Mostrando postagens com marcador Brics. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brics. Mostrar todas as postagens

sábado, 20 de abril de 2013

Dívida pública e crescimento econômico -- o erro na planilha Excel e a polêmica dos 90%

[O artigo traduzido abaixo foi publicado hoje pela revista The Economist.  O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. Essa é uma dessas histórias que seria cômica, não fosse seu lado trágico. Simplesmente um parâmetro ampla e intensamente utilizado nos EUA e na União Europeia (UE) para justificar medidas de austeridade pesadíssimas a partir do início de 2010 -- o valor limite de 90% para a relação "dívida pública/PIB" -- é fortemente questionado e, de certa maneira, até ridicularizado, por um erro numa planilha Excel!...]

Nível de endividamento de governo tem importância.  Não honrar a dívida e pânico financeiro são a matéria-prima dos pesadelos dos ministros de Finanças. Empréstimos tomados pelo governo [= dívida pública] podem afastar o investimento privado, arrastando o crescimento para baixo. Mas, ao mesmo tempo, economistas têm se esforçado para especificar quando é que um país precisa se preocupar com sua dívida. Em um artigo de 2010, Carmen Reinhart, hoje professora na Escola Kennedy de Harvard, e Kenneth Rogoff, um economista da Universidade de Harvard, pareciam ter encontrado uma resposta para essa questão. Seu argumento era de que o crescimento do PIB reduz-se ao passo de uma lesma quando o nível da dívida pública excede 90% do PIB. [Ver aqui o artigo citado.]

A figura dos 90% transformou-se rapidamente em munição em discussões políticas sobre austeridade. Paul Ryan, um congressista republicano, citou a "evidência empírica conclusiva" [de Reinhart & Rogoff] em um programa orçamentário que demandava cortes expressivos nos gastos públicos americanos. Em uma carta para os ministros de Finanças da União Europeia em fevereiro, Olli Rehn, vice-presidente da Comissão Europeia, fez uso do "amplamente reconhecido" limite de 90% como uma razão para pressionar pela continuidade dos cortes fiscais europeus. Esses tipos de retórica ajudaram a fazer com que o número de Reinhart-Rogoff se tornasse o tema de uma disputa áspera e implacável. E, nesta semana, um trabalho de pesquisa novo jogou lenha na fogueira ao questionar essa figura dos 90%.

O cálculo de 2010 foi relativamente simples. Os autores [Reinart & Rogoff] já haviam se valido de dois séculos de dados de dívida pública para sua proficiente história financeira publicada em 2009, "This Time is Different" [base do livro dos mesmos autores. "This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly" - "Desta vez é Diferente: Oito Séculos de Loucuras ("folly" pode ser também "asneira") Financeiras", em tradução livre].  Em seu artigo, Reinhart e Rogoff dividiram os números em quatro categorias de endividamento e tomaram as taxas médias de crescimento para cada um deles. Verificaram que a dívida pública tinha pouco efeito sobre as taxas de crescimento até que ela atingisse 90% do PIB. Nesse patamar as taxas de crescimento caíam então bruscamente.  Ao longo de toda a amostragem de dois séculos (de 1790 a 2009),  o crescimento médio afundava de mais de 3% ao ano para apenas 1,7% tão logo a dívida ultrapassasse aquele nível crítico. Numa amostragem menor no pós-guerra, o declínio é mais dramático -- o crescimento médio cai de cerca de 3% para -0,1% depois que o patamar dos 90% do PIB é alcançado.

A intensidade desse ponto de inflexão atraiu muita atenção.  No jargão econômico, a relação dívida-crescimento não era "linear", com as taxas de crescimento decrescendo regular e gradualmente à medida que a tomada de empréstimo [a dívida] aumentasse. Em vez disso, a dívida parece benigna até que um ponto crítico seja alcançado e, a partir de então, deixa de sê-lo. Os autores concluíram que, ultrapassado o limiar dos 90%, as percepções de risco pelo mercado podem sofrer um salto. Isso poderia traduzir-se em taxas de juros crescentes ou em estresse do mercado financeiro, forçando escolhas duras: austeridade, inflação ou default (não-pagamento).

O artigo novo, por Thomas Herndon, Michael Ash e Robert Pollin da Universidade de Massachusetts, Amherst [ver aqui], procurou reproduzir os resultados de Reinhart & Rogoff (R&R) para o período pós-guerra. Os autores consideram que erros na análise feita induziram R&R a subestimar o crescimento médio com níveis de dívida altos. Um erro de código em sua planilha Excel eliminou vários países do conjunto de dados. Dados de pós-guerra de vários anos críticos da Nova Zelândia foram deixados de fora, omitindo assim um período em que tanto o nível da dívida quanto a taxa de crescimento do país eram elevados.  E os autores consideram que o método de R&R para calcular crescimento médio atribuiu peso exagerado para dados não representativos (incluindo um ano de dados extremamente ruins da Nova Zelândia). Com isso, os autores do novo artigo avaliam que o crescimento médio pós-guerra acima do patamar de 90% deveria ter sido informado como de 2,2% e não -0,1% (ver figura).

Discrepância e discordância - Crescimento médio anual do PIB (para 20 economias avançadas), em função do nível de dívida em percentual do PIB - (mean = média; median = mediana) - Fonte: "Dívida pública elevada coíbe coerentemente o crescimento econômico? Uma crítica a Reinhart e Rogoff", por Thomas Herndon, Michael Ash e Robert Pollin, abril de 2013. - (Gráfico: The Economist).

Esse novo artigo gerou falatório em Washington, onde estrategistas se juntaram nesta semana para as reuniões anuais de primavera do FMI e do Banco Mundial. Ainda assim, há menos discrepância entre os dois estudos do que se possa imaginar.  Em uma resposta ao artigo de Herndon, Ash e Pollin, R&R reconheceram o erro de código [na planilha Excel]. Eles também atribuíram a aparente "ausência" de dados ao fato de que seu conjunto de dados é um trabalho em andamento. Por exemplo, atualizações de sua análise publicadas no final de 2010 e em 2012 incorporam números recentemente incluídos.

O mais importante é que R&R indicam que na sua análise não enfatizaram nenhum número em particular, mas usaram vários cálculos de maneira consistente. Eles calcularam a média tanto para o período pós-guerra quanto para o intervalo de dois séculos. Eles também apresentaram taxas "medianas" de crescimento de um lado e outro do patamar limite, assim como taxas médias. Em seu artigo de 2010, a mediana da taxa de crescimento acima do limite de 90% é de 1,9% durante o período 1790-2009 e de 1,6% no período pós-guerra -- R&R argumentam que esses números estão na mesma faixa de valor dos números de Herndon, Ash e Pollin.

Ambos os grupos de autores identificaram uma relação negativa entre dívida e crescimento. Mas, enquanto o trabalho de R&R indica um "tranco" súbito no crescimento quando uma vez a dívida atinja um certo nível, seus críticos [Herndon, Ash e Pollin] avaliam que as taxas de crescimento simplesmente decrescem suavemente. Para evidenciar seu ponto de vista, estes últimos dividiram os países com relação dívida/PIB acima de 90% em duas subcategorias: os que estavam abaixo de 120% do PIB e os que estavam acima desse valor. O crescimento médio no intervalo 90-120% é de 2,4%. Para países com dívida acima de 120% do PIB, o crescimento afunda para 1,6%. Isso faz a relação parecer linear.

Conclusões categóricas sobre limites ou limiares são enganosas ou evasivas. Um artigo de 2010 do FMI conclui por "alguma evidência" de um limite de 90%; um estudo de 2011 do Bank for International Settlements (Banco para Liquidações Internacionais) identifica um limite de 85%. Mas, outra análise do FMI publicada em 2012 concluiu que "não há limite específico que, consistentemente, preceda um desempenho de crescimento abaixo do par" ["sub-par" em inglês é algo que está abaixo do nível de qualidade, desempenho, etc, esperado -- ou, também, algo que está abaixo do valor normal ou médio]. Os custos de um crescimento mesmo que moderadamente mais lento podem, entretanto, se acumular -- R&R alertam que a pendência sobre dívida média já dura mais de 20 anos.

Essa ruidosa disputa mais recente não ajuda em nada para encontrar a resposta à questão sobre as causas do problema.  Crescimento mais lento do PIB pode ser mais a causa do que o resultado de uma dívida crescente. Em seu trabalho acadêmico R&R reconhecem que esse enigma "não foi completamente solucionado", mas algumas vezes têm sido menos cuidadosos em artigos na mídia. Este, talvez, seja seu erro maior. A relação entre dívida e crescimento é um tema carregado de conteúdo político. É nessas áreas que os economistas têm que se manter nos padrões os mais rigorosos.

Fontes

- "Growth in a time of debt", Carmen Reinhart and Kenneth Rogoff, NBER Working Paper 15639, January 2010.

- "Does high public debt consistently stifle economic growth? A critique of Reinhart and Rogoff", Thomas Herndon, Michael Ash, and Robert Pollin, PERI Working Paper 322, April 2013.

- "Growth in a time of debt", Carmen Reinhart and Kenneth Rogoff, American Economic Review, May 2010.

- "Public debt overhangs: advanced-economy episodes since 1800", Carmen Reinhart, Vincent Reinhart, and Kenneth Rogoff,Journal of Economic Perspectives, Summer 2012.

- "Public debt and growth", Manmohan Kumar and Jaejoon Woo, IMF Working Paper, July 2010.

- "The real effects of debt", Stephen Cecchetti, Madhusudan Mohanty, and Fabrizio Zampolli, BIS Working Paper 352, September 2011.

