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domingo, 17 de janeiro de 2016

O líder do Estado Islâmico avisa Israel: estamos cada dia mais perto

[Traduzo a seguir a reportagem publicada no final de dezembro passado pelo jornal israelense Haaretz. A retórica do líder radical islâmico é a mesma de sempre dessa ala extremista do islamismo.]

Foto tirada de um vídeo mostra o líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi, dando um sermão em uma mesquita no Iraque em 05/7/2014 - (Foto: AP)

O comandante do Estado Islâmico (EI), Abu Bakr al-Baghdadi, divulgou uma mensagem de voz em 26/12/2015 em que ameaça Israel com um ataque por militantes do EI.

"Com a ajuda de Alá, estamos chegando mais perto de vocês a cada dia", disse ele a seus ouvintes israelenses. "Os israelenses nos verão em breve na Palestina. Esta não é mais uma guerra das cruzadas contra nós. Exatamente agora, o mundo inteiro nos combate". 

O líder do EI prosseguiu: "Os israelenses acharam que havíamos nos esquecido da Palestina e que haviam nos desviado dela. Isso não é verdade. Nem por um momento nos esquecemos da Palestina". 

A mensagem, de 20 minutos de duração, foi a primeira de seu gênero feita por Baghdadi em sete meses. Inicialmente não ficou claro quando al-Baghdadi foi gravado, ou porque decidiu se dirigir a Israel especificamente. 

A julgar por seus comentários, entretanto, ele aparentemente gravou a mensagem em algum momento após a Rússia ter começado seus ataques aéreos contra o EI e outros grupos que lutam contra Bashar Assad na Síria.

Os ataques intensificados feitos pelos russos e pela coalizão liderada pelos EUA não lograram enfraquecer seu grupo, segundo Baghdadi. "Confie em que Deus garantirá a vitória para aqueles que o adoram, e ouça as boas notícias de que nosso Estado está se desempenhando bem", disse o líder. "Quanto mais intensa a guerra contra ele, mais puro ele ele se torna e mais resistente e duro ele fica".


domingo, 1 de novembro de 2015

A verdade sem rodeios sobre a ocupação da Palestina por Israel, na opinião de judeus

[O artigo traduzido a seguir, da autoria de Carlo Strenger (*), foi publicado no prestigioso jornal israelense Haaretz (O País). O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. A atuação de Israel na Palestina tem lhe rendido dividendos amargos no cenário internacional, sem que isso infelizmente tenha provocado qualquer alteração no estilo violento implacável e absolutamente agressivo a direitos humanos com que Israel domina os territórios que ocupa na Palestina. Ver: "Jerusalém, a capital do apartheid, à espera da insurreição"; -- "Onda de boicotes está levando Israel ao isolamento internacional"; -- "Acadêmicos britânicos anunciam boicote a Israel". ]

Yeshayahu Leibowitz acertou ainda antes de 1967, quando alertou que Israel rumava para um perigoso declive moral.


Ocupação: Mulher palestina com crianças cruza um bloqueio rodoviário de controle, enquanto soldados israelenses esperam, no cruzamento Qalandiya entre Jerusalém Oriental e a cidade de Ramallah, na Margem Esquerda - (Foto: AP)

Hoje, quando os ministros do governo de Israel tentam levar vantagem uns sobre os outros exprimindo as frases mais beligerantes e chauvinistas que podem encontrar, penso muito sobre Yeshayahu Leibowitz e sua clareza moral. Um ascético homem da Renascença com uma gama realmente incrível de conhecimento, ele assumiu a personalidade de um profeta da ira. Já após o massacre de Qibya em 1953, quando tropas lideradas por Ariel Sharon mataram pelo menos 69 aldeões palestinos num ataque de represália, Leibowitz começou a alertar que o país rumava para um perigoso declive moral.

Imediatamente após a Guerra dos Seis Dias, ele alertou sobre as horríveis consequência da ocupação de milhões de palestinos; de construir uma rede de informantes que atuariam contra seu próprio povo; do impacto que atuar militarmente nos territórios teria sobre soldados jovens, e o impacto que o controle dos territórios teria sobre a sociedade israelense como um todo.  

Revendo o documentário de Dror Moreh The Gatekeepers [Os Guardiães das Passagens, em tradução livre], você percebe quão certo foi Leibowitz. Os seis ex-chefes do serviço de segurança Shin Bet, que foram extensivamente entrevistados por Moreh no filme, falaram principalmente sobre o custo moral da ocupação e porque Israel precisa encerrá-la, para o próprio bem e interesses do país. Eles não são pacifistas ingênuos. Fizeram o que tinha de ser feito para reforçar a segurança e a salvaguarda de Israel, mas enquanto o fizeram jamais perderam de vista a moralidade.

De fato, os serviços de segurança de Israel vêm alertando há anos que a atual onda de violência seria inevitável se Israel não provesse os palestinos com um horizonte político. Eles conhecem a realidade diária da ocupação, e nem por um minuto acham que o denominado status quo de anexação progressiva [de territórios] e humilhação constante seja sustentável -- e muitos deles, falando em off, admitem estar horrorizados com o preço moral da ocupação.

É exatamente essa dimensão moral que está se perdendo no discurso público israelense, que está atingindo níveis orwellianos de distorção linguística ["orwelliano" refere-se à situação, idéia ou condição social que George Orwell identificou como sendo destrutiva para o bem-estar de uma sociedade livre e aberta]. A distorção da verdade por Netanyahu até com relação ao Holocausto, apenas para ganhar pontos políticos com sua ridícula teoria de que o Mufti [um acadêmico islâmico a quem é reconhecida a capacidade de interpretar a Sharia (lei islâmica) e emitir conselhos (fatwas)]  inventou a Solução Final [ver aqui], é o exemplo mais recente disso. 

Yeshayahu Leibowitz, um homem de clareza moral - (Foto: Alex Levac)

Estou escrevendo isto, embora haja ataques diários contra vidas israelenses, porque Leibowitz nunca disse que Israel tinha que encerrar a ocupação para alcançar a paz. Ele era um pessimista em relação à natureza humana, e provavelmente não se surpreenderia com o caos violento que engolfa o Oriente Médio. Ele disse que precisávamos terminar com a ocupação porque era imoral; porque controlar milhões de pessoas sem lhes garantir direitos políticos é moralmente insustentável e corrompe a sociedade que perpetua essa situação. 

Compartilho o pessimismo de Leibowitz quanto à natureza humana, e sou também muito pessimista quanto ao futuro visível do Oriente Médio, que tende a ser caótico e violento independentemente das ações de Israel [aqui o autor, sintomaticamente, aliviou a aceleração que vinha mantendo]. Também não sei quando um acordo final poderá ser alcançado com os palestinos, porque eles parecem incapazes de construir uma liderança coerente e unificada.

Mas a realidade vigente de privação de posse e de humilhação [sobre os palestinos] pode e tem que ser encerrada com passos intermediários. Israel pode desmontar os assentamentos menores, que tornam miseráveis as vidas dos palestinos. Ele poderia fazer reagrupamentos de um modo que possibilitaria que 98% dos palestinos vivessem suas vidas livremente, sem contato com as forças de defesa israelenses -- e isso pode ser feito sem comprometer os requisitos vitais de segurança de Israel. E poderíamos terminar com as tentativas diárias de intrusões direitistas em Jerusalém Oriental. Os detalhes de como exatamente fazer isso foram elaborados pelo ex-Chefe de Staff e ex-ministro da Defesa Shaul Mofaz em um plano de 2011, que nunca passou por uma audiência pública.

