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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A tal da terceira idade

Recentemente, Ruy Castro e Cora Rónai escreveram crônicas sobre a chamada terceira idade, com diferentes abordagens. Ruy Castro voltou ao tema mais ou menos duas semanas depois (denunciando inclusive deturpações de seu texto original que circularam bastante na internet). Os textos, como sói acontecer com esses dois renomados e requintados escritores, são muito bem escritos, mas pesa neles um certo pessimismo e um certo mau humor com essa fase da vida. Acho que ambos estavam num mau dia, com o humor em baixa, o que acontece aos melhores dos mortais às vezes mais do que se espera e deseja.

A tal da terceira idade é uma experiência fascinante, não há a menor dúvida. O "fascinante" evidentemente só se aplica se houver predisposição positiva para enfrentá-la, caso contrário ela certamente será um calvário e um atalho para um fim triste. Voltarei a isto mais adiante.

Como toda experiência, a terceira idade nos traz surpresas positivas e negativas. Entre estas últimas a mais contundente é sem dúvida o enorme descompasso entre a mente e o corpo: este envelhece e se deteriora muito mais rápido que aquela (volto a frisar que isto só se aplica a quem entra mentalmente "inteiro" na terceira idade). Essa enorme defasagem nos impõe desafios extras, às vezes sutis outras vezes evidentes (mais isto que aquilo), que nos obrigam a cuidados adicionais obrigatórios, dentro e fora de casa. A começar pelo lado físico. Dentro de casa, por exemplo, qualquer altura acima da ponta dos pés é um forte convite a um tombo de resultados imprevisíveis, e uma escada tem que ser subida e descida degrau a degrau. Atravessar a rua, só com tempo de folga no sinal verde. Forçar a barra é uma burrice inconsequente e muito arriscada. Afobação não combina com nada, muito menos com a terceira idade.

Esse mesmo distanciamento mente x corpo nos reserva surpresas que nos espantam: por exemplo, a primeira vez que alguém lhe cede o lugar numa condução é um impacto. Você logo pensa: caramba, estou tão velho assim?!

A terceira idade nos provoca reações paradoxais. Nos tornamos mais compreensivos e tolerantes com certas coisas, mas absolutamente irritadiços e intolerantes com outras, em especial com aquelas que traduzem desrespeito, falta de educação, falta de civilidade e ausência de espírito comunitário -- estas grosserias nos levam (ou me levam) à beira da apoplexia. Onde isso acontece? Em qualquer lugar que tenha pelo menos dois brasileiros juntos. Lugares mais comuns: metrô, cinema, shoppings ... Isso ocorre -- ou pelo menos ocorreu -- em certo grau também com Ruy Castro e Cora Rónai, como se observa nos textos acima citados.

Mas, a terceira idade é também muito enriquecedora. A bênção dos netos é uma emoção permanente, renovada e indescritível. Conviver com essas criaturas maravilhosas ultrapassa qualquer expectativa. A saudável "competição" com os pais deles nas funções de educá-los e "deseducá-los" por si só vale o ingresso.

A terceira idade nos apresenta também, de maneira clara e inequívoca, a perfeita noção da finitude da vida. E este é um conceito muito desafiador e potencialmente muito perigoso. Uma mente despreparada e passiva pode levar a uma decisão profundamente desastrosa de, por exemplo, interromper aprendizados, realizações e conquistas sob a ótica absurdamente distorcida de que "não faz sentido acumular mais acervos, se o fim não está lá tão distante". Nada mais estapafúrdio! A vida é tão valiosa, rica e sublime que deixar de desfrutá-la sempre e permanentemente na plenitude da capacidade física e mental de cada é um erro ao mesmo tempo injustificável e imperdoável -- e que sai incrivelmente caro.

A terceira idade nos traz também uma descoberta no mínimo intrigante: o enorme poder de um suspiro, de um lamento ou de um gemido ... O que isso ajuda a vencer uma chatice é impressionante ...

Não vou entrar na seara dos problemas físicos e psicológicos acarretados pela terceira idade, eles foram suficientemente abordados por Ruy Castro e Cora Rónai. Apenas acho que, por serem inevitáveis e inexoráveis vários deles, a melhor filosofia é fazer de cada limão a melhor limonada possível. Simples assim.

O grande problema de que tenho conhecimento por leitura e por ouvir dizer  quanto à terceira idade são o desconforto e a extrema dificuldade de adaptação a ela experimentados por quem se aposenta. Vou abordar o problema no caso masculino, com o qual mais convivo e também por minha própria experiência. As mulheres, por sua própria natureza, costumam se sair melhor que nós também nessa fase da vida.

Tenho conhecidos e amigos qua caíram num vácuo e até em depressão após a aposentadoria, simplesmente por perderem a noção do que fazer da vida. Sei de casos até de suicídio por isso. Não há uma panaceia para o problema, cada pessoa é um caso, mas há algumas regras básicas de aplicação universal.

Viver intensamente a vida familiar. O "intensamente" não implica necessariamente fazer tudo junto, mas compartilhar tudo ao máximo (os bons e os maus momentos), dialogar frequentemente, viajar em grupo sempre que possível, reunir-se sempre que possível, estreitar ao máximo os laços internos. A força de uma família unida é insuperável e insubstituível. Uma base familiar unida, companheira e sólida é um gigantesco passo para uma velhice serena e feliz.

