageada pela Turquia

[Traduzo a seguir editorial do site Spiegel Online International, escrito por Mathieu von Rohr. Se a União Europeia admitir a Turquia depois do que ela tem feito em represália ao golpe militar fracassado -- que tem todos indícios de que era previamente sabido por Erdogan -- os europeus terão perdido de vez qualquer credibilidade. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Crianças refugiadas sírias na Turquia - (Foto: Getty Images)

Ser completamente dependente de alguém o torna vulnerável a extorsão. Quando a União Europeia (UE) fechou seu acordo para refugiados com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan no início do ano, algumas pessoas ficaram preocupadas com a hipótese de que ele usasse esse acordo como uma alavanca a seu favor. Agora, o governo turco fez exatamente isso. O ministro das Relações Exteriores turco alertou que Ancara cancelará o acordo se, dentro de meses, a UE não garantir isenção de visto para cidadãos turcos.

Certamente, há boas razões para garantir dispensa de visto para os turcos. Mas, exatamente agora, é especialmente importante que a UE insista para que Ancara primeiro preencha os requisitos fixados pela UE para que essa isenção seja concedida. Isso inclui uma reforma das leis antiterrorismo turcas, que o governo tem usado para prender opositores políticos sem o devido processo legal. A UE não pode deixar-se chantagear por Erdogan, cujas tendências autocráticas tornaram-se novamente visíveis durante as últimas semanas. 

A Turquia está em um perigoso estado de crise após o golpe fracassado do mês passado. A Europa -- corretamente -- condenou a tentativa de tomada do poder por partes do exército, e agora precisa trabalhar para que Erdogan retorne ao império da lei. A democracia turca está ameaçada pelo expurgo pós golpe, que incluiu demissões e prisões de dezenas de milhares de advogados, juízes, jornalistas e militares. Simultaneamente, um sentimento anti-Ocidente ganhou raízes na política e na sociedade turcas. O governo de Ancara erroneamente acusa a Europa e os Estados Unidos de não condenarem o golpe de maneira suficientemente forte ou de, secretamente, tê-lo apoiado. Este tipo de pensamento é que gerou a ameaça de paralisar o acordo de refugiados.

É incerto se a Turquia afinal será bem sucedida em seu ultimato. Esse não seria um movimento inteligente, mesmo sob a perspectiva turca. Em primeiro lugar, Erdogan perderia a peça mais importante da suposta arma a seu favor. A Turquia depende também da Europa para seu desenvolvimento econômico; a recentemente redescoberta  amizade entre Erdogan e o presidente russo Vladimir Putin não oferece nenhuma alternativa real para a UE. Mas o presidente turco é um ator imprevisível, e nem sempre parece agir racionalmente.

Consequências menos dramáticas do que medos

Se a Turquia cancelasse realmente o acordo dos refugiados, as consequências provavelmente seriam muito menos dramáticas do que muitas pessoas receiam. Seguramente, o fluxo de imigrantes para a Europa tenderia a aumentar, mas é bem improvável que dezenas de milhares de pessoas tomariam imediatamente o caminho para a Europa. Afinal, foi o fechamento da rota dos Bálcãs -- não o acordo com a Turquia -- o principal responsável por interromper o fluxo de imigrantes rumo ao norte.  Ambas as medidas juntas deram a mensagem de que a UE não queria mais aceitar uma migração sem controle para a Europa central.

Mais do que qualquer coisa, o acordo dos refugiados tinha uma força simbólica. Até hoje, a Grécia não rejeitou nenhum sírio que lhe tenha pedido asilo. Até Julho, apenas 468 pessoas haviam sido deportadas para a Turquia. O anúncio do acordo foi suficiente -- o acordo em si, na realidade, nunca teve que ser aplicado. [Quem estiver interessado em saber detalhes desse acordo, clique aqui.]

Mas ninguém tem condição de dizer o que aconteceria se o acordo com a Turquia fosse realmente cancelado. Por essa razão, a UE precisa encontrar sua própria solução alternativa para lidar com os refugiados. A Europa precisa de um plano B sem Erdogan, mas há duas considerações a fazer: i) o tipo de migração que vimos no ano passado não é politicamente viável em qualquer país europeu, nem mesmo na Alemanha; - ii) uma distribuição igualitária de buscadores de asilo através de toda a UE no futuro parece infelizmente ser irrealista.