Mas para isso precisamos de políticos que estejam dispostos para, e sejam capazes de, usar a linguagem da moralidade e dizer aos israelenses que a única maneira de salvar o país de uma desintegração interna é assumir os riscos envolvidos em nos desengajarmos dos palestinos, ainda que não possamos saber se isso trará paz. Eles precisam apenas dizer a simples verdade: que mesmo na política há a moral virtuosa e a moral diabólica, e que ocupar e controlar outro povo é diabólico. 

(*) Carlo Strenger é professor de Filosofia e Psicologia na Universidade de Tel Aviv. Atua no Painel de Monitoramento Permanente do Terrorismo da Federação Mundial de Cientistas, no Seminário de Psicanálise Existencial em Zurique e no Conselho Científico da Fundação Sigmund Freud, em Viena. É autor de inúmeros livros, incluindo "O medo da insignificância: em busca do significado no século 21". 







domingo, 2 de novembro de 2014

Jerusalém, a capital do apartheid, à espera da insurreição

[A reportagem abaixo, de Gideon Levy, foi publicada no jornal esquerdista israelense Haaretz em 23/10. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Prisões em massa, colonos violentos, expulsões e despejos: com isso ocorrendo como acontece com muitos palestinos de Jerusalém, ninguém deveria ter ficado surpreso com o ataque terrorista de quarta-feira (22/10).



Policiais detêm um manifestante palestino durante confrontos no Monte do Templo em 16/10/2014 -- (Foto: Reuters/Fonte: Haaretz)

O ataque terrorista em Jerusalém na noite de quarta-feira [22/10] não deveria ter surpreendido ninguém. Afinal, duas nações vivem na Pretória do Estado de Israel. Diferentemente de outras áreas ocupadas, ali se supõe que haja um certa igualdade entre as pessoas: carteiras de identidade azuis disponíveis para todo mundo, liberdade de ir e vir, imposto de propriedade pago à municipalidade, seguro nacional -- todos são israelenses. Mas, Jerusalém está coberta de mentiras. Tornou-se a capital israelense do apartheid.

Excetuando Hebron, nenhum outro lugar possui um regime separatista espalhafatoso e descarado como esse. E agora a bota de Israel está pressionando cada vez mais fortemente na capital, de modo que a resistência dos participantes do gueto em formação está se intensificando: espancados e oprimidos, desprezados e pobres, cheios de um sentimento de ódio e de um desejo de vingança.

A revolta está a caminho. Quando a próxima onda de terrorismo emergir dos becos de Jerusalém Oriental, os israelenses fingirão estar surpresos e furiosos. Mas, a verdade precisa ser dita: apesar do chocante incidente de quarta-feira, os palestinos estão se mostrando uma das nações mais tolerantes da história. Prisões em massa, colonos violentos, privações, expulsões, abandono, despejo -- e eles permanecem silenciosos, exceto pelo recente protesto com pedras.

Não há auto-engano de que a cidade não sofra [o conceito de auto-engano -- 'self-deception' -- é controvertido, como assinala a Enciclopédia Stanford de Filosofia não só em sua definição como na conceituação de paradigmas. No entanto, pode-se dizer em geral que auto-engano é a aquisição e manutenção de uma crença (ou, pelo menos, a confissão dessa crença) diante de forte evidência do oposto, motivada por desejos ou emoções a favor da aquisição e manutenção dessa crença]. A capital é uma capital vista apenas por seus próprios olhos -- a cidade unificada é uma das cidades mais divididas do universo. A alegada igualdade [entre seus habitantes] é uma piada, e a justiça é pisoteada. Livre acesso a lugares sagrados existe apenas para os judeus -- e para muçulmanos idosos. E o direito de retornar a eles é reservado a judeus.

Um palestino residente em Jerusalém corre hoje muito mais risco de ser linchado do que um judeu em Paris. Mas, não há ninguém para protestar de maneira forte e irritada. Diferentemente do judeu francês, o palestino pode ser expulso de Jerusalém. Ele pode também ser preso com uma terrível facilidade. Depois que Mohammed Abu Khdeir, de 16 anos, foi queimado vivo, gerando uma onda de protestos, Israel prendeu 760 palestinos na cidade, 260 deles crianças.

Como sempre, a resposta a cada problema é uma mão mais pesada. O primeiro-ministro sempre ordenou que as forças de segurança fossem reforçadas, usando a única linguagem que sua equipe de governo conhece. E quando, naturalmente, a resistência se torna mais violenta eles levantam suas mãos e dizem: "Vejam como estão destruindo o sistema de transporte (light-rail system) que fizemos para eles".

Jerusalém poderia ter sido diferente. Se Israel tivesse praticado justiça e equidade ali, ela poderia ter se tornado uma cidade modelo -- as pessoas que a anexaram deveriam ter lutado e se empenhado por isso. Nos piores dias da intifada, relativamente pouco terror teve origem na cidade, mesmo com seus residentes podendo viajar livremente.

Os palestinos são os mesmos, mas o bloqueio, o toque de recolher e o cerco [estado de sítio] são diferentes. O resultado é que houve menos terror em Jerusalém, desmentindo a teoria de que cerco evita o terrorismo. Por que? Porque, na realidade, muitos dos residentes na capital desejam tornar-se israelenses , mas Israel está impedindo que consigam isso. Unidos, unidos -- mas sem árabes. 

As prisões em massa em Jerusalém que não despertaram interesse em Israel, a invasão de bairros árabes por colonos apoiados pelo governo e pelas cortes, a negligência criminosa pela qual a cidade é responsável -- tudo isso cobrará um preço.

Por quanto eles verão suas crianças com medo de deixar suas casas com receio de serem atacadas por hooligans nas ruas? Por quanto tempo verão suas crianças serem presas por cada pedra arremessada? Por quanto terão que ver a negligência em seus bairros?

Por quanto  tempo aceitarão sua tácita expulsão da cidade? Entre 1967 e 2013, Israel revogou o status de residentes de 14.309 palestinos em Jerusalém, com alegações estranhas que não se aplicam a nenhum de seus residentes judeus. Não é isso apartheid?

E então o terror irromperá. Em resposta, drones encherão o céu do campo de refugiados de Shoafat, haverá assassinatos nas ruas de Azariyhe e assassinatos direcionados em Beit Hanina, e outra barreira de separação será construída entre as duas partes da cidade, apenas para se estar do lado seguro. Com um prefeito nacionalista, uma polícia violenta e um governo chefiado por Benjamin Netanyahu, nada é mais certo do que isso.
__________
[PS - O relato pessimista (e realista) acima ocorre no momento em que Israel sofre as consequências de sua sistemática política agressiva de estímulo a assentamentos em terras palestinas: a Suécia acaba de se tornar a primeira nação da UE (União Europeia) a reconhecer a Palestina como Estado independente, o Parlamento britânico votou em 13/10 uma moção não vinculante de mesmo teor, e as relações difíceis entre Netanyahu e Obama estão no auge de seu antagonismo, com uma fonte da Casa Branca citada como tendo chamado o primeiro-ministro israelense de 'covarde'.  

