Mostrando postagens com marcador Mercosul. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mercosul. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de outubro de 2014

O Brasil está na 3ª divisão do comércio internacional, diz economista

[A imagem internacional do Brasil se deteriora cada vez mais, quer na área política quer na área do comércio internacional, fruto da lambança generalizada que o governo Dilma NPS (Nosso Pinóqio de Saia) tem feito no país. A reportagem de Raul Juste Lores publicada em 04/10 pela Folha de S. Paulo (reproduzida a seguir) nos dá mais uma dimensão desse estrago em nossa imagem e em nossa economia. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

"O mundo não está tão ruim quanto o Brasil", afirma Arturo Porzecanski

Raul Juste Lores -- Folha de S. Paulo, 04/10/2014

"O mundo está colocando o polegar para baixo ao pensar no Brasil e quem se eleger vai ter muito trabalho em mudar essa percepção", diz o economista Arturo Porzecanski, 65, que há 37 anos estuda a América Latina. O uruguaio foi economista-chefe dos bancos J. P. Morgan, ABN-Amro e Ing-Barings por quase três décadas e desde 2005 dirige o Programa de Relações Econômicas Internacionais da American University.

Ele acha que o Brasil "andou para trás" em inflação e protecionismo, considera que o BNDES "não tem nada a ver com a escolha de campeões nacionais da Coreia" e que o país precisa "desesperadamente achar novos mercados". "O Brasil está jogando na terceira divisão", diz.



Prof. Arturo C. Porzecanski, PhD -- (Foto: School of International Service - American University -- Washington, DC, EUA)

Porzecanski diz que o sucesso do Bolsa Família só será verificado "quando menos gente precisar dele, o número de famílias atendidas precisaria cair". Ele recebeu a Folha em seu escritório, em Washington. Confira abaixo a íntegra da entrevista, em tópicos:

Brasil desaprendeu

O Brasil desaprendeu a fazer mudanças e está andando para trás. O Brasil diz gostar de gradualismo, mas fez mudanças muito rápidas no passado. O Plano Real foi economia vudú, ortodoxa e heterodoxa ao mesmo tempo, e em dois anos controlou a inflação. O Bolsa Família e os planos sociais do Lula ficaram em pé já nos primeiros dois anos. A abertura econômica de um país que tinha um mercado fechado até para computadores foi bem rápida. Quem vencer as eleições vai ter que reaprender a fazer mudanças rápidas.

Andando para trás

Em várias coisas, a Dilma fez o Brasil andar para trás. Em 1999, Armínio tinha um plano ambicioso de metas e muito rapidamente respondeu à crise cambial. O Lula em meses dissipou a dúvida que havia sobre ele e deu luz verde para o Henrique Meirelles.

Com Dilma, o Banco Central andou para trás. O BC foi incentivado a fechar os olhos para a inflação, bem acima da meta, dá para passar um ônibus por essa meta agora. A Petrobras perde muito dinheiro para mascarar a inflação real. As contas públicas pioraram e a qualidade dos dados com manipulação contábil. Sem falar no abuso do BNDES.

BNDES e Coreia

Acho engraçado compararem a política industrial do BNDES com a escolha de campeões nacionais pela Coreia do Sul. A Coreia ofereceu subsídios para as empresas que produziam carros, eletrônicos e afins que conseguissem exportar para os mercados americano e europeu. Ela não substituiu importações, ela promoveu exportadores. Mas havia metas e prazos. O governo ajuda a empresa por "x anos" e depois ela tem que devolver essa ajuda.

Essa política hoje seria impossível, pois a OMC [Organização Mundial do Comércio] proíbe subsídios para exportações. Esse modelo é de outra época. Mas não dá para comparar o BNDES com a Coreia. Quais foram as metas para o Eike Batista? E para os frigoríficos?

Intervencionismos

O Obama subvencionou empresas de energia solar, sem muito sucesso, mas era algo para a economia do século 21. O BNDES subvencionou a economia do século 19.

Existem intervencionismos e intervencionismos. O Tesouro americano emprestou para a indústria automobilística de Detroit e para a seguradora AIG quando ninguém queria emprestar, e recebeu de volta com muitos juros. O que o BNDES vai receber do Eike? É como se o FMI [Fundo Monetário Internacional] emprestasse para países quebrados como Argentina e Venezuela sem nenhuma contrapartida.

Mundo sem estagnação

A maioria dos países do mundo anda crescendo menos do que já cresceu. Fato. Não é mais bonança. Mas o Brasil desacelerou bem mais que os demais. O mundo não está tão ruim quanto o Brasil. O mundo não está em recessão, nem estagnado.

Cálculo do Bolsa Família

México, Argentina, Brasil fizeram seus Bolsas Família. No início, uma marca de sucesso é ampliar as famílias cobertas. Mas o verdadeiro sucesso, que não vejo no modelo brasileiro, é quando o número de famílias que precisam dessa ajuda cair de fato. Se elas acham emprego, se têm salários melhores, esse número deveria cair. Isso não está acontecendo. [Ver postagem anterior sobre o Bolsa Família.]

FED em 2015

O Fed [o Banco Central americano] está fazendo o seu trabalho, sem ser brusco. Em maio de 2013, Ben Bernanke [ex-presidente do Fed] disse que os estímulos seriam reduzidos. O roteiro está sendo seguido pela Janet Yellen [atual presidente] paulatinamente. A inflação está abaixo da meta e os juros vão subir um pouco. Não acho que o Brasil será afetado bruscamente. 80% do destino do Brasil está no Brasil, não está nos EUA ou na China.

Mercosul e 3ª Divisão

O Brasil precisa correr para achar novos mercados. A aposta na OMC com o Azevedo ainda não rendeu. O regionalismo e o Mercosul não rendem mais. A negociação com a União Europeia é brecada pela Argentina. Até quando o Brasil vai esperar pela Argentina? Não quer negociar com o império, com os EUA? Ok, mas procura outros. China, Índia e outros emergentes até menores têm suas agendas e querem achar mais mercados. Não dá para entrar para jogar só se for ganhar. Parece que o Brasil tem medo e se contenta ficar jogando na terceira divisão.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Argentina reduz compras do Brasil mas aumenta importações da China

[A história é insuportavelmente repetitiva, o Brasil vive levando a pior nas relações com a Argentina, sejam elas políticas ou comerciais. Os dois se merecem -- a Argentina faz sistematicamente jogo duplo conosco, tem um prazer sádico em nos sacanear, defende seus interesses com malandragem eficiente -- vigarista, mas eficiente. O Brasil passa cada vez mais a imagem de amador, de bobo da corte, de masoquista irrecuperável, do otário satisfeito em não "contrariar" os "hermanos" seja lá o que isso nos custe. Quem fizer uma pesquisa com o verbete "argentina" no blogue encontrará várias postagens sobre esse nosso relacionamento doentio com esse vizinho, com o Brasil pagando sempre a conta -- ver, por exemplo, as postagens "Comércio externo: Brasil continua levando a pior com a Argentina" e "Argentina, um vizinho absolutamente desleal e moleque".  Agora, vem a notícia publicada pelo jornal Valor Econômico e reproduzida a seguir, de que a China ocupa espaço do Brasil na Argentina. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

China ocupa espaço do Brasil na Argentina

Marta Watanabe e Marli Olmos -- Valor Econômico, 06/8/2014

O mau desempenho das exportações brasileiras aos argentinos tem sido creditado à situação econômica do país vizinho, mas estatísticas oficiais do governo argentino indicam que a queda também pode ser resultado de perda de participação de mercado.

