Mostrando postagens com marcador Oriente Médio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Oriente Médio. Mostrar todas as postagens

sábado, 7 de janeiro de 2017

A barbárie da mutilação genital feminina

[Traduzo a seguir uma reportagem de Ondine Debré, publicada no jornal francês Le Monde. Ela aborda a prática absurda e bárbara da mutilação genital feminina, adotada em inúmeros países e em comunidades expatriadas mundo afora. 

A mutilação genital feminina (MGF), também conhecida por circuncisão feminina, é a remoção ritualista de parte ou de todos os órgãos sexuais externos femininos. Geralmente executada por um circuncisador tradicional com a utilização de uma lâmina de corte, com ou sem anestesia, a MGF concentra-se em 27 países africanos, no Iémen e no Curdistão iraquiano, sendo também praticada em vários locais na Ásia, no Oriente Médio  e em comunidades expatriadas em todo o mundo. A idade em que é realizada varia entre alguns dias após o nascimento e a puberdade. Em metade dos países com dados disponíveis, a maior parte das jovens é mutilada antes dos cinco anos de idade.

Os procedimentos diferem de acordo com o grupo étnico. Geralmente incluem a remoção do clitóris e do prepúcio clitoriano e, na forma mais grave, a remoção dos grandes e pequenos lábios e encerramento da vulva. Neste último procedimento, denominado "infibulação", é deixado um pequeno orifício para a passagem da urina e do sangue da menstruação, e a vagina é aberta para relações sexuais e parto. As consequências para a saúde dependem do procedimento, mas geralmente incluem infecções recorrentes, dor crônica, cistos, impossibilidade de engravidar, complicações durante o parto e hemorragias fatais. Não são conhecidos quaisquer benefícios médicos. 

Neste último procedimento, denominado "infibulação", é deixado um pequeno orifício para a passagem da urina e o sangue menstruação e a vagina é aberta para relações sexuais e parto. As consequências para a saúde dependem do procedimento, mas geralmente incluem infeções recorrentes, dor crónica, cistos, impossibilidade de engravidar, complicações durante o parto e hemorragias fatais. Não são conhecidos quaisquer benefícios médicos. 

A prática tem raízes nas desigualdades de gênero, em tentativas de controlar a sexualidade da mulher e em ideias sobre pureza, modéstia e estética. É geralmente iniciada e executada por mulheres, que a vêem como motivo de honra e receiam que se não a realizarem a intervenção as filhas e netas ficarão expostas à exclusão social. Mais de 130 milhões de mulheres e jovens foram alvo de mutilação genital nos 29 países onde é mais frequente. Entre estas, mais de oito milhões foram infibuladas, uma prática que na sua maioria ocorre no Djibuti, Eritreia, Somália e Sudão.

A mutilação genital feminina vem sendo considerada ilegal ou restringida em grande parte dos países onde é comum, embora haja grandes dificuldades em fazer cumprir a lei. Desde a década de 1970 que existem esforços internacionais para promover a rejeição desta prática. Em 2012, a Assembleia Geral das Nações Unidas reconheceu a mutilação genital feminina como violação de direitos humanos e votou de forma unânime no sentido de intensificar estes esforços. No entanto, existem algumas críticas por parte de antropólogos.

É digno de nota -- digo eu e não a Wikipédia -- que todos os comentários sobre as sequelas dessas mutilações, abordados acima, referem-se apenas à saúde física das mutiladas, ninguém se preocupou com o trauma psicológico das vítimas.

O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

As mulheres mutiladas

Ondine Debré - Le Monde, 22/12/2016


Ilustração: Aline Bureau

Hoje, Mintou é uma mulher jovem "restaurada". Restaurada? Isto quer dizer que ela não está mais excisada, e para ela é importante dizê-lo: "Fui excisada quando bebê em Paris, tinha apenas alguns dias de vida. Vivi incompleta até meus 25 anos. Sou uma outra mulher, estou restaurada, estou completa". 

A restauração de que fala Mintou não é apenas a de seu clitóris, mesmo que ela tenha sido feita há oito meses, mas a de sua identidade como mulher, de seu psiquismo, de todo o seu ser em suma. Um equilíbrio reencontrado  entre seu corpo e seu espírito, graças à operação e graças à tomada de consciência que a acompanhou. Para a psicanalista Catherine Bensaïd, o traumatismo da excisão é comparável ao do estupro: "Essas mulheres que foram agredidas em sua intimidade ficam fragilizadas de maneira irremediável". 

As Nações Unidas estimam que mais de 200 milhões de meninas e moças sofreram uma forma de mutilação genital feminina nos 29 países da África e do Oriente Médio onde a prática é mais corrente. A maior parte dos países da África proíbe e condena oficialmente as mutilações sexuais femininas. Entretanto, um país como o Egito, que as proíbe desde 2008 [tão tarde assim?!], conta com 91% das mulheres de 15 a 49 anos excisadas segundo um relatório da Unicef de 2013. 

Na França, mesmo que as cifras sejam difíceis de serem definidas, estima-se que haja mais de 60.000 mulheres excisadas. E segundo a federação GAMS (Grupo para a Abolição de Mutilações Sexuais), 350 excisões são realizadas  cada ano -- estimativa por baixo. No dia 23 de novembro, o Ministério dos Direitos das Mulheres apresentou um quinto "plano de mobilização e de luta contra todas as violências cometidas contra as mulheres", do qual três medidas visam a reforçar a prevenção da excisão e a manter um acompanhamento firme junto às mulheres e meninas afetadas. 

Para aqueles que a praticam, a excisão é considerada para preservar as mulheres da infidelidade enquanto estão casadas. Privadas do prazer, elas não irão procurá-lo alhures. A tal ponto, que uma jovem não excisada não é considerada boa para casar. É importante enfatizar que nenhum preceito religioso exige esse ato sangrento.

"Era tabu"

Quanto à questão de saber se se pode viver sem clitóris, a resposta é não. No plano físico, ginecologistas e urologistas são formais: uma ablação inteira do clitóris, com ou sem os pequenos lábios, acarreta numerosos problemas que podem por em risco a saúde das mulheres e das crianças que vierem a delas nascer: "A cicatriz é uma zona mais dura, e quando do parto a passagem do bebê tem fortes chances de deslocar essa cicatriz", explica o urologista Pierre Foldès, especialista na reparação de mutilações sexuais em mulheres. 

Essas mulheres não sentem nenhum prazer sexual, e pior: para a maioria delas, as relações sexuais são dolorosas ou desconfortáveis. Uma em cada três mulheres excisadas sofre de incontinência urinária pelo resto da vida. 

Natural do Mali, Mintou não tinha ainda um mês de idade quando foi "cortada" em Paris pela célebre executora de operações excisórias Hawa Greou, condenada em 1999 a oito anos de prisão (cinco dos quais em regime fechado). Mintou foi levada por sua mãe e por sua avó, como quatro  de suas outras cinco irmãs. Com uma faca à qual atribuía a força dos espíritos, Hawa Greou cortou o clitóris da criancinha com um gesto seguro e enérgico que sua mãe e sua avó repetiram outrora. Uma excisão de "tipo 1", como diria mais tarde o doutor Foldès a Mintou: somente o clitóris havia sido extirpado, a operação havia poupado os pequenos lábios vaginais.  

A menina cresceu em um grupo feliz de irmãos e irmãs, retorna com frequência ao Mali e jamais fala de seu sexo com sua mãe. "Cresci no amor de meus pais. Meu pai fazia serviços de limpeza, lutou para que pudéssemos viver. Eu sabia que na nossa casa as meninas e moças eram excisadas, mas isso era tabu, jamais se falava sobre isso", explica ela. De tal modo que, quando da morte de sua mãe -- ela com 18 anos -- Mintou sofreu muito, certamente, mas tinha também a necessidade de saber o que lhe ocorrera. Marca consulta com um ginecologista e lhe pergunta imediatamente: "Sou excisada?". A resposta não a surpreendeu.  