Manter a mente sempre em atividade e aberta a novas experiências. Um dos grandes medos de quem ingressa na terceira idade é a chegada do "alemão" (Alzheimer), um hóspede indesejável que não sai mais da casa que o hospeda. Esse é um mal horrível, infelizmente ainda sem cura. Sabe-se que certas células já se predispõem a "agasalhá-lo" já na meia-idade, ou até antes. Mas sabe-se também que manter a mente permanentemente ocupada e desafiada tem um tremendo poder de adiar ou até mesmo de eliminar a vinda do alemão.

Uma primeira e urgente preocupação/iniciativa de quem está para se aposentar, ou recém iniciou sua aposentadoria, é não só manter seus hobbies e distrações/ocupações preferidos, mas procurar permanentemente diversificá-los e expandí-los. Quem não os tem, necessita criá-los impreterivelmente, não importa seu valor absoluto ou relativo. Música, leitura, cinema, teatro, museus, gastronomia  (que pode ser boa sem assaltar o bolso), caminhadas, debates são sensacionais para isso. Atividades outras como por exemplo carpintaria, jardinagem, colecionar qualquer coisa, aprender e praticar idiomas, fazer cursos diversos e enriquecedores, explorar ao máximo a internet (sem dela ficar escravo) para expandir horizontes de informação e cultura, escrever, fazer passatempos que desafiam sua mente [palavras cruzadas (em mais de um idioma, se for de sua capacidade), jogos diversos (há por exemplo dois jogos interessantes que distraem e ensinam ao mesmo tempo: o freerice [que tem as opções Humanidades (Pinturas Famosas/Literatura/Fome no Mundo/Frases Famosas); -- Matemática (Tábuas de Multiplicação/ Matemática Básica (pré-Álgebra); -- Aprendizado de Idioma (Alemão/Espanhol/Francês/Italiano/Latim); -- Ciências (Anatomia Humana); -- Inglês (Vocabulário/Gramática); -- Química (Símbolos Químicos -- lista completa)/Símbolos Químicos (básicos); -- Geografia (Marcos Mundiais/Identificação de Países em Mapas/Capitais Mundiais/Bandeiras do Mundo)/Preparação para Exame] e o Letroca (um jogo para, a partir de letras embaralhadas, encontrar as diversas opções de palavras possíveis, com tempo marcado -- pode ser jogado em português, espanhol e inglês)].

Além de alguns dos hobbies acima, acrescentei um que que me ocupa intensamente e me dá uma enorme satisfação, que foi criar e manter este blogue, o BomLero -- escrito unicamente em português, ele está neste exato momento em que escrevo com 384.176 acessos, com seguidores em países tão diversos como Vietnã, Coreia do Sul, EUA, Irlanda, Israel, Alemanha, Espanha, Índia, Eslováquia, Polônia, Rússia, Ucrânia, Portugal, México, Itália e outros (o Google Blogger atualiza e informa isso o tempo todo). Decidi fazê-lo sem enfoque único e específico, mas aberto como um jornal, porque acredito que isso me permite ser mais útil aos meus seguidores ao mesmo tempo em que me apresenta um desafio maior e constante, que é o de buscar notícias diferenciadas e interessantes em fontes diversas que consigo dominar.

Combater o sedentarismo. Cerca de 70% da população mundial sofrem os riscos do sedentarismo, responsável por mais de 50% das mortes por infarto. A falta de exercício pode ser um fator de risco tão grave para o coração quanto a hipertensão, diabetes, tabagismo, colesterol alto ou obesidade - e, se associado a esses, pior ainda. Para se ter uma ideia, de acordo com os dados da Organização Mundial de Saúde, 70% da população mundial são de sedentários. E a falta de atividade física, somada a uma alimentação não-balanceada, é responsável por 54% do número de mortes por infarto. Já um estilo de vida ativo pode ajudar a reduzir o risco de morte em até 40%.

"A atividade física ajuda a baixar os níveis de colesterol e melhorar o controle do diabetes, além de auxiliar no equilíbrio da pressão arterial e melhorar a capacidade respiratória", explica o cardiologista Marcos Bubna. "São atividades simples, como caminhada, corrida, natação ou andar de bicicleta, que podem salvar muitas vidas", completa.

O ideal, segundo os parâmetros da Sociedade Brasileira de Cardiologia, é praticar uma atividade aeróbica pelo menos quatro dias por semana, com um mínimo de 40 minutos de duração, que podem ser divididos em dois ou três períodos diários. "Antes de iniciar seu programa de atividade física é muito importante um bom check-up do coração, um eletrocardiograma, o teste de esforço e a consulta com um cardiologista. Esse cuidado pode dar muito mais segurança ao exercício e para prevenção cardíaca", reforça Bubna.

Ficar muito tempo sentado é considerado hoje tão maléfico quanto o tabagismo. Um estudo australiano publicado em outubro de 2012 no British Journal of Sports Medicine comparou ficar sentado e o tabagismo. De acordo com o estudo, cada hora de televisão que as pessoas assistem, presumivelmente sentadas corta cerca de 22 minutos de sua vida útil, enquanto estima-se que os fumantes encurtam suas vidas por cerca de 11 minutos por cigarro.