Enquanto as coisas permaneceram desse modo, há apenas uma opção: a UE tem que usar fundos europeus para construir campos de refugiados na Grécia e na Itália, onde os pedidos de asilo podem então ser processados. Isso, entretanto, seria uma carga muito pesada para os países afetados. Ao mesmo tempo, os líderes dos países membros da UE precisam criar mais oportunidades para a entrada legal de quem busca asilo e obrigar pelo menos alguns países da UE a aceitar refugiados.

O pior cenário seria a Grécia transformar-se novamente num gargalo para os refugiados. Mas é mais provável, em primeiro lugar, que muitas pessoas se sentirão desencorajadas pela falta de atratividade em atravessar a Europa.

Há de fato tristes perspectivas, mas a verdade é que, moralmente, não é melhor continuar enviando para Ancara bilhões de euros para manter imigrantes na Turquia, do que acomodá-los em solo europeu -- especialmente quando ao se fazer isso fica-se à mercê de um homem cujo país poderia ele mesmo tornar-se em breve a fonte da próxima onda de refugiados políticos.

[Vê-se pelo texto que não há muita consideração pelo lado humano do problema dos refugiados, eles são tratados como itens incômodos que precisam ser alojados, de uma ou outra maneira. Como já disse em outra postagem, no caso dos refugiados os europeus estão colhendo hoje o que plantaram ontem.]

terça-feira, 19 de julho de 2016

Após Nice, não dêem ao Estado Islâmico o que ele está pedindo

[Traduzo a seguir artigo de Mutaza Hussain, publicado no site The Intercept. Um detalhe interessante é o autor ser de origem árabe. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Não se sabe ainda muito sobre Mohamed Lahouaiej Bouhlel, o francês de 31 anos que a polícia diz ser o responsável por um ato horrendo de assassinato em massa na noite passada [o artigo foi publicado em 15/7] na cidade de Nice, sul da França. Após a matança, o presidente francês François Hollande classificou o ataque de "terrorismo islâmico", ligado ao grupo militante do Estado Islâmico (EI).  Partidários do EI online deram eco a essa afirmação, reivindicando a responsabilidade pelo ataque como outro golpe contra seus inimigos na Europa ocidental. 

Enquanto o motivo do ataque ainda está sob investigação, vale examinar porquê o EI está tão ansioso para reivindicar tal incidente como de sua autoria. Superficialmente, jogar um caminhão contra uma multidão reunida para assistir a uma queima de fogos na data da queda da Bastilha parece um ato de puro niilismo. Nenhum objetivo militar foi atingido. Relatórios iniciais sugerem que a matança pode levar aos ataques franceses aos territórios do EI já em diminuição no Iraque e na Síria. E muçulmanos franceses, muitos deles supostamente mortos no ataque, provavelmente enfrentarão represálias de segurança e reação popular de um público irritado e receoso na esteira de outro incompreensível ato de assassinato em massa.

Mas, os comunicados do EI e a história mostram que um resultado como esse é exatamente o que o EI busca. Na edição de fevereiro de 2015 de sua revista online Dabiq, o grupo pediu por atos de violência no ocidente que "eliminariam a zona cinzenta" por via de semear a divisão e criar um conflito insolúvel nas sociedades ocidentais nentre muçulmanos e não-muçulmanos. Um tal conflito forçariam os muçulmanos que vivem no ocidente a "ou abandonar a religião ... ou migrar para o Estado Islâmico, escapando assim da perseguição dos governos e cidadãos que a eles se opõem".  

Essa estratégia de usar a violência para forçar divisões na sociedade imita a tática do grupo no Iraque, onde usou ataques provocativos contra a população xiita para, deliberadamente, deflagrar um conflito sectário, que continua enfurecido até hoje.

Pode ser que o EI não tivesse linha de comunicação direta com Bouhlel. Diferentemente de muitos outros agressores, ele não havia estado no radar dos serviços de segurança franceses. Não há indícios de que tenha recebido treinamento ou viajado para território do EI. Informações iniciais de quem o conhecia mostram o retrato de um homem deprimido e irritado, que "passou muito de seu tempo em um bar, onde jogava e bebia". Tinha um histórico de crimes triviais, incluindo uma prisão em maio deste ano após um incidente de violência no trânsito. 

Mas, de certo modo, esses detalhes não importam. O modelo de terrorismo do EI reside em armar indivíduos tais como Bouhlel; o grupo convoca os jovens, os revoltados e os sem rumo mundo afora para atacar em seu nome os que estão à sua volta. Deste modo, o oder de insurgentes desesperados é amplificado através de uma combinação de mídia social e propaganda do feito. Um texto de  catequese usado elo grupo, intitulado "A Administração/Gestão da Selvageria" (The Management of Savagery), prescreve ataques terroristas como um meio de "inflamar a oposição", de arrastar pessoas comuns para o conflito "querendo ou não, de modo que cada pessoa irá para o lado que apoia". 

