Mostrando postagens com marcador Rússia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rússia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A Síria será o principal tema da agenda do novo presidente americano

[Traduzo a seguir um texto de Carol Morello publicado pelo The Washington Post. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. Atentar para o fato de que o texto foi publicado antes do segundo debate entre Hillary e Trump.]

A guerra na Síria não tem sido muito discutida, mesmo antes das notícias sobre os comentários de Donald Trump sobre mulheres e sobre os emails e palestras de Hillary Clinton para banqueiros. Mas, para quem quer que se eleja presidente a Síria e as sequelas do inacreditavelmente complexo conflito que começou há cinco anos presumivelmente estarão no topo dos desafios de política externa da nova administração. [Ver: "Síria, o abismo do mundo".]

Enquanto a guerra se desenrolar com grande intensidade, refugiados sírios buscarão asilo. Nos últimos 12 meses, 12.500 refugiados sírios vieram para os Estados Unidos. Hillary propôs admitir 65.000 mais ao longo do próximo ano. Trump os comparou a um cavalo de Troia e disse que mandaria de volta os que já estão no país.

Campanha 2016 (EUA) - Número de refugiados em todo o mundo - inclui pessoas em condições similares às dos refugiados, ao longo do final de 2015 [M = milhão(ões) - k = mil] - 5 principais países: Turquia/Paquistão/Líbano/Irã/Etiópia - Total mundial: 16,1 milhões [mais que a população da Bahia e quase a população do Estado do Rio de Janeiro]

Mas, não há boas opções para acabar com o derrame de sangue e a guerra. O presidente Obama rejeitou um envolvimento militar além dos ataques aéreos da coalizão liderada pelos EUA.

Trump diz que tem um plano para eliminar os militantes do Estado Islâmico que criaram um califado, mas que é secreto porque não quer divulgar suas intenções além de prometer "bombardeá-los ao extremo". Ele disse que cooperaria com a Rússia, que tem apoiado fortemente o presidente sírio Bashar al-Assad. Trump disse que Assad é "ruim", mas os EUA têm "problemas maiores que Assad". Embora na campanha tenha se posicionado contra o envolvimento [americano] em guerras no exterior como no Iraque, Trump disse no passado que poderia se dispor a envolver tropas de terra para lutar contra o Estado Islâmico -- o número tem variado.

Durante o debate dos candidatos à vice-presidência, Mike Pence [vice na chapa de  Trump] defendeu a criação de "zonas de segurança" para civis. Disse que as provocações dos aviões russos voando sobre a Síria devem ser enfrentadas com "poderio americano", e os EUA devem estar preparados para usar de força militar contra o poderio militar de Assad para interromper seus ataques contra a cidade de Aleppo.

Hillary Clinton, uma ex-Secretária de Estado, tem defendido quase a mesma atitude no combate ao Estado Islâmico: uma zona interditada a sobrevoos para prover um abrigo humanitário para a população civil e interromper a onda de refugiados rumo  à Europa, cooperação com os aliados e possivelmente usar a força militar americana para interromper o bombardeio de civis pelo governo sírio. Ela se opôs ao envio de tropas terrestres, mas intensificaria a campanha de ataques aéreos por uma coalizão liderada pelos EUA.

No momento em que qualquer dos candidatos entrar no Salão Oval, a avaliação de hoje pode ser questionável ou irrelevante. Tentativas de cessar-fogo falharam. Tentativas de cooperação com Moscou desmoronaram em grande parte. O governo sírio, com apoio russo, está transformando Aleppo em escombros, e o  enviado da ONU à Síria alertou que a cidade pode estar completamente destruída no Natal.

[O texto acima evidencia a superficialidade com que o drama sírio é tratado, apesar de seus cinco anos de existência e seus mais de 400 mil mortos (incluindo civis e crianças) e os milhões de refugiados que gerou. Ninguém se questiona por ter deixado isso se prolongar e se agravar dessa maneira. Os americanos usam o argumento de não terem tropas terrestres na Síria como uma espécie de bônus que lhes permite fazer o que quiserem por via aérea. Para eles, a "provocação" é a presença de caças russos no mesmo espaço aéreo, e não o genocídio que a aviação e as tropas de Bashar al-Assad (com e sem apoio russo) fazem em terra.

Os EUA insistem em pintar a Rússia como única potência vilã nessa guerra civil nefasta, esquecendo-se de que eles também matam civis inocentes com ataques aéreos liderados por eles.

A Síria é uma demonstração clara, inequívoca e contundente da hipocrisia e da falta de disposição absoluta da ONU e das grandes potências de atuação na Síria, primeiro não evitando a guerra civil, segundo por não terminá-la. Ver também "Síria, o abismo do mundo".] 



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Síria, o abismo do mundo

[Durando já 5 anos e contabilizando 400 mil mortes, com uma alta porcentagem de civis e crianças entre elas, a guerra na Síria é um exemplo impressionante e inaceitável de violência desmedida, de absoluto descaso aos direitos humanos e de um lamentável show de força por parte dos EUA, da Rússia e do governo sírio de Bashar al-Assad. Além dos milhares de mortos, a guerra síria é a maior fonte de refugiados que tentam se estabelecer na Europa e vêm gerando uma das piores crises já enfrentadas pelos europeus. Traduzo a seguir a crônica de Christian Makarian sobre a Síria, publicada na revista e no site L'Express -- é um texto merecidamente duro sobre uma das  piores barbáries por que passam ou passaram o Oriente Médio e a Europa. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha  responsabilidade.] 

Síria, o  abismo do mundo

Christian Makarian - L'Express

O acúmulo de impasses na Síria não é somente uma catástrofe humanitária sem precedentes em todo o Oriente Médio árabe -- o que bastaria  amplamente para definir uma vergonha internacional. Ela é também a demonstração clara e evidente da impotência de nações que invocam ainda alguma forma de potência. Sob nossos olhares embaçados por tantas destruições, o cerco a Aleppo e o aniquilamento impiedoso dos oponentes a Bashar al-Assad, aos iranianos ou aos russos oferecem o espetáculo de um conflito que põe abaixo todo o sistema internacional, todas as engrenagens, todos os balizamentos de  um mundo que não controla em nada suas tensões nem suas extensões. Como um sifão gigante, a guerra da Síria criou um turbilhão infernal que arrasta aos abismos do nada todas as forças da razão, os cálculos militares e as lógicas diplomáticas.

A começar por esse centro de inação em que se tornou a ONU. À exceção dos diplomatas, quem se recorda de que a resolução 2254, votada nos últimos dias de 2015, pretendia preparar uma transição política em Damasco? Da mesma forma, quantas vezes a trégua acordada  entre Washington e Moscou, no passado 9 de fevereiro, foi violada? A que definição correspondem os termos "cores humanas" para Assad e os russos, já que eles se aproveitam disso para expulsar as populações civis das zonas que lhes dizem respeito?

Face a tanto cinismo, pelo menos os ocidentais poderiam se mostrar unidos. Ora, na semana passada dois aliados sinceros foram vistos mostrando suas divergências à vista de seus  adversários. Enquanto Barack Obama discorria sobre a complexidade crescente das relações mundiais e sobre a necessidade da paz, François Hollande marcou sua divergência com verdadeiros ímpetos de indignação e de censuras explícitas contra a falta de engajamento real dos americanos na Síria. Na mesma tribuna da ONU, Vladimir Putin insistiu no imperativo de defesa dos "Estados", segundo ele um horizonte que não pode ser ultrapassado, e denunciou os movimentos populares que ameaçam sua pseudoestabilidade.