Frédérique Martz, que trabalha com mulheres mutiladas no Instituto de Saúde Genética de Saint-Germain-en-Laye, explica que algumas dessas mulheres crescem sem verdadeiramente saber que foram excisadas e ficam sabendo disso por acaso em uma consulta médica, quando de uma gravidez por exemplo. "Mas para todas aquelas com quem me encontrei", diz ela, "o fato de ser excisada provoca grandes sofrimentos psíquicos, que o tabu que pesa sobre essa prática não ajuda a minimizar".  

A quê se parece um clitóris? Esta pergunta persegue as mulheres excisadas. A imagem desse pequeno apêndice e o papel que desempenha no prazer que se lhes retirou não cessam de alimentar a imaginação dessas mulheres incompletas. De tal modo que Mintou, que é auxiliar de enfermeira, dirige seu olhar ao sexo de suas pacientes. Discretamente, fortuitamente, ela tenta ver, quando de  um atendimento, o que se esconde entre as pernas das mulheres intactas. 

"Queria ver como era o sexo de uma mulher normal. Mais tarde falei com meu pai sobre minha excisão, ele ficou desolado e lamentou que isso tivesse ocorrido. Discutimos muito sobre isso e jamais tive ressentimento ou rancor por meus pais por causa disso", conta a jovem que, alguns anos mais tarde, decidiria fazer-se uma restauração na clínica do Dr. Foldès. A parceria que ele forma com Frédérique Martz permitiu a mais de 5.140 mulheres reencontrar sua integridade física graças a essa operação de restauração, que é reembolsada pela seguridade social, e para a maioria delas retomar sua vida sexual.

"Não pressiono forçosamente para a cirurgia", diz Frédérique Martz. "O trabalho é longo: a reparação, na medida em que por si só não basta, exige todo um trabalho de readaptação a fazer que acompanhamos no pós-operatório. Isso passa por massagens no clitóris recém-surgido, o que certas mulheres -- principalmente as muçulmanas -- se recusam de início a fazer. Mas, sem isso o prazer não vem". A médica recebe frequentemente apelos assustados de mulheres para as quais as sensações demoram a aparecer. às vezes, são fotos de seus sexos que as mulheres lhe enviam para se assegurarem de que  tudo evolui bem ...

Aïda, de 32 anos, espera por uma consulta um mês após sua operação. Seu perfil tenso se desenha à luz da sala de espera, e seus cabelos encaracolados puxados  para trás formam uma coroa em torno de seu semblante. Mesmo que hoje esteja bem, a cólera transparece em sua voz quando essa mulher jovem conta sua história. 

"Sou africana e originária da Guiné-Conakry, mas cresci em Serra Leoa. Em minha família, as meninas são excisadas na idade entre 6 e 7 anos. Essas tradições não são questionadas, isso deve ser feito", conta ela. "Guardei tudo na memória: a casa suja e ordinária que não conhecia, a tanga ensanguentada diretamente sobre o chão, o medo que me invadiu quando senti essa mulheres me segurarem, os gritos que emitia, e a dor que ali aparecia várias vezes ... Podia encontrar o lugar, sem nenhuma dúvida. Foi minha avó que me levou, ela me falava "da etapa de iniciação". Penso nisso de novo todos os dias, dez vezes por dia ...".

Hoje, essa jovem mulher se sente renascer, quase que no sentido mesmo da palavra: "Foi levada uma parte de mim, era realmente difícil me identificar. Tenho hoje uma filha de 6 anos, e tinha vergonha de olhá-la, não conseguia lavá-la entre as pernas quando ela era pequena".  Um ódio dessa parte do corpo encontrado entre as mulheres violadas. 

Da operação, Aïda guarda uma lembrança angustiada porque o próprio ato cirúrgico ainda que não muito longo nem muito doloroso despertou as lembranças da excisão. "Mas valeu a pena, sou agora uma mulher completa. Falei com minha mãe sobre a excisão e a operação há uma semana. Estamos reconciliadas de uma certa forma, porque ela também sofria por ter deixado que me excisassem", diz Aïda.

Tradições, Educação, Submissão

Essa mulher jovem voluntária sempre foi senhora de seu destino: criada em uma família de homens, lutou desde pequena para escapar da escola em árabe e conseguiu ir com seus irmãos mais velhos à escola inglesa. Desembarcando na França aos 19 anos, casada aos 20 anos, ela abandona seu primeiro companheiro para quem não era problema a falta total de prazer sexual de sua esposa. Foi com seu novo marido que ela percorreu todo o caminho que a levou à sala de operação e que a conduzirá, quando ela decidir, a uma vida sexual que ela espera ser plena e feliz.

Essas histórias de mulheres são histórias de famílias, de destinos onde se misturam tradições, educação e submissão a um modelo patriarcal que para as novas gerações é imperativo que seja abandonado, se elas quiserem por um fim à prática da  excisão. A França, onde algumas delas nasceram e onde outras cresceram, condena como crime a excisão e todas as mutilações sexuais. Pela lei, o autor do ato e o responsável pela criança mutilada são passíveis de dez anos de reclusão e 150.000 euros de multa.

No hospital Hôtel-Dieu, em Paris [considerado o mais antigo da cidade], no serviço de emergências médico-judiciárias consagrado às vítimas de mutilações sua chefe, Caroline Rey-Salmon, e Céline Deguette colocam seus conhecimentos de médicas legistas a serviço da proteção de mulheres e meninas contra a excisão. Sã0-lhes encaminhadas as meninas, sob o sistema de proteção da mulher e da criança, em relação às quais um diretor de escola tenha sinalizado ao serviço de menores que foram excisadas ou correm o risco de sê-lo. Ao serviço de emergências cabe a tarefa de fazer um diagnóstico seguro sobre elas. 

"Quando uma menininha nos chega porque seus pais planejaram levá-las consigo para seu país durante as férias, nós examinamos seu estado físico. Se ela não for excisada, seus pais são obrigados a nos trazê-las ao retornarem das férias. Ela deve estar intacta, caso contrário a justiça é acionada para puní-los", explica Caroline Rey-Salmon. Ao prevenir o risco de excisão através de consultas com crianças "sob risco" e da condenação dos pais cujas filhas tenham sido mutiladas, a França protege da melhor maneira possível as mulheres em seu território. Mas nem sempre isso basta. 

Assa tem hoje 25 anos, vive no norte de Paris, se prepara para um diploma universitário e vive com seu noivo. Ela é uma mulher jovem de seu tempo. Um detalhe adicional: ela também foi excisada em Paris quando tinha 2 anos. Ela o soube por intuição. O assunto é um tabu tal, que ela teve que esperar ter 20 anos para poder falar sobre ele com seus pais, muitos anos depois deles terem sido condenados pela justiça francesa. 

Hoje, ela não quer mais culpá-los mas deseja lutar contra essa prática sangrenta. "Com base em que direito puderam eles dispor assim do corpo de sua filha? Se você disser à geração dos meus pais que eles são uns bárbaros não chegará a lugar nenhum, é preciso mais diplomacia e também de mais empatia",  provoca ela. 

O que a impressiona é que à sua volta, suas amigas tão parisienses, tão completamente assimiladas à cultura de sua terra natal, a França, são quase todas excisadas. Mulheres entre as quais Assa se levanta para se manifestar: "Sou orgulhosa de ser portadora dessas duas culturas. A África corre em minhas veias, mas jamais mutilarei minha filha. Cabe à nossa geração romper a cadeia e cassar as lâminas das executoras de excisão".

