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quinta-feira, 7 de julho de 2016

A Venezuela que não tem crise

[Assim como em praticamente todos os países, durante quaisquer crises há uma parcela da população que permanece imune aos problemas que afetam a maioria de seus compatriotas. A Venezuela não foge a essa regra, como mostra uma reportagem de Juan Paullier no site BBC Mundo, que traduzo a seguir. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Os produtos de luxo têm mercado na Venezuela - (Foto: BBC Mundo)

Golpeada pela insegurança, a noite venezuelana perdeu vigor mas continua sendo Venezuela, onde sobrevivem a alma caribenha e a festa à flor da pele.

Um empresário de 50 anos falou com o BBC Mundo em sua casa em El Hatillo, uma abastada zona residencial de Caracas. Por segurança, prefere que seu nome não seja divulgado. (...)

Mais que a escassez de alimentos, a falta de segurança em Caracas -- que tem um dos índices de homicídios mais altos do mundo -- é talvez onde os mais ricos sentem a deterioração da situação do país. Vive-se com o medo constante de algo aconteça, mas não é por isso que se deixa de viver.

Decidido a seguir desfrutando, esse empresário ainda frequenta seus restaurantes preferidos e esta noite vai a um dos lugares mais exclusivos do país: o Laguna Country Club, onde um título de membro pode alcançar os 100 mil dólares. Ainda que ele não seja sócio, é convidado de seus amigos.

Há até pouco tempo, ganhava até 30 mil dólares por mês mas agora não chega a mil dólares, desde que a produção de sua empresa caiu em 90% nos últimos tempos. Disse que isso resulta das dificuldades pelo governo e, mesmo decidindo fazer como devido se viu afetado. Mantém seu estilo de vida graças a  outros negócios no exterior.

Prateleiras quase vazias, uma cena comum nos mercados populares da Venezuela - (Foto: BBC Mundo)

(...) Um amigo seu, que durante anos trabalhou na bolsa de valores e agora é um colecionador de arte, admite que poderia viver em sua casa em Miami mas diz que, apesar de tudo, quer viver na Venezuela. É uma de várias pessoas de diferentes estratos sociais que acreditam que quanto pior a situação, melhor: "tudo tem que terminar explodindo, para que comece o longo caminho da reconstrução".   

Sem filas

O empresário é um deles. Vive comodamente, mas consciente da realidade do país. Diz que a situação é insustentável. Ainda que não sofra as quase quatro horas e meia diárias que, em média, um venezuelano leva para comprar alguns dos produtos regulados pelo governo, ele não está alheio à crise. Como o resto das pessoas de seu nível, adquire comida por outros meios.

Costuma conseguir os alimentos através dos empregados de sua empresa, mas deixou de fazê-lo quando quiseram cobrar-lhe 40.000 bolívares (cerca de US$40 no mercado negro) por 20 kg de farinha PAN (farinha de milho pré-cozido, ingrediente básico das  arepas). No mercado regulado, o quilo custa 19 bolívares. [As arepas são um alimento tradicional na maioria dos países latino-americanos de língua espanhola, onde são um alimento tradicional da dieta básica. Lembram um pouco a nossa tapioca.]

Ele se considera de classe média, e não um rico. "Me sinto um pobre ao lado dos meus amigos", brinca.

Seu filho de 19 anos conta que há  pouco sequestraram um conhecido e quando se soube disso em seu círculo, um amigo chegou com US$70.000 em dinheiro para pagar o resgate. 

Outros têm jatos para viagens ao exterior e teco-tecos para festejar um aniversário no arquipélago de Los Roques [um lugar de uma beleza incrível!]. Há uma Venezuela que ainda vive assim.

Alguns restaurantes continuam tendo boa clientela em Caracas - (Foto: AFP)

Uma Venezuela em que os restaurantes continuam cheios, em que nas lojas de produtos importados há fila para pagar. Em que uma mulher compra numa terça-feira ao meio-dia uns luxuosos brincos Swarovski em um centro comercial.

Uma Venezuela em que os aniversários continuam sendo comemorados com uísque 18 anos, em que trazem músicos famosos para a festa de uma debutante de 15 anos e em que uma senhora comemora com suas amigas com um show privado de Luis Miguel [um dos mais famosos e caros cantores mexicanos].

Uma classe especial

Podem ser grandes empresários, diretores de empresas, profissionais bem sucedidos e "boliburgueses", pessoas próximas ao chavismo que fizeram suas riquezas graças ao governo.

Quem tem acesso a dólares na Venezuela ainda vive comodamente, ao contrário de muitos que apenas conseguem sobreviver. Calcula-se que essa classe represente 16% da população, um pouco menos de 5 milhões de pessoas. Se dividem em um segmento A/B, que passou de 3,1% em 1999 a 1,3% este ano, e o C, que era 18,2% quando Hugo Chávez chegou ao poder e agora é 14,8%.

É um grupo da população que, historicamente, se acostumou a um nível de vida elevado em um país petrolífero. 

"Desde os ano 80 ninguém faz poupança em bolívares, a Venezuela tem estado supervalorizada, ganhávamos dólares aos borbotões e agora há poupanças relevantes em divisas, muito mais do que em qualquer outra classe média-alta da América Latina", explica Luis Vicente León, economista e diretor da Datanálisis, uma empresa de pesquisas de opinião.

Embora mantenham seu nível de vida, ele diz que "essas pessoas estão perdendo capacidade de comprar e estão encarecendo suas vidas de maneira significativa. Suas economias e suas receitas se reduzem, seu fluxo de caixa se interrompeu e estão vivendo do que fizeram, não do que estão fazendo". 

A história conhecida

Protestos na Venezuela pelo preço da farinha pan - (Foto: AFP)

A outra face do país, a mais conhecida, é a daqueles que têm que passar por cinco lojas ou supermercados para fazer as compras. A das pessoas que fazem filas e filas. Nelas ficam aqueles que não podem ou não querem recorrer ao mercado negro e aos "bachaqueros", que compram produtos a preços regulados e os vendem a preços muito superiores no mercado paralelo. 

No meio da escassez de alimentos por que passa a Venezuela, há comida. Os mais de 40 produtos básicos que estão há 13 anos com seus preços regulados pelo governo são os mais difíceis de se encontrar. O resto pode-se conseguir. Entrar em um supermercado não é problema, a menos que seja para comprar um desses produtos. 

Se vêem frutas e verduras barracas de rua em Petare, um bairro popular no leste de Caracas (ainda que às vezes as pessoas se resignam passar ao largo delas, por causa dos preços). E o açúcar e o café se vendem em pacotinhos de 100g ou menos para aqueles que não têm dinheiro para comprar um quilo. 

   Pacotinhos de açúcar e café, vendidos por gramas - (Foto: BBC Mundo)

Com uma inflação anual de 180% em 2015 e que pode chegar a 720% este ano, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a imensa maioria dos venezuelanos não tem dinheiro suficiente para comprá-los. Resultado: as pessoas se alimentam menos e pior. 

"Não entendíamos o sofrimento dos pobres"

Uma mulher de classe média-alta que vive com sua família na zona residencial de Caurimare explica ao BBC Mundo que há três meses fazia fila uma vez ou outra para conseguir comida. Deixou de fazê-lo quando a encarregada do supermercado a alertou de que a situação começara a ficar violenta.

Com dificuldade, consegue os produtos através de contatos e tem números de "bachaqueros" em seu celular, mas garante que não os usou. Sua dieta variou um pouco, mas não é motivo para alarme, diz ela, alimentos podem ser substituídos. A preocupação real é com a falta de medicamentos. Aí as distinções entre classes desaparecem um pouco.

O que mais afeta as classes ricas da Venezuela é a falta de segurança - (Foto: AFP)

"Tenho um seguro de saúde nos Estados Unidos, mas não vou tomar um avião por uma insignificância, mas pode surgir uma complicação e a gente morre por coisas pelas quais não deveria morrer", explica.

Seu marido é médico e não consegue os remédios para tratar a psoríase que lhe afeta uma das mãos. Enquanto isso, como ocorre com o empresário, a insegurança parece ser sua maior preocupação. Em sua casa há cada vez menos saídas e mais convivência familiar, mas ela diz que, apesar dos riscos, não quer ter suas filhas enclausuradas. À noite, só sai com elas no carro blindado de seu irmão.

O medo se faz presente. Dias atrás, uma amiga morreu em um sequestro. "Isso tem que explodir logo", afirma, mas tem esperança quanto ao futuro. 

