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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O estranho amor dos extremistas hindus pela vaca

[Traduzo a seguir artigo de Julien Bouissou publicado no site do jornal francês Le Monde. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Os chifres das vacas são pintados com tinta fosforescente para torná-las mais visíveis - (Foto: Sam Panthaky/AFP)

Asilos de  idosos, ambulâncias, brigadas de proteção: na Índia, os bovinos estão no centro de todas as atenções.

É o resgate da glória e da devoção. Enquanto 550 pessoas morreram em 2015 em acidentes ligados a animais vagando em vias públicas, policiais indianos de Madhya Pradesh, um estado localizado no centro do país, acabam de decidir por pintar com tinta fosforescente os chifres -- as faixas e "coleiras" refletoras, pouco confiáveis, fracassaram na segurança do trânsito. Uma medida que serve para proteger os bovinos, ao menos tanto quanto os motoristas.

É que depois da chegada ao poder do primeiro-ministro nacionalista hindu Narendra Modi, em maio de 2014, a vaca está no centro de todas as atenções. O governo indiano cogita principalmente de construir 1.850 asilos de idosos para que os animais possam neles chegar ao fim de suas vidas, em vez de nos matadouros. Na maior parte dos estados, matá-los já é ilegal, alguns deles chegando mesmo a  punir com dez anos de prisão a venda e a retenção de carne de vaca.

"A vaca é nossa mãe", afirmam os extremistas hindus, citando textos sagrados. No estado de Jharkhand, até ambulâncias para vacas surgiram em novembro de 2015, ao passo que não existe ainda nenhum número de emergência para atendimento aos indianos. E já que não há nada melhor que a ciência para tornar verdade uma crença, cientistas do país anunciaram ter descoberto ouro na urina de vaca ... [Isso ocorreu na Universidade Agrícola de Junagadh localizada no estado de Gujarate, região oeste da Índia -- cientistas da universidade colheram 400 amostras de urina de vacas da raça gir, típica desse país oriental. Curiosamente, foram encontrados vestígios de ouro no líquido excretado pelos animais. "Tínhamos a informação, proveniente de fontes antigas, sobre a presença de ouro na urina das vacas, bem como de suas possíveis qualidades medicinais. Como não havia um análise científica cuidadosa que o provasse, decidimos fazer a pesquisa", diz Balu Golakia, responsável pelo estudo, em entrevista ao jornal indiano Indian Express.]

Fardo financeiro

Mas essa afeição transbordante faz do amor algo prejudicial. A veneração ao animal contribui para sua extinção, e não apenas devido aos acidentes de trânsito. A vaca  não é mais utilizada por seu leite, porque as búfalas são muito mais generosas. Não é mais usada para arar os campos, porque os camponeses preferem o trator. E, por fim, seus excrementos não servem mais para adubar a terra. A menos que os extremistas hindus transformem sua urina em ouro, a vaca não rende mais grande coisa. E se não pode nem mesmo ser mandada para o matadouro, ela se transforma em um fardo financeiro para seu proprietário, que prefere abandoná-la ou mandá-la para um estado vizinho, onde o abate seja permitido.

O animal sagrado parece finalmente não servir mais do que para afirmar a supremacia hindu num país em que as minorias religiosas representam 17% da população. Esses são aliás, juntamente com os intocáveis [o termo dalit foi utilizado pela primeira vez em finais do século XIX pelo ativista Jyotirao Phule para designar quem, no sistema de castas do hinduísmo, é designado como "shudra", grupo formado por trabalhadores braçais, considerados pelos escritos bramânicos, sobretudo o Manava Dharmashastra, como "intocáveis" e impuros. O termo deriva de uma palavra em sânscrito que significa tanto "chão" quanto "feito aos pedaços". Desse modo, conota que a condição dos "dalits" é de oprimidos e, portanto, não podem reverter essa situação. O termo, assim, é considerado preferível, pelos ativistas e intelectuais dalits, aos mais pejorativos "shudra" e "intocáveis".], os principais alvos das brigadas de proteção às vacas, cujos ataques aumentaram após a chegada de Narendra Modi ao poder. Em 2015, pelo menos cinco muçulmanos foram mortos por comandos hindus por suspeita de terem comido carne de vaca ou feito tráfico de bovinos.

Os especialistas do hinduísmo afirmam entretanto que os próprios hindus sacrificavam vacas ou consumiam sua carne antes que isso se tornasse um tabu. Em sua obra "O Mito da Vaca Sagrada" (ed. Navayana, não traduzido), o historiador Dwijendra Narayan Jha considera que, em sua opinião, o animal é hoje um mito que convém sobretudo a certas ambições políticas. E os chifres fosforescentes desse animal certamente não mudarão nada disso.

[Uma outra reportagem do mesmo site francês, agora de autoria de Edouard Pflilmin, diz que "a vaca é o coração espiritual e também econômico da Índia". 

 Uma crente hindu durante a Gopashtami, festa de adoração das vacas, em Hyderabad, em 31 de outubro de 2014 - (Foto: Mahesh Kumara/AP)

Diz o texto (datado de 12/3/2016) que  a vaca é sagrada para os hindus, e que nos últimos meses anteriores a essa data a Índia tivera violências ligadas aos bovinos, gerando inúmeras mortes. Tais violências são encorajadas pelo governo de Narendra Mori, que se expressou com virulência contra o massacre dos bovinos e quase justificou as mortes humanas.

Mas, apesar dessa repressão governamental, a carne mantém-se como um pilar da economia indiana. É verdade que o rebanho bovino indiano reduziu-se em 4,1% de 2007 a 2012, mas a Índia é o quarto maior produtor de carne do mundo, atrás do Brasil, da União Europeia e da China, segundo o site indiano Quartz. O país é seu  principal exportador, o que lhe rende mais ainda que o  arroz basmati. A Índia é também o quinto maior consumidor mundial de de carne de vaca, um consumo em alta regular sobretudo por muçulmanos e cristãos. O sucesso é tal, que os camponeses vendem mais e mais sua produção pela Internet. 

Eu (Vasco), pessoalmente, vi de perto essa reverência pela vaca quando estive na Índia e no Nepal no final dos anos 1990, em missão oficial pela Eletrobras. Em um dos deslocamentos em carro da embaixada brasileira, passamos por uma vaca e perguntei ao motorista (um paquistanês) o que acontece quando alguém atropela e mata uma vaca. Ele deu uma freada brusca, olhou-me com muito espanto e disse "mas a vaca é nossa mãe"! Insisti na pergunta e ele então me disse que quem matar uma vaca em condições como a que citei tem que fazer uma estátua em ouro do animal, de dimensões de algum modo compatíveis com sua riqueza pessoal, levá-la a um templo e cumprir uma penitência. 

As vacas perturbam completamente o trânsito, porque às vezes ficam paradas no meio da rua ou da estrada, de pé ou deitadas, e os motoristas têm que se virar para não atingí-las.






A intromissão da vaca na vida diária dos indianos - (Fotos: Google)

Uma amiga nossa, uma artista plástica de renome internacional, foi à Índia há muitos anos atrás participar como conferencista de um evento na sua área. Ela era uma mulher alta e forte. Quando passeava por uma rua, não me lembro onde, com sua bolsa de palha a tiracolo, uma vaca começou a seguí-la e a tentar comer sua bolsa. Em certo momento, nossa amiga deu uma forte cotovelada na vaca para afastá-la; imediatamente foi cercada por populares, que ameaçavam agredí-la, foi levada presa a uma delegacia e foi solta por interferência de nossa embaixada.

Outra presença estranha -- e crescente -- da vaca na vida dos indianos é pelo uso de sua urina para fins terapêuticos, em aumento visível no país. Desde 2014, o governo indiano já gastou US$ 87 milhões com estábulos para vacas. Urina destilada de vaca vende pelo menos tanto quanto seu leite, na Índia. "Cerca de 30 remédios caseiros podem ser feitos com a urina da vaca", disse Sunil Mansinghka, coordenador-chefe na Go-Vigyan Anusandhan Kendra, uma instituição de pesquisa focada na vaca em Nagpur, financiada por dois grupos hindus. "Nossa ambição máxima é fazer com que o elixir chegue aos nossos compatriotas", acrescenta ele.