Na semana de 30/10, houve novamente cenas de violência em Jerusalém OrientalA Esplanada das Mesquitas, para os muçulmanos, ou o Monte do Templo, para os israelenses, esteve nesta quinta-feira no cerne da violência que tomou parte de Jerusalém Oriental, após a morte de um palestino suspeito de ter atirado contra o ativista de extrema-direita israelense Yehuda Glick — que continua internado em estado grave. A decisão do governo israelense de fechar o local foi classificada de “declaração de guerra” aos palestinos e aos muçulmanos pelo presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas. O premier israelense, Benjamin Netanyahu, por sua vez, condenou o ataque ao ativista judeu como “um ato de terrorismo”, e acusou Abbas de incitar a violência.]



Palestinos entram em confronto com a polícia israelense após o assassinato de Moatez Higazi, suspeito de ter atirado algumas horas antes contra o ativista israelense Yehuda Glick em Jerusalém - (Foto: Mahmoud Illean/AP - Fonte: O Globo)





Mulher palestina gesticula com soldado israelense em Jerusalém - (Foto: Finbarr O'Reilly/Reuters - Fonte: O Globo) 


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Algumas das guerras execráveis que castigam o planeta e matam milhares de inocentes, e as reações do Brasil

É impressionante o número de conflitos armados que ocorrem simultaneamente em várias partes do mundo. O ano passado (2013) foi considerado o pior nesse aspecto desde a 2ª grande guerra. Vários desses confrontos se destacam por sua extrema violência e pelo elevado número de crianças e cidadãos comuns entres as vítimas fatais.

Focalizemos apenas os que ocorrem no Oriente Médio.

Guerra na Síria -- já dura 3 anos e registra documentadamente  171.509 mortos até este mês  de julho, com 56.495 civis, dos quais 9.092 crianças -- além de gerar 2 milhões de refugiados. A guerra suja síria empregou armas químicas -- em um único ataque das forças governamentais em 21/8/2013 com esse tipo de armamento (com o presumível emprego de gás sarin) teriam morrido 1.300 pessoas. Em 03/8/2012 a vice-chefe da missão do Brasil nas Nações Unidas, Regina Dunlop, disse que a resolução aprovada na Assembleia Geral da organização sobre o conflito na Síria reflete a posição brasileiraO texto aprovado mais cedo clamava por uma transição política no país em crise, condena o regime do presidente Bashar al Assad e critica o Conselho de Segurança por "não agir" para tentar deter a violência no país em conflito. Apesar dos números de mortos e de crianças vitimadas, e do emprego de armas químicas, o governo de Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saia) em momento algum acusou o governo sírio de uso desproporcional da força, nem chamou para consulta nosso embaixador em Damasco. 

Ver postagem: Afinal, o que quer e faz o Brasil em relação ao genocídio na Síria? 

A guerra do ISIS (sigla inglesa para Estado Islâmico no Iraque e no Levante) -- Formado em 2013, esse grupo jihadista extremista vem fazendo uma guerra que se caracteriza por uma extrema violência, com torturas, execuções em massa, matança de civis, uso de civis como escudos humanos, recrutamento e uso de crianças como soldados. Os cidadãos mais vulneráveis -- mulheres, crianças, deficientes físicos -- têm sido afetados "desproporcionalmente" pela irrupção da violência. Desconhece-se qualquer posição pública e ostensiva do Brasil sobre esse conflito.

A guerra em Gaza -- Desenrolando-se há cerca de 20 dias,  esse conflito já provocou uma destruição sem precedentes no território palestino e causou mais de 1060 mortos entre os palestinos, na maioria civis, e 43 baixas militares no lado israelense. O ato de guerra israelense que nesta semana mais repúdio e revolta provocou foi o bombardeio de uma escola da ONU em Gaza pelo exército israelense, com pelo menos 15 mortos incluindo mulheres, crianças e funcionários da ONU. Em 22 deste mês de julho a Unicef informava que quase 150 crianças palestinas haviam sido mortas pelas forças israelenses em Gaza, incluindo 97 meninos e 49 meninas com idade entre 5 meses e 17 anos.  Das 146 crianças, pelo menos 105 vítimas tem 12 anos de idade ou menos – ou 71% das crianças.

O ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, chamou de volta ao Brasil para consultas o embaixador em Tel Aviv, Henrique Sardinha. A medida tem por objetivo demonstrar o descontentamento do governo brasileiro com o massacre de palestinos, a maioria civis, na Faixa de Gaza. Foi o segundo país, depois do Equador, a adotar a medida.

"O governo brasileiro considera inaceitável a escalada da violência entre Israel e Palestina. Condenamos energicamente o uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza, do qual resultou elevado número de vítimas civis, incluindo mulheres e crianças", diz um comunicado do Itamaraty. A chancelaria israelense reagiu fortemente à posição e à atitude brasileiras e chamou o Brasil de "anão diplomático" e "parceiro diplomático irrelevante". A partir daí, estabeleceu-se um bate-boca ridículo, com o nosso chanceler nº 2, Marco Aurélio Garcia, chamando o porta-voz da chancelaria israelense de
 "sub do sub do sub do sub do sub do sub", afirmou Garcia a jornalistas, antes de solenidade no Palácio do Planalto de posse dos membros do Comitê Nacional de Prevenção e Combate à Tortura. Questionado se a declaração do porta-voz não teria sido deselegante, Garcia respondeu: "Eu não sou especialista em elegância".


Ver postagens:
Brasil, um anão diplomático
Brasil, um anão diplomático (II)

O conflito israelense-palestino tem todas características de ser insolúvel, em qualquer horizonte visível. Do lado palestino, a ascensão do Hamas só fez radicalizar ainda mais o confronto. Assiste-se a demonstrações de barbárie de ambos os lados, com um Golias infinitamente mais poderoso que o Davi. Em termos de poder de fogo, as forças armadas israelenses ocupavam em 2013 a 11ª posição no ranking mundial. A desproporção entre o poderio militar de Israel e o dos palestinos é gigantesco, e isto tem sido assim há décadas e todas as ações ofensivas e defensivas de Israel sempre guardam relação direta e linear com essa desproporção. Por isso, soa muito estranho que só agora o governo petralha de Dilma NPS tenha "identificado e constatado" essa desproporção. O que têm feito e fazem a Abin - Agência Brasileira de Inteligência e os nossos dois chanceleres (um deles o eterno e ridículo Marco Aurélio Garcia)?! Ninguém lê jornal no Planalto?! Me soa evidente que pelo menos dois fatores levaram Dilma NPS a fazer o que fez  na hora em que o fez: o ano eleitoral e seu apego visceral à demagogia eleitoreira, e mais uma oportunidade de mostrar antagonismo e "independência" em relação aos EUA, defensores e protetores incontestes e incondicionais de Israel.

O regime implacável e permanente de opressão e humilhação a que Israel submete há décadas a população palestina -- do qual o sistema  cada vez mais expansionista de assentamentos judeus em terras palestinas é apenas uma faceta -- é a receita perfeita para inviabilizar qualquer acordo entre as partes. O que Israel faz em Gaza e na Palestina em geral é uma grilagem institucionalizada de terras, além de um abuso de prepotência e do emprego de força.  Isso, no ano passado, já provocou uma onda de boicotes contra Israel e um crescente isolamento internacional do país. A política israelense na Palestina é o combustível perfeito para o renascimento e a manutenção de facções extremistas como o Hamas e o Hizbollah (ou Hezbollah). 