O absurdo e a inutilidade do jogo das velhas potências compõem a segunda falência completa ligada ao desastre sírio. No momento em que as aspirações de toda a humanidade, reforçadas pela globalização, convergem para a cessação das matanças em massa, Washington e Moscou se comportam como superpotências anacrônicas. Obama e seu Secretário de Estado, John Kerry, não se privam de denunciar a Rússia como uma potência de uma outra época. Eles evidentemente não estão enganados, mas isso não resolve a contradição própria dos Estados Unidos: para quê serve o arsenal da maior potência militar de todos os tempos, se não for utilizado como o braço armado da diplomacia? Resultado: não se saberia melhor colocar em oposição duas ordens do mundo. Uma, aquela dos princípios humanos que tornam "inegociáveis" os valores ocidentais surge fraca, dividida, na verdade não operacional; a outra, que exalta as entidades pela força e pelo temor que inspiram, se mostra prestes a entrar em ação, mas  inteiramente dirigida contra os povos.

Por isso a  Rússia tem uma necessidade flagrante de vitória, e fará tudo para obtê-la ao preço de uma engrenagem que a aproxima cada vez mais das batalhas da Chechênia. A guerra da Síria não é apenas a guerra de Assad, é a de Putin, uma reconquista interior para fins de demonstração planetária. Face a essa tática que não sofre de limites humanitários nem territoriais (porque aí a partição seria o resultado), os Estados Unidos não parecem prontos -- em todo caso, não Hillary Clinton -- a mudar de  opinião. Eles não vêem o Oriente Médio senão como uma terra de derrotas sucessivas ...

[Como de praxe, nas abordagens de conflitos de que participam americanos e russos, a mídia ocidental costuma carregar mais nas tintas contra os  russos. No caso da  Síria, como se vê acima -- embora haja cargas fortes contra os EUA -- a história se repete. A participação americana na guerra síria é  tão condenável quanto a russa, e p'ra variar ambas estão em campos opostos. Olhando-se um mapa regional, vê-se que conflitos no Oriente Médio são conflitos fronteiriços à Rússia, o que explica, mas não justifica, o intervencionismo regional russo. O Oriente Médio é uma parte intrínseca e explícita da área de atuação geo-estratégica dos russos. Até onde isso é válido, é outra história. 

Os EUA têm interesses e preconceitos no mundo todo, o que torna seu intervencionismo planetário -- e quando há superposição ou continuidade dessas áreas estratégicas, como agora no Oriente Médio, o confronto entre EUA e Rússia é inevitável. As razões pelas quais os russos apoiam Assad e os EUA querem derrubá-lo prendem-se, a meu ver, muito mais ao antagonismo tradicional entre essas potências do que propriamente à conceituação de quem é bandido e de quem é mocinho. Tanto os EUA quanto a Rússia têm péssimo currículo no que se refere a intervenções militares fora de seus territórios. Os russos fracassaram redondamente na invasão do Afeganistão, que durou 10 anos (1979-1989). Líbia, Iraque e Afeganistão são exemplos claros de fracassos gigantescos dos americanos no Oriente Médio e redondezas.

Os Estados Unidos têm adotado posições um tanto ou quanto bastante  cínicas e hipócritas no que se refere à sua participação na guerra síria. Em março deste ano, Obama fez duras críticas aos seus aliados europeus e do Oriente Médio na intervenção militar na Síria, e  os culpou pelo fracasso da intervenção militar nesse país. 

Em entrevista publicada pela revista The Atlantic, Obama declarou que alguns países da Europa e do Golfo Pérsico são ‘oportunistas’ porque insistem que os EUA se envolvam em complicados conflitos que pouco têm a ver com seus interesses. "Nas últimas décadas, tem gente que adotou o hábito de nos empurrar para atuar e depois se mostram pouco dispostos a implicar-se”, destacou Obama. Não dá para engulir essa história de que os EUA possam participar, com dinheiro e vidas americanos, de intervenções militares "que pouco têm a ver com seus interesses". É óbvio que isso não existe, é impossível. Assim como não dá p'ra acreditar que os EUA se transformem em massa de manobra e marionetes de países como Arábia Saudita e França, para citar apenas dois.

O que é patente é que os EUA intervêm e/ou criam conflitos em lugares e países a milhares de quilômetros de seu território, o que faz com que não haja sequelas secundárias territoriais ou sociais dessas intervenções sobre os americanos -- ao contrário do que aconteceu na Líbia, no Iraque, no Afeganistão e agora na Síria. Nesses países o caos político e social, e a geração de hordas de refugiados, são as faces mais visíveis desses fracassos -- e quem paga a maior parte ou totalidade da conta disso, além evidentemente dos países locais direta e indiretamente envolvidos, é a Europa e não os EUA. ] 


sábado, 13 de fevereiro de 2016

As causas dos 1.000 anos de inimizade entre católicos e ortodoxos

[Traduzo a seguir a reportagem de Daniel García Marco, publicada no site espanhol BBC Mundo. A tentativa de reaproximação com a igreja ortodoxa é um dos muitos gestos revolucionários do papa Francisco. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

É o primeiro encontro entre o Papa de Roma e o Patriarca de Moscou desde o cisma de 1054 - (Foto: Getty)

Nada dura para sempre, nem mesmo a inimizade. Os mais de 1.000 anos de rivalidade entre as igrejas católica e ortodoxa serão postos à prova na sexta-feira 12 com o  encontro em Havana entre o líder católico e o patriarca da igreja russa, a maior e mais influente da Ortodoxia.

Por isso, poucas vezes o qualificativo "histórico" esteve tão justificado.

A reunião de duas horas, na neutralidade do aeroporto da capital de Cuba, entre o papa Francisco e o patriarca Kiril é vista como um primeiro passo para a reconciliação entre as duas maiores igrejas em que se divide o cristianismo.

O BBC Mundo explica alguns pontos-chaves de uma divisão milenar e de um possível entendimento futuro.

O que aconteceu no ano de 1054?

Adata é simbólica. É o ponto final de uma divisão que se vinha gerando durante séculos. Em 1054, o Papa de Roma e o Patriarca de Constantinopla se excomungaram mutuamente e assim começou o que se conhece como o grande cisma do cristianismo, que persiste até hoje.

A diferença no conceito de autoridade é um dos divisores entre católicos e ortodoxos - (Foto: Getty)

Mas as igrejas cristãs do Oriente e do Ocidente já vinham se separando havia séculos, sobretudo culturalmente. No Ocidente se falava o latim, enquanto no Oriente bizantino prevalecia a cultura helenística grega. 

A questão, no entanto, ia mais além do cultural  e do linguístico. O enfrentamento, além das diferenças rituais, se apoia em aspectos doutrinários ou teológicos como o conceito de purgatório e a chamada "controvérsia trinitária". 

Enquanto no Ocidente se acredita no Espírito Santo e a ele se reza, que de acordo com as correntes  teológicas mais amplas na igreja ocidental "procede do pai e do filho", os ortodoxos prescindem da figura do filho. 

É o conflito pelo que em latim se denomina "filioque"("e do filho"). "Essa única palavra gerou concílios, guerras e mal-entendidos. Por ela, lutamos durante um milênio", afirma ao BBC Mundo Philip Goyret, vice-reitor da Universidade Pontifícia da Santa Cruz de Roma. 

Papa versus Patriarca 

Mas o tema-chave nesse relacionamento é o modo diferente de entender a função de quem manda na igreja. Na católica, a função do Papa se entende como a figura máxima em termos de autoridade. A igreja ortodoxa, ao contrário, está dividida em patriarcados, entre os quais existe uma igualdade. Há um, o de Constantinopla, ocupado atualmente por Bartolomeu, que é considerado o "primeiro entre iguais". 

