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domingo, 17 de julho de 2016

Vulcão Stromboli, em erupção há mais de 2.000 anos


Integrante das Ilhas Eólias, o vulcão Stromboli ao fundo, é uma pequena ilha localizada ao norte da Sicília e um dos vulcão em atividade na Itália. Considerado o mais ativo vulcão europeu, as erupções no Stromboli ocorrem com o incrível intervalo médio de apenas 1 hora!



Saindo da Sicília, a partir do porto de Milazzo numa viagem de aproximadamente 2 horas chega-se a Lipari, a principal ilha do arquipélago. Ao desembarcar em Lipari já é possível ver por todos os lados cartazes convidativos para visitar o Vulcão Stromboli. O melhor período para visita é a noite, pois o brilho da lava fruto da erupção fica totalmente em destaque.


Apesar de por vezes parecer assustador, muitas pessoas vivem aos pés do Vulcão Stromboli. Seus habitantes vivem basicamente do cultivo de azeitona, figo e malvasia (um espécie de uva), além da pesca. Falando em números, durante o inverno a população do Stromboli é por volta de 100 habitantes, já no verão, pode chegar a 4 mil!


O vulcão Stromboli visto da estação espacial.


A viagem de Lipari até o vulcão Stromboli leva por volta de 1 hora, e meia e os passeios normalmente são feitos no período da tarde ou em combinação com alguma outra ilha eólia durante o dia. Pois é no período noturno que o Stromboli dá os seus maiores espetáculos. As embarcações normalmente param na ilha para um passeio em meio à pequena cidade, para após o entardecer se deslocarem para a parte de trás do vulcão onde fica a área de erupção.




Há muitos anos atrás o Vulcão Stromboli já foi cenário de filme, a atriz Ingrid Bergman protagonizou o filme “Stromboli terra di Dio”.





O Stromboli está em atividade há mais de 2000 anos, lançando lava incandescente das várias aberturas de sua cratera. Depois que anoitece, o céu e as nuvens ao redor da boca do vulcão ficam completamente avermelhadas, num espetáculo sem igual da natureza, dando ao vulcão o apelido de “Farol do Mediterrâneo”. 




domingo, 20 de março de 2016

A Escola de Parma: quando Roma celebra a Alta Renascença italiana

[Traduzo a seguir artigo do site francês L'Internaute. O que  estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Visitantes admiram as  obras apresentadas quando da exposição "Correggio e Parmesão. A arte em Parma no século XVI", apresentada em Roma de 12 a 26 de março corrente - (Foto: Gabriel Bouys/afp.com)

Por meio de obras de dois mestres da pintura italiana, membros da famosa Escola de Parma, Antonio da Correggio (1489-1534) e Girolamo Francesco Maria Mazzola (o Parmigiano ou Parmesão) (1503-1540), Roma celebra a beleza, o talento e o esplendor da Alta Renascença italiana. 

A exposição, aberta na Scuderie del Quirinale (Cavalariças do Palácio Quirinal, residência do presidente da República italiana), se intitula "Correggio e Parmesão. A Arte no século  XVI", se estenderá até 26 de junho. 

Através de uma centena de  obras, telas e desenhos, emprestadas por mais de 50 museus e coleções privadas, tais como Museu do Louvre, Museu do Prado e a National Gallery (Londres), a exposição rende homenagem a dois pintores dos quais o prêmio Nobel italiano de literatura Dario Fo diz que "pintavam como se estivessem ligados ao céu". 

A mostra traz à luz essa cidade da Emilia-Romana [Parma] que, durante a primeira metade do século XVI, conheceu uma idade de ouro competindo de igual para igual com Florença, Roma e Veneza no desenvolvimento da Renascença italiana. 

Em 1545, o papa Paulo III Farnèse criou o ducado de Parma e Piacenza e o ofereceu a seu filho. Os Farnèse dominaram a região até 1731, quando os Bourbons assumiram o poder. 

Uma das obras da exposição "Correggio e Parmesão. A arte em Parma no século XVI" - (Foto: Gabriel Bouys/afp.com)

Correggio (nascido Antonio Allegri) e o Parmesão exprimem os dois, apesar dos estilos diferentes, a vitalidade e a criatividade que reinavam então em Parma, uma cidade que se tornou em alguns anos um ponto de referência, a ponto de  mudar a história da pintura italiana. 

Abordando tanto temas religiosos quanto mitológicos ou profanos, pintando Virgens como damas nobres e santos como notáveis, e graças a um uso agudo das cores e da luz, esses dois mestres fizeram de suas telas autênticos ícones.

"Retrato de mulher jovem dita "Escrava Turca", Parmigiano (Parmesão), coleção particular, Galeria Nacional, Parma - (Foto: Google)

A exposição, cujo curador é um dos maiores conhecedores da Escola de Parma, o professor David Ekserdjian, é igualmente uma experiência sensorial graças à semiobscuridade em que estão mergulhadas as obras, revelando sua elegância e sua sensualidade. 

Os visitantes poderão admirar também dois dos quadros mais conhecidos de Correggio: a "Virgem Barrymore", exposta na Galeria Nacional de Arte Moderna de Washington, e "Retrato de uma mulher", que pertence ao acervo do Museu do Hermitage, em São Petersburgo (Rússia). 

De Parmigiano são expostos principalmente "A conversão de São Paulo", do Museu de História da Arte, de Viena, a célebre e misteriosa "Escrava turca" [ver foto acima], do acervo da Galeria Nacional de Parma, e dois quadros provenientes do museu Capodimonte, de Nápoles, "Antea" e "Lucrécia". 