Veja algumas dicas simples para deixar o sedentarismo de lado, respeitando sempre as eventuais limitações de  cada pessoa : 

- Adotar quatro dias na semana para fazer uma caminhada -- além dos benefícios para o coração, a prática ajuda no bem-estar;
- Levantar-se para falar com alguém que esteja próximo, ao invés de chamá-lo pelo telefone;
- Aproveitar toda e qualquer oportunidade para se locomover andando;
- Para subir ou descer um andar, prefira a escada a menos de algum impedimento de força maior.

Caminhar é o mais simples e acessível dos remédios, e seguramente um dos mais prazerosos. Lhe permite várias opções mentais junto com o exercício físico: não pensar em nada e só curtir o entorno (a melhor alternativa), ou pensar em planos e coisas leves. Levar problemas para a caminhada é besteira, sai o tiro pela culatra. Se você tiver um desses relógios que registram o batimento cardíaco verá que isso não falha: se você caminhar pensando em problemas que o atormentam, o coração inevitavelmente se acelera.

Não veja a terceira idade como um castigo. Enfim, a terceira idade tem aspectos e prazeres que igualam ou facilmente superam as mazelas físicas e outros problemas que quase sempre ou inevitavelmente traz, é só saber encontrá-los e desfrutá-los. Otimismo e alto astral são indispensáveis para um suave navegar nesse oceano especial da vida, e em qualquer outro, claro. E isso está longe de ser demagogia ou algo para inglês ver. Basta, por exemplo, ouvir a música e meditar a letra de "Tocando em Frente", de Almir Sater e Renato Teixeira, que tem versos simplesmente geniais e definitivos como "Cada um de nós compõe a sua história/Cada ser em si carrega o dom de ser capaz, de ser feliz".


segunda-feira, 26 de março de 2012

Será que o governo Dilma agora deslancha?...

Analisado friamente, o primeiro ano do governo Dilma foi fraquíssimo de realizações, pleno de "intenções" e com muito tempo e energia gastos com atividades de assepsia no ministério, para defenestrar ministros corruptos herdados do governo do criador, mentor e tutor da presidente, Lula, o Nosso Pinóquio Acrobata (NPA), e por ele acobertados e estimulados (pelo menos por omissão).

Dilma esteve durante todo o mandato lulista coladinha no presidente, primeiro como ministra de Minas e Energia, depois como chefe da Casa Civil (só neste cargo ficou cinco anos). Com tanta intimidade com o poder, e não tendo -- que se saiba --  histórico de problemas de visão e audição, e nem remotamente sofrendo de obtusão intelectual, é simplesmente impossível que ignorasse a bandalha que rolava em vários ministérios do NPA, praticamente todos envolvidos direta e relevantemente com o PAC - Programa de Aceleração do Crescimento (que, dizem as más línguas, o NPA na realidade chamava de "Para 'Aonde' Caminhamos?", com seu português magistral), da qual virou mãe, gestora e capataz.

Sua integridade moral individual permanece inatacável, em todos os cargos que ocupou, apesar desse estranho convívio com a bandalha e de sua demora em atacar na raiz os problemas depois que ficou dona da caneta. Vários poderiam ser os motivos, dizem. Um deles poderia ser o de evitar o constrangimento de figurar como a autora da iniciativa de escancarar o sempre vislumbrado, mas nunca escancarado lado corrupto do NPA, seu padrinho, mentor e tutor. Isso pode "explicar" sua atitude, mas justificar é que são elas.

O PAC, a menina dos olhos do segundo mandato do governo do NPA, foi instituído pelo Decreto n° 6.025, de 22 de janeiro de 2007. Em 2 de junho de 2010 o governo fez o 10° balanço desse programa, que mostrou que foram concluídas apenas 46,1% das ações do programas previstas para o período de 2007 a 2010, com um orçamento de R$ 302,5 bilhões de um total de R$ 656,5 bilhões previstos para aquele período.  Nesse balanço, a imagem de Dilma como gestora do PAC já fica mal na fotografia.

No dia 23 de março de 2010, há praticamente dois anos atrás, o NPA lançou o PAC2, com investimento previsto de R$ 1, 5 trilhão entre 2011 e 2014 em áreas de alta sensibilidade social, como moradia e saúde. Na realidade, o PAC2 tinha uma previsão de investimento de R$ 958,9 bilhões entre 2011 e 2014, com previsão de injeção de mais R$ 631,6 bilhões em obras no pós-2014, perfazendo assim os R$ 1,5 trilhão. O PAC2 tinha nitidamente uma forte componente eleitoral, pois foi lançado apenas uma semana antes de Dilma se desincompatibilizar do cargo para concorrer às eleições presidenciais.

Passado o primeiro ano do governo Dilma, no início de 2012 os dados mostravam que os investimentos do PAC(2) continuavam inferiores a 4,1% da despesa primária do governo federal, e equivaliam a apenas 1% do PIB, sem tendência de alta.  Novamente, a figura de Dilma, agora ainda mais "mãe" desse programa e dona da caneta, é extremamente frustrante e negativa. Começaram a aparecer os inúmeros furos do queijo suiço do PAC(2) -- a transposição do rio São Francisco por exemplo, uma obra desse programa, teve seu custo aumentado em 71% e pulou de 4,8 bilhões para R4 8,2 bilhões desde o início do governo Dilma. Outro ponto contra a presidente.