Bartolomeu tem uma certa proeminência, mas não tem jurisdição sobre toda a igreja ortodoxa. Além disso, seu patriarcado, com sede em Istambul e com cerca de 10.000 fiéis, não tem o peso do de Moscou, que com Kiril à frente congrega cerca de 120 dos 200 milhões de crentes ortodoxos. Por seu lado, a igreja católica conta com cerca de 1,2 bilhão de fiéis. 

A igreja ortodoxa russa sempre esteve muito ligada ao poder, como foi com o imperador, com o czar ou com o secretário-geral do Partido Comunista na era soviética. Agora, Kiril, patriarca desde 2009, mantém uma estreita relação com o presidente russo Vladimir Putin. A oposição ao Kremlin critica habitualmente a sintonia entre a Igreja e o Estado. 

O patriarca Kiril e o presidente russo Vladimir Putin, com quem mantém estreita relação - (Foto: Getty)

Questão de poder

O cisma teve também muito o que ver com o poder. No século XVI, a Europa estava se evangelizando e começaram as disputas para ver a que igreja caberia uma determinada missão. "Houve um conflito de poderes", explica Goyret. E ele de alguma maneira persiste, e é fonte de tensões. 

Com a chegada do comunismo, e a criação do bloco soviético, a igreja católica na Ucrânia e na Rússia foi violentamente reprimida pelo Estado, que entregou os templos católicos à igreja ortodoxa. Quando caiu o Muro de Berlim os católicos recuperaram a liberdade religiosa e surgiu tensão, porque quiseram reaver o que havia sido seu. 

Os ortodoxos não toleraram bem nos últimos anos o que consideram como tentativas de expansão do catolicismo na Rússia. A criação de dioceses católicas no país pelo papa João Paulo II gerou inquietude em Moscou, que viu isso "como uma invasão", conta Goyret. 

Hoje em dia o conflito persiste na Ucrânia, onde a igreja católica greco-ucraniana, a segunda maior do país, tem ritos orientais mas se reporta a Roma, o que desgosta Moscou. 

Por que agora?

A ambas as igrejas as une neste momento a preocupação com a perseguição a cristãos, católicos e ortodoxos, e a destruição de monumentos cristãos na África e na Ásia, sobretudo pelas mãos do autodenominado Estado Islâmico na Síria. 

"Nesta trágica situação, temos de deixar de lado nossos desentendimentos internos e unir esforços para salvar o cristianismo nas raegiões em que é objeto de perseguição", afirmou Hilarion Alfeyev, chefe de política externa da igreja ortodoxa russa. 

Datas-chaves do cisma e da aproximação

1054 - O Papa de Roma e o Patriarca de Constantinopla se excomungam mutuamente

Março de 2013 - O Patriarca de Constantinopla comparece à posse de Francisco como Papa

Novembro de 2014 - O Papa estende a mão a Kiril: "Irei onde queiras. Chama-me e vou"

12 de fevereiro de 2016 - O Papa e o Patriarca da igreja ortodoxa russa se reúnem pela primeira vez em 1.000 anos 

Mas, Goyret acredita que a hipotética unidade futura entre as igrejas é o tema que está por trás de tudo. "O fato de estarem divididas é escandaloso, e prejudica a evangelização de maneira muito séria. Tira credibilidade ao cristianismo", opina o especialista. 

De acordo com o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi: "O encontro é de uma importância extraordinária no caminho das relações ecumênicas e do diálogo entre as confissões religiosas". 

Como foi gerado o encontro

Já há anos as igrejas haviam dado mostras de querer se aproximar. Comissões de uma e outra se deslocaram para Roma e Moscou. 

Ao sair à janela da Praça São Pedro recém-eleito papa no 13 de março de 2013, Francisco se apresentou simplesmente como "bispo de Roma". "Essa relação bispo-povo é algo muito apreciado no Oriente", explica Goyret.  

O patriarca Bartolomeu apreciou esse gesto do papa de entender a igreja como um conjunto de dioceses autônomas não centralizadas em Roma, e por isso acudiu ao Vaticano quando Francisco tomou posse. Era a primeira vez na história em que o Patriarca de Constantinopla estava presente a esse ato. 

O Papa Francisco e o Patriarca Bartolomeu se reuniram em Istambul  em 2014 - (Foto: Getty)

E foi um feito simbólico que não passou despercebido em Moscou. Em novembro de 2014, o novo Papa estendeu  a mão a Kiril: "Irei onde queiras. Chama-me e vou", se ofereceu. E o patriarca russo respondeu positivamente à sua iniciativa. 

A ambos os une a preocupação com o meio ambiente, mas não é apenas isso. "Que o Papa tenha se distanciado dos liberalismos econômicos extremos é algo também compartilhado", afirma Goyret. 

E a partir de agora?

A unidade do cristianismo não acontecerá de um dia para o outro, mas o encontro aparece como uma tentativa de deflagrar um processo que exigirá concessões de ambas as partes.

Do ponto de vista católico, essa aproximação faz parte das reformas que Francisco quer fazer avançar. Entre elas, a que a primazia papal não seja um obstáculo à unidade da igreja.

O papa busca a aproximação das igrejas cristãs como meta de seu papado - (Foto: Getty)

"Essas são palavras fortes, porque o chamado 'ministério petrino' vem da vontade de Cristo", explica Goyret. Do lado ortodoxo, "o problema é ao contrário", diz ele, devido à falta de uma chefia clara. 

A igreja ortodoxa vem tentando reunir-se em um sínodo (que a igreja católica chama de concílio) há mais de 50 anos. Por não haver uma autoridade central, não há quem possa convocá-lo, mas finalmente será celebrado em junho na ilha de Creta, na Grécia. 

Talvez Kiril encontre mais tensões internas que Francisco. "As forças conservadoras em Moscou disseram que não lhes agrada a reunificação com o Ocidente, porque isso os enfraquece", afirma Chad Pecknold, teólogo da Universidade da América, nos EUA.

[Detalhamento das principais diferenças entre a Santa Igreja Católica Apostólica Ortodoxa e a Igreja Católica Apostólica Romana, na visão dos ortodoxos: 

As diferenças fundamentais são a questão da infalibilidade papal e a reivindicação de supremacia universal da Sé de Roma, o que a Igreja Ortodoxa não admite, pois ferem frontalmente a Sagrada Escritura e a Santa Tradição.
 Existem, ainda, outras distinções, abaixo relacionadas em dois grupos básicos: 


DIFERENÇAS GERAIS:


São dogmáticas, litúrgicas e disciplinares.

A Igreja Ortodoxa só admite sete Concílios, enquanto a Romana adota vinte.

A Igreja Ortodoxa ensina que o Espírito Santo procede unicamente do Pai, conforme afirma o Credo Niceno-Constantinopolitano, e não do Pai e do Filho, conforme o ensino da Igreja Romana, que resolveu no ano de 1014 dC aceitar a modificação imposta pelo Imperador Carlos Magno no Séc. IX, adulterando assim o texto do Credo e, principalmente, a noção da Ontologia Trinitária.

A Sagrada Escritura e a Santa Tradição tem o mesmo valor como fonte de Revelação, segundo a Igreja Ortodoxa, pois na Bíblia se tem o ensinamento Divino e, na Tradição a correta interpretação, ambas fruto do Sopro de Deus, o Espírito Santo. A Romana, no entanto, considera a Tradição mais importante que a Sagrada Escritura.

