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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

As aldeias mais bonitas da Inglaterra (III)

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Hawkshead





Localizado no distrito dos Lagos, essa aldeia de casas brancas possui ruas estreitas de pedra nas quais a circulação de veículos é proibida. Entre salas de chá, pensões e lojas de artesanato se distingue um salão de eventos construído por monges medievais e a igreja local, do século XV. Seus habitantes serviram de inspiração à escritora de contos infantis Beatrix Potter. - (Foto: Michael Charles/iStock)
Hambleden

Com pouco mais de 44 quintas de tijolo e sílex, a localidade é propriedade de um empresário suíço. Hambleden conservou-se no tempo sem mal mudanças e só conta com um ‘pub’, uma igreja, uma loja que faz as vezes de escritório de correios e café, e duas granjas. Palco cinematográfico em filmes como 'Chitty Chitty Bang Bang' e 'Sleepy Hollow', de Tim Burton, é um local para se deixar perder por seus circundantes bosques. - (Foto: Arena Photo/iStock)
Blackeney Point


Antigo porto comercial, a aldeia é agora um ponto de encontro no leste inglês para os amantes da natureza. Ao lado dos pântanos de água salgada da reserva natural de Blakeney, o visitante pode praticar vela, observar aves e realizar travessias em barcas para ver as focas que fizeram dessas terras úmidas seu lar. - (Foto: S. French/iStock)
Polperro


Casinhas de pescadores cobertas de flores e ruas estreitas repletas de lojas de artesanato. O aspecto atual de Polperro é bem diferente daquele povoado famoso pelo contrabando nos séculos XVIII e XIX, e cuja história é conservada graças ao museu local. A pouca cobertura telefônica o transforma em um local perfeito para se esquecer de tudo e se dedicar a passeios pelo Caminho da Costa Sudoeste. - (Foto: Getty)
Bishopsbourne

Uma das aldeias mais características do sudeste inglês, a poucos quilômetros da cidade e importante centro religioso de Canterbury, a praça do povoado é um dos melhores cenários para se realizar uma viagem no tempo: casas tudor e jacobinas se entrelaçam com um ‘pub’, um salão de chá e uma loja de presentes e antiguidades. O conjunto histórico é completado pela igreja de Santa Maria e o castelo local, que acaba de completar 500 anos. - (Foto: Sue Martin/iStock)
Sedbergh

Localizada dentro do parque nacional de Yorkshire Dales, a aldeia se encontra em uma histórica trilha comercial que fez com que saxões, vikings e normandos se assentassem em Sedbergh. Essa bagagem histórica e cultural se reflete nas ruas do povoado, que conta com um mercado original do século XIII. É uma das primeiras aldeias inglesas comprometidas e especializadas em livros, sendo um destino perfeito para aqueles que buscam edições perdidas. - (Foto: iStock)
Whitby

Essa aldeia do nordeste inglês mudou pouco desde os anos 50. Situada entre dois penhascos, esse antigo porto, onde trabalhou o mítico capitão James Cook, pode ser um lugar inóspito no inverno e de difícil acesso. Mas muitos visitantes vão ao povoado quando o tempo melhora para passear por seus despenhadeiros e dedicar algumas horas à busca de fósseis de amonites, por cuja abundância a região é conhecida. - (Foto: Paul Downing/Getty)

sábado, 17 de dezembro de 2016

As aldeias mais bonitas da Inglaterra (II)

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Alfriston





No caminho nacional do South Downs, esta pequena aldeia era antigamente uma das paradas dos monges que peregrinavam até a abadia de Battle. Alfristron é hoje um refúgio para quem procura um passeio à beira do rio Cuckmere e o tradicional chá da tarde. Neste povoado fica a Clergy House, primeiro edifício incluído na lista de conservação do National Trust. - (Foto: Getty)


Abbostbury



Este vilarejo de casas construídas com pedras locais que remontam ao século XIII se situa junto à Costa Jurássica britânica. A igreja de Santa Catarina, onde as mulheres rezavam em busca de um marido, ergue-se na colina contigua, que oferece uma vista espetacular para a restinga de Chesil Bank. Há mais de 600 anos, Abbostbury abriga a famosa colônia de cisnes do sul da Inglaterra. - (Foto: Joe Daniel Price/Getty)
Painswick

Localidade conhecida como 'Rainha dos Costwolds', é um labirinto de ruas estreitas, onde fica o edifício mais antigo a ter abrigado uma agência de correios no Reino Unido. A paróquia local de Santa Maria está escoltada por 99 teixos que fazem do cemitério vizinho um dos mais memoráveis do país. O Jardim Rococó, famoso por seus galantos, convida o visitante a desfrutar do estilo paisagistíco do começo do século XVIII. - (Foto: William Fawcett/Getty)
Clovelly


