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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Líbia: mais um desastre subsequente a uma intervenção militar americana

Muito recentemente, o presidente Obama causou uma comoção diplomática com dois parceiros militares tradicionais dos EUA, França e Reino Unido, ao referir-se depreciativamente e sem rodeios à participação dos dois na intervenção militar na Líbia em 2011, capitaneada pelos americanos via OTAN. A imprensa americana, obviamente, foi mais autêntica que a brasileira ao reproduzir a fala de Obama. Segundo o site da revista The Atlantic, que entrevistou o presidente americano, Obama disse que a falta de concentração da Europa gerou o caos que ocorre na Líbia (como sempre, zero de mea culpa do lado americano).

Obama disse que o primeiro-ministro David Cameron (Reino Unido) "distraiu-se com um monte de outras coisas após a operação" e parou de prestar atenção na Líbia.  Cameron e o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy receberam a carga maior das críticas do presidente americano.

Com relação à França, Obama disse que "Sarkozy queria trombetear os voos que a França vinha fazendo na operação aérea, apesar do fato de que nós [americanos] tínhamos destruído todas as defesas aéreas líbias e, essencialmente, criado toda a infraestrutura necessária para a operação".

Embora considere que a intervenção tenha sido bem feita como poderia, Obama vê a Líbia hoje como uma "bagunça". Este é o termo diplomático, reservadamente, diz a revista (The Atlantic) que o entrevistou, ele se refere a esse país problemático como um "show de merda". Ele considera que isso ocorreu por razões que se devem mais à passividade dos aliados dos EUA e ao obstinado poder do tribalismo do que à incompetência dos americanos.

Por mais que se esforce, Obama não conseguirá apagar ou minimizar mais um enorme fracasso político-estratégico americano a partir de mais uma intervenção militar (que, segundo Obama, custou US$ 1 bilhão -- muito barato em termos de operações militares, disse ele).

Em 27/02/2016, o site do jornal International New York Times publicou uma reportagem inusitadamente longa (a versão impressa saiu em 01 de março corrente) de Scott Shane e Jo Becker sobre o caos em que está mergulhada a Líbia. O subtítulo da reportagem diz que "a queda de Gaddafi deu razão a (Hillary) Clinton inicialmente, até que a guerra civil e o Estado Islâmico se estabeleceram".

A reportagem descreve a impaciência de Hillary (então secretária de Estado) quanto à conclusão da intervenção militar multinacional, que lhe custara muito trabalho para organizar. Confirmada a queda de Gaddafi, ela teve seus momentos de glória e durante semanas foi exaustiva e abertamente louvada pelo Departamento de Estado.

Mas, assinala a reportagem, já havia sinais de que o triunfo teria vida curta e de que o vácuo deixado por Gaddafi era um convite para a violência e a divisão interna no país. Os líderes líbios interinos pareciam chocantemente desconectados, o assassinato de um destacado general rebelde reforçava o risco de "crimes por vingança", islamitas se apressavam para tomar o poder e havia uma indolente indiferença quanto ao desarmamento dos combatentes das milícias que haviam derrubado Gaddafi e agora ameaçavam a unidade do país (e eram financiados pelo Qatar).

Num encontro na Universidade de Trípoli, Harol Koh, o principal advogado do Departamento de Estado e membro da comitiva de Hillary, ouviu de um estudante: "Sabemos o que os EUA podem fazer com bombas. O que mais vocês podem fazer?".

A pressão da Líbia para eleições em julho de 2012, nove meses após a morte de Gaddafi, parecia prematura para alguns observadores.  Em janeiro de 2012 havia um inequívoco prenúncio de problemas. Em 5 de janeiro, Hillary recebeu um email de Sidney Blumenthal, seu velho amigo e assessor, detalhando o ambiente na Líbia: tensões entre islamitas e secularistas quanto ao papel da lei islâmica, combates entre milícias rivais associadas a duas cidades, e milicianos furiosos exigindo concessões.

Após a queda de Gaddafi, com um mínimo de violência e uma amistosa liderança líbia interina, a Líbia foi rapidamente retirada do topo da agenda da administração Obama. As reuniões regulares sobre a Líbia na 'sala da situação', que frequentemente incluíam Obama, foram interrompidas.  A revolta na Síria, no coração do Oriente Médio e com o quádruplo da população da Líbia, assumiu o centro do cenário. A Líbia, disse Dennis B. Ross, um veterano especialista em Oriente Médio no Conselho Nacional de Segurança (NSC, na sigla inglesa), "foi preparada para a atuação de terceiros em nível operacional". A desatenção com o país não era uma simples negligência, era uma política, uma estratégia.

"O presidente estava no clima de 'não iremos fazer um outro Iraque'", disse Derek Chollet, então responsável pela Líbia no NSC. "E, por falar nisso, os europeus estavam o tempo todo dizendo 'não, não, nós estamos fazendo isso. Entendemos a situação e acreditamos na Líbia, ela está na nossa vizinhança".

Então, o presidente e o NSC definiram o que um alto funcionário chamou de "limites severos" para o papel dos americanos na Líbia: os EUA ajudariam apenas quando pudesse oferecer algo único em termos de capacitação, o faria apenas quando a Líbia explicitamente requisitasse tais serviços e apenas quando a Líbia pagasse por isso com suas receitas do petróleo. Na prática, isso significava que os EUA fariam muito pouco.

Embora o presidente francês Nicolas Sarkozy e o primeiro-ministro britânico David Cameron tivessem visitado a Líbia juntos, eles também estariam logo com suas atenções desviadas do país devido uma campanha por reeleição (Sarkozy) e preocupações econômicas.

Com o passar dos meses e com as lutas entre facções piorando, Hillary pressionou para que seu governo fizesse mais pela Líbia, solicitando por exemplo ao Pentágono para ajudar no treinamento das forças de segurança líbias. Mas ela não logrou êxito, pelas restrições de Obama e a resistência dos líbios. Até mesmo propostas simples sucumbiram. Quando Hillary propôs o envio de um navio-hospital para tratar combatentes líbios feridos, o NSC rejeitou a ideia.

