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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Um desastre com avião militar americano na Espanha, envolvendo bombas de hidrogênio, revelado após 50 anos

[Traduzo a seguir (parcialmente) a primeira de duas longas reportagens de Dave Philipps, do The International New York Times, sobre um desastre ocorrido em 1966 com um bombardeiro B-52 da USAF (Força Aérea dos EUA) com plena carga, em uma patrulha nuclear durante a Guerra Fria. Equipado com quatro bombas de hidrogênio, o bombardeiro se chocou contra uma aeronave de reabastecimento aéreo e explodiu, e as bombas caíram na costa da Espanha, perto da vila de Palomares. A reportagem relata os fatos e as doenças adquiridas por diversos membros da USAF que participaram do desastre e/ou das providências subsequentes. Mais uma vez, surpreende e traumatiza a fria indiferença das forças armadas americanas com vítimas de atividades suas. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]


Em 1966, um bombardeiro B-52 em uma patrulha nuclear da Guerra Fria explodiu sobre a Espanha, liberando quatro bombas de hidrogênio. Cinquenta anos depois, veteranos da Força Aérea envolvidos na limpeza da área afetada pelo acidente estão doentes e querem reconhecimento - (Vídeo: Kassie Brake, em 12/6/2016. Foto: Kit Talbot)

Destroços de um avião americano que caiu em Palomares (Espanha), após colidir com outro em pleno voo em 1966 - (Foto: Kit Talbot)

Alarmes soaram na bases aéreas americanas na Espanha, e oficiais começaram a reunir todo o pessoal de baixo escalão que podiam e a colocá-los em ônibus para uma missão secreta. Entre eles havia cozinheiros, empregados de mercados e até músicos da banda da Força Aérea.

Era tarde em uma noite de inverno de 1966 e um bombardeiro B-52 completamente carregado, em uma patrulha nuclear da Guerra Fria, havia colidido com um jato de reabastecimento sobre a costa espanhola e liberado suas quatro bombas de hidrogênio, que caíram sobre uma vila rural chamada Palomares. Era um emaranhado de pequenos campos agrícolas com casas brancas, em um canto à parte da acidentada costa ao sul da Espanha, que pouco mudou desde os tempos romanos. 

Foi um dos maiores acidentes nucleares da história, e os EUA queriam-no limpo rapidamente e em surdina. Mas, se algo foi dito aos homens que se acomodavam nos ônibus sobre os planos da Força Aérea para limpar (eliminar) material radioativo despejado foi simplesmente "Não se preocupem". 

"Não se disse nada sobre radiação, plutônio ou qualquer outra coisa", disse Frank B. Thompson, então um trombonista de 22 anos que passou dias vasculhando campos contaminados, sem equipamentos de proteção ou até mesmo troca de roupas. "Nos disseram que era seguro, e acho éramos estúpidos o suficiente para acreditar neles". 

Thompson, com 72 anos, agora tem câncer no fígado, em um rim e em um pulmão. Ele paga US$ 2.200 por mês por seu tratamento e isso não lhe custaria nada em um hospital de veteranos, se a Força Aérea o reconhecesse como uma vítima de radiação. Mas, por 50 anos, a Força Aérea insiste em que não havia radiação perigosa no local do acidente. Ela diz que o perigo de contaminação era mínimo, e medidas rígidas de segurança garantiram que todos os 1.600 homens envolvidos na operação estivessem protegidos. 

Entrevistas com dezenas de homens como Thompson e detalhes de documentos liberados nunca antes revelados contam uma história diferente. A radiação perto das bombas era tão alta, que os equipamentos de monitoramento saíam da escala. A equipe da USAF passou meses cavando e remexendo poeira tóxica, usando como proteção pouco mais do que uniformes militares de algodão. E quando os testes realizados durante a limpeza indicaram que os homens tinham índices alarmantemente elevados de contaminação por plutônio, a Força Aérea descartou os resultados, classificando-os de "claramente irrealistas". 

John H. Garman estava na Força Aérea americana por ocasião do acidente com o B-52 em 1966, e foi um dos primeiros a chegar no local do desastre - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)

Nas décadas decorridas desde então, a Força Aérea tem propositadamente mantidos os testes de radiação fora dos arquivos médicos dos homens envolvidos na limpeza, e tem resistido a pedidos para retestá-los, mesmo quando os pedidos resultam de estudos da própria Força Aérea.

Muitos homens dizem que estão sofrendo com os efeitos impeditivos ou paralisantes do envenenamento por plutônio. De 40 veteranos que atuaram na limpeza, identificados pelo The New York Times (NYT), 21 tiveram câncer. Nove deles morreram em decorrência disso. É impossível conectar cânceres individuais com uma única exposição a radiação. E nenhum estudo formal de mortalidade jamais foi feito para determinar se há uma incidência elevada de doença. A única evidência que esses homens têm para se apoiar são as anedotas de amigos que viram definhar. 

"John Young, morto de câncer ... Dudley Easton, câncer ... Furmanski, câncer", disse Larry L. Slone, 76 anos, em uma entrevista elaborando através de tremores causados por um distúrbio neurológico.  No local do acidente, um oficial da polícia militar na época, Slone disse que recebeu um saco plástico e a ordem para apanhar fragmentos radioativos com as mão sem proteção, nuas. "Um par de vezes me checaram com um contador Geiger e ele nitidamente saiu de escala", disse ele. "Mas, nunca anotaram meu nome e nunca fizeram qualquer acompanhamento comigo". 

O monitoramento da vila rural espanhola também foi caótico, como mostram os documentos liberados. Os Estados Unidos prometeram pagar um programa de saúde para monitorar os efeitos de longo prazo da radiação no local, mas durante décadas providenciaram poucos recursos para isso. Até os anos 1980, cientistas espanhóis frequentemente se apoiavam em equipamentos quebrados e desatualizados, e careciam de recursos para fazer acompanhamento de ramificações potenciais, incluindo mortes de crianças por leucemia. Hoje, várias áreas restringidas por cercas ainda estão contaminadas, e há pouco conhecimento sobre os efeitos de longo prazo sobre a saúde dos moradores locais.

Muitos dos homens que efetuaram a limpeza após a queda do avião estão tentando obter cobertura total de saúde e compensação por incapacidade do Departamento de Assuntos de Veteranos. Mas este órgão se apoia nos registros da Força Aérea, e como esses registros dizem que ninguém foi atingido em Palomares, o departamento rejeita os pedidos reiteradamente.

A Força Aérea nega  também qualquer dano a 500 outros veteranos que limparam a área de um outro acidente quase idêntico em Thule, Groenlândia, em 1968. Esses veteranos tentaram processar o Departamento de Defesa em 1995, mas a ação foi negada porque a legislação federal americana blinda os militares contra alegações de negligência feitas por membros da tropa. Todos os demandantes, desde então, morreram de câncer.

