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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Nomeação de mais um general (o terceiro) para o governo faz crescer receios sobre forte influência militar na administração Trump

[Antes mesmo de assumir formalmente as rédeas do país, Donald Trump já sinaliza com atos, atitudes e nomeações que o termo catastrófico pode ser uma palavra suave para seu governo. O número inédito de generais em sua equipe formal já acendeu todas as luzes amarelas nos EUA. Traduzo a seguir a essência de artigos publicados pelo jornal americano The Washington Post sobre isso. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. ]

Trump está se cercando de generais, e isto é perigoso

Philippe Carter e Loren Dejonge Schulman - The Washington Post, 30/11/2016

Mais  do que qualquer outro presidente eleito na memória recente, Donald Trump tem buscado militares de alta patente para povoar seu círculo íntimo de auxiliares. Em 24 de novembro, Trump anunciou que queria o general da reserva dos Fuzileiros James Mattis como seu secretário de Defesa -- um posto tradicionalmente destinado a um civil. Trump pensa também no general da reserva David Petraeus para secretário de Estado, no general da reserva da Marinha John Kelly para secretário de Estado ou secretário de defesa interna, e no almirante Michael S. Rogers como diretor de inteligência nacional. Seu conselheiro designado, Michael Flynn, aposentou-se do exército como general-de-divisão após décadas de atuação como oficial de inteligência militar. E o diretor indicado para a CIA, Mike Pompeo, formou-se na academia militar de West Point e serviu como oficial do exército durante a Guerra Fria.

O presidente eleito Donald Trump conversou com o general da reserva dos Fuzileiros James Mattis e vários outros ex-militares sobre vagas em seu governo - (Foto: Janin Botsford/The Washington Post)

David H. Petraeus, general da reserva e ex-diretor da CIA, na Trump Tower em Manhattan (NY) no início da semana passada - (Foto: Sam Hodgson, para o The New York Times) 


Há uma grande tradição americana de se ter militares veteranos em altos postos da administração política, desde os presidentes George  Washington e Dwight Eisenhower a oficiais seniores como o secretário de Estado Colin Powell na administração George W. Bush e o assessor de segurança nacional James Jones no governo Obama. Um governo típico, entretanto, começa com poucos generais recentes em postos chaves. Preencher tantos lugares com patentes da reserva, como Trump está propenso a fazer, é altamente inusitado.

Não há dúvidas de que esses homens trazem consigo uma tremenda experiência. Mas precisamos estar atentos e cautelosos quanto a estarmos demasiado dependentes ou apoiados em figuras militares. Grandes generais nem sempre são grandes funcionários de gabinetes. E se nomeados em números excessivos, podem enfraquecer ou destruir outra forte tradição americana: o controle civil de militares apolíticos.

Trump frequentemente desdenhou de líderes militares durante sua campanha eleitoral. Gabava-se de saber mais que os generais sobre como combater o Estado Islâmico. Repetidamente, criticou-os por anunciarem suas estratégias de ataques antes que estes ocorressem. Disse que tinham sido "reduzido a entulho" no governo Obama, e ameaçou até remover alguns de seus cargos quando assumisse a presidência.

Ainda assim, compreende-se porque ele os abraçaria agora. Os militares desfrutam da mais alta taxa de aprovação de qualquer instituição na sociedade americana. E contratar ex-generais é um modo seguro de ganhar legitimidade -- quer o presidente seja um senador por Illinois em primeiro mandato buscando cobertura, ou uma estrela de reality show de TV e magnata de cassinos que perdeu no voto popular e tem a reputação de ser um neófito em política externa.

É claro que as escolhas de Trump têm implicações além do teatro político. E legitimidade percebida não deve ser confundida com possibilidade de êxito em altos cargos civis.

Como quaisquer empregados em perspectiva, veteranos devem ser julgados com base em seus méritos mais além de seu posto militar ou de seu serviço militar. O registro histórico mostra que veteranos com status e qualificações semelhantes podem desempenhar-se de maneira muito diferente, quando nomeados para altos cargos. Consideremos os casos do general-de-divisão da reserva da Força Aérea Brent Scrowcroft, que foi assessor de segurança nacional dos governos Gerald Ford e George W. Bush, e o general-de-exército Alexander Haig, que foi secretário de Estado de Ronald Reagan. Cada um deles veio para seu cargo com credenciais militares impecáveis e considerável experiência em Washington. Scowcroft saiu-se brilhantemente, conduzindo um Conselho de Segurança Nacional eficiente que administrou a política externa americana quando a Guerra Fria acabou, a União Soviética se dissolveu e os EUA lutaram a Guerra do Golfo Pérsico. Haig teve um desempenho ruim, provocando (ou quase isso) várias crises entre civis e militares com sua militaresca afirmação de que estava no comando [do país] após a tentativa de assassinato de Reagan, e sua diplomacia altamente arrogante em relação à União Soviética. Haig demitiu-se um ano e meio depois de assumir o cargo.

É impossível saber se os veteranos de Trump serão mais parecidos com Scowcroft ou mais semelhantes a Haig.

Mattis, o monge guerreiro [pessoa que combina características de um monge -- profunda devoção religiosa e vida ascética -- com as de um guerreiro treinado para se envolver em conflitos violentos], mostrou seu gênio estratégico e operacional como general da marinha, mas lidar com e controlar a burocracia do Departamento de Defesa é outra coisa. (...) "Você não pode tocar o Pentágono como faz com a Primeira Divisão Naval".

Flynn é um iconoclasta cuja liderança apoiada em estratégia de terra arrasada no Comando Conjunto de Operações Especiais e na Agência de Inteligência da Defesa não permite prever bem como ele administrará o Conselho de Segurança Nacional, ou fará com que agências rivais trabalhem em conjunto. (...)

Petraeus personifica o líder militar moderno americano, mas seu estilo de liderança não encaixa bem com a CIA e seria provavelmente ainda um figurino pior para o Departamento de Estado ou outra agência governamental. [Esse "líder militar moderno americano" teve que renunciar ao cargo de diretor da CIA  em 2012, quando o FBI descobriu que ele mantinha um caso extraconjugal com Paula Broadwell, que ele escolhera para ser sua biógrafa.]

(...) E há uma dimensão social nas relações entre civis e militares que pode sofrer com a nomeação de líderes militares aposentados para  altos argos. A parcela de veteranos na sociedade está em declínio, como resultado de forças militares menores, a falta de alistamento militar, e uma população em crescimento. Sobram preocupações sobre como militares e civis se dividirão, e sobre como os militares se relacionarão com a sociedade quando uma decrescente porcentagem de americanos serve uniformizada ou tem relacionamento pessoal com quem o faz. Líderes militares seniores passaram todas sua vidas adultas dentro da bolha militar -- vivendo nas comunidades confinadas mais exclusivas da América, numa sociedade insular que tem seu próprio código legal, sua própria linguagem e seus próprios costumes. Nossos militares são ao mesmo tempo uma parte da América e apartados dela. Generais e almirantes emersos desse ambiente podem ser líderes e militares profissionais estelares, mas constituem-se em embaixadores improváveis para fazer a  ponte com os civis.