A consagração do pão e do vinho, durante a missa, no Corpo e no Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, efetua-se pelo Prefácio, Palavra do Senhor e Epíclese, e não pelas expressões proferidas por Cristo na Última Ceia, como ensina a Igreja Romana.

Em nenhuma circunstância, a Igreja Ortodoxa admite a infalibilidade do Bispo de Roma. Considera a infalibilidade uma prerrogativa de toda a Igreja e não de uma só pessoa.

A Igreja Ortodoxa entende que as decisões de um Concílio Ecumênico são superiores às decisões do Papa de Roma ou de quaisquer hierarcas eclesiásticos.

A Igreja Ortodoxa não concorda com a supremacia universal do direito do Bispo de Roma sobre toda a Igreja Cristã, pois considera todos os bispos iguais. Somente reconhece uma primazia de honra ou uma supremacia de facto (primus inter pares).

A Virgem Maria, igual às demais criaturas, foi concebida em estado de pecado ancestral. A Igreja Romana, por definição do papa Pio IX, no ano de 1854, proclamou como "dogma" de fé a Imaculada Concepção.

A Igreja Ortodoxa nega a existência do limbo e do purgatório.

A Igreja Ortodoxa não admite a existência de um Juízo Particular para apreciar o destino das almas, logo após a morte, mas um só Juízo Universal.

O Sacramento da Santa Unção pode ser ministrado várias vezes aos fiéis em caso de enfermidade corporal ou espiritual, e não somente nos momentos de agonia ou perigo de morte, como é praticado na Igreja Romana.

Na Igreja Ortodoxa, o ministro habitual do Sacramento do Crisma é o Padre; na Igreja Romana, o Bispo, e só extraordinariamente, o Padre.

A Igreja Ortodoxa não admite a existência de indulgências.

No Sacramento do Matrimónio, o Ministro é o Padre e não os contraentes.

Em casos excepcionais, ou por graves razões, a Igreja Ortodoxa acolhe a solução do divórcio admitindo um segundo ou terceiro casamento penitencial.

São distintas as concepções teológicas sobre religião, Igreja, Encarnação, Graça, imagens, escatologia, Sacramentos, culto dos Santos, infalibilidade, Estado religioso... 


DIFERENÇAS ESPECIAIS:


Além disso, subsistem algumas diferenças disciplinares ou litúrgicas que não transferem dogma à doutrina. São, nomeadamente, as seguintes:

1- Nos templos da Igreja Ortodoxa só se permitem ícones.
2- Os sacerdotes ortodoxos podem optar livremente entre o celibato e o casamento.
3- O batismo é por imersão.
4- No Sacrifício Eucarístico, na Igreja Ortodoxa, usa-se pão com levedura; na Romana, sem levedura.
5- Os calendários ortodoxo e romano são diferentes, especialmente, quanto à Páscoa da Ressurreição.
6- A comunhão dos fiéis é efetuada com pão e vinho; na Romana, somente com pão.
7- Na Igreja Ortodoxa, não existem as devoções ao Sagrado Coração de Jesus, Corpus Christi, Via Crucis, Rosário, Cristo-Rei, Imaculado Coração de Maria e outras comemorações análogas.
8- O processo da canonização de um santo é diferente na Igreja Ortodoxa; nele, a maior parte do povo participa no reconhecimento do seu estado de santidade.
9- Existem, três ordens menores na Igreja Ortodoxa: leitor, acólito e sub-diácono; na Romana: ostiário, leitor e acólito.
10- O Santo Mirão (Crisma) e a Comunhão na Igreja Ortodoxa efetuam-se imediatamente após o Batismo.
11- Na fórmula da absolvição dos pecados no Sacramento da Confissão, o sacerdote ortodoxo absolve não em seu próprio nome, mas em nome de Deus - "Deus te absolve de teus pecados"; na Romana, o sacerdote absolve em seu próprio nome, como representante de Deus - "Ego absolvo a peccatis tuis...."
12- A Ortodoxia não admite o poder temporal da Igreja; na Romana, é um dogma de fé tal doutrina.

Os Dez Mandamentos

A Santa Igreja Católica Apostólica Ortodoxa conservou os dez mandamentos da Lei de Deus na sua forma original, sem a menor alteração. O mesmo não sucedeu com o texto adoptado pela Igreja Católica Apostólica Romana, no qual os dez mandamentos foram arbitrariamente alterados, tendo sido totalmente eliminado o segundo mandamento ("Não adorar ídolos", segundo os ortodoxos)  e o último dividido em duas partes, formando dois mandamentos distintos. Esta alteração da Verdade constitui um dos maiores erros teológicos desde que a Igreja Romana cindiu a união da Santa Igreja Ortodoxa no século XI. Esta modificação nos dez mandamentos, introduzidos pelos papas romanos, foi motivada pelo Renascimento das artes. Os célebres escultores daquela época tiveram um amplo leque de atividades artísticas, originando obras de grande valor. Não obstante, as esculturas representando Deus, a Santíssima Virgem Maria, os santos e os anjos estavam em completo desacordo com o segundo mandamento de Deus. Havia, pois, duas alternativas, ou impedir a criação de estátuas ou suprimir o segundo mandamento. Os papas escolheram esta última solução, caindo em grave erro.

Há ainda outra explicação para o intensivo uso de imagens pela Igreja de Roma -- este acréscimo é meu e não da fonte utilizada acima. Devido ao alto nível de analfabetismo entre os fiéis, dizem outras fontes, a Igreja de Roma teria decidido recorrer fortemente às imagens para reforçar e consolidar a adesão de seus seguidores.]  

  

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A escalada da guerra na Síria, com as forças aérea e marítima russas

[Em postagem anterior ("Discurso de Putin na ONU mostra quem está no comando") comentei e reproduzi um artigo do jornal israelense Haaretz sobre a jogada de mestre do presidente russo no xadrez do Oriente Médio, com sua intervenção na guerra civil da Síria. A Rússia agora ampliou essa intervenção: além dos bombardeios por seus caças em território sírio, ela agora disparou contra a Síria mísseis de longo alcance a partir de sua frota no Mar Cáspio. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.] 