Em um comunicado, o Serviço Médico da Força Aérea afirma que recentemente utilizou técnicas modernas para reavaliar os riscos de radiação para os veteranos que limparam o local do acidente de Palomares e "efeitos adversos agudos na saúde não eram nem esperados, nem observados, e foram baixos os riscos de longo prazo de aumento de incidência de câncer no osso, no fígado e no pulmão".

As consequência tóxicas de uma guerra são exasperantes para se elucidarem. Dano é difícil de ser quantificado e quase impossível de ser vinculado a problemas posteriores. Reconhecendo isso, o Congresso aprovou leis no passado para propiciar benefícios imediatos a veteranos submetidos a poucas e específicas exposições -- Agente Laranja no Vietnam ou os testes atômicos em Nevada, entre outros. Mas não existe lei semelhante para os homens da limpeza de Palomares.

Se os homens pudessem provar que foram afetados pela radiação, teriam cobertura para todo o atendimento médico relativo a isso e ganhariam uma modesta pensão por incapacitação. Mas, conseguir provas de uma missão secreta para limpar um veneno invisível décadas atrás tornou-se uma tarefa difícil de ser feita e até de difícil lembrança. 

(...)

O dia em que as bombas caíram

Um oficial da polícia militar de 23 anos, chamado John H. Garman, chegou de helicóptero no local do acidente em 17 de janeiro de 1966, poucas horas depois que as bombas explodiram. "Era tudo simplesmente caótico", Garman (hoje com 74 anos) disse em uma entrevista em sua casa em Pahrump, Nevada. "Havia destroços por todo vilarejo. Uma grande parte do bombardeiro tinha caído no pátio da escola local". 

Ele foi um dos primeiros a chegar ao local do acidente e juntou-se a meia dúzia de outros homens para procurar pela quatro armas nucleares desaparecidas. Uma bomba havia se enterrado em um banco de areia macio perto da praia e ficado retorcida, mas havia explodido. Outra havia caído no mar, onde foi encontrada intacta dois meses depois, após uma busca frenética.

As outras duas atingiram fortemente o solo e explodiram, deixando crateras do tamanho de uma casa em cada lado do vilarejo, de acordo com um relatório secreto da Comissão de Energia Atômica, que depois foi liberado. Dispositivos internos de segurança impediram a detonação nuclear, mas explosivos ao redor dos núcleos radioativos foram detonados e uma fina poeira de plutônio se espalhou sobre as casas e campos e sobre plantações de tomates maduros.

Uma multidão de moradores levou Garman até às crateras cobertas de plutônio, onde fitavam atentamente os destroços sem saber o que fazer. "Não tínhamos ainda nenhum detetor de radiação, então não tínhamos ideia se estávamos em perigo", disse ele. "Simplesmente ficamos ali, olhando para o buraco".

Cientistas da Comissão de Energia Atômica chegaram logo e ficaram com as roupas de Garman porque estavam contaminadas, contou ele, mas disseram-lhe que ficaria bem. Doze anos depois ele teve câncer na vesícula.

O plutônio não emite o tipo de radiação penetrante geralmente associada a explosões nucleares, que causa imediatamente efeitos evidentes na saúde, como as queimaduras por exemplo. Ele libera doses de partículas alfa, que percorrem apenas poucas polegadas e não podem penetrar a pele. Fora do corpo, dizem os cientistas, ele é relativamente inofensivo, mas pequenos pontos absorvidos pelo corpo, usualmente pela inalação de poeira, deflagram uma enxurrada de partículas radioativas milhares de vezes por minuto, provocando gradualmente danos que podem causar câncer e outras doenças décadas mais tarde. Um micrograma, ou um milionésimo de uma grama, no organismo é considerado potencialmente nocivo. De acordo com documentos da Comissão de Energia Atômica já liberados, as bombas de Palomares liberaram uma quantidade estimada de sete libras-peso -- mais de 3 bilhões de microgramas.

No dia seguinte ao desastre, ônibus carregados de pessoas (soldados e outros) vindos de bases americanas começaram a chegar, trazendo equipamentos de medição de radiação. William Jackson, um jovem tenente da Força Aérea, ajudou em um dos primeiros testes próximo às crateras, usando um contador de partículas alfa manual que podia medir até dois milhões dessas partículas por minuto.

"Quase em todo lugar para onde apontávamos o medidor, ele grudava no fim da escala", disse Jackson. "Mas nos disseram que aquele tipo de radiação não penetrava na pele, que estávamos em segurança". 

O Pentágono se concentrou em encontrar a bomba perdida no mar e basicamente ignorou o perigo de plutônio liberado, disse o pessoal da Força Aérea presente no local. Soldados vagaram inutilmente por plantações de tomates altamente contaminadas, sem qualquer proteção. Muitos vinham para olhar estupidamente para as bombas despedaçadas nos primeiros dias. "Uma vez fui checar os militares e os encontrei sentados, balançando as pernas sobre as crateras", disse Jackson. "Simplesmente sentados lá, comendo seu almoço".

Depois que a existência das bombas vazou, mais de um mês depois, os Estados Unidos admitiram que uma bomba, não duas, havia "rachado", mas havia liberado apenas uma "pequena quantidade" de radiação basicamente inofensiva.

Hoje, as duas bombas explodidas seriam conhecidas como bombas sujas e, provavelmente, provocariam evacuação de moradores. Na época, para minimizar a importância do desastre, a Força Aérea deixou os moradores em paz.

(...)

Uma limpeza às pressas

Temendo que as bombas pudessem prejudicar o turismo, a Espanha insistiu para que a sujeira fosse removida antes do verão. Dentro de dias, soldados estavam cortando com facões as plantações de tomates contaminadas. Embora os cientistas que supervisionavam a limpeza soubessem que a poeira de plutônio era o perigo maior, os comandantes militares obrigaram seus subordinados a jogar em máquinas de cortar milhares de carregamentos de videiras transportados por caminhões, e depois queimaram grande parte das sobras perto do vilarejo.

Alguns dos homens que faziam o trabalho mais sujo receberam macacões e máscaras cirúrgicas de papel como proteção, mas um relatório posterior emitido pela Agência de Energia Nuclear disse: "É duvidoso que a as máscaras cirúrgicas fossem mais do que uma barreira psicológica". 

Pessoal da Força Aérea usando luvas e máscaras trabalhando em locais onde três bombas de hidrogênio foram encontradas - (Foto: USAF)

(...)