(...) O maior risco apresentado pela corrida de Trump para cortejar as altas patentes militares é a extensão em que nossa liderança militar pode tornar-se, em realidade ou percepção, uma instituição politizada. Isso poderia, como Dempsey [general da reserva Martin Dempsey] conjecturou, levar "administrações futuras a determinar quais líderes seniores militares seriam mais prováveis de concordar com eles, antes de colocá-los em postos de liderança sênior". No curto prazo, Trump pode estar satisfeito com militares politizados que parecem mais receptivos a ele. No longo prazo, entretanto, tanto o governo Trump quanto nossa segurança nacional sofrerão se essas nomeações solaparem a integridade institucional dos militares e corromperem sua liderança a serviço de fins políticos.

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Trump nomeia um terceiro general, gerando preocupações sobre forte influência militar

Philip Rucker e Mike DeBonis - The Washington Post, 7/12/2016


Presidente eleito Donald Trump encontrou-se com o general da reserva do Corpo de Fuzileiros Navais em 20 de novembro em Bedminster Township, NJ - (Foto: Drew Angerer/Getty Images)


O presidente eleito Donald Trump escolheu o general da reserva dos Fuzileiros John F. Kelly como secretário de Segurança Interna, recrutando assim um terceiro membro das altas patentes militares para servir nos níveis mais altos de sua administração.

A escolha de Kelly por Trump -- e suas continuadas deliberações sobre escolher ainda mais dois militares para outros cargos -- aumentou as preocupações entre alguns membros do Congresso e especialistas em segurança nacional de que as políticas da nova administração possam ser desproporcionalmente moldadas por comandantes militares.

"Estou preocupado", disse o senador Chris Murphy (democrata - Connecticut), um membro do Comitê de Relações Exteriores. "Cada uma dessas pessoas pode ter grande mérito pessoal, mas  o que aprendemos ao longo dos últimos 15 anos é que quando olhamos os problemas no mundo sob a ótica militar, cometemos grandes erros".

Apesar de, regularmente, fazer comentários desrespeitosos sobre os generais do país na campanha eleitoral, Trump tem de longa data mostrado uma afinidade por eles. Ao moldar seu governo, Trump tem priorizado pessoas do tipo que um assessor descreveu como "capaz e desejoso de fazer, sem besteiras", que o presidente eleito vê como um contraste deliberado com as escolhas pessoais que Obama fez.

Se confirmados, Kelly e o candidato a secretário de Defesa James Mattis, um general da reserva dos Fuzileiros apelidado de "Cão Raivoso", se juntariam ao general-de-divisão de reserva do Exército Michael T. Flynn, escolhido por Trump para ser o conselheiro de segurança nacional da Casa Branca. Enquanto isso, o general da reserva do Exército David H. Petraeus está sendo considerado para ser secretário de Estado e o almirante Michael S. Rogers está na disputa pelo cargo de diretor da inteligência nacional.

Outras figuras com experiência militar estão povoando também a administração Trump, incluindo o deputado republicano Mike Romeo (Kansas), graduado pela academia militar de West Point e que serviu no Exército na Guerra do Golfo, indicado por Trump para dirigir a CIA, enquanto Stephen K. Bannon, um ex-oficial da Marina, será o estrategista-chefe e conselheiro sênior de Trump na Ala Oeste da Casa Branca.

Trump, que teve múltiplos adiamentos de recrutamento e não tem experiência militar além de seus anos em um internato militar (military boarding school), é tido como ter atração por generais pelo ar insolente e arrogante destes e ficar maravilhado com suas histórias dos campos de batalha.

Muitos daqueles que Trump vem entrevistando e consultando passaram grande parte da última década e meia intimamente envolvidos na guerra dos EUA contra o terrorismo global. As escolhas de Trump são também surpreendentes, considerando-se sua postura não-intervencionista na campanha eleitoral e suas críticas violentas contra a guerra no Iraque e outras aventuras militares.

(...) A forte confiança em, e dependência de, líderes militares por parte de Trump marcam um desvio de sua administração das administrações dos três presidentes que o antecederam, que escolheram poucos generais para os cargos mais altos, com altos e baixos nos resultados, e se apoiaram grandemente em pessoas que passaram décadas prestando serviços como civis -- políticos, acadêmicos ou advogados.

(...) Nas redes sociais houve nesta semana alguns comentários sarcásticos, dizendo que o gabinete que Trump está montando parece uma "junta militar". (...)

A maioria dos oficiais militares passou toda sua carreira dentro de organizações estruturadas, com equipes grandes e uma clara cadeia de comando. Algumas vezes eles se debatem com dificuldade no mundo ilimitado da política e de estratégias -- sem mencionar o que se espera sem um ambiente imprevisível na Casa Branca de Donald Trump.

"Grandes generais nem sempre são grandes funcionários de gabinetes", disse Phil Carter, um veterano da Guerra do Iraque e membro sênior do Centro para uma Nova Segurança Americana.

Ver também:

☛ "O que Trump pode não saber sobre os generais que tem em mira para altos cargos" (em inglês)

☛ "Assessor de segurança nacional de Trump disse que está pronto para se engajar em uma nova guerra mundial" (em inglês)




quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Alguns dos grandes desastres gerados pelo petismo em seus quase 14 anos no poder

Enquanto o país ainda patina para tentar sair do caos e do precipício em que Lula e Dilma o jogaram, o contribuinte assiste estarrecido a sucessão, a variedade e a extensão de escândalos que permearam o lulodilmopetismo e se tornaram sua marca registrada. O aparelhamento político de estatais e fundos de pensão -- para só falar em dois exemplos -- esfacelaram empresas como a Petrobras e a Eletrobras, e fundos como o Petros e o Postalis (entre outros) e a economia como um todo. O Banco do Brasil, a Caixa Econômica e o BNDES registram os piores resultados de suas vidas. Tivemos governos de um partido dito dos trabalhadores que saquearam escandalosamente fundos de pensão estatais, meteram a mão no FGTS para garantir lucros de empresas privadas, criaram empresas campeãs nacionais fajutas (como a Sete Brasil, por exemplo, um caso recentíssimo) e favoreceram indecentemente a indústria automobilística e as empresas de Eike Batista. Ver também: 'Campeãs nacionais' do BNDES patinam.