Este município pertence a uma única família, que se esforça em manter sua personalidade histórica. Artesanato e esportes aquáticos preponderam em um cenário que se assenta sobre uma escarpa de 400 metros de altura. Clovelly não aceita veículos nas suas íngremes ruas de pedra que descem até o porto. Para a volta (ladeira acima), é possível alugar burros. - (Foto: Csfotosimages/iStock)
Ludlow


Essa aldeia medieval é um lugar para aproveitar a natureza graças à rede de trilhas para que o visitante passeie pelos vales, colinas e castelos espalhados pela fronteira entre a Inglaterra e o País de Gales. Ludlow é sinônimo de paraíso foodie e, além de realizar seu festival gastronômico em setembro, conta com vários restaurantes com estrelas Michelin. - (Foto: Richard Hayman/iStock)
Rye

A vista da torre da igreja de Santa Maria apresenta a melhor panorâmica desse povoado, caracterizado por suas casas de tijolo e telhados de terracota. Edifícios georgianos e de estilo tudor se sucedem em suas estreitas ruas de pedra, dando um ar de magia quando a noite cai. Os amantes do mistério têm aqui uma boa atração: visitar o histórico Mermaid Inn, que durante o século XVI foi centro de operações da Hawkhurst Gang, uma conhecida quadrilha de contrabandistas e criminosos. E além de suas violentas histórias, é possível saborear uma seleção de quase uma centena de uísques. - (Foto: Joe Daniel Price/Getty)
Ledbury

Situada aos pés das colinas de Malvern, é a clássica aldeia comercial repleta de edifícios de estilo tudor, como a casa do mercado levantada sobre pilares de castanheira no centro da localidade. Ledbury atrai os visitantes em julho, pelo seu famoso festival de poesia, um encontro cultural vivido em suas ruas medievais. Além disso, a três quilômetros de distância se encontra o castelo de Eastnor, uma das principais atrações do condado. - (Foto: Arena Photo/iStock)
Harrogate

Escolhida como a melhor aldeia para se morar em Yorkshire, Harrogate é uma joia do norte inglês. Seu refinamento, apesar de próxima a cidades industriais, se reflete no bairro de Montpellier, que possui por volta de 80 lojas e se transformou em um centro de referência artística e de venda de antiguidades. Lar do famoso salão de chá Bettys, seus banhos turcos são uma alternativa para esquecer o estresse. - (Foto: Albert Pego/iStock)
Salcombe

A aldeia se encontra em uma colina voltada à enseada de Salcombe, e se transformou em um dos destinos com maior frequência de famílias no sul da Inglaterra. Declarada Local Marinho de Interesse Científico Especial, a região oferece muitas possibilidades para atividades aquáticas, como o surf, o paddle board e a canoagem. Rodeada de escarpas pertencentes ao Caminho da Costa Oeste, Salcombe é um ponto de encontro para quem gosta de trilhas. - (Foto: Gary King/Getty)

sábado, 10 de dezembro de 2016

As aldeias mais bonitas da Inglaterra (I)

O interior da Inglaterra é de surpreendente e pouco conhecida beleza, como mostra a série de fotos a seguir publicada pelo jornal espanhol El País.

Castle Combe




É popularmente considerada a aldeia mais bonita da Inglaterra. Mas há muitas outras. O cuidado com a paisagem e a arquitetura popular e o bom gosto inglês estão presentes nesta seleção de 25 localidades que representam em grande medida a essência 'British' e a variedade de seus condados. No caso de Castle Combe, a imagem perpetuada por este pequeno povoado é a da ponte concebida para o passagem de cavalos de carga. Uma foto que o visitante colhe em sua câmera quando passeia por suas ruas. Seu nome recorda um castelo já desaparecido, embora se conserve o mercado coberto junto à igreja de Santo André. Um cenário de filme, que serviu como locação em 'Cavalo de guerra', de Steven Spielberg. - (Foto: Csfotoimages Istock)

Knaresborough



O cartão postal deste antigo assentamento comercial junto ao rio Nidd, cuja história remonta ao século V, é um viaduto de quase 25 metros de altura que propõe uma volta à época medieval, com uma visita ao museu e às ruínas de seu extinto castelo. Depois da visita histórica, há tempo para passear e perder-se por suas lojas independentes e galerias de arte.  - (Foto: Jez Campbell/Getty)

