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sábado, 8 de agosto de 2015

Como o porco mudou a sociedade israelense

[A reportagem traduzida a seguir é do jornal israelense Haaretz. O texto nos permite conhecer mais detalhes sobre a questão da carne de porco para os judeus. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

A ascensão e queda da carne de porco em Israel é um exemplo ou estudo de caso na interface entre legislação, religião, sociedade e cultura -- (Foto: Reuters)

A ministra da Suprema Corte de Justiça [de Israel] Daphne Barak-Erez escreveu um livro fascinante sobre a história das leis relativas à carne de porco, que serve como um estudo de caso apaixonante sobre como a sociedade israelense se modificou  


No ano 40 da Era Cristã, uma delegação de judeus foi ao imperador Calígula buscando a revogação de decretos onerosos impostos na cidade egípcia de Alexandria. O imperador estava caminhando em seu palácio, dando ordens à sua equipe, quando de repente se voltou para seus trêmulos hóspedes e, de acordo com o filósofo judeu Philo, lhes fez uma pergunta séria: "Por que vocês se recusam a comer carne de porco?".

A abstinência de comer carne de porco aparece tão remotamente na tradição judaica como a própria Torá (que fala de se comer carne apenas de animais de casco dividido (fendido) que regorgitam sua comida para uma segunda mastigação; os porcos não regorgitam seu alimento). Mas o tema só se tornou relevante na era helênica (que teve início em 332 a.C.). Na época, a carne de porco era o item básico das dietas dos povos da região, tornando estranha e particularmente notória a prática judaica de evitar esse alimento e fazendo disso um símbolo do separatismo dos judeus. 

Durante o governo do rei grego Antióquio IV (cujo reinado começou em 175 a.C.), o consumo de carne de porco era um indício de que alguns judeus haviam assimilados os costumes gregos. Posteriormente, eruditos no Talmude [um livro sagrado dos judeus, um registro de discussões rabínicas relativas à lei, à ética, aos costumes e à história do judaísmo] identificaram a carne de porco com o Império Romano em tal extensão que ela veio a simbolizar os romanos. Na Idade Média, ocorreu o fenômeno oposto: os judeus sendo identificados com o porco. O fato de os judeus se absterem de comer sua carne era visto até como resultado de sua afinidade com esse animal. 

Primeira legislação

No contexto israelense, a carne de porco surgiu pela primeira vez como um tema político nos primeiros dias do novo estado. Naquele então, os alimentos básicos estavam racionados e a carne de porco era vendida inicialmente no mercado negro e, em seguida, foi oficialmente racionada para aqueles poucos que tinham se cadastrado para obter comida que não fosse kosher [produtos e alimentos kosher são aqueles aprovados pela lei judaica]. Tudo isso resultou em pressão parlamentar que, em 1956 e novamente em 1962, levou à aprovação de uma legislação sobre a venda de carne de porco. 

No início, o poder de banir a venda de carne de porco era conferido apenas a autoridades locais. Posteriormente, ela foi tema de uma proibição nacional. Em seu novo livro sobre o assunto, “Hukim ve’hayot aherot” ("Leis e outros animais"), a juíza da Suprema Corte de Justiça Daphne Barak-Erez argumenta que as leis eram excepcionais: embora elas incorporassem a halakha (lei religiosa judaica) ao sistema legal judaico, elas o fizeram a partir de uma percepção mais ampla de "orgulho nacional e herança cultural" e não a partir de um receio de ofender a sensibilidade de pessoas religiosas. 

A ascensão e queda do porco em Israel é, portanto, um exemplo ou estudo de caso na interface entre legislação, religião, sociedade e cultura. 

"Os porta-vozes dominantes que propuseram a legislação sobre o tema eram na verdade políticos religiosos, mas sua argumentação invocava o pensamento cultural comunitário e não sentimentos religiosos", escreve Barak-Erez. Eles se dirigiam ao Yiddishkeit (identidade étnica judaica) do movimento operário de Israel na época. 

A legislação proposta foi explicada através da posição que o porco tinha na história judaica. Por exemplo, o líder do Sionismo Operário anterior ao Estado de Israel, Berl Katznelson -- conhecido não por sua devoção à tradição religiosa judaica -- aderiu a apenas duas proibições tradicionais, que via como parte dos "direitos de propriedade nacional" dos judeus: abster-se de comer carne de porco e jejuar no Tisha B’Av em memória à destruição dos templos em Jerusalém [o Tisha B'Av, dia 9 do mês de Av, 11° mês do calendário judaico, é um dia de jejum e luto devido a dois dos mais trágicos eventos da história judaica: a destruição pelos babilônios do Templo de Salomão, ou Primeiro Templo de Jerusalém, no ano 586 a.C., e a destruição do Segundo Templo pelos romanos no ano 70 da nossa era]. 

O falecido primeiro-ministro Menachem Begin também via o porco como uma questão relacionada à "alma nacional". O primeiro primeiro-ministro de Israel, David Ben-Gurion, entretanto, tinha reservas sobre a importância do simbolismo do porco por vê-lo como um evento significativo "tardio", pós-bíblico.

Barak-Erez faz distinção entre a legislação sobre a carne de porco e outras leis religiosas, devido à ênfase em aspectos culturais nacionais das provisões legais relativas à carne de porco. Pode-se perguntar, entretanto, se essa distinção é tão nítida: as leis sobre casamento e conversão, por exemplo, não são também parte da história nacional? É uma coincidência o fato de que o estado escolha impor tradição religiosa naqueles aspectos da vida que são definidores de rumos para a nação?