Enquanto o mar de lama, incompetência e irresponsabilidade aflora e inunda o país, Lula e Dilma fazem cara de paisagem -- ambos viveram seus governos em permanente estado alfa, alheios a tudo que acontecia à sua volta (incluindo, fantasiosamente, o farto dinheiro de propinas que encheu os cofres de suas campanhas e os bolsos de seus cupinchas). Ninguém reconhece lhufas de malfeitos, tudo foi obra de espíritos malignos (todos da "quadrilha" de FHC), da mídia, da CIA, de Pedro Álvares Cabral e provavelmente até de Deus. A esquerda só reclama da condução das investigações, em momento algum fez uma autocrítica pra valer das bandalhas praticadas -- isso é pra ela absolutamente secundário, o importante mesmo é proteger Lula, seu líder e guru, e livrá-lo da prisão.

Vejamos algumas obras primatas dos 14 anos de petismo no poder.

☛ Sete Brasil -- estatal criada em 2010, no final do governo Lula, dentro da ideia estapafúrdia de gerar empresas "campeãs"nacionais, temperada com a proposição ultrapassada de "conteúdo nacional", a empresa deveria produzir 29 sondas e alugá-las à Petrobras. Nenhuma sonda foi produzida (as sondas ficariam prontas a partir de 2017),  a empresa envolveu-se até o pescoço no propinoduto investigado pela Lava-Jato e entrou em recuperação judicial. Na realidade, a função da Sete Brasil era irrigar mais o esquema de corrupção envolvendo a Petrobras. O ex-presidente da empresa, João Carlos Ferraz, afirmou que a divisão das propinas recebidas de estaleiros contratados pela empresa era uma réplica do esquema que já existia na Petrobras.

Em 2015, a empresa deu um prejuízo de R$ 26 bilhões. Sua recuperação judicial envolverá R$ 19,3 bilhões. De acordo com a lista de credores do seu processo de recuperação  judicial, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, o Bradesco, o Itaú BBA e o Santander somam dívidas de R$ 10,194 bilhões (52,81% do total da recuperação). Deste montante, R$ 3,669 bilhões são do Banco do Brasil e R$ 1,618 bilhão é da Caixa -- ou seja, os dois bancos estatais respondem por 51,86% da dívida da Sete Brasil com o setor bancário. Olha aí o petismo, novamente, encalacrando dois dos três grandes bancos federais do país! A Caixa e o BNDES já haviam sido prejudicados com o grupo de empresas de Eike Batista.

O sócio controlador da Sete Brasil é o Fundo de Investimento em Participações – FIP Sondas, com 95% do capital, e a Petrobras, com 5%. O FIP Sondas reúne quatro fundos de pensão (Petros, Funcef,  Previ e Valia), três bancos de investimentos privados (BTG Pactual, Santander e Bradesco), o FI-FGTS, alem de outros fundos (o FI-FGTS é o Fundo de Investimento do Fundo de Garantia de Tempo de Serviço, criado em 2007 para propiciar aos trabalhadores -- titulares do FGTS -- uma renda superior aos 3% ao ano mais a TR que remunera as aplicações do FGTS; em 2015, em vez de lucro esse fundo teve um prejuízo de 3% ou R$ 966 milhões principalmente por causa da Sete Brasil). Vejam bem como os governos petistas enterraram o dinheiro de trabalhadores nessa arapuca: três grandes fundos estatais e o FI-FGTS.  Viva o PT!

☛ Saneamento básico (dados de 2015) -- 82,5% dos brasileiros têm abastecimento de água tratada: há mais de 35 milhões de brasileiros sem acesso a esse serviço básico 

● 48,6% da população têm acesso à coleta de esgoto: mais de 100 milhões de brasileiros não têm acesso a esse serviço

● Doenças relacionadas à falta de saneamento básico: febre tifoide - cólera - leptospirose - disenteria bacteriana - parasitoides - hepatite A - amebíase - giardíase - agravamento de epidemias: zika e dengue.

☛ Economia -- O legado econômico de Dilma (Revista Congresso em Foco)

● Desemprego chega a 11,2% no trimestre e atinge 11,4 milhões de pessoas

☛ Petrobras -- tornou-se modelo, foco e referência da avassaladora corrupção petista, com ajudas pontuais do PMDB. A posse da empresa pelo PT foi tão completa e devastadora, que acabou consagrando o slogan "O petróleo é nosso, mas a Petrobras é do PT". Os números são contundentes:

● As ações preferenciais da empresa caíram de R$ 22,11 em maio de 2011 para R$ 8,04 em maio de 2015, uma perda de 64% -- houve recuperação em 2016 (20%), mas ainda distante das máximas atingidas na passagem de 2007 para 2008, quando o preço das ações chegou a superar R$ 33.  O valor de mercado (preço que o mercado está disposto a pagar pela empresa), que chegou a atingir R$ 510,3 bilhões em 2008, caiu abaixo de R$ 100 bilhões no ano passado, retornando para o patamar de R$ 120 bilhões no fechamento de maio, segundo dados da Economatica.

A Petrobras encolheu 85,5% em valor de mercado (a soma do valor das ações da empresa) ou R$ 436,6 bilhões desde o pico histórico da estatal na bolsa de valores em 2008, segundo levantamento da Economatica, provedora de informações financeiras. A máxima histórica foi registrada no dia 21 de maio de 2008, quando a estatal atingiu na Bovespa valor de mercado de R$ 510,3 bilhões. Já no fechamento em 18 de janeiro de 2016, após as ações caírem pela primeira vez em 12 anos abaixo de R$ 5, levando a cotação do papel ao menor patamar desde novembro de 2003, a petroleira foi avaliada em R$ 73,7 bilhões.

● Dívida alta -- o endividamento líquido da Petrobras passou de um patamar de R$ 100 bilhões no final de 2011 para mais de R$ 390 bilhões no final de 2015. Segundo o último balanço da companhia, o valor recuou para R$ 369,5 bilhões no final de março, sendo que R$ 62 bilhões referem-se à dívida de curto prazo. A dívida bruta da Petrobras atingiu no 3º trimestre de 2015 o nível recorde de R$ 506,5 bilhões, o que levou a companhia a perder o grau de investimento (selo de bom pagador) e a ganhar o título de petroleira mais endividada do mundo e a 2ª empresa de capital aberto mais endividada da América Latina e Estados Unidos. O endividamento bruto, entretanto, recuou, passando para R$ 492,849 bilhões no final de 2015, e para R$ 450,015 bilhões no final de março deste ano.