Sua filha de 17 anos vai todos os domingos a Petare para fazer tarefas de apoio escolar a crianças da região. "Nós, a minha geração, não entendíamos o sofrimento dos pobres", acrescenta. "Agora, as novas gerações têm outra noção sobre a realidade do país", e ela espera que sejam elas as encarregadas de levar a Venezuela adiante.


segunda-feira, 10 de março de 2014

Venezuela já deve US$ 2 bi a empreiteiras brasileiras

[Nos 11 anos de  governo petista, o Brasil continua regredindo em matéria de política externa, a começar pela própria América do Sul. Depois da idiotice de atuar com dois chanceleres -- Marco Aurélio Garcia + quem estiver à frente do Ministério das Relações Exteriores -- uma das mediocridades da lavra do NPA (Nosso Pinóquio Acrobata, Lula) mantidas por Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saias), o Brasil institucionalizou de vez a adoção de dobradiça na espinha dorsal no relacionamento com nossos vizinhos, principalmente os fronteiriços, e virou o saco de pancadas preferido de Argentina, Bolívia, Paraguai e agora Venezuela. Em nome de um pragmatismo de araque -- que no fundo, no fundo é complexo de mulher de malandro -- nosso passatempo predileto virou ser passado para trás por esses "hermanos". E o pior é que esse masoquismo é acompanhado de uma atuação mais do que medíocre na defesa da democracia e dos direitos humanos no continente, o que já nos valeu a alcunha de "anão diplomático" imposta por um ex-chanceler mexicano. E já nos valeu também duras críticas na imprensa internacional. Agora, é a vez da Venezuela nos ferrar, como nos informa o jornal Valor Econômico de 05/3. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Um problema que já vinha afetando os exportadores brasileiros agora passa a preocupar também as empreiteiras do Brasil que atuam na Venezuela, onde elas possuem um portfólio estimado em US$ 20 bilhões em obras de infraestrutura e saneamento. Segundo fontes consultadas pelo Valor, os atrasos nos pagamentos pelos serviços prestados pelas construtoras no país vêm se agravando nos últimos meses, e a dívida do governo venezuelano com companhias do setor já soma entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões de dólares.

As dificuldades econômicas enfrentadas pela Venezuela, dizem as fontes, são apenas uma parte da explicação desse fenômeno. A outra questão, igualmente importante, está relacionada à articulação cada vez mais falha entre os dois países sob os governos de Nicolás Maduro e Dilma Rousseff, em comparação ao que ocorria quando Hugo Chávez e Luiz Inácio Lula da Silva eram presidentes.

"Antes, o Lula era amigão do Chávez. Quando eles se encontravam, destravavam todos os problemas", diz uma fonte próxima ao tema, que, como as demais fontes, pediu para não ser identificada. "Agora, com pouco dinheiro em caixa, o governo venezuelano está mais pragmático. O 'amigão' é quem traz financiamento. Nesse sentido, estamos perdendo cada vez mais espaço para a China".

Valor apurou que cerca de 70% do endividamento do governo venezuelano com as empreiteiras brasileiras corresponde a serviços prestados pela Odebrecht.

A maior construtora brasileira é também a que tem mais projetos no país. E tinha uma relação muito próxima com Chávez. Mas, segundo fontes, essa relação começou a azedar na eleição presidencial de outubro de 2012, a última disputada pelo líder bolivariano, quando chegou aos ouvidos dos serviços de inteligência venezuelanos que a empresa se aproximou também do opositor Henrique Capriles. "Assim como o Brasil deixou de ser o parceiro prioritário da Venezuela, em detrimento da China, a Odebrecht deixou de ter prioridade nos projetos e nos pagamentos dos atrasados pelo governo venezuelano", diz uma segunda fonte.

Valor apurou que, por conta dos atrasos e das incertezas econômicas e políticas que rondam o país - que viveu nas últimas semanas uma onda de protestos contra o governo -, a Odebrecht está diminuindo o ritmo de obras e demitindo funcionários. A empresa emprega cerca de 13 mil pessoas na Venezuela. Dentre seus principais projetos no país estão duas linhas do metrô de Caracas, uma nova pista do aeroporto de Maiquetía, que serve a capital, uma hidrelétrica e duas pontes. A favor da empresa, diz uma fonte, ainda pesa a boa fama de entregar os projetos, apesar dos atrasos, enquanto empresas de outros países simplesmente abandonam as obras.

As outras grandes empreiteiras brasileiras - Queiroz Galvão, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez - também enfrentam um aumento nos atrasos. Mas o montante devido a elas, assim como sua presença no país, são bem menores.

Consultada, a Odebrecht minimizou o problema. "O atraso nos pagamentos é normal no negócio de infraestrutura. Não tenho nenhum problema aqui que eu não tenha em outros lugares", disse José Claudio Daltro, diretor administrativo e financeiro da Odebrecht na Venezuela. "Nós temos um compromisso com o país e não temos nenhuma intenção de paralisar nossos trabalhos. Nosso compromisso é entregar todas as obras que temos contratadas", afirmou Daltro. Ele disse desconhecer os números de endividamento apurados pelo Valor.

Os atrasos nos pagamentos, tanto de exportações como relativos à prestação de serviços, sempre ocorreram na Venezuela chavista. Mas eles começaram a se intensificar no ano passado, com a deterioração da economia e as turbulências políticas, já sob o governo de Nicolás Maduro.
A disparada no gasto público, em meio a duas eleições presidenciais, entre outubro de 2012 e abril do ano passado, ajudam a explicar os problemas de caixa enfrentados por Maduro. O país também vem recebendo cada vez menos dólares com as vendas de petróleo, responsável por 96% das exportações. Segundo dados da estatal PDVSA, cerca de 350 mil barris diários, de uma produção total de 2,7 milhões de barris, são destinados a honrar créditos de US$ 40 bilhões concedidos pela China. Outros 400 mil barris são vendidos a preços subsidiados a aliados, sobretudo Cuba.
As reservas internacionais caíram mais de 30% em 2013, para US$ 20,7 bilhões, o menor nível em nove anos. Com poucos dólares em caixa, o governo, que detém as divisas obtidas com as exportações petroleiras, passou a controlar ainda mais as importações, priorizando setores essenciais, como alimentos e medicamentos.
Os importadores venezuelanos devem hoje cerca de US$ 10 bilhões a fornecedores no exterior, porque não conseguem obter do Banco Central os dólares necessários para pagá-los. A dívida com os exportadores brasileiros chega a US$ 1,5 bilhão, segundo fontes. Internamente, o resultado disso foi um aumento do índice de escassez medido pelo próprio governo. Em janeiro, o indicador subiu de 22% a 28%. A inflação disparou, de 20,1% em 2012 para 56,2% em 2013.
É unanimidade na comunidade de negócios brasileira em Caracas que a fria relação entre Dilma e Maduro tem dificultado a solução de problemas das empresas do Brasil no país. Uma fonte nota que a Venezuela foi o país mais visitado por Lula durante sua gestão, entre 2003 e 2010, assim como o Brasil está no topo da lista de países visitados por Chávez no período. Enquanto presidente, Lula esteve na Venezuela em 16 ocasiões. Chávez fez 20 visitas ao Brasil.
Maduro só viajou a Brasília uma vez depois de eleito, em maio, enquanto Dilma esteve na Venezuela apenas três vezes. Na primeira, em dezembro de 2011, Chávez ainda governava. Ela voltou para o velório do líder bolivariano, em março do ano passado, e ficou apenas algumas horas no país. Foi embora antes do discurso de Maduro, para o espanto de diplomatas, empresários e outros chefes de Estado presentes. Em abril, voltou a Caracas para a posse de Maduro.
Fontes afirmam que, sentindo a falta de uma boa interlocução entre os governos, as construtoras brasileiras passaram a contar, informalmente, com a ajuda do ex-embaixador da Venezuela em Brasília Maximilien Arvelaíz para ter melhor acesso ao Miraflores. Na semana passada, porém, ele foi designado para assumir a Embaixada da Venezuela em Washington. No novo cargo, não deve ter a mesma disponibilidade para interceder pelas empresas do Brasil.
[Nossa relação com a Venezuela nunca foi um padrão de decência nesses 11 anos petistas, tem sido mais um relacionamento entre companheiros de quadrilhas. Essa promiscuidade atingiu seu clímax no governo Dilma NPS, quando o Brasil fez uma molecagem inominável com o Paraguai alijando-o temporariamente do Mercosul para permitir o ingresso da Venezuela no bloco.  Ver também:






















segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O jeito bolivariano de governar -- governo venezuelano ocupa fábrica de papel higiênico

[Desde que tomou posse o sucessor de Hugo Chávez, Nicolás Maduro, paira no ar algo estranho que afeta os intestinos do povo venezuelano -- há algo de errado e sinistro no suprimento de papel higiênico na Venezuela. Parece que Maduro, o imaturo, perdeu a paciência e decidiu ocupar uma fábrica desse papel de primeira necessidade, como nos relata o jornal espanhol El País de ontem em reportagem que traduzo abaixo.  Esse é o país que o Brasil trouxe para o Mercosul, fazendo molecagem com o Paraguai. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

O Órgão Superior da Economia da Venezuela tomou duas decisões que, analisadas separadamente, buscam reanimar o sistema produtivo nacional. Nada disso, entretanto, garante que seja aliviado o desabastecimento crônico que tem ocorrido na Venezuela durante todo o ano de 2013 até agora. Pelo contrário, são medidas paliativas -- dizem os venezuelanos -- que não atacam as causas estruturais da falta de alimentos básicos.

A mais destacada dessas decisões foi a ocupação por 15 dias da empresa Manpa, localizada no estado de Aragua, que produz guardanapos e papel higiênico, este último um dos produtos mais escassos no país. O governo quer verificar como a empresa opera, conhecer sua estrutura de custos e garantir que os produtos acabados cheguem sem demoras às estantes dos supermercados. Isso foi anunciado pelo ministro do Comércio Alejandro Fleming, que informou que uma vez transcorridas essas duas semanas fará recomendações ao governo sobre o destino da empresa.

A outra medida, publicada no Diário Oficial desta sexta-feira, está incluída no que se convencionou chamar de XI Plano Excepcional para o Abastecimento de Alimentos da Cesta Básica. A empresa estatal Corporação de Abastecimento e Serviços Agrícolas (CASA) poderá importar através de empresas que não estejam inscritas no Registro Nacional de Contratistas, durante quase um ano, uns 3,57 milhões de toneladas de alimentos, equivalentes a 29,392 bilhões de bolívares (3,507 bilhões de euros no câmbio oficial) [≈ R$ 10,5 bi], para comerciá-las por meio das redes estatais de alimentos ou de supermercados privados, em caso de que a produção nacional seja deficitária "ou se evidenciem sabotagens de grupos minoritários". O presidente Nicolás Maduro está consciente de que a tramitação para obtenção de divisas controladas se tornou um processo enfadonho, que propicia a corrupção. Por isso, anunciou uma simplificação dos procedimentos para eliminar as transações ilegais.  [Ver postagem anterior para uma ideia sobre a Venezuela deixada por Chávez.]

O fato do governo concentrar todas as suas energias em sanar as falhas de abastecimento revela que não foi suficiente ter-se garantido à empresa privada a concessão de divisas preferenciais para trazer a matéria prima. Há uma razão de fundo muito mais poderosa, que o Executivo não reconhece: a falta de divisas para satisfazer a demanda. Um relatório da empresa financeira Barclays comentado no diário El Universal adverte que o país marcha "em câmara lenta" para uma crise de balança de pagamentos, devido à forte queda das reservas internacionais.  O jornal afirma que essas reservas caíram cerca de 26% neste ano, devido à queda no preço do ouro -- cerca de 76% dessas reservas nacionais são de barras desse metal -- e ao vencimento de dois pagamentos de dívida no montante de US$ 4 bilhões.

O governo se mostra preocupado com a persistência da crise de abastecimento, e sacou do bolso do colete a receita das expropriações. Estas medidas haviam desaparecido com a doença, agonia e morte deHugo Chávez. Parecia que Maduro as havia descartado de todo até esta semana, quando ameaçou retomá-las para obrigar os empresários a produzir no limite. O empresariado volta a ver com temor o reinício dessas medidas, que levaram à falência principalmente a agricultura e não conseguiram a prometida autonomia na produção de alimentos buscada pelo chavismo. Com a desconfiança, se agravará o desinvestimento. Hoje o governo não se mostra em condições de desprezar a contribuição do setor privado para a estabilização da economia.

O presidente venezuelano Nicolás Maduro passeando de bicicleta em Caracas no domingo atrasado. A vibração dele deve ser por ter conseguido algum rolo de papel higiênico extra na fábrica desse produto que mandou ocupar ... (Foto: Imprensa de Miraflores/Efe - Fonte: El País).
 



domingo, 11 de agosto de 2013

Ditadura militar criou rede para espionar vizinhos

[Não há anjinhos nessa história de espionagem. Vejam a reportagem de ontem do jornal Estadão.]

Se hoje reclama da espionagem dos EUA, durante a ditadura o governo brasileiro criou uma rede oficial de recolhimento de dados sigilosos na tentativa de monitorar os segredos militares e estratégicos dos países vizinhos da América Latina. Arquivos secretos e inéditos do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), aos quais o Estado teve acesso e acabam de ser desclassificados pelo Arquivo Nacional, em Brasília, mostram que, numa reunião do órgão, em agosto de 1978, foi criado o "Plano de Informações Estratégicas Militares", que descreve o esquema de espionagem organizado pelo Brasil.

No Anexo A do arquivo é detalhado o "Plano de Busca Número 1", que, segundo o documento, "orienta, sistematiza, define responsabilidades e fixa prazos para as atividades de informações externas, relacionadas com o Plano de Informações Estratégicas Militares (Piem)". A tarefa era clara: fornecer ao governo brasileiro informações estratégicas e secretas dos países da América Latina, deixando apenas EUA e Canadá de fora do plano. O documento mostra que essa missão caberia não apenas a adidos militares brasileiros no exterior, mas também ao Itamaraty.

O item A do "Plano de Busca" determinava: "os adidos militares atenderão às necessidades de informações da Força Singular ou Forças Singulares que representam os países onde estão credenciados". O item B é mais direto ainda em relação à espionagem militar. "O Ministério das Relações Exteriores atenderá às necessidades de informações estratégicas militares dos países da América Latina onde as Forças Armadas não estejam representadas por adidos militares".

Uma detalhada planilha, chamada de "Apêndice Número 1 ao Plano de Busca Número 1" explica o que cada órgão de inteligência deveria investigar nos países vizinhos. Cinco órgãos de busca participavam dessa coleta de informações estratégicas. Quatro deles eram vinculados às Forças Armadas e o quinto era o Itamaraty, a quem cabia a tarefa mais ampla na captação de dados.

Informações. São informações de todos os tipos que estão preestabelecidas no documento e não deixam dúvidas de que o objetivo era descobrir segredos militares dos vizinhos. Entre as tarefas estão a coleta de informações sobre a estrutura geral dos ministérios militares; sua organização e funcionamento; composição de cada Força; comandos; efetivos e equipamentos; distribuição e ordem de batalha; serviço militar; forças terrestres, navais, aéreas e combinadas; zonas defendidas; bases e obras permanentes no interior e no litoral; estrutura de defesa antiaérea, instalações subterrâneas; organização logística de forças terrestre, naval e aérea; contingente demográfico em idade militar, criação de animais de guerra, população de equinos, material bélico e até atividades de guerrilheiros, entre muitos outros itens. Todas essas planilhas receberam a classificação de secretas pelo EMFA.

A periodicidade do envio dessas informações também estava definida no plano. A maioria deveria ser enviada anualmente, seguindo uma data fixada pelos militares. O levantamento sobre a organização das Forças Armadas dos vizinhos, por exemplo, deveria ser enviado todos os anos em abril, assim como os dados sobre instalações de defesa. Informações sobre logística militar tinham como prazo de entrega o mês de julho, mesmo prazo estipulado para envio de informações sobre movimentos guerrilheiros nos países observados.

Informações consideradas mais relevantes, como a de mobilização militar, deveriam ser repassadas para o governo brasileiro assim que fossem obtidas. Já se sabia que os diplomatas brasileiros, por instrução do governo militar, monitoravam as atividades de integrantes de grupos de esquerda no exterior durante a ditadura.

Monitoramento. Uma série de reportagens, publicada em 2007 pelo Correio Braziliense, mostrou que os adversários do regime militar eram acompanhados pela ação do Centro de Informações do Exterior (Ciex), que fazia parte da estrutura do Itamaraty. Por meio desse monitoramento, inúmeras prisões foram feitas.

Agora, os novos papéis do EMFA mostram que os militares brasileiros também se organizaram para usar a estrutura de trabalho dos adidos e dos diplomatas para recolher dados confidenciais que poderiam pesar a favor do Brasil no caso de um conflito com algum país vizinho.



quinta-feira, 23 de maio de 2013

Revolução bolivariana chega aos banheiros -- Venezuela importa papel higiênico

[Se vivo, Hugo Chávez certamente culparia os EUA pela situação e convocaria, com sucesso, o amigo NPA para fazer um comunicado conjunto contra a sabotagem americana nos banheiros venezuelanos. Vejamos a que ponto chegou, sob o comando do bufão Hugo Chávez por 14 anos, o país que no final de 2011 detinha as maiores reservas de petróleo da OPEP e do mundo (24,8% contra 22,1% da Arabia Saudita na OPEP). Vejam postagem anterior sobre a herança de Hugo Chávez. O texto abaixo é do jornal Valor Econômico de ontem. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

A Assembleia Nacional da Venezuela aprovou, na noite desta terça-feira, 21, a liberação de uma verba extra de 513 milhões de bolívares (R$ 166 milhões) para a importação imediata de produtos de higiene pessoal, em falta no país.   A Assembleia Nacional da Venezuela aprovou, na noite desta terça-feira, 21, a liberação de uma verba extra de 513 milhões de bolívares (R$ 166 milhões) para a importação imediata de produtos de higiene pessoal, em falta no país.  O dinheiro será transferido para a empresa Suministros Venezuelanos Industriales, expropriada durante o governo do presidente Hugo Chávez (1954-2013), que se encarregará de fazer a compra junto a empresas da Argentina, Brasil, China e Uruguai. Os produtos selecionados serão comprados de acordo com uma lista divulgada pelo Executivo.

Na relação apresentada pelos deputados, estão 39 milhões de rolos de papel higiênico, 50 milhões de pacotes de absorventes femininos, 3 milhões de tubos de pasta de dente, 10 milhões de sabonetes e 17 milhões de pacotes de fraldas descartáveis infantis e geriátricas. Durante os debates, o deputado José Ávila, aliado de Maduro, defendeu a versão do governo de que a falta de produtos foi causada por uma conspiração entre fabricantes e a oposição. "Nós afirmamos ao povo e denunciamos sistematicamente toda a estratégia que existe de monopólio, de especulação e a campanha de terror que espalharam para que o povo compre de forma compulsiva e nervosa", disse o deputado. [Tipo de argumentação que só merece papel higiênico como embalagem.]

Na semana passada, o ministro da Indústria do país, Ricardo Menéndez, anunciou a importação de 50 milhões de rolos de papel higiênico.

O novo símbolo da Revolução Bolivariana produzida por Hugo Chávez e mantida por seu sucessor.

Desabastecimento

A escassez de produtos básicos é atribuída pelo presidente Nicolás Maduro aos empresários que, segundo ele, estão aliados à oposição para desabastecer o país e gerar insatisfação popular. Para os chavistas, a situação poderia levar a um golpe militar para derrubar o governo. 

Desde o terceiro mandato de Chávez, em 2006, o país congelou preços e limitou a oferta de diversos produtos para tentar controlar a inflação, que é de cerca de 30% ao ano. A variação de preços e fornecimento manteve o índice em níveis elevados nos últimos anos.

Na semana passada, o governo aprovou medidas para aumentar a produção de alimentos, em setores como os hortifrutigranjeiros, açúcar e óleo de girassol. Ao mesmo tempo, aprovou um aumento de 20% para laticínios e carnes de frango e boi.

Outro ponto polêmico é a falta de farinha de milho, principal ingrediente da arepa, um tipo de  broa que é a base da alimentação dos venezuelanos. O governo de Maduro acusa a maior fabricante venezuelana do produto, a Alimentos Polar, e seu dono, Lorenzo Mendoza, de restringir a demanda para pressionar uma revolta.

[Detalhe adicional da situação crítica venezuelana: a falta de divisas e a centralização cambial na Venezuela empilharam de US$ 8 bilhões a US$ 9 bilhões de importações não pagas pelo país, das quais US$ 1,5 bilhão a exportadoras brasileiras. O comércio entre empresas dos dois países está praticamente parado e as transações com o governo do presidente Nicolás Maduro só são feitas com pagamento antecipado.]





segunda-feira, 6 de maio de 2013

É preciso subir o preço da democracia

[O texto traduzido abaixo é da autoria de Moisés Naím e foi publicado no dia 4 de maio na coluna El Observador Global do jornal espanhol El País. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. Trata-se de mais um libelo contra a política externa rasteira e chinfrim praticada pelo Brasil na América Latina nos dois governos do NPA, e mantida pela nossa doce e terna Dona Dilma. Esta não é a primeira vez que levamos uma carraspana de alguém de idioma espanhol por causa de nossa polítina externa: o ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda já chamou o Brasil de "anão diplomático".]

O preço pago pelos governos que violam as regras básicas da democracia vem caindo. Agora está demasiado barato e é preciso aumentá-lo urgentemente. É preciso haver mais riscos e mais custos para aqueles que atentam contra a liberdade.

O surpreendente é que, ao mesmo tempo em que a impunidade dos autocratas parece reinar, ainda há governos disfarçados de democratas que temem que o mundo descubra o que realmente ocorre entre seus bastidores. Há regimes autoritários que fazem esforços surpreendentes para manter a reputação, a "marca" da democracia. E organizam manobras arriscadas e caras para obter o "selo de qualidade" conferido pelo fato de ser "eleito pelo povo". Por que Vladimir Putin, por exemplo, monta uma encenação tão complicada de eleições, rotação de cargos com Dmitri Medvédev e todo tipo de gestos para se passar por um dirigente democrático? Poderia simplesmente declarar-se chefe de Estado, e continuar governando da maneira tão autoritária como a que vem adotando há mais de uma década. E o mesmo ocorre em muitos outros países. Do Marrocos à Argentina, do Irã ao Equador, de Angola à Venezuela muitos governos se tornaram prestidigitadores políticos habilidosos, que com uma mão distraem o mundo com eleições e outros rituais democráticos e com a outra fazem todo tipo de mutretas para concentrar poder, reprimir os opositores e silenciar seus críticos.

É claro que ainda restam alguns que são mais sinceros em seu autoritarismo: Coreia do Norte, Bielorrússia, Cuba, etc. Mas, são cada vez menos: o número de países não democráticos caiu de 69 em 1973 para 47 atualmente.

Assim, a boa notícia é que existe a oportunidade de pressionar os dirigentes pseudodemocráticos que solapam as liberdades em seus países; essa oportunidade está à mão para os governos e líderes de outras nações que queira aproveitá-la. A má notícia é que, ultimamente, muito poucos o fazem.

Um dos exemplos mais ilustrativos disso é o que ocorre na América Latina. Durante as cruentas ditaduras sofridas por muitos países latino-americanos nas décadas de setenta e oitenta, a Venezuela era a democracia que acolhia e protegia os líderes políticos perseguidos pelos regimes militares. Hoje em dia, muitos desses antigos refugiados voltaram aos seus países e ocupam altos cargos no governo, no parlamento ou em partidos políticos. Seu silêncio frente ao que ocorre na Venezuela é ensurdecedor.

A cruel indiferença do Brasil é talvez a que mais se destaca. Não se trata de que esse país se transforme no policial da democracia na região, ou de que intervenha arbitrariamente nos assuntos internos de seus vizinhos. Se trata de que, de vez em quando ... diga algo. Se trata de que sua política internacional reflita os valores de uma das maiores e mais vibrantes democracias do planeta. De que expresse publicamente sua opinião um país respeitado e influente. Um país cujos líderes atuais têm a autoridade moral de quem sofreu na própria carne as consequências de se opor a um regime que recorria à repressão e ao castigo como práticas habituais.

Os democratas do mundo, mas especialmente os da América Latina, observaram com surpresa e tristeza o estrondoso silêncio que Lula da Silva manteve durante seus oito anos como presidente frente às claras violações dos direitos humanos em Cuba, ou frente às violações mais dissimuladas da democracia perpetradas por Hugo Chávez na Venezuela, Rafael Correa no Equador ou Daniel Ortega na Nicarágua [o autor foi muito bonzinho em chamar de "dissimuladas" as violações de Chávez & curriola latino-americana]. Nem uma única palavra. Nunca uma observação crítica ...

A esperança era de que Dilma Rousseff fosse diferente. Mas, até agora não tem sido. O Brasil reconheceu imediatamente Nicolás Maduro como presidente, ainda que sabendo de que havia razões para duvidar de seu triunfo. Essas mesmas dúvidas fizeram com que o próprio Brasil estivesse entre os países que, dias depois, pressionasse a Venezuela para que os votos fossem auditados. Maduro aceitou uma nova recontagem. Mas as autoridades eleitorais a estão fazendo de uma maneira suspeitosamente inadequada. Um governo que está seguro de que ganhou não deve ter medo de contar os votos de maneira aberta e rigorosa. E um governo democrático não deve impedir que os deputados da oposição usem da palavra na Assembleia Nacional. E muito menos tolerar que os próprios deputados governistas os silenciem agredindo-os fisicamente, de maneira a mandá-los para o hospital.

Por favor, diga-nos presidente Dilma Rousseff: o que a Sra. pensa de tudo isso?

[O autor do artigo vai criar raízes de esperar pela resposta da nossa ex-guerrilheira. Nossa supersimpática e sempre sorridente Dona Dilma não tem o menor cacoete de estadista, também na política externa. Basta ver que manteve integralmente a estupidez, inventada pelo NPA, de ter duas cabeças respondendo pelas nossas relações exteriores: Antonio Patriota e Marco Aurélio Garcia. O primeiro tem personalidade, competência e autoridade diretamente proporcionais à sua mais que modesta estatura física, e a espinha dorsal cheia de dobradiças. O segundo, o Garcia, é um pretenso e verborrágico "intelectual" de esquerda, a quem cabe "coordenar" nossa política externa com a esquerda caviar e a esquerda jiló espalhadas mundo afora, mas com ênfase na ênfase na América Latina. Nossa posição em relação à Venezuela tem, na origem, as 10 impressões digitais dos membros inferiores de Marco Aurélio Garcia -- a elas somaram-se mais 20, até agora.]

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Um Maduro politicamente verde preside uma Venezuela dividida ao meio e gera apreensão no Brasil

[Durante os dois governos do NPA as relações Brasil-Venezuela viraram mais uma troca de gentilezas e favores entre dois amiguinhos demagogos, do que propriamente um relacionamento maduro entre países, e quem pagou e continua pagando a conta foi e é o Brasil.  Mudou nosso governo, mas não mudou esse compadrio. Nossa doce e supersimpática Dona Dilma submeteu-se  à tutela do NPA também nessa área da nossa política externa, e cometeu o desatino antidemocrático de forçar a expulsão temporária do Paraguai do Mercosul -- cujo Senado não admitia a entrada da Venezuela nesse mercado comum -- para permitir então a esse país essa admissão que lhe era negada. Jogada de moleque. Com os dois países (Paraguai e Venezuela) saindo de eleições presidenciais, o Brasil terá agora que preocupar-se com a reacomodação do Paraguai no Mercosul com um parceiro que não lhe agrada, e pajear de perto uma Venezuela em péssima situação econômica e politicamente dividida ao meio, presidida por um presidente que de maduro só tem o nome. Traduzo a seguir o artigo de Juan Arias publicado ontem no jornal espanhol El País. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

O Brasil tem consciência de seu peso no Mercosul e, em geral, no continente latino-americano. Talvez por isso se preocupe com a situação atual da Venezuela, um país com o qual mantém fortes laços econômicos e de amizade.

O governo Dilma estava preparado para as duas hipóteses de vitória na Venezuela, tanto a de Maduro como a de Capriles. É certo que Lula, por sua velha amizade com Hugo Chávez, havia enviado um vídeo de apoio à candidatura do chavista, mas também era certo que Capriles sempre afirmou que, se ganhasse a eleição, seguiria o "modelo brasileiro", que conjuga desenvolvimento econômico, políticas sociais fortes e respeito pelas instituições democráticas.

Qualquer dos dois candidatos que ganhasse limpamente as eleições cairia bem para o Brasil. Com o que não contavam nem Dilma nem sua diplomacia, é que a Venezuela fosse se dividir salomonicamente em duas metades, inclusive com fortes indícios de que o chavismo tenha roubado nas eleições contra seu adversário, dadas a pequena diferença de votos e as acusações de possíveis fraudes nas urnas.

Daí que, de alguma forma, Dilma -- que havia forçado por trás do contratempo imprevisto com o Paraguai [acho que aqui o excelente Juan Arias foi muito bonzinho com nossa ex-guerrilheira, chamando de "imprevista" a rasteira proposital e inominável que ela deu no Paraguai] a entrada da Venezuela no Mercosul -- hoje se vê de certa maneira imprensada contra a parede. E com um presidente no Paraguai que não lhe agrada. A presidente não pode deixar de reconhecer a vitória de Maduro, mas tampouco pode deixar de observar que o país venezuelano está gravemente dividido.

Em função disso, segundo escreve o sério e bem informado Clóvis Rossi no diário Folha de S. Paulo, Dilma estaria fazendo todo o possível para convencer Maduro a abrir um diálogo sincero com a oposição liderada por Capriles para, juntos, enfrentarem a grave situação econômica e de violência que o país atravessa. Ela o pediu pessoalmente a Maduro, ao mesmo tempo em que o aconselhou a aceitar a recontagem de cem por cento dos votos.

O Partido dos Trabalhadores (PT), mais próximo de Lula que de Dilma em suas alas radicais de esquerda, foi sempre próximo de Chávez, apesar de Lula atuar sempre como ponte e bombeiro frente às tiradas excessivamente autoritárias do caudilho, a quem chamava de irmão e a quem depois, ao ouvido, pedia moderação.

Dilma, realista, sabe que o futuro da Venezuela -- um país com o qual o Brasil não pode deixar de ir de mãos dadas -- é ainda incerto. Por isso, prefere insistir com Maduro por uma abertura de diálogo com a outra metade do país que talvez tivesse votado em Chávez estivesse ele vivo, mas que agora quer algo mais e melhor da herança que o caudilho lhe deixou, ainda que não lhe negue seu agradecimento sobretudo da parte dos mais pobres, que Chávez tratou de mimar e conquistar. 

De qualquer modo, não é difícil pensar que  a diplomacia brasileira, reconhecida sempre por suas posturas moderadas e de diálogo, acabe tendo um papel fundamental no desenvolvimento do futuro próximo da Venezuela pós-Chávez.

Ao final, tanto Dilma quanto Lula -- velho simpatizante de Chávez, ainda que não compartilhasse dos excessos de sua revolução bolivariana -- poderão acabar sendo uma carta importante na atual situação crítica da Venezuela.  A não ser que tanto o poder quanto a oposição venezuelanos acabem esticando tanto a corda, que se chegue a uma ruptura cujas consequências são imprevisíveis. São imprevisíveis até para o Brasil, o país que até agora tem mantido umas relações mais estreitas com a Venezuela e que conhecia, melhor que outros líderes políticos, o que ali se estava e se está jogando.


quinta-feira, 7 de março de 2013

Morre Hugo Chávez -- que herança deixou?

Na morte de Hugo Chávez, é de se lamentar o sofrimento que teve em sua dura luta contra o câncer. Do ponto de vista político, as opiniões se dividem -- uns o consideram um líder e estadista, outros o têm como um líder demagogo que deixa o país em péssimas condições financeiras, e sem qualquer projeto de sustentabilidade. Estou no segundo time.

Considero Chávez um fanfarrão mal-educado (grosseiro é o termo mais correto), de tiradas e posturas de efeito, que diminuiu a desigualdade social entre os venezuelanos na base do puro paternalismo e, em mais de uma década de poder, deixou o país sem qualquer projeto de sustentabilidade, com uma inflação entre as maiores da América do Sul (inflação ao consumidor fechou 2012 em 20,1%), desabastecido, sem parque industrial, com a economia extremamente dependente do petróleo e uma estrutura agrícola que não consegue abastecer o país. No comércio exterior, 96% das exportações vêm do petróleo e a alimentação depende em mais de 60% das importações, quando se considera bens finais e matéria prima. Na era Chávez o preço do barril de petróleo praticamente decuplicou (de US$ 9 para mais de US$ 100) -- a Venezuela tem as maiores reservas do mundo -- mas ele não aproveitou esse tremendo instrumento para tornar seu país estruturalmente sustentável.

Foi profundamente estatizante e intervencionista, e conseguiu deixar sua estatal do petróleo -- a PDVSA -- em péssimas condições econômico-financeiras, a ponto de não conseguir honrar seus compromissos com a Petrobras na construção da malfadada refinaria Abreu e Lima em Pernambuco. Censurou a mídia que ousou contrariá-lo e contradizê-lo. Tinha, publicamente, posturas ridículas, grosseiras e moleques -- como na ONU, ao discursar em seguida a Bush, reclamando do cheiro diabólico de enxofre que o presidente americano havia deixado na tribuna.

Era fanfarrão e bravateiro contra os EUA de público, mas nos bastidores se locupletava com os seguidos superavits na balança comercial com os americanos: US$ 38,8 bi em 2008, US$ 18,7 bi em 2009, US$ 22,05 bi em 2010, US$ 30,9 bi em 2011, US$ 21,09 bi em 2012.

O Brasil deu-se bem com a Venezuela na era Chávez, com o comércio entre os dois países passando de US$ 1,5 bi para US$ 6,0 bi. Este número significativo vira uma merreca quando comparado ao comércio Venezuela-EUA -- em 2012, isso atingiu US$ 56,3 bi ou seja, o demagogo Chávez negociou com o demônio americano praticamente 10 vezes mais que com o Brasil.  Nosso comércio com a Venezuela tem valor agregado e tem sido superavitário para nós, o que explica (mas não justifica) a quase subserviência nossa com o demagogo Chávez, a ponto de dar um golpe baixo no Paraguai para permitir o ingresso da Venezuela no Mercosul.

A morte de Chávez deixa órfãos na América do Sul e Central, como Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador e Daniel Ortega na Nicarágua, que certamente usarão seu cadáver para continuar pisoteando a democracia.

Apresento abaixo os números da Venezuela, antes e depois de Chávez -- é preciso ficar muito atento ao que está por trás dos gráficos em termos de sustentabilidade, por exemplo.


domingo, 9 de dezembro de 2012

Câncer reaparece e Chávez aponta vice como potencial sucessor

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, anunciou que regressará à Cuba neste domingo para realizar uma nova cirurgia para combater a reaparição do câncer e indicou seu vice-presidente, Nicolás Maduro, como sucessor do chavismo caso algo lhe aconteça e tenha que afastar-se do comando do país.

Essa é a primeira vez que Chávez admite que a gravidade de seu estado de saúde pode afastá-lo da Presidência.

Reeleito em outubro, o líder venezuelano desenhou um panorama pouco otimista, no qual incluiu a possibilidade de que ele não possar terminar o atual mandato e, inclusive, não assuma o novo mandato que começa em 10 de janeiro.  "Se, como diz a Constituição, ocorrer algo que me inabilite para continuar no comando da Presidência, seja para terminar os poucos dias restantes e, especialmente, para levar o novo período, (...) Nicolás Maduro deve concluir o período (presidencial)", disse Chávez, em cadeia nacional na noite do sábado.

Líder da "revolução bolivariana", visto como o único que garante a unidade dos diferentes grupos que apoiam o governo, Chávez pediu à população eleger a Nicolás Maduro como novo presidente caso ele não assuma o novo mandato e novas eleições tenham de ser convocadas.  "Minha opinião firme, plena como a lua cheia, irrevogável absoluta, total, é que nesse cenário que obrigaria a convocação de eleições presidenciais vocês o elejam como presidente", disse Chávez, acompanhado pelo núcleo central de seu gabinete e pelo presidente do Parlamento. Ao ouvir a indicação de Chávez, o semblante de Maduro foi de susto e ao mesmo tempo de consternação.

Emergência e piora -- A reaparição do câncer, com o qual Chávez batalha há mais de um ano, foi diagnosticada nesta semana durante novos exames realizados em Havana. De acordo com Chávez, a equipe médica disse que ele deveria ser operado de emergência ainda neste final de semana. Porém, ele insistiu em retornar à Venezuela para comunicar à população sobre seu estado de saúde. "Lamentavelmente, nessa revisão exaustiva surge a presença de células malignas na mesma área afetada", disse, ao afirmar que nesta ocasião a cirurgia é "absolutamente imprescindível".

Há poucos meses, durante a campanha eleitoral, Chávez chegou a afirmar que estava curado. No entanto, sua ausência pública logo após a reeleição chamou a atenção sobre uma possível piora em seu estado de saúde.

Chávez disse que realizou exames médicos antes de se candidatar à reeleição e que os resultados foram favoráveis. "Se tivesse surgido algum resultado negativo, tenham certeza que eu não teria inscrito e assumido a candidatura presidencial", afirmou. [Infelizmente, é difícil acreditar em Chávez.]

O anúncio gera uma reviravolta política no país. Essa será a quarta cirurgia que Chávez realiza para extirpar a doença e a segunda neste ano. "É um dia triste para nós(...) é mais uma lição", disse o presidente da Assembléia Nacional Diosdado Cabello em entrevista ao canal estatal. "Tenho esperança e fé de que ele vai sair dessa situação", afirmou.

Unidade -- Chávez disse que o vice-presidente "é um dos líderes jovens de maior capacidade para continuar [seu governo)" e "com sua mão firme, com seu olhar, com seu coração de homem do povo". Chanceler durante pouco mais de seis anos, Maduro assumiu a vice-presidência logo depois da reeleição de Chávez, substituindo Elias Jaua, atual candidato a governador do populoso e rico Estado de Miranda.

Na Venezuela, o vice é designado diretamente pelo presidente.  A ascensão de Maduro, projetado como o "homem forte" do governo, foi vista como um claro sinal de que ele seria o possível "herdeiro" do legado chavista, caso o estado de saúde de Chávez piorasse. Analistas consideram que Maduro reúne poder político inclusive entre os militares, aval imprenscindível para governar o país.

sábado, 22 de setembro de 2012

Quando Lula, o Nosso Pinóquio Acrobata, e o bizarro Hugo Chávez fazem conchavo, quem paga a conta é o Brasil

[Durante os governos de Lula, o Nosso Pinóquio Acrobata - NPA, as relações Brasil-Venezuela extrapolaram o que de comum e normal acontece entre países que se prezam, para virar simplesmente uma projeção de uma ação entre amiguinhos. O NPA, com sua visão míope e distorcida de democracia, tomou-se de amores pelo bizarro e esdrúxulo Hugo Chávez, resolveu paparicá-lo e defendê-lo a qualquer custo, e irresponsavelmente envolveu o Brasil e a Petrobras nessa aventura. Um dos piores efeitos estratégicos, econômicos e financeiros dessa leviandade é a "parceria" -- leia-se submissão -- da Petrobras com a estatal petrolífera venezuelana, a PDVSA, para a construção da refinaria Abreu e Lima (ou Refinaria do Nordeste - Renest), em Pernambuco

O artigo abaixo, de autoria de José Casado, publicado no Globo de hoje, revela mais detalhes de mais um gigantesco prejuízo imposto à Petrobras e ao país pela imprudência, insensatez, irreflexão, leviandade e negligência do NPA. Como o texto abaixo evidencia, mesmo que Dª Dilma quisesse -- o que muito dificilmente aconteceria, por conta de sua fidelidade extra-humana ao NPA e sua comprovada incompetência como gestora (vide o PAC) -- aquela refinaria está irremediavelmente dependente do bufão Hugo Chávez. Isso e outras cositas más explicam, sem justificar, porque o Brasil violou o tratado do Mercosul para isolar e agredir o Paraguai e, assim, permitir a entrada da Venezuela nesse mercado comum. O que estiver entre colchetes e em itálico no texto abaixo é de minha responsabilidade.]

Como o Brasil ficou refém de uma decisão de Hugo Chávez

José Casado - O Globo (22/9/2012)

Dentro de duas semanas a Venezuela decide quem vai comandar o país a partir de 2013. E o governo Dilma Rousseff descobrirá, então, com quem terá de negociar o impasse em torno de interesses do Brasil, cujo valor somado em contratos supera US$ 40 bilhões - metade num único empreendimento binacional no setor de petróleo.

Há dias discute-se em Brasília a conveniência de Dilma receber o candidato da oposição, Henrique Capriles. Aos lamentos de Chávez, o governo tem contraposto a interferência aberta de Lula e do PT em apoio ao presidente venezuelano.

Há muito tempo a relação entre Lula e Chávez ultrapassou os limites das afinidades pessoais e políticas, avançando para a fronteira dos negócios. Por exemplo: numa rápida visita a Caracas, no ano passado, Lula conseguiu de Chávez algo que até então parecia quase impossível a empreiteiros brasileiros: o desbloqueio de US$ 700 milhões em pagamentos pendentes.
Juntos, em 2005, eles construíram uma fantasia em torno de um empreendimento estratégico para o Brasil - a construção da primeira refinaria de petróleo da Petrobras depois de três décadas. Ela é essencial ao país, cujo consumo de derivados tem previsão de crescimento à média de 4% ao ano até 2020. Na luta pela reeleição, Lula usou a Petrobras para expandir sua base eleitoral no Nordeste. Anunciou a construção de três refinarias - em Pernambuco, no Ceará e no Maranhão. Saiu da eleição com 77% dos votos válidos nordestinos (20 milhões de eleitores garantiram-lhe 33% da votação nacional, algo sem precedentes). Chávez, no seu devaneio por reconhecimento como líder continental, usou a estatal PDVSA para se associar a Lula no projeto pernambucano.
Das três refinarias, só a de Pernambuco saiu do papel. Começou como um negócio de US$ 2 bilhões, o custo foi multiplicado por dez, a sócia venezuelana (a estatal PDVSA) hesita até hoje e o resultado é um buraco de mais de US$ 21 bilhões nas contas da Petrobras, segundo a estatal brasileira.

Nos últimos dias, a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, tentou explicar no Congresso o impasse. “Nós temos um erro básico”, disse a presidente da Petrobras no Senado [louvem-se a coragem e a franqueza dessa executiva ao explicitar publicamente que há um erro nessa barafunda]“Esse projeto”, continuou ela, “foi concebido para ser um projeto de dois ‘trens’ (no jargão do setor, duas linhas de produção): um de refino dedicado à PDVSA, com óleo mais pesado da PDVSA; um ‘trem’ dedicado ao refino do óleo mais leve da Petrobras. Esse projeto só faz sentido sendo um projeto binacional, Brasil-Venezuela".
Ela contou que perdeu a conta dos prazos dados ao governo Chávez para assinatura do contrato. Há registro de pelo menos dez, desde 2005. “O último prazo que eu negociei”, disse, “foi um prazo que vai até novembro.” E se o impasse persistir? “Se chegar novembro, e eles não apresentarem as garantias vou discutir um novo prazo”, respondeu. “Não quero que eles digam: ‘não, não vou’. Quero que eles digam: ‘sim, eu vou’. Eles precisam vir porque essa refinaria foi projetada pela Petrobras e pela PDVSA. Ela tem um custo por trabalhar com dois óleos. A PDVSA precisa vir para ser sócia, porque essa refinaria foi projetada para dois petróleos. Esse petróleo único é que vai otimizar todo o refino" [o relato da presidente da Petrobras retrata bem o tipo de parceiro desconfiável e inconveniente que o NPA nos arranjou e Dª Dilma colocou no Mercosul].

Reconhecida a sinceridade da presidente da Petrobras, restou à plateia de parlamentares uma certeza: o Brasil ficou refém da Venezuela.
Há um buraco de US$ 21 bilhões nas contas da Petrobras e predominam incertezas sobre o mercado brasileiro de derivados de petróleo, cujo futuro depende da Venezuela.








quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Depois da rasteira no Paraguai, Brasil diz agora que vai se "esforçar" para reintegrar o vizinho ao Mercosul

[Depois de se prestar a um papel deplorável, mesquinho e a médio e longo prazos absolutamente contrário aos nossos interesses -- principalmente quanto a Itaipu -- de "congelar" o Paraguai no Mercosul e, assim, tirar do cenário o único voto contrário ao ingresso da Venezuela nesse bloco, o Brasil agora ensaia uma de Madalena arrependida e fala em "se esforçar para reintegrar o Paraguai ao Mercosul". Além de tardia, essa posição brasileira é profundamente hipócrita, além de distorcer os fatos -- o Paraguai não saiu do Mercosul, ele foi "saído" do bloco numa jogada de baixo nível de envergonhar qualquer diplomacia que se preze.]

O Paraguai é "vizinho de primeira importância" para o Brasil e o governo brasileiro fará esforços para reintegrar o país ao Mercosul, disse nesta quarta-feira o ministro de Relações Exteriores, Antônio Patriota, que participa neste momento de audiência na comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados.  "Não existe mais tolerância ou aceitação de aventuras antidemocráticas na região. a democracia é o pressuposto do aprofundamento da integração", disse o ministro, ao relatar o processo de suspensão do Paraguai, por consenso entre os demais sócios do Mercosul e os países associados da União das Nações da América do Sul (Unasul), devido ao impeachment do ex-presidente Fernando Lugo.

O Paraguai ainda tem "centralidade" da política externa brasileira, pela sociedade em Itaipu, pelos 250 mil a 300 mil brasileiros que vivem no país e pelos laços econômicos bilaterais, argumentou Patriota. [Como se explica então o papel decisivo do Brasil para a rasteira sem-vergonha dada no Paraguai?!]

O ministro defendeu a decisão de incorporar a Venezuela como membro pleno do bloco, não só pelos interesses econômicos e comerciais, mas também pelo papel do país como potência energética, e pelo "potencial extraordinário" do vizinho. A entrada da Venezuela mostra que a influência do Mercosul não se limita à região Sul país e poderá beneficiar as regiões Amazônica, Norte e Nordeste, argumentou.

[...] Ele informou, ainda, que a entrada da Venezuela no bloco, decidida em junho, terá como consequência, ainda, a ampliação dos recursos destinados ao Fundo de Compensação Estrutural (Focem), hoje de US$ 100 milhões anuais, usado para financiar obras de infraestrutura e de redução das assimetrias entre as economias no Mercosul.

[O Itamaraty está, arriscadamente, dando uma de "sopra e morde" com o Paraguai. Depois de nos ferrar em verde e amarelo, alterando injustificada e subservientemente o Tratado de Itaipu para acolher mais uma chantagem dos paraguaios, o Itamaraty fez essa baixaria com o Paraguai no Mercosul. Nossos ilustres diplomatas deixaram prontinho o caldo de cultura para esses nossos vizinhos nos chantagearem com Itaipu, que será sempre uma pedra no nosso sapato.  Para entender melhor o pepino que é Itaipu, recomendo fortemente a leitura do artigo abaixo de Elio Gaspari, publicado no Globo em 15 de agosto passado. O Itamaraty não deve ter ficado nada satisfeito com a revelação de detalhes dos bastidores de Itaipu que vinham sendo mantidos sigilosos pelo nosso Ministério das Relações Exteriores.]

Itaipu é uma encrenca fabricada

Elio Gaspari - O Globo (15/8/2012)

As colinas de Golan envenenam as relações de Israel com a Síria e a Jordânia, mas foi o Padre Eterno quem as colocou lá. A hidrelétrica de Itaipu virou um espinho nas relações do Brasil com o Paraguai, mas foi produzida pela megalomania da ditadura militar. A velha história de “maior do mundo”, “Brasil grande”, “Ame-o ou deixe-o”.


Se os generais tivessem dado atenção ao embaixador Guimarães Rosa, que chefiava a divisão de fronteiras do Itamaraty, não teriam reconhecido que o Paraguai tinha soberania sobre a outra margem do Rio Paraná. Em 1966, ele sustentava que se criara uma disputa fronteiriça na qual a ditadura-irmã do general Alfredo Stroessner apresentava argumentações “desastradas, falseadas e declaradas sem pejo”.  Na sua mesa do Itamaraty, com uma cumbuca cheia de lápis de cor, Guimarães Rosa era capaz de mostrar exatamente onde ficaria a tão sonhada hidrelétrica, objeto do desejo dos paraguaios.

Se tivessem ouvido o engenheiro Octávio Marcondes Ferraz (1896-1990), presidente da Eletrobrás e construtor de Paulo Afonso, não teriam compartilhado a hidrelétrica com o Paraguai, nem afogado as cataratas de Sete Quedas. Ele defendia a construção de uma série de pequenas barragens dentro do território brasileiro. Partiu-se para a maior hidrelétrica do mundo. Uma metade da energia ficaria com o Brasil e a outra, com o Paraguai. Como ele não tinha o que fazer com ela, venderia sua parte para o Brasil.

Marcondes Ferraz bateu em todas as portas, nada. Brincava-se de geopolítica, acreditando-se que o tratado assinado por Stroessner seria eterno. Em 2006 o governo paraguaio forçou uma revisão marota do acordo. No ano seguinte o companheiro Fernando Lugo fez campanha defendendo um novo ajuste e ameaçou levar o Brasil à Corte de Haia. Acertou-se com Lula, mas o problema continuou do mesmo tamanho.

Depois da estudantada de julho da doutora Dilma, suspendendo o Paraguai do Mercosul para abraçar o companheiro Hugo Chávez, o presidente Federico Branco reabriu a questão. Fez isso em termos vagos dizendo que não pretende “ceder” a energia de seu país. Como ele não cede coisa alguma, pouco haveria a discutir.  Em vez de tratar a questão na suavidade das negociações diplomáticas, os companheiros partiram para cima. Trataram-no como um demagogo. Era o que ele queria, a mobilização política de seu país.

Atualmente o Paraguai só consome 8% da energia produzida por Itaipu. Cada quilowatt da hidrelétrica é essencial para a economia brasileira.

Do outro lado do Equador, há duas grandes nações de olho nessa energia barata. A China, porque precisa, já andou namorando projetos no Paraguai. Os Estados Unidos, porque finalmente ganharam uma oportunidade para colocar um pé no país.

Há quase 50 anos, Guimarães Rosa procurou, sem sucesso, apontar os perigos de um debate irracional. Se dependesse dele, talvez a hidrelétrica estivesse em outro lugar. Prevaleceram falsos argumentos geopolíticos, sonhos de marquetagem e a encrenca está aí.

Se a doutora Dilma tirar o Paraguai da agenda pública do seu governo, poderá negociar numa posição mais confortável do que aquela em que se meteram os militares.








terça-feira, 31 de julho de 2012

Me engana que eu gosto: Chávez quer estreitar os "laços energéticos" com Brasil e Argentina

A entrada da Venezuela no Mercosul, apadrinhada pelo Brasil e pela Argentina e criticada pelo Uruguai, da maneira como se deu é motivo de eterna vergonha para o bloco e para nossa diplomacia -- usamos vergonhosa e covardemente o Paraguai como boi de piranha e moeda de troca, com a mesmíssima velocidade supersônica que criticamos na deposição do presidente paraguaio. O Itamaraty voltou a usar sua visão mercantilista e mercenária para justificar o apoio à Venezuela: se podemos botar mais dinheiro na burra, p'ra quê perder tempo com a democracia e rituais do Mercosul?

O Mercosul já era um blefe sem a Venezuela, agora com Hugo Chávez virou uma deprimente ópera bufa. Saiu do palco Lula, o Nosso Pinóquio Acrobata (NPA), e entra o bufão Hugo Chávez -- se imaginarmos que à frente do bloco temos agora Dilma, Chávez e Cristina, com o Uruguai figurando à parte, fica patente que dessa troika dificilmente sairá algo que preste. 

Nesse domingo acompanhei um debate no Globonews Painel exatamente sobre a farsa que foi essa entrada da Venezuela no Mercosul. Os debatedores eram os embaixadores Rubens Barbosa (ex-embaixador nos EUA), Luiz Felipe Lampreia (ex-chanceler) e Antonio José Ferreira Simões, ex-embaixador em Caracas e atual subsecretário-geral da América do Sul no Itamaraty. Os dois primeiros são macacos velhos e vividos, sem dúvida questionáveis, mas muitíssimo mais experientes que o terceiro (que, por sinal, deu um show de incompetência e subserviência no debate). Com o embaixador Simões me reuni mais de uma vez, tanto em Brasília, quando chefiava o recém-criado Departamento de Energia do Itamaraty, e depois já na embaixada em Caracas. Fiquei espantadíssimo ao ver o cargo que hoje ocupa no MRE (Ministério das Relações Exteriores), repetindo a surpresa de quando o vi embaixador na Venezuela -- pelo jeito, a meritocracia não é mesmo o esporte predileto do Itamaraty ...

Além de se ter prestado ao triste papel de defensor do indefensável, Simões confirmou o que já tinha vivenciado nos encontros que tive com ele -- é absolutamente incapaz de qualquer sinal de coerência, é um espanto! Mas, suas intervenções canhestras permitiram vislumbrar detalhes nada recomendáveis e tranquilizadores da nossa política externa. Simões, por exemplo, informou que quando foi a Assunção para participar da deprimente pantomima da "consulta" às forças políticas paraguaia sobre o impeachment de Lugo, foi acompanhado não pelo nosso chanceler n° 1 (Antonio Patriota) mas pelo chanceler n° 2, Marco Aurélio Garcia, a figura bizarra escolhida pelo NPA para ser o "nosso" Richelieu ou Rasputin -- escrevo assim, bem reduzido, em respeito à inteligência e à memória dessas duas figuras históricas -- e mantido no cargo por Dª Dilma. Garcia é o guru esquerdista do PT, afagador e defensor de Chávez, Correa, Morales, e outros figuras exponencialmente negativas do cenário sul-americano -- todos, por sinal, tendo em comum o viés de volta e meia nos fazerem de gato e sapato, com o sorriso beneplácito e a aprovação de Garcia, e do Itamaraty (claro!).

Mal se abriram as cortinas do cabaré, e Chávez já deitou falação, começando por dizer que quer estreitar os "laços energéticos" com Brasil e Argentina, demonstrando mais uma vez a baixa estima que tem por nossa inteligência. Esse é o cara responsável pelo desmanche da estatal PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A.), empresa que há anos não consegue honrar seu compromisso de aportar a parcela que lhe cabe na construção da refinaria Abreu e Lima.  A novela dessa "parceria" nessa refinaria é a prova mais cabal e contundente da maneira frouxa e responsável de como os governos petistas defendem nossos interesses e nossa honra perante figuras da inexpressividade e da nocividade de um Hugo Chávez.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Mercosul, cada vez mais um saco de gatos

O Mercosul se confirma cada vez mais como uma bagunça, um saco de gatos, um tiroteio de um bando de cegos. O primeiro e principal contribuinte para esse fiasco é o Brasil, que não sabe liderar, tem medo de liderar, não tem política externa de Estado e sim de governo e de partido, é frouxo com seus vizinhos de uma maneira vergonhosa e, em assuntos externos, atua como um amador e aprendiz, substituindo a relação entre estadistas por um compadrio de baixo nível.

A operação casada para a entrada da Venezuela no Mercosul, usando-se o Paraguai como moeda de troca, é a mais recente demonstração inequívoca do estágio paleolítico daquilo que se afigura cada vez mais como um grupelho de amadores farristas do que uma associação entre países. A zorra é tamanha, que agora o Uruguai ameaça voltar atrás da decisão de admitir a Venezuela no bloco e acusa o Brasil (Dª Dilma) de tê-lo pressionado. O Brasil e a Argentina, que só se juntam em assuntos podres, responderam imediatamente que a proposta para entrada dos venezuelanos no Mercosul partiu do próprio Uruguai, via seu presidente José Mujica.

Até nesse detalhe de responder à acusação uruguaia o Brasil não se deu ao devido respeito -- pela Argentina se pronunciou, como de praxe e correto, sua chancelaria; pelo Brasil, falou nosso chanceler n° 2, Marco Aurélio Garcia, alcunhado de "assessor presidencial para assuntos internacionais", uma das inúmeras excrescências criadas por Lula, o Nosso Pinóquio Acrobata (NPA), encampadas pela nossa ex-guerrilheira. Nesse ínterim, nosso chanceler n° 1, ironicamente chamado Patriota, deve ter ficado ocupado com a lubrificação da dobradiça de sua coluna dorsal, hoje um prerrequisito indispensável para quem quiser ser ministro de Relações Exteriores do governo petista. Ritual à parte, Brasil e Argentina têm mais é que enfiar suas cabeças num buraco, como avestruzes que são em política externa, para se esconder do papelão que fizeram nesse imbróglio.

Quem deve estar se deliciando com essa ópera bufa, algo em que é especialista, é o bolivariano Hugo Chávez, chamego inconteste do NPA. A Venezuela só acrescenta quantidade ao Mercosul, em termos de qualidade só serve para reduzir ainda mais o baixíssimo nível do grupo.

Enquanto isso, no Uruguai a imprensa cai de borduna no governo por causa desse charivari da admissão da Venezuela, em que o chanceler uruguaio Luis Almagro aparentemente desacredita seu presidente Mujica e diz que foi contra o ingresso venezuelano no Mercosul.

Personalidade por personalidade, o melhor que o Brasil poderia fazer para manter seu "padrão" de política externa, era anistiar (coisa que sabemos fazer como poucos) Carlinhos Cachoeira e designá-lo como Alto-Representante Geral do Mercosul em substituição ao embaixador Samuel Pinheiro Guimarães (mais conhecido como Samuca no Itamaraty), que em boa hora deixou esse cargo e, com isso, melhorou bastante a assepsia dessa área do Mercosul. No mesmo ato de nomeação de Cachoeira seria atribuída ao tal Marco Aurélio Garcia a missão pioneira de plantar batatas e criar galinhas no alto do Pico da Bandeira.

sábado, 30 de junho de 2012

Quantos Itamaratys tem o Brasil?

Relembremos dois filmes que estão passando em nossas telas:

Filme 1 - Conflito armado na Síria -- Há cerca de ano e meio o governo do ditador sírio Bashar al-Assad vem massacrando seus opositores, a carnificina já contabiliza mais de 3.000 mortos, incluindo civis, mulheres e crianças. O Ocidente, através de seus principais países, defende sanções mais duras contra Assad que poderiam, no limite, levar a uma intervenção militar mais ou menos nos moldes do que se fez na Líbia. No Conselho de Segurança da ONU, China e Rússia são contra qualquer ação militar. Adivinhem quem mais é contra esse tipo de ação? Acertou quem disse Brasil. Para defender essa posição, o Itamaraty usa, p'ra não perder o costume, um arrazoado chocho, mesmo depois de a ONU ter caído no ridículo por insistir também nessa tecla e ser solenemente ignorada pelo regime sírio. Enquanto isso, continua o massacre promovido por Bashar al-Assad.

Filme 2 - Presidente do Paraguai é destituído pelo Congresso do país -- Numa arrancada de apenas uma sessão plenária, no melhor estilo Blitzkrieg, o congresso paraguaio aprovou o impeachment do presidente Fernando Lugo e empossou seu vice-presidente constitucional. O ritual pode ter sido sumário, mas cumpriu rigorosamente o que determina a Constituição paraguaia. Qual foi a reação do Brasil, via Itamaraty? Sanções diplomáticas imediatas contra o Paraguai, expulsando-o temporariamente do Mercosul e da Unasul, e ameaças de possíveis sanções econômicas de nossa parte.

Por que o mesmíssimo Itamaraty não adotou, com o Paraguai, a mesma insistente posição de diálogo que há mais de ano assumiu com relação à Síria? Por que um vizinho fronteiriço com o qual temos relações estreitas e conturbadas -- principalmente por causa de Itaipu -- merece a borduna em vez do papo, e a Síria não? Que diplomacia é essa?! Resolvemos dar uma de Golias raivoso contra um Davi vizinho, em vingança contra reiteradas chantagens que os paraguaios nos têm feito ao longo dos tempos?  Por que o Itamaraty não deu o mesmo tratamento à Síria -- falta de coragem? Ou, além disso, foi outra daquelas pirracinhas juvenis, no caso sírio, de assumir mais uma vez posição contrária aos EUA?

O Itamaraty tem sido reiteradamente frouxo com nossos vizinhos sul-americanos,  fronteiriços ou não, que vivem nos fazendo de palhaços e saco de pancada, inclusive o Paraguai, que transformou Itaipu numa inesgotável fonte de chantagens e receita extra, contra os nossos interesses. E aí, de repente, resolve dar uma de "durão" com os nossos "hermanos" paraguaios -- qual é a jogada da nossa diplomacia camaleônica? Por que o soft power com a Síria e o hard power contra o Paraguai?


Cercado de alguns péssimos espécimes de governos da região, como Hugo Chávez, Evo Morales e Cristina Kirchner, o Brasil dá uma de líder de araque e comete ao menos duas contradições: se nega a dar ao novo governo paraguaio o mesmo direito amplo de defesa que reclama ter sido negado a Fernando Lugo; -- aproveita a suspensão temporária do Paraguai para, açodada e injustificavelmente, apoiar e promover a admissão plena da Venezuela no Mercosul, impedida até então pela oposição do Paraguai a essa admissão.

Nos moldes em que se deu, a entrada da Venezuela no Mercosul como seu membro pleno é uma vergonha para essa "instituição" e desclassifica de vez o Brasil e sua diplomacia como lideranças que mereçam qualquer respeito -- e avacalha de vez com o Mercosul.  A barganha ficou tão indecorosa -- suspende-se o Paraguai por dez meses e, rapidinho, admite-se a Venezuela -- que ficou parecendo armação de adolescentes, mantendo como refém um dos donos da casa enquanto facilitam a entrada do Ricardão nos seus aposentos ...

Em 10 de fevereiro de 2012 o Itamaraty comemorou o centenário da morte de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, patrono da nossa diplomacia. Quatro meses depois, ele enxovalha o nome de seu paradigma com essa operação casada no Mercosul, uma autêntica jogada de mafiosos.

PS - Respondendo, em parte, a pergunta-título da postagem, digo que é difícil saber quantos Itamaratys temos no país, pois  essa é uma equação de no mínimo duas variáveis: o humor da nossa ex-guerrilheira, Dª Dilma, e a flexibilidade da coluna dorsal do chanceler da vez. Mas, uma coisa é certa e simples: desde o governo de Lula, o Nosso Pinóquio Acrobata (NPA), o Brasil tem tido dois chanceleres, caso único no mundo: o de punhos de renda (hoje chamado Patriota, por uma fantástica ironia do destino) e um Sr. Marco Aurélio Garcia, que em países e governos mais sérios seria no máximo segurança de cabaré mas, no Brasil, por obra e graça do NPA e do PT, virou chanceler n° 2.