Os dados mostram que as importações argentinas originadas do Mercado Comum do Sul (Mercosul) caíram 18% no primeiro semestre de 2014, na comparação com igual período de 2013. As importações vindas da China cresceram 2% e as provenientes do Nafta, bloco formado por Estados Unidos, Canadá e México, tiveram alta de 9%. Isoladamente a China já tem fatia bem próxima à dos três países do Nafta juntos - cerca de 16% - nos desembarques totais argentinos. A importação total da Argentina em igual período caiu 8%. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, a exportação brasileira para os argentinos caiu 20,4% na mesma comparação.



Importações argentinas -- (Ilustração: Valor Econômico)

[Para uma visão numérica do comércio bilateral Brasil-Argentina entre 01/8/3013 a 01/8/2014, clique aqui.]

Para analistas, os números são resultado de uma pauta brasileira para a Argentina altamente concentrada em automóveis, partes e peças. Além disso, a estratégia comercial, com busca por parceiros mais fortes e com facilidade de financiamento, favorece os fornecedores da China e do Nafta, em detrimento dos sócios do Mercosul.

O avanço da China é puxado por duas categorias de uso: bens de capital, com alta de 11%, e bens intermediários, com elevação de 10%. Nas duas categorias as importações argentinas do Mercosul caíram 21% e 7%, respectivamente. Os países do Nafta também conseguiram elevar a exportação de bens de capital aos argentinos, com alta de 66% de janeiro a junho. Como resultado, os chineses e os países da América do Norte avançaram no mercado de bens de capital importados pelo sócio brasileiro no Mercosul. A importação argentina desse tipo de bem com origem no Nafta alcançou 20,9% do total de US$ 5,91 bilhões em máquinas e equipamentos importados pela Argentina no primeiro semestre de 2014.

No ano passado, a fatia dos bens de capital provenientes do Nafta era mais modesta, de 13,4%. No mesmo período, as máquinas e equipamentos feitas na China avançaram de 24,3% para 25,4%. Não foi um ganho tão grande, mas na mesma comparação o Mercosul perdeu participação, com queda de 25,7% para 19%.

Para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o controle das importações e da liberação de dólares favorece a compra de fornecedores com maior capacidade de financiamento próprio. Esse é o caso principalmente dos exportadores chineses. "Essa facilidade faz com que o fornecedor da China ofereça maior flexibilidade para prazos de pagamento em troca da oportunidade de ganhar mercado", diz Castro. [Surge aqui um desses mistérios típicos da era petista no Planalto. Em 20/7/2014, a Folha de S. Paulo informava que "crédito do BNDES na Argentina despenca". O banco estatal tem linha especial de crédito que empresta recursos a países para que empreiteiras brasileiras toquem as obras -- e também comprem máquinas usadas na construção ou ao longo do empreendimento. Trata-se da chamada exportação de serviços. Após o pico de financiamentos, em 2011 (US$ 802,8 milhões), o crédito ao país vizinho só caiu. Chegaram a US$ 152,8 milhões em 2013. De janeiro a março (último dado disponível), período de intensificação da crise, o valor foi de apenas US$ 1,1 milhão. Entre os motivos para essa forte redução, estão a aversão maior de investidores ao risco do país, a paralisia da economia argentina e a dificuldade em obter garantias para contratar os empréstimos. Pois bem, o BNDES fez um financiamento de US$ 682 milhões de dólares para Cuba -- com a brasileira Odebrecht -- modernizar o Porto de Mariel , cuja primeira parte foi inaugurada em 28/01/2014. Esse montante representa, sozinho, 85% do pico do financiamento do comércio com a Argentina. Como é que o BNDES consegue garantia para esse financiamento com um país falido como Cuba, que não pesa nada na nossa balança comercial, e não consegue fazer o mesmo com a Argentina?! Será que foi para esconder isso que o Brasil impôs sigilo sobre a documentação desse acordo com Cuba até 2027?]
Os chineses conseguiram elevar em 10% a venda de produtos intermediários aos argentinos de janeiro a junho, contra iguais meses do ano passado, mesmo com a queda de 3% na importação desse tipo de produto pela Argentina, no mesmo período. A importação de intermediários com origem no Mercosul caiu 7%. "Os dados levam a uma reflexão. Até que ponto o Mercosul é mesmo tão importante para o Brasil?", questiona Castro. A ideia que se tem, diz ele, é que o Mercosul garantiria uma espécie de reserva de mercado para o Brasil na exportação para os argentinos. "Mas não é bem isso que tem acontecido".
O Brasil, lembra Castro, perdeu espaço nas importações do país vizinho por conta da queda da importação de automóveis. O setor automotivo é um dos que mais sofrem tanto pelas restrições do governo argentino à entrada de produtos estrangeiros como pela queda de demanda provocada pela crise [ou seja, nosso comércio com os argentinos é um samba de uma nota só: automóveis]O desembarque de automóveis no país caiu 35% no primeiro semestre, em relação a iguais meses de 2013. Os carros importados do Mercosul caíram 23%. O bloco representou 77,7% das importações argentinas de veículos de janeiro a junho. A venda de intermediários e de bens de capital, diz Castro, poderia compensar para o Brasil ao menos parte da perda de divisas com exportação de carros.
"A desaceleração das vendas de veículos no mercado argentino atinge o Brasil", afirma o economista Ricardo Delgado, da consultoria Analytica, de Buenos Aires. Segundo ele, nesse caso não se trata de a China ter ocupado o espaço brasileiro nas vendas do setor. Os produtos chineses que entram no mercado argentino estão mais relacionados a eletrônicos, o que não é uma competência de países do Mercosul".
O setor automotivo foi o primeiro a sofrer com o início da recessão argentina, que começou a aparecer com a contração do PIB em 0,8% no primeiro trimestre na comparação com os últimos três meses de 2013. A produção de veículos, altamente dependente de componentes produzidos no Brasil, registrou queda de 19,8% em junho, na comparação com igual mês do ano passado. No mercado interno, as vendas das montadoras para os revendedores caíram 40%, segundo a Adefa, entidade que representa fabricantes argentinos.
Já a China vende para os argentinos produtos de menor valor agregado. Componentes para uso em eletrônicos e celulares ficaram com a maior fatia das exportações da China para a Argentina em 2013. O país sul-americano gastou US$ 4,21 bilhões com esses produtos, o que representou 37% do total de US$ 11,312 bilhões que o país asiático exportou para o mercado argentino, segundo dados da consultoria Abeceb, com base nas informações do Ministério da Economia argentino. A fatia dos eletrônicos é bem maior do que a de outros segmentos, como produtos têxteis, brinquedos, autopeças, e peças para equipamentos fotográficos, além de plásticos, com participações entre 2% e 4% cada um.
A China parece menos prejudicada dos que os outros países na política de restrições às importações do governo de Cristina Kirchner. O valor anual de embarques de produtos chineses praticamente duplicou nos seis últimos anos. Ao mesmo tempo, as exportações argentinas para o país asiático, sustentadas pela soja, ficaram estagnadas. Isso fez com que a balança comercial entre os dois países revertesse em favor dos chineses nos seis últimos anos.
"É natural que as restrições às importações tenham prejudicado mais o Brasil, que é um grande fornecedor, com produção integrada em alguns setores", diz Rodrigo Branco, pesquisador do Centro de Estudos de Estratégias de Desenvolvimento (Cedes/Uerj). Para ele, a maior entrada de bens chineses também pode ser creditada aos investimentos dos países asiáticos na Argentina, muitas vezes atrelados a compras de bens de capital e insumos da China. "De qualquer forma, a perda de participação será de difícil recuperação".
[Faltam informações importantes na reportagem acima, que confirmam que a nossa política externa -- que de maneira sui generis é conduzida por dois chanceleres, o embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado e o paraquedista Marco Aurélio Garcia -- virou uma brincadeira de mau gosto e uma palhaçada, com destaque negativo para o Mercosul. Na recente reunião do Brics em Fortaleza a China, com o apoio ostensivo e entusiasmado do Brasil, conseguiu um espaço adicional precioso na América do SulO Brasil petista ajudou a raposa chinesa a entrar no galinheiro sul-americano, e roubar-lhe espaço político, estratégico e econômico. Um dos primeiros e principais resultados disso foi um financiamento chinês de US$ 11 bi  para a Argentina -- o mercado argentino conquistado pelos chineses com esse acordo jamais será ocupado pelo Brasil. Ver também as postagens "A China é um parceiro confiável?" e "China dribla barreira via Argentina".
Fora a burrice acima, há ainda o queijo suiço do Mercosul. Empresas brasileiras e estrangeiras -- incluindo empresas têxteis chinesas -- usam brechas do Mercosul para não pagar mais imposto no Brasil. Nesse ménage à trois com Argentina e China só quem se ferra é o Brasil.]