[ Algumas obras da exposição de Roma citada acima: 

Virgem de Barrymore, Correggio, cerca de 1508/1510, óleo sobre tela, 56 x 41 cm, National Gallery of Art, Washington (EUA) - (Foto: Google)

Retrato de uma Mulher, Correggio, cerca de 1518, óleo sobre tela, 103 x 87,5 cm, Museu do Hermitage, São Petersburgo, Rússia - (Foto: Google)

A Escola do Amor, Correggio, cerca de 1528, óleo sobre tela, 155 x 91,5 cm, National Gallery (Londres) - (Foto: Google)

"Noli me tangere" (Não me toques), Correggio, cerca de 1525, óleo sobre tela, 130 x 103 cm, Museu do Prado (Madri) [Cristo e Maria Madalena vestida de amarelo, a cor característica das prostitutas] - (Foto: Google)

A Conversão de São Paulo, Parmigiano, cerca de 1527, óleo sobre tela, 177,5 x 128,5 cm, Museu da História da Arte, Viena - (Foto: Google)

Antea, Parmigiano, cerca de 1535, óleo sobre tela, 135 x 88 cm, Museu Nacional de Capodimonte, Nápoles (Itália) - (Foto: Google)

Lucrécia, Parmigiano, 1540, óleo sobre tela, 68 x 52 cm, Museu Nacional de Capodimonte,Nápoles (Itália) - (Foto: Google) ]









sexta-feira, 18 de julho de 2014

O papa enfrenta as máfias italianas

[O texto abaixo foi publicado no jornal espanhol El País, e descreve aspectos do inusitado confronto entre a Igreja Católica e  a as máfias italianas em decorrência da excomunhão que lhes foi imposta pelo papa Francisco. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

O papa contra os padrinhos


Pablo Ordaz -- Oppido Mamertina -- El País, 13/7/2014



A excomunhão dos mafiosos decretada por Francisco como primeira medida para distanciar a igreja do crime organizado provocou a reação da ‘Ndrangheta




A procissão parou em frente à casa de um mafioso. / TONI CONDELLO (AP)

Há dois anos, mais ou menos nessa época e com esse mesmo calor, desapareceu sem deixar rastro Francesco Raccosta, um vizinho de 42 anos, muito devoto de Nossa Senhora das Graças, a patrona de Oppido Mamertina, um povoado de 6.000 habitantes na província de Reggio Calabria, bem na ponta da bota italiana. Ninguém parece ter dado muita importância ao assunto —todo mundo sabia que o tal Raccosta sempre tinha dado maus passos— até que, alguns meses depois, outro vizinho do povoado, Simone Pepe, de 24 anos, confiou a um amigo por telefone, enquanto estava sendo gravado pela polícia:
-- "Você não sabe como Raccosta gritava! Ainda estava vivo quando o jogamos para os porcos. Você não imagina que satisfação ouvi-lo gritar. Me disseram que os porcos sempre deixam alguma coisa, mas pelo que vi não sobrou nada".
O conteúdo da conversa —em todos os detalhes— e a notícia da prisão do jovem Pepe foram publicados pelos jornais italianos, que atribuíram ao assunto mais um ajuste de contas entre os diversos clãs locais de ‘Ndrangheta, a terrível máfia calabresa. Mas, para sermos sinceros, aqui no povoado a vida seguiu seu curso sem que ninguém fizesse alvoroço nem pusesse a boca no mundo. Nada comparável, sem dúvida, ao que está acontecendo agora.
Na quarta-feira feira passada, 2 de julho, a procissão com a imagem de Nossa Senhora parou em sinal de reverência em frente à casa de Peppe Mazzagatti, um velho capo de ‘Ndrangheta condenado a prisão perpétua por crimes como assassinato e associação mafiosa, mas que agora, devido a seus 82 anos e a seu delicado estado de saúde, cumpre a pena em prisão domiciliar. A leve inclinação da estátua da Madonna diante de um capo local não é, nem aqui nem nos demais vilarejos da região dominados pela máfia calabresa, um assunto novo, mas no domingo se tornou motivo de escândalo por uma série de fatos encadeados. O primeiro é que o chefe local dos Carabinieri, oficial Andrea Marino, tentou evitar a homenagem e, vendo que não lhe davam ouvidos, deixou a procissão com seus agentes e levou o assunto para seus superiores. O segundo fato é que alguém subiu na Internet um vídeo caseiro com a reverência da estátua ao capo e a rede se encarregou sozinha de burlar a lei do silêncio. A terceira e principal circunstância —a que transforma o assunto em único e não em outro abuso destinado a cair no esquecimento— é que, apenas duas semanas antes, o papa Francisco tinha ido à Calábria para, pela primeira vez na história, excomungar as máfias e colocar a Igreja na frente da situação. “A ‘Ndrangheta é a adoração do mal, o desprezo pelo bem-comum. É preciso combatê-la”, disse Jorge Mario Bergoglio diante de dezenas de milhares de pessoas que aplaudiram quando ele acrescentou: “E a Igreja tem de ajudar mais”.
A mensagem foi captada imediatamente pelas duas partes citadas. Os padres de pequenas localidades que há décadas lutam, sem o apoio do Vaticano e pagando às vezes com a própria vida, contra a Cosa Nostra na Sicília, a Camorra na região de Nápoles ou ‘Ndrangheta na Calábria, se sentiram respaldados pela primeira vez. Mas as máfias também, cuja base do negócio é o consenso com a sociedade civil, entenderam a gravidade do assunto. Apenas algumas horas depois, 200 mafiosos presos na ala de segurança máxima de Larino, na região de Molise, decidiram não assistir à missa em protesto. Foi uma ação organizada pela cúpula. A ‘Ndrangheta estava desafiando o Papa.

Às duas da tarde de quinta-feira, na praça de Oppido Mamertina, só se podia tocar no assunto com um grupo de garotos, nenhum com mais de 20 anos, que conversavam em voz baixa perto do único bar aberto.

-- "Podemos falar sobre o que aconteceu na procissão?"

-- "Deixe para lá. Você não entenderia".

-- "E do que aconteceu há dois anos a Francesco Raccosta, aquele que foi jogado...? Algum de vocês  o conhecia?"

-- "Eu recomendo: é melhor deixar para lá, você não vai conseguir que ninguém lhe conte nada. São assuntos nossos. Nunca é bom vir alguém de fora lembrar de histórias velhas".