- "The good, the bad, and the ugly: 100 years of dealing with public debt overhangs", IMF World Economic Outlook, Chapter 3, October 2012.

[O artigo "Shocking Paper Claims That Microsoft Excel Coding Error Is Behind The Reinhart-Rogoff Study On Debt", de Mike Konczal, mostra um trecho da planilha Excel do artigo de R&R -- nele se pode ver, na área em azul, os dados em falta nos cálculos dos autores:


Como diz Konczal, somente com esse erro é possível obter os resultados publicados por R&R, e isso contribui grandemente para explicar porque tem sido impossível para outros estudiosos reproduzir aqueles resultados. Se esse erro configurar-se como tendo sido realmente feito pr R&R, tudo que espero (diz Konczal) é que historiadores futuros registrem que um dos pontos empíricos centrais para prover a base intelectual para o movimento global rumo à austeridade no início dos anos 2010 baseou-se no fato de que alguém acidentalmente não atualizou a fórmula em uma linha de uma planilha em Excel.]

Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart são economistas da Universidade de Harvard - (Foto: Bloomberg).


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Mapa-múndi do PIB do planeta em 2013, segundo o FMI

A previsão de crescimento econômico do Ocidente é sombria, de acordo com a mais recente Previsão Econômica Mundial do FMI ("Esperanças, Realidades, Riscos" - Abril de 2013), divulgada em 16 de abril corrente. A produção mundial é esperada crescer apenas em 3% em 2013, mas com os países ricos na retaguarda, expandindo-se em 1,2%. Em contrapartida, os mercados emergentes excederão os 5%, com a Ásia e a África Subsaariana acelerando em 7% e 5,6%, respectivamente.

O relatório do FMI elogia os estrategistas da eurozona por terem evitado uma quebra, mas observa que partes da união monetária ainda permanecem não competitivas e restringidas pela política de austeridade. Ele observa ainda que o fato de a injeção de dinheiro efetuada na região não conseguir chegar às famílias e negócios de renda mais baixa tem igualmente pressionado para baixo as perspectivas para a eurozona.

Embora estimulada pela recuperação em habitação e mercados de crédito, a economia americana terá que suportar os efeitos do sequestro orçamentário.

Previsões do FMI de crescimento percentual do PIB no mundo em 2013 (clique na imagem para ampliá-la) - (Ilustração: The Economist).

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Países emergentes: o risco de se julgar invulnerável

[O texto traduzido abaixo é da autoria de Alicia González e foi publicado ontem no jornal espanhol El País. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. Ele deveria ficar na cabeceira da sorridente Dona Dilma e de seu ministro Mantega.] 

 O acrônimo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) em construção - (Foto: Getty Images).


Até no cenário mais incerto, há margem para um certo otimismo e para histórias de sucesso. Na história atual da economia mundial esse espaço é, indiscutivelmente, ocupado pelas economias emergentes. Apesar das surpresas negativas que algumas delas protagonizaram em 2012, os emergentes sempre aparecem no lado ensolarado das perspectivas econômicas, e se converteram nesses momentos quase que na única esperança para o crescimento global.

"75% do crescimento mundial são efetuados pelas economias emergentes, que já são líderes desse crescimento", afirma Allan Conway, responsável por renda váriável do Schroders, em Londres. "Em 2011, a China contribuiu com US$ 1,3 bilhão para o crescimento do PIB do mundo, o que equivale quase a criar uma nova economia como a da Espanha", alerta Jim O 'Neil, presidente da gestora do Goldman Sachs, em artigo recente (O' Neil foi o criador, há uma década, do termo BRIC -- acrônimo de Brasil, Rússia, Índia e China -- que se generalizou para denominar as grandes potências emergentes).

As cifras em termos de crescimento, níveis de emprego, investimento e fluxo de capital são impactantes, mais ainda face à desolação produzida pelos dados de um mundo industrializado arrasado há cinco anos por uma crise econômica e financeira. Mas, nem tudo é cor de rosa no mundo emergente. Os bons resultados obtidos nos últimos anos e a ampla margem existente em suas contas públicas levou esses países a relaxar, em certa medida, o processo de reformas em que haviam embarcado e, sem estas, muitas das estrelas emergentes podem perder seu brilho [o que, certamente, já é o caso do Brasil].

"O maior risco é pensar que não há riscos, porque é aí então que todos começam a relaxar e abandonam o processo de reformas", assegura Álvaro Ordiz Vidal-Abarca, economista-chefe de países emergentes no BBVA Research. Nessa mesma linha se pronunciam os analistas do banco Barclays em seu relatório trimestral sobre países emergentes. "Evitar o esforço de empreender reformas estruturais porque o financiamento externo está fácil é muito arriscado, e pode causar danos às economias. Apesar de suas numerosas vantagens, a maioria das economias emergentes tem ainda muita margem de melhora no lado estrutural", enfatizam os economistas da entidade financeira britânica.

E é nessa necessidade de reformas que convergem as trajetórias dos países industrializados e as dos países em desenvolvimento. "Na realidade, os países desenvolvidos e os emergentes compartilham neste momento a mesma história. Certamente em níveis diferentes, mas os dois grupos precisam efetuar um processo de reformas intenso", assinala Steen Jakobsen, economista-chefe do Saxo Bank. Para os emergentes, o risco é que suas economias se posicionem em uma tendência de crescimento menor, com a qual não seriam capazes de fazer frente às elevadas necessidades sociais de suas populações, nem poderiam gerar empregos em um ritmo adequado [é impressão minha, ou alguém está falando especificamente do Brasil?...].

Essa falta de reformas explica, em parte, o desempenho decepcionante apresentado em 2012 por países como China, Brasil, Índia e Coreia do Sul. "Ainda que o comportamento econômico díspar dos emergentes em 2012 possa vincular-se claramente à deterioração dos mercados aos quais se destinam suas exportações, em particular na zona do euro, não se pode negar o papel desempenhado por fatores estruturais domésticos", advertem os economistas do Barclays.

O certo é que a história das grandes economias emergentes é uma história em transição. O modelo de crescimento dos países que têm liderado os avanços para o desenvolvimento tem sido impulsionado pelas exportações, e chegou a hora de mover-se rumo a outro modelo, com peso maior para a demanda doméstica, o consumo e o investimento [o problema nosso é que a afável Dona Dilma se apaixonou pelos dois primeiros e abandonou o último]. O caso mais evidente, e o que maior peso tem para o resto dos emergentes, é o da China, mas ele não é o único. Os líderes chineses apostaram em dirigir seus esforços na direção dessa mudança de modelo, mas são muitas as modificações que têm que executar para que suas intenções se convertam em realidade. O plano de navegação da China se aplica igualmente a países como a Índia ou África do Sul. "A China precisa aprovar medidas para aumentar a competitividade e reduzir os níveis de corrupção; tem que criar um sistema de saúde e de aposentadoria para seus cidadãos ou, ao contrário, estará economizando e não gastando para se prevenir de emergências futuras; e deve avançar rumo à liberalização dos mercados de capitais e financeiro", enumera Jakobsen, do  Saxobank.

Esse último é um fator que ficou em clara evidência durante esta crise.  Como enfatiza o Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla inglesa), em termos de crescimento custou aos mercados emergentes, como grupo, apenas quatro trimestres para superar seus níveis anteriores e manter, desde então, níveis sólidos de aumento do PIB [a autora não pode estar se referindo ao pibinho do Brasil]. "Por isso chama tanto a atenção o fato de que os mercados de ativos emergentes tenham seguido em geral a tendência dos mercados desenvolvidos, que tampouco alcançaram os níveis que ocupavam antes da crise. Isso reflete até que ponto a política dos mercados maduros, em particular a da Reserva Federal americana, continua ditando a marcha dos mercados globais", assinala a instituição que congrega os principais bancos privados do mundo em seu relatório sobre mercados de capitais neste mês.

"Continua existindo um predomínio dos mercados desenvolvidos sobre os emergentes, e se estes querem passar a jogar na primeira divisão precisam mudar essa tendência. É o que tem acontecido entre os países desenvolvidos", repisa Ordiz Vidal-Abarca, do BBVA Research.  Para Allan Conway, do Schroders, disso não resulta no entanto uma condição indispensável. "Sem isso, [os emergentes] já são os que mais crescem em nível mundial e, quanto ao resto das reformas, não há porquê se tornar obsessivo. É um componente natural do crescimento, e esses países estão melhores que no passado", diz ele por telefone. A opinião de Conway parece um tanto isolada entre os demais analistas.

Da disposição desses países para levar adiante as reformas, de que seus governos consigam obter o apoio político para aprová-las, e do calendário em que consigam isso dependerá o sucesso ou o fracasso dos emergentes nesse empenho -- ainda que os pontos de partida sejam muito díspares. O México, que já pertence ao clube dos países industrializados, a OCDE, parece concentrar as esperanças dos analistas com a mudança de governo. "No caso do México, um círculo virtuoso de iniciativas do lado dos legisladores e de decisões de investimentos pelas companhias parece estar emergindo com força. No Brasil, observamos hoje justamente o contrário", assinalam os especialistas do banco HSBC. Apesar da comodidade que é tratar o grupo como um todo, são muito profundas as diferenças entre os diferentes países e regiões emergentes.  "A principal característica dos emergentes, ou dos mercados em crescimento, passou a ser a sua heterogeneidade", assinala O'Neill em seu artigo.