Há outras cifras que desmentem a aura de executiva e executora de obras que cerca a presidente. Em 2011 (primeiro ano de seu governo), a arrecadação federal foi de R$ 969,907 milhões contra R$ 826,519 milhões em 2010, um crescimento de 10,1% -- no entanto, no mesmo período, o investimento público federal praticamente estagnou (R$ 47,5 bilhões em 2011 contra R$ 47,1 bilhões em 2010, uma variação de apenas 0,8%), segundo dados do Tesouro Nacional. Para onde foi a enorme diferença entre o arrecadado e o investido?! Perguntem à presidente.

Em sua entrevista à revista Veja que está nas bancas, Dilma afirma categoricamente que: - i) é contra o protecionismo puro e simples (apesar do IPI dos carros importados, da sobretaxa que se pensa impor aos vinhos importados, etc); - ii) será intransigente contra a corrupção, e "não gosta desse negócio de toma lá dá cá"-- está difícil acreditar nisso, com a demora que levou p'ra defenestrar os ministros corruptos e a proteção exacerbada, ostensiva e acintosa que dá ao ministro Fernando Pimentel, titular do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), contra quem pairam acusações graves que Dilma não deixa apurar; - iii) a carga de impostos é alta  e vai baixá-la.

As intenções são ótimas, de bem intencionados o inferno está cheio, e 2011 mostrou que a presidente é excelente nas promessas (desde os palanques) e bastante ruim -- tendendo para péssima --  no cumprimento delas. Com relação, por exemplo, ao item iii) acima, no programa Globo News Painel de ontem o conceituado economista e consultor Alexandre Schvartsman  destoou fortemente dos outros dois debatedores (o economista Roberto Gianetti da Fonseca, ex-secretário executivo da Camex presidente da ABIEC - Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne, e Ingo Plöger, engenheiro e economista, com inúmeros cargos de destaque no Brasil e no exterior) e  afirmou que a recente reunião de Dilma com 28 empresários e suas promessas de redução da carga tributária não vão dar em nada, que há décadas se fala de reforma tributária no Brasil e não se avançou um centímetro. Desafiou o moderador do programa, o jornalista William Waack, a marcar novo programa sobre esse assunto a daqui seis meses para comprovar que sua previsão foi correta. Acho, infelizmente, que Alexandre está coberto de razão.

Nesse meio termo, vamos ver até onde irá e no que vai dar a queda de braço de Dilma com o Congresso. Há quem diga que ela vai vencer, porque tem a caneta -- o problema é acabar a tinta e/ou a pena pifar.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Catadora de material reciclável passa em prova e entra na USP

É sempre bom ver uma notícia como essa abaixo, da Folha de S. Paulo de ontem -- principalmente quando a mídia só noticia invenções ridículas da Dª Dilma (como nomear para ministro da Pesca um "pastor" que confunde caniço com varal) ou mutretas várias (como o empreguismo safado dos senadores).
A informação é da reportagem de Luisa Alcantara e Silva publicada na edição deste domingo da Folha. A reportagem completa está disponível a assinantes do jornal e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha.


Laíssa Sobral, 19, trabalhava como catadora de material reciclável na cooperativa Granja Julieta (zona sul de São Paulo) e nunca gostou muito de estudar, mas percebeu que, com um diploma, teria mais chance de lutar pela cooperativa. Hoje, cursa gestão ambiental na USP. A vontade de fazer faculdade começou a cutucá-la no 2° ano do ensino médio, em 2009.

Ela trabalhava como catadora de material reciclável na Granja Julieta (zona sul de São Pulo), da qual sua mãe já era presidente, e, após um incêndio que destruiu o local, se engajou para conseguir um novo espaço. Em meio à luta, conheceu ONGs e fez amigos universitários. E percebeu que, com um diploma, teria mais chance de lutar pela cooperativa.

Um dia sua mãe, Maria Lúcia Sobral, 46, foi a uma palestra sobre gestão ambiental e comentou com Laíssa, que se interessou e falou sobre o tema com uma professora de geografia, que lhe passou informações sobre cursos.

Apoio

Foram poucos os incentivos que teve na vida escolar. Ela conta que apenas quatro docentes a estimularam a se interessar pelos estudos. Mas, se tinha pouco incentivo no colégio, na cooperativa tinha dona Josefa, uma das cooperadas. "Ela corria com um pau atrás de mim, para me fazer ir para a aula", lembra Laíssa.

Com 9 irmãos sob o mesmo teto -- hoje são 12 --, Laíssa ia estudar numa praça. Sua mãe não terminou o ensino fundamental, mas sempre obrigou os filhos a ler, e a fazer alguma atividade cultural. Sua escolha foi pelo teatro, e assim conheceu um grupo que fazia saraus "na quebrada mesmo", e viu crescer seu interesse de virar universitária.

Estudou e entrou no curso de gestão ambiental da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas) em 2011. Mas a vida era difícil. Faculdade particular: R$ 515,00 por mês. Transporte: R$ 250,00. Renda na cooperativa: R$ 800,00.