O comportamento opressivo e agressivo de Israel em Gaza já está gerando divisões na sociedade israelense. O jornal Haaretz, antigovernista e  porta-voz da esquerda, disse que o "Hamas deveria agradecer à direita israelense -- o número crescente de mortos em Gaza e a cada vez maior destruição de seu território fazem o background perfeito para restaurar a reputação do Hamas". Em um editorial, o mesmo jornal disse que o Primeiro-ministro Netanyahu precisa falar clara e francamente contra a crescente onda de agressões violentas contra árabes e esquerdistas que expressam suas opiniões contra a guerra em Gaza. 

Em 9/7/2004, a Corte Internacional de Justiça, principal órgão judiciário da ONU, com sede em Haia (Holanda), em resposta à Assembleia-Geral da Organização, declarou com ampla maioria (quase unanimidade, 14 votos a 1) contrária ao Direito Internacional a construção por Israel do que se convencionou ser nominado muro defensivo, cerca separatória ou, ainda, barreira de segurança, erigido no Território Palestino Ocupado, área sob jugo do Estado de Israel em consequência da Guerra dos Seis Dias (5 a 10 de junho de 1967). O longo relatório que  suporta a decisão da Corte de Haia está detalhado no documento "Consequências jurídicas da construção de um muro no Território Palestino Ocupado" (em francês e inglês). Me soa absolutamente bizarro que Israel tenha adotado uma solução que remete ao Muro de Berlim, que dividiu a Alemanha ao final da guerra contra o nazismo. Dever ter influenciado também Israel o muro que os EUA construíram em parte de sua fronteira com o México.

Como sinal da saturação da sociedade israelense com o regime de permanente violência e belicosidade do Estado judeu, em uma carta endereçada ao primeiro ministro Binyamin Netanyahu e ao público israelense, 60 jovens de ambos os sexos, de 16 a 19 anos, afirmam que pretendem se recusar a prestar serviço militar pois se opõem à ocupação dos territórios palestinos. Esta é a primeira grande onda de recusa ao serviço militar desde 2001, quando centenas de soldados da reserva se negaram a participar das ações militares de Israel na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, durante a segunda Intifada (levante palestino).

A iniciativa, denominada Recusa 2014 (Seruv 2014), foi publicada no domingo, 9 de março de 2014 e, segundo integrantes do grupo, nas  24 horas seguintes o número de assinantes vinha aumentando. "Nos territórios ocupados são cometidos diariamente atos definidos pela lei internacional como crimes de guerra ", declaram os jovens, "inclusive execuções extrajudiciais, construção de assentamentos em terras ocupadas, prisões sem julgamento, tortura, punição coletiva e distribuição desigual de recursos como eletricidade e água".

Repudio inteiramente a política israelense na Palestina, reconhecendo igualmente abusos inaceitáveis do lado palestino. Mas, é indispensável em qualquer análise desse cenário não esquecer que o que se tem é a relação entre uma força de ocupação poderosíssima e prepotente, e um povo a que são intransigente e permanentemente negados pelos invasores todos os recursos políticos de um ambiente minimamente democrático.

No seu cerne, a posição brasileira contra Israel na presente Guerra de Gaza está política e humanitariamente correta. O que destoa e irrita na nossa manifestação, e a torna oportunista e tipicamente um jogo de cena eleitoreiro, é a absoluta falta de isonomia e coerência de tratamento do governo petralha de Dilma NPS com outros conflitos igualmente sangrentos, desumanos, com uso também desproporcional de poderio militar.

Ver também:

Livros escolares em Israel e na Palestina: ensinando as crianças a se odiarem
Como 'sionismo' virou um palavrão
Unesco reconhece o Estado palestino como membro pleno





domingo, 8 de junho de 2014

Como "sionismo" virou um palavrão

[O jornal israelense Haaretz ( "País", em hebraico), que se define como o jornal líder da imprensa mundial em inglês na Internet para notícias e análises online sobre Israel e o Oriente Médio, é um jornal de esquerda extremamente crítico sobre o governo e o país nos cenários doméstico e internacional. O artigo traduzido a seguir -- publicado em 05/5 -- é de autoria de Uzi Baram, um ex-político judeu que foi membro do parlamento de Israel, o Knesset ("assembleia", em hebraico), e foi ministro de Turismo e de Assuntos Internos de seu país. O dia 06 de maio é o Dia da Independência de Israel e, pela tradição judaica, começa a ser celebrado no por do sol da véspera, 05 de maio. O país comemora 66 anos de independência. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Como "Sionismo" se tornou um palavrão

Uzi Baram -- Haaretz, 05/5/2014

A combinação draconiana de religiosidade imperialista e nacionalismo extremista arrisca transformar Israel em um estado racista, o que não é motivo de celebração no Dia da Independência.

Recentemente li um artigo execrando o fato de, em todos os suplementos jornalísticos sobre o Dia da Independência, não se abordar o aliyah como um valor supremo e um dever nacional ["aliyah" é a imigração de judeus da diáspora para a Palestina e Israel -- também definido como "progredir rumo a Israel", é um dos dogmas básicos do sionismo, que é um movimento político e filosófico que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e a existência de um Estado nacional judaico independente e soberano no território onde historicamente existiu o antigo Reino de Israel (Eretz Israel)]. Eu poderia facilmente ter seguido adiante, mas algo nesse argumento me incomodava e comecei a analisar as transições que fiz nos últimos 20 anos.

No início de minha passagem pelo Knesset, atuei como presidente do Comitê sobre Imigração e Absorção. Lidei com refuseniks [termo oficioso para cidadãos tipicamente mas não exclusivamente judeus soviéticos, aos quais foi negado o direito de emigrar da União Soviética e de outros países do bloco oriental] e fiz discursos em Israel e no exterior sobre aliyah e Sionismo. Talvez fosse minha educação em minha casa em Jerusalém, na escola e no movimento juvenil que me fizesse adotar uma postura sionista clássica. Sem mencionar que eu ainda era uma pomba [pacifista] política pura, desprovido de nuances.

Hoje, a palavra "sionismo" só sai de minha boca em resposta a uma pergunta direta. Mas, persisti em minha autoanálise e percebi que não é apenas a palavra "sionismo".  Mesmo uma frase comumente aceita como "a pátria nacional judia" me deixa desconfortável hoje em dia. Anos atrás, penduraria uma bandeira israelense em minha sacada inebriado por um sentimento de algo realmente imperativo. E eu era um participante muito estudioso das cerimônias de acender tochas no monte Herzl no Dia da Independência. 

Minha rebelião contra os símbolos nacionais não aconteceu assim de repente, ou por uma decisão consciente. Muito pelo contrário, resultou de um processo gradual e em andamento.

Obviamente, eu mudei. Fiquei cínico e mais crítico em relação à retórica arengada por nossos líderes. Mas, estimulado pelo sentimento de que muitos outros haviam vivenciado uma metamorfose semelhante, continuei a refletir sobre isso e suas implicações.

Tão logo Sionismo se tornou uma figura de estilo/retórica do movimento direitista dos colonizadores [defensores e/ou participantes dos polêmicos assentamentos judeus na Palestina], tão logo desapropriação e ocupação receberam um selo sionista de aprovação, passei a horrorizar-me com o termo e com as implicações que carrega.