Por exemplo, a antiga Europa Oriental foi, de longe, a região de pior desempenho nos últimos anos, afetada em cheio pela crise da eurozona, com a qual mantém estreitos laços comerciais e financeiros. Tanto assim, que alguns países -- República Tcheca, Hungria, Croácia e Sérvia -- recaíram na recessão e se prevê apenas uma leve recuperação de suas economias em 2013. A China deixou para trás o temor de uma aterrissagem forçada -- que, segundo os analistas da Societé Génerale, passaria por crescer abaixo de 6% -- e registrou no mês passado uma forte recuperação da produção industrial e das exportações, o que permite prever uma recuperação modesta neste exercício, fechando-o com um crescimento em torno de 8%.

No lado das surpresas positivas se encontram Rússia e Turquia, que em 2012 cresceram acima do previsto.  Em especial a Turquia que, com uma política econômica "inovadora",  foi capaz de frear a crescente bolha de ativos sem impedir o crescimento da economia. Mas, pode ser que não seja apenas por isso que Istambul fique na moda. Segundo os analistas do Barclays, a Turquia se unirá ao Brasil e a outros países latino-americanos como soldado da guerra cambial. A esperada melhora da economia americana e o consequente aumento da demanda por matérias primas e produtos pela primeira economia mundial produzirão uma revalorização das moedas, principalmente das latino-americanas, e contra isso se posicionarão as autoridades desses países na opinião da equipe de analistas econômicos da Societé Génerale.  O tirambaço de partida para isso pode ser a decisão do Japão de aprofundar a depreciação que o yen já vem sofrendo, e de intervir com dureza no mercado para conseguir esse objetivo.

Em todo caso, as perspectivas de curto prazo dos países emergentes sinalizam para uma recuperação moderada, que não é tão segura no caso dos países desenvolvidos. Acontece que esse cenário criou um binômio paradoxal, no qual a percepção de risco aparece concentrada nos países desenvolvidos e não nos emergentes, como acontecia no passado. Nessas circunstâncias, as economias emergentes podem julgar-se invulneráveis.






sábado, 8 de dezembro de 2012

Brasil, China, Índia e Rússia serão os mercados varejistas dominantes no futuro, diz a The Economist (II)

[Vejam a postagem anterior.]

África, a última fronteira

Embora seja improvável que o potencial africano emule o dos países do Brics nos próximos cinco anos, varejistas já estão cogitando de investir em mercados africanos agora para se beneficiar do potencial que possam ter daqui a dez ou vinte anos.

O risco de perdas permanece forte. A África subsaariana ainda tem problemas de estabilidade, crime, infraestrutura e corrupção. Os mercados são muito difíceis para serem operados sem uma ajuda local e sem uma abordagem inovadora para resolver os muitos problemas que tais mercados apresentam.  Entretanto, países africanos têm também potencial para serem fortes indutores de crescimento do varejo. Com exceção da África do Sul, eles são relativamente fragmentados, mas os consumidores africanos parecem estar ávidos por marcas ocidentais, com nomes como Unilever, Nestlé e Danone investindo fortemente na região. Além disso, as 18 principais cidades africanas podem ter em 2030 um poder conjunto de gastos de US$ 1,3 trilhões.

A aquisição, por US$ 2,4 bilhões, de 51% do capital da Massmart pela WalMart em 2011 evidenciou o interesse crescente qua a África vem despertando entre os varejistas globais. Embora mais de 90% da receita da Massmart venham da África do Sul, a presença desse varejista em 11 outros países africanos abre fortes perspectivas de expansão futura em outros mercados. Embora o mercado sul-africano já esteja concentrado, com Shoprite, Pick 'n Pay, Spar, Massmart e Metcash responsáveis por 80% das vendas de varejo, os atores chaves restantes emergirão fortes como alvos de fusões e aquisições por outros varejistas globais para estabelecer uma presença regional, à proporção que a região percebe um crescimento da demanda de varejo na próxima década.

Países africanos selecionados - Crescimento das vendas de varejo por ano (%)

                                        2012      2013       2014      2015       2016

Nigéria                              23,1       10,0        16,0       13,9        13,9
África do Sul                     - 6,8         0,9          5,9         5,0          4,5

Fonte: Economist Intelligence Unit

Um mercado virtual

Em 2002, a Amazon informou uma receita de US$ 3,93 bilhões, uma cifra expressiva por si mesma mas uma gota d'água no oceano que é o mercado de US$ 2,3 trilhões dos EUA; neste ano, a receita da Amazon deve ultrapassar a marca de US$ 50 bi. O varejo total online responde por cerca de 10% do mercado americano. O Reino Unido (RU) detém a mais alta porcentagem de gastos online do mundo, com as compras na Web respondendo por uma fatia estimada de 13,2% de todas as vendas de varejo de 2012 (segundo dados do Centro para Pesquisas de Varejo). Embora os mercados emergentes tenham ainda muito caminho pela frente, sua taxa de crescimento é ainda mais rápida. No ano passado, a China informou que as transações online negócio-consumidor aumentaram em 53,7%, alcançando US$ 123,2 bilhões.

Vendas (em US$ bi)
                                                                   2002                2011

Vendas totais de varejo nos EUA                 2.314,05          3.260,07

Giro total da Amazon                                        3,93              48,08

Fontes: Economist Intelligene Unit, Investpedia

Muito desse crescimento se fez com base na comodidade das compras por desktops ou laptops, a partir de pontos fixos em escritórios e residências, acrescentando-se assim apenas uma dimensão a mais para os consumidores.  Mais recentemente, o surgimento dos smartphones e o crescimento explosivo dos aplicativos para compra revolucionaram as decisões de pontos de venda. Forrester, uma empresa de pesquisas baseada nos EUA, está antecipando que entre 2011 e 2017 o valor das transações via celulares crescerão 11 vezes na Europa. Levando em conta o contínuo surgimento de compras via aplicativos, essa previsão se afigura conservadora e em 2022 o comércio via celulares será praticamente a tendência dominante. Os consumidores estão cada vez mais capazes e voltados a fazer compras por impulso enquanto se deslocam. Aplicativos permitem que pessoas façam suas buscas por códigos de resposta rápida (QR - quick response) ou por fotos que tiram, ou mesmo comprar em tempo real os produtos que vêem em seus programas de TV prediletos. "Showrooming" [ambientação para mostra ou exposição de produtos, em tradução livre e tentativa] surgiu como uma tendência, pela qual consumidores acessam lojas para encontrar itens de que gostam e então comparam preços, e fazem por telefone a compra de seu interesse.

Decisões de compra via pontos de venda não estão evoluindo apenas no campo físico, mas também na Web. As redes sociais propiciaram uma nova plataforma para interação de marcas, marketing viral e fronts de venda para criar um canal de vendas alternativo para os varejistas. Embora esse canal tenha sido limitado em escopo, com alguns fronts de venda encerrando atividades depois de resultados decepcionantes, o surgimento de um quadro de avisos comunitário online, o Pinterest, acelerou significativamente as oportunidades para o comércio varejista ao direcioná-lo para os itens e produtos ali "espetados". Um gigante do comércio virtual, a Rakuten, vislumbrou essa oportunidade e investiu fortemente no Pinterest com o objetivo de usar essa rede  como um front de vendas de itens populares.

A tecnologia desempenhará um papel crucial no desenvolvimento dessas tendências, e 2022 verá um mercado em que as compras online responderão por uma porção muito maior das vendas de varejo globais do que hoje em dia. Mercados líderes em vendas online, como o RU, devem ver o comércio online (e-comércio) responder por um terço ou mais das vendas globais. As compras online têm sido tradicionalmente limitadas a livros, aquisição de programas e eletrônica de consumo. Entretanto, opiniões de que categorias de mercadorias do tipo "experimente antes de comprar", como roupas e artigos de mercearias e minishoppings (grocery stores) não se tornariam populares estão sendo provadas como erradas, diante do sucesso de empresas como a ASOS [especializada em roupas femininas e masculinas] e do crescente foco em vendas online para os principais varejistas da área de "grocery".

Enquanto a tecnologia, especialmente o aumento de conectividade e de opções de compras propiciado por smartphones e tablets, será o impulsor básico dessa tendência, a recente retração econômica tem tem atuado como um catalisador para um comportamento cada vez mais sofisticado por parte dos consumidores. O surgimento de sites de comparação de preços de varejo não é coisa nova, mas a austeridade gerou um forte incentivo para que os consumidores se desloquem online. Enquanto sites de comparação online têm se limitado à verficação de itens isolados, iniciativas online mais recentes como o mySupermarket no RU permitem aos consumidores comparar os preços de cestas de itens entre os principais varejistas e decidir qual tem a melhor oferta. A rede americana Groupon surgiu também como um meio de disponibilização coletiva de descontos ou de ofertas especiais para os interessados em barganhas. Este conceito tornou-se popular em escala global, especialmente na China (apesar do fraco desempenho do Groupon por lá), onde sites de cupons e descontos já estão consolidados.

Em 2022, essas tecnologias de estímulo à barganha terão se fundido e expandido em escopo, de modo que sites sofisticados serão capazes de gerar, sob medida, o melhor voucher ou as melhores ofertas do tipo Groupon no contexto de serviços de varejo mais personalizados e sob medida. Sites comparativos de preços serão capazes de, automaticamente, itemizar cestas de de produtos online entre diferentes varejistas para assegurar um "preço melhor" para cada item. "Marketplacing" [ambientação de mercado, em tradução livre tentativa], iniciativa em que varejistas diferentes competem sob um mesmo teto "virtual", oferecerá a escolha máxima para os consumidores. Gigantes como eBay e Amazon já operam com esse conceito. No RU a Tesco já anunciou planos para fazer o mesmo, e parece provável que outros varejistas globais seguirão esse caminho. Isso significa que em 2022 teremos varejistas competindo cabeça com cabeça entre si, e produtores/fabricantes mais acima na cadeia de suprimentos através de plataformas consolidadas.