Bilbury




Arlington Row é a estampa por excelência deste povo. Uma imagem gravada nos passaportes britânicos e que recreia os antigos armazéns de lã do século XIV que se conglomeram junto ao rio Coln. Bibury é um local idílico presidido pela igreja de Santa María, vários de cujos vestígios se encontram no Museu Britânico de Londres. - (Foto: Linda McKie/Getty)


Blockley




A aldeia, situada numa espetacular área de beleza natural (AONB, em inglês), caracteriza-se pela cor dourada das suas casas, característica do calcário oolítico com que foram construídas. Antigo polo têxtil, seus moinhos se transformaram em moradias, e graças isso conservam seu caráter histórico. Um deles, o Mill Dene Garden, é uma das principais atrações de Blockley. - (Foto: Matthew Williams-Ellis/Getty)


Bradford-on-Avon




O município, qualificado pelo jornal 'The Sunday Times' como uma "versão em miniatura de Bath", foi eleito o melhor lugar para viver em 2015. À beira do rio Avon, a vila está cheia de cafés, pubs tradicionais e lojas independentes que complementam os passeios pelo canal e a visita ao seu histórico Thithe Barn, um antigo celeiro do século XIV. - (Foto: Brian Lawrence/Getty)


Clare




Uma abadia agostina, as ruínas do castelo, uma igreja medieval e o museu local fraternizam-se com as características casas pintadas em tons bolo de Clare para converter a este povo em um dos centros patrimoniais do vale de Stour. A menos de uma hora da cidade universitária de Cambridge, o povo canaliza suas atividades ao ar livre em seu particular corredor verde: a antiga via do trem.  - (Foto: John Peet/Getty)


Mousehole




Muitos barcos buscam a marina junto à agradável praia deste povoado, que faz as delícias dos visitantes com seus frutos do mar, cafés e galerias de arte. Em dezembro, ganha o apelido de 'Mouse Vegas', por causa da chamativa iluminação natalina do porto – uma chance, além disso, de provar a torta de sardinhas ('stargazy pie') que homenageia o pescador local Tom Bawcock. O poeta Dylan Thomas descreveu Mousehole como o povoado mais bonito da Inglaterra. - (Foto: Andrea Pucci/Getty)


Burford




A pouco mais de 30 quilômetros de Oxford, Burford é conhecida como o portal dos Costwolds. Mantém-se à margem das grandes redes comerciais e tem a farmácia mais antiga do país. Suas ruas fervilham com lojas familiares, restaurantes, antiquários e pensões. Em 2009 ocupou o sexto lugar na lista dos lugares mais idílicos da revista 'Forbes'. - (Foto: Joe Daniel Price/Getty)


Falmouth




O legado marítimo deste povoado explica por que os esportes marítimos são atualmente a sua principal atividade turística. Depois de desfrutar de atividades como a vela, o mergulho autônomo e a canoagem, o visitante pode descansar em uma de suas quatro praias. Repleta de boas alternativas gastronômicas, Falmouth conta com diversas galerias de arte, um museu marítimo e o castelo de Pendennis, do século XVI, construído por ordem de Henrique VIII em reconhecimento à sua atividade portuária. - (Foto: Agostinos Angel/iStock)







segunda-feira, 9 de junho de 2014

A batalha oculta por trás do dia D na Normandia

[A reportagem abaixo, de Guillermo Altares, foi publicada no jornal espanhol El País em 07/6 e revela detalhes dos bastidores do desembarque na Normandia que não são de conhecimento geral. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

"Dia D: Triunfo ou tragédia?", pergunta a capa da revista BBC History Magazine deste mês. A resposta chega com o título da reportagem nas páginas internas: "Chegou a hora de silenciar os que ainda duvidam do desembarque". O Dia D, que completou 70 anos em 6 de junho com a presença de 18 chefes de Estado e de Governo, entre eles o russo Vladímir Putin e o americano Barack Obama, continua sendo a batalha mítica da Segunda Guerra Mundial, um dos momentos decisivos da história da Europa, tanto que cultiva um ar sagrado. Os nomes das cinco praias - Utah, Omaha, Gold, Juno e Sword - ou os versos de Verlaine que anunciaram à resistência que a invasão havia começado - "Les sanglots longs des violons de l'automne" (os longos soluços dos violinos de outono) - fazem parte do imaginário coletivo, como as fotografias de Robert Capa, em Omaha, marcaram para sempre a forma como vemos as guerras.

