sexta-feira, 15 de abril de 2011

Balança comercial de indústria de média e alta tecnologia tem pior défice em 22 anos

Entre janeiro e março, a balança comercial da indústria de alta e média-alta tecnologia, onde estão concentrados os setores intensivos em capital e inovação, atravessou o pior primeiro trimestre em 22 anos. Nos primeiros três meses deste ano, esses segmentos registraram défice de US$ 17,7 bilhões, mais de US$ 5 bilhões superior ao de igual período de 2010 e o dobro do registrado nos primeiros três meses de 2008 e 2009.


Já a indústria de baixa tecnologia, que fabrica, por exemplo, calçados, vestuário e alimentos, aumentou seu superávit comercial de US$ 7,7 bilhões, registrados no primeiro trimestre de 2010, para US$ 8,5 bilhões no mesmo período deste ano. O crescimento do saldo não foi suficiente, porém, para evitar um rombo de US$ 10 bilhões no saldo comercial total da indústria de transformação.


Nem a abertura comercial promovida por Fernando Collor, a valorização do câmbio durante o governo Fernando Henrique Cardoso ou o surgimento da China como provedor em grande escala de bens manufaturados ao longo do governo de Luiz Inácio Lula da Silva foram capazes de gerar, isoladamente, um rombo tão grande quanto o registrado nos primeiros três meses do governo Dilma Rousseff. Evidentemente, Dilma está pagando por uma herança maldita, mas precisa mostrar disposição e iniciativa para reverter esse quadro. Autor de um estudo sobre a balança comercial da indústria de transformação por conteúdo tecnológico, Rogério Cezar de Souza, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), avalia que a indústria brasileira vive um momento decisivo.

"A redução do déficit passa por ganhos de produtividade. Toda a incorporação de tecnologia que precisava ser feita aconteceu da abertura para cá, a hora é de investir em inovação e novos modelos de produção", diz Souza. Leia mais.

Gastos privados com educação

Volta e meia escrevo neste blog sobre a educação no Brasil, um assunto que considero prioritário e preocupante -- minha mais recente postagem a respeito foi no dia 9 p.p..

O Jornal da Ciência (JC) de hoje traz um interessante artigo de Naercio Menezes Filho, publicado também hoje no jornal Valor Econômico (VE),  que reproduzo parcialmente a seguir.

Diante da péssima qualidade da educação pública brasileira, muitas famílias acabam gastando uma parcela significativa da sua renda com educação privada. Uma pesquisa recente do Centro de Políticas Públicas (CPP) do Insper calculou pela primeira vez o total de gastos privados com educação como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), utilizando dados das pesquisas de orçamentos familiares (POF) do IBGE. O valor gasto pelas famílias brasileiras com educação atingiu 1,3% do PIB em 2009. Isso é muito ou pouco?

O artigo apresenta um gráfico (não reproduzido pelo JC e disponível apenas a assinantes do VE) que compara os gastos públicos e privados com educação em vários países. Ali se verifica que os gastos do Brasil (tanto públicos como privados) estão um pouco acima da média da OCDE. Em termos de gastos públicos, o Brasil gasta mais do que Chile, Alemanha e Coreia e menos do que os Estados Unidos e a Islândia. Vale notar que as estatísticas brasileiras não incluem os gastos com aposentadoria dos professores das redes públicas de ensino, ao contrário do que ocorre na maioria dos países da OCDE. Em termos privados, o Brasil gasta mais do que México e Portugal, mas menos do que Coreia do Sul e os Estados Unidos. Como estamos em 88° lugar no mundo em termos de educação, segundo a Unesco (ver postagem anterior citada no início deste texto), conclui-se que estamos gastando mal, gerando um ensino de má qualidade.


País gastou em 2009 cerca R$ 15 mil por aluno do ensino superior, e só R$ 3 mil por aluno no ensino básico, o que confirma que o ensino básico recebe menos atenção e recursos no Brasil, o que é incompreensível e é uma burrice suicida. Leia mais.

PF investiga deputados no "Golpe da Creche"

Já deixou de espantar a capacidade de deputados de se chafurdar na lama das mutretas e negociatas, de se esbaldar no mundo dos ilícitos -- o que continua a espantar são a inexplicável apatia da população, incapaz de se revoltar contra essa bandalha dessa marginália, e a omissão criminosa da mesa diretora da Câmara em enquadrar seus membros de ficha imunda.