Arquivo clínico militar de John H. Garman em 1979, indicando exposição a plutônio na Espanha - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)

A Força Aérea comprou toneladas de tomates contaminados da produção local, que os espanhóis se recusavam a comer. Para assegurar aos moradores de que não havia risco, os comandantes militares incluiu os tomates na alimentação do pessoal da base militar. Embora o risco de comer plutônio seja menor do que o de inalá-lo, ainda assim isso não é seguro.

"Era tomate no café da manhã, no almoço e no jantar. Nós os comemos até nos enjoarmos deles", disse Wayne Hugart (74 anos), que era um oficial da polícia militar no local. "Continuaram nos dizendo que não havia nada de errado com os tomates".

Pessoal da Força Aérea que trabalhava na limpeza e recuperação da área do desastre eram geralmente alimentados com produtos oriundos de Palomares - (Foto: Kit Talbot)

(...)

Para assegurar aos moradores que suas casas eram seguras, a Força Aérea mandou jovens da sua tropa às residências locais com detetores de radiação manuais. Peter M. Ricard, então um cozinheiro de 20 anos de idade sem qualquer treinamento com o equipamento, lembra de ter sido encarregado de escanear tudo que os moradores pedissem, mas que mantivesse seu detetor desligado.

Testes jogados fora 

Durante a limpeza, uma equipe médica coletou mais de 1.500 amostras de urina da equipe de limpeza para calcular quanto de plutônio estavam absorvendo. Quanto maior o nível nas amostras, maior o risco à saúde.

Os registros desses testes permanecem talvez como o elemento mais proeminente da limpeza. Eles mostram que cerca de apenas 10% dos homens absorveram mais do que a dose admitida como segura, e o resto dos 1.500 testados não foram afetados. A Força Aérea, hoje, se apoia nesses resultados para argumentar que os homens não foram afetados por radiação. Mas os homens que na realidade realizaram os testes dizem que os resultados foram profundamente falhos e são de pouca utilidade para determinar quem foi afetado.

"Seguimos o protocolo? Droga, não. Não tínhamos nem tempo, nem equipamento", disse Victor B. Skaar, agora com 79 anos, que fez parte da equipe responsável pelos testes. A fórmula para determinar o nível de contaminação exigia que a coleta de urina fosse feita durante 12 horas, mas ele disse que que só conseguia obter uma única amostra de muitos dos homens. E outros, disse ele, nunca foram testados.

Victor B. Skaar, agora com 79 anos, fazia parte da equipe que fez a coleta de urina e afirma que o protocolo não foi seguido, e que não tinham tempo nem equipamento para fazer os testes - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)

Ele mandou amostras para o Dr. Lawrence T. Odland, chefe dos testes de radiação na Força Aérea, que começou a ver resultados alarmantemente altos. O Dr, Odland decidiu que os níveis extremamente altos não indicavam uma ameaça real à saúde, mas haviam sido causados pelo plutônio solto no campo que contaminara as mãos das pessoas, suas roupas e tudo mais. Ele jogou fora cerca de 1.000 amostras -- 67% dos resultados -- incluindo todas as amostras colhidas nos primeiros dias após o desastre, quando a exposição à radiação era provavelmente mais elevada.

Agora com 94 anos e morando em uma casa vitoriana em Hillsboro, Ohio, onde uma foto do acidente da Groenlândia está pendurada em sua sala, Dr. Odland questionou sua decisão. "Não tínhamos como saber o que era devido a contaminação e o que se devia a inalação", disse ele. "O mundo estava acabando ou estava tudo bem? Eu tinha apenas que fazer uma ligação telefônica". 

Ele disse que nunca obteve resultados precisos para centenas de homens que podiam ter sido contaminados. Adicionalmente, ele logo percebeu que plutônio alojado nos pulmões não podia sempre ser detetado na urina dos veteranos, e homens com amostras limpas podiam ainda estar contaminados.

"É triste, sem dúvida, é triste", ele disse. Mas, o que você pode fazer? Você não pode eliminar o plutônio, você não pode curar o câncer. Tudo o que você pode fazer é baixar sua cabeça e dizer que sente o que aconteceu".

Programa de monitoramento extinto

Convencido de que as amostras de urina eram inadequadas, Dr. Odland convenceu a Força Aérea em 1966 a montar um grupo permanente sobre Deposição de Plutônio, para monitorar os homens afetados a vida toda. 

Especialistas da Força Aérea, da Marinha, do Exército, da Administração de Veteranos (hoje Departamento de Assuntos de Veteranos) e da Comissão de Energia Atômica se reuniram para estabelecer o program de ação logo após o fim da limpeza. Em comentários de boas-vindas o general da Força Aérea em cargo disse que o programa era "essencial" e acompanhar os homens até seus túmulos forneceria "dados urgentemente necessários".

Os organizadores propuseram não informar os participantes da limpeza sobre sua exposição a radiação e manter detalhes dos testes foras dos registros oficiais, de acordo com a ata da reunião, devido à preocupação de que notificá-los "poderia dar ensejo a ações legais". O plano era ter a equipe do Dr. Odland fazer o acompanhamentos dos envolvidos na limpeza. Em poucos meses, entretanto, ele havia dado de encontro a uma parede.

"Ele não é capaz de conseguir apoio do Departamento de Defesa para ir atrás das pessoas restantes ou estabelecer um registro real por causa da política de evitar problemas", observou um memorando da Comissão de Energia Atômica de 1967.

(...)

O Dr. Odland não sabia quem deu a ordem para extinguir o programa, mas disse que já que o grupo incluía todas as forças militares e a agência de veteranos, provavelmente a ordem foi dada por oficiais do alto escalão. A Força Aérea cancelou oficialmente o programa em 1968. O grupo "permanente" havia se reunido apenas uma vez.

Dr. Lawrence T. Odland, chefe do programa de teste de radiação , convenceu a Força Aérea a montar um grupo permanente para "Registro de Deposição de Plutônio" para monitorar a vida toda os envolvidos na limpeza, mas a Força Aérea extinguiu o programa em 1968 - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)


Após a limpeza, doenças

Os participantes da limpeza adoeceram logo após ela ter terminado. Homens saudáveis aos 20 anos de idade incapacitados por dores nas articulações, dores de cabeça e fraqueza. Médicos disseram que era artrite. Um jovem policial militar ficou sofrendo de inchaço do seio nasal tão agudo, que ele batia com a cabeça no chão para tentar livrar-se da dor. Médicos disseram que era alergia.

Vários homens tiveram erupções e tumores. Um membro da Força Aérea chamado Noris N. Paul teve cistos severos o bastante para que ele passasse seis meses no hospital em 1967 fazendo enxertos de pele. Ele ficou também estéril. "Ninguém sabia o que havia de errado comigo", disse Paul.