"Era esperado que o interesse pela invasão aliada da Europa diminuísse com o passar do tempo e a gradual morte dos participantes, mas há mais museus e mais visitantes que nunca", explica o historiador Antony Beevor, que conseguiu combinar o interesse popular com o rigor em obras como Dia D: A Batalha pela Normandia (Crítica). "Para nós, continua oferecendo todos os elementos de drama e sacrifício e desempenha um papel muito importante na nossa imaginação", diz o jornalista Rick Atkinson, autor de uma monumental trilogia sobre a libertação da Europa Ocidental, cujo primeiro volume, Um Exército ao Amanhecer (Crítica), recebeu o prêmio Pulitzer de História. No entanto, além do épico imediato nas praias do Dia mais longo, a batalha da Normandia foi muito mais intensa e selvagem do que se tem em mente. Entre assumir o controle das pontes - em termos militares, as Cabeças de Ponte - e superada a confusão inicial, os alemães iniciaram um contra-ataque. Três meses depois, havia 37.000 soldados aliados mortos, 50.000 alemães e 20.000 civis. Como explica o historiador Jean Quellien, especialista no Desembarque, sobre o qual escreveu vários ensaios, como Landing beaches ou Normandy 1994, "no ápice dos combates, em agosto de 1944, lutavam dois milhões de militares, o mesmo que em Stalingrado". [Numa entrevista à Revista Histórica da BBC em junho de 2009, o historiador Antony Beevor afirma que antes do bombardeio mais de 15.000 civis foram mortos, e durante a batalha da Normandia houve pelo menos os 20.000 franceses mortos mencionados acima. Ele cita ainda, no tocante à morte de civis na Segunda Grande Guerra, que houve mais franceses mortos pelos bombardeios -- aéreo e por terra -- dos aliados do que civis britânicos mortos pela Luftwaffe (Força Aérea Alemã) e pelas bombas V nazistas. Perguntado se os aliados poderiam ter sensatamente reduzido o número de vítimas civis, Beevor disse que achava que sim. Ele classificou o bombardeio de Caen pelos britânicos (iniciado no dia D) de estúpido, contraproducente e sobretudo muito próximo de um crime de guerra. Beevor cita também acusações contra os americanos por seu uso indiscriminado da artilharia.]

O mito do Dia D deixou em segundo plano a batalha como um todo. Primeiro, a sua brutalidade: não se tratou apenas do desembarque no inferno da praia de Omaha, que Spielberg retratou com uma série de efeitos especiais em O resgate do soldado Ryan. A imagem de paraquedistas americanos pendurados em uma árvore com os testículos na boca, que Beevor relata em seu livro, não combina com a ideia geral que se tem do Desembarque. Outro assunto que ficou em segundo plano foram as mortes de civis e a destruição geral: 120.000 imóveis viraram ruínas, 270.000 foram muito danificados, 43.000 hectares de terras cultiváveis ficaram arruinadas. "O destino dos civis foi esquecido pelos poderes públicos porque a posição de vítima não correspondia à imagem gloriosa que o Estado queria associar ao desembarque", afirma um dos grandes especialistas franceses sobre a batalha, Olivier Wieviorka, professor da Escola Normal Superior de Cachan e autor de História do desembarque da Normandia (Tempus). "Muitos momentos exaltam o heroísmo de soldados anglo-americanos, mas quase nenhum fala do destino dos civis bombardeados. No entanto, tudo muda: nas cerimônias deste ano, pela primeira vez, o presidente François Hollande vai homenagear os civis que morreram", acrescenta Wieviork.

Apenas em 6 de junho, 3.000 não combatentes morreram, tanto quanto os soldados nas praias. "Quem visitar a região vai se dar conta que a maioria das cidades foi reconstruída nos anos cinquenta", explica Quellien, professor da Universidade de Caen, a capital histórica da Normandia, que foi arrasada em 75% em um bombardeio tão intenso quanto inútil, já que na verdade apenas serviu para dificultar a conquista dos Aliados porque os alemães aproveitaram as ruínas para se protegerem. Quando saiu o seu livro sobre o Dia D, em 2010, Beevor usou a expressão "próximo a um crime de guerra" para se referir à destruição da cidade e teve que pedir desculpas depois do escândalo que se formou. 

Ao lado de Stalingrado, foi uma das batalhas decisivas da Segunda Guerra Mundial. A impressão unânime dos historiadores é que Hitler já havia perdido, mas que, sem a abertura de uma segunda frente, o conflito seria prolongado por muito mais tempo. Apesar do planejamento e a maior instalação de frotas navais da história - 5.000 embarcações ao longo de 80 quilômetros de praias -, a operação poderia ter dado errado, entre outras coisas porque Dwight Eisenhower deu a ordem no único dia daquele mês de junho em que uma Armada poderia cruzar o canal. Pouco depois, começou uma tempestade fortíssima que atrasaria a operação e, quase seguramente, arruinaria o segredo, já que os alemães não esperavam o desembarque na Normandia. "Não creio que um fracasso na Normandia mudaria o curso da guerra", diz o historiador e jornalista Rick Atkinson. "Mas não tenho dúvida que daria a Hitler mais um ano, talvez mais. Isso significaria mais um ano para matar judeus e outros 'indesejáveis', para lutar contra os soviéticos no leste e causar sofrimento aos povos da Europa ocupada". Beevor vai até mais longe sobre o que teria acontecido se os Aliados não tivessem atingido seus objetivos. "Se a invasão falhasse, com os avanços soviéticos no Reno, a história do pós-Guerra da Europa poderia ter sido muito diferente".

