segunda-feira, 26 de março de 2012

Escândalo de corrupção abala o Partido Conservador no Reino Unido

Mais uma vez se confirma o ditado que diz que "certas coisas acontecem às melhores famílias, inclusive às inglesas" ... O jornal espanhol El País publica ontem (domingo) reportagem (traduzida abaixo) sobre um escândalo de corrupção envolvendo o tesoureiro adjunto do Partido Conservador (Tory) do Reino Unido -- parece até uma das historiazinhas desse tipo que andaram povoando recentemente certos ministérios do governo Dilma.

Peter Cruddas, tesoureiro adjunto do Partido Conservador ("Tory") britânico pediu demissão, depois que o diário The Sunday Times o filmou prometendo acesso ao primeiro-ministro David Cameron e ao ministro da Fazenda e do Tesouro, George Osborne, em troca de doações de 250.000 libras (quase 300.000 euros) para o partido. Talvez o mais grave contudo, é que Cruddas insinua aos repórteres disfarçados como doadores potenciais que os encontros com o primeiro-ministro podem servir para influenciar a política do governo.

As revelações do jornal britânico surgem no final de uma semana muito delicada para a coalizão de conservadores e liberiais-democratas, devido à polêmica gerada pelo orçamento geral do Estado.  A decisão do governo de reduzir em 2013 a alíquota máxima do IRPF dos atuais 50% para 45% gerou acusações de que os conservadores estão, assim, defendendo os interesses dos mais ricos.  Osborne se defendeu com o argumento de que essa redução será compensada pela criação de outros impostos que afetarão os contribuintes mais abastados. 

Além disso, o caso desperta associações com a polêmica que durante meses minou o Partido Trabalhista na época de Tony Blair, quando a polícia investigou se o arrecadador trabalhista Michael Levy havia prometido a concessão do título de Lord e outras distinções, em troca de doações. Essa polêmica foi batizada de "cash para honrarias" (cash for honours). A de agora foi denominada de "cash por Cameron".  Para o primeiro-ministro ela é particularmente prejudicial, porque ele chegou ao poder com o compromisso de regenerar a classe política, muito desprestigiada por conta dos gastos dos parlamentares, que se aproveitaram de diversas falhas na legislação para serem compensados por gastos muito pouco relacionados com suas atividades políticas. [Esses ingênuos ingleses têm muito o que aprender com os nossos deputados e senadores!...]

Nas filmagens camufladas, Cruddas promete aos doadores potenciais que poderão jantar nos aposentos privados de Downing Street com David e Samantha Cameron, ainda que esclareça que nesses momentos Cameron não participaria na qualidade de primeiro-ministro  -- não há evidências de que Cameron soubesse que esses jantares se dariam em troca de doações. [Em troca de quê, então, Cameron & Sra. jantariam com estranhos em sua residência oficial?!]

Mas, talvez o aspecto mais delicado é que Cruddas enfatiza que nesses encontros [os doadores] poderão ter acesso a "muita informação". - "Poderão perguntar-lhe praticamente o que quiserem", diz ele. "E, se não estiverem satisfeitos com alguma coisa, os escutaremos e faremos chegar sua opinião ao comitê político do Número 10 (Downing Street)", acrescenta. "Isso será formidável para os negócios dos Srs.. Ficarão encantados, porque seus convidados poderão tirar uma foto com David Cameron", enfatiza.

Em seu pedido de demissão, Cruddas defende sua inocência e a do partido. "Lamento profundamente que possa ter dado a impressão de fazer algo inapropriado nas bravatas dessa conversa", escreve ele. "Não há a mais tênue dúvida de que nenhum doador tenha conseguido influência política ou possa ter tido, de maneira indevida, acesso aos políticos. Em especial, de nenhuma maneira pude oferecer, ou David Cameron possa ter levado em consideração, nenhum acesso como consequência de uma doação. Mas, para que não haja nenhum tipo de dúvida, decidi lamentavelmente pedir demissão", conclui.

O Partido Conservador emitiu uma nota em que assegura que "todas as doações têm que obedecer às exigências da lei eleitoral, e esses princípios são aplicados de forma estrita".

Peter Cruddas, tesoureiro adjunto do Partido Conservador britânico, envolvido em escândalo de corrupção - (Foto: Bob Finlayson).