Isso não é algo pequeno. Termos como "judaísmo" e "pátria nacional" têm feito parte da linguagem dos líderes do movimento trabalhista por gerações, e algo traumático precisa ter acontecido para que um sionista como eu chegasse a esse tipo de sentimento. Quando o congressista Yariv Levin (do partido Likud) [likud = união, em hebraico -- o Likud é um partido conservador de direita de Israel] e seus partidários dizem que é necessária uma legislação para priorizar o judeu sobre o democrático, sinto que o judaísmo está oprimindo um valor que, para mim, é igualmente importante -- a democracia -- e sei quais são realmente as intenções secretas dos defensores dessa ideia.  Seu judaísmo é um judaísmo imperialista, que desdenha da minoria árabe que vive em Israel. E Avigdor Lieberman [ministro das Relações Exteriores de Israel], que não tem um uma motivação ou um background judaico-religioso, aberta e descaradamente dá seu apoio a isso.

Minha atitude está mudando não apenas em relação ao judaísmo e ao sionismo, mas também em relação ao Estado de Israel. Este é o meu país, e nada pode abalar isto. Mas, percebendo que Israel, como representado pelo governo, não quer genuinamente chegar à paz com o mundo árabe, decaiu meu respeito pelo governo e pelos tomadores de decisão, que mudaram a imagem de um país em busca da paz para a de um país coberto de medos, como retratado por nossos principais porta-vozes. 

Admito que acho que o crescente poder da religião e dos religiosos é uma causa para consternação. O sionismo surgiu de uma luta contra a ultra-ortodoxia e os "regimes de separação". Os primeiros pioneiros viram a si mesmos como sionistas e judeus lutando por estabelecer uma entidade nacional na Terra de Israel -- eles não viram a religião como um fator importante, e deram preferência a valores universais.

É verdade que a composição da população e a atitude tradicional dos judeus mizrahi (judeus de descendência do Oriente Médio) deram um impulso à religiosidade de Israel, e como um democrata tenho que começar a aceitar e lidar com a maneira como a sociedade mudou no fronte religioso. Mas, a combinação draconiana de religiosidade imperialista com nacionalismo extremista significa que Israel é passível de caminhar para um racismo severo, ao qual alguns rabinos sempre darão seu selo de aprovação. 

Não é de admirar que eu sinta essa regressão em relação aos principais símbolos nacionais. A interpretação que lhes está sendo dada me contraria e transtorna profundamente, e não é algo que eu possa simplesmente aceitar.



Uzi Baram - (Foto: Haaretz)


sábado, 9 de fevereiro de 2013

Livros escolares em Israel e na Palestina: ensinando as crianças a se odiarem

[O texto abaixo, que traduzi do site da revista The Economist, mostra mais uma triste e extremamente deplorável faceta da disputa entre judeus e palestinos: a inoculação consciente do ódio entre suas crianças. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

O que deveria fazer Israel em relação a um relatório que afirma que judeus e palestinos negam legitimidade uns aos outros? Declarar ilegítimo o relatório, é a resposta israelense.  Soando mais ameno, Salam Fayyad, o primeiro-ministro palestino, pediu ajuda para melhorar o currículo.

"Calúnia intencional", bradaram no gabinete de Binyamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelense, quando um estudo financiado pelo governo americano de comparação entre livros escolares judeus e palestinos concluiu que eles semeavam estereótipos negativos das populações do outro país. Depois de não conseguir eliminar o relatório, autoridades israelenses tentaram retardar sua publicação. Uma reunião solicitada pelos autores do estudo e pelo advogado do ministério nunca se materializou. Um vice-primeiro-ministro e ex-chefe das forças armadas de Israel expressou sua irritação pelo fato dos judeus estarem sendo avaliados com o mesmo padrão usado para os palestinos: "Nós ensinamos a paz, eles ensinam a guerra", disse seu porta-voz. [O nome não é explicitado, mas o autor dessas sandices blasfêmicas só pode ser Ehud Barak.]

O relatório diz que professores israelenses e palestinos descrevem seus vizinhos como inimigos, embora os israelenses o façam consideravelmente menos [?! -- é bom não esquecer que o estudo foi financiado pelo governo americano e lembrar da força do lobby judeu nos EUA].  Após percorrer com dificuldade cerca de 30.000 páginas de texto, os pesquisadores concluíram que 49% deles envolvendo palestinos em livros escolares israelenses editados pelo governo são negativos; em estabelecimentos judeus ortodoxos financiados pelo governo esse número sobe para 73%. Um desses livros de texto descreve os árabes como "sedentos de sangue" e "um ninho de assassinos".  [Que grande mentiroso o tal de Ehud, hem?!]

Nos livros escolares palestinos, 84% das referências a judeus são negativas. Tanto nas escolas estatais judias como nas palestinas os livros promovem o "sacrifício do martírio através da morte". Cada lado se autoglorifica, denegrindo o outro.

Além disso, os livros-textos escolares de um lado tendem a negar a existência do outro. De 800 mapas de suas terras contestadas analisados pelos pesquisadores, 87% dos mapas israelenses não marcam nenhum território entre o mar Mediterrâneo e o rio Jordão como sendo palestino, enquanto 96% dos mapas palestinos não mencionam Israel.  "Os mapas escolares israelenses alimentam a versão palestina de que os judeus querem se apossar de mais e mais territórios, e os mapas escolares palestinos alimentam a versão israelense de que os palestinos querem jogar os judeus no mar", diz Bruce Wexler, o professor de Yale que supervisionou o estudo. Detratores israelenses do relatório criticaram severamente o Conselho de Instituições Religiosas da Terra Santa, uma associação de rabinos locais, que contratou Wexler, um judeu americano. [Não é nada fácil entender a "democracia" de Israel.]

[O site Jewlicious dá detalhes importantes do estudo e de seus desdobramentos omitidos no texto acima da The Economist. Ele informa, por exemplo, que o Rabinato Principal Israelense (Israeli Chief Rabbinate), que tem representação no Conselho de Instituições Religiosas e inicialmente endossou o estudo dos livros-textos escolares, emitiu uma declaração dissociando-se de suas conclusões apontando o que chamou de "sérias falhas metodológicas". Dois israelenses em um grupo científico consultor de 19 membros, que incluía especialistas internacionais em análise de livros-textos, também discordaram das conclusões do estudo. Leituras adicionais que sugiro:

* Depiction of Israel in Palestinian textbooks

* New Palestinian schoolboks

* Maps in Jordan’s children textbooks mark Israel, ignore Palestine

* Schoolbooks ingrain Israeli-Palestinian enmity: U.S.-funded study

* UK textbook wipes Israel off the map  (este texto é imperdível!)]

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Israel aprova plano para 2.600 novas casas em Jerusalém oriental

[A notícia abaixo, publicada no jornal israelense Haaretz de hoje, apenas confirma que muitas gerações passarão antes que judeus e palestinos acertem um convívio civilizado entre si.]

O Comitê de Planejamento e Construção Distrital de Jerusalém aprovou nesta quarta-feira um projeto de porte para a construção de uma nova área residencial judia no sul da cidade, próximo à Linha Verde [Green Line -- denominação dada ao conjunto de linhas de demarcação estabelecidas nos Acordos de Armistício de 1949 entre Israel e seus vizinhos (Egito, Jordânia, Líbano e Síria), conforme mapa abaixo -- clique na imagem para ampliá-la.]

A Linha Verde (Green Line) é a linha pontilhada em azul no mapa acima - (Fonte: Google). 