O militar que deu a ordem de atacar, uma das decisões mais difíceis da Segunda Guerra Mundial, posteriormente tornou-se presidente; mas Ike não quis assistir à primeira comemoração do Desembarque, em 1954 (comemoram a cada década). Como escreveu o historiador Michael Beschloss no New York Times, era muito difícil para ele falar em público sem desmoronar, já que sempre ficou marcado pelas suas decisões, inevitáveis, justas, necessárias para qualquer comandante, que causaram a morte de dezenas de milhares de soldados. A comemoração de 6 de junho deste ano foi especialmente importante porque é a última em que muitos veteranos vão participar, pois pouco a pouco eles estão morrendo. "A geração da Segunda Guerra Mundial está morrendo muito rapidamente. Nos Estados Unidos, o número de sobreviventes caiu dos 16,1 milhões que serviram em uniforme para um milhão atualmente", afirma Atkinson. "É a última oportunidade para homenagear e lembrar aquela geração que é, afinal, do que se tratam as cerimônias, ainda que para os políticos seja um palco irresistível".

Além da memória, a comemoração deste ano está marcada pelo presente, pela volta das guerras à Europa, 70 anos depois do Desembarque que simboliza a recuperação da liberdade do Ocidente. A anexação da Crimeia pela Rússia de Putin, assim como os combates separatistas com soldados ucranianos no leste, traem a memória do pior passado europeu. Historiadores e políticos compararam o que aconteceu na ocasião com o que está acontecendo agora; ainda que a distância entre os acontecimentos continue enorme. "Há uma diferença importante: Hitler estava decidido a começar uma guerra. Putin, na minha opinião, é mais realista e não quer um conflito", explica Beevor. [A menção suspeita da disputa territorial entre Rússia e Ucrânia pela Crimeia como único conflito na Europa após a Segunda Grande Guerra é uma demonstração de amnésia seletiva da BBC -- não fosse ela britânica -- em relação à própria história da Grã-Bretanha e do Reino Unido. A BBC -- que é estatal -- faz vista grossa ao violento conflito armado entre britânicos e a Irlanda do Norte, envolvendo ainda o IRA (sigla inglesa para Exército Republicano Irlandês) principalmente no final dos anos 1960, com a ocupação militar do Ulster (outra denominação da Irlanda do Norte) pelo governo britânico. Em 30 anos morreram 3.600 pessoas na Irlanda, e o conflito só se encerrou em 1998 com a assinatura do Acordo de Ulster. Houve ainda a violenta guerra do Kosovo -- de 1996 a 1999, entre forças de segurança sérvias, Iugoslávia e o Exército de Libertação do Kosovo, e em 1999 entre Iugoslávia e OTAN, e os conflitos entre Chechênia e Rússia praticamente desde 1994 até hoje -- e ainda o conflito russo-georgiano em 2008.

Quem quiser saber mais detalhes sobre os bastidores do dia D na Normandia deve ler a entrevista do historiador Antony Beevor citada acima. Ele diz, por exemplo, que considera verdadeira a afirmativa de que o número relativamente baixo de baixas entre os aliados deveu-se mais às falhas e fraquezas alemãs do que propriamente por causa de um êxito dos aliados, e cita exemplos de falhas do lado aliado durante o ataque. Beevor cita ainda a famosa e aguda divergência entre o marechal [Bernard] Montgomery, o comandante-supremo do exército britânico e o general [Dwight] Eisenhower, comandante-supremo da operação na Normandia. Montgomery criticava Eisenhower fortemente e dizia dele que "é um boa-praça, mas não é um soldado".



Montgomery e Eisenhower na Normandia - (Foto: Google).

[Fotos do desembarque aliado na Normandia (gotos Google):]










Prisioneiros de guerra alemães capturados por soldados canadenses no dia D em Bèrnieres-sur-Mer - (Foto: Ken Bell/National).



O general Eisenhower dá instruções a paraquedistas aliados na Normandia - (Foto: Google).