● Prejuízos seguidos -- A Petrobras acumula 3 trimestres seguidos de perdas. No 1° trimestre, a companhia reportou um prejuízo líquido de R$ 1,246 bilhão. Em 2015, a empresa registrou perda recorde de R$ 34,836 bilhões, superando o resultado negativo de R$ 21,587 bilhões de 2014. Com a sucessão de prejuízos, a companhia decidiu não pagar dividendos a acionistas referentes a 2014 e 2015. 

● Corte nos investimentos -- Em janeiro deste ano, a Petrobras reduziu em 24,5% o plano de investimentos para o período 2015-2019, para US$ 98,4 bilhões – queda de US$ 32 bilhões ante a projeção inicial de R$ 130,3 bilhões. No plano para 2014-2018, a companhia chegou a prever investimentos de US$ 220,6 bilhões. Para enfrentar a escalada da dívida, a estatal também anunciou um programa de desinvestimentos, que prevê vendas de ativos de mais de US$ 14 bilhões até o final do ano. No início de maio, a Petrobras anunciou que concluiu negociação para a venda de filiais que mantinha na Argentina e no Chile, em transação que deve levantar cerca de US$ 1,4 bilhão para o caixa da petroleira.

● Corte na meta de produção -- Em 2015, a produção média cresceu 4,6% frente ao ano anterior, para 2,128 milhões de barris por dia (bpd). Mas os cortes e ajustes nos investimentos obrigaram a estatal a rever suas projeções para os próximos anos. Em janeiro, a Petrobras reduziu a estimativa de produção de petróleo no Brasil de 2,185 milhões de barris por dia em 2016 para 2,145 milhões de bpd e de 2,8 milhões de bpd em 2020 para 2,7 milhões.

Ver também:

● O jeito petista de administrar a Petrobras (VIII) - O feirão da Petrobras

O que está descrito aí em cima é o retrato incompleto de uma empresa fantástica quebrada e destruída pela pela inacreditável ganância corruptora de um partido chamado PT.

☛ Segurança pública -- Brasil bate recorde no número de homicídios em 2014, segundo o Ipea (59.627 vítimas). Em média, um brasileiro é assassinado a cada 9 minutos.

☛ Educação -- em 2015, o Brasil ocupava a 60ª posição em ranking de educação da OCDE - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, numa lista de 76 países. Nosso país está entre os piores no ranking de conhecimentos básicos da OCDE.

☛ Saúde pública -- Segundo o Conselho Federal de Medicina, nada menos que 23.565 leitos exclusivos do Sistema Único de Saúde (SUS) deixaram de existir entre dezembro de 2010 e dezembro de 2015 – média de 13 leitos por dia. No mesmo período, a rede privada de leitos aumentou 2.210 (O Popular, 18/5). E as maiores reduções ocorreram em alguns dos setores em que a demanda é maior: redes de obstetrícia, psiquiatria, pediatria cirúrgica e cirurgia em geral. Na rede de 335,5 mil leitos, as maiores perdas aconteceram no Nordeste, onde são maiores as carências – lembrando que apenas 505 municípios brasileiros entre os 5.570 dispõem de UTIs.

O Sudeste e o Sul do País dispõem de 154 especialistas em várias áreas por 1 mil habitantes; o Norte, três vezes menos. No conjunto do País, são 119 por 1 mil; no Norte, 50; no Sul, 145; no Centro-Oeste, 134; no Nordeste, 68; no Distrito Federal, 275 (saúde.gov.br, 29/4). São números que evidenciam a desigualdade de atendimento por habitante, da mesma forma que os números nacionais por especialidade: 7 anestesiologistas por 1 mil; 6 obstetras por 1 mil; e 4,5 psiquiatras por 1 mil.

Numa lista de 55 países classificados por eficiência de seus sistemas de saúde em 2015, feita pela Bloomberg (a Bloomberg L.P. é uma empresa de tecnologia e dados para o mercado financeiro e agência de notícias operacional em todo o mundo, com sede em Nova York. Foi fundada em 1982 por Michael Bloomberg, ex-prefeito da cidade de Nova York de 2002 a 2013. A empresa emprega mais de 18.500 pessoas em todo o mundo, com escritórios em mais de 173 países), o Brasil ocupa o último lugar. Para sua avaliação a Bloomberg utilizou, entre outros, dados do Banco Mundial, da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do FMI.

Em 2015, apenas 22,6% das unidades de saúde do PAC 2 (Plano de Aceleração do Crescimento) foram entregues.

☛ Infraestrutura -- em 2015, apenas 34,7% das obras do PAC 2 em rodovias, ferrovias e hidrovias ficaram prontas.

☛ Energia elétrica -- em dezembro de 2015, o Brasil ocupava o 5° lugar entre os países de energia residencial mais cara no mundo (atrás de Canadá, Coreia do Sul, EUA e Turquia). Na tarifa industrial, o Brasil ficou em 9° lugar entre os mais caros.

Em abril deste ano, o Ilumina - Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético mostrou no artigo "Mais um vexame brasileiro" que o Brasil ocupava o 11° lugar entre os países com energia elétrica mais cara do planeta.

Dilma Rousseff comandou o setor energético brasileiro desde o primeiro dia do primeiro governo Lula. Capitaneou a montagem do programa de Lula para o setor, depois foi ministra de Minas e Energia e presidente do Conselho de Administração da Petrobras. Mas mesmo quando não ocupou cargos diretamente ligados ao setor, nada se fazia e se fez nele sem sua aprovação. Assim como contribuiu direta e fortemente para a quebra da Petrobras, Dilma destruiu também a Eletrobras. Os desmandos de Dilma Rousseff colocaram a maior empresa de energia da América Latina em situação dramática. Nos últimos dois anos, a estatal acumulou prejuízo de R$ 18 bilhões e o endividamento superou os R$ 40 bilhões. 

Ver também:

● Rombo bilionário na Eletrobras é outra proeza do monumento de incompetência e irresponsabilidade chamado Dilma NPS

● Delenda Eletrobras

O quadro geral resumido acima é ainda um pálido retrato do imenso mal que os quase 14 anos de governo petista causaram ao país.







terça-feira, 26 de julho de 2016

Manchetes internacionais sobre os Jogos Olímpicos do Rio

Vamos dar uma olhada nas manchetes da imprensa internacional sobre as Olimpíadas no Rio. Observa-se que dois temas esculhambaram muito a imagem do Brasil: o caos nos apartamentos da Vila Olímpica e a poluição da Baía da Guanabara.

☛ Jogos Olímpicos Rio 2016: problemas da vila dos atletas australianos começam a ser atacados -- BBC (Reino Unido)

☛ Os polêmicos painéis que ocultam as favelas para os Jogos Olímpicos Rio 2016 -- BBC Mundo (em espanhol)

☛ Já tendo fracassado, os Jogos Olímpicos do Rio podem agora ser bem sucedidos -- Financial Times

☛ Na Vila pode-se viver -- (opinião da delegação espanhola) -- El País (Espanha)

☛ Especial para os Jogos Olímpicos: um guia para não se perder no Rio de Janeiro -- El Mundo (Espanha)

☛ Jogos Olímpicos: Contaminação na Baía da Guanabara -- Perigo em águas abertas: especialistas aconselham que se mantenha a boca fechada -- El Mundo (Espanha)

☛ Dura advertência do New York Times, a 10 dias da Rio 2016: "Os atletas nadarão literalmente em merda humana" -- La Nación (Argentina)

☛ Serão distribuídas 450.000 camisinhas na Vila Olímpica -- Clarín (Argentina)

☛ Nadarão em merda humana -- El País (Uruguai)

☛ Quanto custarão os Jogos Olímpicos Rio 2016? -- El País (Uruguai)

☛ A violência põe em xeque os Jogos Olímpicos -- El País (Uruguai)

☛ Rio 2016: delegação de Belarus classifica como "anti-higiênicas" as condições na Vila Olímpica -- The Independent (Reino Unido)

☛ Corpo mutilado aparece em praia em que haverá jogos de vôlei nas Olimpíadas do Rio -- The Guardian (Reino Unido)

☛ Metade dos brasileiros é contra os Jogos Olímpicos -- Le Figaro (França)

☛ Jogos Olímpicos do Rio: nem Lula nem Dilma participarão da cerimônia de abertura -- Le Monde (França)

☛ Corrida contra o relógio no Rio para terminar a Vila dos Jogos -- Libération (França)

☛ Atletas portugueses encontram apartamentos sujos e sem água -- Diário de Notícias (Portugal)

☛ Atletas da Suécia recusam Aldeia Olímpica como está -- Diário de Notícias (Portugal)

☛ Comitiva portuguesa, por enquanto, sem queixas da Aldeia Olímpica -- Público (Portugal)

☛ Ativistas lançam campanha contra turismo sexual durante Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro -- Observador (Portugal)

☛ Olimpíadas do Rio 2016: eletricistas e bombeiros hidráulicos, os primeiros heróis dos Jogos -- Corriere della Sera (Itália)

☛ "A Vila é inabitável". E a Austrália bate a porta -- Corriere della Sera (Itália)

☛ Apenas 12 dos 31 prédios da Vila Olímpica do Rio tiveram suas instalações aprovadas -- The Washington Post (EUA)

☛ Traficantes de drogas do Rio aproveitam a febre das Olimpíadas usando pacotes criativos de cocaína -- The Washington Post (EUA)

☛ Logomarca das Olimpíadas é usada por traficantes de cocaína em bairro festivo do Rio -- Bloomberg (EUA)

☛ Sanitários com vazamento se somam aos problemas orçamentários da Rio 2016 -- Bloomberg (EUA)

☛ Ainda há muito, mas muito cocô na água das Olimpíadas do Rio -- The Washington Post (EUA)

☛ Vila Olímpica do Rio enfrenta problemas em suas instalações -- The Wall Street Journal (EUA)

☛ Alojamentos de atletas nas Olimpíadas do Rio: sanitários entupidos, vazamentos nas tubulações e fiação exposta -- The New York Times (EUA)

☛ Mantenha sua boca fechada: atletas olímpicos aquáticos enfrentarão um ensopado tóxico no Rio -- The New York Times (EUA)

☛ Empresa de camisinhas encontra um jeito novo de promover seu produto nas Olimpíadas do Rio -- The Globe and Mail (Canadá)

☛ Delegação de Belarus diz que Vila Olímpica é anti-higiênica -- The Globe and Mail (Canadá)

☛ Olimpíadas do Rio: o esporte internacional é que está em risco, não a Rússia -- Pravda (Rússia)

☛ Australianos declaram alojamentos olímpicos inabitáveis -- Die Zeit (Alemanha)

☛ Vila Olímpica "inabitável" -- Frankfurter Allgemeine (Alemanha)

☛ Duas semanas antes do início dos Jogos: condições deploráveis na Vila Olímpica? -- Frankfurter Allgemeine (Alemanha)

☛ Equipe olímpica  de atletas refugiados será o "símbolo da esperança" -- New Arab (Oriente Médio)




terça-feira, 5 de julho de 2016

Um segundo referendo seria possível, diz ex-Procurador-Geral britânico

[Quando começaram as reações contra a decisão pelo Brexit no Reino Unido (RU), principalmente em Londres, na Escócia e na Irlanda, que votaram maciçamente contra a saída da União Europeia (UE), o primeiro-ministro David Cameron descartou a hipótese de um novo referendo sobre o assunto. Já há mais de 1 milhão de pessoas desejando um novo referendo e pela legislação britânica o Parlamento é obrigado a discutir qualquer petição pública com mais de 100 mil assinantes. O impressionante é que esse contingente é de pessoas que votaram pela saída da União Europeia e agora estão arrependidos!  Agora surge uma voz de peso quanto à possibilidade de um novo referendo, na pessoa do ex-Procurador-Geral britânico Dominic Grieve. Traduzo a seguir a reportagem de Jon Stone publicada no The Independent. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.] 

Dominic Grieve disse que era possível que a 'opinião pública tivesse alterado sua posição sobre o assunto' - (Foto: PA) 

Um segundo referendo sobre a UE pode ser justificado, se ficar claro que a opinião pública mudou fortemente e se posicionou contra o Brexit, disse o ex-Procurador-Geral. 

Dominic Grieve, um parlamentar conservador que foi o principal assessor legal do governo até 2014, disse que o resultado do primeiro referendo tinha que ser "tratado com respeito" mas não era necessariamente pétreo. 

Em correspondência vista e de veracidade confirmada pelo The Independent, Grieve diz a um eleitor que o resultado do primeiro referendo não pode ser ignorado, mas um segundo referendo pode tornar-se democraticamente justificável. 

"Temos que aceitar ... que o resultado do referendo representa, no momento em que foi obtido, um comunicado claro de uma visão majoritária de que devemos sair da UE", escreveu ele. "Em uma democracia um tal resultado não pode ser simplesmente ignorado. O governo e o parlamento têm que tratá-lo com respeito. É obviamente possível que com a passagem do tempo fique visível que a opinião pública mudou em relação ao tema. Se assim ocorrer, um segundo referendo pode ser justificado". 

Grieve repeliu também as alegações de que os defensores da UE não deveriam expor suas opiniões e criticar o resultado do referendo, argumentando que numa sociedade livre as pessoas devem poder de discordar da maioria. Ele disse que mantinha seu apoio às pessoas que se moviam contra o Brexit, tendo ficado "profundamente apreensivo" com o resultado da votação.  

"Não tenho dúvida de que a campanha de que o Sr. participa e outras formas de manifestação que agora estão ocorrendo podem contribuir de maneira positiva para um debate maior e o encorajo a não desistir", escreveu Grieve. 

"Em uma sociedade livre não há exigências sobre nós para que mudemos nossa opinião só porque uma maioria corrente discorda dela. A minha opinião permanece a mesma e continuarei a argumentar por aquilo que considero certo e no melhor dos nossos interesses". 

Grieve confirmou ao The Independent que a correspondência era verdadeira. 

Os comentários do parlamentar ocorreram depois que uma pesquisa sinalizou que 1,2 milhão de votantes pro-Brexit se arrependeram de seu voto. A pesquisa feita pela Opinium, que previu corretamente o resultado do referendo, verificou que cerca de 7% das pessoas que votaram pelo Brexit agora se arrependem disso. Essa pesquisa foi realizada depois que foram amplamente divulgados informes da mídia humorística mostrando pessoas dizendo que votaram pela saída da UE como um protesto -- e agora estavam arrependidas por terem feito isso. 

Na semana passada, o parlamentar trabalhista Geraint Davies apresentou uma moção propondo que se fizesse um referendo sobre se houve ou não progresso na negociação de qualquer pacote do Brexit. Grieve não assinou a moção.

O referendo sobre a UE foi realizado no dia 23, com 52% dos votantes optando por sair da UE e 48% optando por ficar. Entretanto, o referendo foi estruturado de tal maneira que o arranjo que o RU obteria fora da UE não era conhecido. Políticos e ativistas discordam entre si quanto ao RU manter sua liberdade de movimento com o continente, e se continuará a ter acesso ao mercado único [se tal referendo sem avaliação de opções e consequências fosse feito num país do terceiro mundo -- o Brasil, por exemplo -- os britânicos e o resto do primeiro mundo nos chamariam de irresponsáveis e inconsequentes].

Há discordância também em relação ao quão rápido deverá ser invocado o Artigo 50 [do Tratado de Lisboa --  inicialmente conhecido como o Tratado Reformador, é um tratado que foi assinado pelos Estados-membros da União Europeia (UE) em 13 de dezembro de 2007, e que reformou o funcionamento da União em 1 de dezembro de 2009, quando entrou em vigor. Ele emenda o Tratado da União Europeia (TUE, Maastricht; 1992) e o Tratado que estabelece a Comunidade Europeia (TCE, Roma; 1957]. Neste processo, o TCE foi renomeado para Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE).], dando início formal ao Brexit.

O Partido Trabalhista e o Ukip [Partido Independente do RU] disseram que os manifestos das eleições gerais de 2015 não incluíam nenhum plano sobre como sair da União Europeia, e que uma eleição geral daria a um governo novo um mandato para o Brexit. Os candidatos que lideram dos conservadores para uma eleição geral sinalizarão que não querem tal eleição imediatamente.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O futuro da Europa: os britânicos estão saindo dela, e daí?

[Traduzo a seguir um artigo de Christoph Schult publicado no site Spiegel Online International. Continua a celeuma em torno da saída do Reino Unido da União Europeia. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Defensores do Brexit em Londres - (Foto: DPA)

As consequências do Brexit serão penosas para o Reino Unido, mas para a União Europeia há vantagens de sobra.

Os britânicos não são os únicos que deixaram suas emoções superarem a razão ao refletirem sobre sua atormentada relação com a Europa. A Alemanha tem sido também superemocional quanto ao significado do Brexit, com a revista Spiegel pedindo [aos britânicos] "Por favor, não saiam" e o jornal sensacionalista Bild chegando a oferecer que reconheceria o controvertido gol da Copa do Mundo de 1966 em Wembley se o RU (Reino Unido) permanecesse na UE (União Europeia) [A final da Copa do Mundo FIFA de 1966 foi disputada pela Inglaterra, que havia eliminado Portugal e a Argentina, e a Alemanha Ocidental, que eliminara a União Soviética e o Uruguai. Ao final dos 90 minutos, o placar era de 2 a 2. Aos 98 minutos, Hurst marcou novamente; entretanto seu chute bateu no travessão e quicou exatamente sobre a linha. Desde então, se debate se a bola realmente passou a linha.] 

Em um editorial que escrevi há duas semanas [o presente artigo é datado de 26 de junho, três dias após o referendo], sugeri que se reagisse a toda a histeria relativa ao Brexit dizendo-se calmamente aos britânicos: "Então simplesmente saiam". Muitos me perguntaram se falava sério. Sim, eu falava. E não, não estou abrindo garrafas de champagne porque a maioria dos britânicos decidiu virar as costas para a UE.

Este não é um assunto para emoções, mas uma avaliação sensata das reais implicações do Brexit. Ao final, pesando tudo, as consequências serão dramáticas para o RU. Mas, do ponto de vista dos 27 países remanescentes, a retirada britânica oferece mais oportunidades do que desvantagens. 

Isso se aplica ao suposto efeito dominó, sobre o qual os políticos europeus começaram a alertar imediatamente após o referendo do RU. Mesmo que populistas de direita como o político holandês Geert Wilders e Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional da França, postulassem com êxito seus próprios votos sobre a participação na UE, é improvável que uma maioria de seus compatriotas decidisse também deixar o bloco. O fluxo firme de más notícias vindo do RU nas próximas semanas se encarregará disso. 

Sinais de alerta

A queda da libra esterlina é o primeiro sinal de alerta, e em breve ouviremos sobre grandes corporações deslocando suas sedes para fora de Londres e mudando-se para lugares como Frankfurt. Se os britânicos optarem pelo modelo norueguês, continuarão a pagar bilhões em contribuições à UE sem direito a opinar sobre a formatação das regras do mercado único. É duvidoso que isto aumentará o apelo para que outros países saiam do bloco. Obviamente, isto pressupõe que os negociadores da UE jogarão duro contra Londres como prometeram. [O 'modelo norueguês' de adesão à UE refere-se ao fato da Noruega receber muitos dos benefícios como se membro pleno fosse da UE -- essencialmente, acesso ao mercado comum europeu -- sem o mesmo grau de "interferência" de Bruxelas. Mas, euroentusiastas contra-argumentam que por outro lado a Noruega também deixa de receber benefícios importantes mesmo fazendo ainda contribuições financeiras substanciais ao bloco. Para mais detalhes sobre o modelo norueguês e seu eventual uso pelo RU, veja aqui.] 

Um segundo benefício é que os britânicos não podem mais bloquear leis quando os europeus decidirem se unir em áreas nas quais são mais fortes quando atuando em conjunto. A união econômica será finalmente compelida a se tornar realidade, de modo que decisões nacionais não possam mais prejudicar a moeda comum. A eurozona precisa de uma governança econômica unificada e de um ministro de finanças europeu no comando de um orçamento independente. 

O primeiro-ministro britânico David Cameron e sua esposa Samantha logo após o anúncio de sua renúncia na sexta-feira - (Foto: DPA)

O mesmo raciocínio se aplica à política externa e à política de segurança. Uma sede central permanente e compartilhada se faz necessária para missões militares cada vez mais importantes da UE em lugares como Mali e o Mediterrâneo -- algo que todos os países da UE querem, exceto o RU, que bloqueou essa iniciativa. E quando se trata de política externa, há tempo que deveriam ser permitidas decisões por maioria de votos, que de longa data têm sido costumeiras no bloco em temas como política ambiental. Além disso, a crise dos refugiados mostrou que se faz necessária uma real força europeia de controle de fronteiras, assim como uma lei uniforme para concessão de asilo e uma distribuição justa de refugiados.  

Talvez vantajoso

Críticos objetarão que não foram apenas os britânicos que bloquearam a quota de refugiados. Isto é verdade, mas se um grupo seleto de nações decidir em favor de uma  cooperação mais forte, isto é ao mesmo tempo legalmente possível e talvez até vantajoso. O euro e a área Schengen também começaram menores, mas ambos cresceram quando mais estados quiseram ao final se juntar ao bloco.

"Mais Europa", obviamente, não é sempre a melhor abordagem. Faria sentido devolver aos estados membros alguns dos poderes que Bruxelas hoje tem. A política agrícola comum, por exemplo, tem sido durante décadas nada mais do que uma gigantesca máquina de redistribuição de dinheiro sem nenhum benefício visível acrescentado à Europa.

É uma ironia da história que, mesmo se os britânicos não obtenham o acordo que o primeiro-ministro David Cameron negociou com os outros líderes europeus, os 27 países remanescentes possam ainda implementar alguns de suas provisões. Por exemplo, um trabalhador romeno na Alemanha, cujos filhos vivem ainda na Romênia, provavelmente não terá direito aos generosos benefícios alemães para crianças.

Essa abordagem certamente ajudará a tornar a Europa novamente mais atrativa para muitos de seus cidadãos. E, quem sabe, talvez alguns britânicos logo se arrependerão de ter votado pela saída da UE em 23 de junho de 2016.




sexta-feira, 1 de abril de 2016

Na União Europeia, cada país com sua própria crise

[Duas crises enormes , ambas ainda em desenvolvimento, uma financeira e outra humanitária, escancararam a fragilidade e os erros de planejamento e estruturação/organização da União Europeia (UE). A crise dos refugiados tem tudo para ser a pá de cal nesse aglomerado de países, equivocadamente chamado de "união". Traduzo a seguir artigo de Paul Taylor no International New York Times, na edição impressa de 01 de março corrente. A versão virtual só está disponível para assinantes. Ver postagem anterior sobre a crise dos refugiados na UE.]

Não é de surpreender que a União Europeia não consiga encontrar soluções comuns (comunitárias) para os problemas urgentes da Europa, no momento em que seus principais membros estão tendo conversações nacionais diferentes. Assim como a bíblica Torre de Babel, a ambiciosa construção da Europa corre o risco de desmoronar porque seus povos não estão falando  a mesma língua política.

Sintonize na Alemanha, e o debate violento se resume a como lidar com o influxo de milhões de emigrantes, se se deve limitar esses números e, em alguns grupos, como interromper sua chegada. Mude para a França, e você escutará uma nação que acha que está em guerra, vivendo em um estado de emergência e em choque após ataques de militantes islamitas em novembro, que mataram 130 pessoas em Paris.

Vire rapidamente para o Reino Unido, e a conversa se concentra em soberania nacional e uma possível "Brexit" [saída do país da UE], em fase de  construção para um referendo em junho, que poderá encerrar a esquizofrênica participação do país na UE. Olhe para o leste, para a Polônia, onde as pessoas estão discutindo sobre as novas medidas do governo para controlar a mídia e a corte suprema, sobre quem pode ter sido um informante comunista 40 anos atrás e sobre a perceptível ameaça russa hoje para a Europa Oriental.

No entorno da Europa central, a discussão se concentra em como resistir à pressão alemã para acolher uma quota de refugiados. Vire para o sul, e verá italianos e portugueses absorvidos por debates com enfoque doméstico sobre como reativar o crescimento econômico a despeito das limitações orçamentárias da UE enquanto esta resolve os problemas da união. A Espanha, enquanto isso, está ocupada com a paralisia política, com o separatismo da Catalunha e uma divisão do país.

Quando os líderes desses países vão a Bruxelas, frequentemente não conseguem nem mesmo acordar sobre o que deveriam estar discutindo. Nas duas últimas reuniões de cúpula da UE, o Reino Unido queria que o foco fosse sobre suas demandas para uma renegociação dos termos de sua participação na UE, para dar ao primeiro-ministro David Cameron um "novo acordo ou arranjo" que ele pudesse vender ao país em um referendo em 23 de junho vindouro sobre a permanência ou não do Reino Unido no bloco europeu.

Ele conseguiu garantir um acordo em 19 de fevereiro passado, mas muitos de seus companheiros de liderança ficaram frustrados por ter de perder tempo no que vêem como temas secundários e formulações retóricas, enquanto sua casa está pegando fogo.

A chanceler alemã, Angela Merkel, lutando por sua sobrevivência política contra críticas domésticas à sua política de portas abertas para refugiados, queria que a UE se concentrasse em medidas urgentes para garantir as fronteiras externas da Europa, registrar os emigrantes, mandar de volta para casa aqueles que tiveram seus pedidos de asilo negados e distribuir os refugiados entre os países do bloco. Desesperada para encontrar uma "solução europeia" comum para a crise migratória, ela forçou ainda a realização de outra reunião de líderes europeus com a Turquia dias antes de  três eleições regionais alemãs, nas quais a direita anti-imigração poderia ter grandes ganhos.

O presidente da França, François Hollande, por seu lado, vai a Bruxelas à procura de mais cooperação contra o terrorismo e apoio para ação militar contra as forças do Estado Islâmico na Síria e na Líbia. Seu primeiro-ministro, Manuel Valls, irritou as autoridades alemãs ao usar uma viagem à Conferência sobre Segurança em Munique para criticar as boas-vindas de Merkel aos refugiados e declarar que a Europe não podia mais aceitar nenhum emigrante.

Diferentemente de outras crises europeias passadas, nas quais as discordâncias podiam ser postergadas ou fatiadas como um salame em passos graduais que transformavam uma disputa política em um processo tecnocrático, não existe nenhum caminho óbvio para retardar ou amenizar o tema da emigração. Os acontecimentos em terra estão se movendo mais rápido do que a capacidade da UE para administrá-los. Governos ao longo das rotas principais de emigração nos Bálcãs orientais, sob a pressão de forças populistas, estão recorrendo a soluções do tipo empobreça/esgote seu vizinho.

A Áustria, um país crucial como via de trânsito, impôs unilateralmente em meados de fevereiro limites diários às entradas de emigrantes e ao número de pedidos de asilo. Como sinal da decrescente autoridade de Bruxelas e de Berlim, a Áustria reuniu em fins de fevereiro 10 países centro-europeus e dos Bálcãs -- uma reunião sem a Alemanha e sem aGrécia, os principais pontos de entrada dos emigrantes -- para coordenarem medidas nacionais para bloquear o fluxo de emigrantes rumo ao norte.

Como navios carregados de emigrantes desafiam os mares no inverno para deslocar-se a partir da Turquia, aquele bloqueio está rapidamente transformando a Grécia, o país economicamente mais enfraquecido da UE, num gigantesco campo de refugiados. O primeiro-ministro Alexis Tsipras alertou que seu país não se transformará em um "depósito de almas", e que retardará outros negócios europeus se os parceiros de Atenas não compartilharem com os gregos aquela carga.

Os países da União Europeia ignoraram em grande escala as quotas de refugiados que haviam acordado em absorver no ano passado, e a Hungria planeja agora um referendo sobre se deve ou não aceitar qualquer refugiado a mais. Reino Unido e França mantêm suas cabeças baixas, em vez de ajudar Angela Merkel, o líder mais experiente e respeitado da Europa.

David Cameron já não aceitará nenhum refugiado vindo da Europa, com medo de que a hostilidade pública a emigrantes possa  lhe custar o referendo. François Hollande também receia que dar gás à populista de extrema direita Marine Le Pen se ele oferecer mais apoio a Berlim.

Exceptuando-se uma improvável interrupção de chegadas de refugiados vindos da Turquia nas  próximas semanas, o próximo passo mais provável é que a zona Schengen de livre trânsito entre os 26 países da UE seja oficialmente suspensa por dois anos para prevenir um colapso desordenado. Uma conquista importante de cooperação e de  união num continente marcado durante séculos por cicatrizes de guerras será posta em coma induzido, para impedir que ela morra imediatamente. O resultado mais provável é que se formarão longas filas nas fronteiras, que quase desapareceram duas décadas atrás.

Nesse ponto, a Alemanha, com ou sem Angela Merkel, provavelmente terá de impor seus próprios controles contra novos imigrantes. Enquanto as  lideranças fracas e divididas da Europa permanecem distraídas com debates internos, a união que forneceu a estrutura para prosperidade depois da Segunda Guerra Mundial começará a desmoronar.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Atrito diplomático com Israel: Brasil veta colono nomeado embaixador por Netanyahu

[Aleluia! Surge pelo menos uma atitude coerente de Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saia): ela vetou o embaixador designado por Israel para representá-lo no Brasil. A indicação feita por Israel foi no mínimo uma provocação conosco: Dani Dayan, nomeado por Netanyahu, foi líder dos colonos que ocupam terrenos contestados na Cisjordânia (ele próprio reside lá) e presidiu por sete anos a organização de conselhos municipais de assentamentos na Margem Ocidental, que se opõe à criação de um Estado palestino. O Brasil reconheceu o Estado Palestino em 2010. Em sua viagem de três dias ao Oriente Médio em maio de 2014, o Papa rezou na barreira de concreto que Israel construiu dentro e à volta da Margem Esquerda.

A reportagem do site em português do jornal El País, reproduzida a seguir, é de Juan Carlos Sanz.]

A presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, transmitiu por canais diplomáticos sua rejeição à nomeação de Dani Dayan como novo embaixador de Israel em Brasília. A mandatária advertiu o Governo de Benjamin Netanyahu que negará a oficialização caso insista em manter sua designação, já que Dayan reside num assentamento judaico na Cisjordânia e foi dirigente da principal organização dos colonos, que se opõe à criação de um Estado palestino. 

O Ministério de Relações Exteriores de Israel, cujo titular é o próprio Netanyahu, confirmou no último dia 6 a nomeação de Dayan, nascido na Argentina há 59 anos, como embaixador em Brasília. A vice-ministra de Relações Exteriores, Tzipi Hotoveli, defendeu nesta segunda-feira a idoneidade do ex-dirigente dos colonos para o cargo diplomático. “Sua trajetória pública e sua ideologia devem ser uma vantagem, e não uma desvantagem para representar a postura do atual Governo, que apoia nosso direito a assentamentos na Judeia e Samaria [Cisjordânia]”, afirma Hotovely em comunicado citado pela agência EFE.

Mais de 40 organizações brasileiras e vários deputados questionaram o novo enviado de Israel, por simbolizar a ocupação do território palestino que o Brasil não reconhece como israelense. Setores da sociedade israelense também criticaram a nomeação de Dayan. O diplomata Alon Liel, ex-diretor geral no Ministério de Relações Exteriores, justificou na terça sua oposição à designação em declarações à emissora de rádio do Exército. “Em Israel, criou-se quase um consenso de que caminhamos rumo a um Estado único binacional, enquanto no resto do mundo há um claro consenso de que deve haver dois Estados [um israelense e outro palestino]”, argumentou.

Dayan, que entre 2007 e 2013 dirigiu o conselho que agrupa os assentamentos na Cisjordânia, faz parte do partido ultranacionalista Lar Judaico, peça-chave da coalizão liderada por Netanyahu. O principal reduto de votos dessa força política são as colônias dos territórios ocupados, onde vivem 550.000 pessoas, levando-se em conta os assentados de Jerusalém Oriental.


As relações entre o Brasil e Israel pioraram durante os Governos do Partido dos Trabalhadores (PT), que condenaram a violação do direito internacional representada pela ocupação israelense dos territórios palestinos. O Brasil retirou seu embaixador de Israel durante a guerra de Gaza de 2014.
“Israel está centrado no desenvolvimento de relações econômicas com os mercados da América do Sul, com ênfase no Brasil”, disse o primeiro-ministro ao anunciar a nomeação de Dayan em agosto passado. A comunidade judaica brasileira tem entre 100.000 a 120.000 membros, e milhões de cristãos evangélicos brasileiros mostram grande simpatia pelo Estado de Israel, como acontece com os dos EUA.

Dany Dayan, indicado por Israel para ser seu embaixador no Brasil - (Foto: Moti Milrod/Fonte: Haaretz)