Saindo do segundo plano

O interesse por legislação sobre carne de porco declinou nos anos 1970. Barak-Erez diz que isso se deu porque o consumo de carne de porco em Israel era mínimo àquela época; o racionamento havia terminado, e a grande imigração [de judeus] da União Soviética -- entre os quais o consumo de carne de porco era comum -- não havia ainda começado. Além disso, a atenção dos partidos religiosos do país estava concentrada em promover os assentamentos nos territórios e eles não tinham tempo para lidar com legislação religiosa, afirma a juíza da Suprema Corte. No final dos anos 1970, no entanto, o assunto ressurgiu.

Deve-se observar que Tel Aviv foi na realidade a primeira cidade israelense em que uma lei orgânica municipal foi promulgada tornando ilegal a venda de carne de porco -- já em 1954. Essa lei foi na realidade promulgada em resposta a uma decisão da Alta Corte de Justiça, que definiu que governos municipais não tinham autoridade para agir com base em motivos religiosos. 

Barak-Erez liga a retomada do tema nos anos 1980 à ascensão de partidos políticos setoriais. O teor do discurso público de então já havia mudado, com porta-vozes seculares resistindo a uma expansão das leis contra a carne  de porco, considerando-a uma coerção religiosa. "A disposição de entender essas proibições como uma expressão legítima de um símbolo nacional era quase inteiramente inexistente em seus comentários", observa Barak-Erez.

No início dos anos 1990, foram promulgadas novas Leis Básicas sobre a liberdade de emprego/trabalho e a dignidade humana, levando a uma erosão adicional  das proibições. Depois disso, as cortes permitiam restrições à venda de carne de porco apenas em áreas onde a maioria da população fosse religiosa. 

O debate público deslocou-se antes para considerações sobre coerção religiosa e direitos comunitários do que sobre a importância de símbolos e da identidade nacional. Israel tornou-se menos unificado e mais tribal, escreve Barak-Erez -- marcado de um lado por um aumento em liberalismo, liberdades individuais e multiculturalismo e, de outro lado, por um declínio da identidade nacional tradicional.

O porco deixou de ser um símbolo nacional para tornar-se claramente um símbolo religioso. "Em uma realidade em que a cultura judaica e a língua hebraica dominam o espaço público, há aqueles que são da opinião de que a importância de símbolos que antes eram necessários para estabelecer uma unidade comunitária era declinante em qualquer hipótese", diz Barak-Erez. O desgaste da imposição de uma proibição à venda de pão durante a Passover [a Páscoa judaica] foi outro exemplo desse fenômeno, acrescentou ela. 

"A proibição em relação à carne de porco assumiu seu significado simbólico nos contextos de humilhação e de subserviência nacionais", escreve a juíza referindo-se à experiência dos judeus da Diáspora [processo de dispersão forçada dos judeus pelo mundo e a consequente formação de comunidades judaicas fora de Israel]. "A maioria dos líderes públicos de Israel nos anos iniciais do país não era de sabras (judeus nascidos em Israel), e eles ainda carregavam consigo lembranças (e talvez cicatrizes) da vida na Diáspora e os insultos ligados ao porco. Ao longo do tempo, isso foi desaparecendo".  

Essa afirmação pode ser de particular importância. O porco pertence a um mundo no qual os judeus se distinguiam da maioria não judia no meio da qual viviam. Por outro lado, a identidade nacional judaico-israelense se baseia em um sentimento de maioria. 

Muita água correu desde os dias de Berl Katznelson e Begin até o ano passado, quando o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu foi visto jantando com o magnata do jogo Sheldon Adelson em um restaurante em Nova Iorque que serve carne de porco. A nova identidade nacional exige cada vez menos tradição judaica, mas não é menos nacional. 

Não se trata de multiculturalismo mas, em vez disso, de uma nova identidade nacional que substituiu a identidade israelita tradicional. Essa nova identidade é construída cada vez mais sobre uma rejeição ou mesmo ódio ao próximo, em seu formato europeu de direita. O declínio da herança cultural anterior cedeu lugar para um viver numa "mansão numa selva" -- como o ex- primeiro-ministro Ehud Barak descreveu uma vez a vida em Israel. 

A legislação sobre a carne de porco é uma história fascinante, mas não é uma história sobre liberalismo. Em vez disso, é a saga em curso da face mutante do nacionalismo em Israel.


Um chiqueiro no Kibbutz Lahav - (Foto: Tomer Appelbaum)


  



  


segunda-feira, 27 de julho de 2015

Cresce a pressão para que museus devolvam peças roubadas

[O artigo traduzido abaixo, de Konstantin von Hammerstein, foi publicado no site Spiegel Online International. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. Ver postagens anteriores sobre o tema, por exemplo uma em 08/10/2012 e outra de 07/7/2011. ]



Uma figura feminina cicládica de mármore em exposição no Museu Arqueológico Nacional da Grécia em 6 de junho após seu retorno ao país, depois de ter ficado cerca de 40 anos na Alemanha - (Foto: Reuters/Fonte: Spiegel Online International).

Com uma nova lei rígida, o governo alemão quer ajudar a interromper as escavações e o comércio ilícitos de objetos arqueológicos. Espera-se que essa iniciativa venha exercer pressão sobre alguns dos museus mais famosos do país, que contêm numerosas peças de origem desconhecida.

Hermann Pazinger gosta de contar a história de como, 15 anos atrás, se viu olhando fixamente o cano de um Kalashnikov [o famoso fuzil AK-47, de fabricação russa] no norte do Paquistão. O arqueólogo havia surpreendido um grupo de pessoas tentando assaltar um templo budista. Parzinger e seus colegas bateram em retirada às pressas.