**********
[PS -- Se tiverem tempo e paciência, vejam ainda "Mercosul: Argentina é entrave para livre comércio com a UE". Acho bom começarmos uma vaquinha para pagarmos um divã e um analista para a nossa política externa. O caso de Dilma NPS é insolúvel -- a psicanálise não resolve problemas de burrice arraigada e encroada, mesclada com overdose de teimosia.]
















domingo, 20 de julho de 2014

A China é um parceiro confiável?

[No momento em que o namoro Brasil-China está nas manchetes, com a assinatura de 32 acordos de cooperação assinados entre os dois países, é interessante constatar que até agora fracassou um projeto agrícola de grande porte no Brasil, nos alertando de que, de repente, nem tudo que tem a assinatura chinesa é de execução garantida -- parte da culpa é nossa, mas os chineses também têm culpa no cartório. A reportagem abaixo foi publica no site Exame.com em 04/4/2014. O que estiver em itálico entre colchetes é de minha responsabilidade.]



Vista geral do terreno onde a Chongqing Grain Group planeja construir uma fábrica de esmagamento e processamento de soja, perto de Barreiras, na Bahia, em fevereiro

Vista geral do terreno onde a Chongqing Grain Group planeja construir uma fábrica de esmagamento e processamento de soja, perto de Barreiras, na Bahia, em fevereiro - (Foto: Ueslei Marcelino/Reuters - Fonte: Exame)

Vista geral do terreno onde a Chongqing Grain Group planeja construir uma fábrica de esmagamento e processamento de soja, perto de Barreiras, na Bahia, em fevereiro

 Terreno da Universo Verde, subsidiária da Chongqing Grain Group: até agora a empresa só conseguiu fazer a terraplenagem de uma área de 100 hectares(Foto: Ueslei Marcelino/Reuters - Fonte: Exame)

Barreiras - Nenhuma placa em um campo árido no Nordeste do Brasil indica que ali será o centro de uma das mais ambiciosas incursões agrícolas da China na América do Sul.

Em 2011, a Chongqing Grain Group anunciou planos para construir na região de Barreiras, no oeste da Bahia, uma fábrica de esmagamento de soja, ferrovia e um polo gigante de armazenagem e transporte de grãos para exportação para a China. O valor total do empreendimento: 2 bilhões de dólares.

No entanto, até hoje, a empresa só conseguiu fazer a terraplenagem de uma área de 100 hectares, onde a unidade de processamento poderia um dia ser instalada. Com o projeto em espera, o mato e os arbustos estão começando a crescer de novo no terreno limpo.

Os planos paralisados são exemplos das dificuldades enfrentadas pelos investimentos chineses outrora promissores no Brasil. A notória burocracia brasileira, a desaceleração econômica do país e uma desconfiança profunda em relação à fome chinesa por terras parecem explicar por que o campo ainda está vazio. Uma investigação da Reuters no ano passado descobriu que, após uma onda de anúncios de investimento nos últimos anos, até dois terços dos projetos chineses no Brasil enfrentam atrasos ou nunca saíram do chão.

O governo do Estado da Bahia diz que os planos do grupo Chongqing ainda estão se movendo para a frente --lentamente. "É apenas em um processo burocrático", disse Josalto Alves, porta-voz da Secretaria de Agricultura da Bahia. Segundo ele, a fábrica precisa da aprovação de um governo municipal, bem como licenças ambientais. Não está claro se a Chongqing abandonou os outros elementos do projeto.

Representantes da empresa na China e em sua subsidiária na Bahia, chamada Universo Verde, recusaram-se a responder repetidos pedidos de entrevista. Alves disse que a empresa ainda está avaliando projetos de infraestrutura, apesar de outras autoridades locais dizerem à Reuters que as empresas brasileiras tendem a construir o polo ferroviário. Margaret Myers, diretora do programa para a China e América Latina na Inter-American Dialogue, uma empresa de análise com sede em Washington, suspeita que os atrasos são causados por mais do que burocracia.

A Chongqing Grain Group originalmente planejava não apenas construir uma unidade, mas também adquirir grandes extensões de terras ao redor, segundo a imprensa brasileira. Na época, os legisladores brasileiros expressaram preocupações de que a China estava interessada em garantir o máximo de recursos naturais que podia, com pouco benefício para o Brasil, um dos poucos países no mundo com novas terras disponíveis para a agricultura. Myers disse que o projeto da Chongqing foi amplamente percebido como uma "apropriação de terras". 

