quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

5 decisões para simplificar sua vida tecnológica

[Traduzo a seguir reportagem de Brian X. Chen publicada no The New York Times. Percebe-se pelo texto, sem surpresa, que é muito mais fácil ser ecologicamente correto e ter melhor retorno para seu dinheiro na área digital nos Estados Unidos que no Brasil.]

5 decisões para simplificar sua vida tecnológica

Brian X. Chen - The New York Times, 03/01/2017

Ilustração: Minh Uong/The New York Times

Em 2017, por que não tentar um novo tipo de decisão de Ano Novo? Em vez de apenas partir para a ginástica e perder alguns quilos, pense em mudar alguns hábitos para simplificar a tecnologia na sua vida. 

Se você é como a maioria das pessoas, há coisas que você faz com a tecnologia que podem usar ou sofrer algum ajuste. Fortalecer a segurança de sua senha, por exemplo, seria tremendamente benéfico para você em uma época em que a pirataria é desenfreada. Outro exemplo, eliminar o lixo eletrônico que você acumulou ao longo dos anos ajudaria o meio ambiente e sua sanidade. Enquanto você está com a mão na massa, comece por fazer alguma manutenção nos seus equipamentos eletrônicos para assegurar-se de que funcionarão sem problemas este ano. 

Eis minhas principais recomendações para decisões a serem tomadas para fazer a tecnologia menos frustrante este ano.

Faça uma limpeza na higiene de sua senha

Ilustração: Minh Uong/The New York Times

Que cheiro é esse? É da higiene ruim da sua senha. Você provavelmente está usando a mesma senha em muitos sites para atividades bancárias, shopping, redes sociais e email.

Isso é compreensível: uma pessoa pode apenas decorar tantas senhas. Mas em 20016, Yahoo fez lembrar a todo mundo que reutilizar senhas é uma ideia muito ruim após revelar que 500 milhões de contas Yahoo foram comprometidas em 2014, em acréscimo ao 1 bilhão de contas que foram pirateadas em 2013. Se a senha de sua conta no Yahoo era a mesma que você usava alhures, essas outras contas estavam vulneráveis também. 

Comece 2017 passando algumas horas logando-se em cada uma de suas contas e criando senhas únicas, exclusivas e fortes. Para tornar isso mais fácil, use aplicativos como o LastPass ou o 1Password, que são apps de gerenciamento de senhas que permitem que você use uma senha master para abrir um "cofre" de senhas para se conectar a todas às suas contas na internet. Esses apps também geram senhas fortes para você.

Então adicione uma camada de proteção adicional habilitando um verificador de dois fatores em suas contas, sempre que a opção estiver disponível. Quando você entra com a sua senha, você recebe uma mensagem (geralmente um texto) com um código para ser usado uma vez, que você tem que digitar antes de ficar logado.

Com esses dois passos simples você se ajudará a proteger-se dos hackers inevitáveis que surgirão este ano.

Faça manutenção de seus dispositivos 

Ilustração: Minh Uong/The New York Times

Após serem usados regularmente, nossos smartphones e computadores começam a responder lentamente e a ter vida curta, mas um pouco de manutenção pode fazê-los sentir-se novinhos.

Primeiramente, verifique as condições de suas baterias. No caso de iPhones e iPads, você pode conectá-los a um iMac e rodar o aplicativo coconutBattery, que mostra estatísticas de baterias. Com dispositivos Android, você pode usar o aplicativo Battery, da MacroPinch. Se sua bateria estiver em seus estertores, é a hora de comprar uma nova ou de agendar uma visita a um serviço técnico de manutenção para trocá-la.

Se seu dispositivo estiver lerdo, liberar algum armazenamento pode fazer também uma tremenda diferença. Comece eliminando aplicativos que você nunca mais usou. Depois, faça alguma coisa com aquelas fotos que você nunca mais olhou: faça  um backup de todas as suas fotos para a nuvem usando serviços como o Google Photos, em seguida delete-as de eu dispositivo para começar o novo ano com um novo rolo de fotos.

Mostre também algum carinho físico para com seus dispositivos e engenhocas. Faça uma boa limpeza de suas telas com um pano úmido. Se você tem um desktop, abra-o e use ar comprimido para remover a poeira.  