Um empregado de supermercado chamado Arthur Kindler, que havia ficado tão coberto de plutônio enquanto vasculhava plantações de tomates poucos dias após o desastre que a Força Aérea mandou que se lavasse no mar e confiscou suas roupas, teve câncer nos testículos e uma infecção pulmonar rara que quase o matou quatro anos após o acidente. De lá pra cá, teve câncer em nós linfáticos três vezes.

Arthur Kindler, à direita na foto do centro, fazia parte do pessoal da Força Aérea que foi convocado para a limpeza após o acidente - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)

Arthur Kindler, em foto recente - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)



"Levei muito tempo para começar a perceber que isso talvez estivesse relacionado com a limpeza das bombas", disse Kindler (74 anos) em uma entrevista em sua casa em Tucson. "Você tem que entender que nos disseram tudo era seguro. Éramos jovens. Confiamos neles. Por que nos mentiriam?".

Kindler solicitou duas vezes ajuda ao Departamento de Assuntos de Veteranos. "Recebi sempre uma negativa", disse ele. "Acabei desistindo".

Monitoramento pela Espanha

Os Estados Unidos prometeram pagar pelo monitoramento de longo prazo da saúde em Palomares, mas durante décadas forneceram apenas 15% do suporte financeiro, com a Espanha pagando o restante, de acordo com um resumo do Departamento de Energia que perdeu a confidencialidade. No início dos anos 1970, um cientista da Comissão de Energia Atômica registrou que a equipe espanhola de monitoramento de campo era  composta apenas por uma única pessoa, um estudante de graduação. 

Relatos sobre a morte de duas crianças por leucemia durante aquele período não foram investigados. O chefe da equipe de cientistas  espanhóis que monitorava a população disse à sua contraparte americana em um memorando de 1976 que, à luz dos casos de leucemia, Palomares necessitava de "algum tipo de supervisão médica da população para uma vigilância quanto a doenças ou mortes". Nada foi criado. 

No final dos anos 1990, após anos de pressão da Espanha, os Estados Unidos concordaram em aumentar seu aporte financeiro às atividades pós-desastre. Novas pesquisas no vilarejo encontraram extensa contaminação que não havia sido detetada, incluindo algumas áreas em que a radiação era 20 vezes maior que o nível permitido para áreas habitadas. Em 2004, a Espanha na surdina restringiu com cercas o terreno mais contaminado, perto das crateras.

Desde então, a Espanha tem pressionado os Estados Unidos para concluir a limpeza do local.

Devido ao monitoramento desigual, os efeitos sobre a saúde pública estão longe de estarem claros e conhecidos. Um pequeno estudo sobre mortalidade feito em 2005 encontrou taxas de incidência de câncer em Palomares que haviam aumentado em comparação com o detetado em vilarejos semelhantes na região, mas o autor, Pedro Antonio Martinez Pinilla, um epidemiologista, alertou que os resultados poderiam ser devidos a erro aleatório e solicitou urgência para um novo estudo.

Naquela época, um cientista do Departamento de Energia dos Estados Unidos, Terry Hamilton, propôs um outro estudo, após observar problemas nas técnicas de monitoramento da Espanha. "Estava claro que o aumento de plutônio havia sido muito mal entendido", disse ele em uma entrevista. O departamento não aprovou sua proposta. 

Autoridades espanholas disseram que os temores podiam ter sido exagerados. Yolanda Benito, que chefia o departamento ambiental do Ciemat, a agência nuclear da Espanha, disse que as verificações médicas não mostraram um aumento de câncer em Palomares. "De um ponto de vista científico, não há nada que nos permita vincular os casos de câncer na população local e o acidente", disse ela. 

Estima-se que cerca de um quinto do plutônio disseminado em 1966 ainda contamina a área. Após anos de pressão, os Estados Unidos concordaram em 2015 a limpar o plutônio remanescente, mas não há programa nem prazo aprovados para isso.

"Vou contar o que me aconteceu"

Em uma manhã chuvosa recente, Nona A. Watson, uma professora de ciência aposentada em Buckhead, Geórgia, manteve aberta a porta de um centro médico de veteranos em Atlanta para seu marido, Nolan F. Watson, que entrou claudicando, com a mão trêmula incapaz de manter firme a bengala.  

Como um policial que treina e trabalha com cães, aos 22 anos, Nolan Watson dormiu no chão a apenas centímetros de uma das crateras de bomba no dia seguinte ao desastre de Palomares. Um ano depois, ele foi atormentado por dores de cabeça terríveis, de deixá-lo cego de dor, e tinha os quadris tão rígidos que mal conseguia andar. Na época, solicitou ajuda ao Departamento de Assuntos de Veteranos. Ele disse que seu pedido foi rejeitado. Durante anos teve problemas com articulações doloridas, pedras nos rins e câncer de pele localizado. Em 2002, foi diagnosticado com câncer renal e teve que retirar um rim. Em 2010, mais câncer foi detetado no rim restante. Testes de sangue anormais, recentes, sugerem que esteja com leucemia.

Nolan Watson, em retrato da época do desastre de Palomares - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)


"Acho que isso arruinou minha vida", disse ele. "Era jovem, em boa forma. Mas, desde aquele dia, tive problemas o tempo todo". 

Nolan Watson, também participante da equipe de limpeza em Palomares, teve problemas com articulações doloridas, pedras nos rins e câncer de pele localizado - (Foto: Raymond McCrea Jones para o The New York Times)


Agora com 73 anos, Watson preencheu um requerimento para a agência de veteranos que lhe foi negado e ele entrou com uma apelação. Outros veteranos de Palomares o alertaram de que era perda de tempo. Apenas um veterano de Palomares, que conheciam, teve êxito em alegar danos decorrentes da radiação e isso levou 10 anos, num ponto em que estava acamado com câncer de estômago. Mas Watson queria ir ao centro médico para dar seu testemunho pessoal sobre sua exposição ao plutônio.

Na sala de espera do centro médico, seu nariz começou a sangrar.

Poucos anos antes, depois que seu primeiro pedido foi negado, sua mulher começou a caçar documentos antigos do governo, na esperança de que pudesse encontrar algo que provasse que a Força Aérea estava encobrindo a verdade de Palomares. Talvez, acreditava ela, pudesse descobrir evidências que fariam as autoridades reconsiderar a decisão quanto ao pedido do marido.

Ela encontrou relatórios de 40 anos atrás, que confirmavam as histórias dos participantes da limpeza sobre altos níveis de radiação e baixos padrões de segurança. Mas seu achado mais surpreendente foi um estudo de  2001 da Força Aérea que reavaliava a contaminação dos veteranos de Palomares. O estudo afirmava que os antigos testes de urina eram tão incorretos que não eram "úteis", e a Força Aérea deveria fazer novos testes com os veteranos.