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No ocidente, ataques mortais em Paris, Bruxelas, Orlando e alhures trazem para mais próximo da realização o objetivo do Estado Islâmico de um mundo dividido.
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Partidos de extrema-direita hostis às minorias estão ganhando popularidade na Europa, enquanto nos EUA pesquisas mostram um significativo apoio popular a medidas até então impensáveis, como a de banir do país pessoas muçulmanas que não sejam cidadãos americanos. Como um furacão em câmara lenta, cada e todo ato de violência parece fazer um dano incremental à possibilidade de se ter uma sociedade tolerante e liberal.

Após o ataque em Nice, o ex-presidente da câmara de deputados americana Newt Gingrich botou lenha na fogueira demandando por "examinar toda pessoa aqui que tenha background muçulmano", acrescentando: "quem acreditar na sharia [direito islâmico] deve ser deportado". Essa foi uma declaração um tanto irônica de Gingrich, que em anos passados ajudou a providenciar espaço para que funcionários muçulmanos pudessem rezar no Congresso americano, e participou no planejamento de sessões para o Instituto Islâmico de Livre Mercado, um grupo de defesa do mercado livre e apoia produtos financiados segundo a sharia. 

A explosão de Gingrich, por mais que seja impraticável, reflete efetivamente um endurecimento dos sentimentos da população. À medida que o tempo passa e continuam os ataques de lobos solitários e de outros em nome do EI, não é inimaginável que propostas como a dele ganhem impulso.

Mas, de uma perspectiva tanto estratégica quanto moral, a pior coisa que se pode fazer em resposta ao horror de ocorrências como a de Nice seria dar ao EI o que ele diz que quer: polarização e ódio comunitário. Propostas para limpeza étnica ou "guerra civilizatória" podem satisfazer um desejo de dar ideia de força, mas na realidade elas alimentam a narrativa do grupo quanto a um mundo irrevogavelmente dividido por linhas religiosas. 

A Europa ocidental enfrentou ondas maiores de terrorismo no passado sem ceder à estratégia dos terroristas ou sacrificar seus valores intrínsecos. A crise do Estado Islâmico exigirá um nível semelhante de firmeza e lealdade. Mas, somente reconhecendo a armadilha que ela armou é que poderemos evitar infligir uma derrota em nós mesmos muito pior que a que um grupo insurgente desesperado e fanático jamais poderia esperar conseguir por si mesmo.

[O artigo nos dá mais uma dimensão da extrema dificuldade de combater o terrorismo e muito mais ainda de eliminá-lo. Trata-se de um inimigo sem rosto e sem uniforme, que mata impiedosamente quaisquer pessoas, inclusive compatriotas. Os chamados lobos solitários, como o de Nice, ampliaram de maneira assustadora  a imprevisibilidade de ataques terroristas. O ocidente está simplesmente desnorteado com esse inimigo que foge a todos os padrões até então estabelecidos. Geradores da onda de refugiados que invadem a Europa, entre os quais se infiltram terroristas, os países europeus estão colhendo hoje os frutos amargos de seus atos na África e no Oriente Médio. 

Ver também:
O Islã na Europa e no mundo
Ataques reabrem debate sobre integração de imigrantes na França
☛ A crise dos imigrantes ilegais e refugiados na Europa -- europeus colhem hoje o que semearam ontem]

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Migrantes: os europeus querem o fim do Acordo de Schengen, de livre circulação de pessoas entre seus países

Praticamente todos os dias a mídia divulga imagens e notícias de tentativas dramáticas de migrantes, geralmente africanos, que tentam chegar à Europa em condições precárias. Anualmente milhares de pessoas – muitas delas fugindo de conflitos na África e no Oriente Médio – arriscam suas vidas cruzando o Deserto do Saara e o Mar Mediterrâneo em veículos e barcos precários para chegar à Europa. Organizações não-governamentais estimam que aproximadamente 20 mil pessoas podem ter morrido tentando chegar à Europa nas últimas duas décadas [estatística de 2014].

No dia 28 de julho, mais de 2.000 migrantes invadiram o Eurotunel (túnel sob o Canal da Mancha) saindo da localidade de Coquelles, perto da cidade-porto francesa de Calais, numa tentativa de chegar à Inglaterra. Nessa tentativa, um dos invasores foi atropelado e morto por um caminhão.