No fim, os garotos vão contando com dificuldade que tudo foi um exagero dos meios de comunicação e que, na realidade, “sempre foi assim” e “não tem importância”. Duas afirmações que, pronunciadas repetidas vezes da boca de jovens, se tornam um símbolo. Os garotos acrescentam que o pároco, Don Benedetto Rustico, está em maus lençóis:

-- "Como o culparam pela inclinação da Madonna, ele se defendeu dizendo que, se soubesse, não teria feito, e agora é a família dele que está zangada com ele".

-- "E quem é a família dele?"

Os garotos riem por fim diante da malícia da pergunta. O pároco do povoado é... primo do capo.

Don Benedetto não quer ver um jornalista nem pintado, mas depois de ter sido acusado de incentivar os fiéis a partirem a cara de um jornalista intrometido no próprio sermão, aceita dar uma explicação. Ou seja, negando tudo por princípio —“a estátua da Madonna não fez reverência a ninguém”—, mas admitindo por fim que, em um povoado como o seu, são raras as ruas em que não vive alguém com problemas com a justiça. “Se eu soubesse o que estava sendo organizado, talvez tivesse mudado o percurso ou até suspendido a procissão.” É o que, na quinta-feira passada, decidiu a Igreja local: suspender todas as procissões previstas para o verão para evitar um mal maior. Se não bastasse, o arcebispo de Reggio Calabria, monsenhor Firoini Morosini, propôs ao Papa suspender por pelo menos por 10 anos a figura do padrinho em batismos e crismas “para evitar o uso que a ‘Ndrangheta faz da Igreja para selar suas alianças criminais”.

O pároco, como tantos outros moradores de Oppido Mamertina, não consegue compreender o que mudou para que, depois de acontecer a mesma coisa tantas outras vezes, agora se tenha armado a revolução e até o fisco tivesse aberto diligências para saber quem eram os vizinhos do povoado que carregavam o andor com a Madonna. Mas para Don Pino Demasi, pároco da localidade vizinha de Polistena, as coisas estão claras. “A excomunhão do Papa”, garante, “está causando muitos danos à ‘Ndrangheta. Considere duas coisas. A primeira e principal é que as máfias precisam do apoio das pessoas, de um acordo tácito que lhes permita dominar a situação, fazer as vezes do Estado. A segunda é que quase todas as máfias, mas especialmente a ‘Ndrangheta, obtém esse consenso por meio da religião. Esta é uma região na qual as igrejas ainda ficam cheias de transbordar e eles se conectam com as pessoas por meio de símbolos e rituais religiosos. Afinal, não é seu próprio juramento?”.

Ainda hoje, um dos rituais de iniciação consiste em queimar uma imagem da Virgem ou do arcanjo São Miguel com uma gotas de sangue do novo integrante do clã, que nesse momento jura fidelidade até a morte. Um sistema que há décadas é estudado por Claudio La Camera, do Observatório da ‘Ndrangheta: “O que me chama a atenção é haver tanto rebuliço agora, porque o que aconteceu em Oppido acontece todos os dias, várias vezes por dia. Há dezenas de exemplos. O mais evidente talvez seja que a missa das nove não começa às nove, mas na hora em que o capo chega. Não é um problema de horário, mas de mensagem. O padre, sem abrir a boca, está dizendo para o povo que ali tudo depende da vontade do capo”. É esse consenso —um consenso criminoso avalizado durante décadas por padres covardes ou diretamente mafiosos— o que Francisco quer romper, apoiando-se nos padres mais ousados. Porque, segundo La Camera, todo o poder das máfias se baseia nesse acordo tácito que lhes permite substituir o Estado: “Se o sistema não funciona —e aqui na Calábria nada funciona—, eles assumem. Quando pedem o pizzo —o imposto por exercer uma profissão ou ter um negócio— não o fazem tanto pelo dinheiro, mas para construir em torno de si uma estratégia de consenso: qualquer coisa que qualquer um necessite, tem de pedir a eles. De um emprego a um encanador. E tudo é cercado de um sistema de valores com mais de um século de história. É preciso levar em conta que a ‘Ndrangheta, antes de ser um fenômeno criminal, foi um fenômeno cultural. E sua capacidade de construir sistemas simbólicos e sugestivos é muito forte. Por isso usam a simbologia religiosa e a música popular, trocando as letras e transformando-as nas canções sobre a vida no crime”.

Na casa do velho capo ainda está pendurado um cartaz da visita que o papa Francisco fez em 21 de junho passado a Cassano allo Jonio, o povoado da Calábria onde a ‘Ndrangheta assassinou no mês de janeiro uma criança de três anos, junto com seu avô e a jovem namorada dele, ateando fogo em um carro. O fato curioso e muito significativo é que o cartaz da visita papal que o capo ainda mantém pregado em sua casa coloca na boca de Jorge Mario Bergoglio uma frase que o papa nunca disse: “Venho para pedir desculpas”. O poder mafioso —e seus hábeis asseclas na política e no clero— espalharam o boato de que o Papa não vinha dar um severo corretivo nos criminosos, mas pedir perdão por levar a Roma um bispo especialmente querido na região. O slogan pregado na varanda do mafioso —Jorge Mario Bergoglio pedindo perdão ao velho boss Peppe Mazzagatti— e a estátua da Madonna parando em frente à sua casa— devidamente paramentada com música, flores e cheiro de suor e incenso— compõem uma cena muito precisa do poder manipulador da ‘Ndrangheta, de sua necessidade da religião popular para ser aceita, e até absolvida, por quem vive sob seu jugo.