A Sra. Watson sabia que nenhum novo teste havia sido feito, por isso dirigiu-se ao Serviço Médico da Força Aérea para saber porquê. Quando não conseguiu uma resposta clara, ela pediu ao seu congressista na época, Paul Broun, republicano da Geórgia, que enviasse uma carta à Força Aérea. Quando o congressista tampouco conseguiu uma resposta clara da USAF, ele propôs uma lei, que a Câmara de Deputados aprovou em 2013, obrigando a Força Aérea a responder ao Congresso. [Um excelente exemplo de como é abissalmente diferente, para melhor, a relação cidadão-parlamentar nos EUA, em comparação com o divórcio que existe no Brasil entre essas duas partes.]

Em 2013, a Força Aérea enviou ao Comitê de Serviços Militares da Câmara dos Deputados a resposta que lhe fora legalmente exigida. Para consternação da Sra. Watson, ela confirmava o que ela e o congressista já  sabiam: novos testes recomendados pelo relatório de 2001 "não eram necessários" porque os envolvidos na limpeza tinham usado equipamento de proteção, e os testes de urina originais mostraram que praticamente  nenhum homem havia sido exposto a radiação. Documentos liberados posteriormente e relatos de testemunhas levantam sérias dúvidas sobre a precisão da resposta da Força Aérea ao Congresso.

Após o envio da resposta, a Força Aérea retirou de seu website, na surdina, a única cópia pública do relatório de 2001. 

(...)

O coronel Kirk Philipps, que supervisiona o programa de saúde para radiação do Serviço Médico da USAF, disse em uma entrevista recente que a Força Aérea tentou o melhor que pôde para agir corretamente com os veteranos de Palomares. Ele retirara o relatório do site porque não queria aumentar as esperanças dos veteranos, e receava que os leitores do texto o achassem "confuso". "Temos um grande  número de veteranos que, acreditamos, não foram expostos", acrescentou.

Os níveis de radiação em Palomares eram baixos, disse ele, e os homens usaram equipamentos de segurança. Realizar novos testes com eles, com técnicas modernas mais precisas, como sugerido pelo relatório de 2001, poderia revelar níveis de contaminação ainda mais baixos, tornando ainda mais improvável que os veteranos conseguissem compensação do departamento. 

Com a intenção de dar aos veteranos de Palomares o que ele chamou de "benefício da dúvida", disse ele, a Força Aérea em 2013 parou de se apoiar nos velhos resultados de testes de urina e, em vez disso, atribuiu a todos os que participaram da limpeza do local do acidente uma dose correspondente a um "cenário de pior hipótese", com base em leituras de radiação aérea feitas na época.

Foi-lhes dada uma dose de 0,31 rem [unidade de medida de radiação] -- uma dose muito pequena, demasiado baixa para qualificar veteranos para receberem benefícios do departamento. Os veteranos da Groenlândia, que limparam um desastre semelhante, receberam uma dose zero.

A Sra. Watson, que analisou em detalhes os resultados dos testes em Palomares e os relatórios correspondentes, disse que os testes do ar ambiente provavelmente não refletem o que as pessoas trabalhando perto das crateras absorveram. "Tanto quanto posso dizer, isso não está baseado em nada e não fará bem a ninguém, disse ela. "Você pode imaginar porque eles sequer se incomodaram".

Enquanto esperava no centro médico com seu marido, ela explicou como esperavam que seu pedido não tivesse efeito. Eles não tinham provas. Não importa o que ele disse em seu testemunho, o departamento se reportaria às antigas amostras de urina para determinar quem foi afetado. E seu marido nunca teve coletada uma amostra de urina, e não poderia colher uma nova amostra porque o câncer já havia destruído a maior parte de seus rins.

Se tiver êxito em seu apelo, o Sr. Watson terá todos os seus custos médicos cobertos e receberá modestos pagamentos mensais por incapacitação. "Mas não é por isso que estou batalhando", disse ele, "não estou em busca de dinheiro". 

"Vou contar o meu lado, danem-se", disse ele. "Eles sabem que tudo isso é uma mentira". 

[É inacreditável e revoltante o procedimento do governo e da Força Aérea dos EUA em relação a seus próprios cidadãos e em relação à Espanha. E o pior é que não se trata de caso único. Dá medo pensar na extrapolação desse tipo de comportamento americano sob o governo de Donald Trump, eleito ontem.]






sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Discurso de Putin na ONU mostra quem está no comando

[A paúra e a indefinição do Ocidente na questão síria deram mais uma chance de ouro para Wladimir Putin mostrar ao mundo qué muito mais sagaz e oportunista que Barak Obama, ditando as cartas em área vital do Oriente Médio. A reportagem traduzida abaixo, de Anshel Pfeffer, é do jornal israelense Haaretz. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]


Wladimir Putin fala na Assembleia-Geral da ONU em 28/9/2015 - (Foto: AP)

A última vez que o presidente russo Wladimir Putin falou na Assembleia-Geral da ONU, há exatos 10 anos atrás, ele se saiu com um discurso de 5 minutos exaltando as virtudes da ONU. Na segunda-feira, dia 28/9, o que se viu foi um Putin diferente, muito mais agressivo. Ele falou durante 20 minutos e apresentou uma clara e vigorosa política externa para seu país.

Putin escolheu uma maneira muito evocativa para começar sua fala, lembrando aos delegados presentes a cúpula dos líderes dos aliados, líderes dos países "que derrotaram o nazismo", que se realizou "em nosso país -- na Crimeia, em Yalta". 

Sim, a Crimeia que a Rússia invadiu e anexou no ano passado em resposta à revolução pró-Ocidente na Ucrânia. A Crimeia, disse Putin, permanecerá como parte da Rússia, não importa se o Ocidente não a reconheça como tal. Ele pode concordar em ser um pouco mais flexível com relação a outras áreas do leste da Ucrânia, onde separatistas pró-Rússia estão operando, junto com soldados russos que a Rússia nega que lá estejam. 

A menção à guerra contra o nazismo não foi fortuita, e nunca será. Apenas algumas horas antes do discurso de Putin, o embaixador russo na Polônia expressou seu "pesar" pela irritação causada por suas palavras na semana passada quando disse que a "Polônia havia impedido a criação de uma coalizão antinazista" e, portanto, era corresponsável pela deflagração da Segunda Guerra Mundial.



Essa surpreendente nova versão da História, eliminando-se da existência o pacto Molotov-Ribbentrop da União Soviética com a Alemanha nazista, está em sintonia com a tese de Putin sobre a criação de uma coalizão contra o EI (Estado Islâmico), um bloco que incluiria a Síria de Assad e que "atuaria como a aliança anti-Hitler". 