O estado de Rajasthan chegou ao ponto de criar uma secretaria para vacas, para proteger um animal que, segundo alguns críticos, tem mais direitos que os 2 milhões de cidadãos sem teto no país. Há sérias controvérsias quanto à salubridade do uso da urina de vaca para fins medicinais, porque ela tem a potencialidade de conter patógenos. O médico veterinário treinado na Índia, Navneet Dhand, professor de bioestatísticas e epidemiologia veterinárias da Universidade de Sidney, menciona três doenças prevalecentes na Índia que potencialmente podem ser transmitidas por urina não destilada de vacas infectadas: leptospirose, que pode causar meningite e falha hepática; artrite, provocando brucelose; e febre Q, que pode provocar pneumonia e inflamação crônica do coração. Apesar disso, cresce no país o número de clínicas dedicadas à terapia com urina de vaca.
Clínica de saúde com terapia de urina  de vaca, na Índia - (Foto: Anindito Mukherjee/Bloomberg)

Virenda Khumar, fundador da rede de Jains de clínicas de saúde que fazem terapia com urina de vaca [ver foto acima], disse que já administrou medicamentos derivados da urina de vaca para 1,2 milhão de pacientes nas duas últimas décadas, para doenças que vão de câncer a distúrbios endócrinos (como a diabete).





Coleta de urina fresca de vaca para uso medicinal na Índia - (Foto: Google)

O sistema de castas na Índia, que rege toda a vida dos indianos e está envolvido também nesse  culto à vaca, é complicado e absolutamente bizarro para o mundo ocidental. Um excelente livro para conhecer esse mecanismo de divisão da sociedade indiana é o "Caste - Its twentieth Century Avatar", editado e apresentado por M. N. Srinivas (ed. Viking - Penguin Books, 1996).]  




segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A sede dos indianos por ouro cria problemas financeiros para a Índia

[O jornal Financial Times publicou uma série de artigos sobre a obsessão dos indianos por ouro e como isso tem criado problemas para seu país. O primeiro artigo da série foi publicado no dia 30/10 na edição virtual do jornal, e no dia 31/10 a edição impressa publicou uma espécie de condensação dessa série. É deste resumo, de autoria de Avantika Chilkoti e James Crabtree, que faço uma tradução mais ou menos compactada abaixo. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]


Estação nupcial: modelos vestindo saris nupciais bordados em ouro e usando jóias em ouro em um carnaval nupcial em Mumbai- (Foto: Getty Images/Fonte: Google).

No meio da correria do caótico aeroporto internacional de Mumbai (Bombaim) os funcionários da alfândega solicitam a um passageiro que se apresente. Uma caixa de papelão com os lados juntados por grampos muito pequenos havia chamado sua a atenção. Uma inspeção cuidadosa revelou que os grampos eram feitos de ouro, moldados e banhados para que se parecessem com grampos normais de papelaria.

Esse está longe de ser um incidente isolado. Funcionários aduaneiros dizem que as apreensões de ouro aumentaram dramaticamente nos últimos meses. Cartazes ostensivos nos principais aeroportos avisam os passageiros desembarcados de que todo ouro deve ser declarado, seja sob a forma de gargantilhas e braceletes delicados ou em lingotes.

A Índia absorveu cerca de um quarto do suprimento de ouro mundial no ano passado, transformando-se no maior importador de ouro do planeta. O apetite aparentemente insaciável dos indianos por ouro é visto geralmente como uma charmosa esquisitice nacional movida por casamentos elaborados e pródigas ofertas religiosas. Mas, com as importações explodindo, a demanda sempre crescente tornou-se um fatores que estão levando a terceira economia da Ásia a uma crise financeira. 

Apesar da Índia elevar repetidamente a taxação sobre o ouro, as importações em maio atingiram o maior valor já registrado. Essa entrada de ouro ajudou a levar o atual deficit em conta corrente do país a níveis recordes, deixando a Índia especialmente vulnerável durante a fuga de capitais que varreu os mercados emergentes neste verão, arrastando para baixo o valor da rupia em mais de 15 por cento. Em agosto, os aumentos de impostos começaram a fazer efeito, causando um colapso nas importações e uma severa ruptura no mercado indiano de ouro. 

Agora, o governo indiano enfrenta um duplo dilema. Suas restrições funcionaram, pelo menos no curto prazo. Mas, a demanda por ouro permanece forte, particularmente no momento em que o país caminha para sua estação anual de casamentos e de festivais hindus. Durante esse período, as compras disparam, especialmente durante o fim de semana de celebrações do Diwali [festa religiosa anual hindu e um grande feriado indiano de cinco dias, também conhecido como "festival das luzes", em que as pessoas estreiam roupas novas, dividem doces e soltam fogos de artifício -- foi celebrado no primeiro fim de semana de novembro], gerando receios de um rápido retorno a importações mais elevadas e a pressões adicionais sobre as finanças externas do país.

A demanda por ouro se origina de uma afinidade por tecidos dourados profundamente entranhada na cultura indiana -- geralmente até em termos factuais, como no caso dos saris que as mulheres vestem no dia em que se casam [ver foto]. Cerca de metade das compras de ouro estão vinculadas de algum modo aos casamentos, nos quais o metal é usado para os dotes das noivas. 

"Em nossa comunidade definitivamente vão lhe pedir ouro, caso contrário não se casam", diz Kalavati, uma empregada doméstica da província sulista de Karnataka, que gastou seis vezes mais que seu salário mensal de 10.000 rupias [cerca de R$ 370,00] comprando ouro para o casamento de sua filha, para satisfazer ao requisitado pela família de seu genro [o sistema de dotes na Índia obriga a família da noiva a fazer, no casamento, pagamento à família do noivo em dinheiro ou em presentes -- geralmente isso inclui dinheiro vivo, jóias, aparelhos elétricos, mobílias, roupa de cama, artigos de cerâmica, utensílios e outros itens domésticos que ajudam os recém-casados a montar sua casa]

A religião é outro fator importante, não apenas durante a festa de Dhanteras [primeiro dia do festival do Diwali], quando metais preciosos são usados em homenagem a Lakshmi, a deusa da riqueza, da prosperidade e do bem-estar. Junto com pilhas de cravo-de-defunto perfumado, ofertas de jóias e ornamentos de ouro são levados aos locais de culto durante o ano todo.

Essas doações tansformaram os templos da Índia em grandes depósitos de ouro, com os três maiores templos do país sendo donos de um estoque de 3.500 toneladas, de acordo com um relatório recente do Credit Suisse. Em 2011, apenas um deles, o Sri Padmanabhaswamy, no estado sulista de Kerala, revelou possuir um estoque que vale US$ 20 bilhões pelas cotações atuais.  "Hoje, as pessoas estão doando mais. Diariamente, o movimento está aumentando", diz Subhash Vittal Mayekar, que chefia o templo de Siddhivinayak em Mumbai.

Essas afinidades culturais e religiosas tornaram-se mais importantes na última década, fazendo com que a demanda por ouro aumentasse em consonância com a crescente afluência da população da Índia. No entanto, o surto dessa demanda tem tanto a ver com investimento quanto com celebrações piedosas e nupciais, especialmente num país em que 40% da população não têm ainda uma conta bancária, diz Renny Thomas, um sócio da consultora McKinsey em Mumbai [esse é o país que acaba de enviar uma missão não tripulada a Marte ...].

"A sedução pelo ouro é sintomática da fraqueza do sistema financeiro indiano, e encontrar alternativas financeiras para isso é crucial para o desenvolvimento do país", diz Eswar Prasad, um economista da Brookings Institution.

Raguram Rajan, presidente do Banco Central da Índia (BCI), diz que os certificados de poupança indexados à inflação, emitidos pelo banco no final de outubro, pode ser parte dessa resposta. O BCI fala também de outros produtos garantidos pelo ouro, incluindo esquemas para depósitos em ouro, nos quais os investidores ganham juros ao depositar seus estoques pessoais em bancos, estoques esses que os financiadores podem reciclar no mercado doméstico, reduzindo a demanda por importações.

Esses produtos suscitaram dúvidas. "Ainda acho difícil imaginar um pai presenteando uma filha em seu grande dia com um certificado de um fundo financeiro vinculado ao ouro", diz um financista sênior.  "Restringir a demanda por ouro exigirá muito mais -- uma perspectiva estável para a inflação, novos tipos de produtos de poupança e controle do mercado negro", diz Shinjini Kumar.

Importações oficiais de ouro da Índia - Anos fiscais terminando em março. -- Rupia indiana contra o dólar. - (Ilustração: Financial Times/Fonte: Google).

