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domingo, 22 de janeiro de 2017

Os migrantes contribuem com cerca de 10% da riqueza mundial

[A crise dos refugiados árabes e islâmicos em geral na Europa gerou uma discriminação injusta e cruel contra os imigrantes não só dessa onda, mas também contra os imigrantes em geral e estimulou o ressurgimento assustador de xenofobias e de ultranacionalismos de direita, empurrando a parte mais rica do mundo em termos econômicos e culturais para situações de confronto de dimensões e consequências imprevisíveis (ver postagem anterior). Hipocritamente, os críticos ferrenhos aos refugiados e imigrantes em geral estão usando essa crise dos refugiados -- que são migrantes forçados e não voluntários -- para atacar as imigrações em geral, omitindo os benefícios econômicos,  científicos e culturais que historicamente os estrangeiros imigrantes têm trazidos para os países que os acolhem. 

Vejamos alguns dados importantes sobre a migração em escala mundial, publicados pelo Banco Mundial em seu relatório de referência Migrants and Remittances Factbook 2016 (3rd edition) (Fatos sobre Migrantes e Remessas, 2016).

  • Mais de 247 milhões de pessoas, ou 3,4% da população mundial, vivem fora de seus países de origem. 
  • O principal destino das migrações são os Estados Unidos, seguidos por Arábia Saudita, Alemanha, Federação Russa, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido, França, Canadá, Espanha e Austrália. 
  • De acordo com os dados oficiais disponíveis, a via México-Estados Unidos é o maior corredor de migração no mundo com o registro de 13 milhões de migrantes em 2013. Os próximos maiores  corredores são Rússia-Ucrânia, Bangladesh-Índia e Ucrânia-Rússia.
  • Países menores tendem a ter as taxas mas alta de emigrações qualificadas. Perto de 93% das pessoas altamente qualificadas da Guiana viviam fora do país, vindo em seguida o Haiti (com 75,1%), Trindade e Tobago (68,2%) e Barbados (66,2%).
  • Excluindo os refugiados da Margem Esquerda (Palestina) e da Faixa de Gaza, no Oriente Médio, o número de refugiados em 2014 era de 14,4 milhões. Cerca de 86% dos refugiados são acolhidos por países em desenvolvimento. Turquia, Paquistão, Líbano, Irã, Etiópia, Jordânia, Quênia, Chade e Uganda são os maiores países anfitriões desse universo de pessoas. 
  • Em 2015, estima-se que os fluxos de remessa financeira globais excederam os US$ 601 bilhões. Deste montante, calcula-se que os países em desenvolvimento receberam cerca de US$ 441 bilhões, quase três vezes o montante da assistência oficial para seu desenvolvimento. O valor real das remessas, incluindo fluxos não registrados através de canais formais e informais, é estimado ser significativamente maior.
  • Em 2015, os principais países destinatários de remessas formais, registradas, foram Índia, China, Filipinas, México e França. Entretanto, como parcela de seu PIB, países menores foram os maiores destinatários: Tajiquistão (42%), Quirguistão (30%), Nepal (29%), Tonga (28%) e Moldávia (26%).
  • Países de altas rendas são as principais fontes das  remessas. Os Estados Unidos são, de longe, a maior delas, com a saída registrada de estimados US$ 56,3 bilhões em 2014. Em seguida vêm Arábia Saudita, Rússia, Suíça, Alemanha, Emirados Árabes Unidos e Kuwait. Os seis países do Conselho de Cooperação do Golfo (Omã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Qatar, Bahrein e Kuwait) foram responsáveis por US$ 98 bilhões de remessas para o exterior em 2014. 
A reportagem que traduzo a seguir, de Jean-Pierre Robin publicada no Le Figaro joga o devido foco na contribuição das migrações para a  riqueza mundial, com base em estudo feito pela McKinsey].

Os migrantes contribuem com cerca de 10% da riqueza mundial

Jean-Pierre Robin -- Le Figaro, 22/12/2016

As remessas financeiras de imigrantes para suas famílias totalizaram 580 bilhões de dólares em 2014. Na foto, serviço para transferências de dinheiro em Nova Iorque - (Foto: SIPANY/SIPA/SIPA)

Em comemoração pelo seu 25° aniversário, o Instituto Global McKinsey, cuja missão é analisar as  questões de produtividade, publicou um relatório sobre os migrantes e seu impacto na economia mundial. Ao tempo em que compõem hoje um grupo de cerca de 247 milhões de pessoas (que têm uma profissão, assim como suas famílias), ou seja 3,4% da população mundial, os migrantes contribuem com o montante de 9,4% do PIB mundial (algo como 6.700 bilhões de dólares, o equivalente à soma dos PIBs do Japão e da França).