"Via Sedex"

Laíssa resolveu, em junho, transferir a faculdade para a USP. Sem dinheiro para comprar os livros indicados pelo edital, recebeu ajuda de uma amiga, que fez campanha num blog. Livros, então, começaram a chegar. "Veio até via Sedex", lembra. Resultado: ela foi aprovada no curso de gestão ambiental da USP Leste. Questionada se pensa na trajetória de Graça Foster, presidente da Petrobras que foi catadora quando criança, diz: "Claro. É um exemplo a ser seguido. Mas a minha busca é para que toda a classe oprimida se torne importante".


Material Reciclável - A rotina de um catador em números (os valores podem variar, de acordo com o tipo de material e a quantidade)


Quanto vale 1 kg de cada material?

Alumínio:  R$ 3,00    Papel: de R$ 0,08 a R$ 0,42  

Plástico: de R$ 0,60 a R$ 1,50   Vidro: de R$ 0,09 a R$ 0, 14


Dados da Cooperativa Granja Julieta
  • R$ 800,00 é a renda média mensal de cada colaborador da Granja
  • 66 funcionários trabalham no local atualmente
  • 130 toneladas de material reciclável são processadas mensalmente -- a cooperativa recolhe esse material em algumas regiões da cidade; pelo telefone, um morador pode saber se é feita coleta no seu bairro.
 Laíssa Sobral, 19, em cooperativa na Granja Julieta -- ela está cursando gestão ambiental na USP - (Foto: Isadora Brant/Folhapress).

sexta-feira, 9 de março de 2012

O paradoxo da mulher latino-americana

Reproduzo abaixo, parcialmente, uma reportagem interessante, do jornal espanhol El País, sobre a mulher latino-americana, publicada no dia 7 deste mês de março.

Nos mesmos países em que se registram as mais altas taxas de assassinatos violentos de mulheres e os maiores índices de gravidez de adolescentes, as mulheres conseguiram os mais espetaculares níveis de participação política feminina do mundo. A América Latina, um subcontinente marcado pela desigualdade, mas também pelo êxito econômico em plena crise, maltrata suas mulheres e, ao mesmo tempo, elas estão atingindo quotas de poder desconhecidas inclusive na maior parte dos países europeus. Estes, por exemplo, não tiveram ainda nem presidente mulher nem primeira-ministra  eleitas, algo que naquela zona do planeta foi inaugurado já em 1990 com Violeta Chamorro na Nicarágua, e hoje começa a ser um fato pouco menos que normal.

Neste momento, 40% da população do subcontinente americano estão governados por mulheres: Dilma Rousseff no Brasil, Cristina Fernández de Kirchner  na Argentina, e Laura Chinchilla na Costa Rica. Se apresenta com possibilidades para ocupar a presidência da república de seu país a mexicana do partido governante, PAN, Josefina Vásquez Mota. Caso ela ganhe as eleições em julho, a porcentagem de cidadãos latino-americanos governados por mandatárias se elevaria para 60%.  De novo, o grande contraste latino-americano ficaria mais evidente, por ser o México um país em que há Estados que ainda justificam os crimes por honra e no qual há zonas onde as mulheres são perseguidas, torturadas e selvagemente assassinadas em sessões sangrentas de bruxaria que estão devastando uma parte importante do país.

À margem da extrema violência a que o narcotráfico e a corrupção submeteram algumas de suas regiões, o México registrou em 2009 um total de 1.858 assassinatos machistas, uma cifra do Instituto Nacional de Mulheres que, entretanto, não aparece nas estatísticas oficiais compiladas pela CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe). Em tais estatísticas se observam elevadíssimos índices de mortes de mulheres por maridos/companheiros ou ex-maridos/ex-companheiros, com recordes impressionantes em países como São Vicente e Granadinas, Uruguai e República Dominicana.

No México, à violência de gênero [contra as mulheres] se une o assassinato de mulheres fora  do âmbito familiar, naquilo que em espanhol se chama de "feminicidio" [neologismo criado a partir do inglês "femicide": assassinato de mulher(es)] e que comove o mundo inteiro -- por isso, o governo mexicano foi condenado pela Corte Ibero-Americana de Direitos Humanos por não perseguir os culpados, nem proteger suficientemente as vítimas. Nesse mesmo país, as mulheres têm hoje um apelo eleitoral inquestionável, razão pela qual Josefina Vásquez Mota parece ver-se obrigada a advertir: "Não quero chegar à presidência apenas por ser mulher, mas sim por minhas propostas".

Qual é a razão pela qual existe na América Latina um contraste tão pronunciado quanto ao status das mulheres? "Ah, essa é a pergunta do milhão", responde María Jesús Aranda, ex-defensora pública de Navarra e hoje assessora de gênero da Segib (Secretaria-Geral Ibero-Americana). É a pergunta do milhão porque Aranda não acredita que os padrões machistas latino-americanos sejam muito diferentes daqueles do resto do mundo. Ela assinala o alto índice de abandono escolar, a alta mortalidade materna (relacionada por lógica a essa crência educativa) e a falta de dados suficientes para conhecer em profundidade, por exemplo, o fenômeno do "feminicidio", que a Segib está analisando. Tampouco existem ainda dados exaustivos para saber se a violência contra as mulheres está aumentando, ou decrescendo. No momento, há apenas uma foto instantânea, ainda que alguns dados sinalizem que há um aumento importante, sobretudo no chamado "triângulo negro" (El Salvador, Honduras e Guatemala), uma zona (junto com México e Costa Rica) em que se verifica um próspero mercado regional de exploração e tráfico de mulheres.

Juntamente com realidades de crueza pavorosa, há dados muito positivos que alimentam a esperança. Aranda fala da melhora educativa das latino-americanas. María Emma Mejía, ex-ministra colombiana de Educação e do Exterior, e agora secretária-geral da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), também destaca isso. "Em educação superior superamos os homens -- 53% dos universitários são mulheres. Estas estão ocupando postos de poder muito importantes, e quando isso acontece ocorrem as mudanças legislativas mais importantes. Nesse particular, o caso de Michelle Bachelet no Chile é exemplar. Durante seu mandato se obtiveram ganhos sem precedentes, como o direito ao divórcio".

Bachelet, depois de dura batalha, conseguiu que se aprovasse o uso da pílula do dia seguinte para reduzir o índice de grávidas adolescentes, algo que pesa muito nas expectativas de vida femininas. Mas, as derrotas de mandatárias como as chilenas para melhorar as condições de vida da população feminina são também conhecidas e repercutidas. Em plena campanha eleitoral, Dilma Rousseff deu uma entrevista à revista Marie Claire na qual afirmava que o aborto "é uma questão de saúde pública", e acrescentou que no Brasil há um número excessivo de mulheres que morrem por abortar em condições precárias. A pressão dos católicos e das igrejas evangélicas a obrigou a se desdizer e a renunciar a qualquer projeto de descriminalizar o aborto. [...] Na América Latina, morrem a cada ano 4.000 mulheres nos 4 milhões de abortos ilegais registrados [registrados como?]. Os índices de maternidade adolescente são elevadíssimos.

[...] Por trás do jugo que oprime as latino-americanas está a férrea aliança entre a igreja e as classes dirigentes. A pressão social é tão forte que, segundo a jornalista Matilde Sánchez, do [jornal argentino] Clarín, leva ao paradoxo de que as mulheres tenham poder mas não desfrutem em nível social de autêntica igualdade, devido à estrutura conservadora das famílias e ao papel da mulher dentro delas.

[...] Frente à corrupção (principal geradora da extrema violência) que flagela algumas áreas da América Latina, as mulheres são percebidas pelas populações dos diferentes países como boas gestoras. As pesquisas de opinião realizadas pela CEPAL demonstram uma opinião favorável em relação à liderança feminina -- as mulheres procuram frear, apesar de tudo, os grandes partidos, segundo dados dessas mesmas pesquisas. "Elas são percebidas como mais eficientes, mais comprometidas e mais compreensivas", assinala Mejía, "algo que creio  que é universal e que vejo também na liderança de Angela Merkel na Alemanha, por exemplo".

Elas podem também ser implacáveis contra as irregularidades, e a este respeito se usa o exemplo da presidente brasileira, Dilma Rousseff, que, no primeiro ano de seu mandato, suportou a difícil prova de perder até sete ministros acusados de corrupção.

Violeta Chamorro, primeira presidente eleita na Nicarágua e na América Latina - (Foto: Google).

Dilma Rousseff e Cristina Fenández de Kirchner, presidente da Argentina - (Foto: Juan Mabromata/AFP).

Laura Chinchilla, primeira presidente eleita da Costa Rica - (Foto: Google).

Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile (primeira mulher eleita para o cargo), hoje diretora da agência ONU Mulheres - (Foto: Google).

Angela Merkel, primeira mulher eleita chanceler da Alemanha - (Foto: Google).

Josefina Vásquez Mota, candidata a se tornar a primeira mulher eleita presidente do Méxivo - (Foto: Google).

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Steve Jobs receberá um Grammy póstumo

Steve Jobs será homenageado postumamente pela Academia de Gravação dos Estados Unidos. Conforme anunciado nesta quarta-feira, 22, o cofundador da Apple receberá um Grammy por suas contribuições à indústria da música.

Jobs dividirá com o músico Dave Bartholomew e com o engenheiro de som Rudy Van Gelder o prêmio na categoria “Curadores”, que reconhece contribuições não artísticas notáveis ​​feitas à indústria musical.

“Steve Jobs ajudou a criar produtos e tecnologias que transformaram a forma que consumimos música, TV, filmes e livros; Criativo visionário, Jobs criou inovações como o iPod, a loja on-line iTunes, e revolucionou a indústria e como a música é distribuída e comprada”, disse a Academia em comunicado.

A cerimônia formal para a entrega dos prêmios será no dia 11 de fevereiro do ano que vem.

Tom Jobim também será premiado nessa edição do prêmio. Junto com Diana Ross, George Jones, Allman Brothers Band, Glen Campbell, Memphis Horns e Gil Scott-Heron, o compositor brasileiro receberá um troféu da categoria “Realizações durante a vida”.

 Steve Jobs morreu em 5 de outubro devido a um câncer no pâncreas - (Foto: Reuters).