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Mapa-múndi do PIB do planeta em 2013, segundo o FMI

A previsão de crescimento econômico do Ocidente é sombria, de acordo com a mais recente Previsão Econômica Mundial do FMI ("Esperanças, Realidades, Riscos" - Abril de 2013), divulgada em 16 de abril corrente. A produção mundial é esperada crescer apenas em 3% em 2013, mas com os países ricos na retaguarda, expandindo-se em 1,2%. Em contrapartida, os mercados emergentes excederão os 5%, com a Ásia e a África Subsaariana acelerando em 7% e 5,6%, respectivamente.

O relatório do FMI elogia os estrategistas da eurozona por terem evitado uma quebra, mas observa que partes da união monetária ainda permanecem não competitivas e restringidas pela política de austeridade. Ele observa ainda que o fato de a injeção de dinheiro efetuada na região não conseguir chegar às famílias e negócios de renda mais baixa tem igualmente pressionado para baixo as perspectivas para a eurozona.

Embora estimulada pela recuperação em habitação e mercados de crédito, a economia americana terá que suportar os efeitos do sequestro orçamentário.

Previsões do FMI de crescimento percentual do PIB no mundo em 2013 (clique na imagem para ampliá-la) - (Ilustração: The Economist).

terça-feira, 5 de março de 2013

Os lados tenebrosos de Madre Teresa de Calcutá



[Madre Teresa de Calcutá (morta em 1997) foi beatificada em 2003 em tempo recorde, só superada nisso pelo papa João Paulo II, que recebeu o alvará para ser santo em menos de seis anos depois de morto. Ambos são os exemplos mais gritantes do processo turbinado de santificação introduzido pelo próprio João Paulo, que em quase 27 anos de pontificado fez mais beatificações (1.338) e mais canonizações (482)  no cargo do que todos os papas anteriores a ele, em conjunto. Esse é o retrato instantâneo mais realista e fiel da Igreja Católica Apostólica Romana, uma instituição que é supersônica em coisas supérfluas e de marketing, e mantém-se paquidermicamente lenta em assuntos que considera "pétreos", não importa seu grau de anacronismo (celibato dos padres, proibição às mulheres de serem ministras de Deus, condenação da camisinha, etc), e criminosamente relaxada e omissa na apuração e condenação exemplar da pedofilia no seu seio. Agora, surge uma pesquisa que revela que a celebrada e venerada Madre Teresa de Calcutá não era lá a santinha que todos imaginvam -- eis mais um striptease desagradável da Igreja Católica Apostólica Romana.]

"Dúbia" no cuidado aos doentes, "questionável" em suas políticas e "suspeita" em suas finanças -- eis o perfil nada santo de Madre Teresa encontrado por pesquisadores das universidades de Montreal e Ottawa.

A imagem santificada de Madre Teresa foi questionada por pesquisadores que fizeram um estudo aprofundado de sua vida. Ela pode ter passado a grande maioria de seus 87 anos olhando pelos doentes e pelos pobres, mas pesquisadores das universidades de Montreal e Ottawa levantaram agora questionamentos sobre a natureza "dúbia" de seus cuidados e também quanto aos seus contatos políticos "questionáveis". Os pesquisadores apresentaram também preocupações com os arranjos financeiros "suspeitos" da ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, arranjos esses que, segundo os pesquisadores, contemplaram a transferência de grandes somas de dinheiro para as contas bancárias "secretas" da religiosa.

Escrevendo para o Journal of Studies in Religion/Sciences [ver aqui], depois de analisar cerca de 300 documentos em torno da vida de Madre Teresa, o Dr. Serge Larivie e a Dra. Genevieve Chenard dizem que encontraram detalhes que comprometem a imagem santificada da freira nascida na Albânia. Eles afirmam que muitas das "missões" implementadas pela religiosa eram inadequadas para seus destinatários, chamando-as de "casas para os moribundos" devido à deficiência de sua higiene e a uma carência de alimentos, cuidados e medicamentos.

Os pesquisadores consideram que falta de dinheiro não pode, entretanto, ser a razão para essas condições precárias já que Madre Teresa  levantou centenas de milhões de libras durante sua vida, embora aparentemente muito desse dinheiro pareça ter desaparecido em várias contas bancárias "secretas" mantidas segundo alguns pela freira.  Os pesquisadores questionaram também por que, apesar de abertamente oferecer preces e medalhas da Virgem Maria, Madre Teresa jamais providenciou ajuda direta ou monetária às vítimas de vários desastres naturais na Índia. O Dr. Larivie diz: "Dada a gestão parcimoniosa das obras da freira, é lícito perguntar: para onde foram os milhões de dólares destinados aos mais pobres?"

Os pesquisadores prosseguiram, questionando as políticas e os contatos políticos de Madre Teresa, acusando-a de aceitar uma doação financeira da ditadura brutal de Duvalier [o terrível Papa Doc], considerada responsável pelo assassinato de mais de 30.000 haitianos no período de 1957 a 1986. Eles acusam também a religiosa de disseminar a linha dura da direita católica, dizendo que ela manteve "opiniões excessivamente dogmáticas em relação, especialmente, a aborto, contracepção e divórcio".

Dr. Larivie disse que muito da imagem pública santificada de Madre Teresa foi construída pelo jornalista da BBC Malcolm Muggeridge, que compartilhava de suas opiniões católicas conservadoras, principalmente com relação ao aborto, e cuja promoção dela levou à fama internacional da freira.

Apesar dos aspectos negativos, Dr. Larivie admite que há muitos aspectos positivos na vida e na obra de Madre Teresa. Ele disse: "Se a imagem extraordinária de Madre Teresa transmitida no imaginário coletivo encorajou iniciativas humanitárias genuinamente engajadas em benefício daqueles esmagados pela pobreza, só podemos nos regozijar a respeito". E acrescentou: "É provável que ela tenha inspirado muitas pessoas humanitárias, cujas atividades tenham realmente aliviado o sofrimento dos destituídos e abordado as causas da pobreza e do isolamento sem serem exaltadas pela mídia ... No entanto, a cobertura da mídia em relação a Madre Teresa poderia ter sido um pouco mais rigorosa".

Madre Teresa morreu em 1997 e foi beatificada pela Igreja em 2003, fatando-lhe apenas um milagre para tornar-se santa.

[No Abstrato de seu trabalho (cujo título é o que adotei nesta postagem), os Drs. Larivie e Chenard dizem: "O impacto da obra de Madre Teresa não tem fronteiras geográficas, nem religiosas. Nas quatro partes deste trabalho, tentamos entender esse fenômeno. Apresentamos de início a metodologia utilizada para coligir as informações disponíveis, em seguida evocamos algumas referências bibliográficas que permitem compreender sua missão e a contribuição das mídias à sua popularidade. A terceira parte identifica quatro obstáculos que dificultam o caminho de sua canonização: sua opinião religiosa bastante dogmática, sua maneira de cuidar dos enfermos, suas escolhas políticas e sua gestão duvidosa das montanhas de dinheiro que recebeu. Na quarta parte, abordamos alguns elementos de sua vida relativos à sua beatificação, entre os quais sua "noite da fé", o exorcismo ao qual foi submetida assim como a validade do milagre que lhe foi atribuído. Na conclusão, nós  questionamos as razões pelas quais as críticas de que ela é objeto têm sido ignoradas pelo Vaticano".]





sábado, 23 de fevereiro de 2013

Infosys, a empresa indiana de sucesso no mundo implacavelmente competitivo da TI

[O texto abaixo é da autoria de Daniel Gross e foi publicado em 19/2 na sua coluna no site da Newsweek.]

Na política, terceirização é uma palavra tendenciosa. Mas, nos negócios, é uma atividade vital, uma enorme fonte de lucros. Ninguém sabe disso melhor que S.D. Shibulal, cofundador e atual CEO da Infosys Limited. Iniciada em 1981 com 7 empregados e modestos US$ 250, a Infosys tem hoje uma receita anual de US$ 7,23 bilhões, um valor de mercado de US$ 30 bi, e 155.000 empregados em 12 países [incluindo o Brasil, onde abriu sua filial Infosys Tecnologia do Brasil Ltda em 2009]. Ela percorreu um longo caminho, desde centrais de atendimento (call centers) e serviços de apoio (help desks), até tornar-se a consultora externa em TI e comércio virtual (e-commerce) das principais corporações do mundo. "As dimensões de valor são muito mais complexas hoje em dia", me diz Shibulal em uma sala sossegada no Fórum Econômico Mundial no mês passado em Davos, Suiça.