"A despeito das inquietudes e das controvérsias que as cercam, as migrações transfronteiriças são o resultado normal de um mundo mais interconectado e de um mercado de trabalho mundial", observa o estudo, que se apresenta como uma defesa e ilustração dos fenômenos migratórios. A McKinsey estabelece desde o início a distinção entre "migrantes voluntários" (fala-se às vezes de migrantes econômicos), que constituem 90% do total, e os outros (10% , cerca de 25 milhões de pessoas) refugiados ou solicitantes de asilo. O pessoal das empresas multinacionais e os expatriados são migrantes, mas não os trabalhadores que se deslocam diariamente de uma fronteira para outra. Isso porque, por definição, "o migrante vive em um país onde não nasceu", o que exclui igualmente os imigrados de segunda ou terceira geração.

Da campanha eleitoral de Donald Trump, que propunha levantar um muro entre o México e os Estados Unidos, à guerra na Síria e aos emigrados africanos clandestinos, que enfrentam os riscos e perigos da travessia do Mediterrâneo, a polêmica só faz crescer. Incontestavelmente, os Estados Unidos são o primeiro destino dos migrantes (47 milhões), ainda que a União Europeia (mais a Suíça e a Noruega) constituam o principal território de acolhimento (58 milhões), esta cifra incluindo as migrações intraeuropeias. Hoje, os imigrantes representam 15% da população total dos Estados Unidos, 13% na Europa Ocidental e 48% nos países do Golfe árabe.

De um ponto de vista estritamente econômico os migrantes, e não unicamente as pessoas altamente qualificadas, são mais produtivos quando fora de seus países. Eles aportam cerca de "3 .000 bilhões de dólares a mais do que se ficassem em seus países de origem". Somente para a economia americana o aporte dos imigrantes é essencial, da  ordem de 2.500 bilhões de dólares, uma cifra considerável que equivale ao PIB da França e sobra a qual Donald Trump será levado a meditar.

Salários inferiores

Um estudo recente do Birô Nacional de Pesquisa Econômica [EUA] assinalava aliás que mais da metade dos PhD (os doutores em ciências) que trabalhavam nos setores dos Stem [acrônimo inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemáticas] eram imigrantes (trabalhando nos EUA sem ali terem nascido).

Da mesma forma, o aporte financeiro dos emigrantes para o desenvolvimento dos países onde nasceram é essencial. A McKinsey lembra que as remessas financeiras feitas pelo emigrantes às suas famílias totalizaram 580 bilhões em 2014. Tais remessas tornaram-se a principal forma de ajuda ao desenvolvimento, longe à frente da ajuda pública para esse fim. Esses fluxos financeiros são consideráveis para a Índia (70 bilhões de dólares em remessas), para a China (62 bilhões) e para as Filipinas (28 bilhões).

Outra questão muito debatida: "numerosos estudos acadêmicos têm demonstrado que a imigração não prejudica o emprego ou os salários dos autóctones", esclarece o estudo da McKinsey. Mesmo que ela possa ter efeitos negativos, que se observe um grande fluxo migratório numa região específica, que os imigrantes sejam substitutos diretos dos trabalhadores nacionais e que a economia do país de destino esteja em recessão. Por outro lado, os salários dos imigrantes são em compensação são de 20% a 30% inferiores às remunerações aos trabalhadores locais de mesma qualificação.

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DETALHES DO RELATÓRIO DO INSTITUTO GLOBAL MCKINSEY

Impacto e conveniência da migração global

Jonathan Woetzel, Anu Magdavkar, Khaled Rifai, Frank Mattern, Jacques Bughin, James Manyika, Tarek Elsmary, Amadeo Di Lodovico e Ashwin Hasyagar -- Novembro, 2016

Migração tornou-se um tema explosivo de debate em muitos países, mas a pesquisa do Instituto Global McKinsey (IGM) conclui que ela gera benefícios econômicos significativos --e uma integração mais efetiva dos imigrantes pode aumentar esses benefícios.