Faça essa manutenção básica a cada seis meses e seus dispositivos funcionarão sem problemas durante anos. 

Preste atenção à sua infraestrutura


Ilustração: Minh Uong/The New York Times

Não hesitamos em comprar smartphones novos a cada dois anos -- mas aquele desprezado e feio roteador de Wi-Fi enfiado num canto da sala de estar pode ser o produto tecnológico mais importante a ser atualizado a cada  dois anos. Entre todas as dores de cabeça tecnológicas, não há nada mais irritante do que conexões de internet lentas e de má qualidade.

Comece cada ano novo fazendo algumas verificações na sua infraestrutura de  internet. Se seu roteador tiver mais de três anos de idade, você provavelmente precisa de um novo que seja compatível com os padrões mais rápidos e mais inteligentes de hoje. Se estiver apoiado em um roteador fornecido por seu provedor de banda larga, você deveria provavelmente comprar um roteador independente mais  poderoso. 

O site Wirecutter, de recomendação de produtos, de propriedade do The New York Times, recomenda  o TP-Link's Archer C7 como o melhor roteador para a maioria das pessoas. Se você tiver um know-how menos técnico, lhe recomendo o sistema de Wi-Fi da Eero, que oferece um aplicativo de smartphone que mantém seu [de você] controle através da configuração da rede.

Desperdice menos

Ilustração: Tom Grillo

Engenhocas e cabos elétricos sem uso ocupam um bocado de espaço em gavetas e sótãos. Esse lixo eletrônico teria melhor destino se fosse vendido ou doado para alguém que dele necessite, ou reciclado por causa dos metais valiosos que contém.

Durante o período de limpeza na primavera, planeje tirar esse refugo indesejado de sua vida. Empresas como Amazon e Gazelle oferecem serviços livres de dores de cabeça em negócios que aceitam material/equipamento usado como parte do pagamento de material/equipamento novo.

Simplesmente, entre com os dados da engenhoca ou dispositivo que vocês tenta comercializar, como um iPhone usado ou um dispositivo Samsung Galaxie, e esses sites lhe dirão quanto dinheiro ou crédito na loja Amazon você pode obter em troca por  seus dispositivos. Empacote então seu hardware ultrapassado, ponha-lhe uma etiqueta, deixe-o num centro de  transporte ou remessa e espere o dinheiro entrar na sua conta.

Há um limite para ser lixo eletrônico invendável na sua pilha. Nos Estados Unidos, todos os locais da Best Buy aceitarão seus eletrônicos usados e os reciclarão de graça. Simplesmente ensaque seus itens e os deixe no balcão de serviços para clientes, e  a rede varejista fará o resto.

Seja um comprador mais esperto

Ilustração: Minh Uong/The New York Times

Para conseguir grandes compras de eletrônicos, não é preciso esperar até uma Black Friday ou uma Cyber Monday. Pesquise cuidadosamente os itens de alta qualidade e longa duração que você quer e compre-os quando seus preços baixarem significativamente. Essa técnica pode ser especialmente útil nas compras online de equipamentos ou produtos cujos preços caem à medida que eles envelhecem.

Ferramentas da web como Camel Camel Camel e Keepa fazem ficar fácil rastrear preços na Amazon.com. Nos seus sites, simplesmente faça uma busca pelo nome do item e eles lhe darão um histórico de preços. A partir daí, você pode criar um rastreador que o alertará por email sempre que um preço cair para um valor desejado.

Outro modo de poupar dinheiro é considerar a hipótese de comprar produtos usados sempre que possível. Busque cuidadosamente por vendas de eletrônicos usados ou reformados de marcas reputadas como Apple, GameStop, Amazon e Gazelle. Antes de comprar um item de segunda mão leia cuidadosamente as condições em que se encontra: frequentemente, produtos vendidos como usados mal foram tocados antes de serem devolvidos, ou foram rearmazenados como "bons como se fossem novos" por um centro de reforma ou remodelagem.

sábado, 7 de janeiro de 2017

A barbárie da mutilação genital feminina

[Traduzo a seguir uma reportagem de Ondine Debré, publicada no jornal francês Le Monde. Ela aborda a prática absurda e bárbara da mutilação genital feminina, adotada em inúmeros países e em comunidades expatriadas mundo afora. 

A mutilação genital feminina (MGF), também conhecida por circuncisão feminina, é a remoção ritualista de parte ou de todos os órgãos sexuais externos femininos. Geralmente executada por um circuncisador tradicional com a utilização de uma lâmina de corte, com ou sem anestesia, a MGF concentra-se em 27 países africanos, no Iémen e no Curdistão iraquiano, sendo também praticada em vários locais na Ásia, no Oriente Médio  e em comunidades expatriadas em todo o mundo. A idade em que é realizada varia entre alguns dias após o nascimento e a puberdade. Em metade dos países com dados disponíveis, a maior parte das jovens é mutilada antes dos cinco anos de idade.

Os procedimentos diferem de acordo com o grupo étnico. Geralmente incluem a remoção do clitóris e do prepúcio clitoriano e, na forma mais grave, a remoção dos grandes e pequenos lábios e encerramento da vulva. Neste último procedimento, denominado "infibulação", é deixado um pequeno orifício para a passagem da urina e do sangue da menstruação, e a vagina é aberta para relações sexuais e parto. As consequências para a saúde dependem do procedimento, mas geralmente incluem infecções recorrentes, dor crônica, cistos, impossibilidade de engravidar, complicações durante o parto e hemorragias fatais. Não são conhecidos quaisquer benefícios médicos. 

Neste último procedimento, denominado "infibulação", é deixado um pequeno orifício para a passagem da urina e o sangue menstruação e a vagina é aberta para relações sexuais e parto. As consequências para a saúde dependem do procedimento, mas geralmente incluem infeções recorrentes, dor crónica, cistos, impossibilidade de engravidar, complicações durante o parto e hemorragias fatais. Não são conhecidos quaisquer benefícios médicos. 

A prática tem raízes nas desigualdades de gênero, em tentativas de controlar a sexualidade da mulher e em ideias sobre pureza, modéstia e estética. É geralmente iniciada e executada por mulheres, que a vêem como motivo de honra e receiam que se não a realizarem a intervenção as filhas e netas ficarão expostas à exclusão social. Mais de 130 milhões de mulheres e jovens foram alvo de mutilação genital nos 29 países onde é mais frequente. Entre estas, mais de oito milhões foram infibuladas, uma prática que na sua maioria ocorre no Djibuti, Eritreia, Somália e Sudão.

A mutilação genital feminina vem sendo considerada ilegal ou restringida em grande parte dos países onde é comum, embora haja grandes dificuldades em fazer cumprir a lei. Desde a década de 1970 que existem esforços internacionais para promover a rejeição desta prática. Em 2012, a Assembleia Geral das Nações Unidas reconheceu a mutilação genital feminina como violação de direitos humanos e votou de forma unânime no sentido de intensificar estes esforços. No entanto, existem algumas críticas por parte de antropólogos.

É digno de nota -- digo eu e não a Wikipédia -- que todos os comentários sobre as sequelas dessas mutilações, abordados acima, referem-se apenas à saúde física das mutiladas, ninguém se preocupou com o trauma psicológico das vítimas.

O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

As mulheres mutiladas

Ondine Debré - Le Monde, 22/12/2016


Ilustração: Aline Bureau

Hoje, Mintou é uma mulher jovem "restaurada". Restaurada? Isto quer dizer que ela não está mais excisada, e para ela é importante dizê-lo: "Fui excisada quando bebê em Paris, tinha apenas alguns dias de vida. Vivi incompleta até meus 25 anos. Sou uma outra mulher, estou restaurada, estou completa". 

A restauração de que fala Mintou não é apenas a de seu clitóris, mesmo que ela tenha sido feita há oito meses, mas a de sua identidade como mulher, de seu psiquismo, de todo o seu ser em suma. Um equilíbrio reencontrado  entre seu corpo e seu espírito, graças à operação e graças à tomada de consciência que a acompanhou. Para a psicanalista Catherine Bensaïd, o traumatismo da excisão é comparável ao do estupro: "Essas mulheres que foram agredidas em sua intimidade ficam fragilizadas de maneira irremediável". 

As Nações Unidas estimam que mais de 200 milhões de meninas e moças sofreram uma forma de mutilação genital feminina nos 29 países da África e do Oriente Médio onde a prática é mais corrente. A maior parte dos países da África proíbe e condena oficialmente as mutilações sexuais femininas. Entretanto, um país como o Egito, que as proíbe desde 2008 [tão tarde assim?!], conta com 91% das mulheres de 15 a 49 anos excisadas segundo um relatório da Unicef de 2013. 

Na França, mesmo que as cifras sejam difíceis de serem definidas, estima-se que haja mais de 60.000 mulheres excisadas. E segundo a federação GAMS (Grupo para a Abolição de Mutilações Sexuais), 350 excisões são realizadas  cada ano -- estimativa por baixo. No dia 23 de novembro, o Ministério dos Direitos das Mulheres apresentou um quinto "plano de mobilização e de luta contra todas as violências cometidas contra as mulheres", do qual três medidas visam a reforçar a prevenção da excisão e a manter um acompanhamento firme junto às mulheres e meninas afetadas. 

Para aqueles que a praticam, a excisão é considerada para preservar as mulheres da infidelidade enquanto estão casadas. Privadas do prazer, elas não irão procurá-lo alhures. A tal ponto, que uma jovem não excisada não é considerada boa para casar. É importante enfatizar que nenhum preceito religioso exige esse ato sangrento.

"Era tabu"

Quanto à questão de saber se se pode viver sem clitóris, a resposta é não. No plano físico, ginecologistas e urologistas são formais: uma ablação inteira do clitóris, com ou sem os pequenos lábios, acarreta numerosos problemas que podem por em risco a saúde das mulheres e das crianças que vierem a delas nascer: "A cicatriz é uma zona mais dura, e quando do parto a passagem do bebê tem fortes chances de deslocar essa cicatriz", explica o urologista Pierre Foldès, especialista na reparação de mutilações sexuais em mulheres. 

Essas mulheres não sentem nenhum prazer sexual, e pior: para a maioria delas, as relações sexuais são dolorosas ou desconfortáveis. Uma em cada três mulheres excisadas sofre de incontinência urinária pelo resto da vida. 

Natural do Mali, Mintou não tinha ainda um mês de idade quando foi "cortada" em Paris pela célebre executora de operações excisórias Hawa Greou, condenada em 1999 a oito anos de prisão (cinco dos quais em regime fechado). Mintou foi levada por sua mãe e por sua avó, como quatro  de suas outras cinco irmãs. Com uma faca à qual atribuía a força dos espíritos, Hawa Greou cortou o clitóris da criancinha com um gesto seguro e enérgico que sua mãe e sua avó repetiram outrora. Uma excisão de "tipo 1", como diria mais tarde o doutor Foldès a Mintou: somente o clitóris havia sido extirpado, a operação havia poupado os pequenos lábios vaginais.  

A menina cresceu em um grupo feliz de irmãos e irmãs, retorna com frequência ao Mali e jamais fala de seu sexo com sua mãe. "Cresci no amor de meus pais. Meu pai fazia serviços de limpeza, lutou para que pudéssemos viver. Eu sabia que na nossa casa as meninas e moças eram excisadas, mas isso era tabu, jamais se falava sobre isso", explica ela. De tal modo que, quando da morte de sua mãe -- ela com 18 anos -- Mintou sofreu muito, certamente, mas tinha também a necessidade de saber o que lhe ocorrera. Marca consulta com um ginecologista e lhe pergunta imediatamente: "Sou excisada?". A resposta não a surpreendeu.  

Frédérique Martz, que trabalha com mulheres mutiladas no Instituto de Saúde Genética de Saint-Germain-en-Laye, explica que algumas dessas mulheres crescem sem verdadeiramente saber que foram excisadas e ficam sabendo disso por acaso em uma consulta médica, quando de uma gravidez por exemplo. "Mas para todas aquelas com quem me encontrei", diz ela, "o fato de ser excisada provoca grandes sofrimentos psíquicos, que o tabu que pesa sobre essa prática não ajuda a minimizar".  

A quê se parece um clitóris? Esta pergunta persegue as mulheres excisadas. A imagem desse pequeno apêndice e o papel que desempenha no prazer que se lhes retirou não cessam de alimentar a imaginação dessas mulheres incompletas. De tal modo que Mintou, que é auxiliar de enfermeira, dirige seu olhar ao sexo de suas pacientes. Discretamente, fortuitamente, ela tenta ver, quando de  um atendimento, o que se esconde entre as pernas das mulheres intactas. 

"Queria ver como era o sexo de uma mulher normal. Mais tarde falei com meu pai sobre minha excisão, ele ficou desolado e lamentou que isso tivesse ocorrido. Discutimos muito sobre isso e jamais tive ressentimento ou rancor por meus pais por causa disso", conta a jovem que, alguns anos mais tarde, decidiria fazer-se uma restauração na clínica do Dr. Foldès. A parceria que ele forma com Frédérique Martz permitiu a mais de 5.140 mulheres reencontrar sua integridade física graças a essa operação de restauração, que é reembolsada pela seguridade social, e para a maioria delas retomar sua vida sexual.

"Não pressiono forçosamente para a cirurgia", diz Frédérique Martz. "O trabalho é longo: a reparação, na medida em que por si só não basta, exige todo um trabalho de readaptação a fazer que acompanhamos no pós-operatório. Isso passa por massagens no clitóris recém-surgido, o que certas mulheres -- principalmente as muçulmanas -- se recusam de início a fazer. Mas, sem isso o prazer não vem". A médica recebe frequentemente apelos assustados de mulheres para as quais as sensações demoram a aparecer. às vezes, são fotos de seus sexos que as mulheres lhe enviam para se assegurarem de que  tudo evolui bem ...

Aïda, de 32 anos, espera por uma consulta um mês após sua operação. Seu perfil tenso se desenha à luz da sala de espera, e seus cabelos encaracolados puxados  para trás formam uma coroa em torno de seu semblante. Mesmo que hoje esteja bem, a cólera transparece em sua voz quando essa mulher jovem conta sua história. 

"Sou africana e originária da Guiné-Conakry, mas cresci em Serra Leoa. Em minha família, as meninas são excisadas na idade entre 6 e 7 anos. Essas tradições não são questionadas, isso deve ser feito", conta ela. "Guardei tudo na memória: a casa suja e ordinária que não conhecia, a tanga ensanguentada diretamente sobre o chão, o medo que me invadiu quando senti essa mulheres me segurarem, os gritos que emitia, e a dor que ali aparecia várias vezes ... Podia encontrar o lugar, sem nenhuma dúvida. Foi minha avó que me levou, ela me falava "da etapa de iniciação". Penso nisso de novo todos os dias, dez vezes por dia ...".

Hoje, essa jovem mulher se sente renascer, quase que no sentido mesmo da palavra: "Foi levada uma parte de mim, era realmente difícil me identificar. Tenho hoje uma filha de 6 anos, e tinha vergonha de olhá-la, não conseguia lavá-la entre as pernas quando ela era pequena".  Um ódio dessa parte do corpo encontrado entre as mulheres violadas. 

Da operação, Aïda guarda uma lembrança angustiada porque o próprio ato cirúrgico ainda que não muito longo nem muito doloroso despertou as lembranças da excisão. "Mas valeu a pena, sou agora uma mulher completa. Falei com minha mãe sobre a excisão e a operação há uma semana. Estamos reconciliadas de uma certa forma, porque ela também sofria por ter deixado que me excisassem", diz Aïda.

Tradições, Educação, Submissão

Essa mulher jovem voluntária sempre foi senhora de seu destino: criada em uma família de homens, lutou desde pequena para escapar da escola em árabe e conseguiu ir com seus irmãos mais velhos à escola inglesa. Desembarcando na França aos 19 anos, casada aos 20 anos, ela abandona seu primeiro companheiro para quem não era problema a falta total de prazer sexual de sua esposa. Foi com seu novo marido que ela percorreu todo o caminho que a levou à sala de operação e que a conduzirá, quando ela decidir, a uma vida sexual que ela espera ser plena e feliz.

Essas histórias de mulheres são histórias de famílias, de destinos onde se misturam tradições, educação e submissão a um modelo patriarcal que para as novas gerações é imperativo que seja abandonado, se elas quiserem por um fim à prática da  excisão. A França, onde algumas delas nasceram e onde outras cresceram, condena como crime a excisão e todas as mutilações sexuais. Pela lei, o autor do ato e o responsável pela criança mutilada são passíveis de dez anos de reclusão e 150.000 euros de multa.

No hospital Hôtel-Dieu, em Paris [considerado o mais antigo da cidade], no serviço de emergências médico-judiciárias consagrado às vítimas de mutilações sua chefe, Caroline Rey-Salmon, e Céline Deguette colocam seus conhecimentos de médicas legistas a serviço da proteção de mulheres e meninas contra a excisão. Sã0-lhes encaminhadas as meninas, sob o sistema de proteção da mulher e da criança, em relação às quais um diretor de escola tenha sinalizado ao serviço de menores que foram excisadas ou correm o risco de sê-lo. Ao serviço de emergências cabe a tarefa de fazer um diagnóstico seguro sobre elas. 

"Quando uma menininha nos chega porque seus pais planejaram levá-las consigo para seu país durante as férias, nós examinamos seu estado físico. Se ela não for excisada, seus pais são obrigados a nos trazê-las ao retornarem das férias. Ela deve estar intacta, caso contrário a justiça é acionada para puní-los", explica Caroline Rey-Salmon. Ao prevenir o risco de excisão através de consultas com crianças "sob risco" e da condenação dos pais cujas filhas tenham sido mutiladas, a França protege da melhor maneira possível as mulheres em seu território. Mas nem sempre isso basta. 

Assa tem hoje 25 anos, vive no norte de Paris, se prepara para um diploma universitário e vive com seu noivo. Ela é uma mulher jovem de seu tempo. Um detalhe adicional: ela também foi excisada em Paris quando tinha 2 anos. Ela o soube por intuição. O assunto é um tabu tal, que ela teve que esperar ter 20 anos para poder falar sobre ele com seus pais, muitos anos depois deles terem sido condenados pela justiça francesa. 

Hoje, ela não quer mais culpá-los mas deseja lutar contra essa prática sangrenta. "Com base em que direito puderam eles dispor assim do corpo de sua filha? Se você disser à geração dos meus pais que eles são uns bárbaros não chegará a lugar nenhum, é preciso mais diplomacia e também de mais empatia",  provoca ela. 

O que a impressiona é que à sua volta, suas amigas tão parisienses, tão completamente assimiladas à cultura de sua terra natal, a França, são quase todas excisadas. Mulheres entre as quais Assa se levanta para se manifestar: "Sou orgulhosa de ser portadora dessas duas culturas. A África corre em minhas veias, mas jamais mutilarei minha filha. Cabe à nossa geração romper a cadeia e cassar as lâminas das executoras de excisão".

[Recomendo fortemente a leitura do livro "Infiel", de Ayaan Hirsi Ali (Companhia das Letras, 2004). A autora é uma ativista, escritora, política e feminista ateísta somali-holandesa-americana, que é conhecida por seus pontos de vista críticos da mutilação genital feminina e o islamismo. Ela escreveu o roteiro de Submission, filme de Theo van Gogh. Depois que ela e o diretor receberam ameaças de morte o diretor foi assassinado. Filha do político somali e líder da oposição Hirsi Magan Isse, ela é uma das fundadoras da organização de direitos das mulheres AHA Foundation.

Quando tinha oito anos, sua família deixou a Somália para a Arábia Saudita, depois Etiópia, e acabaram por se instalar no Quênia. Ela pediu e obteve asilo político nos Países Baixos em 1992, em circunstâncias que mais tarde se tornaram o centro de uma controvérsia política. Em 2003 foi eleita membro da Câmara dos Representantes (câmara baixa do parlamento holandês), representando o Partido Popular para a Liberdade e Democracia (VVD). Uma crise política em torno do potencial de remoção de sua cidadania holandesa levou à sua renúncia ao parlamento, e levou indiretamente à queda do segundo gabinete Balkenende em 2006.

Em 2005, ela foi nomeada pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Ela também recebeu vários prêmios, inclusive um prêmio de liberdade de expressão do jornal dinamarquês Jyllands-Posten, o Prêmio Democracia do Partido Liberal Sueco, e o Prêmio Coragem Moral de compromisso com a resolução de conflitos, ética e cidadania mundial. Em 2006, ela publicou um livro de memórias.  Em 2013 Hirsi Ali se tornou fellow da John F. Kennedy School of Government da Universidade Harvard, um membro da The Future of Diplomacy Project at the Belfer Center, e vive nos Estados Unidos. Ela é casada com o historiador britânico e comentarista público Niall Ferguson. Se tornou uma cidadã naturalizada nos Estados Unidos em 25 de abril de 2013.]

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Pintores estrangeiros (26): A arte pouco conhecida de Adelino Ângelo

[O blogue já apresentou as seguintes postagens sobre pintores estrangeiros, em ordem alfabética:

  1. Alta Renascença italiana
  2. Banho, o berço da intimidade (III) - ver também (II) e (I)
  3. Bosch
  4. Caravaggio
  5. Cézanne (e outros) - Exposição imperdível em Paris
  6. Corot
  7. Degas
  8. De Kooning
  9. Egon Schiele
  10. Gênios da pintura barroca
  11. Imagens da prostituição
  12. Impressionistas no CCBB do Rio
  13. Klimt
  14. Leonardo da Vinci
  15. Matisse
  16. Michelangelo
  17. Obras do  Louvre no MASP
  18. Picasso -- gravuras no Museu Britânico
  19. Picasso (e outros) - Exposição imperdível em Paris
  20. Picasso - nova obra encontrada
  21. Rafael Sanzio
  22. Rembrandt
  23. Renoir
  24. Toulouse Lautrec
  25. Van Gogh


Para esta postagem, usei como referências o livro "As emoções de Adelino Ângelo", da APM - Associação Paulista de Medicina, 2014, a Wikipédia e o Google. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. Infelizmente, o site oficial do pintor é de péssima qualidade em termos de informação e conteúdo -- os quadros são mostrados por fotos, sem nenhuma informação: tipo de pintura, data, dimensões e de que acervo faz parte. Impressionante e lamentável!]


Adelino Ângelo (1931)  - O artista português Adelino Ângelo ao lado de um de seus autorretratos, por ocasião de exposição sua na Pinacoteca da APM em junho de 2008 - (Foto: APM)


Adelino Ângelo nasceu em 8 de Novembro de 1931, em Vieira do Minho, Portugal. Viveu com os seus avós, em Guimarães, pelo motivo do seu pai ser Juiz e Conservador do Registo, que não lhe permitia ter residência permanente. Estudou em Guimarães e, de seguida, frequentou a Escola Superior de Belas Artes em Lisboa. Aos 17 anos, já era considerado grande desenhador e com a execução de trabalhos de desenho conseguiu pagar os seus estudos e estadia em Lisboa. De 1961 a 1971, foi Professor na Escola Comercial e Industrial Francisco de Holanda, em Guimarães. Foi o único Professor em Portugal que enriqueceu o património de uma escola, com painéis dos Reis e personagens do Estado, para imbuir no espírito dos alunos o cultivo da cultura.

Toda a sua obra é vincada pela fusão de emoção, realização, originalidade e sentido de criação, tornando-se, desta forma, num ambiente amargo mas ao mesmo tempo terno para os olhos de quem a contempla. A sua pintura é a consciência sentida a seu modo, daí que se constitui como o protagonista de uma obra dramática por ser o criador. A sua obra é considerada didáctica, pedagógica e científica pois é a prova de como a realização através do desenho é a trave mestra da pintura porque, se assim não fosse, nunca poderia ser o pintor "Universal". Mediante esta pequena descrição sobre as obras, o que lhe é imposto é conduzir a sociedade à sua purificação onde existem enormes desigualdades. Se continua a pintar a dor do ser humano, a loucura e os nómadas, então a sua pintura encaixa em pleno no modernismo, não fossem estas as características mais vincadas da sociedade onde se insere. Segundo os seus críticos, está comprovado tratar-se de um pintor psicanalista universalista.

Sobre o mestre Adelino Ângelo, já teve quem dissesse ser a reencarnação de El Greco [Doménikos Theotokópoulos, mais conhecido como El Greco (O Grego), nasceu em Creta (que na época pertencia à República de Veneza e era um centro artístico pós-bizantino) em 7 de outubro de 1541 e morreu em Toledo em 7 de abril de 1614. Era um pintor, escultor e arquiteto grego que desenvolveu a maior parte da sua carreira na Espanha -- assinava suas obras com o nome original, ressaltando sua origem] na vida dos miseráveis; outros, da luz de Sorolla y Bastida, e há ainda aqueles que identificaram em seus quadros o psicólogo da loucura universal [Joaquín Sorolla y Bastida (27 de fevereiro de 1863, Valência - 10 de Agosto de 1923, Cercedilla), na fase inicial da sua carreira, foi dos mais tradicionais. Ele cumpriu toda a trajetória considerada necessária na época para o pintor que se valorizasse como acadêmico. Entretanto, a partir de 1900, seu estilo se revelou de forma espetacular, manifestando-se em pinceladas rápidas e carregadas de tinta, que em poucos traços plasmavam a rica e vibrante gama de cores das praias e transeuntes que ocupavam suas telas].  

A grande paixão do mestre é pintar figuras da miséria, andrajosos, esmoleres e loucos. Seus rostos escavados pelas agruras cotidianas e seus corpos definhados pelas necessidade de todo gênero, ao serem transportados às telas, ganham importância ao pasmar os observadores.



Mãe cigana (1971), óleo sobre tela, 51 x 41 cm. Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - (Foto: Pinacoteca)


Mãe cigana (19?), óleo sobe tela - (Foto: Google)



Óleo sobre tela. Nome? Data? Mais um show de desinformação de Adelino Ângelo. Pela temática e pela figura central da pintura, parece tratar-se da mesma mãe cigana dos quadros imediatamente acima deste - (Foto: Google)




Gesto de liberdade (1976), óleo sobre tela, 49 x 64 cm. Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - (Foto: minha)



Fominha (1979), óleo sobre tela - (Foto: Google)



A vassoura também dá música (1979), óleo sobre tela - (Foto: Google)



Louco (1980), óleo sobre tela, 35 x 32 cm. Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - (Foto: Google)



Riso de louco (1982), óleo sobre tela, 64 x 50 cm. Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - (Foto: Google)



Desesperado (1982), óleo sobre tela - (Foto: Google)




Choro sem lágrimas (data desconhecida), óleo sobre tela - (Foto: Google)




Perturbado (data desconhecida), óleo sobre tela - (Foto: Google)




Sem título (data desconhecida), óleo sobre tela. Coleção do autor - (Foto: Google)



Mendigo (data desconhecida), óleo sobre tela - (Foto: Google)



Este é o  Teu Filho (data desconhecida), óleo sobre tela - (Foto: Google)




Avenida (data desconhecida), óleo sobre tela - (Foto: Google)



Mulher (data desconhecida), óleo sobre tela - (Foto: Google)



Depois do trabalho (1996), óleo sobre tela, 91 x 61 cm. Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - (Foto: Google)



Único tesouro (1999), óleo sobre tela, 46 x 40 cm. Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - (Foto: Google)




Autorretrato (data desconhecida), óleo sobre tela - (Foto: Google)



Pai, por que me abandonaste? (2004), óleo sobre tela, 190 x 114 cm. Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - (Foto: Google)



Autorretrato em Paris (2005), óleo sobre tela, 95 x 74 cm. Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - (Foto: Google)




Sem título (data desconhecida), óleo sobre tela. Coleção do autor - (Foto: Google)



Veneziano em Madrid (2007), óleo sobre tela, 63 x 48 cm. Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - (Foto: minha)




Homenagem ao meu amigo Mick Jagger(2007), óleo sobre tela, 50 x 37 cm. Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - (Foto: minha)



O homem do boné (2008), óleo sobre tela, 95 x 65 cm. Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - (Foto: minha)





Doutor Guido Palomba (2008), óleo sobre tela, 60,5 x 50,5 cm. Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - (Foto: minha)



Figura em Buenos Aires (2009), óleo sobre tela. Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - (Foto: Google)



A caminho de Apúlia (2009), óleo sobre tela - (Foto: Google)



Paisagem Apúlia (2009), óleo sobre tela, 50 x 69 cm. Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - (Foto: Google)



A minha mulher no Brasil (2009), óleo sobre tela, 107 x 104 cm. Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - (Foto: minha)