Em fevereiro de 2012, Andrew Shapiro, secretário de Estado assistente para assuntos político-militares, tentava explicar o que os EUA estavam fazendo para guardar com segurança o vasto arsenal militar que Gaddafi havia deixado para trás -- uma notável exceção à política de não-intervenção. Shapiro descreveu os esforços para "galvanizar uma resposta internacional" à tarefa de localizar e destruir depósitos de armas. Mas, reconheceu que o programa de US$ 40 milhões que Hillary havia anunciado para isso não ia bem, mesmo quando ele alcançou as armas mais preocupantes, os Manpads, disparadores de mísseis apoiados nos ombros dos combatentes e capazes de derrubar uma aeronave.

"Quantos Manpads estão ainda desaparecidos? A resposta franca é 'não sabemos' e provavelmente nunca saberemos", disse Shapiro. "Não podemos descartar a hipótese de que algumas armas saíram da Líbia".

Enquanto a CIA movia-se rapidamente para guardar com segurança as armas químicas de Gaddafi, outros esforços falharam. "Havia um arsenal que acreditávamos ter 20.000 Manpads, mísseis terra-ar, mísseis SA-7, que basicamente desapareceram na boca insaciável do Oriente Médio e do norte da África", lembrou Robert M. Gates, o secretário de defesa dos EUA na época.

O plano inicial americano de comprar de volta o armamento dos milicianos através do governo interino líbio, com a assistência americana, não funcionou por causa dos líbios. Assim, o Departamento de Estado, atuando junto com a CIA, ficou encarregado de negociar isso com as milícias. Mas, havia pouco incentivo para que os milicianos vendessem suas armas. Como observou o Sr. Shammam, ex-porta-voz do governo interino: "Como é que você vai comprar um Kalashnikov [o famoso fuzil russo AK-47] por US$ 1.000 se, com essa arma, alguém pode fazer US$ 1.000 por dia raptando pessoas?".

Pior ainda, o programa incentivou as milícias a importar armas para vendê-las aos americanos.

No círculo mais próximo de Hillary, a euforia sobre os feitos dela na Líbia deu lugar a uma "perturbadora preocupação de fracasso", disse um assessor sênior da secretária. Assim, quando os líbios foram às urnas em 7 de julho, numa eleição considerada limpa por observadores internacionais, houve uma sensação de alívio por parte de Hillary e outros defensores da intervenção militar na Líbia. "Agora começa realmente o trabalho duro para construir  um governo efetivo e transparente que unifique o país", disse Hillary.

Mas a unidade do país já era impossível. Nas palavras de Gérard Araud, embaixador da França nos EUA: "De certo modo, essa unidade estava perdida desde o início. Foi o mesmo erro que cometeram no Iraque. Você organiza eleições num país sem experiência com transigências ou partidos políticos. Então, você tem uma eleição e pensa que tudo está resolvido. Mas, no final as realidades tribais ressurgem para assombrar o país".

Em vez de dar prioridade à desmobilização das milícias, o governo de transição líbio simplesmente começou a pagar salários aos combatentes, o que muitos deles consideraram como um dinheiro de proteção. "Não lhes dê salários por nada", lembra-se de pedir o Sr. Sagezli, chefe da Comissão de Assuntos dos Combatentes. "Dar dinheiro a um comandante significa dar força às milícias, gerar mais lealdade ao comandante, gerar mais armamentos e mais corrupção. Mas os políticos nunca me ouviram". Em vez disso, "os políticos começaram a suborná-los, para comprar lealdade".

Haig Melkessetian, um ex-agente de inteligência americano cuja empresa fazia a segurança das embaixadas europeias na Líbia, descreveu as milícias como uma "anarquia -- não há outra palavra para elas". Assassinatos e "o pior tipo de vigilantismo (fazer justiça com as próprias mãos)" tornaram-se comuns na Líbia. Se havia alguma pressão por parte de autoridades americanas ou europeias para que o governo líbio suspendesse seus pagamentos às milícias, ela não se fez ouvir.

Autoridades da coalizão moderada que governava o país solicitaram aos EUA que impedissem a rica nação do Qatar de continuar enviando dinheiro e armas para as milícias alinhadas com o bloco político islamita da Líbia. A pressão contra o Qatar foi barrada dentro do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa -- este último se opôs fortemente, porque havia uma história de 20 anos de estreita cooperação com o Qatar, que abriga bases americanas importantes. No final, não havia apetite para nada alem de uma diplomacia discreta.

Apenas no ano passado o presidente Obama repreendeu os países que estavam interferindo na Líbia, mas aí já era muito tarde. "Eles criaram os monstros com os quais lidamos hoje", disse o líder partidário líbio Abdallah, "que são essas milícias, que têm tanto poder que jamais se subordinarão a qualquer governo".

Em 8 de agosto de 2012, um mês após as eleições líbias, J. Christopher Stevens, embaixador americano na Líbia, enviou uma mensagem a Washington em que descrevia Bengasi (a segunda maior cidade líbia) como "oscilando entre a trepidação e a euforia, enquanto uma série de incidentes violentos tem dominado o cenário político", e alertou para a existência de um "vácuo de segurança". Stevens era considerado a autoridade americana que melhor conhecia a Líbia. Um mês depois do envio da mensagem, a missão dos EUA em Bengasi foi atacada e o embaixador Stevens foi um dos americanos mortos.

Se por um lado a tentativa de culpar Hillary pelo ataque em Bengasi certamente falharia, a noção de que a intervenção na Líbia se situava entre seus êxitos tornou-se solidamente mais desgastada. A Líbia não se adequaria às necessidades da política americana, quer como porrete quer como fanfarrice.

Quando Hillary deixou o Departamento de Estado em fevereiro de 2013, a guerra entre facções -- que se transformaria em guerra civil em 2014 -- estava num crescendo. O fluxo de refugiados que pagavam contrabandistas para uma viagem perigosa ao Mediterrâneo estava inchando. E o caos na Líbia daria nascimento a dois governos rivais -- um apoiado pelo Egito e os Emirados Árabes Unidos, e o outro com o suporte do Qatar, da Turquia e do Sudão -- provendo santuário para extremistas, aos quais logo se juntaram emissários do Estado Islâmico.