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Como a Máfia está se infiltrando na Alemanha

A Máfia e o crescente escândalo do lixo tóxico na Itália

Encontros com a máfia calabresa: dentro do mundo da 'Ndrangheta ]



sábado, 18 de janeiro de 2014

A Máfia e o crescente escândalo do lixo tóxico na Itália

[O texto traduzido parcialmente abaixo (por ser muito longo) foi publicado no site inglês (Spiegel Online) da revista alemã Der Spiegel (O Espelho) em 16 deste mês de janeiro, e denuncia o crime de despejo de lixo tóxico no sul da Itália praticado há décadas pela Máfia. Em 2006 li o livro "Gomorra", de Roberto Saviano (Editora Bertrand Brasil), que narra a história real de um jornalista infiltrado na Camorra, a violenta máfia napolitana. No livro, Saviano -- que vive desde então sob a proteção e a vigilância cerradas do Estado italiano -- já narra em detalhes escabrosos do descarte criminoso de lixo tóxico na Itália. Os relatos do livro e da Spiegel são impressionantes. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. ] 

Há décadas a Máfia tem despejado ilegalmente lixo tóxico na região ao norte de Nápoles. Testemunho antes secreto, revelado recentemente, mostra que líderes políticos há anos sabem do problema e no entanto nada fizeram a respeito -- mesmo com o aumento do índice de mortes por causa disso.

Carmine Schiavone foi batizado duas vezes. A primeira, por um padre, quando recém-nascido. A segunda, pelo próprio chefão Luciano Liggio, uma figura de destaque da máfia siciliana.

"O batismo foi feito assim", conta Schiavone. "O ícone de um santo foi colocado em minha mão e uma gota de sangue foi pingada sobre ele. Em seguida, o ícone foi queimado e foi recitado o seguinte: "você queimará como este santo se trair os irmãos ou os aliados da Cosa Nostra".  Schiavone fez seu voto, e comprometeu-se com a causa -- e, no entanto, acabou cometendo a traição. Depois de anos como chefe do notório clã Casalesi, parte da rede da Máfia ao redor de Nápoles, ele mudou de lado em 1993 e tornou-se uma testemunha chave nos processos legais contra seus associados. Ele testemunhou contra pesos-pesados dos Casalesi, que tinham apelidos como "Sandokan" [um herói de aventuras, criado pelo escritor Emilio Salgari entre 1883 e 1884], "Midnight Fatty" ["Gordo da Meia-Noite"], Baby, e outros.

Quando o denominado "Julgamento Espártaco" terminou finalmente em 2010, membros do clã Casalesi receberam até 16 sentenças de prisão perpétua consecutivas, graças especialmente ao testemunho dado por Schiavone. A recompensa de Schiavone foi uma nova vida, sob proteção policial, em que ele tem que constantemente mudar de endereço. "Participei em cerca de 50 assassinatos, alguns deles que eu mesmo ordenei, e sabia de uns 400 ou 500 outros", disse ele.

O ex-mafioso passou cerca de metade de seus 70 anos na cadeia ou em prisão domiciliar. Do ponto de vista legal, pagou por seus crimes. Apesar disso, Schiavone é novamente o centro das atenções devido a um testemunho que prestou em 7 de outubro de 1997 a uma comissão parlamentar de inquérito em Roma. Seu depoimento foi tão vasto e abrangente, que foi mantido em segredo -- até o parlamento italiano ceder à pressão popular e liberar sua divulgação no final de outubro do ano passado.

"Milhões de toneladas"

A audiência de 1997 não focou o tipo de matança em que Schiavone se envolveu durante a guerra de quadrilhas no interior napolitano. Em vez disso, foi centrada em homicídio negligente -- o resultado de solo e água subterrânea contaminados por lixo altamente tóxico que, sabe-se agora, durante anos foi depositado ilegal e lucrativamente pela Máfia, principalmente pelo clã Casalesi.

"Estamos falando de milhões de toneladas", disse Schiavone aos parlamentares (ele foi anteriormente chefe da administração da Máfia). "Sei também que vieram caminhões da Alemanha transportando lixo nuclear". As operações se realizaram à noite, sob a guarda de mafiosos vestindo uniformes da polícia militar, disse ele. Schiavone mostrou aos agentes da justiça italiana os locais de muitos desses despejos porque, disse ele em 1997, "as pessoas nessas áreas estão sob risco de morrer de câncer em 20 anos".

Mais de 16 anos se passaram desde que Schiavone fez essa profecia à comissão de inquérito -- e nada foi feito. O choque e a revolta são extremos hoje. Não apenas porque pesquisadores de câncer encontraram indicadores significativos de que Schiavone possa ter dito a verdade, mas também porque várias autoridades em todos os níveis têm que ter estado cientes dos alertas de Schiavone desde meados dos anos 1990, e os ignoraram.

A pressão é particularmente grande sobre os seguintes atores dessa história:

  • Giorgio Napolitano era o ministro do Interior à época e, portanto, responsável em última análise pelas investigações. Hoje, é presidente da Itália.
  • Gennaro Capuolongo, de acordo com Schiavone, estava em um helicóptero que sobrevoou alguns dos locais de despejo de lixo tóxico. Hoje, é chefe da Interpol italiana.
  • Alessandro Pansa chefiava à época as unidades móveis da força policial italiana. Hoje, chefia a Polícia Estatal italiana.
  • Nicola Cavaliere estava na polícia criminal na época e se envolveu no caso, diz Schiavone. Hoje, é vice-diretor do serviço de inteligência doméstica da Itália.
Mas, mesmo com toda a pressão da mídia italiana, as autoridades italianas estão agindo como sempre, especialmente o presidente Napolitano [que é de Nápoles]. Ele diz que a Camorra é o "ator principal" do desastre ambiental  e evita falar do papel dele mesmo. Cavaliere diz que "nunca lidou diretamente" com o assunto. Outros implicados pelo depoimento de Schiavone permanecem em silêncio, ou tentam minimizar as preocupações.

Nomes, datas e locais

O jornalista Roberto Saviano já não descreveu em seu livro Gomorra como a Máfia transformou o sul da Itália em depósito de lixo para o rico norte italiano? Por que o súbito alarme? É possível que um ex-mafioso enlouquecido esteja semeando pânico para que o Estado gaste milhões para sanear os locais contaminados com tóxicos -- operação com a qual a Máfia pode mais uma vez lucrar?