Quatro navios da Marinha Russa dispararam um total de 26 mísseis de cruzeiro contra posições do grupo terrorista Estado Islâmico na Síria, anunciou o ministro da Defesa russo Sergey Shoigu. Os mísseis foram disparados do Mar Cáspio. Os mísseis voaram cerca de 1.500km antes de acertarem seus alvos.
Os mísseis vieram da Frota Russa do Mar Cáspio, que faz fronteira com a Rússia, Irã e o litoral de outros três países. As armas de precisão atingiram todos os alvos pretendidos. Os ataques necessitaram da cooperação do Irã e do Iraque, pois os mísseis tiveram que viajar através de seu espaço aéreo para chegar à Síria. [A cooperação do Iraque nessa iniciativa militar russa é mais uma demonstração da perda de poder dos EUA e de seu fracasso no Iraque. Os americanos gastaram vidas e bilhões de dólares para "salvar" o Iraque, para ver agora este país ajudando seu arquirrival, a Rússia, a se impor na Síria e no Oriente Médio contra os interesses dos EUA.]
Os quatro navios que dispararam os mísseis foram a fragata Dagestan da classe “Gepard” e as corvetas Grad Sviyazhsk, Uglich e Veliky Ustyug da classe Buyan-M. Foram disparados mísseis Kalibr NK (Klub) de lançadores verticais. Os mísseis podem atingir alvos a 2.500km de distância, com precisão de 3 metros.
As trajetórias dos 26 mísseis de cruzeiro disparados de navios de guerra russos no Mar Cáspio contra 11 alvos na Síria cruzaram os céus do Irã e do Iraque. O Irã é um importante financiador de Bashar al-Assad, o conflituoso presidente sírio. As lideranças do Iraque mantêm laços estreitos com o Irã. - (Mapa: Laris Klarkis, The Washington Post) 
Navios de guerra russos disparando mísseis em direção à Síria (Ministério de Defesa russo/YouTube)
O presidente russo Wladimir Putin disse que os ataques com mísseis evidenciaram a competência das renovadas forças armadas russas. 
[Ao analisar a razão da presença russa na Síria, o jornal The Washington Post comenta que "a ampliada presença militar russa pode sinalizar a intenção de Moscou de desempenhar um papel mais direto no jogo final sírio -- ou, no mínimo, ajudar o regime do presidente sírio Bashar al-Assad a manter qualquer controle, por limitado que seja, sobre o país varrido pela guerra". 
Mas, ressalta o jornal, esse movimento pode não significar uma mudança significativa na política russa [no país e na região]. "A Rússia nunca fez segredo de sua cooperação tecnológico-militar com a Síria. Especialistas militares russos ajudam os sírios a dominar os equipamentos russos", disse aos jornalistas um porta-voz da chancelasria russa na quarta-feira passada.
Na quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, foi um pouco mais direto. "Temos sido sempre francos com relação à presença de nossos especialistas militares na Síria, que ajudam as forças armadas sírias a treinar e aprender como usar nosso equipamento", disse ele numa entrevista à imprensa em Moscou. "E se passos adicionais forem necessários, estaremos completamente prontos a tomá-los". 
No dia seguinte, Lavrov foi ainda mais além, argumentando que era essencial dar suporte ao regime sírio, se o mundo quiser derrotar os jihadistas do Estado Islâmico (EI). "Você não pode derrotar o Estado Islâmico apenas com ataques aéreos. É necessário cooperar com as tropas em terra, e o exército sírio é a força terrestre mais eficiente e poderosa para combater o EI". 
Há quem especule as ações da Rússia não são o reflexo de uma estratégia genuína, mas, em vez disso, de maneira mais crua, são as táticas de um regime autoritário se agarrando desesperadamente aos níveis de poder que lhe restam. "É o confronto entre a Rússia e o Ocidente que arrasta a Rússia para o Oriente Médio", disse à NBC News Nikolay Kozhanov, um acadêmico na usina de ideias (think tank) de Chatham House, de Londres.]   


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Discurso de Putin na ONU mostra quem está no comando

[A paúra e a indefinição do Ocidente na questão síria deram mais uma chance de ouro para Wladimir Putin mostrar ao mundo qué muito mais sagaz e oportunista que Barak Obama, ditando as cartas em área vital do Oriente Médio. A reportagem traduzida abaixo, de Anshel Pfeffer, é do jornal israelense Haaretz. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]


Wladimir Putin fala na Assembleia-Geral da ONU em 28/9/2015 - (Foto: AP)

A última vez que o presidente russo Wladimir Putin falou na Assembleia-Geral da ONU, há exatos 10 anos atrás, ele se saiu com um discurso de 5 minutos exaltando as virtudes da ONU. Na segunda-feira, dia 28/9, o que se viu foi um Putin diferente, muito mais agressivo. Ele falou durante 20 minutos e apresentou uma clara e vigorosa política externa para seu país.

Putin escolheu uma maneira muito evocativa para começar sua fala, lembrando aos delegados presentes a cúpula dos líderes dos aliados, líderes dos países "que derrotaram o nazismo", que se realizou "em nosso país -- na Crimeia, em Yalta". 

Sim, a Crimeia que a Rússia invadiu e anexou no ano passado em resposta à revolução pró-Ocidente na Ucrânia. A Crimeia, disse Putin, permanecerá como parte da Rússia, não importa se o Ocidente não a reconheça como tal. Ele pode concordar em ser um pouco mais flexível com relação a outras áreas do leste da Ucrânia, onde separatistas pró-Rússia estão operando, junto com soldados russos que a Rússia nega que lá estejam. 

A menção à guerra contra o nazismo não foi fortuita, e nunca será. Apenas algumas horas antes do discurso de Putin, o embaixador russo na Polônia expressou seu "pesar" pela irritação causada por suas palavras na semana passada quando disse que a "Polônia havia impedido a criação de uma coalizão antinazista" e, portanto, era corresponsável pela deflagração da Segunda Guerra Mundial.



Essa surpreendente nova versão da História, eliminando-se da existência o pacto Molotov-Ribbentrop da União Soviética com a Alemanha nazista, está em sintonia com a tese de Putin sobre a criação de uma coalizão contra o EI (Estado Islâmico), um bloco que incluiria a Síria de Assad e que "atuaria como a aliança anti-Hitler". 

Entretanto, por tudo que Putin falou, os caças Sukhoi que foram deslocados nas últimas semanas para a região de Latakia, na Síria, ainda têm que mostrar alguma participação significativa na campanha internacional de bombardeio contra o EI. Mas eles estão servindo para provar outro ponto. Apenas o presidente russo decidirá se, como e quando seu aliado local, o presidente sírio Bashar Assad terminará seu reinado sanguinolento. 

Esse é o Putin da Assembleia-Geral da ONU de 2015. O líder do país que reivindica o mérito de ter derrotado Hitler na Grande Guerra Patriótica (que, de acordo com livros de História russos oficiais, começou apenas em 1941). Segundo Putin, a Rússia não repetirá o erro que cometeu em seus anos de debilidade que  se seguiram à desintegração da União Soviética, quando permitiu que a OTAN estendesse a aliança ocidental a países como a Polônia e as nações bálticas, que se apressaram a se proteger sob o guarda-chuva americano. 

Dois dias antes de Putin se dirigir para a assembleia da ONU, a Rússia participou de uma troca de espiões em que foi libertado um agente de inteligência estoniano que havia sido raptado um ano atrás em um incidente de fronteira encenado. Alguns observadores interpretaram a libertação de Eston Kohver como uma tentativa de apaziguar o Ocidente antes de pedir sua cooperação em relação à Síria. Outros acharam que a Rússia estava deliberadamente recriando uma cena tão evocativa das velhas trocas de espiões no Checkpoint Charlie [em Berlim] durante a Guerra Fria. 

Kohver foi sequestrado um ano atrás, dois dias depois que o presidente Barak Obama visitou a capital da Estônia para prometer que a OTAN ficaria do lado de seus aliados no Báltico. Agora, a Rússia fala de ampliar sua presença militar na vizinha Belarus e no enclave de Kalinigrado. Se o reforço incluir baterias antiaéreas, isto fará com que fique muito mais difícil para a OTAN ir em socorro dos países bálticos, casos eles sejam ameaçados. 

Isso provavelmente não acontecerá logo. A Rússia ainda está instável por conta de um rublo fraco, da queda dos preços do petróleo e das sanções do Ocidente por causa da Ucrânia. Este não e o momento para mais aventuras militares, não quando as forças armadas russas estão sendo estressadas para cobrir tanto o leste da Ucrânia quanto o novo posto avançado na Síria. Caixões vindo para cada saindo da Síria poderiam despertar novamente os traumas da Chechênia e do Afeganistão, e colocar em risco a popularidade doméstica de Putin. Mas ele está delineando e estabelecendo suas linhas vermelhas, que podem também ser os limites de seu poder.