À medida que a receita melhore, uma tecnologia de reconhecimento aperfeiçoada permitirá aos consumidores a realização de compras por impulso diretamente em plataformas móveis, através de uma multiplicidade de canais. Inovações utilizando superposições reais e mídia social ampliadas permitirão um recurso adicional de interatividade.  O aumento em bens virtuais como os downloads de música, vídeo e jogos será cada vez mais alocado em nuvem, e em 2022 veremos itens como CDs, DVDs e jogos de console completamente obsoletos, exceto como itens de nichos de mercado. Um gigante em software, Electronic Arts, já confirmou planos para se tornar um provedor de jogos inteiramente digital, uma intenção emulada pela aquisição feita pela Sony de um serviço de jogos em nuvem, o Gaikai.

[continua]

Brasil, China, Índia e Rússia serão os mercados varejistas dominantes no futuro, diz a The Economist (III)

[Ver postagem anterior.]

Um contra-ataque das lojas físicas

O aumento do comércio virtual, combinado com décadas de desenvolvimentos/empreendimentos distantes dos centros urbanos e a recente redução da confiança do consumidor, atingiu fortemente os formatos tradicionais de ruas de varejo e de shopping centers.  Isso tem sido objeto de forte atenção desde 2008, com pequenos negócios e também redes tradicionais enfrentando uma baixa confiança dos consumidores e crédito mais restrito. Esses fatores aceleraram o fracasso de algumas empresas, mas já havia claros indícios disso devido à margem competitiva que outros canais de compra possuem. Para 2022, empresas de varejo estão desenvolvendo uma estratégia que lhes permitirá embarcar nessas tendências sem incorrer em perdas ou desvantagens.

No Reino Unido (RU), o Portas Review [Análise Crítica de Portas, em tradução livre -- relatório emitido por Mary Portas, a príncipal consultora britânica para o setor de varejo] apresentou a questão das ruas de comércio de varejo como um tema crítico e politizado para a próxima década. Os EUA têm visto uma tendência semelhante minando a proliferação de seus shopping centers, com o fechamento em massa deles em 2009 e com cadeias como a da Macy's continuando a fechar lojas no médio prazo. Ainda é um pouco cedo, porém, para se escrever o obituário do setor. As lojas físicas [brick-and-mortar stores = lojas de tijolo e argamassa, no jargão inglês] não desaparecerão em 2022, mas desempenharão um papel diferente à medida que o panorama do varejo evolua.

Quebras no                                     Empresas          Lojas             Empregados                   
varejo, Reino Unido (*)                    afetadas            afetadas        afetados

2012 (6 meses, até fim de junho)       35              3.053               37.538
2011 (12 meses)                                 31                 2.469            24.025
2010 (12 meses)                           26                    944              10.930
2009 (12 meses)                           37                  6.536              26.688
2008 (12 meses)                                 54                  5.793              74.539
2007 (12 meses)                           25                  2.600              14.083

Fonte: Centro para Pesquisas de Varejo
(*) Números relativos basicamente a médios ou grandes negócios de varejo. Aquisições não estão incluídas, a menos que resultem de quebras de negócios.

Antes de mais nada, o surgimento do comércio virtual continuará a embutir o showrooming nos hábitos dos consumidores. As ruas de comércio varejista podem não ser mais os locais onde as transações serão basicamente efetuadas, mas continuarão a atuar como um canal para que os consumidores vejam, toquem e experimentem mercadorias -- mesmo que façam suas compras por outros meios. Uma pesquisa recente feita pela Capgemini em 16 mercados chaves revelou que mais da metade dos que responderam manifestou o sentimento de que, em 2020, as lojas funcionarão apenas um pouco mais do que simples salas de exposição de produtos (showrooms).  Lojas que atualmente são vítimas do showrooming terão que adotar medidas para assegurar que as pessoas que as visitem se convertam efetivamente em compradores. No ano passado, um varejista americano -- Best Buy -- começou a substituir os códigos de barra dos itens que vendia por códigos seus, exclusivos, para evitar que os clientes pudessem facilmente comparar preços online. Isso pode contrabalançar aquela prática, mas pode também afastar compradores. Uma abordagem mais sensata por parte dos varejistas seria adotar a prática do "se não pode vencê-los, junte-se a eles", que reúne as operações físicas com as operações online em um serviço completo.

Para as lojas de cadeias, isso significa aumentar ou melhorar a oferta feita nos canais online. As lojas das ruas de varejo serão utilizadas como centros de coleta para os canais híbridos do tipo "clique & apanhe", que vêm passando por rápido crescimento, onde os clientes compram online e apanham o que compraram em uma loja preestabelecida, em vez de esperar pela entrega via correios. Tais lojas oferecem também serviço de devoluções e de atenção ao cliente para produtos comprados na Web -- eliminando assim muito da inconveniência associada a produtos em falta ou indesejáveis comprados online. O conceito de showrooming será convertido em vantagem para quaisquer varejistas suficientemente capitalizados, permitindo-lhes oferecer compras online, serviço de coleta e entrega de produtos de estoque via terminais, e disponibilização de cabines para pagamentos. Para clientes precavidos com cartões de crédito ou em mercados nos quais pagamentos online não estejam suficientemente desenvolvidos, isso poderia possibilitar às pessoas pagar em dinheiro compras feitas online. Um fator chave para as cadeias varejistas maiores será efetuar a integração de inventários, de modo que os compradores impedidos de comprar um produto por indisponibilidade no estoque de uma loja possam apanhá-lo ou recebê-lo de outra loja que o tenha.

Ao mesmo tempo em que os varejistas aceitam a florescente influência dos serviços online, há pouca dúvida de que a abordagem multicanal é o melhor meio de explorar um mercado de varejo diversificado. Isso não passou despercebido para gigantes do varejo de uma só atividade (um só tipo de negócio -- "pure play"), como Amazon e eBay. Ambas estão tomando os passos necessários para entrar no negócio do tipo "tijolo e argamassa". O eBay fez testes com showrooms tipo "pop-up" em locais de shopping estratégicos, em parte com fins publicitários e em parte para testar o interesse do consumidor. A Amazon deu um passo a mais para adaptar-se, instalando "armários" para atrair consumidores do tipo "clique e apanhe". A próxima década verá vários varejistas de comércio único ("pure play"), principalmente a Amazon,  instalando lojas exclusivas permanentes em ruas de comércio varejista e em shopping centers.

A facilidade da compra online significa que as lojas físicas usadas como showrooms se tornarão voltadas mais para estabelecer visibilidade de marcas e uma reputação na prestação de serviços, do que propriamente para a venda de mercadorias estocadas. As lojas usarão também tecnologia para ampliar e aprimorar a experiência de comprar para os clientes. Um gigante americano-britânico, a Walmart/Asda, já foi noticiada como cogitando de empregar a tecnologia de hologramas  para se conectar com seus clientes. A Tesco, com sede no RU, também foi reportada como engajada no desenvolvimento de projeção interativa em 3D. Superposições de atividades como essas em lojas de mercadorias de estoque tornar-se-ão o padrão em 2022, impulsionadas em sua grande parte por aplicativos de smartphones. Tais aplicativos variarão desde o simples mapeamento de lojas para a localização de produtos até ferramentas mais sofisticadas como o escaneamento de produtos sem código.

Para os varejistas de menor porte, essa transição será penosa, e um setor varejista em evolução resultará em mais quebras. Entretanto, negócios independentes poderão beneficiar-se da circulação de consumidores à medida que seja retomado o investimento em lojas físicas, de tijolo e argamassa. 2002 deverá ver a solução de uma questão polêmica no setor varejista: quantas lojas as ruas de varejo podem suportar? A taxa atual de fechamento (quebra) de negócios sugere que esse canal de comércio está sobrecarregado. Mas, à medida que supermercados varejistas de maior porte se expandam para o canal de lojas de conveniência e os varejistas específicos ("pure play") busquem a maior visibilidade propiciada pelas lojas físicas, chegar-se-á a um equilíbrio em que os estabelecimentos de tijolo e argamassa continuarão a ter importância para consumidores.

O comércio de conveniência reinará

Para os principais participantes de supermercados em mercados maduros,  a rua de comércio varejista está se tornando uma avenida para explorar hábitos de compra em evolução. Quanto mais mercadorias são compradas online, incluindo as do gênero mercearia ou minimercados (groceries), os formatos de negócio de grande porte, fora das cidades, do tipo parar e comprar, estão cada vez mais perdendo espaço. Embora essa tenha sido uma tendência definidora ou prevalecente nas últimas duas décadas, os varejistas podem ter se excedido. Os canais de compras online não apenas são eficiente e efetivamente competitivos em áreas não dedicadas a alimentos, para cujo suporte as lojas maiores foram projetadas, como também a taxa de seu crescimento tornou-se impopular com as comunidades afetadas e deflagrou questões de planejamento junto a órgãos reguladores. Como resultado, e certamente nos anos que antecederam a retração econômica, os varejistas deram renovada ênfase ao negócio do tipo loja de conveniência.