Mais de 2.600 unidades residenciais estão planejadas para serem construídas no novo bairro de Givat Hamatos, local de casas móveis que tinham sido usadas para abrigar imigrantes etíopes. O local fica próximo de Har Homa, que gerou controvérsia quando Benjamin Netanyahu aprovou sua construção em 1997, durante seu primeiro mandato como primeiro-ministro. Embora esteja no sul da cidade, a área é considerada como Jerusalém oriental por estar praticamente sobre a Green Line.

O bairro de Har Homa, em Jerusalém sul - (Foto: Olivier Fitoussi).

O comitê estava programado para, na terça-feira, discutir outro projeto para 900 novas casas na mesma área, mas houve adiamento. Na terça-feira, foi aprovado também um plano para a construção de centenas de casas para residentes árabes de Beit Safafa, em Jerusalém. Palestinos e ativistas israelenses de esquerda alegam que o objetivo desse projeto é juntar a área árabe com um bairro judeu, e assim tornar mais difícil uma divisão da cidade no futuro.

A aprovação para o projeto de Givat Hamatos ocorre apenas dois dias depois que um subgrupo do comitê deu seu sinal verde preliminar a um plano para a construção de 1.500 unidades residenciais no bairro de Ramat Shlomo, em Jerusalém oriental.  Ambos esses anúncios foram feitos apenas duas semanas depois de Israel ter declarado sua intenção de construir 3.000 novas unidades residenciais em Jerusalém oriental e na Margem Esquerda, provocando a ira da comunidade internacional.

A aprovação para a expansão de Ramat Shlomo foi dada em março de 2010, durante uma visita do vice-presidente americano Joe Biden. Isso deflagrou uma crise diplomática sem precedentes entre Washington e Jerusalém e, como consequência o plano, juntamente com outros projetos adicionais de construções em Jerusalém oriental, foi suspenso. Israel depois acelerou o processo, em retaliação à decisão da ONU no mês passado de aceitar a Palestina como um Estado observador não-membro, e anunciou seus planos para construir as 3.000 residências adicionais em vários assentamentos. Na esteira do voto da ONU, Israel planejou também dar seguimento a um projeto há longo tempo congelado para a área E1, que cobre uma área que une a cidade de Jerusalém com o assentamento de Ma'aleh Adumim. [Além da atitude de descaso e desafio para com a comunidade internacional, Israel está nitidamente, como dito acima, criando uma situação que tornará extremamente difícil qualquer divisão futura de Jerusalém.]

Em uma crítica rara e inusitadamente dura ao seu aliado no Oriente Médio, o Departamento de Estado americano na terça-feira acusou Israel de se engajar em um "padrão de ação provocadora", que vai contra declarações  de líderes israelenses de que estão comprometidos com a paz. "Estamos profundamente desapontados com a atitude de Israel de insistir nesse padrão de ação provocadora", disse a porta-voz do Departamento Victoria Nuland. "Esses reiterados anúncios e planos de novas construções conspiram contra a causa da paz. Os líderes de Israel dizem continuamente que apoiam um caminho rumo a uma solução de dois Estados, entretanto tais ações só fazem expor esse objetivo a mais riscos".  Esses comentários duros foram feitos depois que Benjamin Netanyahu prometeu solenemente dar continuidade às construções em Jerusalém oriental, em resposta à crítica internacional.

Mais cedo na terça-feira, era esperado que os membros europeus do Conselho de Segurança da ONU -- Reino Unido, França, Alemanha e Portugal -- emitissem um comunicado conjunto condenando a decisão do governo israelense de expandir as construções.

Um funcionário do gabinete do primeiro-ministro esclareceu na segunda-feira que a decisão de construir em Ramat Shlomo não representava planos novos de construção, mas na realidade um novo estágio de um projeto existente. "Essas não são novas casas", disse ele. "A intenção de construí-las foi publicada anos atrás, e o que aconteceu hoje foi apenas uma discussão sobre objeções ao plano. Isso é apenas um outro estágio de planejamento, não o início de construção".  [Sem comentários.]

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Foguete palestino atinge Tel Aviv

A troca de bombardeios entre militantes do Hamas e militantes palestinos ameaça a maior região metropolitana de Israel. Segundo o jornal local “Haaretz”, um foguete palestino atingiu nesta quinta-feira a cidade de Holon, que fica na região sul do Distrito de Tel Aviv. Apesar de relatos de diversos moradores sobre uma explosão, o Exército israelense negou a informação e disse que o míssil teria caído no mar, em um local próximo à cidade. Sirenes tocaram pela primeira vez na região desde a Guerra do Golfo, em 1991, e funcionários da sede do Ministério da Defesa foram retirados por alguns momentos ou levados para áreas de segurança.

Segundo o diário "Yedioth", o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu estava no prédio no momento e teve que se esconder em um bunker. Até o momento, não houve registro de danos ou feridos. Mais cedo, outros dois foguetes atingiram um campo aberto na cidade Rishon leTzion, a 12 quilômetros do sul de Tel Aviv. O grupo Jihad Islâmica reivindicou os ataques, de acordo com o “Haaretz”.

É o segundo dia da intensa ofensiva militar israelense contra alvos do Hamas e da Jihad Islâmica na Faixa de Gaza, enquanto militantes responderam com mais de 200 bombardeios desde quarta-feira. No sul de Israel, três pessoas foram mortas após um edifício de quatro andares ser atingido por um foguete na cidade de Kiryat Malachi, a 25 quilômetros ao norte de Gaza. Do lado palestino, foram registradas 15 mortes, incluindo a de um bebê filho de um cinegrafista da BBC e a do chefe do braço militar do Hamas, Ahmed Jabari. O Exército israelense também divulgou imagens no YouTube com ataques desta quinta e anunciou a convocação de pelo menos 30 mil reservistas.

Em meio à escalada de tensões, o corpo de Jabari foi velado em seu funeral. Dezenas de pessoas compareceram à cerimônia, que foi protegida por homens fortemente armados. O comandante estava enrolado em um lençol branco - manchado de sangue - e uma bandeira palestina enquanto era levado pela multidão. O som de bombardeios israelenses nas proximidades chegou a assustar algumas pessoas, que continuaram a marcha.

O Exército de Israel atacou mais de 100 alvos palestinos desde a tarde de quarta-feira, quando a morte de Jabari, o poderoso chefe da ala militar do Hamas, foi anunciada junto ao início da operação "Cortina de Fumaça". O grupo islâmico declarou estado de emergência na Faixa de Gaza. O mesmo fez o governo israelense em relação ao sul do país: autoridades continuam a exortar a população para que todos sigam as orientações dos militares e não se envolvam no conflito.

No sul de Israel, onde vivem mais de 1 milhão de pessoas, o clima também é de tensão. O governo declarou estado de emergência e pediu que moradores permanecessem em casa, enquanto aulas de escolas da região foram canceladas. A maior parte do comércio está fechada e patrulhas da polícia israelense rondam as cidades.

A correspondente do jornal britânico “Guardian” na região disse em seu perfil no Twitter (@Harriet Sherwood) que há rumores preocupantes de militantes do Hamas não estão permitindo a saída de estrangeiros da Faixa de Gaza. Ela especula se os militantes poderiam estar planejando usar os visitantes para se protegerem de possíveis ataques mais severos de Israel.