A impotência da administração Obama e seu fracasso, junto com o resto do Ocidente, em conseguir qualquer tipo de solução para a guerra civil na Síria ou de restringir de maneira significativa a atuação do EI abriram caminho para Putin tomar a iniciativa. Obama e outro líder importante do Ocidente, a chanceler alemão Angela Merkel, já estão se mostrando flexíveis quanto à exigência de que Bashar Assad tenha que deixar o governo como parte de uma solução para a Síria. Obama em seu discurso na ONU falou de uma "transição administrada". O primeiro-ministra britânico David Cameron também está mudando de posição, e apenas o presidente francês François Hollande mantém-se firme em suas convicções. O secretário-geral da ONU Ban Ki-moon mencionou a Rússia como a primeira das cinco nações que "detêm as chaves para o futuro da Síria, juntamente com os EUA, a Turquia, o Irã e a Arabia Saudita. A coalizão está pronta e está sendo liderada por Putin. 

Parece que o primeiro-ministro [israelense] Benjamin Netanyahu foi o primeiro a reconhecer a nova realidade, ao correr para Moscou na semana passada para discutir procedimentos/métodos de coordenação para permitir que as forças israelense continuem a operar na Síria, juntamente com a nova presença russa. Por enquanto, Putin está no comando. 

[As fisionomias tensas de Obama e Putin em seu encontros bilaterais na ONU e os olhares gélidos trocados por eles em certos momentos desses encontros, como mostram as fotos abaixo, demonstram o clima reinante entre os dois líderes.]


Foto: Getty

Foto: Getty

Foto: ONU

Foto: Getty

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Punindo Putin: líderes da UE esnobam as comemorações de Moscou relativas à II Guerra Mundial

[Em postagem anterior -- "Ocidente x Rússia, um entrevero recheado de hipocrisia e cinismo" -- comentei que o tratamento dispensado pelo Ocidente e em particular pela UE (União Europeia) e pelos EUA à Rússia em tempos atuais agride a história, não dá a mínima relevância à enorme contribuição dos russos para o mundo como é hoje (sem a vitória russa sobre Hitler o mundo certamente seria bem outro) com mais de 20 milhões de mortos e é mais um exercício de cinismo e hipocrisia, com o roto criticando o esfarrapado. Surge agora no Spiegel Online International (versão inglesa do site da revista  alemã Der Spiegel - O Espelho) a notícia de mais uma agressão mesquinha da UE à Rússia, logo a Europa que tem uma enorme dívida com a Rússia por causa justamente da II Guerra Mundial. A reportagem na verdade não é inteiramente isenta, e traz alguns velhos clichês da Guerra Fria.

Como disse anteriormente, nesse palco não há anjinhos, mas o cenário não comporta igualmente pantomimas. O bizarro disso tudo é que os atores são mais propensos a adotar as Convenções de Genebra, que regem as regras das guerras, do que as regras do convívio respeitoso em tempos de paz. Traduzo a seguir o texto da reportagem do Spiegel Online International. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.

Sob o título "1945: Capitulação da Alemanha", a versão em português do site alemão DW (Deutsche Welle -- Ondas Alemãs) informa: 

"Em 8 de maio de 1945, o Alto Comando da Wehrmacht assina em Berlim a capitulação incondicional do Terceiro Reich ante as forças aliadas. Era o final da Segunda Guerra Mundial na Europa, cinco anos e meio após seu início. 

"Nós, abaixo-assinados, que negociamos em nome do Alto Comando alemão, declaramos a capitulação incondicional ante o Alto Comando do Exército Vermelho e ao mesmo tempo ante o Alto Comando das forças expedicionárias aliadas de todas as nossas Forças Armadas na terra, na água e no ar, assim como de todas as demais que no momento estão sob ordens alemãs. Assinado em 8 de maio de 1945 em Berlim. Em nome do Alto Comando alemão: Keitel, Friedeburg, Stumpf..."

O que o locutor da Rádio do Reich anunciava em poucas palavras na manhã de 9 de maio de 1945 era o final da Segunda Guerra Mundial na Europa. Todos os sobreviventes respiraram aliviados. Mas aquilo que a maioria – também dos alemães – sentiu como libertação, significava para outros vergonha e afronta, ou até mesmo a própria catástrofe".

O site operamundi informa: 

"A Segunda Guerra Mundial termina oficialmente na Europa em 8 de maio de 1945, às 23h01, no dia seguinte da capitulação sem condição da Alemanha nazista, assinado na véspera em Reims (nordeste da França).

Karl Dönitz envia o general Alfred Jodl, chefe do Estado Maior da Wehrmacht, a Reims, França, no quartel-general das forças aliadas do general Dwight Eisenhower, a SHAEF (Supreme Headquarters Allied Expeditionary Force), instalado, desde fevereiro de 1945, no grande edifício de tijolos vermelhos da Escola Profissional de Reims, imediatamente próximo da estação ferroviária. O estabelecimento leva hoje o nome de Liceu Roosevelt e a sala de capitulação transformou-se num museu público. O general Alfred Jodl assina em 7 de maio de 1945, às 02h41 da madrugada, a capitulação incondicional da Alemanha.

(...) Para Stálin, contudo, não era suficiente que a capitulação tivesse sido assinada em Reims, na zona ocupada pelas forças anglo-americanas. Era necessário também que fosse ratificada em Berlim, no coração do III Reich, acessoriamente na zona de ocupação soviética. Esta formalidade teve lugar em 8 de maio de 1945, às 15h00, no quartel general das forças soviéticas do marechal Zhukov, no bairro de Karlshorst.  As três Forças Armadas alemãs foram representadas pelo general-brigadeiro Hans Juergen Stumpff, comandante-em-chefe da Luftwaffe, o marechal Wilhelm Keitel, chefe do Estado-Maior da Wehrmacht e o almirante Hans Georg Von Friedeburg, da Kriegsmarine".


Escola Franklim Roosevelt, em Reims, onde foi assinada a primeira rendição alemã - (Foto: Wikimedia Commons)

Mesas e cadeiras originais dispostas exatamente como estavam quando da segunda assinatura da rendição incondicional da Alemanha na II Guerra Mundial, no quartel-general do marechal russo Georgy Zhukov, em 8 de maio de 1945, no bairro Karlshorst em Berlim - (Foto: Google)

Museu teuto-russo em Karlshorst, Berlim - (Foto: Google)]

Em 9 de maio, a Rússia realizará uma enorme parada militar para comemorar o fim da II Guerra Mundial há 70 anos atrás. Com as tensões entre a Rússia e o Ocidente em alta, a maioria dos líderes estarão fora desse evento.

Na segunda-feira 06/4 o presidente da Rússia, Vladimir Putin, visitou o cemitério da cidadezinha de Marfino, não distante da velha cidade ocidental russa de Staraya Russa, onde colocou um buquê de rosas vermelhas. Depois ele se reuniu com veteranos da "Grande Guerra Patriótica", a denominação que os russos usam para descrever sua batalha contra Hitler.

Seria difícil encontrar outra parte da Rússia tão saturada com o sangue daquela guerra, como o solo à volta de Staraya Russa. Oficialmente, 850.000 soldados morreram ali durante os dois anos e meio da ocupação alemã. O número real de mortos é provavelmente mais elevado, porque o Exército Vermelho tentou por longo tempo repelir sucessivos ataques do inimigo ao longo do fronte noroeste. 

O encontro perto de Marfino foi um dos eventos com os quais o presidente russo está preparando seu país para o dia 9 de maio, que marca o fim da guerra com a Alemanha de Hitler. É "o feriado mais importante e honorável do nosso país", disse Putin em Staraya Russa. "É o dia da grande vitória".