[Recomendo fortemente a leitura do livro "Infiel", de Ayaan Hirsi Ali (Companhia das Letras, 2004). A autora é uma ativista, escritora, política e feminista ateísta somali-holandesa-americana, que é conhecida por seus pontos de vista críticos da mutilação genital feminina e o islamismo. Ela escreveu o roteiro de Submission, filme de Theo van Gogh. Depois que ela e o diretor receberam ameaças de morte o diretor foi assassinado. Filha do político somali e líder da oposição Hirsi Magan Isse, ela é uma das fundadoras da organização de direitos das mulheres AHA Foundation.

Quando tinha oito anos, sua família deixou a Somália para a Arábia Saudita, depois Etiópia, e acabaram por se instalar no Quênia. Ela pediu e obteve asilo político nos Países Baixos em 1992, em circunstâncias que mais tarde se tornaram o centro de uma controvérsia política. Em 2003 foi eleita membro da Câmara dos Representantes (câmara baixa do parlamento holandês), representando o Partido Popular para a Liberdade e Democracia (VVD). Uma crise política em torno do potencial de remoção de sua cidadania holandesa levou à sua renúncia ao parlamento, e levou indiretamente à queda do segundo gabinete Balkenende em 2006.

Em 2005, ela foi nomeada pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Ela também recebeu vários prêmios, inclusive um prêmio de liberdade de expressão do jornal dinamarquês Jyllands-Posten, o Prêmio Democracia do Partido Liberal Sueco, e o Prêmio Coragem Moral de compromisso com a resolução de conflitos, ética e cidadania mundial. Em 2006, ela publicou um livro de memórias.  Em 2013 Hirsi Ali se tornou fellow da John F. Kennedy School of Government da Universidade Harvard, um membro da The Future of Diplomacy Project at the Belfer Center, e vive nos Estados Unidos. Ela é casada com o historiador britânico e comentarista público Niall Ferguson. Se tornou uma cidadã naturalizada nos Estados Unidos em 25 de abril de 2013.]

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A Síria será o principal tema da agenda do novo presidente americano

[Traduzo a seguir um texto de Carol Morello publicado pelo The Washington Post. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. Atentar para o fato de que o texto foi publicado antes do segundo debate entre Hillary e Trump.]

A guerra na Síria não tem sido muito discutida, mesmo antes das notícias sobre os comentários de Donald Trump sobre mulheres e sobre os emails e palestras de Hillary Clinton para banqueiros. Mas, para quem quer que se eleja presidente a Síria e as sequelas do inacreditavelmente complexo conflito que começou há cinco anos presumivelmente estarão no topo dos desafios de política externa da nova administração. [Ver: "Síria, o abismo do mundo".]

Enquanto a guerra se desenrolar com grande intensidade, refugiados sírios buscarão asilo. Nos últimos 12 meses, 12.500 refugiados sírios vieram para os Estados Unidos. Hillary propôs admitir 65.000 mais ao longo do próximo ano. Trump os comparou a um cavalo de Troia e disse que mandaria de volta os que já estão no país.

Campanha 2016 (EUA) - Número de refugiados em todo o mundo - inclui pessoas em condições similares às dos refugiados, ao longo do final de 2015 [M = milhão(ões) - k = mil] - 5 principais países: Turquia/Paquistão/Líbano/Irã/Etiópia - Total mundial: 16,1 milhões [mais que a população da Bahia e quase a população do Estado do Rio de Janeiro]

Mas, não há boas opções para acabar com o derrame de sangue e a guerra. O presidente Obama rejeitou um envolvimento militar além dos ataques aéreos da coalizão liderada pelos EUA.

Trump diz que tem um plano para eliminar os militantes do Estado Islâmico que criaram um califado, mas que é secreto porque não quer divulgar suas intenções além de prometer "bombardeá-los ao extremo". Ele disse que cooperaria com a Rússia, que tem apoiado fortemente o presidente sírio Bashar al-Assad. Trump disse que Assad é "ruim", mas os EUA têm "problemas maiores que Assad". Embora na campanha tenha se posicionado contra o envolvimento [americano] em guerras no exterior como no Iraque, Trump disse no passado que poderia se dispor a envolver tropas de terra para lutar contra o Estado Islâmico -- o número tem variado.

Durante o debate dos candidatos à vice-presidência, Mike Pence [vice na chapa de  Trump] defendeu a criação de "zonas de segurança" para civis. Disse que as provocações dos aviões russos voando sobre a Síria devem ser enfrentadas com "poderio americano", e os EUA devem estar preparados para usar de força militar contra o poderio militar de Assad para interromper seus ataques contra a cidade de Aleppo.

Hillary Clinton, uma ex-Secretária de Estado, tem defendido quase a mesma atitude no combate ao Estado Islâmico: uma zona interditada a sobrevoos para prover um abrigo humanitário para a população civil e interromper a onda de refugiados rumo  à Europa, cooperação com os aliados e possivelmente usar a força militar americana para interromper o bombardeio de civis pelo governo sírio. Ela se opôs ao envio de tropas terrestres, mas intensificaria a campanha de ataques aéreos por uma coalizão liderada pelos EUA.

No momento em que qualquer dos candidatos entrar no Salão Oval, a avaliação de hoje pode ser questionável ou irrelevante. Tentativas de cessar-fogo falharam. Tentativas de cooperação com Moscou desmoronaram em grande parte. O governo sírio, com apoio russo, está transformando Aleppo em escombros, e o  enviado da ONU à Síria alertou que a cidade pode estar completamente destruída no Natal.

[O texto acima evidencia a superficialidade com que o drama sírio é tratado, apesar de seus cinco anos de existência e seus mais de 400 mil mortos (incluindo civis e crianças) e os milhões de refugiados que gerou. Ninguém se questiona por ter deixado isso se prolongar e se agravar dessa maneira. Os americanos usam o argumento de não terem tropas terrestres na Síria como uma espécie de bônus que lhes permite fazer o que quiserem por via aérea. Para eles, a "provocação" é a presença de caças russos no mesmo espaço aéreo, e não o genocídio que a aviação e as tropas de Bashar al-Assad (com e sem apoio russo) fazem em terra.

Os EUA insistem em pintar a Rússia como única potência vilã nessa guerra civil nefasta, esquecendo-se de que eles também matam civis inocentes com ataques aéreos liderados por eles.

A Síria é uma demonstração clara, inequívoca e contundente da hipocrisia e da falta de disposição absoluta da ONU e das grandes potências de atuação na Síria, primeiro não evitando a guerra civil, segundo por não terminá-la. Ver também "Síria, o abismo do mundo".] 



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Síria, o abismo do mundo

[Durando já 5 anos e contabilizando 400 mil mortes, com uma alta porcentagem de civis e crianças entre elas, a guerra na Síria é um exemplo impressionante e inaceitável de violência desmedida, de absoluto descaso aos direitos humanos e de um lamentável show de força por parte dos EUA, da Rússia e do governo sírio de Bashar al-Assad. Além dos milhares de mortos, a guerra síria é a maior fonte de refugiados que tentam se estabelecer na Europa e vêm gerando uma das piores crises já enfrentadas pelos europeus. Traduzo a seguir a crônica de Christian Makarian sobre a Síria, publicada na revista e no site L'Express -- é um texto merecidamente duro sobre uma das  piores barbáries por que passam ou passaram o Oriente Médio e a Europa. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha  responsabilidade.] 