É possível. Mas, mesmo isso faria pouco para amenizar a severidade das acusações de Schiavone. Ninguém antes dele falou de transporte de lixo nuclear. Ninguém antes dele descreveu com tantos detalhes como o lixo industrial de fábricas ilegais do norte chega até o sul. Ele contou como o lixo -- não importa se contendo dioxina, amianto ou tetracloroetileno -- foi depositado em valas abertas para a construção de rodovias.

Estima-se que 11,6 milhões de toneladas de lixo são despejadas ilegalmente na Itália, por ano. A organização ambiental Legambiente coloca o negócio do "lixo negro" movimentando acima de € 16 bilhões [cerca de R$ 50 bi] em 2012. Parece tratar-se de uma atividade imune a crises, já que os clãs da Máfia oferecem seus serviços por preços bem menores que os das empresas especializadas em descarte de lixo.

A Máfia é uma parte do Estado, diz Schiavone, acrescentando que os Casalesi eram um "clã estatal" e que o estado também lucrava com o negócio do lixo -- uma acusação séria, que ele diz poder provar. O ex-mafioso abre a porta de um quarto onde guarda caixas de documentos, mexe nos papéis e começa a declinar nomes, datas e locais.

Toda a informação que possui foi fornecida às autoridades nacionais anti-Máfia nos anos 1990, diz Schiavone. O nome de uma empresa baseada em Milão que, como intermediária, desempenhou um papel chave na transferência de lixo do norte para o sul, foi incluído também nos documentos. "Mas, parte do meu testemunho foi classificada como confidencial pelo Rei Giorgio", diz ele.

Rei Giorgio? "Napolitano, que era então ministro do Interior". E quem estava por trás da empresa em Milão?  "Um dos sócios", diz Schiavone, "era PB -- Paolo Berlusconi". PB é o vice-presidente do time de futebol AC Milan e é irmão de Silvio Berlusconi, que por quatro vezes foi primeiro-ministro da Itália. Ele foi realmente um participante do comércio de lixo tóxico e nuclear da Máfia? Schiavone disse isso em público, mas PB classifica suas alegações de "conto de fadas".

"Terra de veneno"

Quem viajar para o sul pela Autoestrada do Sol e tomar a saída para Casserta, pertinho de Nápoles, chegará ao local onde milhares de caminhões nas décadas passadas despejaram suas cargas de lixo industrial, à sombra do Vesúvio. Está bem no centro da região onde Goethe passou algum tempo durante suas viagens ao sul, e descrita de maneira encantada por ele como a "planície mais fértil do mundo". 

Os tempos mudaram. Já em 2004, a publicação médica britânica The Lancet Oncology descreveu a área ao redor de Acerra como um "triângulo da morte", onde nasceram ovelhas com duas cabeças. Depois, toda a região ao norte de Nápoles foi apelidada de "terra dei fuochi" ou "terra dos fogos". Circulavam imagens de crianças maltrapilhas em frente a colunas de fumaça negra que saíam de despejos de lixo não autorizados. Agora que ficou claro que o perigo maior vem do que restou sob o solo, a região é citada como a "terra do veneno". 

A área por onde Goethe viajou certa vez é hoje uma sequência de assentamentos desinteressantes, separados por campos de couve-flor e shopping centers. Vêem-se prostitutas nigerianas, imagens de santos em pequenos altares à beira da estrada e montanhas de lixo, onde se pode encontrar de tudo -- de garrafas de cerveja a barris de dioxina. 

A base naval americana em Gricignano, de paisagismo muito agradável, situa-se entre duas faixas de terra envenenada. Isto significa que todos na base, incluindo o almirante Bruce Clingan -- que comanda as forças americanas e aliadas na Europa e na Ásia, e mora na "Villa Capri" com vista para o Vesúvio -- têm que seguir regras rígidas. Água da torneira não pode mais ser usada na base, nem mesmo para escovar os dentes. Até o gato do comandante toma água engarrafada. As razões para isso estão cuidadosamente listadas em um estudo de US$ 30 milhões, comissionado pela Marinha americana em 2011 -- um trabalho que só chegou à atenção dos italianos através de um artigo na revista L'Espresso. Seu título: "Beba Nápoles e morra". O estudo concluiu que 92% da água coletada de poços privados fora da base apresentavam um "risco inaceitável à saúde". 

(...) Apesar disso, muito da produção local é considerado como não contaminado e há várias colheitas por ano. No entanto, ainda há dias em que mesmo homens honrados como o general Sergio Costa, do serviço florestal nacional, têm a sensação de estarem olhando através das "portas do inferno". Como no dia em novembro, por exemplo, em que ele e seus homens desenterraram barris de lixo tóxico de debaixo de campos de couve-flor em Caivano. As luvas de plástico que alguns dos homens usavam para manusear o lixo dissolveram-se no contato com ele.

"O aterro sanitário mais repugnante da Europa"

Mais ao oeste, em Giugliano, 500 ciganos vivem em choças e trailers aos pés do que provavelmente é o aterro sanitário mais repugnante da Europa, saturado de, entre outras coisas, lama tóxica e dioxina. De acordo com o comissário do governo responsável pela área, "seria necessário um sarcófago como o de Chernobyl para proteger o público".

(...) Antonio Marfella, do Instituto Italiano de Pesquisas de Câncer em Nápoles, apresenta outras descobertas: tumores aumentaram em 47% entre os homens na província de Nápoles nas últimas duas décadas. Sobretudo, a ocorrência de carcinoma de pulmão está crescendo mesmo entre não fumantes -- um fato raro na Europa. A região de Campânia tem hoje a taxa de infertilidade mais alta da Itália, e lidera também no número de casos de autismo severo -- tudo isso deflagrado, os especialistas suspeitam, pela exposição aumentada ao mercúrio.

"O desespero está se espalhando"

(...) As comunidades estão se organizando em protesto, sob a liderança do padre Maurizio Patricello, pároco de Caivano. Defensores de direitos civis que trabalham com ele enviaram 150.000 cartões postais ao Papa e ao presidente Napolitano, com fotos de mulheres com seus filhos mortos em seus colos. Entre elas estava Anna, cujo filho de 20 meses morreu de leucemia em 2009. (...)