A migração é uma característica determinante do nosso mundo crescentemente interconectado. Tornou-se um tema explosivo de debate em muitos países, o que enfatiza a importância de se entender os padrões da migração global e o impacto econômico que é criado quando pessoas se deslocam através das fronteiras do mundo.  Um relatório recente do Instituto Global McKinsey (IGM), People on the move: Global migration’s impact and opportunity (Pessoas em movimento: impacto e oportunidade da migração global, em tradução direta),  objetiva satisfazer essa necessidade.

Os refugiados podem ser a face da migração na mídia, mas 90% dos 247 milhões de migrantes do mundo cruzaram fronteiras voluntariamente, usualmente por razões econômicas. Fluxos migratórios voluntários são tipicamente graduais, impondo menos estresse sobre a logística e sobre o tecido social sobre os países de destino do que os fluxos de refugiados. A maioria dos migrantes voluntários é de adultos em idade de trabalho, o que faz aumentar a parcela da população que é economicamente ativa nos países de destino. 

Os 10% restantes restantes [dos 247 milhões de migrantes] são de refugiados e de pessoas que buscam asilo, que fugiram para outros países para escapar de conflitos e perseguições. Grosseiramente, metade dos 24 milhões de refugiados do mundo está no Oriente Médio e na África, repetindo o padrão dominante de fuga para um país vizinho. Mas, o recente surto de refugiados na Europa fez com que a atenção do mundo desenvolvido se voltasse para esse tema. Um relatório que acompanha este relatório, "Europe's new refugees: A road map for better integation outcomes" ("Os novos/recentes refugiados da Europa: um itinerário para resultados de integração melhores") examina os desafios e oportunidades que confrontam os países individualmente.

Enquanto alguns migrantes viajam longas distâncias a partir de seus países de origem, a maior parte da migração ainda envolve pessoas deslocando-se para países vizinhos ou para países da mesma parte do mundo (ver figura). Globalmente, cerca de metade de todos os migrantes se deslocou de países em desenvolvimento para países desenvolvidos -- na  realidade, este é o tipo de movimento que cresce mais rapidamente. Quase dois terços dos migrantes do mundo residem em países desenvolvidos, onde frequentemente preenchem as  carências de mão de obra desses países. De 2000 a 2014, os imigrantes contribuíram com 40% a 80% da força de trabalho nos principais países de destino.


A maior parte do fluxo migratório consiste de pessoas se deslocando para outro país na mesma parte do mundo -  Os 1o principais movimentos (1), população migratória total em milhões, 2015 - Na coluna da esquerda:
  • de países em desenvolvimento da Europa Oriental e da Ásia Central para países em desenvolvimento na Europa riental e Ásia Central: 22,9 
  • de países em desenvolvimento da América Latina para a América do Norte: 22,1
  • da África Subsaariana para a África Subsaariana: 15,0
  •  da Europa Ocidental para a Europa Ocidental: 12,1
  • do Oriente Médio e do Norte da África para o Oriente Médio e o Norte da África: 10,1
Na coluna da direita:
  • de países em desenvolvimento na Europa Oriental e na Ásia Central para a Europa Ocidental: 10,0
  • do Oriente Médio e do Norte da África para a Europa Ocidental: 9,7
  • da Índia para o Conselho de Cooperação do Golfo: 8,2
  • da Ásia Austral (excluindo Índia) para o  Conselho de Cooperação do Golfo: 7,2
  • de países desenvolvidos da Europa Oriental e da Ásia Central para a Europa Ocidental: 5,8
(1) Inclui movimento tanto entre como dentro de regiões
Fontes: Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU; Banco Mundial; análise do Instituto Global McKinsey

Deslocar mão de obra para locais de produtividade mais alta incrementa o PIB global. Migrantes de todos os níveis de aptidão contribuem para esse efeito, quer através de inovação e empreendedorismo quer liberando os nativos para trabalhos de valor mais elevado. De fato, os migrantes compõem apenas 3,4% da população mundial mas a pesquisa do IGM detecta que contribuem com cerca de 10% do PIB global. Contribuíram com aproximadamente US$ 6,7 trilhões para o PIB global em 2015 -- cerca de US$ 3 trilhões a mais do que teriam produzido em seus países de origem. As nações desenvolvidas absorveram mais de 90% desse resultado.