A Polícia Federal quer mais documentos com a assinatura do deputado Sandro Mabel (PR-GO) e do suplente de deputado Raymundo Veloso (PMDB-BA) para conferir se são mesmo deles as autorizações para a contratação de funcionários fantasmas pela Câmara. A partir dessas constratações, os salários e benefícios dos servidores, como o auxílio-creche, eram desviados para outras contas e terceiros. Ao menos parte do dinheiro pagou pessoas ligadas a Mabel. Mas, no ano passado, Mabel e Veloso disseram à Polícia Legislativa da Câmara que suas assinaturas foram falsificadas. Os investigadores pediram um exame grafotécnico ao Instituto Nacional de Criminalística (INC) da PF.

O desvio de dinheiro da Câmara por meio da contratação de fantasmas e outros métodos de fraudar a folha remonta a 2009. O caso ficou conhecido como o “golpe da creche”. Mais de R$ 2 milhões dos cofres públicos foram desviados.  Leia mais.
Assinatura do deputado Sandro Mabel (PR-GO) entregue à Polícia. (Fonte: Congresso em Foco)

A novela do visto americano

Todo e qualquer mortal que deseja ir aos EUA por alguma razão jamais esquece a enorme chatice que é a obtenção do visto de entrada nesse país, um ritual digno de país do quarto mundo. Indubitavelmente, essa paranoia de triagem dos americanos ficou exacerbada depois do 11/9/2001. Reportagem interessante publicada na Newsweek que está nas bancas mostra que essa paranoia está se transformando num tiro no próprio pé dos gringos, barrando imigrantes de interesse para o país.

Com o título "O suicídio nacional" da América (America's "National Suicide") e a sugestiva chamada de capa "Altamente qualificado? Quer um visto americano? Esqueça!", a revista aborda a via crucis que é a obtenção de um visto americano, tomando como referência o exemplo de um indiano (Lakshminarayana Ganti) que recebeu um MBA na Purdue University (EUA), trabalhou em uma empresa americana de tecnologia de ponta e um dia teve a infeliz ideia de visitar a família na terra natal. Quando decidiu voltar aos EUA caiu na malha da burocracia imigratória americana e, desde 2007, tenta sem êxito conseguir seu visto de reentrada naquele país.

O prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg, resumiu assim essa paranoia americana: "Educamos os melhores e mais brilhantes vindos de todo o mundo, e depois dizemos às nossas empresas que não podem empregá-los", concluindo "isso é uma forma de suicídio nacional".  Uma das maneiras pelas quais os EUA estão cometendo esse suicídio é através de seu "vasto e opaco sistema de controle de vistos", diz a Newsweek, que afeta centenas de milhares de pessoas a cada ano, embora autoridades do próprio governo reconheçam que menos de 1% dos que passam por essa triagem apresenta legítimos questionamentos de segurança. Como esses controles recebem nomes de animais na burocracia americana -- Condor, Asno e Louva-a-deus --, as próprias autoridades de lá chamam esse sistema de "A Revolução dos Bichos" (Animal Farm), o famoso livro de George Orwell de 1945 (que trata, com grande habilidade, o totalitarismo e o aburguesamento do regime soviético, o que, segundo Orwell, traiu a revolução de 1917). 

Para frisar como essa triagem burra é danosa aos interesses americanos, a revista enfatiza que: - pesquisadores estrangeiros são responsáveis por 25% de todas as patentes obtidas por companhias americanas; - quase metade dos P.H.Ds que são cientistas e engenheiros que trabalham nos EUA são estrangeiros; - entre 1995 e 2005, mais de 25% das empresas de tecnologia criadas no país tinham como peça-chave e fundador um estrangeiro (no Vale do Silício essa porcentagem é superior a 50%); - na GE, 64% dos pesquisadores não nasceram nos EUA, e na Qualcomm (empresa de tecnologia de ponta na área de comunicações, especialmente celulares) esse número chega a 72%. Leia mais.
Lakshminarayana Ganti, 33 anos, que desde 2007 tenta retornar aos EUA, checa diariamente online a situação do seu pedido de visto para voltar àquele país. (Thomas Haugersveen/Agência VU para Newsweek)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Se avizinha e começa a se cristalizar nosso vexame em aeroportos para a Copa de 2014

O que parecia estar ainda no terreno das conjecturas começa a se cristalizar como desastre inevitável,  que nos exporá à chacota e à vergonha no cenário internacional. O país que se gaba de ser a 7ª economia do mundo mostra-se incapaz de cumprir compromissos assumidos de público, perante a FIFA, e se revela incompetente e irresponsável para preparar 9 dos 12 aeroportos previstos para acolher jogadores e visitantes para a Copa de 2014. Quem denuncia essa falha não é a oposição, mas um conceituado órgão do próprio governo.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado à Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República, classificou como preocupante a situação dos aeroportos das cidades que serão sedes da Copa do Mundo de 2014. Segundo ele, as obras de ampliação de 9 dos 12 aeroportos atualmente em operação não deverão estar concluídas até o início do Mundial.