As armas que tornaram tão difícil estabilizar a Líbia estavam aparecendo na Síria, Tunísia, Argélia, Mali, Níger, Chad, Nigéria, Somália, Sudão, Egito e Gaza, frequentemente nas mãos de terroristas, insurgentes e criminosos. No outono de 2012, agências de inteligência americanas produziram uma avaliação confidencial da proliferação de armas provenientes da Líbia. Michael T. Flynn, então chefe da Agência de Inteligência de Defesa, disse: "não tínhamos esse tipo de proliferação de armamentos desde, na realidade, o fim da guerra do Vietnã".

Uma crítica cínica começou a circular em Washington: no Iraque, os EUA intervieram e ocuparam o país -- e as coisas foram para o inferno. Na Líbia, os EUA intervieram mas não ocuparam -- e as coisas foram para o inferno. E na Síria, os EUA não intervieram (?!) nem ocuparam, e ainda assim as coisas foram para o inferno.

Isso era humor negro, para desviar a culpa de estrategistas políticos americanos perplexos para uma região atribulada. Mas, gerou uma questão séria com relação à Líbia: se a derrubada de um ditador odiado em um país pequeno e relativamente rico acarretou problemas de tais magnitudes, a intervenção americana foi de algum modo justificada?

"É verdade que as coisas deram errado", disse Sagezli, da comissão de combatentes. "Mas do ponto de vista da Líbia, as coisas não podiam dar certo. Tivemos 42 anos de domínio de Gaddafi, sem infraestrutura, um terrível sistema educacional, milhares de prisioneiros políticos, divisões entre tribos, destruição do exército. Quando se tem um país como esse, depor o ditador equivale a liberar a pressão da panela fervente".

PS - Dessa história toda, digo eu e não as fontes que usei, fica mais uma vez patente a extrema incompetência dos EUA para avaliar a fundo, previamente, os países em que irá intervir e gerar uma perspectiva minimamente correta do que ocorrerá nesses países após essa intervenção. De quebra, ficou registrado que Hillary Clinton tem ainda muito que aprender em termos de geopolítica e Oriente Médio.


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Após pressão internacional, Líbia diz que investigará morte de Kadhafi

O governo interino da Líbia anunciou nesta segunda-feira que irá iniciar uma investigação sobre as circunstâncias da morte do ex-líder Muamar Khadafi, morto na última quinta-feira na cidade de Sirte. "Requisitamos, com base em pedidos vindos do exterior, que a morte de Khadafi seja investigada", disse o chefe do Conselho Nacional de Transição (CNT), Mustafa Abdel Jalil.

Também nesta segunda-feira, o governo líbio proibiu que o corpo de Khadafi continuasse a ser exposto para visitação pública em um local refrigerado da cidade de Misrata. Imagens de Khadafi ainda com vida foram registradas por celulares pouco depois de sua captura. Acredita-se que logo depois ele tenha morrido em decorrência de ferimentos causados por tiros.

Após a morte do ex-líder líbio, entidades como a Comissão de Direitos Humanos da ONU, a Anistia Internacional e a ONG Human Rights Watch pediram investigações sobre suas circunstâncias.

Jalil disse que a maioria dos líbios desejava que Khadafi pudesse ser julgado para pagar por seus eventuais crimes. "Líbios livres desejavam que Khadafi passasse o máximo de tempo possível na cadeia. Os que tinham interesse em uma morte rápida eram os que o apoiavam", afirmou.

Também nesta segunda-feira, o grupo de defesa dos direitos humanos com sede em Nova York Human Rights Watch alertou contra "assassinatos, saques e outros abusos" que teriam sido cometidos por opositores de Khadafi. As declarações foram feitas após a descoberta de 53 corpos em decomposição, aparentemente simpatizantes de Khadafi. Muitos pareceram ter sido executados. O estado de deterioração dos corpos sugere que eles foram mortos entre os dias 15 e 19 de outubro. O CNT negou envolvimento nos abusos e pediu para que os líbios não cometam ataques ou vinganças contra opositores.

Ainda nesta segunda-feira, Jalil reformulou declarações feitas no dia anterior de que a nova Líbia adotará leis baseadas na religião islâmica. "Quero assegurar a comunidade internacional de que nós somos muçulmanos moderados", disse ele. No domingo, ele disse que a adoção de leis religiosas acarretaria mudança de algumas regras atuais, citando a proibição da poligamia. "Minha referência de ontem não significa que aboliremos qualquer lei e quando falei das leis de casamento, elas foram apenas um exemplo, já que as regras islâmicas permitem a poligamia apenas após aprovação específica", disse ele.

O corpo de Muamar Kadhafi deixou de ser exposto para visitação (Foto: Reuters).


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Armas químicas de Kadhafi provocam novas preocupações

Documentos que mostram o embarque de milhares de máscaras de gás e roupas de proteção contra armas químicas para os focos de resistência ainda existentes de Muammar Kadhafi, nas últimas semanas de seu regime, geraram novas preocupações na quarta-feira quanto à possibilidade de as forças do líder líbio deposto ter acesso ao mortal gás de mostarda. Aquele material foi encontrado em armazens enormes localizados nos arredores de al-Ajelat, uma cidade a 50 km a oeste de Trípoli.

O Pentágono e uma agência internacional de monitoramento disseram que os estoques restantes de Kadhafi estão bem guardados. Mas, sabe-se que mais de 11 ton de gás de mostarda estão acumuladas em um país sem uma autoridade central forte e no qual as armas estão proliferando rapidamente. Os rebeldes líbios se mostram preocupados com um acesso das forças de resistência de Kadhafi ao gás de mostarda, e que este seja usado num último esforço para conter o avanço da oposição. "Ainda não aconteceu, mas não é impossível para alguém como Kadhafi", disse Mohammed Benrasali, um membro sênior da equipe de estabilização da Líbia.

Comandantes rebeldes que essa preocupação com as armas químicas é a razão pela qual estão se movendo cautelosamente, enquanto tentam expulsar as tropas leais a Kadhafi de sua cidade natal e de um posto militar chave no deserto de al-Jufrah.