Neste ano, o fim da guerra será comemorado pela 70ª vez na Rússia. Desde que foi declarado um feriado oficial em 1965, o 9 de maio, com seu agrupamento espontâneo de veteranos nas ruas, seus festivais e salvas de tiros públicos à noite tornou-se de fato o feriado mais comovente da Rússia -- e, talvez, o único que verdadeiramente uniu o povo. A vitória contra Hitler ocorreu há três gerações atrás. Ainda assim, durante a visita de Putin a Staraya Russa, os veteranos fizeram-no lembrar-se das palavras do comandante militar Alexander Suvorov, que disse que uma guerra não termina "até que o último soldado seja enterrado". No ano passado, equipes de busca recuperaram nos pântanos próximos a Novgorod, às florestas de Smolensk e à região no entorno de S. Petersburgo os restos de 12.900 soldados mortos em combate.

Reabrindo antigas trincheiras

O 9 de maio de 2015 mostra que há também outras razões para que a guerra ainda não haja terminado para a Rússia. Ele demonstra que a liderança do país necessita da memória ou lembrança dessa guerra mais do que nunca, ainda que apenas uns poucos soldados que a lutaram estejam ainda vivos. Por fim, ele mostra que esse aniversário, diferentemente de todas as celebrações de vitórias anteriores, tornou-se um tema político europeu, porque antigas trincheiras foram reabertas no continente. Há os que, na Rússia, dizem que as celebrações do 9 de maio deste ano têm que se transformar em uma demonstração contra o "renascimento do fascismo na Europa" e uma "revisão dos resultados da II Guerra Mundial". 

A parada em Moscou na manhã do 9 de maio visa a estabelecer um exemplo. Será a maior parada jamais realizada. Cerca de 15.000 soldados marcharão através da Praça Vermelha, 4.000 a mais do que no último grande aniversário. Duzentos tanques, artilharias e mísseis passarão pelo Kremlim, e 140 caças cobrirão os céus sobre Moscou. Serão mostradas armas que "surpreenderão o mundo inteiro", escreveu o tabloide Komsomolskaya Pravda ["A Verdade do Komsomol", órgão do Comitê Central do Komsol, organização juvenil do Partido Comunista da União Soviética entre 1925 e 1991] cheio de expectativa -- entre as novidades bélicas está o "Armata, nosso tanque maravilha". 

Até esta data há poucas imagens disponíveis do Armata, mas a imprensa pró-Kremlim já está alardeando suas qualidades, incluindo um canhão de 125 mm de cano liso sem raiamento, que é capaz de disparar mísseis guiados. O tanque possui também um sistema de controle de fogo [disparo] de alta tecnologia que, dizem, pode capturar 40 alvos terrestres e 25 alvos aéreos em um raio de 100 km e, obviamente, pode destruir o inimigo tão logo ele alcance a zona de combate. Como a cereja do bolo, o Armata é dito possuir também um sistema de radar novo que detecta mísseis e foguetes que estejam a caminho, e aciona o comando para destruí-los apenas no momento certo.

Isolamento internacional

A Rússia gostaria de exibir o Armata e várias outras tecnologias militares aos estrangeiros que, supostamente, estariam alojados na área VIP do desfile de 9 de maio. O Kremlin convidou 68 líderes de países estrangeiros para a celebração da vitória, incluindo os políticos mais importantes do Ocidente. Por enquanto, apenas 25 aceitaram o convite de Moscou. Não estarão presentes o presidente americano, Barack Obama, o primeiro-ministro britânico David Cameron e o presidente francês François Hollande. A chanceler Angela Merkel comparecerá, mas apenas no dia 10, o dia seguinte à parada. Imagens de TV de Moscou mostrarão quão isolada a Rússia se tornou, em decorrência de sua política na Ucrânia e a anexação da Criméia. 

A população russa, há tempo, tem sido mantida alheia a essas más notícias. As estações de TV têm constantemente informado que mais e mais líderes estrangeiros participarão do desfile, mas quando o locutor lê os nomes dos países que representam surgem nomes como Coréia do Norte, Cuba, Mongólia e Vietnã.

Representantes seniores de apenas três países da UE  -- República Tcheca, Grécia e Chipre -- têm até agora planos de participar das cerimônias, mas muitos russos apenas tiveram ciência disso quando estourou um escândalo envolvendo o presidente tcheco, Milos Zeman. No domingo, Zeman baniu o embaixador americano de seu gabinete no Castelo de Praga depois dele ter criticado a viagem do presidente tcheco a Moscou.

Elogios da Rússia

"Estou indo a Moscou como um sinal de gratidão por não termos sido forçados a dizer "Heil Hitler" neste país", disse Zeman a uma rádio tcheca. Esse era o tipo de sentimento que os russos queriam ouvir. Autoridades em Moscou responderam prontamente, dizendo que Zeman possuía uma característica rara entre os políticos europeus: vê o mundo como ele é. 

O primeiro-ministro grego Alexis Tsipras recebeu também elogios da Rússia durante sua visita a Moscou no meio da semana, quando prestou homenagem à luta conjunta dos dois países contra o nazismo, e prometeu voltar dentro de um mês para o desfile de 9 de maio.  Embora Tsipras expressasse seu compromisso com com a Europa durante sua passagem por Moscou, sua visita ainda assim foi um sucesso do ponto de vista russo porque mostrou que a Europa está dividida quanto à melhor maneira de lidar com a Rússia. Não houve presentes para os gregos, mas Putin agora tem esperanças de transformá-los em aliados na Europa no longo prazo. 

O ex-primeiro-ministro polonês, Donal Tusk, agora presidente do Conselho Europeu e portanto porta-voz dos chefes de Estado e de governo europeus, declarou semanas atrás porque não iria à parada em Moscou no 9 de maio. "A presença na parada militar, lado a lado com os agressores de hoje e com uma pessoa que usa armas contra civis no leste da Ucrânia? Para mim, falando delicadamente, é demasiado ambíguo", disse Tusk. 

É difícil o debate sobre a razão pela qual o Leste e o Oeste não celebram mais juntos a vitória contra Hitler. No centro disso está um país que, por algumas estimativas, perdeu 27 milhões de pessoas nos quatro anos da II Guerra Mundial. De um ponto de vista formal pode-se entender os líderes ocidentais, mas isso é difícil de um ponto de vista pessoal", diz Andrey Yashlavsky, um colunista do jornal Moskovsky Komsomolets, sediado em Moscou. "Você tem que ser um ignorante ou um mentiroso para negar que nosso país sofreu o maior golpe na II Guerra Mundial, e que foi a Rússia que fez a contribuição fundamental para a derrota dos nazistas". 

Uma divisão crescente entre Leste e Ocidente

A chanceler alemã anunciou que, a despeito do boicote europeu, visitará Moscou um dia depois do desfile militar, juntando-se a Putin para depositar uma coroa de flores no Túmulo do Soldado Desconhecido. Foi um gesto inteligente, mesmo com a televisão estatal russa redefinindo sua decisão como um gesto contra o resto da Europa ocidental. Até o ministro de Relações Exteriores, Sergei Lavrov, afirmou que a viagem de Merkel a Moscou tinha um significado especial em termos de "derrotar a campanha contra os russos" feita pelo Ocidente. 

Na visão de Moscou, a decisão dos EUA e da maioria dos países da UE de ficar fora das festividades do 9 de maio é intencional e injuriosa. Os russos argumentam que isso tem pouco a ver com a Ucrânia, mas em vez disso faz parte de uma estratégia de longo prazo para neutralizar a Rússia como uma grande potência e derrubar Putin.