Lixo radioativo da Alemanha Oriental

Obviamente, a influência do clã Casalesi não terminava -- nem termina ainda hoje -- na fronteira norte da Itália, diz Schiavone, acrescentando que dissera a mesma coisa à polícia federal alemã que o interrogou em Munique e em Roma. "Tínhamos um de nossos homens na Alemanha, que tinha contatos com políticos de lá", disse ele. "por intermédio dele veio, entre outras coisas, o lixo tóxico -- inclusive o nuclear -- para a empresa em Milão".  

O gabinete da Polícia Criminal Federal da Alemanha confirma que houve uma reunião com Schiavone em 1994, e que ela tratou das atividades do clã Casalesi em território alemão. Mas, as autoridades alemãs disseram não ter lembrança de discussões sobre lixo tóxico ou nuclear. 

Schiavone, entretanto, insiste em que o material radioativo "presumivelmente da Alemanha Oriental" foi entregue em recipientes de chumbo de cerca de 50 cm de comprimento. "Esses recipientes foram então enterrados "a até 20 m de profundidade -- mas a sonda, usada posteriormente para medições, foi apenas até 6 m de profundidade".

De acordo com o responsável pela região de Campânia, a informação fornecida por Schiavone está sendo investigada. Mas, quanto às pequenas quantidades de material radioativo, isso demandará algum tempo.


Um local de descarte ilegal de lixo tóxico, com a silhueta do Vesúvio ao fundo - (Foto: Mauro Pagnano/Der Spiegel).


Carmine Schiavone, o ex-mafioso que denunciou as atividades da Máfia do descarte ilegal de lixo tóxico na Itália - (Foto: Mauro Pagnano/Der Spiegel).


O oncologista Antonio Marfella, do Instituto Italiano de Pesquisas de Câncer de Nápoles, que verificou que a incidência de tumores entre os homens na província de Nápoles aumentou em 47% nas últimas duas décadas, potencialmente em consequência das grandes quantidades de lixo tóxico enterradas no solo da região - (Foto: Mauro Pagnano/Der Spiegel).


Mais de 100.000 manifestantes participaram de um protesto em novembro passado em Nápoles para demonstrar sua indignação com o enorme problema do lixo na região que circunda a cidade. Muitas mães portavam fotos de crianças que morreram de doenças que podem ter sido causadas pela poluição - (Foto: Mauro Pagnano/Der Spiegel). 


Em Giugliano, próximo a Nápoles, 500 ciganos vivem em trailers e choças junto ao que é provavelmente o aterro sanitário mais repugnante da Europa - (Foto: Mauro Pagnano/Der Spiegel).

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Zeus, o pegador

[Para esta postagem usei como referências: - [1] "Teogonía, Trabajos y Días, Escudo, Certamen" - Hesíodo ((El Libro de Bolsillo, Alianza Editorial, Madrid, 1986) ); - [2] "Guia Visual da Mitologia no Mundo" - National Geographic Brasil (Editora Abril, 2010); - [3] "Mitologia"- Edith Hamilton (Martins Fontes, 1999); - [4] pesquisas pessoais na Internet. -- Os números eventualmente citados no texto correspondem a essas referências.]

As mitologias em geral são exemplos notáveis da criatividade humana, da inventividade do imaginário coletivo, mas a mitologia grega tem relevo especial nesse universo por seu caráter antropomórfico -- a retratação dos deuses como seres humanos. Os gregos se espalharam por muitos outros territórios e encontraram tantas culturas diversas que a sua religião e sua visão de mundo tornaram-se mais complexas. 

Estudiosos apontam para o papel importante que as influências culturais desempenharam na mitologia grega. Os mitos refletiam também como os gregos enxergavam a complexa realidade do mundo natural e espiritual. No grego antigo, mito não significava "história"e sim uma sequência de eventos e ações unificados, cuidadosamente construídos. Era a palavra usada para descrever a trama, e não a história em si. Como essas histórias tinham sido transmitidas oralmente durante séculos, possuíam centenas de variações. As primeiras e principais fontes literárias dos mitos gregos eram os poemas épicos dos séculos 7 e 8 a.C. de Homero (a Ilíada e a Odisseia, sobre a guerra deTroia e as aventuras do herói Ulisses) e Hesíodo (a Teogonia, uma detalhada genealogia dos deuses) [2], [1].

Para compreender a tendência para o antropomorfismo e avaliar os aspectos mais chocantes da mitologia grega -- a carreira de Zeus como conquistador (o pegador de mulheres mortais e deusas) e estuprador em série, e o egoísmo e a irracionalidade inerentes aos deuses, sem mencionar os atos de incesto e canibalismo, bem como o hábito de devorar os próprios filhos -- é necessário situar os mitos no contexto das competições de música e das cenas de teatro para o qual foram criados. Plateia e juízes exigiam histórias vívidas, com técnicas de narrativa ousadas -- quanto mais colorida e memorável a história, maior a probabilidade de o autor voltar para casa campeão, com a coroa de folhas de oliveira ou de louro. As histórias sobre os escândalos dos deuses serviam ainda para outro propósito: espalhar a dúvida sobre o poder e os exemplos éticos dos deuses. Isso levou ao surgimento da filosofia como uma procura para outros princípios da vida e do mundo, encontrados tanto na natureza quanto na razão da humanidade [2].

Esta postagem se limitará a reproduzir exemplos da engenhosidade de Zeus (Júpiter, para os romanos) nas suas conquistas amorosas, não apenas por seu aspecto lúdico mas também e principalmente por suas implicações sobre (ou correlações com) o comportamento humano. O mais majestoso dos deuses apaixonava-se por uma mulher atrás da outra, e recorria a todos os subterfúgios possíveis para conseguir seus objetivos e, ao mesmo tempo, evitar que a mulher (Hera) soubesse de sua infidelidade. Há quem diga [3] que a explicação de tais atos se deve ao fato de o Zeus das canções e histórias ter sido criado pela combinação de muitos deuses. Quando seu culto chegava onde já havia um governante divino aos poucos os dois terminavam por se fundir, e a mulher do deus primitivo também era transferida para Zeus. O resultado, porém, não foi muito bom e os gregos das gerações seguintes não viram com bons olhos essas intermináveis aventuras amorosas.

Antes de entrar no cerne da postagem, cabe uma referência rápida à mitologia romana, que às vezes tende a ser considerada como uma réplica da grega, o que não seria verdade [2]. A mitologia romana sofreu grande influência dos etruscos e dos habitantes das colônias de língua grega que viviam ao longo da costa leste da Itália e na Sicília, estes últimos com suas crenças politeístas e seus ricos relatos de deuses e heróis. Os romanos adicionaram muitas divindades gregas ao seu panteão, como Júpiter (Zeus) e Juno (Hera) e outros, mas a paixão grega pela mitologia como a encontrada nos poemas de Homero e Hesíodo inicialmente não criou raízes em Roma. Os romanos não se interessavam muito pela mitologia [2] porque não concebiam seus deuses à semelhança dos seres humanos -- por isso, as divindades não eram nomeadas. Na maior parte das vezes, o culto romano se resumia a fazer oferendas ao "deus do lugar", sem nenhuma outra designação. O que importava mesmo era invocar a "presença" daquela divindade, a fim de que garantisse o sucesso em todos os empreendimentos. Outro aspecto da mitologia romana foi a deificação dos imperadores, uma prática herdada do helenismo de influência ocidental, a partir do arquétipo de Alexandre, o Grande. Inicialmente, os imperadores eram deificados apenas após a morte. Mais tarde, César e Augusto tiveram o culto imperial estabelecido ainda em vida. A deificação, porém, referia-se mais à ordem estatal que o imperador representava do que à sua pessoa. O culto ao deus imperador era exigido como prova da aliança de um indivíduo com Roma.

As conquistas amorosas de Zeus, o pegador

Depois de destituir o pai, Crono, Zeus passou a governar o mundo todo -- os deuses e a humanidade. Caracterizado pela ordem e pela justiça, o reinado de Zeus mantinha a disciplina nas pólis, as cidades-Estado gregas, e seu nome era dado como garantia em juramentos. Como rei dos reis, protegia a realeza e era o deus do céu e do trovão -- o raio e a águia, lado a lado, eram seus símbolos mais significativos, representando força e justiça.

Era particularmente adorado nas cidades de Olímpia e Dodona, a casa de um antigo oráculo. E, embora fosse o deus máximo, possuía qualidades quase humanas, especialmente a predileção pelo sexo feminino.  Para a irritação de sua segunda esposa, Hera, Zeus teve muitos casos com deusas, ninfas e mortais, dos quais sempre resultaram filhos, o que o tornou pai de uma prole numerosa. Como estratégia de sedução, usava sua habilidade para se transformar em outros seres.  Apesar de seus muitos amores, Zeus casou-se apenas duas vezes. A primeira esposa, Métis, filha do titã Oceano, foi forçada ao casamento. Ela assumiu vários disfarces para se esconder, mas Zeus por fim a encontrou.  A filha favorita de Zeus, Atena, nasceu da cabeça de Zeus depois que ele engoliu Métis, grávida de Atena. A segunda esposa, Hera, deusa da fidelidade matrimonial, lutou contra as amantes de Zeus. Seu ciúme era famoso.

Como um  Don Juan de alta estirpe e poderoso, Zeus foi democrata em suas conquistas e teve amantes em todos os quadrantes: divindades, semi-divindades e mortais. A lista é impressionante: pela Wikipédia, teriam sido 23 amantes divinas (que lhe deram 60 filhos) e 45 amantes semidivinas e mortais (com as quais teve 65 filhos). A lista abaixo, obviamente, é apenas uma amostra dessas conquistas do deus dos deuses.

Amantes divinas [2], [4]

Maia

Maia era a mais velha e a mais bonita das filhas de Atlas. Era inevitável que Zeus a notasse. Para evitar que Hera descobrisse, ele furtivamente a deixou dormindo e foi ter com Maia. Desta união nasceu Hermes, o mais desonesto e sagaz de todos os deuses [2]. Serviu o pai e outros deuses como mensageiro, além de guiar as almas dos mortos ao submundo. Talvez o ato de bravura mais famoso de Hermes tenha sido o assassinato de Argos, um animal de 100 olhos, para libertar Io, amante de Zeus (ver adiante). Se Maia não tivesse escapado à vingança de Hera, provavelmente Hermes não teria existido.

Deméter

Filha de Crono e Reia, era portanto irmã de Zeus, que se tornou seu amante -- por sinal, um amante um tanto ciumento. Dessa união nasceram Perséfone e Zagreu. Deméter era a deusa do milho, do cultivo e das árvores, sendo responsável também por dar início às estações -- era a Ceres dos romanos. Ela teve também uma vida amorosa agitada, tornando-se amante entre outros de Iásio (filho de Zeus com Electra, ver adiante). Conta-se que, quando descobriu o caso, Zeus matou Iásio com um raio.

Leto

Filha de Febe e Céos e deusa do anoitecer, era prima de Zeus, com quem teve os gêmeos Apolo e Ártemis (Diana, para os romanos). Quando engravidou dos dois, Leto vagou pelo mundo em busca de um lugar onde pudesse tê-los, porque Hera, enciumada e furiosa com mais essa aventura amorosa de Zeus, proibiu que a Terra acolhesse a parturiente. Temendo a cólera da rainha dos deuses, nenhuma região ousou recebê-la. Foi então que a estéril e flutuante ilha de Ortígia, por não estar fixada a parte alguma e portanto não pertencer à Terra, não tendo assim o que temer de Hera, abrigou a amante de Zeus.