Síria, o  abismo do mundo

Christian Makarian - L'Express

O acúmulo de impasses na Síria não é somente uma catástrofe humanitária sem precedentes em todo o Oriente Médio árabe -- o que bastaria  amplamente para definir uma vergonha internacional. Ela é também a demonstração clara e evidente da impotência de nações que invocam ainda alguma forma de potência. Sob nossos olhares embaçados por tantas destruições, o cerco a Aleppo e o aniquilamento impiedoso dos oponentes a Bashar al-Assad, aos iranianos ou aos russos oferecem o espetáculo de um conflito que põe abaixo todo o sistema internacional, todas as engrenagens, todos os balizamentos de  um mundo que não controla em nada suas tensões nem suas extensões. Como um sifão gigante, a guerra da Síria criou um turbilhão infernal que arrasta aos abismos do nada todas as forças da razão, os cálculos militares e as lógicas diplomáticas.

A começar por esse centro de inação em que se tornou a ONU. À exceção dos diplomatas, quem se recorda de que a resolução 2254, votada nos últimos dias de 2015, pretendia preparar uma transição política em Damasco? Da mesma forma, quantas vezes a trégua acordada  entre Washington e Moscou, no passado 9 de fevereiro, foi violada? A que definição correspondem os termos "cores humanas" para Assad e os russos, já que eles se aproveitam disso para expulsar as populações civis das zonas que lhes dizem respeito?

Face a tanto cinismo, pelo menos os ocidentais poderiam se mostrar unidos. Ora, na semana passada dois aliados sinceros foram vistos mostrando suas divergências à vista de seus  adversários. Enquanto Barack Obama discorria sobre a complexidade crescente das relações mundiais e sobre a necessidade da paz, François Hollande marcou sua divergência com verdadeiros ímpetos de indignação e de censuras explícitas contra a falta de engajamento real dos americanos na Síria. Na mesma tribuna da ONU, Vladimir Putin insistiu no imperativo de defesa dos "Estados", segundo ele um horizonte que não pode ser ultrapassado, e denunciou os movimentos populares que ameaçam sua pseudoestabilidade.

O absurdo e a inutilidade do jogo das velhas potências compõem a segunda falência completa ligada ao desastre sírio. No momento em que as aspirações de toda a humanidade, reforçadas pela globalização, convergem para a cessação das matanças em massa, Washington e Moscou se comportam como superpotências anacrônicas. Obama e seu Secretário de Estado, John Kerry, não se privam de denunciar a Rússia como uma potência de uma outra época. Eles evidentemente não estão enganados, mas isso não resolve a contradição própria dos Estados Unidos: para quê serve o arsenal da maior potência militar de todos os tempos, se não for utilizado como o braço armado da diplomacia? Resultado: não se saberia melhor colocar em oposição duas ordens do mundo. Uma, aquela dos princípios humanos que tornam "inegociáveis" os valores ocidentais surge fraca, dividida, na verdade não operacional; a outra, que exalta as entidades pela força e pelo temor que inspiram, se mostra prestes a entrar em ação, mas  inteiramente dirigida contra os povos.

Por isso a  Rússia tem uma necessidade flagrante de vitória, e fará tudo para obtê-la ao preço de uma engrenagem que a aproxima cada vez mais das batalhas da Chechênia. A guerra da Síria não é apenas a guerra de Assad, é a de Putin, uma reconquista interior para fins de demonstração planetária. Face a essa tática que não sofre de limites humanitários nem territoriais (porque aí a partição seria o resultado), os Estados Unidos não parecem prontos -- em todo caso, não Hillary Clinton -- a mudar de  opinião. Eles não vêem o Oriente Médio senão como uma terra de derrotas sucessivas ...

[Como de praxe, nas abordagens de conflitos de que participam americanos e russos, a mídia ocidental costuma carregar mais nas tintas contra os  russos. No caso da  Síria, como se vê acima -- embora haja cargas fortes contra os EUA -- a história se repete. A participação americana na guerra síria é  tão condenável quanto a russa, e p'ra variar ambas estão em campos opostos. Olhando-se um mapa regional, vê-se que conflitos no Oriente Médio são conflitos fronteiriços à Rússia, o que explica, mas não justifica, o intervencionismo regional russo. O Oriente Médio é uma parte intrínseca e explícita da área de atuação geo-estratégica dos russos. Até onde isso é válido, é outra história. 

Os EUA têm interesses e preconceitos no mundo todo, o que torna seu intervencionismo planetário -- e quando há superposição ou continuidade dessas áreas estratégicas, como agora no Oriente Médio, o confronto entre EUA e Rússia é inevitável. As razões pelas quais os russos apoiam Assad e os EUA querem derrubá-lo prendem-se, a meu ver, muito mais ao antagonismo tradicional entre essas potências do que propriamente à conceituação de quem é bandido e de quem é mocinho. Tanto os EUA quanto a Rússia têm péssimo currículo no que se refere a intervenções militares fora de seus territórios. Os russos fracassaram redondamente na invasão do Afeganistão, que durou 10 anos (1979-1989). Líbia, Iraque e Afeganistão são exemplos claros de fracassos gigantescos dos americanos no Oriente Médio e redondezas.

Os Estados Unidos têm adotado posições um tanto ou quanto bastante  cínicas e hipócritas no que se refere à sua participação na guerra síria. Em março deste ano, Obama fez duras críticas aos seus aliados europeus e do Oriente Médio na intervenção militar na Síria, e  os culpou pelo fracasso da intervenção militar nesse país. 

Em entrevista publicada pela revista The Atlantic, Obama declarou que alguns países da Europa e do Golfo Pérsico são ‘oportunistas’ porque insistem que os EUA se envolvam em complicados conflitos que pouco têm a ver com seus interesses. "Nas últimas décadas, tem gente que adotou o hábito de nos empurrar para atuar e depois se mostram pouco dispostos a implicar-se”, destacou Obama. Não dá para engulir essa história de que os EUA possam participar, com dinheiro e vidas americanos, de intervenções militares "que pouco têm a ver com seus interesses". É óbvio que isso não existe, é impossível. Assim como não dá p'ra acreditar que os EUA se transformem em massa de manobra e marionetes de países como Arábia Saudita e França, para citar apenas dois.

O que é patente é que os EUA intervêm e/ou criam conflitos em lugares e países a milhares de quilômetros de seu território, o que faz com que não haja sequelas secundárias territoriais ou sociais dessas intervenções sobre os americanos -- ao contrário do que aconteceu na Líbia, no Iraque, no Afeganistão e agora na Síria. Nesses países o caos político e social, e a geração de hordas de refugiados, são as faces mais visíveis desses fracassos -- e quem paga a maior parte ou totalidade da conta disso, além evidentemente dos países locais direta e indiretamente envolvidos, é a Europa e não os EUA. ] 


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Hora para um plano B: a Europa não pode ser chantageada pela Turquia

[Traduzo a seguir editorial do site Spiegel Online International, escrito por Mathieu von Rohr. Se a União Europeia admitir a Turquia depois do que ela tem feito em represália ao golpe militar fracassado -- que tem todos indícios de que era previamente sabido por Erdogan -- os europeus terão perdido de vez qualquer credibilidade. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Crianças refugiadas sírias na Turquia - (Foto: Getty Images)

Ser completamente dependente de alguém o torna vulnerável a extorsão. Quando a União Europeia (UE) fechou seu acordo para refugiados com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan no início do ano, algumas pessoas ficaram preocupadas com a hipótese de que ele usasse esse acordo como uma alavanca a seu favor. Agora, o governo turco fez exatamente isso. O ministro das Relações Exteriores turco alertou que Ancara cancelará o acordo se, dentro de meses, a UE não garantir isenção de visto para cidadãos turcos.