Entretanto, por tudo que Putin falou, os caças Sukhoi que foram deslocados nas últimas semanas para a região de Latakia, na Síria, ainda têm que mostrar alguma participação significativa na campanha internacional de bombardeio contra o EI. Mas eles estão servindo para provar outro ponto. Apenas o presidente russo decidirá se, como e quando seu aliado local, o presidente sírio Bashar Assad terminará seu reinado sanguinolento. 

Esse é o Putin da Assembleia-Geral da ONU de 2015. O líder do país que reivindica o mérito de ter derrotado Hitler na Grande Guerra Patriótica (que, de acordo com livros de História russos oficiais, começou apenas em 1941). Segundo Putin, a Rússia não repetirá o erro que cometeu em seus anos de debilidade que  se seguiram à desintegração da União Soviética, quando permitiu que a OTAN estendesse a aliança ocidental a países como a Polônia e as nações bálticas, que se apressaram a se proteger sob o guarda-chuva americano. 

Dois dias antes de Putin se dirigir para a assembleia da ONU, a Rússia participou de uma troca de espiões em que foi libertado um agente de inteligência estoniano que havia sido raptado um ano atrás em um incidente de fronteira encenado. Alguns observadores interpretaram a libertação de Eston Kohver como uma tentativa de apaziguar o Ocidente antes de pedir sua cooperação em relação à Síria. Outros acharam que a Rússia estava deliberadamente recriando uma cena tão evocativa das velhas trocas de espiões no Checkpoint Charlie [em Berlim] durante a Guerra Fria. 

Kohver foi sequestrado um ano atrás, dois dias depois que o presidente Barak Obama visitou a capital da Estônia para prometer que a OTAN ficaria do lado de seus aliados no Báltico. Agora, a Rússia fala de ampliar sua presença militar na vizinha Belarus e no enclave de Kalinigrado. Se o reforço incluir baterias antiaéreas, isto fará com que fique muito mais difícil para a OTAN ir em socorro dos países bálticos, casos eles sejam ameaçados. 

Isso provavelmente não acontecerá logo. A Rússia ainda está instável por conta de um rublo fraco, da queda dos preços do petróleo e das sanções do Ocidente por causa da Ucrânia. Este não e o momento para mais aventuras militares, não quando as forças armadas russas estão sendo estressadas para cobrir tanto o leste da Ucrânia quanto o novo posto avançado na Síria. Caixões vindo para cada saindo da Síria poderiam despertar novamente os traumas da Chechênia e do Afeganistão, e colocar em risco a popularidade doméstica de Putin. Mas ele está delineando e estabelecendo suas linhas vermelhas, que podem também ser os limites de seu poder.

A impotência da administração Obama e seu fracasso, junto com o resto do Ocidente, em conseguir qualquer tipo de solução para a guerra civil na Síria ou de restringir de maneira significativa a atuação do EI abriram caminho para Putin tomar a iniciativa. Obama e outro líder importante do Ocidente, a chanceler alemão Angela Merkel, já estão se mostrando flexíveis quanto à exigência de que Bashar Assad tenha que deixar o governo como parte de uma solução para a Síria. Obama em seu discurso na ONU falou de uma "transição administrada". O primeiro-ministra britânico David Cameron também está mudando de posição, e apenas o presidente francês François Hollande mantém-se firme em suas convicções. O secretário-geral da ONU Ban Ki-moon mencionou a Rússia como a primeira das cinco nações que "detêm as chaves para o futuro da Síria, juntamente com os EUA, a Turquia, o Irã e a Arabia Saudita. A coalizão está pronta e está sendo liderada por Putin. 

Parece que o primeiro-ministro [israelense] Benjamin Netanyahu foi o primeiro a reconhecer a nova realidade, ao correr para Moscou na semana passada para discutir procedimentos/métodos de coordenação para permitir que as forças israelense continuem a operar na Síria, juntamente com a nova presença russa. Por enquanto, Putin está no comando. 

[As fisionomias tensas de Obama e Putin em seu encontros bilaterais na ONU e os olhares gélidos trocados por eles em certos momentos desses encontros, como mostram as fotos abaixo, demonstram o clima reinante entre os dois líderes.]


Foto: Getty

Foto: Getty

Foto: ONU

Foto: Getty

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

35 mil pessoas foram assassinadas com arma de fogo no Brasil em 2013 -- e a irresponsável Câmara dos Deputados quer facilitar e ampliar o porte de arma no país!

A cantilena de que o brasileiro é cordial é pura balela, somos um país  extremamente violento (ver postagem anterior). Duas em cada três pessoas mortas nos países das Américas são assassinadas com armas de fogo. No Brasil, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (referência da ONU para o estudo), esse índice é ainda maior e chega a 70% do total. Em 2013, 50 mil pessoas foram mortas no país, segundo o levantamento da ONU, o que representa que 35 mil mortes foram por arma de fogo (média de 4 pessoas assassinadas por hora). O Brasil tem 11,4% dos assassinatos no mundo, segundo um estudo sobre assassinatos no mundo, divulgado em 10/4/2014 pelo Escritório da Nações Unidas sobre Drogas e Crime, em Londres.

Em 30 anos, até dezembro de 2011, a violência havia matado 1,1 milhão de pessoas no Brasil!

Matou-se mais no Brasil do que nas doze maiores zonas de guerra do mundo. Os dados são da Anistia Internacional no Brasil e levam em conta o período entre 2004 e 2007, quando 192 mil brasileiros foram mortos, contra 170 mil espalhados em países como Iraque, Sudão e Afeganistão. Os números surpreendem e são um reflexo de uma "cultura de violência marcada pelo desejo de vingar a sociedade", conta Atila Roque, diretor-executivo da base brasileira da Anistia Internacional. De acordo com os últimos levantamentos feitos pelo grupo, 56 mil pessoas foram assassinadas em solo brasileiro em 2012, sendo 30 mil jovens e, entre eles, 77% negros -- uma média de 82 jovens assassinados por dia. 

O Brasil é o 7° país onde mais se mata mulher no mundo.

Pois bem, com todas essas estatísticas assustadoras e altamente preocupantes existe um bando de deputados irresponsáveis na Câmara Federal, que formam a chamada Bancada da Bala (o nome diz tudo!), que quer derrubar o Estatuto do Desarmamento e ampliar e facilitar o porte de arma no país. É dela a iniciativa de "flexibilizar" o Estatuto do Desarmamento (PL 3722/12), liberando o porte de arma para várias categorias -- a proposta da bancada nesse sentido será votada na próxima quinta-feira (24/9). Opositores da proposta intensificam a mobilização para barrar essa iniciativa.