O início da terceirização surgiu quando empresas americanas contrataram, com salários muito menores, pessoas no exterior para executar serviços de apoio extremamente monótonos e nada criativos. Esse trabalho responde ainda por 60% do negócio da Infosys, mas a empresa prefere ser considerada como uma consultora de ponta, como a McKinsey, e não uma substituta barata para o departamento de TI. Um terço da receita da empresa vem de "consultoria e inovação de sistemas", diz Shibulal, um homem de um falar extremamente suave.  Outros 6% vêm de "produtos e plataforma" -- por exemplo, um novo posto de venda de celulares para a Nordstrom. Em 2012, a Infosys desembolsou US$ 350 milhões para comprar a Lodestone, uma empresa europeia de gerenciamento.

Nascido exatos oito anos após a independência da Índia [que se deu em 1947], Shibulal tem dirigido o sucesso da Infosys para tornar-se o 77° homem mais rico da Índia (patrimônio líquido: US$ 770 milhões). Os sucessos dos ricos globais da Índia dividem manchetes com notícias desagradáveis de corrupção política, problemas sociais e uma pobreza profundamente arraigada. "Todos os países emergentes são países de contradições. A Índia não é diferente", diz ele, e então despeja estatísticas que fariam Tom Friedman babar. "A Índia produz um milhão de engenheiros que dominam o inglês [barbaridade, tchê!], mas temos 14 milhões de crianças que não estão na escola [cerca de 1,2% da população do país, para uma população total de 1,2 bi -- o Brasil, até agosto de 2012 segundo relatório da Unicef, tinha 1.419.981 crianças de 4 a 5 anos que não estavam matriculadas no sistema de ensino, o que dá cerca de 0,7% numa população de 192 milhões].  Temos 70% de nossos serviços de saúde nas cidades, mas 70% da nossa população vivem em áreas rurais".

Shibulal mora em Boston e Bangalore, mas vive "num avião" e seus olhos cansados demonstram isso. É previsivelmente otimista sobre o futuro da Índia. "Quando cresci, tínhamos 30 milhões de pessoas na classe média -- hoje, esse número é de 350 milhões", diz ele. A Índia se provou adepta de "inovações frugais" que garantem, a preços muito menores, acesso a bens com os quais os consumidores dos países desenvolvidos estão acostumados sem dar-lhes o devido valor. Shibulal cita o Tata Nano, um microcarro vendido a US$ 3.000, e uma máquina que pode tirar eletrocardiogramas por um dólar. Empresas americanas, ele comenta, podem prosperar na  Índia simplesmente fabricando um refrigerador menor e mais barato. "Ainda assim, não há energia elétrica para ele", diz ele. "O problema é criar um regrigerador novo, capaz de manter-se frio mesmo que a energia falte durante duas horas". 

Quando lhe pergunto o que faz a Infosys para garantir que consiga operar com padrões globais dentro da Índia, os olhos de Shibulal se iluminam. "Você perguntou, então não consigo resistir". Pegou um tablet e mostrou um giro aéreo sobre um campus de 400 acres [cerca de 1,6 milhão de ] em Mysore, a cerca de 145 km a sudoeste de Bangalore. É do tamanho de uma universidade: 93.000 de salas de aula, um centro de desenvolvimento de software que pode abrigar 10.000 pessoas, e edifícios residenciais que alojam 14.000 empregados (nos telhados dos prédios lê-se do alto INFOSYS) [isso é de cair o queixo -- é iniciativa de uma única empresa! Pobre Brasil!]. "Você quer ver nossas instalações para coletar água de chuva?", ele pergunta, focalizando um enorme reservatório. "É um local de descarga zero. Cada gota d'água que captamos nós a bombeamos de volta para o meio ambiente". O campus tem uma praça de alimentação, um restaurante, um cinema, e um campo de cricket.

Aquilo podia ser uma instalação no Vale do Silício, ou na suburbana Cincinatti. Na realidade, o terceirizador indiano está hoje contratando pessoas nos EUA -- 400 delas no último trimestre. "Os EUA são quem mais gasta na nossa área, e trabalhamos com muitas grandes corporações localizadas lá. Sendo assim, fazemos recrutamento no mercado local", diz Shibulal. Entretanto, ele -- que tem mestrado pela Universidade de Boston e passou cinco anos na Sun Microsystems -- lamenta a escassez de engenheiros e operários de tecnologia nos EUA [imagine o perrengue que a Infosys brasileira deve passar quanto a esses tipos de mão de obra no país!]. "Na nossa indústria, nos EUA, o desemprego é de 3,5%", diz ele. "Ainda assim, enquanto estamos recrutando pessoas em grandes números nos EUA, temos tido dificuldade para encontrar mão de obra mesmo com o desemprego existente". 

S.D. Shibulal, CEO da infosys - (Foto: Adeel Halim/Bloomberg, via Getty). 


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Países emergentes: o risco de se julgar invulnerável

[O texto traduzido abaixo é da autoria de Alicia González e foi publicado ontem no jornal espanhol El País. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. Ele deveria ficar na cabeceira da sorridente Dona Dilma e de seu ministro Mantega.] 

 O acrônimo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) em construção - (Foto: Getty Images).


Até no cenário mais incerto, há margem para um certo otimismo e para histórias de sucesso. Na história atual da economia mundial esse espaço é, indiscutivelmente, ocupado pelas economias emergentes. Apesar das surpresas negativas que algumas delas protagonizaram em 2012, os emergentes sempre aparecem no lado ensolarado das perspectivas econômicas, e se converteram nesses momentos quase que na única esperança para o crescimento global.

"75% do crescimento mundial são efetuados pelas economias emergentes, que já são líderes desse crescimento", afirma Allan Conway, responsável por renda váriável do Schroders, em Londres. "Em 2011, a China contribuiu com US$ 1,3 bilhão para o crescimento do PIB do mundo, o que equivale quase a criar uma nova economia como a da Espanha", alerta Jim O 'Neil, presidente da gestora do Goldman Sachs, em artigo recente (O' Neil foi o criador, há uma década, do termo BRIC -- acrônimo de Brasil, Rússia, Índia e China -- que se generalizou para denominar as grandes potências emergentes).

As cifras em termos de crescimento, níveis de emprego, investimento e fluxo de capital são impactantes, mais ainda face à desolação produzida pelos dados de um mundo industrializado arrasado há cinco anos por uma crise econômica e financeira. Mas, nem tudo é cor de rosa no mundo emergente. Os bons resultados obtidos nos últimos anos e a ampla margem existente em suas contas públicas levou esses países a relaxar, em certa medida, o processo de reformas em que haviam embarcado e, sem estas, muitas das estrelas emergentes podem perder seu brilho [o que, certamente, já é o caso do Brasil].

"O maior risco é pensar que não há riscos, porque é aí então que todos começam a relaxar e abandonam o processo de reformas", assegura Álvaro Ordiz Vidal-Abarca, economista-chefe de países emergentes no BBVA Research. Nessa mesma linha se pronunciam os analistas do banco Barclays em seu relatório trimestral sobre países emergentes. "Evitar o esforço de empreender reformas estruturais porque o financiamento externo está fácil é muito arriscado, e pode causar danos às economias. Apesar de suas numerosas vantagens, a maioria das economias emergentes tem ainda muita margem de melhora no lado estrutural", enfatizam os economistas da entidade financeira britânica.

E é nessa necessidade de reformas que convergem as trajetórias dos países industrializados e as dos países em desenvolvimento. "Na realidade, os países desenvolvidos e os emergentes compartilham neste momento a mesma história. Certamente em níveis diferentes, mas os dois grupos precisam efetuar um processo de reformas intenso", assinala Steen Jakobsen, economista-chefe do Saxo Bank. Para os emergentes, o risco é que suas economias se posicionem em uma tendência de crescimento menor, com a qual não seriam capazes de fazer frente às elevadas necessidades sociais de suas populações, nem poderiam gerar empregos em um ritmo adequado [é impressão minha, ou alguém está falando especificamente do Brasil?...].

Essa falta de reformas explica, em parte, o desempenho decepcionante apresentado em 2012 por países como China, Brasil, Índia e Coreia do Sul. "Ainda que o comportamento econômico díspar dos emergentes em 2012 possa vincular-se claramente à deterioração dos mercados aos quais se destinam suas exportações, em particular na zona do euro, não se pode negar o papel desempenhado por fatores estruturais domésticos", advertem os economistas do Barclays.