Kadhafi já usou armas químicas antes, durante uma guerra com o vizinho Chade em 1987.  Mas, ele concordou em desmontar seu programa de armas de destruição em massa em 2003, em troca de uma reaproximação com o Ocidente. Para demonstrar seu comprometimento com isso, Kadhafi ordenou a destruição de 3.300 peças de artilharia que poderiam ser usadas para lançar armas químicas. Mas, os estoques de gás mostarda custaram mais tempo para serem eliminados. Um telegrama da embaixada americana de novembro de 2009, vazado pelo WikiLeaks, insinua que Kadhafi estava deliberadamente retardando suas decisões e ações nesse sentido, para manter força e obter compensação maior.

Como resultado, 11,25 ton do gás venenoso estavam ainda na Líbia quando a rebelião contra Kadhafi começou em fevereiro, de acordo com a Organização pela Proibição de Armas Químicas, uma instituição internacional que trabalha em estreito relacionamento com a ONU. Há muitos anos atrás , Kadhafi fechou três instalações onde fabricava os gases sarin e mostarda.

Autoridades americanas se mostravam céticas na quarta-feira quanto às declarações de que as tropas leais a Kadhafi estavam se preparando para usar armas químicas -- ou mesmo que as possuíssem. Um dessas autoridades, que se manifestou com a condição de permanecer no anonimato, disse que os estoques remanescentes de gás mostarda que Kadhafi possui são considerados seguros e bem guardados. Esses estoques estão armazenados em contêiners volumosos, diz ele, e são de uso difícil.

sábado, 3 de setembro de 2011

Documentos mostram ligações de Kadhafi com os serviços secretos americano e do Reino Unido

Documentos descobertos em um prédio do governo líbio revelam ligações estreitas entre os serviços secretos dos Estados Unidos, a CIA, e do Reino Unido, o MI-6, e os serviços de inteligência do regime do ditador Muammar Kadhafi.

Segundo informações publicadas pelo jornal "The New York Times", os documentos, achados na sede de um órgão de segurança em Trípoli, apontam que em ao menos oito ocasiões o serviço de inteligência americano enviou suspeitos de terrorismo para serem interrogados na Líbia -- país famoso por sua reputação com torturas -- dentro do controverso programa de "rendição".

Em 2004, durante o governo de George W. Bush (2001-2009), a CIA estabeleceu "uma presença permanente" na Líbia, diz uma mensagem de Stephen Kappes, um dirigente da CIA, dirigida a Mussa Kussa, chefe dos serviços de inteligência líbios entre 1994 e 2009. Segundo o jornal "The Wall Street Journal", a mensagem começa com "Querido Mussa" e está assinada por "Steve". Em Londres, o jornal "The Independent" publicou informações similares sobre ligações entre os serviços líbios e britânicos na mesma época.

Segundo o diário britânico, os documentos revelam, entre outras coisas, como detalhes privados de oponentes do ditador líbio exilados na Inglaterra foram passados ao regime de Gaddafi pelo MI-6.  Além disso, autoridades britânicas teriam ajudado a redigir a minuta de um discurso para Kadhafi quando este decidiu há alguns anos abandonar o apoio a grupo terroristas e colaborar com o Ocidente.

Outros documentos revelam que EUA e Reino Unido atuaram em nome da Líbia nas negociações deste país com a Agência Internacional da Energia Atômica (AIEA).  Os despachos secretos foram descobertos na sexta-feira por membros da Human Rights Watch (HRW), que o entregaram à imprensa. Segundo o "New York Times", a maioria está escrito em árabe, mas alguns estão em inglês, com as marcas da CIA e do MI-6. O jornal admite que não foi possível verificar a autenticidade dos documentos.

 Procurada pelo "New York Times", a porta-voz da CIA, Jennifer Youngblood, não quis comentar o conteúdo dos documentos. Mas disse que não é surpresa que a agência de inteligência "trabalhe com outros governos para ajudar a proteger [os EUA] de terrorismo e outras ameaças mortais".

A CNN mostra um vídeo com relato sobre o assunto de seu correspondente em Trípoli .

Os fatos acima reforçam postagem anterior que fiz sobre as sórdidas ligações de potências ocidentais com o regime deKadhafi.

Mousa Koussa, o ex-ministro das Relações Exteriores de Kadhafi (Foto: EPA).

domingo, 28 de agosto de 2011

Onde está Kadhafi?

A fortaleza onde vivia foi invadida, os rebeldes controlam o aeroporto internacional mais próximo, e líderes mundiais, incluindo o presidente Obama, estão anunciando que seus 42 anos de governo se acabaram. Mas, uma grande pergunta permanece sem resposta: onde está Muamar Kadhafi?

Combatentes rebeldes que vasculharam o vasto complexo de Bab al-Aziziya na capital líbia na terça-feira encontraram caixas com armas e munições, mas nada de Kadhafi. Com o aeroporto internacional de Trípoli também sob o controle das forças do Conselho Nacional de Transição, as opções para uma fuga se estreitaram. Mukthar al-Ahmar, que liderou os rebeldes na tomada do aeroporto, disse que lá houve combates violentos na quarta-feira e especulou que combatentes leais a Kadhafi estavam tentando "garantir uma rota segura para Kadhafi fugir de Trípoli".

"Ele [Kadhafi] não parece ter muito controle de alguma coisa que seja", disse a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Victoria Nuland, aos jornalistas na terça-feira. "É curioso que ele ainda não tenha sido visto".  Então, onde Kadhafi pode estar?

O Professor Abubaker Saad, um ex-assessor de Kadhafi, descreveu para a CNN um sistema de bunkers sob a fortaleza de Kadhafi em Trípoli que poderia servir de esconderijo. Entretanto, Saad observou que a OTAN e os EUA haviam bombardeado aquele complexo com bombas antibunker, e por isso duvidava que Kadhafi lá estivesse escondido. "É preciso lembrar que ele é um militar", disse Saad. Ele sabe que eles têm armas que podem penetrar naqueles bunkers, por isso estou descartando a ideia de que ele ainda esteja lá". Saad observou também, que as recentes comunicações públicas de Kadhafi, como um comunicado divulgado pelo rádio e uma noticiada chamada telefônica para a Rússia foram mensagens de áudio para evitar a identificação de seu paradeiro. 