Para ter um diagnóstico mais preciso do problema, a Frontex (agência europeia de fronteiras) e o Centro Internacional para Desenvolvimento de Políticas Migratórias produziram em 2014 uma série de mapas que identificam as maiores rotas centros de concentração usados pelos migrantes na região. A Frontex - Agência Europeia de Gestão da Cooperação Operacional nas Fronteiras Externas foi criada em novembro de 2004. Sua criação resultou da livre circulação num espaço Schengen sem fronteiras, que constitui um direito fundamental dos cidadãos da União Europeia. A abolição das fronteiras internas da União criou a necessidade de uma gestão mais rigorosa das fronteiras externas, com vista a assegurar a regulação dos fluxos populacionais. A Frontex visa prestar assistência aos países da UE na correcta aplicação das normas comunitárias em matéria de controles nas fronteiras externas e de reenvio de imigrantes ilegais para os seus países de origem. A sua sede localiza-se em Varsóvia, na Polônia.

Em 2014, 283.000 migrantes entraram ilegalmente na União Europeia, incluindo 220.000 através do Mediterrâneo, segundo dados da agência europeia de controle das fronteiras da UE (Frontex). Refugiados sírios na Turquia já são mais de 100.000.

Mais de 100 mil migrantes e refugiados chegaram à Europa cruzando o Mediterrâneo desde o início deste ano de 2015, informou o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), provocando um "aumento dramático" das chegadas no sul da Itália e na Grécia.

O Acordo de Schengen é uma convenção entre países europeus sobre uma política de abertura de fronteiras e livre circulação de pessoas entre os países signatários. Um total de 30 países, incluindo todos os integrantes da União Europeia - UE (exceto Irlanda e Reino Unido) e três países que não são da UE (Islândia, Noruega e Suíça) assinaram esse acordo. LiechensteinBulgáriaRomênia e Chipre estão em fase implementação do acordo.

A área criada em decorrência do acordo é conhecida como espaço Schengen e não deve ser confundida com a União Europeia. Trata-se de dois acordos diferentes, embora ambos envolvendo países da Europa. De todo modo, em 02 de outubro de 1997 o acordo e a convenção de Schengen passaram a fazer parte do quadro institucional e jurídico da União Europeia, pela via do Tratado de Amsterdam. É condição para todos os estados que aderirem à UE aceitarem as condições estipuladas no Acordo e na Convenção de Schengen.

O acordo de Schengen foi assim denominado em alusão a Schengen, localidade luxemburguesa situada às margens do rio Mosel e próxima à tríplice fronteira entre Alemanha, França e Luxemburgo (este último representando o Benelux, onde já havia a livre circulação). Ali, em junho de 1985, foi firmado o acordo de livre circulação envolvendo cinco países, abolindo-se controles de fronteiras, de modo que os deslocamentos entre esses países passaram a ser tratados como viagens domésticas.

Posteriormente, o Tratado de Lisboa, assinado em 13 de dezembro de 2007, modificou as regras jurídicas do espaço Schengen, reforçando a noção de um "espaço de liberdade, segurança e justiça", que vai além da cooperação policial e judiciária e visa a implementação de políticas comuns no tocante à concessão de vistos, asilo e imigração, mediante a substituição do método intergovernamental pelo método comunitário.

Embora teoricamente não haja mais controles nas fronteiras internas ao espaço Schengen, esses controles podem ser reativados temporariamente caso sejam considerados necessários para a manutenção da ordem pública ou da segurança nacional. Os países signatários reforçaram os controles das fronteiras externas ao espaço Schengen, mas, por outro lado, cidadãos estrangeiros que ingressem como turistas ou que obtenham um visto de longo prazo para qualquer um dos países membros podem circular livremente no interior do espaço.



  Estados-membros pertencentes à União Europeia
  Estados-membros não pertencentes à União Europeia
  Estados-membros que aguardam a implementação
  Estados-membros que apenas cooperam policial e judicialmente

Espaço Schengen - (Fonte: Wikipédia)


As ameaças terroristas e os problemas sociais, de saúde e outros, acarretados estes pelas levas de migrantes ilegais que tentam desesperadamente fugir de seus países e entrar na Europa -- principalmente pela Itália -- têm levados os países da UE (União Europeia) e outros do continente europeu a cogitar de medidas restritivas para o ingresso  e a circulação de pessoas em seus territórios. 