O certo é que a história das grandes economias emergentes é uma história em transição. O modelo de crescimento dos países que têm liderado os avanços para o desenvolvimento tem sido impulsionado pelas exportações, e chegou a hora de mover-se rumo a outro modelo, com peso maior para a demanda doméstica, o consumo e o investimento [o problema nosso é que a afável Dona Dilma se apaixonou pelos dois primeiros e abandonou o último]. O caso mais evidente, e o que maior peso tem para o resto dos emergentes, é o da China, mas ele não é o único. Os líderes chineses apostaram em dirigir seus esforços na direção dessa mudança de modelo, mas são muitas as modificações que têm que executar para que suas intenções se convertam em realidade. O plano de navegação da China se aplica igualmente a países como a Índia ou África do Sul. "A China precisa aprovar medidas para aumentar a competitividade e reduzir os níveis de corrupção; tem que criar um sistema de saúde e de aposentadoria para seus cidadãos ou, ao contrário, estará economizando e não gastando para se prevenir de emergências futuras; e deve avançar rumo à liberalização dos mercados de capitais e financeiro", enumera Jakobsen, do  Saxobank.

Esse último é um fator que ficou em clara evidência durante esta crise.  Como enfatiza o Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla inglesa), em termos de crescimento custou aos mercados emergentes, como grupo, apenas quatro trimestres para superar seus níveis anteriores e manter, desde então, níveis sólidos de aumento do PIB [a autora não pode estar se referindo ao pibinho do Brasil]. "Por isso chama tanto a atenção o fato de que os mercados de ativos emergentes tenham seguido em geral a tendência dos mercados desenvolvidos, que tampouco alcançaram os níveis que ocupavam antes da crise. Isso reflete até que ponto a política dos mercados maduros, em particular a da Reserva Federal americana, continua ditando a marcha dos mercados globais", assinala a instituição que congrega os principais bancos privados do mundo em seu relatório sobre mercados de capitais neste mês.

"Continua existindo um predomínio dos mercados desenvolvidos sobre os emergentes, e se estes querem passar a jogar na primeira divisão precisam mudar essa tendência. É o que tem acontecido entre os países desenvolvidos", repisa Ordiz Vidal-Abarca, do BBVA Research.  Para Allan Conway, do Schroders, disso não resulta no entanto uma condição indispensável. "Sem isso, [os emergentes] já são os que mais crescem em nível mundial e, quanto ao resto das reformas, não há porquê se tornar obsessivo. É um componente natural do crescimento, e esses países estão melhores que no passado", diz ele por telefone. A opinião de Conway parece um tanto isolada entre os demais analistas.

Da disposição desses países para levar adiante as reformas, de que seus governos consigam obter o apoio político para aprová-las, e do calendário em que consigam isso dependerá o sucesso ou o fracasso dos emergentes nesse empenho -- ainda que os pontos de partida sejam muito díspares. O México, que já pertence ao clube dos países industrializados, a OCDE, parece concentrar as esperanças dos analistas com a mudança de governo. "No caso do México, um círculo virtuoso de iniciativas do lado dos legisladores e de decisões de investimentos pelas companhias parece estar emergindo com força. No Brasil, observamos hoje justamente o contrário", assinalam os especialistas do banco HSBC. Apesar da comodidade que é tratar o grupo como um todo, são muito profundas as diferenças entre os diferentes países e regiões emergentes.  "A principal característica dos emergentes, ou dos mercados em crescimento, passou a ser a sua heterogeneidade", assinala O'Neill em seu artigo.

Por exemplo, a antiga Europa Oriental foi, de longe, a região de pior desempenho nos últimos anos, afetada em cheio pela crise da eurozona, com a qual mantém estreitos laços comerciais e financeiros. Tanto assim, que alguns países -- República Tcheca, Hungria, Croácia e Sérvia -- recaíram na recessão e se prevê apenas uma leve recuperação de suas economias em 2013. A China deixou para trás o temor de uma aterrissagem forçada -- que, segundo os analistas da Societé Génerale, passaria por crescer abaixo de 6% -- e registrou no mês passado uma forte recuperação da produção industrial e das exportações, o que permite prever uma recuperação modesta neste exercício, fechando-o com um crescimento em torno de 8%.

No lado das surpresas positivas se encontram Rússia e Turquia, que em 2012 cresceram acima do previsto.  Em especial a Turquia que, com uma política econômica "inovadora",  foi capaz de frear a crescente bolha de ativos sem impedir o crescimento da economia. Mas, pode ser que não seja apenas por isso que Istambul fique na moda. Segundo os analistas do Barclays, a Turquia se unirá ao Brasil e a outros países latino-americanos como soldado da guerra cambial. A esperada melhora da economia americana e o consequente aumento da demanda por matérias primas e produtos pela primeira economia mundial produzirão uma revalorização das moedas, principalmente das latino-americanas, e contra isso se posicionarão as autoridades desses países na opinião da equipe de analistas econômicos da Societé Génerale.  O tirambaço de partida para isso pode ser a decisão do Japão de aprofundar a depreciação que o yen já vem sofrendo, e de intervir com dureza no mercado para conseguir esse objetivo.

Em todo caso, as perspectivas de curto prazo dos países emergentes sinalizam para uma recuperação moderada, que não é tão segura no caso dos países desenvolvidos. Acontece que esse cenário criou um binômio paradoxal, no qual a percepção de risco aparece concentrada nos países desenvolvidos e não nos emergentes, como acontecia no passado. Nessas circunstâncias, as economias emergentes podem julgar-se invulneráveis.






sábado, 8 de dezembro de 2012

Brasil, China, Índia e Rússia serão os mercados varejistas dominantes no futuro, diz a The Economist (II)

[Vejam a postagem anterior.]

África, a última fronteira

Embora seja improvável que o potencial africano emule o dos países do Brics nos próximos cinco anos, varejistas já estão cogitando de investir em mercados africanos agora para se beneficiar do potencial que possam ter daqui a dez ou vinte anos.

O risco de perdas permanece forte. A África subsaariana ainda tem problemas de estabilidade, crime, infraestrutura e corrupção. Os mercados são muito difíceis para serem operados sem uma ajuda local e sem uma abordagem inovadora para resolver os muitos problemas que tais mercados apresentam.  Entretanto, países africanos têm também potencial para serem fortes indutores de crescimento do varejo. Com exceção da África do Sul, eles são relativamente fragmentados, mas os consumidores africanos parecem estar ávidos por marcas ocidentais, com nomes como Unilever, Nestlé e Danone investindo fortemente na região. Além disso, as 18 principais cidades africanas podem ter em 2030 um poder conjunto de gastos de US$ 1,3 trilhões.

A aquisição, por US$ 2,4 bilhões, de 51% do capital da Massmart pela WalMart em 2011 evidenciou o interesse crescente qua a África vem despertando entre os varejistas globais. Embora mais de 90% da receita da Massmart venham da África do Sul, a presença desse varejista em 11 outros países africanos abre fortes perspectivas de expansão futura em outros mercados. Embora o mercado sul-africano já esteja concentrado, com Shoprite, Pick 'n Pay, Spar, Massmart e Metcash responsáveis por 80% das vendas de varejo, os atores chaves restantes emergirão fortes como alvos de fusões e aquisições por outros varejistas globais para estabelecer uma presença regional, à proporção que a região percebe um crescimento da demanda de varejo na próxima década.

Países africanos selecionados - Crescimento das vendas de varejo por ano (%)

                                        2012      2013       2014      2015       2016

Nigéria                              23,1       10,0        16,0       13,9        13,9
África do Sul                     - 6,8         0,9          5,9         5,0          4,5

Fonte: Economist Intelligence Unit

Um mercado virtual

Em 2002, a Amazon informou uma receita de US$ 3,93 bilhões, uma cifra expressiva por si mesma mas uma gota d'água no oceano que é o mercado de US$ 2,3 trilhões dos EUA; neste ano, a receita da Amazon deve ultrapassar a marca de US$ 50 bi. O varejo total online responde por cerca de 10% do mercado americano. O Reino Unido (RU) detém a mais alta porcentagem de gastos online do mundo, com as compras na Web respondendo por uma fatia estimada de 13,2% de todas as vendas de varejo de 2012 (segundo dados do Centro para Pesquisas de Varejo). Embora os mercados emergentes tenham ainda muito caminho pela frente, sua taxa de crescimento é ainda mais rápida. No ano passado, a China informou que as transações online negócio-consumidor aumentaram em 53,7%, alcançando US$ 123,2 bilhões.