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Pais de uma certa idade -- há algo errado em ter 53 anos e estar grávida?

Na primeira vez que fizeram sexo, John Ross sussurrou para Ann Maloney palavras que soariam para ela como uma profecia: "Você tem o corpo de uma garota. Você precisa de [ter] uma criança".

Esse cumprimento, embora um galanteio, não poderia ter sido objetivamente verdadeiro. Na primeira vez em que John e Ann fizeram sexo, ele tinha 54 anos e ela 47. Ela poderia estar bem para a sua idade, mas muito certamente não tinha o corpo de uma garota. E o assunto crianças, não muito usado como tema em qualquer tipo de grupo, poderia ter atingido outra mulher tão de meia-idade de maneira tão profunda quanto assustadora. Mas Ann Maloney não tinha filhos na época, e ela os queria -- e muito.  Quando se lembra dessa velha intimidade, tomando uns martinis em um restaurante no Upper East Side [em Nova Iorque], sua voz vibra com a lembrança do prazer. Seu marido a olha com admiração e carinho quando ela descreve o momento em que, quando ela se aproximou dos 50 anos, sua fantasia virou realidade. Ann havia adiado a maternidade por razões típicas: um primeiro casamento infeliz e uma mudança tardia de profissão -- no seu caso, de desenhista de interiores para psiquiatra -- que exigiu anos de escola e de treinamento, e uma mudança de endreço radical do Texas suburbano para a cidade de Nova Iorque. Quando encontrou seu futuro marido, ela estava se estabelecendo profissionalmente e construindo sua reputação no país. Ela estava, finalmente, pronta.

John tinha suas próprias urgências de procriação. Também um psiquiatra, e também divorciado, ele sentia que ele e sua primeira mulher não haviam criado seu filho, agora com 35 anos, "como acho que deveria ter sido. Eu queria criar uma família de um modo melhor". Como frequentemente acontece com casais maduros que sabem o que querem, as coisas progrediram rapidamente. Os dois casaram-se um ano e meio depois do primeiro encontro. Com suas experiências médicas, estavam cientes deste fato biológico: as chances normais de uma mulher engravidar depois dos 45 anos, sem auxílio técnico nenhum,  são desencorajadoramente baixas. Então, pulando os anos agonizantes de "tentativas", começaram o processo de conseguir uma doadora de óvulos. Com o esperma de John, o útero de Ann, e os gametas de uma mulher muito mais jovem, eles construiriam a família que tanto desejavam.

Óvulos doados resultam em 60% de nascimentos vivos, não importa a idade da futura mãe. Mas, clínicas estabelecem vários limites de idade, e quando John e Ann buscavam conceber ela estava com 48 anos, o que representava o limite superior. Mesmo qundo a Universidade de Nova Iorque mostrou preocupação com a sua idade, Ann diz que nunca imaginou que estivesse muito velha para ter uma criança. Finalmente, a Universidade de Columbia "adotou" o casal e, depois de todo o ritual de praxe, Ann deu à luz Isabella, em fevereiro de 2001, um evento abençoado seguido de uma severa depressão pós-parto e de todas as fúrias hormonais que acompanham o início da menopausa.

A idade da primeira maternidade está crescendo em todo o mundo ocidental. Na Itália, na Alemanha e na Grã-Bretanha é de 30 anos. Nos EUA, foi de 21 para 25 anos desde 1970, e em Nova Iorque é ainda mais alta, 27. Mas, entre as mulheres de extrema meia-idade isso não está crescendo aos poucos, está simplesmente explodindo. Em 2008, o ano mais recente para o qual há dados detalhados, cerca de 8.000 bebês nasceram de mulheres com 45 anos ou mais, mais do que o dobro do número em 1997, de acordo com a instituição Centros para Controle de Doença (EUA). 541 desses bebês nasceram de mulheres com 50 anos ou mais -- um aumento de 375%.  Na área de adoção, o quadro é o mesmo -- quase 25% das crianças adotadas nos EUA têm pais [adotivos] que são acima de 45 anos mais velhos que elas.

O movimento de "ter criança" nesse contexto é tão forte, que é à prova de recessão. Desde 2008, a taxa de nascimentos entre as mulheres em geral decaiu 4%, com as famílias colocando um freio na criação de filhos em tempos difíceis.  Mas, entre as mulheres acima de 40 anos as taxas de nascimentos aumentaram -- entre as mulheres de 45 a 49 anos cresceram 17%.

A tecnologia da reprodução está na origem dessas cifras impressionantes. Mulheres acima de 45 que querem ter seus próprios filhos na maioria das vezes usam doadoras de óvulos, embora o congelamento de óvulos, um método mais inovador, ofereça para quem foi inicialmente pai adotivo uma outra opção que contorna os inflexíveis e muitas vezes inconvenientes limites da Mãe Natureza.

Veja mais informação no longuíssimo artigo da New York Magazine.

É ela simplesmente muito velha para isso? (Foto: New York Magazine).
John Ross, 66, e Ann Maloney, 60, com as filhas Lily. de 7 anos, e Isabella, de 10 (Foto: Wayne Laurence/Institute for Artist Management).

Kate Garros, de 61, com os gêmeos John e Alexandra, de 7 (Foto: Wayne Lawrence/Institute for Artist Management).