Certamente, há boas razões para garantir dispensa de visto para os turcos. Mas, exatamente agora, é especialmente importante que a UE insista para que Ancara primeiro preencha os requisitos fixados pela UE para que essa isenção seja concedida. Isso inclui uma reforma das leis antiterrorismo turcas, que o governo tem usado para prender opositores políticos sem o devido processo legal. A UE não pode deixar-se chantagear por Erdogan, cujas tendências autocráticas tornaram-se novamente visíveis durante as últimas semanas. 

A Turquia está em um perigoso estado de crise após o golpe fracassado do mês passado. A Europa -- corretamente -- condenou a tentativa de tomada do poder por partes do exército, e agora precisa trabalhar para que Erdogan retorne ao império da lei. A democracia turca está ameaçada pelo expurgo pós golpe, que incluiu demissões e prisões de dezenas de milhares de advogados, juízes, jornalistas e militares. Simultaneamente, um sentimento anti-Ocidente ganhou raízes na política e na sociedade turcas. O governo de Ancara erroneamente acusa a Europa e os Estados Unidos de não condenarem o golpe de maneira suficientemente forte ou de, secretamente, tê-lo apoiado. Este tipo de pensamento é que gerou a ameaça de paralisar o acordo de refugiados.

É incerto se a Turquia afinal será bem sucedida em seu ultimato. Esse não seria um movimento inteligente, mesmo sob a perspectiva turca. Em primeiro lugar, Erdogan perderia a peça mais importante da suposta arma a seu favor. A Turquia depende também da Europa para seu desenvolvimento econômico; a recentemente redescoberta  amizade entre Erdogan e o presidente russo Vladimir Putin não oferece nenhuma alternativa real para a UE. Mas o presidente turco é um ator imprevisível, e nem sempre parece agir racionalmente.

Consequências menos dramáticas do que medos

Se a Turquia cancelasse realmente o acordo dos refugiados, as consequências provavelmente seriam muito menos dramáticas do que muitas pessoas receiam. Seguramente, o fluxo de imigrantes para a Europa tenderia a aumentar, mas é bem improvável que dezenas de milhares de pessoas tomariam imediatamente o caminho para a Europa. Afinal, foi o fechamento da rota dos Bálcãs -- não o acordo com a Turquia -- o principal responsável por interromper o fluxo de imigrantes rumo ao norte.  Ambas as medidas juntas deram a mensagem de que a UE não queria mais aceitar uma migração sem controle para a Europa central.

Mais do que qualquer coisa, o acordo dos refugiados tinha uma força simbólica. Até hoje, a Grécia não rejeitou nenhum sírio que lhe tenha pedido asilo. Até Julho, apenas 468 pessoas haviam sido deportadas para a Turquia. O anúncio do acordo foi suficiente -- o acordo em si, na realidade, nunca teve que ser aplicado. [Quem estiver interessado em saber detalhes desse acordo, clique aqui.]

Mas ninguém tem condição de dizer o que aconteceria se o acordo com a Turquia fosse realmente cancelado. Por essa razão, a UE precisa encontrar sua própria solução alternativa para lidar com os refugiados. A Europa precisa de um plano B sem Erdogan, mas há duas considerações a fazer: i) o tipo de migração que vimos no ano passado não é politicamente viável em qualquer país europeu, nem mesmo na Alemanha; - ii) uma distribuição igualitária de buscadores de asilo através de toda a UE no futuro parece infelizmente ser irrealista.

Enquanto as coisas permaneceram desse modo, há apenas uma opção: a UE tem que usar fundos europeus para construir campos de refugiados na Grécia e na Itália, onde os pedidos de asilo podem então ser processados. Isso, entretanto, seria uma carga muito pesada para os países afetados. Ao mesmo tempo, os líderes dos países membros da UE precisam criar mais oportunidades para a entrada legal de quem busca asilo e obrigar pelo menos alguns países da UE a aceitar refugiados.

O pior cenário seria a Grécia transformar-se novamente num gargalo para os refugiados. Mas é mais provável, em primeiro lugar, que muitas pessoas se sentirão desencorajadas pela falta de atratividade em atravessar a Europa.

Há de fato tristes perspectivas, mas a verdade é que, moralmente, não é melhor continuar enviando para Ancara bilhões de euros para manter imigrantes na Turquia, do que acomodá-los em solo europeu -- especialmente quando ao se fazer isso fica-se à mercê de um homem cujo país poderia ele mesmo tornar-se em breve a fonte da próxima onda de refugiados políticos.

[Vê-se pelo texto que não há muita consideração pelo lado humano do problema dos refugiados, eles são tratados como itens incômodos que precisam ser alojados, de uma ou outra maneira. Como já disse em outra postagem, no caso dos refugiados os europeus estão colhendo hoje o que plantaram ontem.]

sábado, 13 de agosto de 2016

O maior hotel do mundo será aberto em 2017 em Meca: 10.000 quartos e 70 restaurantes

[Traduzo a seguir reportagem de May Bulman, publicada no jornal inglês The Independent. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Uma imagem do que será o maior hotel do mundo - (Foto: Dar al-Handash)

O maior hotel do mundo está programado para abrir em Meca no ano que vem. O prédio, chamado Abraj Kudia, terá 10.000 quartos e ocupará uma área de 1,4 milhão de m². Assim como quartos de hotel, ele terá 70 restaurantes, um grande shopping e um suntuoso salão de baile.

A construção do hotel está prevista para custar cerca de £ 2,7 bilhões [pouco mais de R$ 11 bilhões], bancados pelo Ministério das Finanças saudita. É um projeto do grupo Dar al-Handash, uma empresa internacional de design e projetos.

Será aberto ao público, mas terá cinco andares reservados para a família real saudita para uso em férias e feriados. 

A extravagância em construções em Meca no ano passado levou o diretor da Fundação de pesquisa da Herança Islâmica (sediada no Reino Unido) a chamar a cidade de "Meca-hattan". 

[Arábia Saudita, um país muito estranho

A Arábia Saudita é, territorialmente, o maior país árabe na Ásia e na Península Arábica. O Reino da Arábia Saudita foi fundado em 1932. O país tem a segunda maior reserva de petróleo e a sexta maior reserva de gás natural do mundo, e é o 19° maior PIB do planeta.

Os dois mais importantes centros religiosos do islamismo são sauditas: as cidades de Meca (onde está a Caaba, o lugar mais sagrado do mundo para os devotos do Islã) e Medina. Opulento, com fama de perdulário e um claro projeto de poder na região, o país tem entre 85% e 90% de sua população formados por sunitas e o restante de xiitas, o que o torna estratégico e de extrema importância e poder na sangrenta rivalidade entre essas duas etnias no Oriente Médio.  

Severa cumpridora da sharia, a rígida lei islâmica, a Arábia Saudita se destaca também por atitudes absolutamente bizarras, anacrônicas e absurdas com relação a seus cidadãos e àqueles que a visitam. Estabeleceu recentemente a pena de morte para quem entrar com a Bíblia em seu território. As mulheres sauditas não podem: 

1) Buscar justiça (de verdade) contra agressões --  A Arábia Saudita aprovou apenas em 2013 a criação de leis contra a violência doméstica e o abuso sexual, mas a punição dada é geralmente uma multa em dinheiro. O agravante é o fato de a tradição determinar que os problemas familiares sejam resolvidos no próprio meio familiar.

2) Viajar sem um guardião -- As mulheres só podem viajar com a companhia ou autorização de um guardião (um mahram), um homem da família como o pai, marido ou irmão. Já em território saudita elas circulam sem guardiões, até mesmo nas áreas mais tradicionais.