O governo brasileiro reforçou restrições à propriedade de terras por estrangeiros em 2010, exatamente quando as negociações dos detalhes do projeto estavam em andamento. Autoridades disseram privadamente que a nova legislação foi destinada principalmente a China. [Ver postagens anteriores sobre a compra de terras no Brasil por estrangeiros, em 13/7/2012, em 16/11/2012, em 25/11/2011 e em 22/2/2013. Esse assunto possui contornos de segurança nacional, principalmente no caso de empresas chinesas que, em sua esmagadora maioria, são estatais.]

O governo do Estado da Bahia passou anos cortejando a Chongqing e ainda tem um escritório na China. A China compra a maior parte da soja enviada pelo Brasil ao exterior. Mas empresas agrícolas chinesas parecem estar mudando sua abordagem após desafios recentes. Em vez de controlar toda a cadeia de produção de soja, algo que pretendia fazer na Bahia, a China tem buscado recentemente a aquisição de casas comerciais de produtos agrícolas. Na quarta-feira, 02/4, a maior trading de grãos da China, a Cofco, concordou em pagar 1,5 bilhão de dólares por uma participação majoritária na unidade de agronegócio do Grupo Noble, com sede em Cingapura.

A compra seguiu o acordo da Cofco, em fevereiro, para comprar uma participação de 51 por cento na trading de grãos holandesa Nidera, naquela que foi a primeira grande compra de uma casa de comércio por uma empresa agrícola estatal chinesa. A Cofco agora vai ser capaz de comprar suprimentos de soja diretamente no Brasil e em outros países produtores, e processá-los em ração animal na China. Isso permitiria aos chineses trabalhar com menor interferência das quatro grandes tradings de grãos do mundo: ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus . Isso pode ser mais viável do que tentar entrar no jogo do Brasil, onde empresas dos EUA e da Europa têm unidades para esmagar e negociar soja há décadas.

No oeste da Bahia, unidades da Cargill e Bunge já têm acordos para comprar soja de produtores locais. "As indústrias são muito bem estabelecidas e é difícil para os recém-chegados entrarem, mesmo para aqueles tão persistentes chineses", disse Carlo Lovatelli, presidente da Abiove, que reúne as indústrias de soja do Brasil.

A cidade de Barreiras vai analisar a proposta da Universo Verde para o plano de planta de esmagamento em breve, disse Adalto Soares, porta-voz do gabinete do prefeito, nesta semana. A planta seria integrada com um novo distrito industrial planejado para a cidade, que incluiria um porto seco com acesso ferroviário --agora suscetível de ser construído por empresas brasileiras, disse ele.

[No contexto da recente reunião dos Brics em Fortaleza  a China, com o ostensivo apoio do Brasil, conseguiu um precioso espaço adicional na América do Sul para ampliar sua posição estratégica no continente. O governo Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saias) convidou os presidente a virem ao país durante a reunião dos Brics. O Brasil petista ajudou a raposa chinesa a entrar no galinheiro sul-americano e roubar-lhe espaço político-estratégico. É impensável a hipótese de que a China faça o mesmo com o Brasil na Ásia, na África ou alhures. Muito menos em seu próprio mercado. Apesar da venda de 60 jatos aos chineses consumada agora, a Embraer tem penado para produzir aviões em sua fábrica na China.

Um dos grandes resultados para a China nesse envolvimento com países sul-americanos, com o estímulo brasileiro, foi investir, negociar, financiar e conseguir contratos na Argentina -- algo em torno de 11 bilhões de dólares. Esse espaço chinês na Argentina o Brasil jamais conseguirá desfazer, e ele certamente se ampliará.

A América Latina é o novo -- ou mais um -- campo de batalha econômico entre China e EUA. Nada me tira da cabeça que essa atitude de Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saias) de apoiar a "ocupação" da China nas nossas redondezas faz parte da miopia petista de "represálias" contra os EUA, para não deixar esmaecer a animosidade entre nós e os americanos. A China já entrou firme no setor energético brasileiro, na área elétrica e no pré-sal. Há evidências claras de que a China tem utilizado a Argentina para burlar as medidas do governo brasileiro para proteger nossa indústria de uma invasão de produtos chineses.

Enquanto se discute o papel do BNDES no financiamento a obras de infraestrutura no exterior, a China ganha espaço silenciosamente nos serviços de engenharia da América Latina e já se apresenta como uma ameaça às pretensões de empresas brasileiras em países vizinhos. Em 2003, os asiáticos detinham participação de 1,8% no mercado latino-americano de grandes obras de engenharia. Essa fatia, impulsionada por financiamento de longuíssimo prazo e compras de petróleo com pagamento antecipado, subiu sete vezes em uma década e alcançou 12,1% em 2012.

A presença cada vez mais agressiva de construtoras chinesas se coloca como ameaça ao crescimento das grandes empresas brasileiras (Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS e Camargo Corrêa) na América Latina e na Ásia. Segundo um executivo de uma empreiteira nacional, a agressividade da China não está tanto no custo do crédito -- com o qual o BNDES consegue competir --, mas nos prazos do financiamento e no volume de desembolsos. Enquanto o banco de fomento brasileiro dá entre oito e dez anos de prazo nos empréstimos a serviços de engenharia, com dois a quatro anos de carência, os chineses oferecem até 30 anos de financiamento e carência raramente inferior a cinco anos. "Outro aspecto a notar é a liberação dos recursos. O BNDES demora até 480 dias, após a aprovação do financiamento, para fazer o primeiro desembolso. A China faz isso em 120 dias", diz o executivo.

Outro expediente adotado por Pequim, especialmente na Venezuela, é fechar grandes contratos de compra de petróleo com entrega durante anos, mas pagamento antecipado. O dinheiro se volta justamente para obras executadas por empreiteiras chinesas.

Os gráficos abaixo nos dão uma ideia da posição relativa entre Brasil e China na América Latina em termos de serviços de engenharia (clique na imagem para ampliá-la):






É ilusão pretender superar a experiência e a inteligência milenares chinesas em negociações bi e multilaterais, mas o Brasil regrediu tremendamente nos últimos 12 anos nessas áreas e em política externa em termos gerais. E é sempre bom não esquecer que um contencioso com uma estatal chinesa é, em última análise, um contencioso com o Estado chinês. ]







quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Quem diria: Brasil dá ultimato à Argentina sobre oferta à UE

[Historicamente -- ou pelo menos em horizonte a perder de vista -- a Argentina nos tem feito de gato e sapato, disputando com a Bolívia quem nos faz mais de otários. Como já somos crescidinhos, esse complexo de idiotice corre por conta da política de dobradiça na espinha dorsal que é a característica da postura tradicional do Itamaraty para com nossos vizinhos fronteiriços, reforçada pela miopia burra dos governos petistas que temos tido -- ver postagem anterior sobre nossa política externa. Eis que de repente, não mais que de repente, surge no Estadão a surpreendente notícia de que o Brasil deu um ultimato à Argentina por causa do corpo mole (típico) que ela vem fazendo com relação às negociações sobre livre-comércio do Mercosul com a União Europeia (UE). Cansamos de levar pancada e resolvemos usar a Lei Maria da Penha, ou isso é só p'ra inglês ver?...]