Pouco tempo depois, em julho de 2001, ele e uma equipe de exploradores da Rússia e da Alemanha descobriram um grande esconderijo secreto de tesouros de ouro dos citienses, um povo nômade equestre que viveu há cerca de 2.700 anos atrás nas estepes da Ásia Central, na república russa de Tyva. Após essa descoberta sensacional, os arqueólogos tiveram que ficar sob proteção armada 24h por dia.

Não há muitos funcionários da área cultural na Alemanha capazes de contar tais histórias. O presidente da Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano é um lutador de artes marciais de faixa preta grau 2, que já foi campeão de seu grupo em várias competições de judô em Berlim. Mas, por trás da musculatura, basta uma pergunta simples para incomodar e irritar o cidadão de 55 anos especialista  em pré-história.

Basta perguntar-lhe quando os museus de renome mundial que sua organização opera -- os museus estatais, que incluem os museus da Ilha dos Museus, de Berlim, listados pela Unesco -- pararam de comprar objetos de arte do exterior no comércio de obras de arte.

Parzinger hesita. Ele tem sido o chefe de uma das instituições culturais mais importantes do mundo por tempo suficiente para perceber que estará andando nas pontas dos pés em um campo politicamente minado, qualquer que seja a resposta que dê.

Mudança "urgentemente necessária"

Na semana de 10 de dezembro, Parzinger foi coanfitrião de uma importante conferência internacional em Berlim que teve como tema escavações ilegais e o comércio ilícito de propriedade cultural [quem quiser acessar o programa da conferência, clique aqui]. A expectativa era de que a conferência de dois dias preparasse o caminho para um endurecimento das leis existentes para proteção de objetos culturais. O próprio governo alemão tem sido fortemente crítico de sua legislação mais recente sobre o assunto, promulgada em 2007. Em um relatório enviado ao Parlamento, o governo afirmou recentemente que emendas se fazem "urgentemente necessárias". [O artigo foi escrito antes da conferência, sem que portanto suas conclusões e recomendações estivessem disponíveis. Nas pesquisas que fiz em sites em inglês e alemão tampouco encontrei tais conclusões e recomendações. Durante a conferência, a ministra da Cultura da Alemanha, Monika Grütters, disse que crises e conflitos frequentemente levam à devastação de museus e de sítios arqueológicos e ao comércio de objetos roubados. Ela comentou que isso "destrói o patrimônio cultural de toda a humanidade". A ministra acrescentou que a Alemanha planeja endurecer a regulamentação do comércio de objetos de arte e antiguidades. Quem traz antiguidades importadas para a Alemanha deve ter à mão uma permissão de exportação válida. Limites legais claros determinarão as informações sobre a origem de um objeto. Instituições culturais e museus em toda a Alemanha serão solicitados também a examinar cuidadosamente suas coleções para a identificação de objetos de origem dúbia.]

No relatório, o governo escreve que embora desde então tenha se tornado "prática comum para museus não adquirir objetos culturais de origem indeterminada", o fato é que "tesouros culturais ilegalmente escavados ou ilicitamente exportados são ainda comprados e vendidos". Como muitos outros arqueólogos, Pazinger está solicitando que as restrições legais sejam ampliadas drasticamente, para frear o comércio ilegal de antiguidades. 

Pazinger pergunta à sua assessora jurídica: "Temos compras feitas no comércio de arte"? "Sim", disse a advogada. A Antikensammlung (ou Coleção de Antiguidades Clássicas) da cidade adquiriu 21 vasos apulianos [de Apúlia -- hoje Puglia -- região do sudeste da Itália] nos meados de 1980. Anos depois, investigadores tanto alemães como italianos examinaram esse caso. Membros da polícia federal italiana, os Carabinieri, passaram vários dias na capital alemã fazendo a auditoria de registros e arquivos e inquirindo, como testemunha, o diretor da coleção. Ao final, não encontraram evidências de escavações ou exportações ilegais procedentes da Itália.

A assessora legal dos museus estatais diz que os museus não compraram nada mais. Mas, Pazinger parece alarmado e ordena que os museus arqueológicos que supervisiona façam revisões internas e lhe reportem os resultados encontrados. 

Na quinta-feira anterior, ele fez uma abordagem adicional com a Spiegel e disse aos repórteres que os museus haviam continuado a comprar objetos até há poucos anos. Presentes ou doações foram também aceitos em casos em que sua origem não estava sempre clara. Não era muita coisa, e não havia nada espetacular -- vasos antigos, escritas cuneiformes, selos cilíndricos da Mesopotâmia, mas nada problemático.

Museus de Berlim orientados a checar as origens de suas coleções

Os museus foram agora orientados a efetuar uma revisão das origens de todos os objetos arqueológicos adicionados aos seus acervos desde 1970. Foi indicado um representante de cada museu para conduzir essa tarefa. Pazinger promete também: "Estaremos sempre preparados a devolver coisas se ficar provado que são de origem ilegal".

A pilhagem do Museu Nacional do Iraque após a invasão americana em 2003 [ver postagem anterior] e as fotos de sítios culturais destruídos em países destroçados por guerras civis no Oriente Médio e na África provocaram debates sobre a proteção desses tesouros pelo Ocidente, incluindo a Alemanha. Aquisições de natureza dúbia têm sido feitas durante anos por museus ocidentais, mas a prática é agora amplamente considerada como imoral.

O senso comum hoje é que o comércio e as escavações ilegais de objetos arqueológicos estão destruindo nosso patrimônio cultural no mundo. E o que está ocorrendo diante dos olhos do mundo no Iraque e na Síria é simplesmente um desastre. Entretanto, há poucos dados confiáveis disponíveis sobre os objetivos e atividades desse comércio ilegal.