3) Dirigir -- As mulheres são impedidas de dirigir há décadas. Segundo clérigos, mulheres motoristas minam os valores sociais e até prejudicam seus ovários, colocando suas futuras gestações em risco. Em setembro de 2007, um grupo de mulheres intelectuais sauditas criou a primeira associação no reino para reivindicar o direito a dirigir. O habitual é que as autoridades detenham as motoristas e apreendam o veículo, até que um tutor --um homem da família-- se apresente na delegacia e assine um documento no qual garanta que a infração não vai se repetir.

4) Vestir a roupa que quiserem -- A vestimenta exigida para as mulheres segue a interpretação da sharia. Elas devem usar a abaya, um longo vestido preto de manga longa que cobre totalmente o corpo. Elas também devem cobrir os cabelos com um véu, mas não necessariamente o rosto todo. A liberdade de vestimenta pode ser maior (ou não) dependendo do quanto a família é conservadora.

Em certas cidades, como em Buraidah (localizada na região mais religiosa, conservadora e rica do país) é obrigatório cobrir o rosto. Em cidades grandes como Riad, Jidda e Dammam, nenhuma mulher é obrigada a usar o niqab para cobrir o rosto; mesmo assim a grande maioria usa.

O mesmo vale para a maquiagem. Mas, segundo Débora Garcia (brasileira residente e professora de inglês em Buraidah), a grande maioria das mulheres usa (e abusa) da maquiagem. "Elas vão super maquiadas para a faculdade e para o trabalho. O que não pode é fazer a sobrancelha --tirar os pelos não pode, mas fazer o desenho com descolorante é permitido".

5) Interagir com homens -- A mulher não deve falar com homens que não são de sua família. "Um homem e uma mulher que não sejam casados ou da mesma família não podem estar juntos em público, não podem estar sozinhos no mesmo veículo, não podem ir ao um restaurante juntos. Quando você vai a uma loja, ao banco ou restaurante, você obrigatoriamente vai ter de falar com um homem. Isso é aceitável em qualquer cidade da Arábia", relata Débora.

A maioria dos prédios possui entradas diferentes para homens e mulheres, e parques e até o transporte público têm áreas segregadas para mulheres.

6) Entrar em cemitérios -- Uma mulher será enterrada em um cemitério, mas não poderá participar do funeral de seus parentes, já que elas são proibidas de entrar no local. Mas não se engane: os sauditas não dão muita atenção a funerais; até o sepultamento do rei foi simples. "Eles acreditam que os mortos podem nos ouvir. Então as mulheres não devem ir aos enterros porque, emotivas por natureza, iriam chorar muito e incomodar os mortos", explica Débora. Outro motivo é o fato de que não se deve rezar ou fazer súplicas para os mortos, e supostamente as mulheres poderiam fazer isso.

7) Disputar competições esportivas em seu território -- A participação de mulheres nos esportes tem grande oposição dos religiosos. Até o ensino de Educação Física é proibido nas escolas para elas. Neste ano, a Arábia Saudita se propôs a sediar os Jogos Olímpicos sem competições femininas -- elas seriam disputadas no Bahrein, que participaria da candidatura conjunta. A ideia foi vetada pelo Comitê Olímpico, que classificou a proposta como discriminatória. Mas, em 2012, as mulheres sauditas puderam pela primeira vez disputar uma Olimpíada -- ainda que tenham sido chamadas de prostitutas pelos clérigos radicais do país. [Obs.: há uma delegação saudita na Rio 2016

Delegação da Arábia Saudita na cerimônia de abertura da Rio 2016 - (Foto: Google)]

Aos 16 anos, a judoca Wodjan Ali Seraj Abdulrahim Shahrkhani foi uma das duas primeiras mulheres a disputar uma Olimpíada, em Londres. Ela disputou as provas com um véu depois de uma discussão com o comitê, que chegou a um acordo sobre um modelo que cobriria os cabelos dela. A outra é a atleta Sarah Attar, que também correu de véu e calças.

8) Usar academias e piscinas sem restrições -- Se você vive em uma cidade grande, há opções de academias femininas semelhantes às brasileiras. Mas, nas áreas menores e mais tradicionais do país, malhar é algo quase impossível. "Academias existem só dentro de clínicas ou salões de beleza ou estética e, mesmo assim, com várias restrições", relata Débora. "São poucos aparelhos e horários bem reduzidos".

Uma repórter da agência de notícias Reuters contou recentemente que, apesar de estar hospedada em um hotel de luxo em Riad com uma excelente academia e uma grande piscina, foi impedida até mesmo de conhecer os lugares. "Há homens em trajes de banho lá" disse o funcionário do hotel em choque com o pedido de Arlene Getz. O que foi disponibilizado para ela se exercitar foi uma pequena sala com uma esteira e uma bicicleta ergométrica.

9) Se consultar com um médico sem a presença de seu guardião -- Segundo a ONG Human Rights Watch, foi aprovada recentemente uma fatwa (decreto religioso) determinando que mulheres não sejam examinadas por médicos sem a presença de seus guardiões. Elas só podem expor partes do corpo para homens em casos de emergência médica. Mas Débora afirma que tanto ela como as outras mulheres do país conseguem atendimento sozinhas com médicas mulheres sem dificuldades.

10) Comprar uma Barbie -- A famosa boneca americana foi banida da Arábia Saudita em 2003, já que seria uma ameaça para a moralidade. As meninas do país têm a Fulla, criada na Síria e que no mesmo ano ganhou os mercados sauditas. Ela também vem em uma caixa rosa e tem uma coleção de véus que podem ser trocados. Ela não tem namorado (como o Ken) e, além de cozinhar, cantar e rezar (em vez de ter uma vida típica americana, como a Barbie), atendeu a um mercado consumidor que demandava uma boneca que representasse as tradições islâmicas. Além disso, a Fulla custa a metade do preço da Barbie.]


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Jogos Olímpicos de 2016: quando os atletas israelenses são boicotados

[Traduzo a seguir reportagem do jornal francês L'Obs sobre a participação dos atletas judeus na Rio 2016. O que o texto diz não aparece na mídia, pelo menos na brasileira.]

Vários atletas se recusaram a competir com israelenses, e até mesmo de andar num mesmo ônibus com eles. Incidentes que ocorrem regularmente quando há competições.

O judoca egípcio Islam El Shehaby (de branco, enfrentando um judoca afegão no campeonato mundial de 2015) deve enfrentar um israelense hoje, sexta-feira, o que provoca controvérsia e debate no Egito - (Foto: Jack Guez/AFP)

Uma vez mais, os conflitos do Oriente Médio entram em uma competição esportiva sem serem convidados. A Carta Olímpica é clara: "É proibida toda forma de discriminação de um país ou de uma pessoa baseada, entre outras, em considerações de política, de religião". Mas, na realidade, essas considerações entram seguramente em cena, e os incidentes diplomáticos daí resultantes não são raros. Os Jogos do Rio não são exceção.

O site Atlantico relata que Joud Fahmy, uma judoca saudita, anunciou no domingo passado que não participaria de sua primeira luta dos Jogos Olímpicos contra a atleta mauriciana [das ilhas Maurício] Christianne Legentil. Antes da luta, "autoridades esportivas sauditas anunciaram no Twitter que a esportista se ferira nos braços e nas pernas durante o treinamento", diz o site.

Mas, segundo as mídias israelenses, esse abandono seria na realidade uma manobra para evitar o combate (em caso de vitória contra a mauriciana) contra Gili Cohen, uma atleta israelense. A Arábia Saudita e Israel não têm relações diplomáticas, lembra o site Atlantico: "O reino saudita não autoriza seus habitantes a visitarem o país hebreu, e não concede visto aos cidadãos de Israel".  