O governo brasileiro endureceu o tom das discussões e deu um ultimato à Argentina para que apresente sua oferta com vistas à negociação de uma área de livre-comércio do Mercosul com a União Europeia. Em uma reunião de ministros das Relações Exteriores e de Economia do bloco, na terça-feira passada, em Caracas, o chanceler brasileiro, Luiz Alberto Figueiredo, cobrou uma posição do colega argentino, Héctor Timerman, segundo fontes.

"O clima é de muito mal-estar por parte do Brasil e do Uruguai, que já estão com suas propostas fechadas, faltando apenas a da Argentina para harmonizar com as demais e fechar a oferta do bloco", disse uma fonte do governo uruguaio.

Uma nova reunião extraordinária será realizada no dia 15 de novembro, também na capital venezuelana, presidente pro tempore do Mercosul. Até lá, "a Argentina terá que definir sua situação". "O que não pode é manter essa indefinição porque os prazos já esticaram demais", comentou a fonte.

Atribuindo a informação a fontes do governo argentino, em seu programa de rádio, o jornalista argentino Marcelo Bonelli disse que Figueiredo discutiu em duros termos com Timerman, afirmando que um país do tamanho do Brasil não ficará refém da Argentina.

A Argentina deveria ter encaminhado sua proposta de abertura de mercado durante a reunião realizada há uma semana, para dar início à formulação da proposta consolidada do bloco. O compromisso do Mercosul é de apresentar a oferta em dezembro. "Está claro que vamos apresentar uma oferta do Mercosul, mas para isso, precisamos que a Argentina apresente a sua. Até o Paraguai, que ainda não regressou ao bloco formalmente, já tem uma proposta fechada", disse a fonte uruguaia.

Outra fonte do governo do Uruguai comentou que a Argentina não disse se vai ou não apresentar uma proposta. Pelo contrário, tem argumentado que o país se encontra em um período de "reindustrialização" e deve ser cuidadoso para não interromper esse processo. "Se não vai apresentar sua oferta, a Argentina terá de dizer isso claramente", ressalvou.

Fonte do governo argentino reconheceu que a Argentina está demorando em dar uma resposta ao bloco, mas garante que haverá uma oferta do país. "Temos tido reuniões setoriais e entre os três ministérios envolvidos no assunto: Relações Exteriores, Economia e Indústria", disse a fonte. A última reunião entre as autoridades foi realizada na sexta-feira, apenas três dias após a conversa entre Figueiredo e Timerman.


Resistência. A maior resistência para fechar uma proposta argentina parte do secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, o xerife dos preços no país. "As políticas de controle de importações de Moreno e todas as demais que têm adotado no país são rudimentares e ideológicas", apontou a fonte.
As negociações para formar uma área de livre-comércio entre o Mercosul e o bloco europeu começaram em 1999, mas o projeto foi engavetado em 2004. Somente em 2010 as conversas foram retomadas.
[O jornal argentino Clarín, que sofre implacável perseguição de Cristina Kirchner, noticiou no dia 2 deste mês que "Devido às dificuldades criadas pela Argentina a UE negociaria apenas com o Brasil", acrescentando que "a União Europeia cansou-se de esperar pela Argentina. As negociações comerciais entre a UE e o Mercosul estão bloqueadas há vários anos e em Bruxelas se põe a culpa por isso  principalmente em Buenos Aires. A última rodada de negociações ocorreu em outubro de 2012 e os bloqueios se arrastam desde 1999". Vê-se que já perdemos incríveis 14 anos para fechar negociações de extrema importância, porque o Mercosul por definição só pode negociar em bloco e o Brasil tem tido prazer em ser refém da Argentina.
No mesmo dia 2/11 o mesmo Clarín informava que o presidente uruguaio José Mujica acusou a Argentina de "deixar o Mercosul em cacos". Esse é o Mercado "Comum" ao qual o Brasil se subjugou.]

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Com a política externa petista capenga, regida pela NPS e dois chanceleres, o Brasil está se isolando do comércio mundial

[O Mercosul é um fracasso sob qualquer ponto de vista, mas o Brasil da visão curta e da política externa mequetrefe se apega a ele como no abraço dos afogados. Todo mundo -- até membros desse mercado comum -- está fazendo acordos bilaterais de comércio com todo mundo, exceto o Brasil, que se apega à letra morta desse tratado que diz que quem deve assinar esse tipo de acordo é o bloco como um todo. Com isso, estamos ficando à margem do comércio internacional. Criado pelo Tratado de Assunção de 1991, tendo já 22 anos portanto, o Mercosul continua de fraldas. Vejam a lista dos países com os quais ele fez tratados de livre comércio: Trinidade e Tobago, Palestina, África do Sul, Egito, Marrocos, Paquistão, Índia, Israel e Cingapura ... Recentemente, comemorava-se a adesão do Suriname a esse bloco. Isso está mais p'ra patota que p'ra bloco. A reportagem abaixo, do jornal Valor Econômico de 27/9, nos deixa ainda mais desanimados. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Um racha no Mercosul tende a se aprofundar envolvendo um acordo liderado pelos Estados Unidos para liberalização mais acelerada no comércio internacional de serviços. Agora é o Uruguai que pretende aderir ao acordo, que já conta com a participação do Paraguai [ou seja, os países menores do bloco têm mais visão e senso de oportunidade que o Brasil; falar de "racha" no Mercosul é redundância -- o bloco tem mais trincas e gretas do que um solo que não vê água há um ano].

A movimentação da China para entrar na negociação começa a estimular outros países a fazer o mesmo e deve ampliar o isolamento do Brasil nesse segmento do comércio global, que representou US$ 4 trilhões no ano passado.  A expectativa era que a decisão chinesa impulsionasse a adesão de países do Sudeste Asiático. Mas o Valor apurou que quem entrou primeiro na fila para aderir ao Trade In Services Agreement (Tisa) foi o Uruguai. Essa negociação foi lançada pelos americanos em 2012 em resposta ao impasse nas negociações globais da Rodada Doha.

As discussões no Tisa visavam inicialmente atualizar as regras existentes do Acordo de Serviços. Mas EUA e Japão recentemente submeteram as primeiras ofertas de acesso ao mercado, implicando compromissos efetivos de mais liberalização por parte dos participantes. Até recentemente, Brasil e Índia contavam com a China na resistência a essa negociação, julgando que isso diminuiria as chances para um acordo na Rodada Doha e podia enfraquecer o sistema multilateral.