O relator Laudívio Carvalho (PMDB-MG) fez alterações em seu parecer e, a pedido de parlamentares, comprometeu-se a receber outras sugestões para finalizar um novo texto. De acordo com o relatório, é permitido o porte de armas para várias categorias trabalhistas, a exemplo de integrantes da Advocacia Geral da União (AGU), fiscais do trabalho, fiscais do Ibama e até caminhoneiros. Uma das mudanças que ele fez no texto foi a retirada dos taxistas da lista diante da ameaça de confrontos violentos entre a categoria e profissionais e usuários do aplicativo Uber. Ou seja, não se pensou na segurança dos passageiros expostos a motoristas armados, o que se quis evitar foi briga armada entre taxistas.
No dia 26/8/2015, A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania aprovou proposta que inclui os agentes de trânsito entre as categorias profissionais que podem portar arma de fogo em serviço.
O relator afirmou que vai manter no texto a redução de 25 para 21 anos como idade mínima para o cidadão poder adquirir arma de fogo ou ter o porte, e o limite de 50 munições por ano para cada arma. O texto original previa 50 munições por mês. Quanto ao registro, é definitivo, mas o porte passa a ter validade de dez anos (o grifo é meu).
A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania tem 27 membros titulares, 15 dos quais pertencem à Frente Parlamentar da Segurança Pública, como os delegados Éder Mauro (PSD-PA), Laerte Bessa (PR-DF) e João Campos (PSDB-GO). Doze deputados pertencem à Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família, como Juscelino Filho (PRP-MA) e oito pertencem às duas, como a deputada Keiko Ota (PSB-SP). A "bancada da bala", por sua vez, comporta ex-militares e delegados de polícia que defendem o endurecimento de penas e a revogação do Estatuto do Desarmamento.
Eis alguns dos membros de destaque da Bancada da Bala:



A presença de Jair Bolsonaro nessa curriola dá bem a dimensão do grau de irresponsabilidade dessa bancada -- trata-se de um bando de idiotas que quer ampliar ao extremo o nível de violência no país.

O aviso abaixo, divulgado pelo deputado Rogério Peninha Mendonça (também membro da bancada da bala) em seu site, é outra demonstração da sandice que impera nas mentes dessa gentalha.












segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Inacreditável: Treinamento militar para crianças nos EUA

Que o americano é um povo violento e belicista é mais que evidente. Os assassinatos em massa e em público, em igrejas, escola, supermercados, etc, por cidadãos comuns ou ex-militares estão nas manchetes diariamente. Os EUA estão engajados em missões militares e têm bases militares em todas as regiões do planeta que, a seu exclusivo critério, são consideradas estratégicas e têm que ser tratadas por hard power (por intervenção econômica e/ou principalmente por força militar). As disputas armadas do Velho Oeste e a Guerra da Secessão deixaram marcas profundas e dificílimas de erradicar no povo americano. E isto tem seríssimas implicações para o mundo inteiro.

O que é pouco ou nada divulgado é o treinamento militar organizado e sistemático que os EUA dão às suas crianças e adolescentes, algo  que se esperava acontecer apenas com fundamentalistas muçulmanos. Em artigo intitulado Navy Training for Teens (Treinamento da Marinha para Adolescentes) no site Military.com o autor Stew Smith cita uma carta que recebeu de um adolescente de 15 anos que lhe diz que desde os 10 anos queria ser da Marinha e lhe pede orientação sobre como chegar ao Navy SEAL (os Sea, Air and Land Teams - comandos militares dos EUA para operações marítimas, aéreas e terrestres) ou a ser um piloto de helicóptero. 

Stew lhe recomenda preferencialmente buscar ser um líder através do esporte. Mas, lhe informa que para realmente conhecer o que é a Marinha e ter um gostinho do treinamento SEAL mesmo para a idade dele ele deveria dar uma olhada no Corpo de Cadetes Navais da Marinha e no Corpo de Cadetes da Liga Naval. Ali, diz Stew, ele será tratado não apenas como um estudante do SEAL, mas receberá treinamento de membros ativos e da reserva dos SEALs da Marinha durante programas de treinamento de verão. Stew diz que é indispensável conhecer as outras áreas da Marinha e que os Cadetes Navais ensinarão ao rapaz disciplina, trabalho de equipe e outras atividades que aprenderá depois mais profundamente quando estiver na Marinha.

Stew informa que desde 1958 o Corpo de Cadetes Navais da Marinha está dedicado a propiciar à juventude americana (de 11 a 17 anos) um ambiente livre de drogas e álcool para estimular sua capacidade de liderança, alargar seus horizontes via treinamentos reais e guiá-los para que se tornem adultos jovens maduros (o grifo é meu). 


Treinamento da Marinha americana para adolescentes - (Foto: Military.com)

Há um denominado "Grupo de Sobrevivência do Norte da Flórida" que se intitula "um lugar onde patriotas se juntam e ensinam uns aos outros as ferramentas necessárias para garantir a sobrevivência de nossa nação e de nossas famílas" (no Google: North Florida Survival Group: Home 
northfloridasurvival.webs.com/ Traduzir esta página Place for Patriots to gather and teach each other the tools necessary to ensure survival of our nation and families) que faz treinamento militar para crianças, como mostram as fotos a seguir.

Brianna, de 9 anos, do Grupo de Sobrevivência do Norte da Flórida carrega um rifle AK-47 retirado do caminhão do líder do grupo antes de se dirigir para exercícios de contato com o inimigo um treinamento de campo em Old Town, Flórida, em 08/12/2012 - (Foto: Reuters/Brian Blanco)

A mesma Brianna, de 9 anos, entrega o rifle AK-47 para Jim Foster (57 anos), o líder do Grupo de Sobrevivência do Norte da Flórida antes de realizar os exercícios citados na foto anterior. O grupo treina tanto crianças quanto adultos no manuseio de armas em áreas selvagens ou desabitadas - (Foto: Reuters/Brian Blanco)


Um membro do Grupo de Sobrevivência do Norte da Flórida coloca uma máscara (igual à que usa) em seu filho enquanto se preparam para realizar exercícios de contato com o inimigo em uma área de matas em Old Town, Flórida, em 08/12/2012. O Grupo apaixonadamente apoia o direito dos cidadãos americanos de portar armas e em seu website afirma que seu objetivo é "ensinar patriotas a sobreviver para proteger e defender nossa Constituição contra todas as ameaças inimigas" - (Foto: Reuters/Brian Blanco)

Um membro do Grupo de Sobrevivência do Norte da Flórida ajuda sua filha a colocar um equipamento tático (semelhante ao usado em paraquedas) enquanto se preparam para realizar exercícios de contato com o inimigo em uma área de matas em Old Town, Flórida, em 08/12/2012 - (Foto: Reuters/Brian Blanco)

Um membro do Grupo de Sobrevivência do Norte da Flórida e seu filho (um garoto) apanham seus rifles antes de se dirigirem para os exercícios de navegação em terra e contatos com o inimigo durante um treinamento de campo em Old Town, Flórida, em 08/12/2012 - (Foto: Reuters/Brian Blanco) - Observem que o pai é o mesmo da foto anterior.