Taxas de emprego são ligeiramente menores para imigrantes do que para trabalhadores nativos nos principais países de destino, mas isso varia com o nível de aptidão e com a região de origem. Extensa evidência acadêmica mostra que a imigração não prejudica o emprego e os salários nativos, embora possam existir efeitos negativos de curto prazo se houver um grande fluxo de imigrantes em uma região pequena, se os imigrantes por suas aptidões competirem muito de perto com os trabalhadores nativos, ou se a economia de destino estiver passando por uma recessão. 

A concretização e absorção dos benefícios da imigração dependem de como os recém-chegados são integrados no mercado de trabalho e na sociedade de seu país de destino. Hoje, os imigrantes tendem a ganhar de 20% a 30% menos que os trabalhadores nativos. Mas, se os países estreitarem para 5% a 10% essa defasagem salarial através da integração mais efetiva dos imigrantes através vários aspectos de educação, moradia, saúde e engajamento comunitário, os imigrantes podem gerar um impulso anual adicional de US$ 800 bilhões a US$ 1 trilhão para a produção mundial. Este é um objetivo relativamente conservador, mas pode entretanto produzir efeitos positivos mais amplos nas economias de destino como taxas de pobreza mais baixas e uma produtividade geral mais alta.

As dimensões econômicas, sociais e cívicas da integração precisam ser abordadas holisticamente [com uma visão conjunta]. O IGM analisou como os 18 principais países de destino se desempenharam em 18 indicadores e verificou que nenhum país havia logrado resultados expressivos através de todas aquelas dimensões, embora alguns se saiam melhores que outros. Mas em destinações ao redor do mundo, muitos investidores estão tentando uma nova abordagem. Identificamos mais de 180 intervenções promissoras que oferecem modelos úteis para melhorar a integração. O setor privado tem um papel central a desempenhar nesse esforço -- e tem incentivos para fazê-lo. Quando as empresas participam, elas se posicionam para ter acesso a novos mercados e a grupos de novos talentos.

As apostas são altas. O sucesso ou falha da integração pode reverberar por muitos anos, pesando sobre se a segunda geração de imigrantes se torna um grupo de cidadãos plenamente participativos que atingem todo o seu potencial produtivo ou que permanecem em uma armadilha de pobreza [um mecanismo autoalimentado, que faz a pobreza persistir e do qual é difícil escapar]. 

Ler também: "Mais pobres que seus pais? Uma perspectiva nova sobre a desigualdade de renda"

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O futuro da Europa: os britânicos estão saindo dela, e daí?

[Traduzo a seguir um artigo de Christoph Schult publicado no site Spiegel Online International. Continua a celeuma em torno da saída do Reino Unido da União Europeia. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Defensores do Brexit em Londres - (Foto: DPA)

As consequências do Brexit serão penosas para o Reino Unido, mas para a União Europeia há vantagens de sobra.

Os britânicos não são os únicos que deixaram suas emoções superarem a razão ao refletirem sobre sua atormentada relação com a Europa. A Alemanha tem sido também superemocional quanto ao significado do Brexit, com a revista Spiegel pedindo [aos britânicos] "Por favor, não saiam" e o jornal sensacionalista Bild chegando a oferecer que reconheceria o controvertido gol da Copa do Mundo de 1966 em Wembley se o RU (Reino Unido) permanecesse na UE (União Europeia) [A final da Copa do Mundo FIFA de 1966 foi disputada pela Inglaterra, que havia eliminado Portugal e a Argentina, e a Alemanha Ocidental, que eliminara a União Soviética e o Uruguai. Ao final dos 90 minutos, o placar era de 2 a 2. Aos 98 minutos, Hurst marcou novamente; entretanto seu chute bateu no travessão e quicou exatamente sobre a linha. Desde então, se debate se a bola realmente passou a linha.] 

Em um editorial que escrevi há duas semanas [o presente artigo é datado de 26 de junho, três dias após o referendo], sugeri que se reagisse a toda a histeria relativa ao Brexit dizendo-se calmamente aos britânicos: "Então simplesmente saiam". Muitos me perguntaram se falava sério. Sim, eu falava. E não, não estou abrindo garrafas de champagne porque a maioria dos britânicos decidiu virar as costas para a UE.

Este não é um assunto para emoções, mas uma avaliação sensata das reais implicações do Brexit. Ao final, pesando tudo, as consequências serão dramáticas para o RU. Mas, do ponto de vista dos 27 países remanescentes, a retirada britânica oferece mais oportunidades do que desvantagens. 