Egito e Qatar condenam Israel; EUA e Reino Unido criticam Hamas

No segundo dia de troca de ataques entre Israel e o Hamas, o presidente egípcio Mohamed Mursi, disse que os bombardeios israelenses são inaceitáveis e podem prejudicar a estabilidade da região. Em entrevista a uma TV egípcia, o líder - que pertence a coalizão Irmandade Muçulmana - acrescentou está em contato com os palestinos e que não vai deixar de apoiá-los. "Nós estamos em contato com a população em Gaza e com os palestinos e nós vamos continuar dando-lhes nosso apoio até que essas agressões acabem. Nós não aceitamos, sob qualquer circunstância, a continuidade desses ataques na Faixa de Gaza".

Mursi também disse que falou com o presidente americano Barack Obama pelo telefone nesta quinta-feira. Segundo ele, os dois discutiram meios de alcançar “um fim pacífico para as agressões”. Na quarta-feira, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Mark Toner, acusou os palestinos de lançarem foguetes em território israelense e defendeu o direito do aliado de se defender. Na mesma linha, o ministro do Exterior do Reino Unido, William Hague, emitiu nesta quinta-feira uma nota pedindo que o Hamas pare imediatamente com os ataques a Israel e acusando os militantes criar uma “situação insuportável” para os moradores do sul-israelense e para os próprios civis palestinos. "Hamas e outros grupos armados devem parar imediatamente com os ataques. Eu peço que aqueles que exerçam influência na região para que usem seu poder e deem fim aos ataques", disse.
 
Já o Qatar condenou veementemente os ataques israelenses e disse que o país não pode sair impune dos atentados contra os palestinos. Segundo o primeiro-ministro Hamad bin Jassem al-Thani, o Conselho de Segurança da ONU deveria “assumir a responsabilidade de proteger o mundo” e tomar alguma atitude. "Os ataques não podem passar sem serem punidos. O Conselho de Segurança da ONU deve assumir a responsabilidade de assegurar a paz no mundo. Nós rejeitamos o extremismo e o terrorismo, mas ataques tão irresponsáveis e sem justificativa deveriam ser condenados pelo mundo", defendeu.  Com a declaração, o Qatar se une ao grupo de Egito, Iran, Jordânia e Síria que condenou as investidas israelenses na quarta-feira.

Sistema de defesa israelense é acionado para interceptar míssil palestino - (Foto: Tsafrir Abayov/AP).

Foguetes do sistema de defesa de Israel lançados sobre a Faixa de Gaza a partir da cidade de Be'er Sheva, no sul de Israel - (Foto: AFP).










terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Plano israelense para deslocar beduínos da margem esquerda gera controvérsia

Um plano das autoridades israelenses para transferir cerca de 2.000 beduínos palestinos que vivem nas colinas do deserto ao leste de Jerusalém está causando preocupações entre funcionários da ONU e defensores de direitos humanos, quanto aos objetivos de Israel em uma área estratégica da Margem Esquerda [do rio Jordão].

As colinas estão pontilhadas com mais de 20 acampamentos de beduínos, antigos pastores de cabras e ovelhas que migraram da região do [deserto de] Negev no sul de Israel para a Margem Esquerda no início dos anos 1950s. Suas aldeias, formadas de grupos de barracos de metal e madeira cobertos de plástico, são visíveis das estradas que cruzam a área.  Esses grupos de beduínos estão próximos da cidade-assentamento israelense de Maaleh Adumim, uma comunidade de 40.000 pessoas que vem se expandindo na região e busca fazê-lo em uma área que a ligaria a Jerusalém e, efetivamente, criaria uma cunha entre centros populacionais palestinos no norte e no sul da Margem Esquerda.

A área da expansão planejada, conhecida como E-1, já possui um grande posto policial israelense e uma importante estrada, com iluminação e infraestrutura para suprimento elétrico. Entretanto, uma firme oposição de Washington, estimulada por receios de que o projeto possa prejudicar as perspectivas de um Estado palestino territorialmente contíguo a essa área, fizeram as autoridades israelenses recuar da ideia de permitir construções na área contestada.

O plano para deslocar os beduínos, muitos dos quais vivem na zona E-1 ou nos seus arredores, gerou manifestações de agências da ONU e de grupos [defensores] de direitos humanos israelenses e estrangeiros, que dizem que essa medida violaria leis internacionais e poderia preparar o terreno para expansão de assentamento em uma área politicamente sensível. Os beduínos próximos a Maaleh Adumim vivem em parte da área C, que corresponde a mais de 60% da Margem Esquerda e está sob controle direto de Israel, e ali as construções palestinas são severamente limitadas. As autoridades israelenses dizem que os acampamentos dos beduínos foram construídos ilegalmente. Foram emitidas ordens de demolição para várias estruturas, outras foram demolidas.

O major Guy Inbar, porta-voz do departamento do ministério de Defesa israelense responsável pela Margem Esquerda, admitiu que já existe há anos um plano para desalojar os beduínos de Maaleh Adumim. Disse que era parte de um plano detalhado mais amplo, destinado a prover os beduínos ao longo da Margem Esquerda com locais onde podem construirlegalmente, com acesso a água, energia elétrica e serviços do governo [será mesmo?]. Disse ele ainda que esse plano está em seus estágios preliminares, acrescentando que ele não será executado enquanto não forem concluídos estudos de viabilidade e não forem realizadas conversações com líderes tribais beduínos, um processo que, segundo ele, pode levar meses para ser finalizado.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Palestinos dizem ser alvo de hackers

Hackers atacaram serviços de internet palestinos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza nesta terça-feira, 1º, disse o ministro das Telecomunicações palestino, acusando um governo estrangeiro de estar por trás da interferência. “Todos os endereços IP palestinos foram expostos a um ataque concentrado e organizado do exterior”, afirmou Mashour Abu Daqqa à Reuters. “Acho que isso é organizado por um Estado. Essa é a minha predição”, afirmou ele.

Abu Daqqa contou que técnicos da empresa de telecomunicações Paltel, provedora de serviços de internet, estão trabalhando para resolver o problema, que também impede que os usuários visitem sites estrangeiros. Eles identificaram servidores falsos por trás da interrupção, acrescentou ele. “Está entre lento e totalmente parado”, afirmou Ghassan Khatib, porta-voz da Administração Palestina, em Ramallah.

Em outra declaração à agência de notícias palestina Wafa, Abu Daqqa afirmou que o ataque estava relacionado à admissão dos palestinos pela Organização Educacional, Científica e Cultural das Nações Unidas (Unesco) na segunda-feira, um sucesso diplomático para os palestinos e uma medida à qual Israel se opôs.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Unesco reconhece o Estado palestino como membro pleno

A Conferência Geral da Unesco aprovou nesta segunda-feira, 31, a admissão da Autoridade Palestina (AP) como membro de pleno direito do órgão. A votação, realizada em Paris, contou 107 votos a favor, 14 contra e 49 abstenções, tendo como resultado a adesão do Estado palestino à entidade ligada à Organização das Nações Unidas (ONU).

Vários países latino-americanos, entre eles o Brasil, e potências emergentes, como China e Índia, se posicionaram de forma favorável ao ingresso do Estado palestino à Unesco - braço da ONU voltado para a Educação, Ciência e Cultura. Contrários ao ingresso estão nações como Estados Unidos, Alemanha e Canadá.