A balança de serviços do Brasil tem um déficit estrutural que aumentou desde 2007. Em 2012, o déficit chegou a US$ 41,1 bilhões, com as importações tendo alcançado US$ 80,9 bilhões. O setor de serviços inclui o financeiro, telecomunicações transportes, construção, turismo, distribuição, movimento de profissionais e outros, e os parceiros reconhecem que o Brasil é relativamente aberto.

A ideia no Tisa é que os participantes se comprometam desde o início com a melhor abertura que ofereceram até agora em qualquer outro acordo, e, a partir daí, consigam ampliar as ofertas de acesso ao mercado. Com os EUA, União Europeia e proximamente a China no Tisa, isso significa que novas regras do jogo no setor de serviço serão feitas sem o Brasil. Mais tarde, a tendência é que essas regras sejam estendidas a todos os países.

Segundo negociadores, o Uruguai procurou os EUA, União Europeia Austrália para participar da negociação. O tema vai ser discutido hoje, ou na semana que vem, pelos atuais participantes, que são UE (28 países), Austrália, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Hong Kong, Islândia, Israel, Japão, Liechtenstein, México, Nova Zelândia, Noruega, Paquistão, Panamá, Paraguai, Peru, Coreia do Sul, Suíça, Taiwan e Turquia. [Cadê o Brasil?!]

O setor de serviços é um dos mais dinâmicos da economia internacional. A China quer investir no exterior mais nesse segmento.

[O problema do Brasil no Mercosul e na América Latina tem nome e endereço -- chama-se Argentina. Como os hermanitos são grandes importadores de produtos brasileiros de alto valor agregado, a lógica reinante e predominante no Itamaraty é definitivamente não criar caso com esses vizinhos, para não dar "ruído" em nosso comércio com eles. Enquanto estive na área internacional da Eletrobras, toda vez que reclamava de descumprimentos de compromissos pelos argentinos e pedia que fossem enquadrados, recebia orientação expressa do Itamaraty para "maneirar" com os hermanitos -- é bom frisar que eles fazem o jogo para nos tirar o máximo possível sem contrapartida, nós é que somos otários por não fazermos o mesmo. É a velha política de "n" dobradiças na coluna vertebral  da nossa diplomacia. Além de sermos o único país do mundo a ter dois chanceleres em exercício -- quem se der o trabalho de examinar as lambanças da nossa política externa em Honduras, Bolívia e Venezuela, por exemplo, encontrará as 20 impressões digitais de Marco Aurélio Garcia. Só que elas aparecem em ordem inversa, primeiro vêm as dos membros inferiores.

Enquanto o Brasil banca o marido fiel rodeado de Ricardões pelas costas e dentro do quarto do casal -- e se delicia com essa posição masoquista de traído manso -- outros países da região vão se juntando para formar outros blocos e outros mercados comuns, como é o caso do MILA - Mercado Interado Latino-Americano, formado inicialmente por Chile, Colômbia e Peru e já com a adesão do México. O Mila já começa dando um banho de modernidade e estratégia no Mercosul: seus membros têm liberdade de negociar individualmente com quem quiserem.

Cheguei a participar de algumas negociações muito preliminares sobre a abertura do mercado internacional de serviços. São negociações muito complexas, em que o mercado brasileiro é extremamente cobiçado. Não vai ser com isolamento e apegado a um Mercosul já emborcado que nosso país vai conseguir defender seus interesses. Enquanto damos uma de ceguetas,  a turma -- incluindo vizinhos fronteiriços nossos e "parceiros" do Mercosul-- vai se mexendo e pode começar a comer o mingau pelas beiradas. Se bobearmos, ficaremos a ver o fundo do prato, limpinho, raspado com o miolo de pão do oportunismo correto, pragmático.]












sábado, 13 de julho de 2013

Foto revela a razão do fracasso do Mercosul

Finalmente, uma foto aparentemente simples acabou definitivamente com o resquício de mistério que cercava o porquê do fracasso rotundo do Mercosul:


(Foto: Reuters/Fonte: O Globo)

Com líderes como esses não há grupo, grupelho, mercado comum, associação beneficente, Rotary Clube, Lions Clube, associação de bairro, clube de porrinha ou qualquer outra coisa que possa dar certo. Destaque para o jeitinho coquete da dama de negro. O representante do Paraguai está atrás do painel azul, aguardando a chamada.

sábado, 6 de abril de 2013

Mais um microfone ligado e despercebido cria azedume político

Peixe e político morrem pela boca. O animal político -- raramente pertencente às espécies mais nobres da fauna terrestre -- via de regra é apanhado dizendo besteira e/ou inconveniência na boca de um microfone aparentemente desligado. Os exemplos são vários. No Brasil, o certamente mais famoso é o de Rubens Ricúpero em setembro de 1994, quando ministro da Fazenda de FHC, que foi apanhado dizendo que não tinha escrúpulos e escondia [do povo] o que era ruim -- isso custou-lhe o cargo.

No palco internacional, as ocorrências são inúmeras: - i) não ao microfone, mas em uma ligação telefônica interceptada, Berlusconi chamou a Itália de país de merda e Angela Merkel de "uma gorda com quem ninguém quer ter relações sexuais"; - ii) Obama já foi vítima de dois microfones: um em novembro de 2011, quando ele e Nicholas Sarkozy falavam mal de Benjamin Netanyahu, e o outro em março de 2012 quando, em conversa que pensava ser em "off" com o presidente russo Dmitri Medvdev, pediu que este falasse com o recém-eleito Vladimir Putin para deixar o assunto dos mísseis de defesa para depois das eleições americanas quando então ele, Obama, teria mais "flexibilidade" para tratar do assunto.

Outros exemplos de gafes políticas de microfone aberto podem ser encontrados em lista do Globo.

O bafafá do momento nesse capítulo "microfone aberto" são as declarações do presidente uruguaio José Mujica que disse ao governador da província uruguaia de Florida, referindo-se ao casal Kirchner (Nestor e Cristina): "Essa velha é pior que o vesgo [...]. O vesgo era mais político, ela é teimosa" (ver vídeo abaixo). E continuou, falando do encontro de Cristina com o Papa Francisco: "A um papa argentino, de 77 anos, ela vai explicar o que é um mate e uma garrafa térmica?". Outra frase que teria dito, quando avisado de que suas declarações sobre Cristina Kirchner estavam sendo gravadas, pioraria a situação: "Que problema traz uma mancha a mais no tigre?".

A chancelaria argentina declarou que "é inaceitável que comentários denegrintes que ofendem a memória e a investidura de uma pessoa falecida, que não pode replicar nem defender-se, tenham sido feitos, e principalmente, por alguém que Kirchner considerava seu amigo".

Do lado uruguaio, nem resposta oficial nem informal. Nada. A orientação do governo de Mujica teria sido deixar o tempo passar e não agravar as relações com a Argentina. Houve a expectativa de que Mujica dissesse algo, quando anunciou uma audição especial de seu programa radiofônico semanal das quintas-feiras, em uma empresa privada de FM. Mas, essa expectativa se frustrou. Mujica não se desculpou, não esclareceu, nem fez qualquer referência ao ocorrido no dia anterior.