O Ipea divulgou nota técnica ontem, quarta-feira, em que analisa que "muito provavelmente não será possível concluir a maioria das obras de expansão dos terminais aeroportuários até a Copa de 2014". O relatório explica que a conclusão leva em conta prazos médios para a elaboração de projetos, obtenção de licenças obrigatórias, realização de licitações públicas e início dos serviços.

Além dos 9 aeroportos que já existem e que não terão suas reformas concluídas a tempo, o Ipea destaca que o Aeroporto Internacional São Gonçalo Amarante, no Rio Grande do Norte, próximo à capital Natal, que ainda está em construção, não ficará pronto antes de junho de 2014 -- ressalte-se que esse é o único dos aeroportos previstos sob a responsabilidade da iniciativa privada. Nos aeroportos de Confins (MG) e de Porto Alegre (RS), embora o projeto já esteja pronto, as obras devem demorar cerca de seis anos e meio. Leia mais.

Antes de embarcar para a China a presidente anunciou que, a partir deste ou do mês que vem, o governo passaria a divulgar sistematicamente o cronograma das obras vinculadas à Copa de 2014 e às Olimpíadas de 2016, com o intuito de pressionar os Estados por elas responsáveis e identificar os culpados por eventuais atrasos. Essa é o tipo escarrado de medida demagógica, do tipo Pôncio Pilatos, que não nos poupará do essencial que é o vexame internacional. Obras da envergadura das mencionadas acima só por milagre bem fantástico cumprem cronogramas no Brasil (quanto aos custos, é bom nem falar) -- a politicalha, a burocracia e a irresponsabilidade de estados e municípios, somadas à omissão e ao descompromisso do governo federal com a imagem do país lá fora formam o caldo perfeito para o vexame.

Observe-se que estamos falando até agora apenas do item "aeroportos" no contexto da Copa (e das Olimpíadas) -- se pensarmos ainda nas pendências quanto a infraestrutura de transportes, de comunicações, de acomodações, questões de segurança, de atendimentos emergenciais de saúde, etc, etc, pode-se ter uma vaga ideia das chances que temos de passarmos ainda mais vergonha. Preparêmo-nos, pois, por via das dúvidas, para sermos motivo de gozação e ridicularização por habitantes dos quatro cantos do planeta.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Um primeiro balanço da viagem de Dilma à China