Houve especulações de que havia túneis do bunker de Kadhafi até o hotel Rixos, onde cerca de 35 jornalistas estão detidos contra sua vontade por militares de baixa patente leais a Kadhafi. Mas Matthew Chance, da CNN, que está nesse grupo, disse que jornalistas vasculharam o hotel de cima a baixo e não viram nenhuma evidência de passagens secretas.

Autoridades americanas pediram que Kadhafi deixasse claro, não importa onde esteja, que sabe já não é mais líder do país. Os EUA querem que Kadhafi emita um "comunicado afirmativo e confiável" para a comunidade internacional e para aqueles que lhe são leais e ainda lutam em Trípoli, dizendo que "entende que sua liderança  acabou, para que cada um possa seguir em frente", disse Nuland. [Acho simplesmente ridículo esse tipo de exigência americana!]

Enquanto não se tem notícia do paradeiro de Kadhafi, pelo menos uma fonte fora da Líbia -- o chefe da Federação Mundial de Xadrez -- disse à agência russa de interfax que falou com ele na terça-feira. De acordo com Kirsan Ilyumzhinov, Kadhafi lhe disse por telefone que "está vivo e bem em Trípoli, e não sairá da Líbia".

Observadores citam três possíveis cenários para o futuro imediato de Kadhafi -- sua morte nas mãos das forças rebeldes, sua captura, ou sua fuga ou exílio em outro país.

Kadhafi e seu segundo filho mais velho, Saif al-Islam Kadhafi, estão indiciados sob a alegação de crimes contra a humanidade Tribunal Criminal Internacional de Haia (Holanda). Países considerados como locais possíveis para exílio de Kadhafi incluem a Venezuela, durante meses objeto de rumores como destino do ex-líder líbio. Kadhafi e o presidente venezuelano Hugo Chávez têm uma estreita relação, forjada em parte pela oposição que compartilham contra a influência dos EUA no mundo. Em 2009, Chávez compareceu junto com Rober Mungabe, do Zimbábue, e o rei Abdullah, da Jordânia, a uma ostentosa comemoração pelos 40 anos de Kadhafi no poder. No mesmo ano, um novo estádio de futebol na cidade de Benghazi, hoje ocupada pelos rebeldes, recebeu o nome do presidente venezuelano.

O Zimbábue é considerado também um possível destino de exílio para Kadhafi, devido a sentimentos compartilhados pelo líbio e por Mungabe: um interesse pela solidariedade pan-africana, um desdém pela influência colonialista, e a ignomínia de serem evitados pela comunidade internacional.

A Arábia Saudita é um país que pode ser um país mais adequado ao jeito beduíno de Kadhafi. Os sauditas acolheram o líder deposto da Tunísia, Zine El Abidine Ben Ali, depois da revolta que ajudou a incendiar neste ano o Oriente Média e o norte da África, incluindo a Líbia. No entanto, as relações de Kadhafi com a Arábia Saudita esfriaram desde que os sauditas acusaram os líbios de tentar matar seu rei vários anos atrás, e seria improvável que o rei do deserto aceitasse agora um Kadhafi exilado, disse Christopher Boucek, um especialista em Arábia Saudita da Dotação Carnegie para a Paz Internacional.

Outros países mencionados como destinos possíveis para Kadhafi incluem Cuba, Síria e Sudão.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Combates explodem ao redor do quartel-general de Kadhafi

Pelo visto, cai mais um ditador no mundo árabe e, no fundo, no fundo, o petróleo faz mais uma vítima ...

Combates violentos explodiram nesta segunda-feira em Trípoli em volta do quartel-general do líder líbio Muamar Khadafi, horas após rebeldes terem assumido o controle da maior parte da capital. Não havia informações sobre se Khadafi estava no local, ou sobre qual seria seu paradeiro. Uma fonte diplomática disse à AFP que Khadafi poderia estar no QG, mas a informação não foi confirmada. Khadafi não é visto em público desde maio, apesar de ter divulgado desde então, com frequência, mensagens em áudio e vídeo de locais não divulgados.

No começo da manhã (horário local), tanques saíram do QG do líder líbio - conhecido como Bab al-Azizia - e começaram a disparar, segundo um porta-voz dos rebeldes. Há intensa troca de tiros na área. Os rebeldes encontraram pouca resistência à medida que avançavam pela cidade no sábado e no domingo, assumindo rapidamente o controle de leste, sul e oeste da capital. Um porta-voz dos rebeldes disse, entretanto, que forças pró-Khadafi ainda controlam de 15% a 20% de Trípoli.

Os rebeldes começaram a entrar em Trípoli na noite de sábado e intensificaram os ataques durante o domingo. O confronto em diversas áreas da cidade deixou centenas de mortos. O porta-voz do regime de Khadafi, Moussa Ibrahim, disse que 1.300 pessoas foram mortas na cidade nas últimas 24 horas. O número não pode ser confirmado de forma independente.

Havia pontos de conflito em vários bairros, um deles no entorno do hotel que hospeda a imprensa internacional. Segundo o correspondente da BBC em Trípoli, Matthew Price, o local ainda estava sob poder do governo, mas rebeldes tentavam assumir o controle. O Tribunal Penal Internacional (TPI) confirmou que um dos filhos de Khadafi, Saif al-Islam, foi capturado na capital. Ele era considerado o sucessor do pai no governo líbio. Os rebeldes afirmam ainda que um outro filho de Khadafi – Mohammed - teria se rendido, assim como a guarda pessoal do líder líbio, mas a informação não pode ser confirmada por fontes oficiais.

O presidente do Conselho Nacional de Transição, a coalizão rebelde, Mustafa Mohammed Abdul Jalil, disse que os rebeldes poriam fim à sua ofensiva se Khadafi anunciasse sua saída.  Falando sobre a captura do filho de Khadafi, Jalil disse que ele estava sendo mantido "em um local seguro até que seja entregue ao judiciário". Ele acrescentou que as forças rebeldes garantiriam a Khadafi e seus filhos uma saída segura do país.
 Mapa aéreo (Microsoft) das áreas dos combates pela tomada de Trípoli (Fonte: BBC Brasil).


segunda-feira, 27 de junho de 2011

A campanha da OTAN na Líbia se arrasta cansativa e indefinidamente

Quando a OTAN começou a despejar bombas na Líbia em março, o presidente Obama e outros líderes do Ocidente asseguraram a seus públicos cansados de guerras que a proteção de civis contra a repressão violenta de Muamar Gadhafi estaria terminada dentro de poucas semanas. A campanha militar na Líbia já se arrasta por quatro meses, a resistência de Gadhafi surpreende os líderes que se comprometeram a derrubá-lo, e já há pedidos para encerrar a intervenção militar mesmo com a OTAN solicitando mais tempo.