O deputado argentino Fernando "Pino" Solanas, do movimento político, social e cultural "Projeto Sul", levou a tragédia greco-uruguaia-argentina para o lado do humor e disse que "o que certamente mais doeu a Cristina foi seu par oriental tê-la chamado de velha".

Nesse ambiente de ópera bufa segue a nave do Mercosul, à deriva. A charge abaixo, publicada no site uruguaio Información, do El País, reflete bem o clima reinante no Cone Sul:

Charge de jtxo, publicada no El País, do Uruguai.



segunda-feira, 18 de março de 2013

Comércio externo: Brasil continua levando a pior com a Argentina

[Um mistério médico ronda as relações entre os dois principais membros do Mercosul: por que o Brasil não teve ainda uma indigestão de tanto engolir sapos da Argentina?! - Ver postagem anterior sobre nosso relacionamento com a Argentina.]

A queda nas exportações para a Argentina e no superávit comercial com o país foi maior para o Brasil que para todas as outras nações que têm forte comércio com os argentinos. As importações argentinas de produtos brasileiros diminuíram 18% em relação a 2012 e o saldo comercial, 65%, segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), com dados da consultoria argentina Abeceb.com.

Entre os cinco maiores sócios comerciais da Argentina, todos os outros tiveram melhoria em seu saldo - de 52% para a Alemanha, 29% para os EUA e 14% para a China. A Argentina, enquanto reduzia compras do Brasil, aumentou em 160% as da Holanda, 9% as dos EUA, 7% as do Japão e 2% as da Alemanha. Só as exportações provenientes do Canadá tiveram um tombo proporcionalmente semelhante ao do Brasil.

O aumento das compras de energia elétrica e os altos e baixos dos influentes mercados de automóveis e bens de capital explicam boa parte do mau desempenho do Brasil. A magnitude das quedas, porém, levanta desconfiança de excesso de proteção [contra o Brasil]. O resultado é que a Argentina leva governos e empresários vizinhos a cair na tentação de rever as bases do acordo que criou o Mercosul como união aduaneira - onde, na teoria, bens e serviços circulariam sem limitações. Na semana passada, o presidente do Uruguai, José Mujica, repetiu um velho cantochão uruguaio e declarou aos jornais que os sócios do Mercosul estariam melhor sem o voto de obediência ao bloco.

Empresários brasileiros se queixam de que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que atravessar as alfândegas platinas com certas mercadorias. Em 2004, menos de 4% das vendas brasileiras à Argentina sofriam algum tipo de restrição. Em 2008, eram 13% e em 2011, 20%. Em 2012, chegou-se ao inferno dos 100%, com a imposição de um verdadeiro purgatório burocrático.  Nos preparativos para o encontro marcado entre presidentes, que foi adiado após a morte do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, as autoridades brasileiras pediram que a Argentina eliminasse, pelo menos para sócios do Mercosul, a famigerada Declaração Juramentada Antecipada de Informações (Djai), exigida de todos os produtos que cruzam a fronteira. Os negociadores argentinos lavaram as mãos.
 
Criada no ano passado, como parte do esforço argentino para garantir folga nas contas externas, a Djai é o principal mecanismo heterodoxo de controle sobre importações. Atrasando ou simplesmente brecando a emissão das Djai, o governo argentino administra sua balança comercial, que, em 2012, teve um saldo comercial de quase US$ 12,7 bilhões, graças, principalmente, ao calvário imposto aos importadores no país. As exportações argentinas, aliás, caíram 7% em 2012.

A rejeição do pedido brasileiro confirma a suspeita de que o controle informal das importações incorporou-se definitivamente ao credo argentino em matéria de comércio. O Observatório de Defesa Comercial da CNI definiu o ano de 2012, como um "ponto de inflexão" nas heresias comerciais do vizinho, pelo volume de medidas: além da Djai, a Argentina, em 2012, criou uma "Djas", para os serviços; passou a atrasar a emissão de licenças de importação (medida suavizada nos últimos meses, após queixas dos principais parceiros comerciais); criou "valores-critério", preços mínimos para produtos importados; e os planos "uno por uno", em que, para liberar os papéis de importação, o governo passou a exigir que se exportassem mercadorias no mesmo valor.

Consideradas blasfêmia grave no sistema multilateral, essas iniciativas argentinas foram contestadas na Organização Mundial do Comércio (OMC), onde União Europeia, Japão e Estados Unidos abriram painéis contra as medidas do governo Cristina Kirchner. O México ameaçou, mas abandonou a disputa em troca de cotas de exportação de carros na Argentina - que, como o Brasil, havia decidido rever o comércio administrado com os mexicanos.
 
Para o economista Dante Sica, da consultoria Abeceb.com, a balança comercial será o principal impulso para a economia argentina, com a benção da melhoria no cenário externo, de maiores preços de commodities e melhores condições econômicas nos maiores mercados. No campo da relação bilateral, o comércio Brasil-Argentina tem pouco espaço para melhorar, mas é nos investimentos de um país no outro que estão as principais oportunidades de preparar os sócios do Mercosul para um relacionamento maduro com a região da Ásia e do Pacífico, que promete ser o polo mais dinâmico da economia mundial nos próximos anos, avalia Sica.

Há consenso entre os dois governos de que é preciso seguir esse caminho e incentivar a integração produtiva entre os sócios do Mercosul. Cabe aí, porém, um velho chavão: o diabo está nos detalhes. O futuro dessas difíceis conversas sobre integração dependerá da sinalização emitida pelos países aos potenciais investidores - como, por exemplo, a forma como o governo argentino administrar a recente decisão da Vale de suspender seus investimentos no bilionário projeto Rio Colorado, de extração de potássio no país. Por enquanto, o governo Kirchner proibiu demissões, ameaçou confiscar a mina onde a Vale enterrou US$ 2,2 bilhões e trata a questão como uma afronta nacional.



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O fantasma da inflação encurrala a Argentina

[O texto que traduzo abaixo foi publicado no jornal espanhol El País de ontem. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. Embora um pouco longo, o artigo lembra situação quase idêntica que vivemos há pouco mais de duas décadas, antes do Plano Real. Vale também como um alerta para o foco excessivo no consumo, único ponto em comum entre Dilma e a medíocre Cristina Kirchner. No mais, estamos muito melhores que os argentinos, embora sempre sacaneados por eles.]

Na Argentina se pode comprar a prestação desde uma alface até uma passagem de avião. Uns pagam com cartão de crédito porque não têm outra saída senão endividar-se, e outros porque sabem que as últimas mensalidades que pagarão sairão mais baratas por causa da inflação. A publicidade dos bancos não busca vender planos de poupança e sim que os clientes adquiram seus cartões de crédito, e paguem tudo o que possam com eles em prestações.

O governo baseou sua gestão em promover o crescimento via consumo [qualquer semelhança com o governo Dilma neste quesito não é mera coincidência, mais jamais cometerei o pecado de nivelar a ex-guerrilheira com a medíocre Cristina]. E o país cresceu de 2003 a 2011 a uma média de 7,5%, mais do que nunca cresceu em dois séculos de existência. Ganharam os bancos e ganhou a maioria da população. A inflação seguia como uma moto, e os salários subiam como foguetes. Até que, no ano passado, o PIB despencou de 8,9% para 2%.

A inflação, no entanto, seguiu aumentando de forma ininterrupta. Era como um familiar incômodo sentado à mesa, que o chefe da família trata de ignorar -- e, quanto mais o ignoram, mais ele perturba. Em 2007 tentou-se escondê-lo, cobrindo-o com um lençol -- ou, o que dá no mesmo, o governo interveio no Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), baixou de forma grosseira a inflação e as estatísticas perderam toda a sua credibilidade.  As cifras oficiais falam agora de uma inflação de 10,85, e as extraoficiais a situam em cerca de 25% [ver postagem anterior sobre esse comportamento argentino].

A presidente Cristina Fernández faz apenas menção à inflação, e quando o faz é para explicar que ela não deve ser uma prioridade. Nos mais de 200 discursos que fez no ano passado, mencionou em 432 ocasiões a palavra "crescimento" -- e apenas 24 vezes falou em inflação. Mas, houve um dia de setembro em que ela a mencionou 26 vezes, quando os estudantes de Harvard lhe perguntaram por ela.  E esta foi parte de sua resposta:

"Se realmente a inflação fosse de 25% (...), de onde as pessoas tiram dinheiro? Me encantaria Nicole, assim como a Kevin, convidá-la a ir a Buenos Aires para ver o que é o consumo em Buenos Aires, passear por Buenos Aires. É uma cidade lindíssima. Convidá-la a ver os restaurantes cheios, os shoppings cheios, as pessoas consumindo. Se realmente a inflação fosse de 25% ou 26%, o país iria pelos ares [Dona Cristina se esqueceu de que vencemos uma inflação de 80% ao mês ...]. Não poderíamos ter pago os bilhões de dólares que pagamos, não poderíamos ter sustentado um crescimento da economia como o que sustentamos. E, muito menos, teríamos conseguido a inclusão de milhões de excluídos que hoje estão consumindo e têm seguro social ou um trabalho em uma cooperativa, ou um emprego formal".

[Aos interessados, eis o vídeo da reunião de Cristina Kirchner com os estudantes de Harvard.]

Vídeo da entrevista de Cristina Kirchner com estudantes de Harvard - (Fonte: YouTube).

O país não explodiu.  Apenas morreram duas pessoas e mais de 500 foram detidas durante os saques que ocorreram  em várias cidades no início do último Natal. Houve também um "panelaço" [pessoas batendo em panelas para protestar, uma das manifestações públicas de desagrado preferida dos argentinos] por cerca de 700.000 pessoas, pertencentes em sua grande maioria à classe média. E, em novembro, houve uma greve geral organizada por sindicalistas que até este ano eram aliados do governo. Enquanto isso, o FMI (Fundo Monetário Internacional) exigiu várias vezes ao governo argentino que melhorasse a confiabilidade de suas estatísticas.  Até que, no dia 1 deste mês de fevereiro, repreendeu um país pela primeira vez em seus 69 anos de existência com uma moção de censura, por não corrigir "a inexatidão dos dados" relativos à inflação e ao PIB.  E fez um ultimato ao país para que apresente até 29 de setembro cifras mais coerentes com a realidade.

Realmente, porém, os restaurantes, as lojas e os teatros de Buenos Aires estão cheios -- e, entretanto, quase todos os indicadores apontam para os 25% [de inflação] que Cristina associa com explosão social. No ano passado, o governo procurou fazer com que os acordos salariais se fizessem com "apenas" 18% de aumento, mas a maioria dos trabalhadores conseguiu um mínimo de 20%. Este ano o governo quer fixar o limite nos 20% (quase o dobro da inflação oficial), mas mesmo os sindicatos mais chegados ao governo reclamam aumentos entre 25% e 30%. As negociações começam agora, e se estenderão pelos próximos dois meses.

E foi no meio dessa tensão com os sindicatos que o governo deu um passo inédito, que implica um reconhecimento do fantasma inflacionário. Na segunda-feira [4 de fevereiro], o ministro do Comércio, Guillermo Moreno, se reuniu com as principais cadeias de supermercados e conseguiu arrancar-lhes o compromisso de que manterão congelados os preços de 1 de fevereiro a 1 de abril. No dia seguinte, o ministro conseguiu que o comércio de eletrodomésticos aderisse à iniciativa.

O que pretende o governo com essa ação? A presidente, que na semana passada escreveu 28 vezes no Twitter contra a política do FMI [deve ter sido a primeira e única vez que essa rede social serviu como palanque ao presidente de um país ...], não se pronunciou até agora sobre uma decisão que afeta tantos milhões de pessoas.  Os sindicatos, no entanto, responderam logo em seguida. Afirmam que o governo pretende estabilizar a inflação só nesses dois meses, para que os acordos salariais se concluam com aumento de "apenas" 20% [as aspas no "apenas" são minhas] -- mas eles, os sindicatos, advertiram que não pedirão menos que 25%.  "Esse acordo [de congelamento] pode ajudar a controlar a inflação apenas momentaneamente", prevê o economista Ernesto Kritz, "mas seu alcance será muito limitado se não for acompanhado de outras medidas macroeconômicas e fiscais, como por exemplo acabar com as restrições às importações. Na maioria das vezes em que se tentou aplicar algo semelhante nas décadas anteriores, a medida fracassou".

Entretanto, gente como Néstor Burruni, músico terapeuta e psicanalista de 53 anos, apoia o congelamento. Na sexta-feira, Burruni foi com sua mulher a uma loja no centro da cidade que havia aderido à iniciativa do governo. "Me agrada que o governo tenha políticas firmes contra o monopólio de preços, assim como as tem contra a mídia. Pelo menos se tenta fazer algo, se reconhece que há um problema. Oxalá que com essa medida alcance também a cesta básica, sem que se tenha que endividar. Para nós, comprar essa cesta básica implica gastar una 4.000 pesos por mês (cerca de 800 dólares no câmbio oficial e 600 dólares no paralelo). E não dá, a não ser que eu faça dívida com o cartão de crédito". Burruni admite que a classe média, a que pertence, é a grande relegada nas políticas sociais. "Mas, enquanto o governo continuar favorecendo aos mais pobres contará com todo o meu apoio. Não me importo de sacrificar-me".

O que os outros consumidores receiam é que os preços disparem como nunca depois de abril. Mas, por enquanto, as lojas, os comércios e os teatros de Buenos Aires continuam cheios -- e, "as pessoas, consumindo", como dizia Cristina Kirchner.