Os oportunistas entre os líderes do Ocidente não deviam jamais ter sido convidados para vir a Moscou, diz o político populista de direita Vladimir Zhirinovsky, líder do Partido Liberal Democrata no Parlamento russo. "Isso se deve a que os países da OTAN, que são controlados por um centro uniformizado, estão preparando uma guerra contra a Rússia". 

A controvérsia sobre a celebração da vitória no 9 de maio mostra quanto a Rússia se distanciou dos europeus, e evidencia quão amplo se tornou o gap entre os dois lados. A Rússia acusa o Ocidente de objetivos ainda mais malévolos. Ela acusa o Ocidente de tentar reescrever a história da II Guerra Mundial, com o objetivo de minimizar o papel da Rússia na vitória contra a Alemanha nazista.

Isso passa por uma longa história para explicar porque o Kremlin reagiu com tanta irritação quando a Polônia anunciou que realizaria uma celebração de vitória no memorial Westerplatte em Gdansk, onde a guerra começou em 1° de setembro de 1939 com os disparos feitos pelo navio-escola alemão Schleswig-Holstein. "O que Gdansk tem a ver com a vitória ?", perguntou irritado o chefe da administração presidencial russa. Em janeiro, o ministro das Relações Exteriores polonês fez de fato uma declaração absurda quando afirmou que os ucranianos haviam "libertado" o campo de concentração de Auschwitz. Essa observação deflagrou um visível e violento repúdio em Moscou, porque o Primeiro Fronte Ucraniano, o primeiro grupo a chegar ao campo de concentração, não era composto basicamente de ucranianos.

O Kremlim retaliou imediatamente. No final de fevereiro, publicou documentos de seus arquivos destinados a provar que a Polônia atraiçoou o Exército Vermelho durante a liberação da Europa. De acordo com esses documentos, o movimento de resistência polonês matou pelo menos 700 militares soviéticos em território polonês, do final de 1944 a maio de 1945.

Entretanto, alguns russos tendem a distorcer um pouco a verdade quando se trata de detalhes históricos. Quando o jornal do governo Rossiiskaya Gazeta escreveu sobre a libertação da Tchecoslováquia pelo Exército Vermelho no início de abril, publicou duas fotos uma ao lado da outra. Uma mostrava o exército alemão marchando sobre Praga em março de 1939, enquanto a outra, com o título "Invasão americana da República Tcheca em 2015", apresentava um único blindado americano contra um fundo neutro. Apesar disso, o jornal afirmava que o blindado estava na República Tcheca e pertencia à OTAN, que agora busca proteger a Europa oriental de Moscou.

Uma celebração de guerra?

Setenta anos após o término da guerra, tanques, mísseis e soldados estão novamente onipresentes na mídia russa. Na era soviética, os jornais tratavam de êxitos produtivos do país, enquanto na era Putin eles abordam o aumento do poderio militar russo. O Komsomolskaya Pravda recentemente dedicou uma página inteira a um relato sobre liberações de armas para o exército russo previstas para 2015. "Receberemos duas brigadas com mísseis 'Iskander' de curto alcance", informou o jornal. "As brigadas blindadas receberão mais de 700 tanques e veículos blindados. Haverá 126 novos aviões, 15 bombardeiros estratégicos modernizados e dois submarinos equipados com mísseis. E a indústria suprirá as tropas com 50 mísseis intercontinentais. Um recorde!"

Esse entusiasmo, tão crédulo quanto tosco, surge em forte contraste com os muitos comentários críticos e mesmo sarcásticos sobre o 70° aniversário da vitória russa.

A região de Volgogrado, antes conhecida como Stalingrado e mundialmente famosa pela sangrenta batalha de 1942 e 1943, abriga ainda 4.579 veteranos de guerra. Muitos vivem ainda em condições desumanas e as autoridades não fazem nada por eles, escreveu o Nezavisimaya Gazeta ["Jornal Independente", em tradução direta, é um jornal diário russo], que mostrou várias evidências para dar suporte à sua afirmação. Mas, a crítica mais contundente foi feita à condução do governo quanto ao 9 de maio. Muitos russos dizem que Vladimir Putin reformulou a data como um dia que celebra a guerra em si mesma e, mais do que tudo, o poderio da Rússia. Para eles, esse deixou de ser um dia de lágrimas e comemoração. 

"A guerra acabou há 70 anos", escreveu um leitor no fórum online da Rádio Ekho Moskvy. "Faz parte da história. Todos os países que lutaram em vários lados do fronte viraram essa página no livro da História e vivem agora no presente. Mas, estamos ainda nos arrastando através do passado, nos embriagando com a vitória e buscando novos inimigos. Quanto mais afastada a vitória no passado, mais pomposamente a celebramos". 

Segundo o site israelense Ynetnews.com, Moscou estaria "furiosa" com a recusa de Israel de enviar um representante de alto nível ao desfile de 9 de maio deste ano. Segundo o site, Mostrou considerou a atitude de Israel uma reação à recente decisão de Putin de vender um sistema de defesa de mísseis S-300 ao Irã. A Rússia esperava que Israel mandasse um alto dignitário ao desfile, devido à alta concentração de veteranos russos da II Guerra Mundial no país. 

Além da reação política, a atitude russa em relação ao Irã provou obviamente uma resposta militar de Israel, que voltou a dar ênfase à controvertida compra de caças americanos F-35, que são caríssimos e, por isso, motivo de divergência entre militares e autoridades israelenses.


O premiê grego Alexis Tsipras é, por enquanto, um dos três únicos representantes da União Europeia que planejaram participar do desfile militar de 9 de maio em Moscou, em comemoração ao 70° aniversário do fim da II Guerra Mundial - (Foto: DPA/Fonte: Spiegel Online International).

O presidente russo Vladimir Putin visitou Staraya Russa, na região de Novgorad, onde descreveu o 9 de maio como "o feriado mais importante e mais honorável do nosso país. É o dia da grande vitória" - (Foto: AP/Fonte: Spiegel Online International).

Soldados marcham no desfile militar de 2014 na Praça Vermelha, comemorando o 69° aniversário do fim da guerra contra a Alemanha nazista. Neste ano, Putin planeja realizar a maior parada militar da história, num show sobre o poderio russo que está provocando surpresa e desaprovação na Europa - (Foto: DPA/Fonte: Spiegel Online International). 

Putin planeja exibir uma expressiva coleção de novos armamentos sofisticados da Rússia. Na realidade, o 9 de maio de 2015 demonstrará provavelmente que a guerra não acabou nas mentes de muitos russos - (Foto: Reuters/Fonte: Spiegel Online International).

Muitos russos estão irritados com o fato de os europeus estarem se mantendo fora das comemorações do 9 de maio - (Foto: AP/DPA/Fonte: Spiegel Online International).

Na segunda-feira, 06 de abril, visitou um cemitério memorial para os soldados mortos em Staraya Russa durante a II Guerra Mundial. O fato de que os líderes europeus estarem boicotando as celebrações do 9 de maio este ano é um indicador de que a data se tornou um tema político europeu, porque antigas trincheiras foram reabertas no continente europeu - (Foto: AP/Fonte: Spiegel Online International).

Um dos poucos líderes europeus que participarão do desfile de 9 de maio é o premiê grego Alexis Tsipras, que visitou Moscou no início da semana de 10 de abril. O Kremlim considerou a visita de Tsipras um sucesso, porque mostrou que os europeus estão divididos sobre como lidar com a Rússia - (Foto: DPA/Fonte: Spiegel Online International).

A chanceler alemã planeja participar das comemorações, mas no 10 de maio, um dia depois do desfile militar - (Foto: AP/DPA/Fonte: Spiegel Online International).


[Ver também: