sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Capas de revista inglesa sintetizam o estrago que o governo petista fez na economia e na imagem do país

[As duas capas abaixo da prestigiosa revista inglesa The Economist, a da esquerda de 12 de novembro de 2009 e a da direita de 28 de setembro de 2013 (o exemplar que foi agora para as bancas) mostram com singelo poder de síntese o enorme estrago que o governo petista -- com destaque disparado para a NPS (Nosso Pinóquio de Saias, Dilma) -- fez na economia e na imagem do país em apenas quatro anos. Três dos principais jornais do país -- O Estadão, a Folha de S. Paulo e O Globo -- deram repercussão à reportagem da The Economist que acaba de chegar às bancas. Como as abordagens dos três jornais são muito semelhantes, me fixarei na da Folha de S. Paulo. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Capas da revista 'The Economist' em 2009 e em outubro de 2013. Enquanto antes dizia que Brasil iria decolar, sentimento hoje é de pessimismo. - (Foto: Reprodução - Fonte: Folha de S. Paulo).

Se em 2009 a revista britânica "The Economist" sinalizava que a economia brasileira estava pronta para decolar, hoje o sentimento é de pessimismo. Naquele ano, a revista trazia na capa o Cristo Redentor na forma de um foguete, prestes a levantar voo, com o título "Brasil takes off" ("Brasil decola", em tradução livre). A nova edição, de outubro, e que deve ser publicada nesta quinta-feira (26), também mostra o Cristo, mas, desta vez, em trajetória de queda. A reportagem de capa, de 14 páginas, questiona "Has Brazil blown it?" ("O Brasil estragou tudo?", em tradução livre). 

Não é a primeira vez que a revista critica a economia brasileira.  Em junho, chamou de medíocre o desempenho da país desde 2011 e pediu, em tom irônico, para o ministro Guido Mantega permanecer no cargo. Em reportagem anterior, havia pedido sua saída. [Quando, na reportagem de 2009, a The Economist sugeriu a demissão de Mantega, a reação da NPS foi "Só quero me manifestar que em hipótese alguma o governo brasileiro eleito pelo voto direto vai ser influenciado pela opinião de uma revista que não seja brasileira" -- fiz então um apelo à Playboy, Turma da Mônica, Meu Nenê, Caras, Contigo, Vogue, etc, que solicitassem a demissão de Mantega. Ver essa postagem. Daí a ironia da reportagem de agora da revista inglesa, pedindo a permanência de Mantega na expectativa de que a NPS, por pirraça, o demita.]

Desde 2012 a publicação britânica já vem adotando tom mais cauteloso quando o assunto é o Brasil. As matérias dedicadas ao país chamam a atenção, entre outros fatos, a riscos políticos, elevados custos para fazer negócio e protecionismo no petróleo, o que afastaria investidores externos. 

Críticas

A matéria contrasta dois momentos bastantes discrepantes da economia brasileira. Primeiro, quando sinalizava um futuro bastante promissor ao registrar crescimento de 7,5% em 2010, o melhor desempenho em um quarto de século. Para aumentar a magia, o Brasil foi premiado tanto com a Copa do Mundo (2014) quando com as Olimpíadas (2016), diz a matéria. 

De 2010 para cá, porém, o que se viu foi um tranco. Em 2012, a economia cresceu 0,9%, bem abaixo do que foi visto em 2010. Além disso, em junho de 2013 milhares de pessoas foram às ruas para protestar do alto custo de vida, da má qualidade dos serviços públicos e da corrupção. Segundo a matéria, muitos já perderam a esperança de que o país decolou e que o crescimento passado foi apenas outro "voo de galinha" -- expressão usada para designar surtos econômicos de curta duração [ver postagem anterior]. 
Ainda segundo a reportagem, o Brasil fez poucas reformas durante os anos de boom econômico. Diz que o setor público brasileiro impõe um fardo particularmente pesado no setor privado.  A "Economist" ressalta que as empresas enfrentam o sistema tributário mais pesado do mundo, com impostos que chegam a 58% sobre a folha de pagamento e que o governo tem suas prioridades de gastos incoerentes. 

Infraestrutura

Quanto à infraestrutura nacional, diz que é ruim e o investimento, muito pequeno. "Gasta-se 1,5% do PIB em infraestrutura, contra uma média global de 3,8%", afirma a reportagem [ver postagem anterior]. 

Para a revista, os problemas do Brasil vêm se acumulando ao longo das gerações, e a presidente Dilma tem sido relutante ou incapaz de enfrentá-los, o que criou novos problemas justamente por interferir na economia -- mais do que o ex-presidente Lula."Ela assustou investidores estrangeiros em projetos de infraestrura", avalia [ver postagem anterior]. [A expressão exata e completa da revista foi: "Ela assustou investidores, afastando-os de projetos de infraestrutura, e solapou a reputação duramente conseguida pelo Brasil de retidão/integridade em macroeconomia ao pressionar publicamente, de maneira irritante e importuna, o presidente do Banco Central para reduxir as taxas de juros. Como consequência, essas taxas estão tendo que subir mais rapidamente do que poderiam fazê-lo de outra maneira, para conter a inflação que persiste. Em vez de admitir que falhou em suas metas fiscais, o governo recorreu a uma contabilidade criativa. A dívida pública bruta aumentou para 60-70% do PIB, dependendendo da definição -- e os mercados não confiam na Sra. Rousseff". -- A respeito da contabilidade "criativa" do governo da NPS, ver postagem anterior "O salão de beleza de Dona Dilma continua maquiando índices".]

"Dilma Fernández"

Para o Brasil se recuperar, precisa de reforma, diz a revista, sobretudo no que diz respeito aos impostos.  Destaca ainda que os impostos representam 36% do PIB, a maior proporção entre os emergentes, mas ao lado da Argentina. Nesse contexto, a matéria ironiza ao chamar a presidente de "Dilma Fernández", fazendo uma referência à presidente da Argentina Cristina Fernández Kirchner.

Também criticou o setor previdenciário brasileiro. Embora seja um país jovem, o Brasil gasta uma grande parcela da sua renda nacional com aposentadorias e pensões.  "O governo precisa remodelar o gasto público, especialmente pensões", afirma. [A revista comenta que nosso sistema de aposentadorias é "absurdamente generoso", afirmando que o brasileiro médio tem a expectativa de receber 70% de seu salário final aos 54 anos. Segundo a The Economist, o Brasil gasta com pensões uma parcela da receita nacional tão grande quanto a despendida pelos países do sul da Europa, onde a população de idosos é três vezes maior que a brasileira.]

[A reportagem da The Economist certamente provocou um derrame de bílis tsunâmico na NPS e, além de seus subordinados diretos, o país sofrerá com mais um destempero da nossa Dama de Ferrugem, que preferencialmente nos governa com o seu fígado.

É preciso registrar que apenas o Estadão reproduziu no final de sua reportagem o comentário elogioso da The Economist sobre certos aspectos positivos da economia brasileira: “Felizmente, o Brasil tem grandes vantagens. Graças aos seus agricultores e empresários eficientes, o País é o terceiro maior exportador de alimentos do mundo”, diz o texto, lembrando que o País será um grande exportador de petróleo até 2020. The Economist elogia, ainda, a pesquisa em biotecnologia, ciência genética e tecnologia de gás e petróleo em águas profundas. Além disso, a revista lembra que, apesar dos protestos populares, o Brasil “não tem divisões sociais ou étnicas que mancham outras economias emergentes, como a Índia e a Turquia”.

Logo após ter falado na Assembleia-Geral da ONU, onde repetiu seu mantra contra a espionagem da NSA no Brasil, a NPS se reuniu em Nova Iorque com empresários e investidores estrangeiros em seminário sobre infraestrutura no Brasil, promovido pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação em parceria com o Jornal Metro e o banco Goldman Sachs. Com a cara de pau de sempre (a NPS é a maior consumidor individual de óleo de peroba do país, usando-o de manhã e à noite para lustrar e hidratar a pele do rosto) e sua sobejamente comprovada compulsão para mentir, ela "tentou atrair nesta quarta-feira (25) investidores internacionais para oportunidades de infraestrutura no País afirmando que o Brasil tem a tradição de cumprir contratos, programa claro e definido de concessões e vem criando as condições para formar uma mão de obra qualificada para suprir a demanda".

Em plena era da comunicação global, em que as notícias e as informações se propagam e se divulgam em tempo real, a NPS continua achando que a Terra é um planeta de ingênuos e idiotas -- tais como seus parceiros políticos e seus eleitores -- que não sabem do que se passa e acontece no Brasil sob seu governo. Insegurança jurídica e descaso com a educação (com a saúde pública, com o saneamento público, com o transporte público, com o transporte aéreo, com as rodovias, com as ferrovias, com o sistema aquaviário, com o sistema elétrico, o ioiô das concorrências e licitações públicas, o escambau a quatro) são marcas registradas de sua administração. E essa madame ainda se presta a esse papel ridículo, idiota, e deprimente para o país de mentir descaradamente para investidores estrangeiros.

A NPS (Nosso Pinóquio de Saias, Dilma) mentindo ao vivo e em cores a investidores estrangeiros em Nova Iorque. No telão está "The Brazil Infraestructure Opportunity". - (Foto: Leda Balbino/iG São Paulo).]



quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Técnica sustentável devolve a fertilidade do solo na Região Serrana do Rio de Janeiro

Método da Embrapa aumenta produtividade e protege contra a erosão após chuvas da tragédia de 2011.

Em se plantando, tudo dá, diz uma das mais antigas máximas brasileiras. Mas, depois da tragédia que se abateu sobre a Região Serrana em 2011, ela deixou de fazer sentido. Lavada pelas chuvas, a terra da região ficou tão pobre que se parece com areia. Os agricultores se viram impotentes diante do fracasso das técnicas tradicionais. A produção despencou para 40% do que era antes da tragédia. Após sofrer perdas de cerca de R$ 300 milhões, a região e seus 19 mil produtores não podiam voltar à atividade normal.

"Faz dois anos que estou tentando produzir - conta Carlos Vidal, um dos pequenos agricultores cuja produção caiu a menos da metade. - Comecei a plantar e não sobrava nada. Eu empatava na Ceasa, quando muito. A receita e a despesa eram as mesmas". 

Origem de praticamente todas as hortaliças vendidas no estado do Rio, a Região Serrana influencia diretamente os preços nos supermercados - tanto que os valores dobraram naquele triste janeiro. Mas um grupo de pesquisadores da Embrapa está a caminho de tornar a agricultura ali menos vulnerável a chuvas. Produtores que aplicam as técnicas desenvolvidas pela empresa pública já veem a areia virar barro e a produtividade de suas terras quase dobrar. "Vimos que o solo estava rico em nutrientes, mas faltava fertilidade física e biológica. Isso não se consegue com adubo mineral", explica Adriana Maria de Aquino, pesquisadora da Embrapa Agrobiologia.

As técnicas propostas envolvem o plantio direto, sem revolvimento da terra, e o adubo verde, que protege o solo das intempéries. Em março deste ano, com a terra ainda vulnerável, chuvas causaram a perda de mais de 200 toneladas de alimentos na região, provando que algo precisa ser feito. Só que a nova técnica demanda mais mão de obra e, portanto, algum trabalho de convencimento. Afinal, aqueles que tudo sabiam sobre a terra viram-se subitamente desgovernados. E é difícil desacreditar velhos ditados.

A camada mais fértil da terra é justamente a mais próxima da superfície. Por isso, a violência das chuvas, que provocou a queda de barreiras e desviou os cursos de rios, levou a fertilidade. Restou uma areia improdutiva, com a qual os agricultores não souberam lidar. Eles fizeram o de sempre: limparam a terra e a adubaram, mas o velho método não funcionava mais. "Demorou uns três meses para começar a plantar de novo. Aí, fiz meu trabalho de sempre, mas pouca coisa cresceu", conta Antônio Cesar Vidalino, o Cicinho. 

Com a ajuda do Embrapa, Cicinho começou a plantar aveia-preta em uma das encostas de sua propriedade, onde planeja cultivar couve-flor. A ideia é formar uma cobertura vegetal morta na superfície, como uma palhada. Com isso, a água da chuva, por exemplo, precisa passar por uma barreira até chegar ao solo, tornando-se menos agressiva, mas cumprindo seu papel de irrigar. As raízes da aveia, de cerca de 20 centímetros, ajudam a fortalecer o solo, formando uma teia e impedem que, com a chuva, ele escorra. Essa é uma das técnicas do sistema proposto pela Embrapa. 

Vida nova: Cicinho e sua plantação de aveia-preta, que se tornará adubo -(Foto: Mônica Imbuzeiro/O Globo)


Hoje, o sistema já está em uso nas propriedades de mais de 50 agricultores de Nova Friburgo, o núcleo onde está o maior esforço da Embrapa. Em algumas, os resultados já podem ser vistos, com aumento da produtividade. Em outras, o trabalho está apenas começando e pode demorar até dois anos até que o solo se recupere totalmente. 

A adesão dos agricultores não é obra apenas dos pesquisadores da instituição pública, mas também de multiplicadores. Ou seja, produtores sensibilizados que buscam convencer seus pares a também aderirem ao novo método. A mais ativa deles é Margarete Satsumi Tiba Ferreira, moradora há mais de dez anos do lugarejo de Fazenda Rio Grande, em Nova Friburgo. 

Antes da tragédia, Margarete era uma bióloga dona de casa, que ajudava o marido, Lyndon Johnson Ferreira, na fazenda. Uma manhã, enquanto vendia nirá numa feira, conheceu a pesquisadora Adriana de Aquino, da Embrapa. Foi Adriana quem, depois da tragédia, percebeu o potencial de Margarete. Dali surgiu uma parceria em busca de mudanças profundas na forma de plantio da região. Margarete se tornou aluna de Adriana no mestrado Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e presidente da Associação dos Pequenos Produtores de Rio Grande. 


No sítio Hikari, de Margarete e Johnson, as técnicas da Embrapa já rendem frutos. Depois de enfrentarem perdas de mais de R$ 100 mil, a produtividade da terra, que antes era de cerca de 60%, foi a quase 100%. Ou seja, menos plantas ficaram doentes porque cresceram em solos mais ricos em nutrientes. Nos trechos onde a técnica ainda não foi aplicada, o solo é tão claro e poeirento que mais parece areia. "A técnica ajuda na infiltração da água, previne a erosão", conta Margarete. "Também percebemos que a água está mais limpa, porque a terra fica retida na raiz das plantas e não escorre com os resíduos do solo. Uma chuva que antes causava erosão e perda do solo, hoje já não prejudica tanto".

Na sua terra, Margarete também cultiva um capim asiático chamado vetiver. Com 6 ou 8 metros de raiz, o capim ajuda a evitar a erosão e a conter encostas - tanto que já foi recomendado pelas Nações Unidas em alguns programas. Na parte em que o vetiver não foi plantado na fazenda de Margarete, é possível ver ainda as cicatrizes de erosões.

O projeto implantado com a ajuda de Margarete e Adriana é uma parceria com o programa Rio Rural, da Secretaria estadual de Agricultura e Pecuária. O objetivo é fazer a ponte entre pesquisadores e agricultores, em busca da implantação de técnicas sustentáveis. Financiado pelo Banco Mundial, de onde devem vir R$ 100 milhões nos próximos quatro anos, o programa existia antes da tragédia, mas apenas na região Noroeste do estado, mais pobre. Após as chuvas, tornou-se o Rio Rural emergencial, que distribuiu recursos a agricultores que haviam perdido tudo. 

A especulação é inevitável. Há quem acredite que, se o programa tivesse sido implantado depressa, as perdas teriam sido menores. As chuvas foram violentíssimas, mas o assoreamento dos rios, por exemplo, uma das consequências do uso não sustentável da terra, ajudou a agravar o desastre. Ao ser perguntado se o programa poderia ter minimizado os danos, Alexandre Teixeira, supervisor da Emater, empresa pública responsável pela assistência técnica e extensão rural no estado do Rio, relativiza: "Sim, mas pouco", opina. "Praticamente, não há como quantificar. Havia áreas cobertas de mata que caíram. Mas, com certeza, com a conservação do solo e da água, o assoreamento é bem menor. Se houver outras chuvas assim, a perda será inferior". 

Dentre muitas outras mazelas, a tragédia de janeiro de 2011 evidenciou que a Região Serrana nunca contou com políticas públicas para que seus agricultores aprendessem a cultivar em ambiente montanhoso de forma sustentável. Segundo pesquisadores, as técnicas passadas de pai para filho por gerações de produtores rurais não são adequadas para a região. "As pessoas aprendem que a terra tem que ser toda limpa. Não estão acostumadas a deixar uma cobertura vegetal, que tem uma aparência feia", pontua Margarete Satsumi, mestre em agricultura orgânica e produtora rural em Nova Friburgo.

O plantio sobre a palhada, como ensina a nova técnica da Embrapa, não aparenta ser trabalho de um agricultor metódico. Um dos canteiros de Margarete está coberto com uma mistura de esterco e palha - esteticamente desastroso. O objetivo é exatamente cobrir o solo e impedir que a terra perca seus nutrientes. Capinar e revolver a terra, como faz a maioria dos produtores, não é ideal para regiões montanhosas. Deixa o solo sem proteção superficial e, com o tempo, permite que ele se compacte e perca fertilidade.

Mas o tipo de plantio indicado pela Embrapa exige mais mão de obra, por não ser possível simplesmente usar um trator. A princípio, um preparo da terra também pode custar mais tempo, algo que muitos agricultores não têm para dar. Antônio Cesar, o Cicinho, é um deles. Fez o plantio da aveia-preta, indicada pela Embrapa, em apenas um trecho de sua propriedade. "Se fizer agora, vai me atrapalhar", diz.

Segundo o engenheiro agrônomo João Araújo, professor da Universidade Federal Rural do Rio (UFRRJ), o estado tem um dos terrenos mais acidentados do Brasil para a agricultura. A Região Serrana está na Serra do Mar, onde as montanhas podem atingir até 2.310 metros acima do nível do mar.  "É necessário o desenvolvimento de uma tecnologia para plantio nessas áreas montanhosas com bacias hidrográficas. Nessa região de montanha, teremos mais precipitação. Isso é um desafio, porque há chuvas pesadas com frequência", argumenta Araújo.

O uso das técnicas da Embrapa, como o plantio da aveia preta e do capim asiático vetiver, com raízes longas, parece surtir efeito para evitar deslizamentos. Em uma das propriedades, é possível perceber que, na metade onde se plantou a aveia preta, a barragem está firme, mas na outra, quando chove, a terra ainda escorre, obstruindo a estrada. Assim, o convencimento dos agricultores não é importante apenas para otimizar a produtividade da terra, mas também para impedir que deslizamentos bloqueiem as estradas usadas para escoar a produção. Este foi um dos principais motivos do desabastecimento de hortaliças na capital na época da tragédia. "No dia 15 de julho, viemos aqui e não conseguimos passar de carro neste trecho", diz Adriana de Aquino, da Embrapa, apontando para uma estradinha na base de um morro.

O assoreamento dos rios é outra preocupação. Quando chove forte, um rio assoreado não é capaz de manter a água em seu curso e acaba se desviando. Foi o que aconteceu na terra de um dos agricultores contemplados pelo programa da Embrapa, Carlos Vidal. Do dia para a noite, havia um rio inteiro no meio de sua lavoura. A limpeza da terra, para retornar ao cultivo, custou-lhe mais de seis meses.


Pesquisadores reclamam que é difícil levar aos agricultores as tecnologias estudadas por eles quando o ensino de técnicas menos sustentáveis é tão difundido nos locais frequentados pelos produtores, como a própria Ceasa, onde se compram os insumos usados na terra. Araújo ressalta a grande diversidade de ambientes agrícolas no país, o que implicaria técnicas específicas para cada um deles - e também potencialmente mais caras: "A conservação dos recursos naturais tem um preço, e nem sempre o imediatismo da atividade agrícola econômica ajuda a pagá-lo", diz Araújo, ressaltando que as práticas conservacionistas podem, no entanto, trazer ganhos de produtividade e menos gastos com insumos agrícolas.

Para o agrônomo, as políticas públicas para a região não atendem às necessidades dos 19 mil agricultores da Região Serrana. Alexandre Teixeira, da Emater-Rio, discorda. "Não temos capacidade de atender a cada um individualmente. Temos como pegar alguns produtores e instituir um plantio desses, acompanhando tecnicamente. Eles serão multiplicadores. Esse processo é longo".

Mas Araújo e Teixeira concordam em um ponto: práticas mais sustentáveis tem de ser consideradas, assim como o reassentamento de moradores de áreas de risco, como uma estratégia para a prevenção de desastres. Como se vê, ano após ano, os investimentos não acompanham o passo das necessidades. Exemplo é a escola municipal João Alves de Macedo, onde estudam muitos dos filhos dos agricultores de Rio Grande, lugarejo onde as técnicas da Embrapa são aplicadas. Desde a tragédia, as 70 crianças já estudaram em uma estufa e hoje assistem às aulas em uma casa improvisada, cedida por um pequeno produtor da região. A prefeitura de Nova Friburgo disse já ter planos para a escola, mas não soube informar o prazo para sua reabertura. Uma espera que parece não ter fim.

(Manuela Andreoni/O Globo)



Veja também:
Desastre natural é empecilho ao desenvolvimento do Brasil




 




 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

FBI divulga vídeo com cenas do assassino psicopata que invadiu instalações da Marinha em Washington

O FBI divulgou um vídeo com cenas do psicopata Aaron Alexis que, no dia 16/9, entrou no complexo da Marinha em Sudeste Washington (o Sudeste é um dos quatro quadrantes em que está dividida a capital americana) e, munido de uma espingarda de caça e uma pistola, matou 12 pessoas, feriu outras quatro e acabou morto por agentes de segurança. Esse cidadão tinha permissão de acesso àquelas instalações porque era um contratado da Marinha americana.

Esse é mais um trágico resultado do livre acesso dos americanos (sãos e malucos) a armas de fogo, e da paranoia reinante desde sempre nos EUA em nome de um estúpido direito de autodefesa que está garantido na Constituição do país.  Os americanos bisbilhotam a vida de Deus e o mundo, mas são incapazes de detectar que há malucos sob contrato do governo com porte de arma.




 

Ives Gandra sai da hibernação e diz que José Dirceu foi condenado sem provas

Em 1944, o humorista americano E. B. White (1899-1985) escreveu que "democracia é a suspeita recorrente de que mais da metade das pessoas está certa mais que a metade do tempo". Em 1913, os dramaturgos franceses Robert de Flers (1872-1927) e Arman de Caillavet (1869-1915) em sua peça "L'habit vert" (O fraque verde) disseram que "democracia é o nome que damos às pessoas sempre que precisamos delas". E Winston Churchill (1874-1965), em discurso na Câmara dos Comuns em 11 de novembro de 1947, disse que "democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as outras formas que têm sido tentadas de tempos em tempos".

Nossa democracia é meio que uma salada mal feita disso tudo e algo mais. Um regime que se diz democrático e comporta 32 partidos políticos (com os dois agora aprovados pelo TSE), tem um Congresso presidido por Renan Calheiros, uma Câmara de Deputados presidida por Henrique Eduardo Alves, tem um governo com 39 ministros, uma presidente que cacareja raivosa contra o Tio Sam mas abriga sob suas asas partidos e políticos de reputação capenga e malcheirosa para não perder a base eleitoral para 2014, mesmo com casos de corrupção pipocando por todo lado, e tem um Judiciário paquidérmico, míope e vesgo que abriga Lewandowskis e Toffolis em seu tribunal máximo e que nele não consegue, em um ano, sequer vislumbrar se o que está fazendo é certo ou errado, é uma democracia que deve ter sido parida nas Ilhas Galápagos tal sua esquisitice.

Para aumentar nossa perplexidade e nossa descrença na Justiça tupiniquim, surge agora o jurista Ives Gandra declarando em entrevista publicada na Folha de S. Paulo de 22/9 que "José Dirceu foi condenado sem provas"!

Segundo Gandra, "o ex-ministro José Dirceu foi condenado sem provas. A teoria do domínio do fato foi adotada de forma inédita pelo STF (Supremo Tribunal Federal) para condená-lo. Sua adoção traz uma insegurança jurídica "monumental": a partir de agora, mesmo um inocente pode ser condenado com base apenas em presunções e indícios". Esse cidadão Gandra é mais um membro do Judiciário contaminado e paralizado pela tal da "inércia da Justiça". Leva um ano achando que o circo está pegando fogo, mas não diz nada porque não está lá nem tem gente sua sob risco. É o justiceiro cavalgando uma lesma. É o bombeiro que finge querer apagar o fogo, mas liga a mangueira na bomba de gasolina e fica a um ano de distância do fogaréu.

Aí, chega hoje, o mesmo Dr. Gandra manda uma carta à mesma Folha de S. Paulo para "esclarecimentos", tendo em vista as manifestações de crítica e apoio que recebeu pela entrevista do dia 22.

Já que estamos numa democracia sui generis, o Dr. Gandra devia ir plantar hortaliças. À lista de características especiais da nossa democracia apresentada mais acima, falta acrescentar a existência de sabichões e especialistas de alto e baixo coturno, tipo Ives Gandra et caterva, que são lerdos e seletivos em se manifestar, só o fazendo no apagar das luzes para aproveitar o último estertor dos holofotes. E para jogar bolas de gude no trajeto dos cavalos da carruagem da democracia do patropi.

Como a descoberta da América transformou o mundo

[O artigo traduzido abaixo foi publicado no site Spiegel Online em 20/9. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

O escritor Charles C. Mann argumenta que nenhuma outra pessoa modificou tão radicalmente a face da Terra quanto Cristóvão Colombo. - (Foto: AP - Fonte: The Economist).
A chegada de Colombo às Américas deflagrou a globalização de animais, plantas e micróbios. Um livro recente analisa mais de perto como produtos do Novo Mundo tais como as batatas, o guano e a borracha transformaram rápida e radicalmente o resto do planeta.

Tabaco, batatas e perus chegaram à Europa vindos da América.  Em troca, os europeus para lá levaram trigo, sarampo e cavalos. Mas, quem chegou a pensar em minhocas? Onde quer que essa espécie apareceu nas florestas americanas ela mudou a paisagem, arejando o solo, decompondo a vegetação caída no chão e acelerando a erosão e a troca de nutrientes.  As minhocas facilitaram o crescimento de algumas plantas, enquanto roubavam o habitat de outras. Elas tomaram o espaço vital de outros insetos, enquanto proviam uma nova fonte de alimentação para alguns pássaros.

Resumindo, uma floresta com minhocas é diferente de uma floresta sem elas. Como consequência, a minhoca começou a transformar a América. 

Essa historiazinha surpreendente é apenas uma das muitas compiladas pelo jornalista Charles Mann em seu livro mais recente: "1493: Uncovering the New World Columbus Created" ["1493: Revelando o Novo Mundo que Colombo criou", em tradução livre]. Enquanto o best-seller anterior de Mann -- "1491: New Revelations of the Americas Before Columbus" ["1491: Novas revelações sobre as Américas antes de Colombo", em tradução livre] -- focaliza a história das Américas pré-colombianas, ele agora volta sua atenção para as alterações provocadas pela descoberta desse continente pelos europeus.

Para Mann, nenhuma outra pessoa mudou tão radicalmente a face da Terra como Colombo. A travessia do Atlântico por Colombo, diz Mann, marcou o início de uma nova era não apenas para as Américas mas também para a Europa, a Ásia e a África.  Foi o amanhecer da era do comércio global. Os oceanos deixaram de ser barreiras para pessoas, mercadorias, bens, animais, plantas e micróbios. Foi como se Pangéia, o supercontinente [hipotético] que se fragmentou há cerca de 150 milhões de anos [dando origem aos continentes atuais], tivesse sido reunificado num piscar de olhos geológico.

Antes dos navios Santa Maria, Niña e Pinta levantarem âncora em 1492, não apenas a existência das Américas era desconhecida pelo resto do mundo como também a China e a Europa sabiam muito pouco uma sobre a outra. Um século depois, o mundo era outro muito diferente. Galeões espanhóis ancoravam em portos chineses levando prata retirada por africanos na América do Sul. Em troca, comerciantes de roupa espanhóis recebiam seda da China, distribuída por intermediários no México. E as pessoas de posse que buscavam relaxar -- seja em Madri, Meca ou Manila -- acendiam folhas de tabaco importadas das Américas.

De maneira inflamada e com muito deleite nos detalhes narrativos, Mann conta a história da criação do mundo globalizado, oferecendo muitas surpresas ao longo do caminho. Quem de nós sabia do papel da batata doce na explosão populacional na China? Quem sabia que começou no Peru a melhoria na agricultura com a utilização de dejetos de pássaros como fertilizante? Certamente, poucos sabem do papel decisivo desempenhado pelo mosquitos transmissores da malária no destino dos EUA.

O "intercâmbio colombiano"

O autor leva seus leitores em uma jornada de descobertas ao redor do globo pós-colombiano. A história começa em Jamestown, uma colônia britânica onde é hoje o estado americano da Virginia, local em que um navio pirata holandês aportou em 1619 com cerca de duas dezenas de escravos negros a bordo, capturados quando os piratas atacaram um navio de escravos português. Como era época de colheita, os colonos de Jamestown aproveitaram a oportunidade para comprar os escravos.

Essa compra chancelou a escravidão na América. Mas, os fazendeiros de tabaco da Virginia não se aperceberam de que, ao comprar o trabalho dos escravos da África, eles adquiriram também as doenças que esses africanos carregavam em seu sangue. O plasmodium falciparum,  um parasita que causa a malária, conseguira agora estabelecer-se na América do Norte.  Surtos dessa febre foram um preço elevado que esses fazendeiros pagaram por explorarem escravos africanos.

Mann argumenta que isso teve consequências de longo alcance. No norte, onde o clima frio dificultava a sobrevivência dos mosquitos transmissores da malária, imigrantes europeus tornaram-se uma alternativa barata para os escravos africanos. No sul dos EUA, entretanto, as pessoas de origem caucasiana davam-se pior nos campos de algodão e tabaco infestados de mosquitos. Apenas os escravos africanos traziam consigo um certo grau de resistência aos insetos e à doença. Desse modo, continua Mann, a malária cimentou a escravidão no sul dos EUA. Os brancos, proprietários de plantações, se retiravam para suas mansões em locais arejados que ofereciam uma proteção parcial contra a doença, deixando os escravos negros a trabalhar nos campos.

O "Intercâmbio Colombiano" -- nome dado por historiadores a essa permuta intercontinental de seres humanos, animais, germes e plantas -- afetou mais do que somente os americanos.  Na China, por exemplo, a nova era começou quando marinheiros relataram o aparecimento súbito de europeus nas Filipinas em 1570. O surpreendente quanto a isso é que haviam atravessado o oceano vindo do leste. Até então, a China havia manifestado pouco interesse na Europa, na crença de que seus habitantes tinham pouco a oferecer à sua florescente civilização. Dessa vez, entretanto, os novos visitantes traziam algo da América que eletrizou a China: a prata. Este metal precioso era a forma de moeda mais importante em que todas as transações comerciais eram realizadas na dinastia Ming. Assim, aos olhos dos chineses, os navios espanhóis vindos da América do Sul chegavam carregados com nada menos que dinheiro puro.

Não era de espantar, então, que um vigoroso comércio trans-Pacífico se desenvolvesse rapidamente. Para decepção da coroa espanhola, grande parte da prata obtida nos Andes era entregue não à Espanha mas à distante China. Em troca, seda, porcelana e outras mercadorias de luxo chinesas abriram caminho para o leste via México.

A Corrida da Prata

Mann usa o exemplo de duas cidades que cresceram fortemente no século 17, para ilustrar a mudança que envolveu o globo nesse período. Ostentosas, agressivas e vibrantes de energia, essas cidades representavam o espírito de uma nova era.

Uma delas, talvez a cidade mais selvagem na história do mundo, foi construída nas alturas das montanhas dos Andes. Potosí, a cidade da mineração da prata, circundada apenas por neve e rochas nuas, inchou até atingir o tamanho de Londres em apenas duas décadas. Enquanto os buscadores de fortuna oriundos da Europa se deleitavam nos bordéis de alto luxo da cidade, milhares de nativos trabalhavam e lutavam por suas vidas na escuridão das maiores minas de prata do planeta.

Parián, a primeira "Chinatown" do mundo, dificilmente pode ser considerada como tendo surgido de maneira menos bizarra. Localizada logo fora de Manila, Parián rapidamente tornou-se mais populosa que a própria cidade espanhola quando um labirinto de lojas, casas de chá e restaurantes cresceu em torno de um par de grandes armazéns.  Representantes espanhóis vinham aqui fazer seus negócios, e a boa prata de Potosí podia comprar quase tudo, de botas de couro a baús feitos de marfim e a conjuntos de chá. Até figuras de Jesus como um bebê, habilmente entalhadas em mármore estavam à venda.

Para os governantes chineses, entretanto, essa inundação de prata mostrou-se uma praga. Quanto mais desse metal precioso os navios espanhóis transportavam para Manila, mais seu valor caía. Resultado: inflação, deficits fiscais, agitações sangrentas e, por fim, o colapso do regime. O último imperador Ming foi sucedido pela dinastia Qing.

Colheitas americanas na China

Mas, mais até que a própria prata, o que desempenhou um papel chave no destino da China foram três colheitas que chegaram no rastro daquele metal precioso -- batatas, batata doce e milho. Essas plantações não nativas, resistentes e altamente produtivas, podiam desenvolver-se mesmo em solos que não suportavam o cultivo do arroz.

Essas três colheitas americanas afetariam faixas inteiras de terra no sul e no oeste do império chinês, onde o terreno montanhoso parecia impróprio para a agricultura porque o solo ou estava já exaurido ou era infértil para o cultivo.  As novas plantas da América, entretanto, transformaram terras então áridas em terras aráveis. Com o governo chinês estimulando agressivamente a agricultura, milhões de pessoas ganharam um novo meio de subsistência como agricultores de batata ou milho nas montanhas. Hoje, essas colheitas importadas dos Andes formam uma parte considerável da dieta da população de mais de um bilhão de pessoas da China, que é hoje o segundo maior produtor mundial de milho, após os EUA, e de longe o maior produtor mundial de batatas.

Mas, essa revolução agrícola teve suas desvantagens, à medida que muitas florestas nas montanhas cederam lugar às novas terras agricultáveis. Essas encostas, agora sem árvores, ficaram sem proteção contra as chuvas e deslizamentos de terras começaram a ocorrer em muitos lugares.  As áreas à volta dos rios Yangtzé [rio Azul] e Amarelo tornaram-se castigadas praticamente cada ano por enchentes enormes. [Pelo visto, a China mantém uma longa tradição de agressões ao meio ambiente. O rio Yangtzé recebeu seu pior golpe com a construção da gigantesca usina de Três Gargantas em seu leito -- ver postagens de 5 de junho e de 21 de maio de 2011.]

Na sede do centro de meteorologia da China em Beijing, Mann pôde examinar mapas que documentavam como o número e a escala das enchentes se alteraram ao longo dos séculos. "Percorrer rapidamente os mapas foi como assistir a um filme de colapso ambiental", ele recorda.

Mudando vencedores e perdedores

O aumento de contato entre os continentes  certamente gerou progresso, mas trouxe também sofrimento e exploração. Não há praticamente nada para o qual as pessoas não tenham tido que suar e morrer por ele, escreve Mann, acrescentando que sua pesquisa ensinou-lhe uma coisa acima de tudo: se tivéssemos que desistir de tudo que estivesse sujo de sangue, não restaria muita coisa.

O surgimento da agricultura moderna demonstra isso dramaticamente. Tudo começou com descobertas de dois alemães. Alexander von Humboldt foi o primeiro a se interessar pelos nativos que traziam bolos fedorentos, retirados dos penhascos rochosos onde os pássaros pousavam ao longo da costa peruana. O químico Justus von Liebig verificou depois que o pó resultante disso transformava-se em um fertilizante excelente, graças ao seu elevado conteúdo de nitrogênio e fósforo.

Guano, como os nativos locais denominavam essa substância feita a partir de dejetos endurecidos de pássaros, tornou-se logo um dos produtos importados mais importantes no progressista continente europeu. Mann calcula que, em números de hoje, o valor total das exportações de fertilizante natural pelo Peru equivaleriam a US$ 15 bilhões (11 bilhões de euros).

Dessa vez, os chineses estavam entre os que sofriam, forçados a trabalhar no ambiente fedendo a amônia do guano. Um total de cerca de 100.000 chineses foram atraídos para a longínqua América do Sul, seduzidos por falsas promessas.

Assim como a agricultura europeia se tornou dependente de um produto natural originário da América do Sul, o mesmo aconteceu com sua indústria quando a borracha se tornou parte indispensável da tecnologia moderna, seja sob a forma de pneus de carros, de isolamento de cabos ou de anéis de vedação em tubulações. Retirada da casca do tronco da seringueira, a borracha natural foi exportada através do Atlântico em quantidades cada vez maiores. Qualquer que fosse o crescimento das exportações de borracha pelo Brasil, a demanda aumentava ainda mais rapidamente e os preços continuavam a subir.

Mas, houve um fim súbito a esse processo quando um tipo de fungo ou ferrugem dizimou praticamente todas as plantações de seringueiras da América do Sul. Tailândia, Indonésia e Malásia tornaram-se então os superprodutores de borracha, substituindo Brasil, Venezuela e Suriname. Isso se tornou possível quando um britânico chamado Henry Wickham, que se tornou uma espécie de herói do "Intercâmbio Colombiano", contrabandeou sementes de seringueiras para fora do Brasil em 1876.

A facilidade com que um segundo Wickham poderia surgir -- desta vez espalhando pelo mundo não a seringueira, mas seu fungo -- ficou evidente para Mann durante uma viagem de pesquisa, quando percebeu que ele mesmo estava no meio de um seringal asiático calçando as mesmas botas que havia utilizado havia apenas uns meses antes em uma jornada pela floresta tropical brasileira. O que aconteceria se alguns esporos do fungo estivessem ainda colados às suas botas?

Em algum momento o Intercâmbio Colombiano fechará seu círculo, escreve Mann, e então o mundo terá outros problemas.

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["1493: Uncovering the New World Columbus Created" (livro, 560 pgs) - Charles C. Mann, Ed. Knopf, 2011 - cerca de US$ 12,00 (brochura) e US$ 10,00 na versão eletrônica]







terça-feira, 24 de setembro de 2013

Aviões supersônicos, uma revolução em marcha

[O artigo traduzido abaixo foi publicado em 22/9, no jornal espanhol El País. ]

O avião supersônico que a Lockheed Martin está construindo, baseada em projeto da Universidade de Stanford. - (Ilustração: Lockheed Martin via Nasa).

Voar entre Madri e Nova Iorque, sempre e quando tudo corra bem, pressupõe hoje uma viagem de sete a oito horas, mas não vai tardar muito para que as barreiras do tempo possam comprimir-se e esse mesmo voo reduzir-se a menos de quatro horas. As viagens supersônicas em aviões que desafiam a velocidade do som, superando-a em 1,5 vez -- o que significa voar a cerca de 1.836 km por hora -- estão a ponto de se tornarem realidade. [O Concorde, que é estranhamente ignorado ao longo de todo o artigo, voava (em cruzeiro) a 2,02 vezes a velocidade do som há 27 anos atrás (ver final desta postagem).]

Bastante enfronhado nisso está um grupo de oito estudantes do Departamento de Aeronáutica e Astronáutica da Universidade de Stanford (EUA), liderado por dois professores espanhóis: Juan José Alonso, docente nessa instituição há 13 anos e, além disso, diretor do programa de aeronáutica da Nasa durante dois anos, e Francisco Palacios que, oriundo de Madri, ingressou nessa universidade há dois anos atrás. [Quem tiver curiosidade em ter uma ideia da complexidade dos cálculos envolvidos nesse projeto é só dar uma olhada no artigo desses profissionais e mais três coautores.]

Há 20 meses começaram a trabalhar no projeto SU², "um programa de projeto aerodinâmico para otimizar os aviões, ou seja, para desenvolver modelos que consumam menos combustível, que gerem menos gases de efeito estufa, produzam o menor ruído e que voem mais rápido e a maior altura", explica Alonso. "Para isso, criamos modelos por computador e os combinamos com programas de otimização para que nos digam que aspecto ou detalhe do avião é necessário modificar, para conseguirmos uma aeronave melhor que as de hoje em cerca de 20 a 30%",  acrescenta ele em tom didático.

Os computadores mencionados pelo Prof. Alonso e utilizados no projeto não são computadores quaisquer, mais sim equipamentos do centro de pesquisas da Nasa, umas máquinas gigantescas -- denominadas de "sequoias" -- que analisam milhões de dados em questões de segundos e que equivalem a 10.000 PCs juntos, com a diferença adicional de que estes levariam anos para processar o que esses supercomputadores fazem em questão de minutos.

(...)

Uma ferramenta revolucionária

Uma das novidades dessa ferramenta que, na opinião de Francisco Palacios, "vai revolucionar a aeronáutica", é que se trata de um programa de fonte aberta (open source) ou seja, que pode ser baixado livremente na Internet.

As implicações para o mundo da aeronáutica são enormes, "já que pela primeira vez um programa para projeto de aviões e de outros equipamentos é oferecido livre e gratuitamente, aberto a qualquer empresa, centro educativo e instituições privadas interessadas em baixá-lo", explica Palacios, promotor da iniciativa. "A ideia é colocar o conhecimento ao alcance de todos. E, não apenas isso, mas abrí-lo para que assim quem o deseje possa dar sua contribuição pessoal para melhorar o programa e avançar uns passos a mais para desenvolvê-lo".

"É a vantagem que se tem de trabalhar em uma universidade como a de Stanford", comenta, "que não por acaso é um centro que se caracteriza por atrair as mentes mais brilhantes do mundo, tanto professores como estudantes", destaca Alonso [bem modestozinho este professor espanhol ...]. É sabido por todos que Stanford foi a incubadora do desenvolvimento da Internet, e da criação do Vale do Silício e de suas empresas tecnológicas muito exitosas.

Em seus 20 primeiros meses de desenvolvimento, o programa [do avião supersônico] já teve uma grande acolhida. Os oito estudantes, prestes a concluírem seu doutorado em Stanford, apresentam com entusiasmo as cerca de 50.000 visitas de internautas de 136 países recebidas por sua página na Web, os 6.000 downloads do software, assim como as muitas empresas e universidades que se interessaram por conhecer o programa, entre elas a Ferrari, a Boeing e a Rolls Royce. A cereja do bolo é a Nasa, que financiará através da empresa Lockheed Martin a construção de um avião supersônico baseado no projeto dos alunos de Stanford. [No site da Universidade de Stanford há um pequeno artigo ("Additional Considerations for Supersonic Aircraft") com detalhes interessantes sobre o projeto da fuselagem, envolvendo seu diâmetro, a disposição dos assentos, o número de passageiros por classe e as diversas geometrias em estudo para o avião supersônico, tudo tomando o projeto do Concorde como referência.]

Se os planos vingarem, não tardará muito para que os aviões supersônicos comerciais sejam uma realidade, e viajar de Madri a São Francisco não demandará mais 15 horas ou mais, senão menos de 6, em um avião ecológico e de pouco ruído.

[O Concorde, o primeiro jato comercial supersônico e um marco da história da aviação, operou de 21 de janeiro de 1976 a 24 de outubro de 2003 tendo como únicas operadoras as estatais Air France e British Airways, que dividiram entre si as únicas 20 aeronaves fabricadas.  Ele fazia Paris - Nova Iorque em 3,5 horas, contra 8 horas de um jato comum. Sua velocidade de cruzeiro era de Mach 2,02 (ou 2.472 km/h, considerando a velocidade do som como de 340 m/s ou 1.224 km/h -- observar que a velocidade do som varia com a temperatura e a pressão) e sua velocidade máxima era de Mach 2,2 ou ≈ 2.693 km/h, ambas bem maiores que a velocidade de Mach 1,5 do avião projetado por Stanford. 

Um caça FA-18 Hornet rompe a barreira do som sobre o Oceano Pacífico. - (Foto: Wikipédia).

Outra diferença do Concorde era sua altitude de cruzeiro; enquanto um jato comum voava perto dos 14 mil metros de altitude, o Concorde chegava a 18 mil. O vôo em uma altitude mais alta, dá mais estabilidade para a aeronave e as perturbações meteorológicas são quase nulas. Porém voar nessa altitude, gera mais radiação para os passageiros, mas como o tempo de viagem era muito menor, o nível de radiação era igual ao dos jatos convencionais. Além disso o Concorde possuía um medidor de radiação e quando esta estava muito alta, ele descia para menos de 14 mil metros.  Porém, por se tratar de um avião supersônico, o Concorde emitia muito ruído e poluição, e assim, por muito tempo, restrições ambientais impediram sua operação nos Estados Unidos.

O Galeão, no Rio de Janeiro, foi um dos poucos aeroportos do mundo a receber o Concorde. O vôo, que fazia escala em Dakar, durava seis horas e meia, enquanto um vôo direto entre Paris e Rio pelo 747, durava 12 horas. O serviço de Concorde para o Rio foi cancelado devido à baixa ocupação em 1982.

Em 25 de julho de 2000, uma das aeronaves da Air France (Voo Air France 4590) teve um acidente fatal, causado por uma peça de um DC-10 da Continental Airlines, que se soltara na pista minutos antes, o que causou a paralisação de toda a frota francesa e britânica. Este acidente foi o começo do fim para o os voos do Concorde.  Após o acidente, o Concorde sofreu algumas modificações, retornando ao serviço de passageiros 15 meses após. Porém, em 10 de abril de 2003, Air France e British Airways decidiram juntas encerrar os voos comerciais da aeronave -- a Air France em 31 de maio de 2003 e a British Airways em 24 de outubro do mesmo ano.  O último voo oficial foi realizado por uma aeronave da British Airways, em 26 de novembro de 2003, para Filton, sua terra natal, quando homenagens e manobras foram realizadas, como o movimento do "Bico" (levantamento e abaixamento). Logo depois seus motores foram desligados fechando um dos mais gloriosos capítulos da aviação.

Um Concorde da British Airways. - (Foto: Google).




O Concorde da British Airways que encerrou a história desse avião, fazendo seu último pouso no aeroporto inglês de Filton. - (Foto: Wikipédia).]

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O jeito bolivariano de governar -- governo venezuelano ocupa fábrica de papel higiênico

[Desde que tomou posse o sucessor de Hugo Chávez, Nicolás Maduro, paira no ar algo estranho que afeta os intestinos do povo venezuelano -- há algo de errado e sinistro no suprimento de papel higiênico na Venezuela. Parece que Maduro, o imaturo, perdeu a paciência e decidiu ocupar uma fábrica desse papel de primeira necessidade, como nos relata o jornal espanhol El País de ontem em reportagem que traduzo abaixo.  Esse é o país que o Brasil trouxe para o Mercosul, fazendo molecagem com o Paraguai. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

O Órgão Superior da Economia da Venezuela tomou duas decisões que, analisadas separadamente, buscam reanimar o sistema produtivo nacional. Nada disso, entretanto, garante que seja aliviado o desabastecimento crônico que tem ocorrido na Venezuela durante todo o ano de 2013 até agora. Pelo contrário, são medidas paliativas -- dizem os venezuelanos -- que não atacam as causas estruturais da falta de alimentos básicos.

A mais destacada dessas decisões foi a ocupação por 15 dias da empresa Manpa, localizada no estado de Aragua, que produz guardanapos e papel higiênico, este último um dos produtos mais escassos no país. O governo quer verificar como a empresa opera, conhecer sua estrutura de custos e garantir que os produtos acabados cheguem sem demoras às estantes dos supermercados. Isso foi anunciado pelo ministro do Comércio Alejandro Fleming, que informou que uma vez transcorridas essas duas semanas fará recomendações ao governo sobre o destino da empresa.

A outra medida, publicada no Diário Oficial desta sexta-feira, está incluída no que se convencionou chamar de XI Plano Excepcional para o Abastecimento de Alimentos da Cesta Básica. A empresa estatal Corporação de Abastecimento e Serviços Agrícolas (CASA) poderá importar através de empresas que não estejam inscritas no Registro Nacional de Contratistas, durante quase um ano, uns 3,57 milhões de toneladas de alimentos, equivalentes a 29,392 bilhões de bolívares (3,507 bilhões de euros no câmbio oficial) [≈ R$ 10,5 bi], para comerciá-las por meio das redes estatais de alimentos ou de supermercados privados, em caso de que a produção nacional seja deficitária "ou se evidenciem sabotagens de grupos minoritários". O presidente Nicolás Maduro está consciente de que a tramitação para obtenção de divisas controladas se tornou um processo enfadonho, que propicia a corrupção. Por isso, anunciou uma simplificação dos procedimentos para eliminar as transações ilegais.  [Ver postagem anterior para uma ideia sobre a Venezuela deixada por Chávez.]

O fato do governo concentrar todas as suas energias em sanar as falhas de abastecimento revela que não foi suficiente ter-se garantido à empresa privada a concessão de divisas preferenciais para trazer a matéria prima. Há uma razão de fundo muito mais poderosa, que o Executivo não reconhece: a falta de divisas para satisfazer a demanda. Um relatório da empresa financeira Barclays comentado no diário El Universal adverte que o país marcha "em câmara lenta" para uma crise de balança de pagamentos, devido à forte queda das reservas internacionais.  O jornal afirma que essas reservas caíram cerca de 26% neste ano, devido à queda no preço do ouro -- cerca de 76% dessas reservas nacionais são de barras desse metal -- e ao vencimento de dois pagamentos de dívida no montante de US$ 4 bilhões.

O governo se mostra preocupado com a persistência da crise de abastecimento, e sacou do bolso do colete a receita das expropriações. Estas medidas haviam desaparecido com a doença, agonia e morte deHugo Chávez. Parecia que Maduro as havia descartado de todo até esta semana, quando ameaçou retomá-las para obrigar os empresários a produzir no limite. O empresariado volta a ver com temor o reinício dessas medidas, que levaram à falência principalmente a agricultura e não conseguiram a prometida autonomia na produção de alimentos buscada pelo chavismo. Com a desconfiança, se agravará o desinvestimento. Hoje o governo não se mostra em condições de desprezar a contribuição do setor privado para a estabilização da economia.

O presidente venezuelano Nicolás Maduro passeando de bicicleta em Caracas no domingo atrasado. A vibração dele deve ser por ter conseguido algum rolo de papel higiênico extra na fábrica desse produto que mandou ocupar ... (Foto: Imprensa de Miraflores/Efe - Fonte: El País).