Vendas (em US$ bi)
                                                                   2002                2011

Vendas totais de varejo nos EUA                 2.314,05          3.260,07

Giro total da Amazon                                        3,93              48,08

Fontes: Economist Intelligene Unit, Investpedia

Muito desse crescimento se fez com base na comodidade das compras por desktops ou laptops, a partir de pontos fixos em escritórios e residências, acrescentando-se assim apenas uma dimensão a mais para os consumidores.  Mais recentemente, o surgimento dos smartphones e o crescimento explosivo dos aplicativos para compra revolucionaram as decisões de pontos de venda. Forrester, uma empresa de pesquisas baseada nos EUA, está antecipando que entre 2011 e 2017 o valor das transações via celulares crescerão 11 vezes na Europa. Levando em conta o contínuo surgimento de compras via aplicativos, essa previsão se afigura conservadora e em 2022 o comércio via celulares será praticamente a tendência dominante. Os consumidores estão cada vez mais capazes e voltados a fazer compras por impulso enquanto se deslocam. Aplicativos permitem que pessoas façam suas buscas por códigos de resposta rápida (QR - quick response) ou por fotos que tiram, ou mesmo comprar em tempo real os produtos que vêem em seus programas de TV prediletos. "Showrooming" [ambientação para mostra ou exposição de produtos, em tradução livre e tentativa] surgiu como uma tendência, pela qual consumidores acessam lojas para encontrar itens de que gostam e então comparam preços, e fazem por telefone a compra de seu interesse.

Decisões de compra via pontos de venda não estão evoluindo apenas no campo físico, mas também na Web. As redes sociais propiciaram uma nova plataforma para interação de marcas, marketing viral e fronts de venda para criar um canal de vendas alternativo para os varejistas. Embora esse canal tenha sido limitado em escopo, com alguns fronts de venda encerrando atividades depois de resultados decepcionantes, o surgimento de um quadro de avisos comunitário online, o Pinterest, acelerou significativamente as oportunidades para o comércio varejista ao direcioná-lo para os itens e produtos ali "espetados". Um gigante do comércio virtual, a Rakuten, vislumbrou essa oportunidade e investiu fortemente no Pinterest com o objetivo de usar essa rede  como um front de vendas de itens populares.

A tecnologia desempenhará um papel crucial no desenvolvimento dessas tendências, e 2022 verá um mercado em que as compras online responderão por uma porção muito maior das vendas de varejo globais do que hoje em dia. Mercados líderes em vendas online, como o RU, devem ver o comércio online (e-comércio) responder por um terço ou mais das vendas globais. As compras online têm sido tradicionalmente limitadas a livros, aquisição de programas e eletrônica de consumo. Entretanto, opiniões de que categorias de mercadorias do tipo "experimente antes de comprar", como roupas e artigos de mercearias e minishoppings (grocery stores) não se tornariam populares estão sendo provadas como erradas, diante do sucesso de empresas como a ASOS [especializada em roupas femininas e masculinas] e do crescente foco em vendas online para os principais varejistas da área de "grocery".

Enquanto a tecnologia, especialmente o aumento de conectividade e de opções de compras propiciado por smartphones e tablets, será o impulsor básico dessa tendência, a recente retração econômica tem tem atuado como um catalisador para um comportamento cada vez mais sofisticado por parte dos consumidores. O surgimento de sites de comparação de preços de varejo não é coisa nova, mas a austeridade gerou um forte incentivo para que os consumidores se desloquem online. Enquanto sites de comparação online têm se limitado à verficação de itens isolados, iniciativas online mais recentes como o mySupermarket no RU permitem aos consumidores comparar os preços de cestas de itens entre os principais varejistas e decidir qual tem a melhor oferta. A rede americana Groupon surgiu também como um meio de disponibilização coletiva de descontos ou de ofertas especiais para os interessados em barganhas. Este conceito tornou-se popular em escala global, especialmente na China (apesar do fraco desempenho do Groupon por lá), onde sites de cupons e descontos já estão consolidados.

Em 2022, essas tecnologias de estímulo à barganha terão se fundido e expandido em escopo, de modo que sites sofisticados serão capazes de gerar, sob medida, o melhor voucher ou as melhores ofertas do tipo Groupon no contexto de serviços de varejo mais personalizados e sob medida. Sites comparativos de preços serão capazes de, automaticamente, itemizar cestas de de produtos online entre diferentes varejistas para assegurar um "preço melhor" para cada item. "Marketplacing" [ambientação de mercado, em tradução livre tentativa], iniciativa em que varejistas diferentes competem sob um mesmo teto "virtual", oferecerá a escolha máxima para os consumidores. Gigantes como eBay e Amazon já operam com esse conceito. No RU a Tesco já anunciou planos para fazer o mesmo, e parece provável que outros varejistas globais seguirão esse caminho. Isso significa que em 2022 teremos varejistas competindo cabeça com cabeça entre si, e produtores/fabricantes mais acima na cadeia de suprimentos através de plataformas consolidadas.

À medida que a receita melhore, uma tecnologia de reconhecimento aperfeiçoada permitirá aos consumidores a realização de compras por impulso diretamente em plataformas móveis, através de uma multiplicidade de canais. Inovações utilizando superposições reais e mídia social ampliadas permitirão um recurso adicional de interatividade.  O aumento em bens virtuais como os downloads de música, vídeo e jogos será cada vez mais alocado em nuvem, e em 2022 veremos itens como CDs, DVDs e jogos de console completamente obsoletos, exceto como itens de nichos de mercado. Um gigante em software, Electronic Arts, já confirmou planos para se tornar um provedor de jogos inteiramente digital, uma intenção emulada pela aquisição feita pela Sony de um serviço de jogos em nuvem, o Gaikai.

[continua]

Brasil, China, Índia e Rússia serão os mercados varejistas dominantes no futuro, diz a The Economist (III)

[Ver postagem anterior.]

Um contra-ataque das lojas físicas

O aumento do comércio virtual, combinado com décadas de desenvolvimentos/empreendimentos distantes dos centros urbanos e a recente redução da confiança do consumidor, atingiu fortemente os formatos tradicionais de ruas de varejo e de shopping centers.  Isso tem sido objeto de forte atenção desde 2008, com pequenos negócios e também redes tradicionais enfrentando uma baixa confiança dos consumidores e crédito mais restrito. Esses fatores aceleraram o fracasso de algumas empresas, mas já havia claros indícios disso devido à margem competitiva que outros canais de compra possuem. Para 2022, empresas de varejo estão desenvolvendo uma estratégia que lhes permitirá embarcar nessas tendências sem incorrer em perdas ou desvantagens.

No Reino Unido (RU), o Portas Review [Análise Crítica de Portas, em tradução livre -- relatório emitido por Mary Portas, a príncipal consultora britânica para o setor de varejo] apresentou a questão das ruas de comércio de varejo como um tema crítico e politizado para a próxima década. Os EUA têm visto uma tendência semelhante minando a proliferação de seus shopping centers, com o fechamento em massa deles em 2009 e com cadeias como a da Macy's continuando a fechar lojas no médio prazo. Ainda é um pouco cedo, porém, para se escrever o obituário do setor. As lojas físicas [brick-and-mortar stores = lojas de tijolo e argamassa, no jargão inglês] não desaparecerão em 2022, mas desempenharão um papel diferente à medida que o panorama do varejo evolua.

Quebras no                                     Empresas          Lojas             Empregados                   
varejo, Reino Unido (*)                    afetadas            afetadas        afetados

2012 (6 meses, até fim de junho)       35              3.053               37.538
2011 (12 meses)                                 31                 2.469            24.025
2010 (12 meses)                           26                    944              10.930
2009 (12 meses)                           37                  6.536              26.688
2008 (12 meses)                                 54                  5.793              74.539
2007 (12 meses)                           25                  2.600              14.083

Fonte: Centro para Pesquisas de Varejo
(*) Números relativos basicamente a médios ou grandes negócios de varejo. Aquisições não estão incluídas, a menos que resultem de quebras de negócios.

Antes de mais nada, o surgimento do comércio virtual continuará a embutir o showrooming nos hábitos dos consumidores. As ruas de comércio varejista podem não ser mais os locais onde as transações serão basicamente efetuadas, mas continuarão a atuar como um canal para que os consumidores vejam, toquem e experimentem mercadorias -- mesmo que façam suas compras por outros meios. Uma pesquisa recente feita pela Capgemini em 16 mercados chaves revelou que mais da metade dos que responderam manifestou o sentimento de que, em 2020, as lojas funcionarão apenas um pouco mais do que simples salas de exposição de produtos (showrooms).  Lojas que atualmente são vítimas do showrooming terão que adotar medidas para assegurar que as pessoas que as visitem se convertam efetivamente em compradores. No ano passado, um varejista americano -- Best Buy -- começou a substituir os códigos de barra dos itens que vendia por códigos seus, exclusivos, para evitar que os clientes pudessem facilmente comparar preços online. Isso pode contrabalançar aquela prática, mas pode também afastar compradores. Uma abordagem mais sensata por parte dos varejistas seria adotar a prática do "se não pode vencê-los, junte-se a eles", que reúne as operações físicas com as operações online em um serviço completo.