O primeiro-ministro britânico, David Cameron - (Foto: Ben Stansall/AFP).

domingo, 25 de março de 2012

Incentivos do governo às empresas somam R$ 97,8 bilhões em seis anos

De 2007 a 2012, o governo baixou medidas que desoneraram as empresas em, no mínimo, R$ 97,8 bilhões, segundo levantamento da Receita Federal obtido pelo Estado. A cifra é o dobro do que o governo pretende gastar no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) este ano e corresponde a quatro vezes a verba reservada para o programa Brasil sem Miséria, prioridade da presidente Dilma Rousseff. Ainda assim, a alta carga tributária foi a queixa mais comum entre os 28 pesos pesados da economia que estiveram com Dilma na quinta-feira.

As desonerações não foram adotadas como uma estratégia ou política de governo, mas foram reações aos efeitos da crise global que deprime a economia mundial desde meados de 2008 e afetou gravemente a competitividade da indústria brasileira [ou seja, o governo vem atuando como bombeiro, apagando incêndios, perdeu a visão de médio e longo prazos]. Porém, o avanço dos importados e a tendência de desindustrialização parecem imunes à atuação do governo.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, completa seis anos no cargo na terça-feira. Em suas primeiras entrevistas, ele já falava em desonerar a folha salarial das empresas, medida que foi novamente prometida esta semana, durante a reunião com a presidente Dilma. Também apontava o câmbio como um problema central, mas o dólar barato continua sendo a maior dor de cabeça do setor produtivo. "O governo pode ter desonerado bastante, mas a carga tributária não caiu. Ao contrário, aumentou", diz o economista Mansueto Almeida. "O custo de produção continua alto e maluco".

Hiperatividade. Para Armando Castellar, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, atuações pontuais como as feitas pelo governo têm efeito localizado e temporário. "O problema maior é a hiperatividade de medidas do governo", criticou. "O País precisa de um programa de médio e longo prazos que ataque os problemas estruturais de competitividade, como infraestrutura e carga tributária". [Estes são apenas dois dos problemas básicos que o país herdou dos oito anos de governo Lula (o Nosso Pinóquio Acrobata), e que o primeiro ano de Dilma Rousseff sequer arranhou -- a esses problemas se junta indispensavelmente a educação.  "Hiperatividade" é uma palavra muito granfina, quase esnobe, para descrever a série de medidas apenas pontuais do governo federal, numa atitude puramente reativa e nada proativa. Não há planejamento de médio e longo prazos -- há quem chame isso de "administração por espasmo", o que acho bem melhor e mais realista do que hiperatividade.]

Em sua defesa, o governo argumenta que a situação estaria muito pior se o ministro não tivesse agido. É certo também que medidas adotadas pelo governo quase nada podem fazer para combater os efeitos da desaceleração da economia global e a avalanche dos industrializados asiáticos.

Porém, a própria Dilma está insatisfeita com o elenco de iniciativas adotadas até agora. Ela incumbiu Mantega de elaborar um novo pacote para anunciar na volta de sua viagem à Índia, nos dias 28 a 31 deste mês. A área técnica da Fazenda recebeu a seguinte encomenda da presidente: medidas mais ousadas. Em vez de pontuais, elas precisarão ser gerais e mais profundas. A desoneração da folha, por exemplo, poderá ser geral para a indústria, e não localizada em meia dúzia de setores.  [A sinalização é boa e correta, vejamos se isso também não é apenas mais um espasmo.]

sábado, 24 de março de 2012

Anac aponta falhas em fiscalização de cargas, mas não faz nada a respeito

[Hoje,no Brasil, quando o assunto é aviação civil "lato sensu", a discussão se restringe a tentar saber a extensão do caos em que nos encontramos, e até onde nossa segurança física está comprometida. A reportagem abaixo, publicada no jornal O Estado de S. Paulo de hoje, preocupantemente nos deixa perceber claramente o nível de irresponsabilidade a que chegamos, com a conivência e a omissão do governo federal. Também nesse setor, nada que é estatal presta, nem a Anac nem a Infraero -- e o assustador é que a Infraero terá 49% de participação em cada consórcio vencedor da privatização de aeroportos bolada pelo PT.]

A falta de regulação no transporte aéreo de cargas no Brasil impede a fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e põe em risco a vida de passageiros e funcionários das empresas de aviação. Estudo interno da agência reguladora alerta há cerca de um ano para a falta de um regulamento claro, mas até agora nada foi feito e o estudo continua na gaveta.