"Eles matam nossa gente"

Sempre no judô, é também um combate entre um egípcio e um israelense que provoca problemas. Hoje, 12 de agosto, Islam El Shehaby deve enfrentar Or Sasson, na categoria de mais de 100 kg.Um encontro que gera debate nas redes sociais egípcias, como explica o site Cairoscene. Para alguns egípcios, Islam El Shehaby deve retirar-se, porque toda relação com Israel deve ser evitada, inclusive em estádios e ginásios. No Facebook, um internauta solicita ao esportista egípcio que não lute nestes termos: "É uma decisão difícil, entretanto isso é melhor do que normalizar [nossas relações com] aqueles que matam nossa gente". 

Ao contrário, para outros internautas seu judoca deve lutar, porque uma vitória simbolizaria uma vitória do Egito contra o estado judeu. No entanto, como sublinha o site Cairoscene, a vitória está longe de ser garantida porque El Shehaby é o 25° do ranking mundial e Sasson é o 5°.

Segundo um site de informação israelense, o combate deverá ocorrer apesar dessas discussões. O presidente do comitê olímpico egípcio teria declarado que ainda que deplore esse encontro com um israelense, "ninguém está autorizado a destruir os sonhos de um jovem egípcio nos Jogos Olímpicos simplesmente porque o adversário é um israelense". 

Um ônibus para duas delegações

Essas tensões permanecem alguns dias após um primeiro incidente no dia 5 de agosto. Antes da cerimônia de abertura, os atletas libaneses não permitiram que os atletas israelenses entrassem no ônibus que os levaria ao estádio do Maracanã.

Líbano e Israel estão oficialmente em guerra, e não mantêm nenhuma relação diplomática. "Pedi que fechassem a porta [do ônibus], mas os atletas israelenses insistiram em entrar", conta Salim al-Haj Nicolas, chefe da delegação libanesa.

De seu lado, o treinador da equipe de vôlei israelense, Udi Gal, para quem "se evitou um incidente internacional" (as duas delegações, ao final, tomaram dois ônibus diferentes), reagiu nas redes sociais: "Tudo isso não constitui exatamente o oposto do que representa o Olimpismo, e a delegação libanesa não agiu contra ele?".

Depois, em uma segunda postagem continuou: "Esse incidente vergonhoso serviu apenas para nos motivar. O espírito olímpico é a única coisa que importa, e estamos aqui para protegê-lo e sustentá-lo com orgulho". 

Casos marcantes, de grande repercussão, são frequentes

Não é a primeira vez que esse tipo de conflito explode em Jogos Olímpicos. Os esportistas israelenses são regularmente alvos de boicotes. Já em Atenas, em 2004, o judoca iraniano Arash Miresmaeili havia se recusado a enfrentar um israelense. O The Washington Post relata que o governo iraniano deu a esse seu atleta um prêmio de US$ 155.000 por sua atitude, um montante concedido normalmente a vencedores.

Em 2008, foi o nadador Mohamed Ali Rezaei, também iraniano, que se declarou enfermo antes da prova dos 100 m, da qual participaria também um nadador israelense. O jornal francês Le Figaro enfatiza que esse atleta iraniano está "acostumado a fazer isso": ele já havia se ausentado, pelas mesmas razões, de provas no campeonato mundial de Roma em 2009 e em Shanghai em 2011.

Não é apenas em Jogos Olímpicos que se observam esses casos de boicote. Em 2013, em um torneio no Uzbesquistão por exemplo, o tenista tunisiano Malek Jaziri foi constrangido a não jogar contra o israelense Amir Weintraub, que conhece bem e aprecia, após receber um email da federação tunisiana de tênis: "Caro Malek, em seguida à reunião desta tarde no Ministério da Juventude e dos Esportes [...], tenho o imenso pesar de informá-lo de que você está obrigado a não jogar contra o jogador israelense". 

Um ano e meio mais tarde, quando do torneio de Montpellier em fevereiro de 2015, Malek Jaziri abandonou a disputa antes de enfrentar o número 1 israelense, Dudi Sela.

Apesar de tudo, terminemos com uma nota positiva. O esporte é também às vezes, e felizmente, a ocasião para superar as diferenças. A foto da ginasta sul-coreana e da ginasta norte-coreana fazendo um selfie ficará sem dúvida como uma das imagens fortes dos Jogos Olímpicos do Rio.

A ginasta sul-coreana Lee Eun-ju faz selfie com a norte-coreana Hong Un-jong, durante treino de ginástica artística, na Arena Olímpica - (Foto: Dylan Martinez/Reuters)





terça-feira, 22 de março de 2016

"Está se esgotando o tempo para conseguirmos uma solução para os refugiados", diz ministro das Finanças alemão

A questão dos refugiados está sendo muito mais traumática e devastadora para a União Europeia (UE) do que a crise financeira, por violar conceitos básicos de democracia e de direitos humanos que se julgavam ser seus pilares fundamentais. O fluxo ininterrupto de pessoas escorraçadas de seus países por conflitos armados e perseguições pegou de surpresa os países da UE, que absolutamente não se entendem entre si sobre como resolver o problema. A última mensagem da UE para os refugiados é "fiquem em casa, não venham para a Europa", numa tentativa de evitar mais uma catástrofe humanitária.

Os inúmeros postos de controle instalados em diversas fronteiras para conter a onda de refugiados têm tido também um efeito danoso sobre o comércio interfronteiriço, tornando-o mais lento e dificultando o deslocamento de pessoas que trabalham num país vizinho ao seu. Problemas adicionais que contribuem para aumentar a reação contra os refugiados.

O movimento contra a entrada de refugiados em diversos países da UE evidenciou que união de princípios está longe de ser o forte desse grupo. A Áustria quer limitar em 37.500 a entrada de refugiados no país em 2016. O gráfico abaixo retrata a disparidade das reações dentro da UE quanto à prestação de ajuda aos refugiados. Observa-se que estão no leste europeu os países mais avessos a ajudá-los, com a Itália engrossando o grupo. Grécia, Itália e Turquia se tornaram pontos nevrálgicos e países-chaves no controle da entrada de refugiados na Europa, o que provocou uma carga brutal de problemas para esses países (principalmente à já combalida Grécia). A Turquia aproveitou a chance para impor à UE uma série de condições para fechar a "rota dos Balcãs" aos refugiados: quer 6 bilhões de euros para isso, a isenção de visto para cidadãos turcos entrarem no Espaço Schengen (UE) e o relançamento do processo de adesão do país à UE. Crise humanitária serve também para se fazer chantagem.


Parte visceral do problema dos refugiados, a concessão de asilo para eles na UE começa a provocar novas discussões e dissensões na Comunidade Europeia. Bruxelas já cogita centralizar e alterar as regras de asilo vigentes na UE ("Convenção de Dublin"), o que já provocou reação imediata do Reino Unido, que vê nisso mais uma usurpação de poder dos países pela UE, com repercussão direta no referendo que o país fará no dia 23 de junho vindouro para decidir se permanece ou não na UE.

Os países do leste europeu alegam que a solução da crise cabe primeiro aos países colonizadores, com o que concordo plenamente. Ver postagem anterior:

"A crise dos imigrantes ilegais e refugiados na Europa -- europeus colhem hoje o que semearam ontem".


A Europa acertou em 18 de março com a Turquia a mudança radical que vai aplicar a partir de agora para a crise de refugiados. Após dois dias quase ininterruptos de negociações em Bruxelas, os 28 países da UE e primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu, fecharam um acordo que permite à Europa devolver à Turquia todos os imigrantes –inclusive os refugiados– que chegarem às ilhas gregas a partir de domingo. Em troca, a UE vai ativar um procedimento de recebimento de sírios mais amplo do que o atual. Com esse pacto polêmico, a UE espera fechar a rota migratória pelo mar Egeu.