Fiona Palin, 49, com a filha Kiki, de 5 meses (Foto: Wayne Lawrence/Institute for Artist Management).

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Casa de Hitler na Baviera ainda assombra os alemães

Sessenta e seis anos após sua morte, a alma de Adolf Hitler assombra ainda hoje uma montanha da Baviera --os alemães não sabem o que fazer dos vestígios de sua casa; e alguns não a querem como curiosidade turística, nem como memorial.

Bombardeada, dinamitada, desimpedida com máquinas, não resta muito de "Berghof", a residência favorita do Führer nos Alpes, que frequentava regularmente durante mais de dez anos antes da morte, num bunker em Berlim, em 1945.  As autoridades evitam indicar o caminho, e é só quando se está no local que se descobre, num desvio da pista de cascalhos, no meio de uma floresta de pinheiros, um pedaço cinzento de muro, meio perdido na montanha, acompanhado de um quadro explicativo.

É o único vestígio que leva à casa que conhecemos principalmente através de filmes amadores, que mostravam um Hitler sorridente no terraço, ao lado de Eva Braun, tendo ao fundo a paisagem idílica. Situado a meio caminho de Oberzalsberg, a montanha que domina a aldeia de Berchtesgaden, na fronteira germano-austríaca, o lugar serviu de estadIa para os soldados americanos de infantaria, GI's, antes de sua partida, em 1995.

"Quando os americanos estavam lá, não havia problemas," afirma Ingrid Scharfenberg, 80, que dirige desde o final da guerra a pequena pensão "Zum Türken" bem ao lado de Berghof, e que, hoje, está mal acomodada, em relação à notoriedade da vizinhança. "As pessoas dizem que esta é a montanha nazista e que todos em Berchtesgaden são nazistas. Mas não se pode detestar dez gerações simplesmente porque Hitler viveu aqui", comenta ela.

"Não há peregrinações neonazistas aqui", assegura por sua vez o diretor da agência de turismo, Michael Griesser. "Os neonazistas são raros", afirma Axel Drecoll, 36, historiador do Centro de Documentação de Obersalzberg, que apresenta uma exposição sobre Hitler e a ditadura nazista. De qualquer maneira, junto da casa, "um pequeno número de pessoas acendem, em segredo, velas e depositam flores, por ocasião do aniversário, ou para lembrar a morte" do ditador, acrescenta ele. Mas tudo é recolhido e jogado fora pelo porteiro do centro, que fica próximo.

Se o caminho em direção à residência de Berghof permanece quase confidencial, não acontece o mesmo com a estrada que leva ao "Ninho da Águia", um chalé construído pelos nazistas no pico de uma montanha vizinha, oferecido de presente a Hitler pelo seu aniversário de 50 anos.

Às dezenas de milhares, os turistas pegam uma rota vertiginosa para beber aí uma cerveja e admirar a paisagem espetacular. Para alguns, a aura do ditador envenena menos o Ninho da Águia do que a casa de Berghof, porque Hitler sentia vertigens, e ia pouco no primeiro local citado. Para evitar qualquer curiosidade doentia, o Estado da Baviera retirou de helicóptero, do Ninho da Águia, alguns móveis de época que ainda estavam no local.

Numerosos historiadores, entre eles Egon Johannes Greipl, chefe do Departamento bávaro de Monumentos Históricos, gostariam de ver tombados todos os sítios nazistas da região. "Ninguém pensaria em demolir as ruínas de Olímpia (na Grécia) a pretexto de que tudo ficaria mais bem apresentado num Centro de documentação", afirma Greipl. "São testemunhas in loco da História", que falam de um período crucial e de um fato, os crimes nazistas".

Greipl considera incoerente que a Baviera tenha incluído, secretamente, durante décadas, esses locais numa lista de sítios históricos protegidos, antes de decidir "por motivos políticos" varrê-los do mapa. "Atribuir um estatuto cultural particular à casa Berghof" e a outras ruínas nazistas, entre elas 12 quilômetros de bunkers e de túneis sob a montanha, "serviria apenas para encorajar a construção de uma espécie de trilha do nacional-socialismo", replica Walter Schön, funcionário local encarregado do patrimônio e número dois do ministério da Justiça da Baviera.

Charlotte Knobloch, dirigente da comunidade judaica de Munique, lamenta igualmente qualquer ideia de tombamento."De qualquer forma, não resta nada" de Berghof e é preciso evitar fazer da casa um alvo de peregrinação neonazista, segundo ela. Drecoll, por sua vez, tem menos medo de atrair grupos de extrema-direita do que ver os locais desvirtuados numa espécie de "Disneilândia do nazismo", fora do contexto histórico. "Claro, é preciso satisfazer a curiosidade dos turistas, mas sem cair no sensacionalismo", diz ele. A grande dificuldade é evitar que "a pesquisa histórica ceda lugar ao kitsch comercial".

Casa de Hitler, com data atribuída a 1936 (Foto: Wikimedia Commons).



sábado, 25 de dezembro de 2010

Exemplo impressionante de superação!

Esse vídeo é um exemplo emocionante e impressionante de como é possível enfrentar a vida e tirar dela o melhor possível, mesmo quando ela nos golpeia com privações aparentemente insuperáveis!