O documento, obtido com exclusividade pelo Estado, conclui que a fiscalização de cargas pela Anac está restrita ao peso dos objetos transportados e seu balanceamento na aeronave. O regulador também consegue ter controle sobre as cargas de valor e outros artigos perigosos no interior das companhias aéreas, mas boa parte dos volumes transportados não passa atualmente pelo crivo da agência. "Dessa forma, na atual estrutura da Anac, não há superintendência responsável por regular e fiscalizar o transporte aéreo de carga", relata a nota técnica. 

Por isso, parcela significativa dos viajantes de avião no País está exposta a riscos oriundos de cargas ditas "especiais", como animais vivos, restos mortais, produtos perecíveis e artigos controlados - como armas, munições, explosivos e materiais radioativos - que não necessariamente foram fiscalizadas pelo órgão responsável pela segurança de voos no Brasil.

O problema é maior nos voos domésticos, já que no transporte de cargas ao exterior os regulamentos internacionais tendem a ser obedecidos. Além disso, ainda que a agência não possa fiscalizar de maneira eficaz o transporte internacional de cargas, outros órgãos do governo atuam nessa área, como Receita, Anvisa e Polícia Federal. Mesmo assim, o documento aponta falhas identificadas por autoridades estrangeiras em contêineres embarcados no Brasil. "A Anac recebeu reportes da autoridade americana, com fotos das irregularidades encontradas no acondicionamento da carga", diz o relatório.

Para os voos domésticos, porém, não há regulamentação ou as normas existentes estão defasadas e não podem ser aplicadas. As companhias associadas à Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês) precisam obedecer a normas para transportar animais vivos, mas no País nem sempre essas regras são cumpridas, já que não há quem as fiscalize. 

Cão. O relatório cita o caso de um cachorro da raça pinscher que invadiu a pista do Aeroporto de Congonhas em dezembro de 2010 e atrasou seis voos. Para ilustrar os riscos potenciais da falta de regras, o documento cita um incidente no Congo em outubro do mesmo ano, quando um crocodilo escapou do compartimento de carga, causando pânico na tripulação, culminando com a queda da aeronave e a morte dos 20 passageiros.

E apesar de a Anvisa ter normas explícitas para o transporte de cadáveres em aeronaves civis, a Anac não possui regulamentação similar. "Atualmente existe grande demanda no transporte como bagagem de mão das cinzas de um corpo cremado. Os passageiros insistem em transportar junto a si os restos mortais do ente querido. Por outro lado, os outros passageiros se sentem desconfortáveis com essa ação", detalha o documento. 

O relatório foi concluído no começo de maio do ano passado, mas foi arquivado pela diretoria da Anac, segundo informações obtidas pelo Estado [que bela agência essa Anac, hem?!]. Procurados pela reportagem, nenhum membro da agência comentou a falta de regulação. Em nota, o órgão afirmou que se trata apenas de um estudo preliminar, "sem conteúdo decisório", mas poderá subsidiar a edição de futuros atos regulatórios.

Segurança da urna eletrônica brasileira volta a ser manchete (I)

Volta e meia renasce o debate sobre a segurança (ou inviolabilidade) da urna eletrônica brasileira. Pessoalmente, não tenho a menor intranquilidade quanto a isso, mas há gente que não comunga dessa ideia -- e é este pessoal que se sente respaldado em sua descrença, com a notícia recente de que uma dessas urnas foi violada em teste promovido pelo TSE - Tribunal Superior Eleitoral.

O primeiro passo para estabelecer uma discussão em bases sólidas e coerentes é entender o objetivo do TSE com esse teste e as condições estabelecidas para sua realização, o que está detalhadamente apresentado no site do Tribunal -- a leitura disto é indispensável para a abordagem do assunto. O primeiro ponto fundamental dessa discussão é que o teste foi planejado e executado por iniciativa do TSE, com estreito contato com a comunidade técnica envolvida no assunto, o que é extremamente louvável e não pode ser perdido de vista. Dois outros pontos fundamentais: - i) essa foi a segunda edição dos testes com a urna (na primeira a urna não foi violada); - ii) a fase de preparação dos testes, uma novidade dessa segunda edição, teve como objetivo dar o maior número de subsídios possível para a elaboração dos planos de testes.

Nas instruções para a realização do teste deve-se destacar que, no dia 8 de março (último dia da fase de preparação):
  1. os participantes puderam se inteirar do funcionamento de todos os sistemas envolvidos na votação eletrônica, e
  2. os participantes puderam visualizar o código-fonte da urna (que fica guardado no cofre do Tribunal) e fazer pesquisas na internet;
  3. nos testes, nos dias 22 e 23 de março, os investigadores tentariam realizar "ataques" à urna eletrônica, buscando explorar eventuais falhas do sistema relacionadas à violação da integridade e ao sigilo do voto.
Realizados os testes com 9 grupos participantes, apenas a equipe da Universidade de Brasília (UnB) conseguiu detetar uma lacuna na segurança das urnas eletrônicas e identificou quais os candidatos (e em que sequência) foram votados em determinada urna, mas não conseguiram identificar os votantes, o que significa que o sigilo do voto não foi quebrado.  Para quebrar completamente o sigilo da urna, os investigadores teriam que ter em mão a relação da lista de eleitores que nela votaram e que fica em poder do mesário.

O chefe do grupo, Diego de Freitas Aranha, professor do Departamento de Computação da UnB, disse que é impossível saber se conseguiriam quebrar o segredo caso não tivessem acesso à informação privilegiada [o acesso ao código-fonte].

O teste foi considerado extremamente positivo, pois gerou subsídios relevantes para o TSE melhorar e reforçar a segurança completa da urna eletrônica que utiliza.

Uma dúvida recorrente que li e ouvi é quanto ao fato do TSE usar o Linux em sua programação, e o Linux ficou conhecido como sendo uma programação de "código aberto", o que tornaria então nossa urna intrinsecamente também "aberta" e, portanto, vulnerável. Andei me informando com quem entende de informática e de Linux, e tentarei a seguir explicar o assunto:

  • o código é "aberto" mas não é "escancarado" -- o fato da urna rodar em Linux não significa que tudo que rodar nela tem que ser código aberto. Se você desenvolver uma aplicação baseada em código aberto protegido por uma licença como GPL ou LGPL, você é obrigado a repassar o código fonte da sua aplicação pra quem mais vier a usá-la. É isso que garante que o código continuará aberto, e que uma empresa que desenvolva um software a partir de código aberto (feito gratuitamente por voluntários mundo afora) não possa lucrar em cima disso sem reverter para a comunidade suas modificações no código. Se apenas você usa sua aplicação, não é obrigado a nada, não é obrigado a abrí-lo. O TSE desenvolve o programa que controla a votação para uso próprio e exclusivo.
  • Sim, tendo o código-fonte em mão não é preciso fazer engenharia reversa, fica muito mais fácil explorar falhas de segurança. E, sim, código aberto não significa Linux, simplesmente significa que o código está disponível para quem quiser ver/usar, seja lá em qual sistema operacional se trabalhe.
  • Acesso ao código-fonte depende do que a instituição dona do produto deseja; é o que chamamos de "testes caixa-branca" (em contraste com testes caixa-preta, onde não se conhece o código). A opção por dar acesso neste caso deve ter sido porque eram pessoas confiáveis (white hats), e a intenção era facilitar o acesso à informação para se obter o melhor resultado possível -- ponto para o TSE!. Deve ter sido executado sob NDA - Non-Disclosure Agreement (Acordo de Não Divulgação) -- o grupo ainda não pode revelar os detalhes do feito, o TSE exigiu um compromisso de que apenas informações preliminares fossem divulgadas antes do relatório final com as considerações do próprio tribunal.   Ainda sobre isso, é importante ler o item #17 das FAQ direto no site do TSE.
Continuo sem preocupação com a segurança da nossa urna. Nessa questão específica da urna, e em muitas outras ocasiões, a gente frequentemente encontra gente conhecida como "FUD  Master".  "FUD" ("Medo, incerteza e dúvida", em inglês) é uma tática utilizada em vendas, marketing, relações públicas, política e propaganda. Geralmente, é uma tentativa estratégica de influenciar a percepção de algo pela disseminação de informação negativa, dúbia ou falsa  -- no caso em pauta e, claro, praticamente em todos os outros isso pode ser feito de boa ou má-fé, quando não se tratar de nenhum das cinco hipóteses citadas.

[Ver outra postagem sobre o assunto.]

Lagarto gigante persegue equipe da BBC

Uma equipe da BBC gravou o momento em que foram obrigados a fugir de um grupo de cerca de 15 dragões-de-Comodo (clique aqui para ver o vídeo).  A espécie é o maior tipo de lagarto que existe, chegando a medir 3 metros e pesar 70 kg. 

O experiente repórter Steve Backshall tentou atrair a atenção dos animais com iscas de carne. Mas a reação foi mais forte que a esperada, e os animais passaram a perseguir o grupo.

Os dragões de Comodo vivem na Indonésia e se alimentam de pequenos animais. No entanto, ataques a humanos, podem acontecer.

 Os lagartos gigantes, conhecidos como Dragões de Comodo, foram atraídos com iscas de carne - (Foto: BBC Brasil).

Os espermatozoides sabem calcular

 [O texto traduzido a seguir é de Pierre Barthélémy, responsável pelo blogue Passeur de Sciences -- "Barqueiro da Ciência", em tradução literal, ou "Vetor da ciência", em tradução livre -- do jornal francês Le Monde, publicado em 22/3/12.]

Se, na natureza, existem verdadeiros mísseis de ogiva rastreadora, este é bem o caso dos espermatozoides. Alvo: o óvulo. Muitos são "convocados", mas só um eleito ... ou simplesmente nenhum. No corpo humano, seu caminho é todo planejado  e se parece com o percurso de um combatente, como escrevi em um blogue anterior ("Por que os homens produzem tantos espermatozoides?"): "As células masculinas da reprodução têm de enfrentar o meio ácido da vagina, o labirinto mortal do colo do útero, os glóbulos brancos femininos, não se perder no caminho nem gastar muita energia, chegar à trompa de Falópio certa no tempo certo e, sobretudo, ter sorte". No corpo de uma espécie bem diferente, como o do ouriço do mar Arbacia punctulata, que há um século serve de modelo para os estudos de embriogênese e dos espermatozoides, a rota é menos balizada porque esses animais liberam seus gametas na água do mar. Isso acontece aleatoriamente? Não completamente.

Nos dois casos, tanto no corpo humano como no do equinodermo, cada espermatozoide nada na direção de seu alvo agitando seu flagelo [espécie de "cauda" ondulante, um filamento móvel, que serve como seu órgão locomotor]. Os gametas masculinos seguem assim, muitas vezes, uma trajetória mais ou menos helicoidal. Na realidade, o flagelo não serve apenas como órgão propulsor:  trata-se também de uma antena que capta os indícios químicos liberados pelo óvulo, que sinaliza assim a sua presença. Esses produtos químicos, ao aderirem aos receptores localizados na superfície do flagelo, dão início a uma cascata de reações bioquímicas que levam a um pico de íons de cálcio no flagelo e aos movimentos desse "mini-leme". O "x" da questão é saber como o espermatozoide é informado da direção a ser tomada. Durante muito tempo os biólogos pensaram que o gameta se deslocava em linha reta enquanto a taxa de cálcio fosse baixa e que ele se punha a rodopiar ou girar, uma excelente maneira de "esquadrinhar o terreno" e se precipitar sobre o óvulo, gerando o ovo [ou zigoto]. Mas, as observações contrariaram essa teoria: o espermatozoide poderia também girar no primeiro caso, e seguir em linha reta no segundo ...

Uma equipe internacional acaba de resolver em grande parte o mistério,  e relatou sua descoberta em um estudo publicado no The Journal of Cell Biology. Para chegar a isso recorreram a uma astúcia, mergulhando os espermatozoides do Arbacia punctulata em um meio em que haviam colocado os famosos sinais químicos de maneira sutil: as moléculas não estavam acessíveis livremente, mas encapsuladas em recipientes que só se dissolviam sob o efeito da luz. Iluminando esse dispositivo, os pesquisadores podiam liberar essas substâncias à sua vontade e, em seguida, acompanhar o comportamento e a trajetória dos espermatozoides em função da maior ou menor concentração de sinais [químicos] no ambiente, medindo o tempo todo, graças a um marcador fluorescente, a taxa de cálcio nos flagelos.

Essa equipe teve assim a surpresa de verificar que, efetivamente, não era a concentração de cálcio que colocava o espermatozoide no modo "eu turbilhono porque sinto que o óvulo não está longe", mas sim a taxa de variação da concentração que o fazia movimentar-se na direção certa. Isso parecia simples, mas significava algo espantoso: os gametas masculinos são capazes de calcular derivadas (o que os jovens franceses não fazem no ginásio) em um tempo extremamente curto, já que as reações dos espermatozoides são da ordem do segundo, ou mesmo menos. É a partir do resultado desses cálculos que eles alteram ou não sua trajetória. Um resultado que foi confirmado em duas outras espécies de ouriço, e na ciona intestinalis, um outro animal marinho.

Como acontece muitas vezes na ciência, resolver uma questão gera outras: com que mecanismo os flagelos efetuam esse cálculo? Os autores do estudo levantaram a hipótese de que os íons de cálcio, que servem de mensageiros da informação no flagelo, são detetados em velocidades diferentes por duas proteínas, uma rápida e outra mais lenta. Entre as duas detecções o espermatozoide traça seu caminho, e é comparando as taxas de cálcio nesses dois captores que ele "saberá" se está na direção certa ou se é preciso mudar de rumo. Os pesquisadores se perguntam também se o fenômeno se dá igualmente com os espermatozoides dos mamíferos. A mesma indagação se aplica aos micronadadores dotados de flagelos ou cílios vibráteis, com é o caso de algumas algas verdes, de espécies de zooplâncton ou ainda dos paramécios. Um dos autores do estudo, Luis Alvarez, que trabalha no Caesar (sigla inglesa para Centro Europeu de Estudos e Pesquisas Avançados), me fez observar que, de uma maneira mais geral, "os cílios estão presentes por todo lugar, e notadamente no corpo humano: eles limpam nossas vias respiratórias, eles fazem a diferença entre a esquerda e a direita do nosso corpo quando da embriogênese -- o que, por exemplo, ajuda nosso coração a estar no lugar certo. Os cílios também empurram o óvulo nas trompas de Falópio, e têm inúmeras outras funções. Posso perfeitamente imaginar que esse tipo de cálculo, em resposta a estímulos, esteja também presente em alguns desses cílios".

Um espermatozoide - (Foto: Le Monde).

sexta-feira, 23 de março de 2012

Excesso de limpeza em crianças pode levar a doenças inflamatórias

Mamães e papais, prestem atenção: além de leite e carinho, proporcionar alguns bons micróbios para seus nenês também é uma ótima opção para a saúde futura dos rebentos, mostraram cientistas nos EUA e na Alemanha.

É o que já diz há tempos a chamada hipótese da higiene, segundo a qual um pouco de falta de asseio no começo da vida ajuda a impedir que o filhote contraia coisas como asma ou doença inflamatória intestinal.

Crianças criadas em fazendas têm menos doenças inflamatórias que as que crescem em cidades, pois são expostas a uma variedade maior de micróbios, segundo a "hipótese da higiene". Isso explicaria o aumento dessas doenças em ambientes urbanos nas últimas décadas. O excesso de limpeza poderia ser até prejudicial, segundo essa visão. E não adianta adiar o encontro com os micro-organismos. A exposição a eles na fase adulta não reverte o quadro das doenças inflamatórias, várias delas crônicas.

Isso acaba de ser claramente demonstrado em uma série de experimentos feitos com camundongos. Os pesquisadores estudaram roedores praticamente livres de micróbios, criados em condições estéreis e recebendo comida sem germes, além de seus colegas em condições mais naturais. O estudo foi coordenado por Dennis Kasper e Richard Blumberg, da Escola de Medicina da Universidade Harvard, e publicado na revista especializada "Science".

A exposição a micróbios desde cedo alterou os níveis de células de defesa do organismo, as chamadas células T assassinas naturais.  Ao contrário do que se poderia imaginar, os camundongos sem micróbios tiveram índices mais altas de inflamação dos pulmões e do colón, semelhantes à asma e à colite. Isso foi obra de células T excessivamente zelosas na defesa do organismo -- tanto que causaram um problema em vez de resolvê-lo.

Para testar a "hipótese da higiene", a equipe expôs filhotes de camundongos aos micróbios de praxe. O resultado foi um sistema de defesa com sintonia mais adequada e a prevenção dessas doenças inflamatórias.  Fazer a mesma coisa com camundongos adultos não deu certo, mas a proteção aos filhotes "microbizados" foi duradoura. Na falta dos micróbios "do bem", o organismo produziu um excesso de uma substância conhecida como CXCL 16, vinculada à inflamação. A sobra da molécula poderia estar ligado ao acúmulo das células T.

Para Blumberg, foi surpreendente encontrar esse sinal microbiano "crítico", que está ligado à "educação" do sistema de defesa do organismo, durante as primeiras semanas de vida.  Os autores do estudo afirmam que o CXCL 16 é um fator que, na presença de micróbios, regula a quantidade e a função das células T no cólon e nos pulmões, "e, consequentemente, a suscetibilidade à inflamação dos tecidos". Mas eles lembram que o mecanismo exato pelo qual os micróbios causam isso ainda é desconhecido. E é isso que eles estão tentando estudar agora.

Germes do bem - veja como foi o experimento (clique na imagem para ampliá-la) - (Ilustração: Editoria de Arte/Folhapress).