O mesmo garoto da foto anterior segue seu grupo para o treinamento mencionado também na foto anterior - (Foto: Reuters/Brian Blanco)

Um membro adulto do Grupo de Sobrevivência do Norte da Flórida levanta seu rifle AR-15 ao se unir a outros membros do grupo para realizar exercícios de contato com o inimigo durante um treinamento de campo em Old Town, Flórida, em 08/12/2012 - (Foto: Reuters/Brian Blanco) 

Jim Foster, líder do Grupo de Sobrevivência do Norte da Flórida, se comunica por rádio com membros do grupo para checar sua situação enquanto realizam um exercício de navegação em terra durante um treinamento de campo em Old Town, Flórida, em 08/12/2012 - (Foto: Reuters/Brian Blanco)

Jim Foster (centro), líder do Grupo de Sobrevivência do Norte da Flórida, faz uma avaliação crítica do desempenho dos membros do grupo em um exercício de contato com o inimigo durante um treinamento de campo em Old Town, Flórida, em 08/12/2012 - (Foto: Reuters/Brian Blanco)

Um membro do Grupo de Sobrevivência do Norte da Flórida mostra à filha de outro membro do grupo como liberar o pente de balas de um rifle SKS durante um treinamento de campo em Old Town, Flórida, em 08/12/2012 - (Foto: Reuters/Brian Blanco)


Um garoto se senta em um brinquedo de criança e se mostra aborrecido porque sua irmã ficou como rifle que ele gostaria de ter quando os membros do Grupo de Sobrevivência do Norte da Califórnia se reúne para um treinamento de campo em Old Town, Flórida, em 08/12/2012 - (Foto: Reuters/Brian Blanco)


Membros do Grupo de Sobrevivência do Norte da Flórida, incluindo seu líder Jim Foster (à esquerda com as crianças) descansam em seu acampamento durante uma curta pausa nos exercícios de navegação em terra e contato com o inimigo durante um treinamento de campo em Old Town, Flórida, em 08/12/2012 - (Foto: Reuters/Brian Blanco)

Membros do Grupo de Sobrevivência do Norte da Flórida esperam com seus rifles antes de se dirigirem para os exercícios de contato com o inimigo durante um treinamento de campo em Old Town, Flórida, em 08/12/2012 - (Foto: Reuters/Brian Blanco)


Brianna, de 9 anos, espera com seu rifle enquanto se prepara para se juntar a adultos e outras crianças para realizar exercícios de contato com o inimigo durante um treinamento de campo em Old Town, Flórida, em 08/12/2012 - (Foto: Reuters/Brian Blanco)

Em 2008, o site Global Research deu eco a uma declaração da União Americana de Liberdades Civis (ACLU, em inglês) que afirmava que, violando seu compromisso com a ONU de não recrutar crianças para o serviço militar, "o Pentágono regularmente mira crianças/adolescentes de menos de 17 anos". Segundo a ACLU, "o Pentágono faz forte recrutamento em escolas de nível médio, visando estudantes tão cedo quanto possível e geralmente sem limite de idade para as crianças com as quais faz contato", afirma a ACLU em um relatório de 46 páginas com o título "Soldados do Infortúnio". 

Uma das demonstrações mais chocantes do militarismo americano são os chamados "Extreme Brat Camps", acampamentos de concepção e atuação militares para crianças altamente problemáticas (o termo inglês "brat" se refere a esse tipo de criança), com idade de até 5 anos! Pais de crianças desse tipo voluntariamente entregam seus filhos a esses acampamentos, declarando-se incapazes de lidar com eles! As imagens são chocantes. A longa versão em inglês pode ser vista aqui. A versão compacta, traduzida para o português, apresentada no programa "Fantástico" da TV Globo pode ser vista aqui. Observem que o garoto gordinho que responde soluçando a uma ordem de um militar é o mesmo garoto que aparece na sequência de fotos do Grupo de Sobrevivência do Norte da Flórida.

As fotos abaixo, tiradas em um dos mais famosos acampamentos "brat" dos EUA, o  Camp Consequence ("Acampamento de Importância/Distinção", em tradução livre), em Jacksonville, Flórida, do ex-fuzileiro naval Glen Ellison (é esse acampamento que é mostrados nos vídeos citados acima) chama logo a atenção por um detalhe: as crianças são praticamente todas negras ou de aparência latina.







A cada fim de semana, 17 recrutas novos chegam ao acampamento "brat" denominado "Exercícios/treinos de fins de semana" de Keith "Sargento" Gibbs. Nesse acampamento, crianças de 5 a 14 anos passam por uma série de exercícios militares que frequentemente se estendem à noite, seguidos por longas marchas feitas sob gritos de "Dis-ci-pli-na, Res-pei-to". "Disciplina é algo que falta a esses garotos", diz Keith. "Se fosse presidente dos Estados Unidos, cada garoto deveria passar por um acampamento militar". E ele acrescenta, satisfeito: "das mais de 10.000 crianças que passaram pela minha vida sou abençoado por poder dizer que muitos deles agora querem ser como eu".

Acampamentos militares como o do "Sargento" tornaram-se tão famosos, que a chamada "indústria da intervenção em crianças" (child intervention industry) nos EUA movimenta hoje mais de US$ 2 bilhões por ano e gerou um ramo de negócios sob a forma de empresas que se especializam em acolher ou recolher crianças problemáticas e distribuí-las em acampamentos militares.

Em agosto de 2014, o site Stimson denunciou que os EUA continuavam fornecendo armamento e assistência militar a governos corruptos ou a governos que desrespeitam princípios democráticos -- incluindo governos que utilizam, ou apoiam o uso de, crianças como soldados. O Departamento de Estado dos EUA identificou seis governos africanos nessas condições, assim como três outros governos não africanos ao redor do mundo. Os EUA prestam assistência militar a sete desses nove governos e a cinco dos seis governos africanos identificados. 

Com esse pano de fundo fica fácil entender (mas jamais aceitar) o belicismo arraigado dos americanos e o porquê das frequentes tragédias de assassinatos em massa que os atingem, assim como a interminável sequência de conflitos e intervenções militares que promovem e de que participam.