Isso se aplica ao suposto efeito dominó, sobre o qual os políticos europeus começaram a alertar imediatamente após o referendo do RU. Mesmo que populistas de direita como o político holandês Geert Wilders e Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional da França, postulassem com êxito seus próprios votos sobre a participação na UE, é improvável que uma maioria de seus compatriotas decidisse também deixar o bloco. O fluxo firme de más notícias vindo do RU nas próximas semanas se encarregará disso. 

Sinais de alerta

A queda da libra esterlina é o primeiro sinal de alerta, e em breve ouviremos sobre grandes corporações deslocando suas sedes para fora de Londres e mudando-se para lugares como Frankfurt. Se os britânicos optarem pelo modelo norueguês, continuarão a pagar bilhões em contribuições à UE sem direito a opinar sobre a formatação das regras do mercado único. É duvidoso que isto aumentará o apelo para que outros países saiam do bloco. Obviamente, isto pressupõe que os negociadores da UE jogarão duro contra Londres como prometeram. [O 'modelo norueguês' de adesão à UE refere-se ao fato da Noruega receber muitos dos benefícios como se membro pleno fosse da UE -- essencialmente, acesso ao mercado comum europeu -- sem o mesmo grau de "interferência" de Bruxelas. Mas, euroentusiastas contra-argumentam que por outro lado a Noruega também deixa de receber benefícios importantes mesmo fazendo ainda contribuições financeiras substanciais ao bloco. Para mais detalhes sobre o modelo norueguês e seu eventual uso pelo RU, veja aqui.] 

Um segundo benefício é que os britânicos não podem mais bloquear leis quando os europeus decidirem se unir em áreas nas quais são mais fortes quando atuando em conjunto. A união econômica será finalmente compelida a se tornar realidade, de modo que decisões nacionais não possam mais prejudicar a moeda comum. A eurozona precisa de uma governança econômica unificada e de um ministro de finanças europeu no comando de um orçamento independente. 

O primeiro-ministro britânico David Cameron e sua esposa Samantha logo após o anúncio de sua renúncia na sexta-feira - (Foto: DPA)

O mesmo raciocínio se aplica à política externa e à política de segurança. Uma sede central permanente e compartilhada se faz necessária para missões militares cada vez mais importantes da UE em lugares como Mali e o Mediterrâneo -- algo que todos os países da UE querem, exceto o RU, que bloqueou essa iniciativa. E quando se trata de política externa, há tempo que deveriam ser permitidas decisões por maioria de votos, que de longa data têm sido costumeiras no bloco em temas como política ambiental. Além disso, a crise dos refugiados mostrou que se faz necessária uma real força europeia de controle de fronteiras, assim como uma lei uniforme para concessão de asilo e uma distribuição justa de refugiados.  

Talvez vantajoso

Críticos objetarão que não foram apenas os britânicos que bloquearam a quota de refugiados. Isto é verdade, mas se um grupo seleto de nações decidir em favor de uma  cooperação mais forte, isto é ao mesmo tempo legalmente possível e talvez até vantajoso. O euro e a área Schengen também começaram menores, mas ambos cresceram quando mais estados quiseram ao final se juntar ao bloco.

"Mais Europa", obviamente, não é sempre a melhor abordagem. Faria sentido devolver aos estados membros alguns dos poderes que Bruxelas hoje tem. A política agrícola comum, por exemplo, tem sido durante décadas nada mais do que uma gigantesca máquina de redistribuição de dinheiro sem nenhum benefício visível acrescentado à Europa.

É uma ironia da história que, mesmo se os britânicos não obtenham o acordo que o primeiro-ministro David Cameron negociou com os outros líderes europeus, os 27 países remanescentes possam ainda implementar alguns de suas provisões. Por exemplo, um trabalhador romeno na Alemanha, cujos filhos vivem ainda na Romênia, provavelmente não terá direito aos generosos benefícios alemães para crianças.

Essa abordagem certamente ajudará a tornar a Europa novamente mais atrativa para muitos de seus cidadãos. E, quem sabe, talvez alguns britânicos logo se arrependerão de ter votado pela saída da UE em 23 de junho de 2016.




sexta-feira, 24 de junho de 2016

Agora é que o Reino Unido vai ver o que é bom pra tosse

[Os britânicos optaram por sair da União Europeia, em mais uma demonstração do preocupante ressurgimento do ultranacionalismo no mundo. Tenho para mim que votaram mais com o coração e o fígado do que com o cérebro. Ninguém, entre vencedores e vencidos, tem noção exata do que isso significa em aspectos mais amplos possíveis para o Reino Unido (RU) em termos políticos, econômicos, financeiros e sociais. Muito menos em termos do que isso tudo poderá ou não afetar negativamente o prestígio e o poder do país no cenário internacional. Do lado da União Europeia tampouco há certezas absolutas sobre qual o impacto final e total da saída do RU da comunidade. Quem pagou pra ver nessa história toda não tem a menor noção do tamanho exato do que isso lhe custará. 

O resto do mundo está tão perdido nesse tiroteio quanto os protagonistas desse bangue-bangue.

A libra esterlina caiu para seu valor mais baixo em relação ao dólar nos últimos 30 anos logo após a confirmação do Brexit.

O próprio Reino Unido se vê ameaçado de ruptura interna. A Escócia e a Irlanda do Norte votaram pela permanência na UE, o que pode reavivar o separatismo nesses dois países em relação ao RU.

As implicações econômico-financeiras dessa decisão do Reino Unido estão amplamente abordadas na mídia internacional. Ver por exemplo (em inglês):

☛ "O custo do Brexit - Porque o Brexit é uma notícia sombria para a economia mundial" - The Economist, 24/6/2016
☛ "Ações de bancos afundam depois que os britânicos decidiram por sair da UE" - Financial Times, 24/6/2016

Quanto ao lado político da questão, traduzo a seguir o artigo de Lord John Browne (presidente da L1 Energy e CEO da BP - British Petroleum de 1995 a 2007) publicado em 20/6/2016 na versão impressa do The Wall Street Journal (para assinantes do jornal o texto pode ser acessado na internet). É importante observar que o artigo foi escrito antes e às vésperas do referendo.]

Um voto para sair da Europa significa um Reino Unido menor

John Browne -  The Wall Street Journal, 20/6/2016

O referendo "Brexit" desta semana tem a Grã-Bretanha -- e de fato a União Europeia (UE) -- balançando à beira do desastre. Há um ano, de acordo com a pesquisadora britânica de opinião pública Ipsos MORI, 66% dos britânicos queriam permanecer na UE, com apenas 22% a favor da saída. Entretanto, uma pesquisa da mesma Ipsos MORI feita este mês mostrou a campanha pelo Brexit assumindo a liderança por dois pontos (51% a 49%). Essa mudança de sentimento é extraordinária -- e motivo de grande preocupação.

Os pesquisadores de opinião britânicos erraram antes, como ocorreu recentemente. Durante a campanha para a eleição geral do ano passado, nenhuma das 92 pesquisas realizadas previu com precisão a vitória que os conservadores teriam. A maioria das pesquisas deu aos trabalhistas uma pequena liderança.

Mas o fato de que este referendo está tão próximo o faz o mais preocupante momento para o Reino Unido desde a Segunda Grande Guerra. Nasci em 1948, assim minha visão pessoal da Europa foi fortemente influenciada pelas experiências de meus pais da guerra e nas consequências imediatas dela. Minha mãe, uma sobrevivente de Auschwitz, viveu realmente o pior de uma Europa dividida. Mas foi quando o continente estava sendo reconstruído que ela conheceu meu pai, um oficial do exército britânico servindo na Alemanha.

Ao longo dos meus 50 anos de negócios, a maior parte como CEO da BP, aprendi -- algumas vezes pelo caminho difícil -- que introspecção e isolamento são um caminho certo para perder influência na Europa e no mundo. O mesmo se aplica ao Reino Unido (RU).

Sair da União Europeia nos deixaria diminuídos no cenário mundial. Onde já fomos um líder mundial em comércio e diplomacia global, um voto pela saída da UE veria o RU reduzido ao nível de uma nação de segundo ou terceiro nível. É claro que esta não é uma perspectiva atraente ou agradável para o RU, mas ela é também uma má notícia para o resto do mundo.

O presidente Obama deixou claro que se o RU deixar a UE ele irá para o "fim da fila" para um acordo comercial com os Estados Unidos (EUA). Compreensivelmente, os EUA têm pouco interesse em negociar com um país comparativamente com um impactante acordo com um bloco muito maior. Podemos supor que o mesmo comportamento se aplicará a outros acordos.