Para as lojas de cadeias, isso significa aumentar ou melhorar a oferta feita nos canais online. As lojas das ruas de varejo serão utilizadas como centros de coleta para os canais híbridos do tipo "clique & apanhe", que vêm passando por rápido crescimento, onde os clientes compram online e apanham o que compraram em uma loja preestabelecida, em vez de esperar pela entrega via correios. Tais lojas oferecem também serviço de devoluções e de atenção ao cliente para produtos comprados na Web -- eliminando assim muito da inconveniência associada a produtos em falta ou indesejáveis comprados online. O conceito de showrooming será convertido em vantagem para quaisquer varejistas suficientemente capitalizados, permitindo-lhes oferecer compras online, serviço de coleta e entrega de produtos de estoque via terminais, e disponibilização de cabines para pagamentos. Para clientes precavidos com cartões de crédito ou em mercados nos quais pagamentos online não estejam suficientemente desenvolvidos, isso poderia possibilitar às pessoas pagar em dinheiro compras feitas online. Um fator chave para as cadeias varejistas maiores será efetuar a integração de inventários, de modo que os compradores impedidos de comprar um produto por indisponibilidade no estoque de uma loja possam apanhá-lo ou recebê-lo de outra loja que o tenha.

Ao mesmo tempo em que os varejistas aceitam a florescente influência dos serviços online, há pouca dúvida de que a abordagem multicanal é o melhor meio de explorar um mercado de varejo diversificado. Isso não passou despercebido para gigantes do varejo de uma só atividade (um só tipo de negócio -- "pure play"), como Amazon e eBay. Ambas estão tomando os passos necessários para entrar no negócio do tipo "tijolo e argamassa". O eBay fez testes com showrooms tipo "pop-up" em locais de shopping estratégicos, em parte com fins publicitários e em parte para testar o interesse do consumidor. A Amazon deu um passo a mais para adaptar-se, instalando "armários" para atrair consumidores do tipo "clique e apanhe". A próxima década verá vários varejistas de comércio único ("pure play"), principalmente a Amazon,  instalando lojas exclusivas permanentes em ruas de comércio varejista e em shopping centers.

A facilidade da compra online significa que as lojas físicas usadas como showrooms se tornarão voltadas mais para estabelecer visibilidade de marcas e uma reputação na prestação de serviços, do que propriamente para a venda de mercadorias estocadas. As lojas usarão também tecnologia para ampliar e aprimorar a experiência de comprar para os clientes. Um gigante americano-britânico, a Walmart/Asda, já foi noticiada como cogitando de empregar a tecnologia de hologramas  para se conectar com seus clientes. A Tesco, com sede no RU, também foi reportada como engajada no desenvolvimento de projeção interativa em 3D. Superposições de atividades como essas em lojas de mercadorias de estoque tornar-se-ão o padrão em 2022, impulsionadas em sua grande parte por aplicativos de smartphones. Tais aplicativos variarão desde o simples mapeamento de lojas para a localização de produtos até ferramentas mais sofisticadas como o escaneamento de produtos sem código.

Para os varejistas de menor porte, essa transição será penosa, e um setor varejista em evolução resultará em mais quebras. Entretanto, negócios independentes poderão beneficiar-se da circulação de consumidores à medida que seja retomado o investimento em lojas físicas, de tijolo e argamassa. 2002 deverá ver a solução de uma questão polêmica no setor varejista: quantas lojas as ruas de varejo podem suportar? A taxa atual de fechamento (quebra) de negócios sugere que esse canal de comércio está sobrecarregado. Mas, à medida que supermercados varejistas de maior porte se expandam para o canal de lojas de conveniência e os varejistas específicos ("pure play") busquem a maior visibilidade propiciada pelas lojas físicas, chegar-se-á a um equilíbrio em que os estabelecimentos de tijolo e argamassa continuarão a ter importância para consumidores.

O comércio de conveniência reinará

Para os principais participantes de supermercados em mercados maduros,  a rua de comércio varejista está se tornando uma avenida para explorar hábitos de compra em evolução. Quanto mais mercadorias são compradas online, incluindo as do gênero mercearia ou minimercados (groceries), os formatos de negócio de grande porte, fora das cidades, do tipo parar e comprar, estão cada vez mais perdendo espaço. Embora essa tenha sido uma tendência definidora ou prevalecente nas últimas duas décadas, os varejistas podem ter se excedido. Os canais de compras online não apenas são eficiente e efetivamente competitivos em áreas não dedicadas a alimentos, para cujo suporte as lojas maiores foram projetadas, como também a taxa de seu crescimento tornou-se impopular com as comunidades afetadas e deflagrou questões de planejamento junto a órgãos reguladores. Como resultado, e certamente nos anos que antecederam a retração econômica, os varejistas deram renovada ênfase ao negócio do tipo loja de conveniência.

As estratégias continuarão a se mover nessa direção, favorecendo lojas menores e bem localizadas, com uma gama de produtos específica, fornecendo comida pronta e impulsionando a venda de mercadorias que permitam aos clientes satisfazer suas necessidades mais imediatas. Esse tipo de compras será complementado por menos idas regulares a lojas grandes ou por alternativas de compra online, reforçando a necessidade de que os supermercados matenham uma gama diversificada de canais de varejo para a próxima década. À medida que diminua o número de negócios específicos ou independes nas ruas de varejo, crescerá a prevalência de lojas de conveniência dedicadas às suas marcas específicas. A penetração dessas lojas aumentará mais em 2022, à medida que haja uma recuperação salarial e o equilíbrio entre preço e conveniência se mova rumo ao comércio de conveniência.

Isso não passou despercebido para nenhum dos principais varejistas. Atores globais como Tesco, Carrefour e WalMart estão todos dedicando mais ênfase a formatos de negócio menores e acionados pela Internet. Para Tesco e Carrefour, pioneiros do conceito de hipermercados, essa transição tem sido penosa. A Tesco se mantém comprometida com o desenvolvimento de lojas grandes ainda por décadas vindouras, e o processo para desembaraçar-se de lojas grandes, distantes das cidades pode ter ainda uma influência sobre sua estratégia de negócios em 2022. Enquanto isso, o Carrefour está lutando para afastar-se do formato hipermercado que determinou seu crescimento. Tudo isso pode abrir caminho para que comerciantes de menor porte avancem sobre as fatias de mercado dos grandes varejistas, graças às estratégias flexíveis das lojas menores.




sábado, 1 de dezembro de 2012

Brasil, China, Índia e Rússia serão os mercados varejistas dominantes no futuro, diz a The Economist (I)

[A Unidade de Inteligência da (The) Economist acaba de publicar um interessante relatório prospectivo sobre a evolução do mercado varejista no mundo, denominado "Varejo 2022" (Retail 2022), que aponta Brasil, China, Índia e Rússia como os mercados dominantes nesse setor na próxima década. É impressionante a revolução causada pelos avanços na Tecnologia da Informação. O relatório está disponível em formato pdf para quem é assinante do site. Reproduzo esse relatório em três partes, com a primeira delas a seguir.] 

Visão geral
  • Mercados do futuro -- China, Índia, Brasil e Rússia se tornarão os mercados varejistas dominantes.
  • África, a última fronteira -- à medida que as oportunidades diminuam nos Brics, os varejistas verão a África como uma geradora de crescimento.
  • Mercado virtual -- e-commerce, m-commerce e s-commerce provocarão uma transformação no panorama global do varejo.
  • As lojas de varejo físicas contra-atacarão do modo como varejistas tradicionais respondem a mudanças, fazendo a integração das ofertas online com as ofertas das lojas físicas.
  • As lojas de conveniência prevalecerão, com a evolução dos hábitos de compra para uma abordagem via canais múltiplos, em vez do comércio do tipo "uma parada para compras" ("one-stop shopping").