As estratégias continuarão a se mover nessa direção, favorecendo lojas menores e bem localizadas, com uma gama de produtos específica, fornecendo comida pronta e impulsionando a venda de mercadorias que permitam aos clientes satisfazer suas necessidades mais imediatas. Esse tipo de compras será complementado por menos idas regulares a lojas grandes ou por alternativas de compra online, reforçando a necessidade de que os supermercados matenham uma gama diversificada de canais de varejo para a próxima década. À medida que diminua o número de negócios específicos ou independes nas ruas de varejo, crescerá a prevalência de lojas de conveniência dedicadas às suas marcas específicas. A penetração dessas lojas aumentará mais em 2022, à medida que haja uma recuperação salarial e o equilíbrio entre preço e conveniência se mova rumo ao comércio de conveniência.

Isso não passou despercebido para nenhum dos principais varejistas. Atores globais como Tesco, Carrefour e WalMart estão todos dedicando mais ênfase a formatos de negócio menores e acionados pela Internet. Para Tesco e Carrefour, pioneiros do conceito de hipermercados, essa transição tem sido penosa. A Tesco se mantém comprometida com o desenvolvimento de lojas grandes ainda por décadas vindouras, e o processo para desembaraçar-se de lojas grandes, distantes das cidades pode ter ainda uma influência sobre sua estratégia de negócios em 2022. Enquanto isso, o Carrefour está lutando para afastar-se do formato hipermercado que determinou seu crescimento. Tudo isso pode abrir caminho para que comerciantes de menor porte avancem sobre as fatias de mercado dos grandes varejistas, graças às estratégias flexíveis das lojas menores.




sábado, 1 de dezembro de 2012

Brasil, China, Índia e Rússia serão os mercados varejistas dominantes no futuro, diz a The Economist (I)

[A Unidade de Inteligência da (The) Economist acaba de publicar um interessante relatório prospectivo sobre a evolução do mercado varejista no mundo, denominado "Varejo 2022" (Retail 2022), que aponta Brasil, China, Índia e Rússia como os mercados dominantes nesse setor na próxima década. É impressionante a revolução causada pelos avanços na Tecnologia da Informação. O relatório está disponível em formato pdf para quem é assinante do site. Reproduzo esse relatório em três partes, com a primeira delas a seguir.] 

Visão geral
  • Mercados do futuro -- China, Índia, Brasil e Rússia se tornarão os mercados varejistas dominantes.
  • África, a última fronteira -- à medida que as oportunidades diminuam nos Brics, os varejistas verão a África como uma geradora de crescimento.
  • Mercado virtual -- e-commerce, m-commerce e s-commerce provocarão uma transformação no panorama global do varejo.
  • As lojas de varejo físicas contra-atacarão do modo como varejistas tradicionais respondem a mudanças, fazendo a integração das ofertas online com as ofertas das lojas físicas.
  • As lojas de conveniência prevalecerão, com a evolução dos hábitos de compra para uma abordagem via canais múltiplos, em vez do comércio do tipo "uma parada para compras" ("one-stop shopping").

Dez anos são um tempo longo em termos de varejo, especialmente tendo em conta as mudanças tecnológicas e o crescimento de mercados emergentes, que continuam a forçar uma evolução nos hábitos de consumo. Uma década atrás, telefones celulares eram algo que você usava para fazer chamadas. Em 2002, a Amazon havia apenas começado em termos de lucratividade. Não havia Facebook. Não havia nem mesmo um Myspace, embora pioneiros como os Friends Reunited (Amigos Reunidos) e Frendster estivessem lançando as bases para o êxito futuro do formato das redes sociais. As ruas de comércio varejista estavam crescendo no Reino Unido (RU), e esses comerciantes estavam a meio caminho de uma política agressiva de longo prazo de expansão via grandes lojas de varejo que reformataram o panorama do comércio de compras. Em 2002, o PIB nominal da China valia menos de 15% do PIB dos EUA, mal chegando a 3% em termos per capita.


O mundo é hoje um lugar muito melhor conectado. Os pontos de venda para consumidores se expandiram das ruas específicas e shoppings para qualquer lugar onde exista hoje um telefone ou um sinal de Wi-Fi. As redes sociais foram muito além de serem pontos de contatos entre amigos, para se tornarem um front de comércio e de adesão a marcas. As ruas de varejo do RU estão em crise, com vítimas famosas, enquanto em termos globais os varejistas estão mudando de direção, saindo do esquema "big-box" [grandes lojas de varejo] para lojas de conveniência e canais online. Enquanto isso, o PIB da China vale hoje metade do PIB dos EUA e continua crescendo.


A Unidade de Inteligência da Economist vê os hábitos de consumo continuando a acelerar nesse caminho rumo a 2022. Embora haja um caráter cíclico nas retrações econômicas e na redução da confiança do consumidor, os efeitos colaterais da crise de 2007 têm sido um catalisador de mudanças e podem dar suporte a tendências de longo prazo. O crescimento dos mercados emergentes definirá o panorama do varejo do futuro, não apenas em termos de demanda mas também exercendo um papel aquisitivo crescente nos mercados do Ocidente, o que pode levar a que algumas marcas familiares se tornem propriedades chinesas ou indianas.


Mercados do futuro


Neste ano vimos a China ultrapassar os EUA como o maior mercado mundial de alimentos e do comércio do tipo mercearias e minimercados (grocery). Em 2013, a China deverá ultrapassar o Japão como o maior mercado mundial de artigos de luxo, e em 2016 deverá ultrapassar os EUA como o maior mercado varejista do planeta. Enquanto o crecimento do varejo é moderados em mercados ocidentais já maduros, o crescimento rápido do consumo de varejo em mercados emergentes continuará a criar um panorama global de varejo bastante diferente em 2022.

Em 2022, a China deverá ser responsável por um quarto das vendas globais de varejo geradas pelos 60 maiores mercados, o dobro da parcela americana. 

Dimensão de mercados de varejo (em milhão de US$)

País/região                           2012          2016               2022
China                               2.311.226     4.207.729       8.345.813
EUA                                 3.389.633     3.961.146       4.470.376
Índia                                  845.676     1.877.429       3.822.770
Japão                              1.691.548     1.496.789       1.628.421
Rússia                               658.961        932.014        1,482.362
Brasil                                500.338        768.459        1.155.286
Mundo (60 países)          17.011.998    23.357.957      33.471.288

Fonte: Economist Intelligence Unit.

Uma tendência fundamental na China será o crescimento de cidades, não de centros de irradiação como Shanghai, Beijing e cidades litorâneas mas de cidades de terceiro e quarto níveis, situadas mais para o interior.  São essas cidades que são vistas como as forças motrizes para o crescimento do país rumo a 2022. A classe consumidora chinesa será principalmente urbana. Rendas mais altas significam que cidades litorâneas de primeira linha já oferecem ambientes de consumo sofisticados que provocarão o crescimento do varejo na maior parte da presente década. Entretanto, as vendas de varejo crescerão mais rapidamente -- embora a partir de uma base menor -- em cidades do interior, que presenciarão um crescimento salarial mais rápido e esforços capitaneados pelo governo para estimular o consumo. Uma prática amplamente utilizada de informar receitas domésticas inferiores à realidade sugere que a demanda do consumidor possa exceder expectativas já elevadas, particularmente no que se refere a bens de preço médio ou luxuosos.

Megalópoles: proporção de população urbana ganhando acima de  30.000 Rmb (%) (*)

Área urbana                                           2002      2012      2020

Grande Shanghai                                      4,4        52,7       72,4  
Grande Shenyang                                     0,2        19,1       46,0
Chang-Zhu-Tan                                        1,3        31,7       60,3
Chongqin                                                 0,9        15,8       49,4
Grande Xi'an                                            1,2        34,6       69,1
                           
Fonte: Economist Intelligence Unit.
(*) Rmb = renminbi = moeda oficial chinesa, cuja unidade de referência é o yuan, que é dividido em 10 jiăo -- 1 yuan reminbi = 0,16 US$

A China não é o único mercado emergente no varejo a ser enfocado como um líder global em 2022, embora seja o maior. Índia, Brasil e Rússia estão também saindo da sombra de seus vizinhos ocidentais para se transformarem em forças do varejo. Em 2022, esses mercados emergentes serão quatro dos seis maiores mercados do mundo nessa área em termos de dólares americanos, e talvez cinco entre os sete maiores caso a Indonésia continue a crescer. No espaço de dez anos o mercado indiano, sozinho, poderá comparar-se em tamanho a todo o mercado da Europa ocidental!

Vista de uma perspectiva varejista, a oportunidade já está bem estabelecida  em mercados emergentes. Os "quatro grandes" varejistas globais -- Walmart, Carrefour, Metro AG e Tesco -- têm uma florescente presença na China. Outros mercados chaves, como Brasil, Vietnam, Indonésia e Índia, permanecem centros de muita atenção. A eliminação de dificuldades na regulação para investimentos estrangeiros será um fator preponderante para o comportamento desses mercados na próxima década.

Empresas de bens de luxo já disputam entre si para ganhar espaço nesses mercados, especialmente na China, a tal ponto que investidores, repetidamente, têm expressado seus receios de que empresas de artigos de luxo como Burberry, PPR e LVMH possam ficar superexpostas no caso de haver uma desaceleração no crescimento chinês. No curto prazo isso pode ser um fator mas, considerando o peso que tais mercados terão dentro de uma década, pode haver muito mais a perder se não se investir neles agora. Embora seja difícil manter um crescimento de dois dígitos em artigos de luxo na virada da década, em 2022 existirá nesses mercados novos uma sólida plataforma para lojas de artigos de luxo em cidades grandes e de porte médio, vendendo dessas mercadorias para uma base de consumidores ávida e opulenta.

PIB nominal (em US$ bi)

País/região                                    2012           2016          2022

China                                           8.188         14.134        24.960
EUA                                            15.679        18.584        24.470
Índia                                            1.921          4.406          6.970
Japão                                           5.930          5.374          6.060
Brasil                                           2.354          3.254          5.084

Fonte: Economist Intelligence Unit

Assim como influenciando domesticamente o crescimento global do varejo, 2022 presenciará mercados emergentes influenciando mercados ocidentais de maneira mais direta. No momento, o investimento em varejo por parte de mercados emergentes está grandemente concentrado em mercados domésticos ou regionais. Mercados emergentes têm investido pesadamente em mercados ocidentais, mas principalmente nos setores primário e de manufaturas. Isso, no entanto, será alterado, com um número crescente de empresas de mercados emergente atentas agora a oportunidades com o consumidor. Dois conglomerados indianos, Tata e United Breweries, um grupo chinês da área de alimentos, Bright Foods, e a empresa Hutchison Whampoa, listada na bolsa de Hong Kong, avançaram sobre mercados consumidores ocidentais. A Hutchison é dona da AS Watson, uma varejista global líder nas áreas de saúde e beleza. Em 2022, o fluxo atual de fusões e aquisições expansionistas a partir de mercados emergentes se converterá em uma inundação, com conglomerados chineses, brasileiros e indianos endinheirados buscando participar em mercados ocidentais menos "excitados", especialmente na Europa, onde a fraqueza do varejo pode proporcionar negócios melhores.

Um fator que pode contrabalançar isso é a falta de disposição de governos europeus em permitir que empresas de países emergentes se apoderem de suas "jóias da coroa" ou de empresas familiares. Há pouca chance de que isso se altere em 2022, assim atores chaves domésticos e internacionais como os quatro grandes citados acima permanecerão em poder do ocidente. Em vez disso, cadeias menores servirão de trampolim para que varejistas orientais conquistem uma fatia do mercado em 2022.

[continua]























terça-feira, 2 de outubro de 2012

China deve se tornar maior fornecedor de produtos para o Brasil este ano

A China deve fechar o ano como o principal fornecedor de produtos para o Brasil, posto até então ocupado pelos Estados Unidos.

De janeiro a setembro, o país importou US$ 25 bilhões em produtos chineses, 3,9% a mais do que o ano anterior, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).  "O maior destaque é a China. Mantendo este padrão até o fim do ano, podemos fechar 2012 com a China sendo não apenas o principal destino de nossas exportações, mas também a principal origem das importações brasileiras", diz Tatiana Lacerda Prazeres, secretária de Comércio Exterior.  [Nosso comércio com a China apresenta dois grandes problemas: i) lhe exportamos essencialmente commodities (minério de ferro, soja e petróleo) e não conseguimos diversificar nossa pauta de exportações para os chineses; - ii) importamos dos chineses produtos com maior valor agregado -- ver dados do Conselho Empresarial Brasil - China --  e estamos nos tornando perigosamente dependentes da China em nosso comércio externo.]

O aumento das importações provenientes da China é acompanhado pela redução das compras de produtos americanos. No acumulado do ano, a importação de produtos dos EUA somou US$ 24 bilhões, 4% a menos do que no mesmo período do ano passado. A China é, desde 2009, o principal destino das exportações brasileiras. Este ano, apesar da queda de 3,8% no volume total exportado para o país, os chineses aumentaram sua participação na pauta de exportação brasileira e hoje já respondem por 17,9% do total. O crescimento da fatia chinesa se deve ao fraco resultado das exportações brasileiras em 2012 em relação ao ano passado.

Até setembro, o Brasil exportou US$180,6 bilhões, 5% a menos do que em 2011, principalmente por conta da baixa demanda por produtos brasileiros de países da Europa e da Argentina. Com isso, no acumulado do ano, o saldo da balança comercial, a diferença entre as exportações e as importações feitas pelo país, ficou positivo em US$ 15,7 bilhões, porém 32% abaixo do registrado no mesmo período do ano passado.

O governo havia abandonado, no início do mês passado, a meta de crescimento das exportações, que previa alta de 3% em 2012, diante da piora do cenário internacional.  O resultado de setembro, no entanto, animou o governo e a expectativa é que o país feche o ano com um volume de exportação próximo ao de 2011.  "Pode haver uma pequena queda, mas ficaremos no mesmo patamar que no ano passado. Historicamente, nos últimos meses do ano há uma tendência de estabilidade e temos visto melhora nas exportações", explicou Tatiana Prazeres.

Durante o mês de setembro, o país exportou US$1,053 bilhão por dia, nível alcançado apenas em maio.  O desempenho, segundo a secretária, pode ser explicado pelo fim da greve dos funcionários da Agência Nacional de Vigilância Sanitária e pelo retorno de parte das atividades da Receita Federal, que vinham afetando o fluxo de mercadorias no país.

O resultado das exportações brasileiras vem sendo impactado, em grande parte, pela queda no preço e na demanda do minério de ferro.  Até setembro, as exportações do produto caíram 25,4%. "A perda de receita com exportações este ano foi de US$ 6,7 bilhões apenas por conta do preço do minério de ferro", afirmou Tatiana Prazeres.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Mercados emergentes: a grande desaceleração

[A análise que traduzo a seguir é da revista inglesa The Economist, publicada em 21 de julho passado. Inseri links a postagens anteriores, onde julgado pertinente. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Na década passada os mercados emergentes se projetaram como os melhores velocistas mundiais. Enquanto crises em série derrubavam a América e, em seguida, a Europa, a China praticamente não alterou seu ritmo. Outras grandes nações em desenvolvimento fizeram apenas uma pausa rápida para respirar. Investidores apostaram fortemente em que o crescimento rápido em mercados emergentes era a nova normalidade, enquanto líderes de Pequim a Brasília apregoavam ao mundo as virtudes de seus modelos econômicos centralizados no Estado.

Mais tarde, porém, os velocistas começaram a ficar ofegantes. Na semana passada [anterior a 21 de julho], a China noticiou seu crescimento mais lento em três anos (ver artigo).  Recentemente, a Índia registrou seu desempenho mais fraco desde 2004. O motor brasileiro afogou, literalmente. Nesta semana, o FMI (Fundo Monetário Internacional) reduziu drasticamente sua previsão de crescimento para três dos quatro países do chamado Brics -- apenas a Rússia foi poupada (mas, mesmo ali o crescimento é vulnerável aos preços de energia em queda). Alguns investidores se lembram sombriamente do histórico de propensão a crises do mundo emergente, e conjeturam se o pior ainda está por vir.

PIB dos países em desenvolvimento (percentual de aumento sobre o ano anterior) - (Gráfico: The Economist).

Nenhuma crise é claramente visível ou provável [?!], mas uma preocupação séria é justificada porque o mundo emergente enfrenta dois riscos distintos: uma desaceleração cíclica e uma erosão do potencial de crescimento a mais longo prazo. Lidar com o primeiro deles será razoavelmente fácil, mas com o segundo, não.

Ressurgimento dos mais preparados

Pelos padrões do mundo rico, os mercados emergentes ainda estão se desempenhando extremamente bem. O FMI avalia que  as economias em desenvolvimento crescerão ainda 5,6% este ano. Além disso, essa desaceleração é parcialmente intencional. Quando a crise financeira global explodiu, as economias emergentes reagiram energicamente: a China lançou um gigantesco estímulo, os bancos estatais do Brasil facilitaram o crédito, as taxas de juros foram drasticamente reduzidas. Eles foram tão bem sucedidos, que em 2010 tiveram que reverter o curso de suas medidas. Para reprimir as pressões dos preços, elevaram as taxas de juros, frearam a especulação e permitiram que suas moedas se valorizassem. Com um retardo, esse aperto deu o resultado previsto. 

Ainda assim, a desaceleração mostrou-se mais acentuada do que se esperava. A crise da dívida soberana da Europa é parcialmente culpada por isso. Ela minou a demanda pelas exportações de manufaturados dos países em desenvolvimento e reduziu o preço de suas commodities -- nesse contexto, a África do Sul é uma baixa digna de menção. Bancos europeus têm sido os canais do fluxo de dinheiro externo para os países emergentes -- agora, esses bancos estão arredios por causa dos problemas que têm que enfrentar em casa.

Felizmente, os formuladores de políticas do mundo emergente têm uma grande gama de oportunidades para satisfazer. Enquanto nos bancos centrais dos EUA, do Japão e da Europa a meta de inflação é próxima de zero, ela vale quase 6% nos países emergentes. Estímulo fiscal é um luxo com o qual poucas economias avançadas  -- cujos deficits orçamentários valem em média 6% do PIB -- podem arcar. Mas, essa é ainda uma opção em muitos países emergentes, onde esses deficits têm um valor mais administrável de 2%.

O que é mais importante: as fragilidades que tornaram as economias emergentes tão suscetíveis a crises no passado, em grande parte não mais existem. Os bancos estão mais capitalizados, e dependem menos do instável financiamento de outras instituições do que seus equivalentes europeus. Taxas de câmbio fixas já foram uma vez a regra nos países em desenvolvimento. Elas eram um meio de conter a inflação, mas também estimulavam a tomada excessiva de empréstimos em moedas estrangeiras, criando tensões que acabavam por quebrar a correlação cambial da moeda. Com inflação melhor controlada, o câmbio flutuante (a China é uma grande exceção) e reservas de moedas estrangeiras bem estocadas são agora a tônica no mundo emergente, dando proteção contra exportações em declínio e investidores estrangeiros volúveis.

Assim, parece improvável uma depressão nesses países emergentes. No entanto, essa não é a disposição quanto a retornar às taxas de crescimento da década passada. A China, por exemplo, não as quer mais. Sua economia tornou-se superdependente de investimentos -- seus líderes querem, agora, ingressar numa fase de crescimento mais sustentável embora mais reduzido, conduzido pelos consumidores. Além da China, torna-se cada vez mais evidente que muitas economias emergentes têm crescido acima de seu potencial implícito para tanto. Os otimistas acharam uma vez que a Índia poderia manter um crescimento do tipo chinês, acima de 9% ao ano, mas isso levou a uma inflação obstinada e a deficits de conta corrente, sinalizando que o potencial de crescimento da Índia possa situar-se mais na faixa de 6 a 7%.

Preparação para a maratona

Fazendo-se uma retrospectiva, observa-se que algumas quebras de recorde do mundo emergente se deram à custa de anabolizantes. Um estimulador de desempenho foi o apetite da China por matérias-primas, que provocou um crescimento repentino e volumoso (boom) no consumo de commoddities que sobrecarregou muitos mercados emergentes. Como esse boom está em queda, a dependência da Rússia em relação ao petróleo e ao gás torna o país particularmente vulnerável. Outra droga anabolizante foi o crédito doméstico, particularmente no Brasil, na Turquia e no leste europeu. [As críticas são em sua maioria pertinentes, o tom delas é que é desagradável -- é a velha acidez britânica. Os ingleses são tremendos defensores do "faça o que digo, não olhe o que faço", perdem status mas não perdem a pose. O problema deles é que com ou sem "anabolizantes" sua economia não consegue se erguer.]

É possível que haja um novo desempenho impressionante, mas isso depende de novas políticas que deixem os mercados emergentes preparados para a longa corrida. Aqui, os sinais são problemáticos. Na Rússia, onde a prioridade deveria ser a diversificação para evitar a excessiva dependência de petróleo e gás, o presidente Wladimir Putin propôs uma rodada de gastos sociais que em seis anos pode custar 8% do PIB. A Índia tem um deficit expressivo de 9% do PIB, no entanto, Pranab Mukherjee, o ministro de Finanças que recentemente deixou o cargo e será em breve ungido presidente (ver artigo), fracassou por não atacar os subsídios aos combustíveis, que custam ao país 0,8% do PIB. Faz sentido investir alguns frutos do crescimento numa rede de segurança melhor para aqueles que não foram aquinhoados com o crescimento. Não faz sentido retardar, em seguida -- como fez a Índia e, em certa extensão, também o Brasil -- os investimentos em infraestrutura de energia e transportes, que são um prerrequisito para um crescimento futuro [bingo para os ingleses!].

Infelizmente, muitos governos do mundo emergente interpretaram a crise nas finanças dos países ricos como uma razão para dar mais musculatura ao papel do Estado. A China reservou alguns setores para empresas estatais. No Brasil, a grande empresa petrolífera estatal Petrobras e os bancos estatais tornaram-se literalmente apêndices da política do governo. Ter tanta alavancagem sobre a economia é inegavelmente útil durante uma crise, mas a longo prazo isso sufocará a competição, matará o setor privado por falta de capital, afastará os investimentos e o know-how estrangeiros, e estimulará a corrupção.

Quando a poeira assentar, os mercados emergentes estarão ainda crescendo mais rápido do que fizeram antes de 2003. Mas, obter backup para  a velocidade da década passada significará manter a disciplina macroeconômica e retornar às reformas microeconômicas que basicamente permitiram aquele avanço.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Apesar de redução, Brasil mantém maior desigualdade entre Bric, diz OCDE

O Brasil foi o único entre os chamados Bric – grupo que inclui ainda Rússia, Índia e China – a reduzir o abismo entre ricos e pobres em 15 anos, de acordo com um estudo publicado nesta segunda-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). [Muito estranho a BBC Brasil falar em Bric, sigla já ultrapassada e substituída por Brics, na qual o "s" final assinala a inclusão da África do Sul no bloco. Assim, a comparação citada pelo artigo fica capenga, com a falta de comparação explícita da situação do Brasil com a da África do Sul.]

Mas o relatório salienta que apesar dessa redução, a desigualdade no Brasil ainda é a maior entre os países do grupo.

Enquanto o índice Gini, que mede a desigualdade de um país, caiu de 0,61 para 0,55 no Brasil entre 1993 e 2008, em todos os outros que são considerados as 'vedetes' dos emergentes esse índice passou para um valor mais alto. Quanto menor o índice Gini, melhor. Além disso, no Brasil os 20% mais pobres viram sua renda crescer em média 6,6% ao ano na década de 2000, mais de três vezes mais rápido que a dos 20% mais ricos, de 1,8%. Isso representa uma aceleração de um processo que já havia começado nos anos 1990, afirmou o relatório.

Entretanto, observou a OCDE, o Gini do Brasil ainda é maior que em todos os Bric. É também o dobro da média dos ricos.

No país, os 10% mais ricos ganham nada menos que 50 vezes mais do que os 10% mais pobres, um dos maiores abismos do mundo, diz o relatório. Maior que emergentes como Chile, México e Turquia. No Chile e no México, a diferença é de 25 vezes, mas segundo a OCDE está caindo. Na Turquia, a diferença é de 14 vezes – a mesma que nos EUA e em Israel.

O estudo de quase 400 páginas analisa a desigualdade no mundo. Uma de suas conclusões principais é a constatação de que o abismo cresceu também nos países ricos, chegando ao nível mais alto dos últimos 30 anos. Em média, os 10% mais abastados nesses países ganham nove vezes mais que os 10% mais pobres. Entre os ricos, a maior diferença é nos Estados Unidos (14 vezes). Na Itália, Japão, Coreia do Sul e Grã-Bretanha esse abismo é de dez vezes, e na Alemanha, Dinamarca e Suécia, de seis.

Para a entidade, a razão por trás da desigualdade nos países ricos se explica pelo abismo entre os salários pagos aos trabalhadores qualificados e a renda dos não-qualificados. Por outro lado, esses países vêm paulatinamente cortando os benefícios sociais, e esses mecanismos não têm mais a mesma eficácia que tinham nos anos 1990 para combater a desigualdade, ressaltou a OCDE.

"O estudo contraria o pressuposto de que os benefícios do crescimento econômico automaticamente alcançarão automaticamente aqueles em desvantagem", avaliou o secretário-geral da organização, Angel Gurría. "Sem uma estratégia ampla de crescimento inclusivo, a desigualdade vai continuar a crescer". Angel Gurría afirmou que a qualificação da mão de obra é "de longe o instrumento mais poderoso para conter o aumento da desigualdade". "O investimento nas pessoas deve começar logo na infância e continuar para a educação formal e o trabalho". 

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Brics não ameaçam hegemonia dos EUA, diz "pai" do neoliberalismo

Dez anos após a criação do acrônimo Bric, os países do grupo não formam um bloco coeso e não são capazes de criar uma aliança para ameaçar a hegemonia dos Estados Unidos no mundo, na avaliação de um dos mais importantes teóricos das relações internacionais.

Joseph S. Nye Jr., atual professor emérito da escola de governo da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, é o co-fundador da teoria do neoliberalismo e criador do conceito de "soft power", que define a capacidade de um país atingir seus objetivos por meio da influência de seus valores, cultura e política, em lugar do uso da força militar. Para ele, os países do grupo são capazes de rivalizar pontualmente com os Estados Unidos de maneira individual, como no caso da crescente influência brasileira sobre a América Latina, mas não representam um contraponto real aos americanos como um bloco, por conta das diferenças de interesses entre seus membros. "Se a questão é se eles podem criar uma aliança contra os Estados Unidos, um bloco coeso, a resposta é não", disse ele em entrevista à BBC Brasil.

O acrônimo Bric foi criado há dez anos pelo britânico Jim O’Neill, então economista-chefe do banco Goldman Sachs, incluindo Brasil, Rússia, Índia e China, os quatro gigantes com crescimento econômico acelerado. Posteriormente, o grupo foi institucionalizado pelos países, com a entrada posterior da África do Sul (o "s" acrescentado ao final do acrônimo), neste ano.

Nye, que foi secretário-assistente de Defesa no governo Bill Clinton, vê a Rússia como uma peça anômala no grupo, por ser "uma força em decadência, não emergente", e afirma que Brasil e Índia têm mais capacidade de exercer "soft power" do que a China, a maior economia e maior força militar do grupo, por serem países democráticos.

Para ele, os Brics não vão acabar, mas terão um papel limitado como "uma organização frouxa para coordenação diplomática ". -- Leia no artigo da BBC a íntegra a íntegra da entrevista telefônica De Nye. 

[Considero uma quimera despropositada achar-se que o Brics possa fazer, como bloco, qualquer sombra aos EUA no mundo -- para mim, trata-se de mais uma sopa de letras, com a única vantagem de ter poucos ingredientes. Basta olhar para qualquer mapa geopolítico para perceber que já as distâncias geográficas  entre os membros conspiram contra qualquer arremedo de unidade entre as partes desse grupo. Índia e China, os únicos vizinhos imediatos no Brics, têm luz própria -- especialmente a China  --,  não precisam nem um pouco dessa sigla para ter importância no cenário mundial, e ultimamente vivem se estranhando, como mostrado em outra postagem]. 

 Joseph Nye Jr é um dos mais importantes teóricos globais das relações internacionais -- (Foto: Getty Images). 

Criado por economista, o Brics vem se institucionalizando desde 2008 -- (Foto: ABr).



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Brasil perde para outros Brics na hora de proteger suas florestas

O Brasil está atrás de China, Rússia e Índia no combate ao desmatamento e na recuperação da área florestal perdida. Esta é a conclusão de um estudo organizado pelo instituto brasileiro Imazon e o Proforest, ligado à Universidade de Oxford, que estudo comparou a situação em 11 países e mostra que nos quesitos preservação e reflorestamento o Brasil está perdendo a corrida com outros países dos Brics.

O estudo, divulgado no momento em que o Senado debate os termos do novo Código Florestal quanto ao tratamento de áreas verdes do país, compara a forma com que o Brasil e outros países lidam com o tema e analisa o que está sendo feito de suas florestas.  Se colocados lado a lado, os dados mostram que, enquanto China, Índia e Rússia têm criado leis para proteger suas florestas e agem para recuperar o que já foi devastado, o Brasil segue na contra-mão, desmatando mais do que é reflorestado.

O levantamento, denominado "Um Resumo do Status das Florestas em Países Selecionados", verificou um padrão semelhante nos países analisados. Primeiro, passam por intenso processo de desmatamento, normalmente quando estão se desenvolvendo, para abrir espaço para a agricultura e explorar matérias-primas.  Em seguida, essa devastação é interrompida por fatores que vão da escassez dos produtos florestais à preocupação ambiental. Começa então uma curva ascendente, com políticas de proteção ambiental e reflorestamento.

Fundo do poço

Para Adalberto Veríssimo, pesquisador sênior do Imazon e coordenador do levantamento no país, o Brasil está longe de acompanhar os outros Brics. "Estamos atualmente no fundo do poço e um desses bem profundos, porque quando ainda é pobre, o país dilapida suas florestas, mas à medida que se torna emergente, começa a mostrar uma curva ascendente", disse Veríssimo à BBC Brasil.  "Mas o que vemos aqui não é nada disso. O Brasil já é emergente e continua caindo, já que perde mais florestas do que planta", afirma o pesquisador, lembrando que se originalmente o país tinha 90% de seu território coberto por florestas, hoje essa proporção é de 56%.

O exemplo mais contundente talvez seja a China, que com um amplo programa oficial superou a fase de devastação intensa e já conseguiu recuperar suas florestas, apesar de ainda serem limitadas. Segundo dados da FAO, a cobertura florestal do país em 1950 não chegava nem a 10% do território, enquanto hoje ocupa 22%. "O principal interesse chinês é impulsionar sua economia e criar uma reserva estratégica para o país, protegendo, por exemplo, áreas como as que têm recursos hídricos", afirma Veríssimo. A legislação da China impede que florestas sejam suprimidas em prol de mineração ou projetos de infraestutura e só abre exceções mediante a autorização governamental e pagamento de taxa de restauração ambiental.

Curva ascendente

Já a Rússia, país com maior cobertura florestal do mundo, ampliou essa área em 15% em 60 anos e hoje tem quase metade de seu território coberto por florestas. O crescimento deve-se a uma melhoria na legislação, também resultado da menor dependência da área rural. Segundo o estudo, a Índia também já começou avançar rumo ao reflorestamento, embora em um nível bem mais tímido, de 21% para 22%. Mas o pesquisador lembra que os entraves indianos são muitos mais duros do que os brasileiros, já que eles vivem em território muito menor que o nosso com uma população cerca de seis vezes maior.

O estudo do Imazon e da Proforest, que incluiu também países europeus e da América do Norte, deixa claro que para fazer progresso nessa trajetória de recuperação ambiental são precisos incentivos do governo. 

Setores ruralistas rejeitam as conclusões do estudo pois acreditam que a falta de incentivo governamental no Brasil invalida as comparações. Eles alegam que o estudo põe lado a lado países que não são comparáveis, justamente por receberem benefícios em prol da conservação ambiental. "Esse estudo é uma interpretação parcial dos dados, porque mostra que países que, após devastarem quase toda a área verde que tinham, vêm replantando com recursos obtidos na forma de incentivos financeiros e indenizações para áreas que deixam de produzir alimentos", disse à BBC Brasil, Assuero Veronez, vice-presidente da CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária). "E não podemos comparar isso com a nossa legislção, que apenas restringe o uso sem qualquer tipo de indenização ou compensação ao proprietário".


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Degradação ambiental ameaça progresso em países emergentes, diz ONU

Se persistirem as atuais tendências globais de degradação ambiental, a progressiva melhora nos índices sociais dos países emergentes será interrompida antes de 2050, segundo o Relatório de Desenvolvimento de 2011 do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), lançado na quarta-feira passada (02/11).

"Se não fizermos nada para deter ou inverter as tendências atuais, o cenário de catástrofe ambiental conduz a um ponto de virada antes de 2050 nos países em desenvolvimento – a sua convergência com os países ricos em termos de progresso no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) ao longo das últimas décadas começa a se inverter", afirma o documento.

Segundo o Pnud, o mundo tem assistido a um enorme progresso em termos de desenvolvimento humano nas últimas décadas. Desde 1970, o IDH cresceu 41% em termos globais e 61% nos países com IDH baixo, refletindo fortes avanços na saúde, na educação e na renda. No entanto, o órgão diz que a melhora dos padrões de renda tem estado associado à deterioração em indicadores ambientais fundamentais, como as emissões de dióxido de carbono, a qualidade do solo e da água e a cobertura florestal.

Como resultado, o Pnud prevê que, em 2050, o IDH global será 8% inferior ao que seria esperado caso não houvesse graves problemas ambientais. A redução se deveria principalmente aos efeitos adversos do aquecimento global na produção agrícola, no acesso à água potável e saneamento e na poluição. O sul da Ásia e a África Subsaariana, diz o relatório, seriam os principais afetados pela deterioração ambiental, com queda de 12% em seu IDH médio. O documento afirma ainda que num cenário de "catástrofe ambiental" ainda mais adverso, que incluísse vasta desflorestação e degradação do solo, reduções dramáticas da biodiversidade e uma aceleração dos fenômenos climáticos extremos, o IDH global seria aproximadamente 15% inferior à base de referência prevista.

Preços de alimentos

Além de dificultar o acesso a bens e serviços essenciais, alerta o Pnud, os fatores ambientais adversos provocariam um aumento dos preços dos alimentos mundialmente em 30% a 50% nas próximas décadas e estimularia a volatilidade dos preços, com graves repercussões nas famílias mais pobres. Os mais vulneráveis ao aumento de preços seriam os cerca de 1,3 bilhão que trabalham na agricultura, pesca, silvicultura, caça e coleta. "As previsões sugerem que, em muitos casos, os mais desfavorecidos suportam e continuarão a suportar as repercussões da deterioração ambiental, ainda que pouco contribuam para o problema". Hoje, diz o órgão, países em desenvolvimento são os que mais sofrem com a perda de chuvas e com o aumento em sua variação, com repercussões na produção agrícola e nos meios de subsistência.

Segundo o Pnud, embora sejam os mais afetados pelas agressões ambientais, os países com IDH baixo foram os que menos contribuíram para as alterações climáticas globais. Isso porque as emissões per capita continuam muito mais elevadas nos países desenvolvidos, devido ao maior número de atividades com utilização intensiva de energia, como condução de automóveis, uso de ar condicionado em casas e escritórios e consumo de produtos alimentícios transformados e embalados.

O relatório diz que países com avanços mais rápidos no IDH registraram aumentos mais rápidos nas emissões de dióxido de carbono, o que exigiria uma revisão dos atuais moldes de desenvolvimento. "O crescimento impulsionado pelo consumo de combustíveis fósseis não é um pré-requisito para uma vida melhor em termos de desenvolvimento humano mais gerais. Os investimentos que melhoram a equidade (por exemplo, no acesso a energias renováveis, água e saneamento e nos cuidados de saúde reprodutiva) podem promover a sustentabilidade e o desenvolvimento humano".

Ranking

Em seu ranking de desenvolvimento humano, que neste ano conta com 187 países, o relatório apresentou poucas mudanças nas primeiras posições em relação a 2010. O índice, que varia entre zero e um (quanto mais próximo de um, maior o nível de desenvolvimento humano), leva em conta as realizações médias de um país em três dimensões: a possibilidade de usufruir uma vida longa e saudável, o acesso ao conhecimento e um padrão de vida digno.

Como em 2010, as cinco primeiras posições ficaram com Noruega (0,943), Austrália (0,929), Países Baixos (0,910), Estados Unidos (0,910) e Nova Zelândia (0,908). Os países integram um grupo de 47 nações cujo IDH é considerado muito elevado, e que tem Chile (44º lugar, 0,805) e Argentina (45º, 0,797) como únicos países latino-americanos. Com 0,718 ponto, o Brasil ficou na 84ª posição, na categoria de países com IDH elevado. A nota foi 0,003 ponto superior à do ano passado. As últimas posições do ranking permaneceram inalteradas: Burundi (0,316), Níger (0,295) e República Democrática do Congo (0,286).

As maiores oscilações positivas no ranking deste ano ocorreram com a Ucrânia (161), Turquia (92) e Malásia (61), que subiram, cada uma, três posições. Já a Líbia, imersa desde o início do ano em conflitos armados, que no mês passado resultaram na morte do líder Muamar Khadafi, teve a maior oscilação negativa no ranking, caindo dez posições, para 64º.

 IDH global em 2050 pode ser 8% inferior ao que seria se não houvesse graves problemas ambientais - (Foto: PA).