Mnemósine

Quando a titã  Mnemósine, deusa da memória, dormiu com Zeus por nove noites deu à luz nove filhas chamadas de musas (Calíope, Clio, Erato, Euterpe, Melpômene, Polimnia, Terpsícore, Tália e Urânia). Cada uma delas tinha uma função especial na vida cultural do Olimpo.

Nêmesis

Deusa grega da segunda geração, Nêmesis era -- segundo Hesíodo [1] --  uma das filhas de Nix, a deusa da noite. Tão bela como Afrodite, era geralmente representada sob a forma alada.  Certa feita, Zeus apaixonou-se perdidamente por sua beleza e resolveu possuí-la de qualquer jeito.  Ela tentou evitar unir-se com ele transformando-se numa gansa, mas Zeus transformou-se num cisne e uniu-se a ela. Nêmesis pôs um ovo, fruto dessa união, e o abandonou. Alguns pastores o encontraram e o entregaram à rainha Leda, para que o chocasse junto com sua ninhada -- e desse ovo nasceram Helena (de Troia) e Pólux.

Amantes semidivinas e mortais

Egina

Filha do rei-rio Asopo. Zeus se apaixonou por ela e se transformou numa águia para capturá-la. Asopo ficou furioso e procurou pela filha por toda a Grécia, mas Zeus pôs fim a essa caça atingindo-o com raios. Levou Egina para uma ilha isolada, onde ela concebeu seu filho Éaco. Depois do nascimento do filho Egina abandonou a ilha, mas pediu a Zeus que a povoasse -- ele atendeu-a, e depois deu seu nome à ilha.

Europa

Um dia Zeus viu uma garota mortal, Europa, recolhendo flores. Inflamado de desejo, transformou-se em um touro e se aproximou dela com a boca cheia de flores de açafrão. Zeus então a sequestrou e a levou para Creta, onde se deitou com ela. Tiveram três filhos: Sarpédon, o rei da Lícia; Radamanto, que se tornou um dos juízes do submundo depois de morrer; e Minos, o rei de Creta.

Io

Certa vez, Zeus dormiu com Io, sacerdotisa de Hera. Antes que a esposa o acusasse de infidelidade, ele transformou Io numa vaca com a qual presenteou Hera, que a pôs sob a guarda de Argos ("com uma centena de olhos"). Enviado por Zeus, Hermes matou Argos e libertou Io. Hera então a atormentou com uma mosca, fazendo-a fugir. O mar Jônico (ou Iônico) e o estreito de Bósforo -- cujo nome significa "passagem da vaca" -- têm esses nomes em homenagem às várias perambulações de Io.

Leda

Outra mulher desejada por Zeus foi Leda, rainha de Esparta, esposa do rei Tíndaro. Para evitar o ciúme de Hera e de Tíndaro, Zeus se transformou em um cisne e se deitou com Leda. A história dessa união coincide exatamente com a de Zeus com Nêmesis (ver acima) [2], deixando dúvida sobre qual dessas histórias é a "verdadeira".  

Alcmene

Alcmene era uma simples mortal -- e casada. Mas, se recusou a consumar o casamento até que seu marido Amphytrion completasse um ato de vingança para ela. Zeus disfarçou-se como seu marido, dizendo-lhe que havia retornado depois de cumprida com êxito sua missão de vingança. Alcmene acolheu Zeus em sua cama, acreditando que fosse seu marido. Uma das versões desse mito diz que Zeus ordenou ao deus sol que tirasse uma folga, para que sua noite de amor fosse mais longa. O Amphytrion de verdade não ficou nada contente em retornar para uma mulher que dizia já ter dormido com ele, mas como seu amante havia sido Zeus não havia nada que um humilde mortal pudesse fazer. Da união Zeus - Alcmene nasceu o famoso herói Hércules.

Calisto

Os mitos variam quanto à filiação de Calisto -- alguns dizem que ela era filha do rei de Arcadia, outros que seu pai era o rei de Tebas. Há ainda outros que dizem que ela era uma ninfa da floresta. Todas as versões concordam no entanto em que era uma acompanhante de Ártemis e que fizera um voto de castidade, como era obrigatório para todas as acompanhantes de Ártemis. Zeus, porém, se apaixonou por ela -- e aí, já se sabe o que acontece.  Como Calisto fizera voto para permanecer virgem, evitando a companhia de qualquer homem, Zeus teve que se disfarçar de Ártemis para se aproximar dela. O plano funcionou, e Zeus conseguiu o que queria. Quando Calisto estava grávida de seu filho com Zeus, Arcas, Ártemis descobriu a quebra do voto de castidade e, como castigo, transformou-a em um urso (que matou mais tarde, segundo uma das versões desse mito).

Dânae

Era filha de Acrísio, rei de Argos, que recebeu de um oráculo a profecia de que Dânae daria à luz um filho que o mataria, não importava onde se escondesse. Acrísio tentou desesperadamente evitar que isso ocorresse, e para evitar que Dânae engravidasse a aprisionou em uma torre de bronze, com apenas uma pequena abertura para entrada de ar e comida. Zeus, no entanto, apaixonou-se perdidamente pela jovem e penetrou na cela por essa abertura como uma chuva de prata, e caiu em seu colo fecundando-a.

Electra

Há vários mitos envolvendo Electra, filha de Atlas, mas nenhum deles dá detalhes de como Zeus a seduziu. Mesmo não havendo uma história com detalhes desse caso amoroso, essa união foi importante -- Dárdano, um de seus filhos (os outros foram Iásio e Harmonia), foi o fundador da casa real de Troia.

Ganymede

Ninguém estava a salvo da luxúria de Zeus, nem mesmo os rapazes jovens. Ganymede era um príncipe da família real troiana. Alguns mitos dizem que ele era o mais bonito de todos os mortais, entre homens e mulheres -- quando Zeus o viu, foi amor à primeira vista. Mandou então uma águia -- ou ele mesmo se transformou nessa ave -- para levar o jovem para o Monte Olimpo. Lá, ele passou a servir vinho aos deuses (especialmente a Zeus), substituindo Hebe nessa função.