Dez anos são um tempo longo em termos de varejo, especialmente tendo em conta as mudanças tecnológicas e o crescimento de mercados emergentes, que continuam a forçar uma evolução nos hábitos de consumo. Uma década atrás, telefones celulares eram algo que você usava para fazer chamadas. Em 2002, a Amazon havia apenas começado em termos de lucratividade. Não havia Facebook. Não havia nem mesmo um Myspace, embora pioneiros como os Friends Reunited (Amigos Reunidos) e Frendster estivessem lançando as bases para o êxito futuro do formato das redes sociais. As ruas de comércio varejista estavam crescendo no Reino Unido (RU), e esses comerciantes estavam a meio caminho de uma política agressiva de longo prazo de expansão via grandes lojas de varejo que reformataram o panorama do comércio de compras. Em 2002, o PIB nominal da China valia menos de 15% do PIB dos EUA, mal chegando a 3% em termos per capita.


O mundo é hoje um lugar muito melhor conectado. Os pontos de venda para consumidores se expandiram das ruas específicas e shoppings para qualquer lugar onde exista hoje um telefone ou um sinal de Wi-Fi. As redes sociais foram muito além de serem pontos de contatos entre amigos, para se tornarem um front de comércio e de adesão a marcas. As ruas de varejo do RU estão em crise, com vítimas famosas, enquanto em termos globais os varejistas estão mudando de direção, saindo do esquema "big-box" [grandes lojas de varejo] para lojas de conveniência e canais online. Enquanto isso, o PIB da China vale hoje metade do PIB dos EUA e continua crescendo.


A Unidade de Inteligência da Economist vê os hábitos de consumo continuando a acelerar nesse caminho rumo a 2022. Embora haja um caráter cíclico nas retrações econômicas e na redução da confiança do consumidor, os efeitos colaterais da crise de 2007 têm sido um catalisador de mudanças e podem dar suporte a tendências de longo prazo. O crescimento dos mercados emergentes definirá o panorama do varejo do futuro, não apenas em termos de demanda mas também exercendo um papel aquisitivo crescente nos mercados do Ocidente, o que pode levar a que algumas marcas familiares se tornem propriedades chinesas ou indianas.


Mercados do futuro


Neste ano vimos a China ultrapassar os EUA como o maior mercado mundial de alimentos e do comércio do tipo mercearias e minimercados (grocery). Em 2013, a China deverá ultrapassar o Japão como o maior mercado mundial de artigos de luxo, e em 2016 deverá ultrapassar os EUA como o maior mercado varejista do planeta. Enquanto o crecimento do varejo é moderados em mercados ocidentais já maduros, o crescimento rápido do consumo de varejo em mercados emergentes continuará a criar um panorama global de varejo bastante diferente em 2022.

Em 2022, a China deverá ser responsável por um quarto das vendas globais de varejo geradas pelos 60 maiores mercados, o dobro da parcela americana. 

Dimensão de mercados de varejo (em milhão de US$)

País/região                           2012          2016               2022
China                               2.311.226     4.207.729       8.345.813
EUA                                 3.389.633     3.961.146       4.470.376
Índia                                  845.676     1.877.429       3.822.770
Japão                              1.691.548     1.496.789       1.628.421
Rússia                               658.961        932.014        1,482.362
Brasil                                500.338        768.459        1.155.286
Mundo (60 países)          17.011.998    23.357.957      33.471.288

Fonte: Economist Intelligence Unit.

Uma tendência fundamental na China será o crescimento de cidades, não de centros de irradiação como Shanghai, Beijing e cidades litorâneas mas de cidades de terceiro e quarto níveis, situadas mais para o interior.  São essas cidades que são vistas como as forças motrizes para o crescimento do país rumo a 2022. A classe consumidora chinesa será principalmente urbana. Rendas mais altas significam que cidades litorâneas de primeira linha já oferecem ambientes de consumo sofisticados que provocarão o crescimento do varejo na maior parte da presente década. Entretanto, as vendas de varejo crescerão mais rapidamente -- embora a partir de uma base menor -- em cidades do interior, que presenciarão um crescimento salarial mais rápido e esforços capitaneados pelo governo para estimular o consumo. Uma prática amplamente utilizada de informar receitas domésticas inferiores à realidade sugere que a demanda do consumidor possa exceder expectativas já elevadas, particularmente no que se refere a bens de preço médio ou luxuosos.

Megalópoles: proporção de população urbana ganhando acima de  30.000 Rmb (%) (*)

Área urbana                                           2002      2012      2020

Grande Shanghai                                      4,4        52,7       72,4  
Grande Shenyang                                     0,2        19,1       46,0
Chang-Zhu-Tan                                        1,3        31,7       60,3
Chongqin                                                 0,9        15,8       49,4
Grande Xi'an                                            1,2        34,6       69,1
                           
Fonte: Economist Intelligence Unit.
(*) Rmb = renminbi = moeda oficial chinesa, cuja unidade de referência é o yuan, que é dividido em 10 jiăo -- 1 yuan reminbi = 0,16 US$

A China não é o único mercado emergente no varejo a ser enfocado como um líder global em 2022, embora seja o maior. Índia, Brasil e Rússia estão também saindo da sombra de seus vizinhos ocidentais para se transformarem em forças do varejo. Em 2022, esses mercados emergentes serão quatro dos seis maiores mercados do mundo nessa área em termos de dólares americanos, e talvez cinco entre os sete maiores caso a Indonésia continue a crescer. No espaço de dez anos o mercado indiano, sozinho, poderá comparar-se em tamanho a todo o mercado da Europa ocidental!

Vista de uma perspectiva varejista, a oportunidade já está bem estabelecida  em mercados emergentes. Os "quatro grandes" varejistas globais -- Walmart, Carrefour, Metro AG e Tesco -- têm uma florescente presença na China. Outros mercados chaves, como Brasil, Vietnam, Indonésia e Índia, permanecem centros de muita atenção. A eliminação de dificuldades na regulação para investimentos estrangeiros será um fator preponderante para o comportamento desses mercados na próxima década.

Empresas de bens de luxo já disputam entre si para ganhar espaço nesses mercados, especialmente na China, a tal ponto que investidores, repetidamente, têm expressado seus receios de que empresas de artigos de luxo como Burberry, PPR e LVMH possam ficar superexpostas no caso de haver uma desaceleração no crescimento chinês. No curto prazo isso pode ser um fator mas, considerando o peso que tais mercados terão dentro de uma década, pode haver muito mais a perder se não se investir neles agora. Embora seja difícil manter um crescimento de dois dígitos em artigos de luxo na virada da década, em 2022 existirá nesses mercados novos uma sólida plataforma para lojas de artigos de luxo em cidades grandes e de porte médio, vendendo dessas mercadorias para uma base de consumidores ávida e opulenta.

PIB nominal (em US$ bi)

País/região                                    2012           2016          2022

China                                           8.188         14.134        24.960
EUA                                            15.679        18.584        24.470
Índia                                            1.921          4.406          6.970
Japão                                           5.930          5.374          6.060
Brasil                                           2.354          3.254          5.084

Fonte: Economist Intelligence Unit

Assim como influenciando domesticamente o crescimento global do varejo, 2022 presenciará mercados emergentes influenciando mercados ocidentais de maneira mais direta. No momento, o investimento em varejo por parte de mercados emergentes está grandemente concentrado em mercados domésticos ou regionais. Mercados emergentes têm investido pesadamente em mercados ocidentais, mas principalmente nos setores primário e de manufaturas. Isso, no entanto, será alterado, com um número crescente de empresas de mercados emergente atentas agora a oportunidades com o consumidor. Dois conglomerados indianos, Tata e United Breweries, um grupo chinês da área de alimentos, Bright Foods, e a empresa Hutchison Whampoa, listada na bolsa de Hong Kong, avançaram sobre mercados consumidores ocidentais. A Hutchison é dona da AS Watson, uma varejista global líder nas áreas de saúde e beleza. Em 2022, o fluxo atual de fusões e aquisições expansionistas a partir de mercados emergentes se converterá em uma inundação, com conglomerados chineses, brasileiros e indianos endinheirados buscando participar em mercados ocidentais menos "excitados", especialmente na Europa, onde a fraqueza do varejo pode proporcionar negócios melhores.

Um fator que pode contrabalançar isso é a falta de disposição de governos europeus em permitir que empresas de países emergentes se apoderem de suas "jóias da coroa" ou de empresas familiares. Há pouca chance de que isso se altere em 2022, assim atores chaves domésticos e internacionais como os quatro grandes citados acima permanecerão em poder do ocidente. Em vez disso, cadeias menores servirão de trampolim para que varejistas orientais conquistem uma fatia do mercado em 2022.

[continua]