O jornal francês Le Figaro publicou em 09 do corrente mês de julho uma reportagem dizendo que os europeus querem o fim do Acordo de Schengen, segundo pesquisa feita pelo próprio jornal. Traduzo a seguir o texto dessa reportagem.

Um imigrante se barbeia em Calais - (Foto: Michel Spingler/AP)

Quase 7 em 10 franceses seriam favoráveis ao restabelecimento de controles nas fronteiras dos países da UE, segundo pesquisa exclusiva Ifop-Le Figaro.

Na Europa, todas as opiniões públicas são favoráveis à supressão do Acordo de Schengen! É o que mostra uma pesquisa exclusiva Ifop-Le Figaro sobre "Os europeus e a gestão dos fluxos migratórios", cujos resultados estão mostrados abaixo.


[Infelizmente não foi possível obter imagem melhor da figura acima, que pode ser vista em maior escala e com maior clareza clicando na imagem da reportagem. Clique na imagem para ampliá-la.]

Tradução das legendas da figura: 

Franceses e britânicos são os mais favoráveis ao fim do Acordo de Schengen

Pergunta 1 - Há meses migrantes africanos atravessam de barco o Mediterrâneo e chegam aos milhares às costas italianas. Na sua opinião, os países da União Europeia (UE) deveriam, na situação atual, destinar recursos financeiros preferencialmente para ...?

... reforçar os controles nas fronteiras e combater a imigração clandestina proveniente do sul do Mediterrâneo

... colaborar para o desenvolvimento e a estabilização dos países ao sul do Mediterrâneo, a fim de fixar localmente suas populações

... desenvolver em seus territórios programas de ajuda e acolhimento para os imigrantes originários do sul do Mediterâneo 

Pergunta 2 - Você é a favor ou contra a que os migrantes africanos que chegam aos milhares às costas italianas sejam distribuídos entre os diferentes países da Europa, e que seu país acolha uma parte deles?

-- É favorável
-- É contra

Pergunta 3 - Você é favorável ou contrário à supressão do Acordo de Schengen, possibilidade prevista por esse tratado, e ao restabelecimento, ao menos provisório, dos controles fixos nas fronteiras entre seu país e países da UE?

-- É favorável
-- É contra 

Estudo realizado pelo Ifop e pelo Le Figaro

A sondagem foi feita em uma amostra de 5.996 pessoas nos seguintes países: França (1.002 pessoas), Alemanha (997 pessoas), Holanda (995 pessoas), Reino Unido (1.002 pessoas), e Itália (1.000 pessoas). As amostras são representativas das populações dos diferentes países com idade de 18 anos ou acima. Em cada país, a representatividade da amostragem foi assegurada pelo método das quotas (sexo, idade e profissão da pessoa consultada), após estratificação por categoria de aglomeração (França) e por regiões (para todos os países). As entrevistas foram realizadas por questionário auto-administrado online de 25 de junho a 2 de julho de 2015 na França e na Itália, de 29 de junho a 2 de julho de 2015 na Holanda e no Reino Unido, e de 29 de junho a 3 de julho de 2015 na Alemanha.

Quase 7 em 10 franceses querem restabelecer as fronteiras dos países da UE. 53% dos consultados, que se dizem próximos ao Partido Socialista, estão prontos para solicitar essa supressão do acordo, contra 77% da UMP (União por um Movimento Popular) (hoje denominados Republicanos) e 89% na Frente Nacional. 

Em compensação, o tema das quotas de migrantes gera divergência. Quanto mais afetado pela crise migratória o país consultado, mais ele apela à solidariedade dos outros Estados membros: a Itália, porta de entrada à UE para centenas de milhares de clandestinos, tem 81% dos consultados favoráveis às quotas; a Alemanha, primeira destinação dos solicitantes de asilo na Europa, teve 69% pró-quotas. O Reino Unido, em compensação, sem dúvida favorecido por sua situação insular, é o menos favorável à ideia de abrir suas portas aos novos imigrantes: 68% dos britânicos recusaram a proposta. 


Um acampamento de imigrantes se instalou no cais de Austerlitz, em Paris [margem do Sena, de onde sai a Ponte Charles de Gaulle rumo à estação ferroviária de Lyon] - (Foto: François Bouchon/Le Figaro)

Migrantes clandestinos à espera na fronteira franco-italiana em 12 de junho de 2015, na cidade italiana de Ventimiglia - (Foto: Jean-Christophe Magnenet/AFP)


Ver também:

Imigração: "nossas sociedades atingiram um ponto de ruptura" (em francês) 
Ventimiglia: dezenas de migrantes ainda presentes (em francês)