Falhas na inteligência

Em um "Estudo de Ameaças de Inteligência" interno, distribuído em julho, o FBI em Washington listou 12 áreas no comércio ilícito de antiguidades para as quais há "falhas de inteligência". Elas incluem:

● Qual é o valor global das antiguidades ilícitas comercializadas nos EUA?
● Onde estão as maiores redes globais nesse comércio?
● Quantos e quais comerciantes de arte baseados nos EUA estão negociando bens roubados ou pilhados?
● Em que extensão há funcionários do governo americano ou de governos estrangeiros envolvidos no comércio ilegal?
● As redes especializadas no comércio de antiguidades ilícitas estão envolvidas também em outras atividades criminosas?
● Como são os procedimentos do comércio ilegal nos EUA depois transferidos de volta às redes nos países de origem?
● Quem são os portadores/transportadores mais atuantes e de que países eles vêm? Estão eles envolvidos também no tráfico de drogas, tráfico humano ou qualquer outro contrabando?

O relatório do FBI afirma que as autoridades americanas já devolveram mais de 7.000 objetos arqueológicos a 26 países diferentes desde 2008. Mas isso é provavelmente apenas uma fração dos objetos ilegais atualmente mantidos nos EUA, diz o documento.  

Não há números precisos disponíveis sobre o volume global do comércio ilegal, e os que existem divergem amplamente entre si. O relatório do FBI afirma que há estimativas de que esse comércio valha US$ 2 bilhões por ano, mas outras estimativas dizem que as cifras reais se aproximam mais daquelas do tráfico de drogas ou de armas.

Atualmente, a pior pilhagem ocorre na Síria e no Iraque [ver reportagem sobre isso do NYT traduzida na Folha de S. Paulo]. O Departamento de Estado dos EUA publicou recentemente fotos de satélite de alta resolução de vários locais de escavação na Síria, que dão uma indicação dos objetivos da devastação que lá ocorre. Dentro de dois anos, os buracos de escavação no sítio do período clássico Dura Europos [antiga cidade de origem greco-macedônica, fundada no ano 300 a.C.] terão transformado o local em terra arrasada.

Três semanas antes, um grupo de especialistas se reuniu em Paris a convite do Conselho Internacional de Museus para trocar informações sobre o que está acontecendo na região. Mas, os especialistas tiveram dificuldade em prover informações confiáveis nessa reunião secreta. "A região é um buraco negro" em termos de conhecimento nesse sentido, disse um participante.

Ainda assim, é óbvio que um grande saque está ocorrendo na Síria e no norte do Iraque. Sabe-se também que autoridades libanesas e turcas interceptaram muitos objetos na fronteira nos últimos meses. Tem sido divulgado que autoridades turcas encheram vários depósitos com antiguidades apreendidas. Vários objetos foram descobertos também em mercados na Turquia e no Líbano.

Mas, a parte do leão dos objetos roubados está simplesmente desaparecendo. Comerciantes de arte alegam que não têm recebido muitas ofertas através de mercadorias do Oriente Médio no momento, e as autoridades também não têm tido registro de qualquer fluxo de entrada de antiguidades. Então, o que está acontecendo com os objetos roubados?

É plausível que tais objetos serão mantidos armazenados, longe dos olhos do público pelos próximos 10 ou 15 anos, e começarão lentamente a aparecer nos mercados internacionais de arte com documentação forjada tão logo cesse o presente debate sobre bens ilícitos. Outra possibilidade é que colecionadores abastados na região árabe ou no oriente remoto estejam expandindo suas coleções.

Os especialistas têm certeza de uma coisa: os objetos reaparecerão em algum momento no futuro -- como sempre ocorreu no passado.

Origem duvidosa em coleções internacionais de destaque

Em 2000, os arqueólogos britânicos Christopher Chippindale e David Gill lideraram o único estudo abrangente de seu gênero jamais feito quando efetuaram uma revisão sistemática da alegada origem dos acervos listados em catálogos de sete importantes coleções internacionais de antiguidades. 

O que encontraram foi chocante. Dos 1.396 objetos examinados, 75% não tinham documento de origem. Mais de 500 das antiguidades não possuíam nenhum tipo de histórico, o que significava que supostamente haviam aparecido pela primeira vez naquelas exibições públicas -- uma indicação clara de que resultavam de escavações ilegais. 

Chippindale e Gill se esforçaram também bastante para checar se os detalhes de proveniência fornecidos eram os mesmos apresentados para os mesmos objetos em exposições anteriores. Aqui também os resultados foram críticos. Frequentemente, objetos cujo local de descoberta havia sido dado como "desconhecido" em exposições anteriores tinham, repentinamente, sido relacionados a uma origem concreta -- outra indicação de que sua proveniência era provavelmente forjada.

Desde a divulgação do surpreendente estudo, os arqueólogos falam da "lei de Chippindale".  "Não importa quão ruim tenha sido sua abordagem da situação,  a realidade é sempre pior", diz um especialista.

Transacionando rápido e fácil com o patrimônio mundial

Muitos comerciantes de arte alegam conhecer bem de onde vêm seus objetos, faltam-lhes apenas os papéis certos relativos a eles. "Você ainda tem o recibo de cada peça de mobília que seus pais lhe deram?", pergunta Vincent Geerling, presidente da Associação Internacional de Comerciantes de Arte Antiga (IADAA, na sigla inglesa). O holandês tem seu próprio negócio em Amsterdam e é também um colecionador privado. Não, responde ele com uma franqueza que desarma, ele possui apenas um objeto em relação ao qual pode dizer precisamente onde foi escavado. Mas diz que não conhece o histórico de propriedade de suas antiguidades.

O que parece estar claro é que há poucos objetos "limpos" sendo comercializados, o que se refere aos objetos para os quais tanto o lugar de sua descoberta quanto seu proprietário anterior são desconhecidos. Há também objetos "sujos", que se sabe terem sido roubados de uma coleção ou de um museu. Mas, a maioria dos objetos é "cinza" porque há incertezas sobre sua proveniência. "Comerciantes de arte gostam de dizer que cinza é limpo, porque não é sujo", explica o arqueólogo Luca Giulani, reitor do interdisciplinar Instituto para Estudos Avançados de Berlim. "E nós arqueólogos dizemos que cinza é na realidade sujo, porque não está claro que seja limpo".

Em 1970, a Unesco aprovou uma convenção contra o comércio ilegal de bens culturais, mas a Alemanha levou 37 anos para ratificar o tratado e implementar sua lei nacional. Pressão externa tampouco fez diferença. Os obstáculos e dificuldades na lei são de tal monta, que nem um único objeto sequer foi devolvido ao seu devido proprietário em consequência da regulamentação.

Conscientização crescente

Autoridades do governo [alemão] querem agora mudar essa situação. Monika Grütters, a principal autoridade da área cultural no governo Angela Merkel, está no momento preparando uma nova lei que poderá entrar em vigor no início de 2016, se aprovada em tempo hábil. A lei determina que os únicos objetos que podem ser comprados e vendidos são aqueles cujo país de origem esteja já definido. Serão igualmente facilitadas as regras para devolução de bens culturais sob disputa. 

A nova lei tem potencial para criar para criar uma pressão considerável sobre Parzinger e muitos de seus colegas. A Alemanha pode ter ratificado o tratado da Unesco apenas em 2007, mas 1970 é considerado pela comunidade internacional como a data de referência a ser considerada.

Quem comprou objetos desde essa época sem realmente conhecer sua origem não terá infringido a lei pelas novas regras, mas terá nas mãos um problema de ordem moral. Uma das coleções arqueológicas mais famosas do mundo, os objetos do Museu Britânico do Oriente Próximo, em decorrência disso parou, no final dos anos 1960, de adquirir obras e bens cuja origem fosse incerta.

Lentamente, começa a crescer uma conscientização do problema na Alemanha. Em anos recentes, a administração de muitas coleções públicas tem sido assumida por uma nova geração de administradores de museus. Eles enfrentam agora a tarefa de reexaminar as heranças controvertidas acumuladas por seus antecessores, que continuaram a comprar objetos no mercado de arte até há poucos anos atrás. 




Hermann Parzinger, presidente da Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano de Berlim, diz: "Estaremos sempre preparados a devolver o que ficar comprovado que é de origem ilegal" -- (Foto: DPA/Fonte: Spiegel Online International)

O Museu Regional de Bad, uma coleção pública em Karlsruhe, tem sido objeto de críticas há décadas por causa de sua política de compra de novos acervos. Mas, neste verão, devolveu dois objetos cicládicos para a Grécia, encerrando uma disputa interminável entre as partes. As estátuas antigas, abstratas, provenientes da ilha grega, foram populares com colecionadores há décadas e resultam unicamente de escavações ilegais.

"Muitas vezes, a paixão por coleções e a voracidade dos curadores os levam a uma situação em que se tornam cúmplices do comércio ilegal", diz Eckart Köhne, que é ao mesmo tempo diretor de museu e presidente da Associação Alemã de Museus. "Em arqueologia, alguém não pode simplesmente declarar-se inocente se estiver adquirindo um objeto que supostamente vem de uma coleção suíça anônima". 

Köhne argumenta que os museus precisam reconhecer sua responsabilidade e fazer o máximo que puderem para pesquisar as origens de suas antiguidades, do mesmo modo como muitos museus alemães abordaram a questão da arte pilhada pelos nazistas. Na pior das hipóteses, a chanceler cultural Grütters quer forçar as coleções estatais a serem mais transparentes. "Requeri que os museus incluam em cada relatório anual um relatório de progresso sobre o estado da pesquisa sobre a origem de seus acervos", diz ela. 

[Alguns exemplos de devolução de obras de arte a seus donos ou herdeiros e de disputas por esse tipo de devolução

■ Museu suíço aceita coleção com obras de arte roubadas de judeus por nazistas, para devolução a seus legítimos herdeiros

■ Museus dos Estados Unidos e Europa devolvem obras de arte aos locais de origem - entre essas obras está uma estátua de Perséfone, a deusa de Morgantina (antiga cidade grega), devolvida pelo museu J. Paul Getty, na Califórnia, ao governo italiano e hoje exibida no Museu Arqueológico de Aidone, na Sicília.

■ Turquia exige volta de patrimônio histórico e cultural - entre as obras exigidas pelos turcos estão 18 objetos que estão na coleção Norbert Schimmel do Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque (conhecido como Met).

■ Estados Unidos devolvem artefatos retirados de Machu Pichu]

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Começou p'ra valer a manobra para secar a Lava-Jato?

A decisão do STF ontem (28/4) de soltar 9 executivos de empreiteiras presos na operação Lava-Jato deixou um cheiro de ranço no ar, e acendeu a luz amarela entre aqueles que defendem a apuração completa dos fatos e a punição rigorosa dos culpados. Há muitas "coincidências" nos antecedentes e bastidores dessa decisão, que intranquilizam qualquer observador mais atento e ansioso para que a justiça não seja mais uma vez atropelada neste país.

Vamos refrescar nossas memórias, o mais resumidamente possível. 

Cena 1 

No dia 19 de maio de 2014, uma segunda-feira, o ministro Teori Zavascki, relator do processo do petrolão no STF, mandou soltar todos os presos da Operação Lava-Jato. Zeloso e ágil em certos temas, Teori passou o domingo 18/5 debruçado sobre o processo e fundamentando sua decisão, divulgada no dia seguinte. Detalhe vapt-vupt: ele foi indicado para o Supremo por Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saia). A soltura dos presos provocou reação na opinião pública e graças também (ou essencialmente) a ponderações do juiz Sérgio Moro, Zavascki recuou e revogou sua decisão. Pelo visto, isso ficou entalado em sua garganta.

Cena 2

São de conhecimento público: - i) o STF possui 2 Turmas; - ii) cada Turma deveria ter 5 membros, para evitar empate em votações, mas a demora de quase 9 meses de Dilma NPA para indicar um novo ministro para o Supremo inviabilizou o funcionamento pleno das duas Turmas, permitindo a atuação de apenas uma delas; - iii) como o ministro Teori Zavascki é o relator da Lava-Jato no STF, a Turma de que ele participar receberá os processos relativos a essa operação.

Cena 3

Faz parte da nossa Corte Suprema o ministro José Antonio Dias Toffoli, formado em Direito pela Universidade de S. Paulo em 1990. Foi consultor jurídico  do Departamento Nacional dos Trabalhadores Rurais da Central Única dos Trabalhadores (1993 - 1994). 

Em 1994 e 1995 prestou concurso para juiz substituto do Estado de São Paulo, mas foi reprovado nas duas vezes. Entre 1995 e 2000 foi assessor jurídico da liderança do Partido dos Trabalhadores, na Câmara dos Deputados, em Brasília. Foi advogado do PT nas campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 1998, 2002 e 2006. De janeiro de 2003 a julho de 2005, exerceu o cargo de subchefe da área de Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República, durante a gestão de José Dirceu. Foi exonerado pela ministra Dilma NPS, a pedido.

Em março de 2007, foi nomeado Advogado–Geral da União, função que exerceu até outubro de 2009. Tornou-se ministro do Supremo Tribunal Federal em 23 de outubro de 2009, por indicação do NPA. Esse currículo facilita entender o interesse do NPA, de José Dirceu e do PT em ter Dias Toffoli no Supremo, bem como o desempenho dele em questões que afetam direta e/ou indiretamente o PT et caterva nesse tribunal, de que é exemplo emblemático sua atuação no mensalão.

Cena 4

Paladino das grandes causas envolvendo o PT et caterva no STF, Dias  Toffoli, num gesto de desprendimento, transparência, amor à Justiça e ao País e de colaboração para "aliviar" a pauta do Supremo, solicitou em 10/3/2015 sua transferência da Primeira para a Segunda Turma do STF, inequivocamente para atuar no julgamento da Lava-Jato. No dia seguinte em que fez essa solicitação, ou seja em 11/3/2015, Dias Toffoli se reuniu com Dilma NPS no Palácio do Planalto, num encontro que inicialmente não estava previsto na agenda da presidente. Ele e ela juram que não falaram de Lava-Jato. Quem acreditar concorre a um fim de semana na casa de campo de Papai Noel, tendo Cinderela como recepcionista. 

Cena 5

O tempo na prisão em Curitiba mexeu com os nervos dos executivos, e vários deles já estão cooperando voluntariamente com as investigações e estavam em tratativas para usufruir dos benefícios da delação premiada. Entre eles incluíam-se: Ricardo Pessoa, presidente da UTC e apontado como chefe do "Clube das empreiteiras"; Gérson de Mello Almada vice-presidente da Engevix; José Aldemário Pinheiro Filho, presidente da OAS, conhecido como Léo Pinheiro. Segundo reportagem da revista "Veja", ele financiou a reforma de um sítio no interior de S. Paulo a pedido do NPA. 

A defesa de Ricardo Pessoa entrou com pedido de habeas corpus no STF, o pedido foi obviamente para a Segunda Turma (onde está Teori Zavascki) e esta deferiu o pedido, estendendo a decisão a todos os demais executivos presos. Mais uma vez, a mão sorrateira da Justiça interfere num processo em que o cerco de evidências incontestáveis começa a acercar-se do NPA e ameaça estrangular de vez o PT.

Cena 6

A votação na Segunda Turma do STF terminou com três votos a favor da concessão do habeas corpus e dois contra. Votaram a favor os ministros Teori Zavascki, Dias Toffoli e Gilmar Mendes -- contra votaram Cármen Lúcia e Celso de Mello. 

Teori Zavascki sustentou que os riscos de novos crimes ou prejuízo às investigações foram reduzidos e podem ser evitados agora com as chamadas medidas cautelares. Em seu parecer, favorável à manutenção da prisão do empresário, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ressaltou que Ricardo Pessoa praticou “condutas delitivas” mesmo após a deflagração da Operação Lava Jato, em março de 2014. Também alegou relação do executivo com o doleiro Alberto Youssef, acusado de ser um dos principais operadores do esquema de corrupção.

Dias Toffoli, com seu brilhareco de sempre e com seu currículo de dedicação ao PT e ao NPA pendurado ao pescoço, foi breve e disse apenas que acompanhava o relator, sem expor seus argumentos (edição impressa do Globo, 29/4/2015, seção País, página 3).

Gilmar Mendes, que se considera um oráculo, chamou a Operação Lava-Jato de "o maior escândalo de corrupção do país" mas, ainda assim, votou pela libertação de Ricardo Pessoa. Afirmou  que as investigações já estão em fase final e, por isso, não haveria risco de o réu atrapalhar a coleta de provas. 

Ricardo Pessoa, da UTC, "convenceu" o trio de ministros da Segunda Turma do STF (Zavascki/Toffoli/Mendes) que virou um bom menino e, em absoluto, não atrapalhará as investigações mesmo que elas o levem ao inferno. Por contágio, outros oito executivos embarcaram em sua canoa.

Cena 7

Ainda é cedo para ter-se uma ideia completa dos reflexos dessa soltura de executivos sobre o caminhar e os resultados da Lava-Jato. Há um certo consenso sobre a tendência a uma redução drástica de delações premiadas e de cooperações voluntárias com as investigações, por parte dos executivos agora em prisão domiciliar. Os antecedentes dessa decisão, relatados acima, nos fazem lembrar que ainda há forças poderosas -- e não tão ocultas -- que não esgotaram seus recursos e influências para tentar melar a Operação Lava-Jato. Vamos ficar de olho.

sábado, 21 de março de 2015

Fazendeiros do Mato Grosso do Sul querem mudar lei que protege a reserva de Bonito

[A preservação da natureza é uma luta sem tréguas no mundo todo, e o Brasil obviamente não está fora disso, muito pelo contrário. A mata atlântica, a floresta amazônica e praticamente todas as áreas verdes do país estão sendo devastadas e há décadas não há governo capaz de enfrentar as madeireiras ilegais e/ou certo número de fazendeiros. A bancada ruralista cresceu enormemente no Congresso Nacional e exerce uma tremenda pressão para o maior relaxamento possível dos requisitos de preservação de matas e florestas. Sua atuação na aprovação do novo Código Florestal, com critérios altamente discutíveis, foi decisiva. Para complicar as coisas, o governo Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saia) nomeou para o ministério da Agricultura uma fazendeira, Kátia Abreu, que já foi autuada pelo Ibama por desmatamento ilegal!

Desta vez, a péssima notícia vem em uma reportagem (reproduzida abaixo) de Marina Ribeiro na revista Época de 16/3/2015, que denuncia que fazendeiros do Mato Grosso do Sul querem mudar lei que protege Bonito.]



Uma das principais atividades turísticas de Bonito (MS), o mergulho, depende da boa visibilidade das águas (Foto: Reprodução/Facebook)

Piscinas naturais com águas cristalinas, mergulhos em meio a cardumes de peixes, rapel em cachoeiras e visitas a grutas inundadas, são algumas das atrações que tornaram a pequena cidade de Bonito (MS) conhecida como um dos principais destinos de ecoturismo do país. Além de ter um ecossistema único, a cidade conquistou o posto com grande esforço de conservação ambiental, que agora pode ser ameaçado por um projeto de lei apoiado por ruralistas da região.

O principal instrumento para conservação das piscinas naturais é a lei estadual 1871, aprovada em 1998. Ela protege os rios Prata e Formoso e seus afluentes ao definir uma Faixa de Proteção Especial de 300 metros de largura – 150 para cada lado da margem dos rios - em que são proibidas atividades de agricultura, extração de madeira, indústria, extração mineral e até mesmo a criação de pequenos animais. A lei permite, no entanto, apicultura (criação de abelhas), pecuária e, claro, o ecoturismo neste espaço.

Como muitas leis no Brasil, a princípio a legislação não “pegou”. Com esforço do Ministério Público em fiscalizar, aos poucos a medida se tornou mais conhecida e permitiu a conservação da mata ciliar e dos rios, que não enfrenta a erosão e nem recebe agrotóxicos utilizados em plantações da região, garantindo a quantidade e a qualidade da água. Por tudo isso, ficou conhecida como “Lei das Águas Cristalinas”.


No entanto, após mais de quinze anos com a lei em vigor, ela passou a se mostrar insuficiente com a expansão da lavoura de soja. “Recentemente começou uma pressão muito forte de agricultura no município eu comecei a notar que a lei estava sendo descumprida, por isso, convoquei uma reunião para explicá-la aos produtores, em especial os arrendatários que estavam chegando”, afirma o promotor Luciano Furtado Loubet, da Promotoria de Justiça do Meio Ambiente da comarca de Bonito, que esteve envolvido no processo de implantação da 1871. Segundo ele, a partir de então, a pressão para que a medida fosse extinta cresceu. Em 2014, em uma assembleia com as entidades locais, representantes dos hotéis, de bares e restaurantes, de atrativos turísticos, rejeitaram qualquer alteração nas regras. A exceção foi o Sindicato Rural de Bonito.

Projetos em discussão

A partir de então dois novos projetos de lei surgiram. Por um lado, o deputado estadual, Paulo Corrêa (PR-MS) – autor da Lei das Águas Cristalinas – propôs o projeto 126 em que instituía “Área de Proteção Ambiental nas nascentes, áreas úmidas, brejos ou veredas dos rios da Prata, Formoso, Peixe, Aquidaban e afluentes”, ampliando a proteção da legislação já existente. O projeto foi derrubado na Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa, com o apoio da base ruralista.

Já os fazendeiros, por meio da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso do Sul (Famasul), escreveram um projeto de lei que derrubava os principais itens da Lei das Águas Cristalinas, com base no Código Florestal. Em dezembro de 2014, o ex-deputado Jerson Domingos (PMDB-MS) acatou a sugestão e propôs o projeto 191 em discussão na Assembleia Legislativa e, em meio ao esforço concentrado para o recesso do fim de ano, ele foi aprovado.



“A assembleia aprovou, sem ouvir a sociedade, mesmo a gente tendo mandado abaixo-assinado com centenas de assinaturas decorrentes das assembleias públicas que fizemos em Bonito”, disse o promotor. Para alívio da sociedade civil de Bonito, o recém-empossado governador, Reinaldo Azambuja (PSDB), vetou o projeto, que voltou para a Assembleia. Porém, os deputados ainda podem derrubar o veto, tornando-o, então, lei.

O medo das organizações locais é que a Famasul consiga votar sobre veto sem aviso novamente. “É difícil que rejeite o veto, mas eles estão trabalhando para aprovar a lei e têm uma pressão na base”, afirma Eduardo Coelho, presidente do Instituto das Águas da Serra da Bodoquena e vice-presidente da Associação dos Atrativos Turísticos de Bonito e Região.
Segundo o promotor, além do interesse em ampliar a produção, alguns produtores querem escapar de multas ambientais. “Na verdade, esse projeto pode beneficiar meia dúzia de produtores que têm ações civis públicas e execuções de taxas por que descumpriram a lei 1871. Se a lei cai, caem todas as multas e as grandes ações ambientais contra eles”, diz Loubet.

Lei federal x lei estadual

A Famasul nega. Segundo o assessor jurídico, Carlos Daniel Coldibelli, a intenção da federação é fazer uma “provocação legislativa” para estimular o debate para determinar com clareza qual regra os fazendeiros da região devem seguir: o previsto na lei 1871 ou o que está no Código Florestal. “A preocupação maior é que seja definido o que pode ou não pode, sejam regras mais rigorosas ou mais brandas, mas sejam claras”, disse Coldibelli.

As leis diferem em alguns pontos, com a lei federal sendo menos restritiva. O tamanho da faixa de proteção é um exemplo. O Rio Formoso, um dos protegidos pela lei estadual, poderia perder ao menos 100 metros de faixa de proteção permanente, já que segundo o Código Florestal cursos d’água de tal tamanho precisam de áreas de 200 metros. Além disso, nessas áreas é “permitido o acesso de pessoas e animais para obtenção de água e para realização de atividades de baixo impacto ambiental”.

Ainda que defenda os interesses econômicos dos fazendeiros, a Famasul levanta uma questão relevante no direito ambiental. A Constituição Federal de 1988 definiu que cabe à União e aos Estados definir regras sobre florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa do solo e dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição. A Carta também afirma que cabe à União editar normas gerais e aos Estados estabelecerem normas suplementares da legislação federal. No entanto, não detalha quais regras seguir quando houver conflito das normas.


A Gruta do Lago Azul é um dos principais pontos turísticos de Bonito fica entre fica entre os córregos Taquaral e Anhumas, afluentes do Rio Formoso (Foto: Thinkstock) - (Fonte: Época)

O Supremo Tribunal Federal também não tem um posicionamento claro sobre os conflitos de normas locais e nacionais quando se trata de legislação ambiental. “Muitos interpretam que leis locais só poderiam legislar dentro dos limites do que a União prevê. Apenas detalhar, mas não extrapolar”, explica a sócia da área de Meio Ambiente, Mudanças Climáticas do escritório Trench, Rossi e Watanabe, a advogada Renata Amaral. Segundo ela, existe ainda outra corrente, que tem aceitação no Judiciário, que determina que se as leis locais forem mais protetoras, podem extrapolar as federais.

“Esse é um debate muito grande, pois traz de um lado uma preocupação clara com o meio ambiente, e por outro um entendimento de que a União deve estabelecer as diretrizes gerais que o país pretende seguir, então não poderia ter legislações muito diferentes nos Estados”, afirma a advogada.

Responsabilidade financeira

Para o advogado da Famasul não há problema se for definido que a legislação mais restritiva é que deve continuar em vigor, mas é preciso passar a discutir a questão com base em fatos e documentos e indenizar as propriedades afetadas. “O Município tem direito de impor regras mais restritivas? Tem, mas tem custos para cada restrição de uso também. Quem é que vai arcar com as indenizações?”

O prefeito de Bonito, Leonel Lemos de Souza Brito, o Leleco (PT do B), concorda com a Famasul de que é preciso discutir com dados na mão. Para ele, é preciso um estudo sobre o impacto que a lei acarreta para os produtores da região. “Acho que vai mostrar que não tem custo econômico nenhum”, afirma o político que também tem 1.100 hectares de produção de soja na cidade. Mas, caso exista um custo por deixar de produzir nessas áreas, “podemos pensar em uma maneira de compensar financeiramente os produtores”.

Risco ambiental

Segundo o vice-presidente da Associação dos Atrativos Turísticos de Bonito e Região, Eduardo Coelho, é preciso rever as leis para acompanhar as novas técnicas agrícolas. Ele afirma que vai haver a pressão dos ruralistas para que as áreas protegidas diminuam, mas se todas as partes estiverem envolvidas na discussão será mais difícil dos interesses dos fazendeiros se sobreporem aos demais. “Quando o trabalho é feito às claras, não dá para apelar, não dá para pedir para destruir os rios, a opinião pública se opõe à influencia dos ruralistas na Assembleia Legislativa”, afirma.

Nem todos concordam em atualizar para as novas técnicas de manejo do solo. Segundo a coordenação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Áreas Úmidas, a Lei 1871 deve ser revista, mas para ampliar sua proteção. Para a organização, a pecuária também deveria ser proibida nas faixas de proteção. “O pisoteio do gado torna frágil o solo, criando trilhas causando compactação no local, e durante o período chuvoso a água escorre aumentando as probabilidades da erosão do solo e consequentemente impactando na qualidade da água".

Além disso, o instituto defende que qualquer retrocesso seria danoso para a região, já que os riachos e rios pequenos reagem com muita sensibilidade às mudanças no ecossistema. “A temperatura aumenta, a transparência da água é reduzida por causa do aumento dos sedimentos e a qualidade de água diminui. A diversidade de habitats sofre redução e com isso a diversidade da flora e fauna aquática”, afirmam em documento. Para a entidade, “seria uma catástrofe” perder o exemplo de manejo sustentável de recursos hídricos que Bonito se tornou nos últimos anos.

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