Todo esse pano e fundo reforça a validade e a oportunidade da entrevista do ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, ao site Spiegel Online International sobre a questão dos refugiados na Europa, especialmente nos países da União Europeia (UE), que traduzo a seguir. O fluxo ininterrupto de milhares de refugiados à Europa transformou-se no pior pesadelo dos europeus na história recente do continente. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.

O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, diz que a Europa precisa investir tanto dinheiro quanto possa e tão prontamente quanto possível no Oriente Médio e na África, para reduzir a imigração oriunda dessas regiões - (Foto: Reuters)

Spiegel Online -- Ministro, o governo austríaco anunciou recentemente planos para estabelecer limites mais elevados para o número de refugiados que irá aceitar. O Sr. simpatiza com essa decisão?

Schäuble -- Tive que parar para respirar quando ouvi que não tínhamos sido consultados sobre essa decisão. Em meses recentes, a chanceler alemã fez sempre um esforço para estabelecer consultas com a Áustria. Mas, sabemos que as capacidades dos estados membros da União Europeia não são infinitas. Assim sendo, faz pouco sentido para nós criticarmos uns aos outros. Todos nós aceitamos a decisão da Suécia de também introduzir controles de fronteiras. E esse é um país que durante décadas foi o mais aberto à imigração.

Spiegel Online -- A Alemanha ficará cedo sozinha e isolada com suas políticas para refugiados?

Schäuble -- Não. Na Europa, reconhecemos que as pressões que provocam migração têm que ser reduzidas. Se o sistema Schengen (de deslocamento livre intrafronteiriço) for destruído, a Europa ficará em sério risco -- política e economicamente. Essa é a razão pela qual nós europeus temos que investir bilhões na Turquia, na Líbia, na Jordânia e em outros países na região tão rapidamente quanto possível -- todo mundo, na capacidade de cada um.

Spiegel Online -- Sua proposta de introduzir um imposto sobre combustíveis para financiar essa ajuda foi recentemente repelida. Não foi bem recebida nem mesmo entre seus aliados conservadores naAlemanha.

Schäuble -- No momento, estamos felizes por termos um superávit orçamentário e não precisarmos desse imposto. Mas a Alemanha não assumir essa tarefa por sua conta, isso está claro. é por isso que sugeri que países com finanças mais apertadas pensem a respeito desse imposto. Não temos no momento o tempo necessário para essa discussão. 

Spiegel Online -- Não seria mais fácil ganhar apoio para um sistema com quotas claras e definidas para compartilhar o ônus? Esse tipo de sistema já existe, quando se trata de ajuda financeira para países como a Grécia. 

Schäuble -- Nosso tempo está se esgotando para tais soluções. Donald Tusk, o presidente do Conselho da UE, disse que temos até fevereiro. Sempre tive a esperança de que a Comissão Europeia surgiria com um plano antes desse prazo. Mas, sei que o presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, está fazendo tudo o que pode para isso. 

Spiegel Online --  Houve também carência de tempo quando do socorro aos bancos e a alguns membros da eurozona. Apesar disso, soluções provisórias foram logo substituídas por estruturas nas quais havia um claro compartilhamento do ônus. Esse não seria também o caso da crise dos refugiados?

Schäuble -- Sim, claro. Mas, ao contrário da crise do euro, alguns dos nossos parceiros na UE pensam que o problema não tem efeito sobre eles. Acho que estão errados, mas é isso o que pensam. 

Spiegel Online -- O Sr. recentemente separou 12 bilhões de euros do superávit orçamentário para cuidar dos custos associados com a crise dos refugiados. Para onde irá esse dinheiro?

Schäuble -- Cerca de metade disso já havia sido incluído no orçamento de 2016 -- para dar assistência a estados e municípios para que forneçam abrigos, por exemplo. E está claro para nós que teremos que ficaremos mais envolvidos na regiões vizinhas a nós, de modo que as pressões da migração não sejam tão altas para elas. É claro que as negociações orçamentárias serão difíceis, como sempre são. Acho que teremos que gastar mais em defesa, infraestrutura, para ampliação da rede de banda larga e também para segurança doméstica.  

Spiegel Online -- O Sr. acha que os ataques sexuais cometidos em Colônia na véspera do Ano Novo fazem com que seja mais urgente investir em segurança? 

Schäuble -- Ficou claro de um tempo para cá que temos que fazer mais pela segurança doméstica e externa. Estou preparado para isso. E estava preparado mesmo antes de Colônia.  

Spiegel Online -- Por duas vezes o Sr. conseguiu submeter um orçamento equilibrado. Quando ollha para a frente, para continuar essa tendência, o que o preocupa mais: os possíveis efeitos da crise da China sobre a Alemanha, ou o fim dos juros extremamente baixos, que têm permitido à Alemanha poupar bilhões?

Schäuble -- Na realidade, eu preferiria ter taxas de juros mais elevadas.

Spiegel Online -- Mas isso dificultaria equilibrar seu orçamento.

Schäuble -- Sim, mas nos níveis correntes as taxas de juros não estão cumprindo sua função econômica. Isso leva a flutuações extremas. No momento estamos enfrentando uma coleção completa de dificuldades para prever desdobramentos -- da situação na China à queda no preço do petróleo às preocupantes notícias de alguns bancos na Europa e nos EUA. Tudo isso está interligado: a dívida das empresas em nível mundial é elevada, e há muito dinheiro em circulação. É por isso que as reformas estruturais necessárias não estão sendo feitas. Não sei quantas resoluções do FMI e do G-20 já escrevemos dizendo que tais reformas são necessárias para um novo crescimento.

Spiegel Online -- A situação atual nos mercados faz lembrar o investidor americano George Soros da última crise financeira.

Schäuble -- Soros ganhou um bocado de dinheiro com tais rumores, ao longo de sua carreira.

Spiegel Online -- Então o Sr.não está preocupado com uma nova crise?

Schäuble -- Acabo de dizer que estamos enfrentando um conjunto completo de desenvolvimento do tipo crise, que temos de acompanhar bem de perto. Mas temos também de ser cuidadosos quanto ao que apontamos como indicadores de crise. Na China, sempre se disse uma taxa de crescimento de dois dígitos seria perigosa. Agora, o país tem uma taxa de crescimento de 6,9% e, de repente, pensa-se que isto é uma catástrofe para a economia global. O significativo colapso dos preços do petróleo mostra também que eram antes demasiado elevados. A política financeira tem de ser cautelosa, para não provocar constantemente tais exageros. Nosso orçamento equilibrado tem uma função psicológica importante. É um sinal de que não podemos continuar a constantemente assumir dívidas.

[É instrutivo e importante comparar o conceito de orçamento equilibrado dos alemães e os orçamentos fajutos de Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saia). Primeiro, ela enviou um orçamento ao Congresso um orçamento com um enorme déficit explícito, o que provocou imediatamente o rebaixamento do Brasil por duas das três principais agências de classificação de riscos. Depois, com a ajuda pilantra de suas vacas de presépio na Comissão Mista do Orçamento (CMO) do Congresso, a madame propôs um orçamento para 2016 que conta com receita fictícia, que não existe ainda e dificilmente existirá, como é o caso da CPMF (a velha história do ovo dentro da galinha) -- ou seja, na realidade o orçamento continua deficitário, no valor correspondente à receita "oriunda" da CPMF. Enquanto Angela Merkel propõe, na Alemanha, um orçamento realista e equilibrado, nossa (govern)anta apresenta um orçamento fictício, fecal e chantagista.]