A Unesco é a primeira agência da ONU a reconhecer o Estado palestino. Em setembro, o presidente da AP, Mahmoud Abbas, levou o pedido de adesão ao secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, que entregou o documento ao Conselho de Segurança - órgão máximo do organismo internacional que ainda avalia o processo. O ingresso é uma vitória dos palestinos e pode pressionar os membros do Conselho de Segurança na decisão sobre o reconhecimento do Estado palestino, o objetivo maior da empreitada da AP nas Nações Unidas.

Diplomatas palestinos garantem que não deverão limitar à Unesco sua ofensiva diplomática. Nas próximas semanas, eles prometem solicitar a adesão palestina a entidades como a Organização Mundial de Propriedade Intelectual, a Unctad, a Organização da ONU para o Desenvolvimento Industrial, a Organização Mundial da Saúde e a União Internacional de Telecomunicações, todas em Genebra, além do Tribunal Penal Internacional.

Os Estados Unidos, que se opõem abertamente à empreitada, ameaçaram cortar as doações à Unesco caso o Estado palestino fosse reconhecido. Washington, membro permanente e com poder de veto no Conselho de Segurança, promete barrar a adesão. [Os EUA mantêm assim sua coerência esdrúxula, como eternos reféns do lobby judeu em questões de Oriente Médio e, particularmente, da Palestina. O ingresso dos palestinos na Unesco é, a meu ver, um passo correto e justo na caminhada que se afigura árdua até à criação do Estado palestino. Sobre a posição do Conselho de Segurança da ONU em relação a isso, vejam minha postagem recente.]

domingo, 30 de outubro de 2011

A lição que os palestinos aprenderam na ONU

 Com o título "You were expecting statehood?" ("Vocês esperavam tornar-se um Estado?", em tradução livre), a revista Newsweek de 03/10 publicou um interessante artigo de Niall Ferguson sobre o pedido da Palestina para ser aceita como membro pleno da ONU, que revela certos detalhes dos bastidores da criação da ONU que nem sempre estão facilmente disponíveis na mídia (no site da revista o artigo está com data de 25/9).

O pleito do líder palestino Mahmoud Abbas para que a Palestina fosse reconhecida e aceita como membro pleno da ONU já estava liquidado, sem chance, quando Abbas chegou a Nova Iorque. Então, por que preocupar-se até mesmo em levantar esse tema? A resposta: agregar apoio internacional ao pedido palestino. No entanto, outros povos derrotados sofreram muito mais do que eles [palestinos]. Basta apenas lembrar como -- e a que preço -- a própria ONU começou.

Nascida na nevoenta e agradável cidade de S. Francisco, a ONU foi concebida no balneário ucraniano de Yalta. Embora aninhada entre as colinas verdes da Crimeia e lambida pelas ondas preguiçosas do Mar Negro, a cidade estava severamente marcada com cicatrizes da guerra em fevereiro de 1945 -- Winston Churchill a havia apelidado de "a Riviera de Hades". - [Hades, filho de Cronos (Saturno, na mitologia romana) e Reia, era o senhor das profundezas da Terra e dos seres das sombras, do inferno]. Seu diabólico senhor era o déspota Joseph Stalin, que foi o anfitrião de Churchill e do combalido presidente americano Franklin Roosevelt.

Dos Três Grandes, como Sergei Plokhy mostra em seu instigante estudo Yalta: The Price of Peace (Yalta: O Preço da Paz), apenas Roosevelt acreditava realmente no sonho de um parlamento mundial, [isto me soa como bairrismo; o autor é diretor adjunto do Centro Peter Jacyk para Pesquisa Histórica Ucraniana no Instituto Canadense de Estudos Ucranianos, da Universidade de Alberta] -- e mesmo ele sabia que a ONU teria que dar às grandes potências um peso maior do que havia sido dado por sua desastrada predecessora, a Liga das Nações. Assim, foi Roosevelt quem propôs um Conselho de Segurança (CS) no qual os vencedores da guerra -- mais França e China -- teriam representação permanente e poder de veto. -- [Fica, assim, identificado o pai do CS, uma instituição talvez compreensível e aceitável na época, mas hoje uma verdadeira aberração. A inclusão da China no rol das grandes potências, há 56 anos atrás, foi um belo exercício de futurologia].

Churchill e Stalin foram realistas. Viram o mundo pós-guerra em termos de "esferas de influência". Embora perfeitamente capaz desse realismo na prática, Roosevelt ansiava ainda por um mundo ideal de paz baseado na segurança coletiva. No entanto, Churchill relutava fortemente em aceitar que a esfera de influência de Stalin incluísse a Polônia. Seu antecessor havia concordado com a destruição da Tchecoslováquia em Munique, mas tinha ido à guerra quando Hitler (e Stalin) dividiram a Polônia entre eles [alemães e soviéticos]. Era Yalta a Munique da Polônia?

"Não podemos concordar", resmungou Churchill, "que a Polônia seja um simples estado fantoche da Rússia, em que as pessoas que não concordam com Stalin sejam eliminadas". Mas, foi nisso exatamente que a Polônia pós-guerra se tornou.

Assombrosos 19% da população polonesa de antes da guerra foram mortos como consequência da Segunda Guerra Mundial, incluindo uma expressiva proporção da grande população judia do país. Yalta infligiu à Polônia um castigo adicional. O país não apenas encolheu, mas foi deslocado para o oeste de modo que Stalin pudesse manter seus ganhos decorrentes do pacto nazi-soviético de 1939. E a Polônia tornou-se um estado vassalo dos soviéticos pelo meio século seguinte.

Após Yalta, jogadores de xadrez inventaram uma variante de seu jogo para três jogadores, usando um tabuleiro de seis lados. Como na conferência, no jogo "Yalta" dois jogadores podem unir forças contra o terceiro, mas todas essas alianças são temporárias. -- Resumidamente, Churchill conseguiu ter Roosevelt do seu lado com relação à Polônia, mas os americanos importavam-se mais em lograr que Stalin concordasse em juntar-se à ONU -- a Polônia foi um peão a ser sacrificado.

Tendo conseguido o que queria, Roosevelt deixou logo Yalta. Seu destino? O Oriente Médio, que ele pretendia juntar ... à esfera de influência americana. Os compromissos conflitantes que assumiu nessa viagem -- com árabes e judeus -- têm desde então atormentado a política externa dos EUA. Perguntado por Roosevelt se era um sionista, Stalin respondeu elusivamente que "em princípio sim, mas reconhecia a dificuldade [disso]".

Aquela "dificuldade" persiste, no sentido de que um Estado judeu poderia ser criado apenas às custas de não-judeus vivendo na Palestina. Os árabes resistiram à criação de Israel, mas foram derrotados. E assim continua. Uma viagem a Yalta permite um salutar lembrete de que, ao longo da história, aqueles que perdem uma guerra geralmente perdem terra também e, algumas vezes, junto com ela a soberania. Em comparação com o que os poloneses sofreram no século passado, os palestinos escaparam de maneira branda. [Esta me parece uma afirmativa lamentável e perfeitamente dispensável, embora retrate uma dura realidade].

Os palestinos acabarão conseguindo ter seu próprio Estado. Mas, não até que os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU estejam convencidos de que eles não abusarão dos privilégios de ser um Estado. Goste-se ou não, foi assim que a ONU foi pensada para funcionar quando os Três Grandes a conceberam na Riviera do Inferno.

Mahmoud Abbas (Foto: Andrew Burton).

Niall Ferguson, autor do artigo traduzido acima, é professor de História na universidade de Harvard (Foto:site biográfico citado).