Com a campanha entrando no seu quarto mês, oficiais da OTAN insistem em que estão tendo êxito nela e que Gadhafi será a terceira baixa da Primavera Árabe. Mas, dizem, isso acontecerá apenas com um lento e firme avanço sobre a capital Trípoli, com as tropas federais perdendo seus suprimentos, e não com um gesto de pirotecnia que ponha Gadhafi instantaneamente fora de combate. "A corda está apertando em torno de seu pescoço e há poucos lugares pasra onde ele possa ir", disse o Gen. Charles Bouchard, o militar canadense que chefia as operações em seu QG em Nápoles (Itália). Não se pode esperar que quem está há 41 anos no poder saia ao primeiro sinal de pressão".

Já há sinais de que o apoio à campanha da Líbia está se esgarçando -- os deputados americanos recentemente negaram autoridade a Obama para fazer guerra à Líbia, e na Grã Bretanha um alto comandante disse na semana passada que se a campanha passar de setembro suas forças podem sucumbir ao estresse. Na quarta-feira, o ministro das Relações Exteriores demandou um imediato término das hostilidades. -- Ver outra postagem recente sobre OTAN e Líbia.
Com a sequência dos ataques aéreos da OTAN contra as forças leais a Gadhafi as forças rebeldes enfrentam batalhas difíceis na Líbia (Foto: The Washington Post).

domingo, 26 de junho de 2011

Sarkozy critica as reclamações dos EUA sobre Líbia e OTAN

O presidente francês Nicolas Sarkozy atacou, na sexta-feira, o compromisso dos EUA com os esforços da OTAN na Líbia, afirmando que a Europa está arcando com a maior carga desses esforços, apesar das reclamações dos EUA em contrário. Seus comentários ocorreram no mesmo dia em que os deputados americanos quase cortaram os recursos financeiros para a guerra na Líbia (mas negaram autoridade a Obama para fazer essa guerra) e no final de uma semana de divisão política sobre o futuro dessa ação da OTAN, que está se prolongando por muito mais tempo do que muitos políticos esperavam.

Sarkozy disse que a França e a Grã-Bretanha são os principais contribuintes para o esforço de acabar com o regime de Gadhafi, e prometeu manter a pressão enquanto Gadhafi estiver no poder. Ele também condenou a noção de que há dúvida sobre o futuro da OTAN porque a Europa está relutante em destinar recursos para os seus militares, algo dito pelo Secretário de Estado americano (que irá deixar o cargo) Robert M. Gates em um discurso este mês. "Não sou da opinião de que o grosso do trabalho na Líbia esteja sendo feito pelos nossos amigos americanos", disse Sarkozy a jornalistas em um encontro da União Europeia em Bruxelas. "Temos que continuar até que Gadhafi saia", acrescentou. Com relação a Gates, Sarkozy disse que seus comentários sobre o poderio militar europeu -- ou a falta dele -- foram "injustos" e resultantes de "um pouco de mágoa".
O presidente francês Nicolas Sarkozy disse que a Europa está arcando com a maior parte do ônus do esforço militar na Líbia (Foto: Philippe Wojazer/Reuters).

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Gadhafi continua resistente e combativo, e surgem divisões internas na OTAN

O contestado líder líbio Muamar Gadhafi está engajado em uma luta até à morte, mesmo "pressionado contra as cordas", denunciando que os ataques da OTAN mataram civis em seu país e provocando divisões no seio dessa aliança militar.

O conflito parece afundar-se em areia movediça, mais de quatro meses depois do início da revolta que se transformou em conflito armado -- Gadhafi se recusa a deixar o poder apesar de seu isolamento, das sanções que sofre e da intervenção militar em seu país, enquanto os combates entre suas tropas e os rebeldes continuam no mesmo compasso. Gadhafi reagiu pela televisão a um ataque aéreo da OTAN que, segundo ele, visou a residência de Khouildi Hmidi, um político influente e seu velho companheiro de campanha, matando 15 pessoas, entre as quais crianças, em Sorman, a 70 km a oeste de Trípoli. Depois de uma série de erros nos últimos dias, a OTAN, que assumiu o comando das operações militares internacionais em 31 de março, admitiu ter feito um ataque nessa área mas afirmou no entanto que foi um "ataque de precisão" visando um "centro de comando e controle de alta importância", e não um alvo civil.

País que abriga o QG das operações da OTAN e as bases aéreas de onde decolam os bombardeiros aliados, a Itália criou um mal-estar ao denunciar os ataques contra os civis e o atoleiro em que se meteu o conflito que já fez milhares de mortos depois de 15 de fevereiro. Seu ministro das Relações Exteriores, Franco Frattini, considerou que "a suspensão das ações armadas é fundamental para permitir uma ajuda imediata" à Líbia. Mas esta proposta foi imediatamente rejeitada pela França, para quem uma pausa, mesmo que humanitária, permitiria que Gadhafi "se reorganizasse". E o secretário-geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, disse claramente que as operações iriam continuar para evitar que "inúmeros civis a mais percam a vida". Essa bateção de cabeças numa instituição como a OTAN e em um conflito com a seriedade, as consequências e as repercussões como esse da Líbia é simplesmente inacreditável! Mais uma vez, repete-se a velha história: quando se tem muito cacique e pouco índio o resultado invariavelmente é uma lambança.

domingo, 19 de junho de 2011

Irritação cresce no Congresso americano com a postura de Obama alegando a legalidade da guerra na Líbia

A postura de Obama "bancando" a legalidade da guerra na Líbia vem causando irritação no Congresso americano. A insatisfação entre os congressistas foi amplificada no sábado, com a divulgação de um relatório afirmando que Obama ignorou a opinião de alguns de seus conselheiros para assuntos legais quando decidiu na semana passada que a campanha na Líbia não deveria ser considerada como "hostilidades".