Embora a presidente Dilma ainda esteja em território chinês, mas às vésperas de lá regressar, acho que vale a pena elucubrar um pouco sobre o que se viu na mídia como aspectos e resultados dessa viagem, enquanto o Itamaraty não divulga a íntegra da declaração conjunta firmada ontem pelos dois países.
  • O tema dos direitos humanos -- Percebendo que não é boa política cutucar o leão com vara curta dentro de sua jaula, mesmo porque temos  rabo preso nessa seara (como a própria presidenta reconheceu em entrevista ontem, ainda em território chinês), o Brasil nem de longe teve em Pequim contra a China a atitude incisiva que teve recentemente contra o Irã em votação no Conselho de Direitos Humanos da ONU. O que foi divulgado na mídia como texto da declaração conjunta sobre o assunto é pura perfumaria, não critica ninguém nem obriga ninguém a coisa alguma.
  • Manipulação cambial pela China -- A menos de falha minha, não vi em texto algum sobre a visita de Dilma que a subvalorização artificial do yuan, a moeda chinesa, tenha sido questionada ou sequer abordada pelo Brasil nessa visita. Assim como nos direitos humanos, permanecemos com dois discursos em relação aos chineses: um interno, em que esperneamos e dizemos cobras e lagartos contra os chineses, e na casa deles metemos o rabo no meio das pernas. Enquanto isso, a China deita e rola, entupindo nosso mercado com seus produtos, com cujos preços malandra e artificialmente baixos é impossível competir.
  • Apoio da China à nossa presença permanente no Conselho de Segurança da ONU -- Com sua sabedoria milenar, os chineses continuam nos enrolando nessa história. Veja postagem de hoje sobre isso.
  • Fabricação, pelos chineses, de iPads e displays eletrônicos no Brasil -- Isso vai gerar empregos e eventual entrada de divisas por eventual exportação desses produtos, pelo menos para a América Latina, mas a transferência de tecnologia é zero, até prova contundente em contrário. Até o investimento anunciado de US$ 12 bilhões a longo prazo (5 anos) pela chinesa Foxconn, responsável por aqueles dois produtos, não ficou muito claro porque, segundo Terry Gou, o "Bill Gates da Ásia", dono da Foxconn, ele depende de "contrapartidas brasileiras" -- quais são elas, não se sabe. Como chinês não é de bater prego sem estopa, é bom ficar ressabiado.
  • Abertura do mercado chinês para manufaturados brasileiros -- Torço muito para que isso realmente aconteça, mas isso tem forte cheiro de gozação e empulhacão chinesas. Temos aí o exemplo claro da Embraer, cujo drama na China foi até objeto explícito da pauta de negociações de Dilma na viagem a Pequim. Com o OK chinês a Embraer associou-se à China Aviation Industry Corporation (Avic) e montou em Herbin (norte do país) uma moderna fábrica  para produzir o ERJ145 (50 lugares) -- pronta a fábrica, de repente os pedidos já feitos foram cancelados e nenhuma nova encomenda foi feita. Agora vem o papo de que um avião de 50 lugares é muito pequeno para o mercado chinês -- custo muito a crer que uma empresa tarimbada como a Embraer no mercado internacional fosse cometer o erro primário de querer fabricar o avião errado para o mercado chinês. Isto me cheira a rasteira chinesa. Como compensação, a Embraer seria autorizada a produzir na China seu jato executivo Legacy (com um mercado potencial local de 450 unidades, chegaram a dizer) -- é esperar p'ra ver se isso realmente vinga.
  • Reconhecimento da China como economia de mercado -- Este é que o grande busílis de toda a trama chinesa sobre o Brasil. A China tem nos pressionado permanente e fortemente para que a reconheçamos na OMC - Organização Mundial do Comércio como economia de mercado -- uma das consequências desse reconhecimento, caso ele ocorra, é que ficará muitíssimo mais difícil barrar a entrada de produtos chineses em nosso mercado. Os chineses continuarão usando sobre nós todo o seu poder de pressão e barganha para nos arrancar esse reconhecimento -- até onde resistiremos, eis uma boa (ou má) charada.

Posição da China sobre Conselho de Segurança da ONU não mudou, diz o ministro das Relações Exteriores

Passada a falsa impressão de que a China resolveu efetivamente nos apoiar no nosso pleito para um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, é oportuna, coerente e benéfica a manifestação de hoje do nosso chanceler, Antonio Patriota, a esse respeito. Sem as firulas acrobáticas com que seu antecessor, Celso Amorim, jogava p'ra plateia, Patriota tratou logo de esclarecer o exato significado da manifestação chinesa sobre o tema na declaração conjunta dos dois países, e o que está por trás dessa atitude. "Mudança de fundo não creio que tenha havido. É uma conciliação de uma disposição favorável em relação ao Brasil, de uma valorização do trabalho do Brasil, e acho que hoje em dia até maior do que no passado, com essa reserva com relação à articulação brasileira no G4, que une Brasil, Índia, Japão e Alemanha", disse.

É exatamente nessa articulação do Brasil no G4 que estaria o problema, já que a China tem disputas territoriais e desavenças históricas com a Índia e o Japão, também candidatos a membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, contra cujas candidaturas a China trabalha nos bastidores.


"Desde alguns anos que a China diz que, quando chegar a hora da reforma, de identificar quem poderão ser os novos membros permanentes, o Brasil será um país com óbvias credenciais', disse Patriota. Segundo ele, 'é uma conversa dos anos 1990".

É difícil para os humildes mortais entender exatamente as nuances da linguagem democrática. No comunicado assinado ontem pela presidente Dilma Rousseff e seu anfitrião, Hu Jintao, os dois governos "apoiam uma reforma abrangente da ONU, incluindo o aumento da representação dos países em desenvolvimento no Conselho de Segurança como uma prioridade". Segundo diplomatas envolvidos no tema, a grande novidade foi a inclusão do termo "Conselho de Segurança" na declaração. -- Na última reunião de cúpula entre dois países, há cerca de um ano, o comunicado conjunto falava na "urgência de ampliar, por meio de reformas abrangentes, a representatividade e a voz dos países em desenvolvimento nas organizações internacionais". Leia mais.