Essa decisão lhe permitiu baipassar a Resolução de Poderes de Guerra (War Powers Resolution) de 1973, uma lei que exige que o presidente se reporte ao Congresso sobre qualquer conflito militar em andamento dentro de um período de tempo especificado. Após receber o relatório presidencial, o Congresso decide então se autoriza a decisão adotada.

No Capitólio, os congressistas que discordam sobre a decisão de Obama em relação à guerra na Líbia terão duas opções quando reassumirem seus trabalhos na semana que entra: poderão tentar cortar os fundos dessa campanha militar, ou registrar formalmente sua desaprovação por Obama ter agido sem a aprovação do Congresso. -- A primeira tática raramente funcionou na história americana, e a segunda ainda não funcionou com Obama até agora.

Como divulguei em outra postagem, Obama está sendo processado por dez congressistas americanos sob a acusação de ter violado a Resoluçao de 1973 citada acima.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Obama joga pesado contra os violadores de direitos humanos -- e as ações dos EUA nesse campo, como ficam?

O presidente americano jogou pesado ontem contra países que têm violado os direitos humanos, ao reprimir violentamente manifestações pacíficas de suas populações por reformas democráticas -- citou mais especificamente o Irã, a Síria e a Líbia, ameaçando uns e outros explícita ou implicitamente de deposição pela força, com o apoio dos EUA. Na realidade, Obama citou, além desses três países, o Bahrein e o Iêmen -- se olharmos o mapa do Oriente Médio, veremos que Obama não mencionou, por razões diversas, umas óbvias outras não, a Arábia Saudita, o Qatar, a Jordânia, o Kuait, Omã e o Iraque.

Não há a menor dúvida de que esses países, cujos dirigentes tiveram até anteontem o apoio americano por ação ou omissão, estão cometendo abusos intoleráveis e por isso merecem a condenação e o repúdio mundiais, assim como uma ação internacional para pressionar, não necessariamente pela força, a mudança de seus regimes. Mas há aspectos que me incomodam, e muito, nessa retomada do "xerifismo" americano: por exemplo, a não inclusão da Arábia Saudita entre os grandes violadores dos direitos humanos no Oriente Médio, e a falsa moral de Obama de se posar de defensor desses direitos, sendo os americanos mais do que reincidentes em desrespeitá-los.

Embora inaceitável, a não inclusão da Arábia Saudita é fácil de entender sob a ótica americana: o país fornece 12% do petróleo consumido pelos EUA, é aliado estratégico dos americanos há 66 anos, e quer comprar deles 60 bilhões de dólares em armamentos (o que lhe proporcionaria, entre outras coisas, 84 caças F-15). É claro que com esse pano de fundo Obama jamais enquadraria ou enquadrará o país dominado com mão de ferro pelo rei Abdullah.

Não acho nem um pouco palatável a pose de bom-moço de Obama em termos de direitos humanos, não considero que ele e seu país têm cacife para ditar moral nessa área. Sem necessidade de entrar pelo passado, na guerra do Vietnã e outros conflitos em que se envolveram, os americanos têm mais recentemente outros péssimos exemplos de comportamento em matéria de direitos humanos -- basta citar, por exemplo, o que têm feito com os prisioneiros de Guantánamo e com o soldado Bradley Manning, acusado de fornecer documentos secretos ao WikiLeaks.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Líbia: continua confusa a situação por lá e, p'ra variar, os interventores militarers não se entendem entre si

A situação real dos conflitos na Líbia permanece confusa, não se sabe exatamente o que está acontecendo e, p'ra variar, os interventores militares não se entendem entre si. A nítida impressão que se tem é que ali se trava uma guerra atípica, com as grandes potências militares intervenientes como EUA, França e Inglaterra, claramente desacostumadas e desconfortáveis com esse tipo de guerra "pela metade", em que só atuam por via aérea, sem tropas terrestres.

As duas principais autoridades do setor de defesa dos EUA, o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, almirante Mike Mullen, e o secretário de Defesa, Robert Gates, afirmaram ontem que a ofensiva aérea da chamada coalizão internacional na Líbia já destruiu 25% do poderio militar de Muamar Kadhafi. Mas, segundo Mullen, em termos de armamentos e forças terrestres o efetivo de Kadhafi ainda é dez vezes maior que o dos rebeldes, e "Kadhafi vai matar quantas pessoas forem necessárias para por fim à rebelião", acrescenta ele. As declarações de Mullen e Gates foram feitas durante reunião de comissão do Congresso americano que analisa o envolvimento do país nas ações na Líbia.

Por sua vez, Robert Gates afirmou que os aliados internacionais que hoje atuam contra Kadhafi têm a responsabilidade de treinar os rebeldes -- "A oposição precisa de treinamento, um tipo de comando e organização", disse ele, acrescentando não é uma tarefa que só os EUA podem cumprir, até onde sei outros podem também se responsabilizar por ela". Questionado se haverá militares americanos em solo líbio, Gates respondeu "Não enquanto eu ocupar este cargo".  -- Pouco antes da reunião de que participaram Mullen e Gates, o secretário-geral da OTAN (organização que, oficialmente, coordena a intervenção militar na Líbia), Anders Fogh Rasmussen, disse que se opõe ao fornecimento de armas aos rebeldes líbios, alertando que a aliança internacional que estava intervindo na Líbia o fazia para proteger o povo, não para armá-lo. Acho esta uma afirmação de fachada e com forte carga de hipocrisia. Leia mais. Ver também postagem anterior sobre a intervenção na Líbia.
Robert Gates (esquerda) e Mike Mullen falam sobre a Líbia em comissão do Congresso americano. (Getty)

domingo, 20 de março de 2011

Histórias sórdidas envolvendo Kadafi e os principais líderes do Ocidente

Quem quiser saber mais sobre os bastidores sujos de uma relação promíscua entre Muammar Kadafi e os principais líderes do Ocidente precisa ler o artigo Can Buy Me Love, na Newsweek desta semana. Antes que os líbios se levantassem contra ele, Kadafi usou dinheiro e propostas diplomáticas de estabelecimento de relações amistosas cronologicamente bem programadas para insinuar-se nas boas graças do Ocidente. O artigo mostra como George W. Bush, Tony Blair, Nicolas Sarkozy, Gordon Brown e Silvio Berlusconi deram ao brutal ditador nova aparência e estilo.

Como o artigo diz, a história é "sórdida" e começa em 2003 no tradicional Travellers Club em Londres, que desde o século 19 tem sido um lugar favorito para encontro de cavalheiros das intrigas e maquinações internacionais. Foi lá, em dezembro de 2003, que o mestre da espionagem líbia, Musa Kusa, encontrou-se com representantes dos serviços de inteligência ingleses e americanos, com o objetivo de elaborar um acordo que tirasse o patrão de Musa, Muammar Kadafi, de uma situação de indiferença e congelamento e o colocasse novamente em cena.

Musa, hoje ministro das Relações Exteriores da Líbia, tem mestrado pela Universidade do Estado de Michigan nos anos 1970 e seus dois filhos nasceram nos EUA e são cidadãos americanos. Foi o domínio que tem dos modos e maneiras ocidentais que o tornou tão eficiente em seu papel básico de viabilizador de Kadafi, ajudando e estimulando o comportamento patológico do líder líbio. Musa inventa desculpas, evita e bloqueia consequências, gera acordos e acomodações, e assim tem conseguido manter seu patrão no poder não importa os crimes que ele tenha cometido contra seu próprio país ou contra o mundo. Mas o que é realmente perturbador é a lista de líderes mundiais que conseguiu juntar nessa atividade: Tony Blair, Nicolas Sarkozy, Silvio Berlusconi, Gordon Brown e até mesmo George W. Bush. Como eles acabaram colaborando com alguém que já havia sido e voltaria a ser um pária?

George Tenet, ex-diretor da CIA, chamou as negociações com Musa "ilustrativas do mundo surreal em que temos que operar". Segundo Tenet, muitos na CIA na realidade suspeitavam que Musa havia arquitetado a explosão, em 1988, do vôo 103 da Panam sobre Lockerbie, Escócia, matando 270 pessoas. Mas em 2003 os serviços de inteligência ocidentais  sentiam-se tão confortáveis com as propostas de Musa como nas poltronas de couro do Travellers Club -- e ajudaram os líderes ocidentais a se sentirem da mesma maneira. Eram um acordo ao qual ninguém poderia resistir: os campos de petróleo da Líbia seriam completamente abertos para o Ocidente, e os bancos americanos e europeus poderiam voltar a drenar as receitas do país. E Kadafi renunciaria publicamente ao seu supostamente verdadeiro programa nuclear (grande parte do qual nunca tinha sido sequer desencaixotada). Tendo invadido o Iraque em busca de armas de destruição em massa inexistentes, o governo Bush poderia alegar que pelo menos na Líbia os esforços estavam dando frutos. O plano parecia beneciar todo mundo exceto, como finalmente se viu, o povo líbio.

A campanha de Musa para a reabilitação de Kadafi escorava-se fortemente no forte interesse do Ocidente pelo petróleo e pelo dinheiro da Líbia, mas ele usou outros instrumentos também, como por exemplo a queda de alguns líderes democráticos por tiranos úteis. Leia mais. Ver também postagem recente sobre a atual intervenção militar na Líbia.
Ilustração por Sean Mc Cabe

sábado, 19 de março de 2011

Falando de Líbia, o que está por trás da intervenção militar autorizada pela ONU?

No momento em que se processa uma intervenção armada na Líbia por uma coalizão de países, por decisão do Conselho de Segurança das Nações Unidas (com a abstenção de Alemanha, Brasil, China, Índia e Rússia, e a aprovação dos 10 países restantes), sob a alegação de proteção da população civil desse país, parece-me oportuno dar uma olhada em outros países em que a população civil já vem sendo dizimada ou poderá sê-lo,  e qual a posição que o ocidente (em particular os países que formam a coalizão que agora intervém na Líbia) tem adotado em relação a isso.
  • Sudão -- hoje o maior país da África e um incipiente produtor de petróleo (520 mil barris/dia), está em guerra civil há 46 anos; a guerra e secas prolongadas já mataram mais de 2 milhões (leia mais). Ação do ocidente para ajudar o país a sair dessa situação: zero.
  • Somália -- outro país africano, considerado politicamente falido, está em guerra civil desde 1991 e é considerado um dos países mais pobres e violentos do mundo -- o caos político em que se encontra tornou-o gerador e reduto de piratas que há anos vêm sequestrando navios e tripulações de qualquer bandeira. A ONU interveio de 1992 a 1995, e então se retirou do país, depois de seu contingente sofrer pesadas baixas. No final de 2009 havia 678 mil refugiados somalianos amparados pela ONU (leia aqui). Ação do ocidente após 1995: zero.
  • Costa do Marfim -- também africano, o país está à beira de uma guerra civil porque o presidente em exercício se recusa a reconhecer sua derrota nas eleições de 2010, já tendo havido escaramuças e mortes entre seus partidários e os do presidente eleito (leia mais). Medidas efetivas do ocidente para evitar que a situação degenere em querra civil de grandes proporções: zero.
A lista poderia se estender. O que diferencia a Líbia desses países? Duas coisas: o petróleo que produz, de vital importâncias para vários países ocidentais, e sua posição estratégica. Estas são as verdadeiras razões por trás da intervenção militar do ocidente ora em curso no país, tudo mais é pura hipocrisia e deslavada mentira. Até ontem Kadafi era paparicado, protegido e apoiado pelos mesmos países que hoje querem derrubá-lo, e que propositadamente deixaram a situação chegar ao ponto incontrolável a que chegou para justificar sua já planejada intervenção militar. Nessa briga não há anjinhos, ninguém é flor que se cheire. Kadafi é um ditador sanguinário e o que está fazendo é inadmissível, mas o Egito e a Tunísia estão aí para provar que governos podem ser derrubados e regimes podem ser substituídos sem guerra civil e sem derramamento de sangue. EUA, França, e Inglaterra, membros proeminentes da coalizão, têm um passado (e até um presente ...) que os condena em termos de mentalidade xerifesca de atuar violentamente em defesa de seus interesses -- a Líbia é mais uma prova disto.