Domesticamente, é pura fantasia a ideia de que o RU pode renegociar um acordo com a UE melhor do que qualquer outro não-membro do bloco. Uma vez fora da união, quase certamente teremos que aceitar certas barganhas intragáveis com nossos parceiros europeus rejeitados para manter acesso a um mercado de 500 milhões de consumidores.

Em abril, citando uma análise do governo, o ministro do Tesouro George Osborne disse que o RU seria "permanentemente mais pobre" se deixasse a UE, com um PIB 6% menor em 2030 do que se permanecesse no bloco. O presidente do Banco da Inglaterra Mark Carney alertou em maio que um voto pró-saída da UE levaria a economia a uma "recessão técnica".

O Brexit custaria aos britânicos a prosperidade que conseguimos após duros esforços desde a crise financeira global de 2008. Custaria às empresas internacionais a forte base que estabeleceram no RU quando buscarem comerciar com a UE. E traria custos ao comércio mundial, com o RU não fazendo parte de um bloco maior e mais atraente.

Uma saída do RU pode também desestabilizar a política europeia. A unidade que a UE promoveu e construiu no último meio-século pode entrar em colapso, em um efeito dominó deflagrado pelo Brexit. Pensemos seriamente no estímulo que isso representará para o sentimento anti-UE que fermenta em grupos separatistas de extrema direita, desde a Frente Nacional da França ao Partido da Liberdade na Áustria.

Corretamente, o RU se orgulha de atuar acima de seu peso na área internacional. Ocupamos no mundo um lugar invejável. Os defensores do Brexit não entendem ou não se preocupam com o fato de que o poder global do RU, que é substancial, é ampliado pela participação na UE.

Sem um assento na UE e o poder que isso acarreta, o RU provavelmente perderá seu assento na mesa principal nas discussões internacionais. E talvez certamente assim: seremos provavelmente governados pela mesma classe de oportunistas que iludiram o público ao longo desta campanha.

O RU gosta de se culpar. Os populistas a favor da saída da UE estão trabalhando para explorar essas inseguranças na campanha. Mas, se sairmos, o mundo perderia uma cabeça calma e confiável -- o verdadeiro "britanismo" com o qual os defensores do Brexit são obcecados. Minha experiência pessoal e o peso da opinião de especialista me convencem de que temos que votar pela permanência na UE. No dia 23 estarei ansioso na expectativa. E assim deve estar todo aquele que se preocupa profundamente com o lugar e o papel do RU no mundo.




sexta-feira, 1 de abril de 2016

Na União Europeia, cada país com sua própria crise

[Duas crises enormes , ambas ainda em desenvolvimento, uma financeira e outra humanitária, escancararam a fragilidade e os erros de planejamento e estruturação/organização da União Europeia (UE). A crise dos refugiados tem tudo para ser a pá de cal nesse aglomerado de países, equivocadamente chamado de "união". Traduzo a seguir artigo de Paul Taylor no International New York Times, na edição impressa de 01 de março corrente. A versão virtual só está disponível para assinantes. Ver postagem anterior sobre a crise dos refugiados na UE.]

Não é de surpreender que a União Europeia não consiga encontrar soluções comuns (comunitárias) para os problemas urgentes da Europa, no momento em que seus principais membros estão tendo conversações nacionais diferentes. Assim como a bíblica Torre de Babel, a ambiciosa construção da Europa corre o risco de desmoronar porque seus povos não estão falando  a mesma língua política.

Sintonize na Alemanha, e o debate violento se resume a como lidar com o influxo de milhões de emigrantes, se se deve limitar esses números e, em alguns grupos, como interromper sua chegada. Mude para a França, e você escutará uma nação que acha que está em guerra, vivendo em um estado de emergência e em choque após ataques de militantes islamitas em novembro, que mataram 130 pessoas em Paris.

Vire rapidamente para o Reino Unido, e a conversa se concentra em soberania nacional e uma possível "Brexit" [saída do país da UE], em fase de  construção para um referendo em junho, que poderá encerrar a esquizofrênica participação do país na UE. Olhe para o leste, para a Polônia, onde as pessoas estão discutindo sobre as novas medidas do governo para controlar a mídia e a corte suprema, sobre quem pode ter sido um informante comunista 40 anos atrás e sobre a perceptível ameaça russa hoje para a Europa Oriental.

No entorno da Europa central, a discussão se concentra em como resistir à pressão alemã para acolher uma quota de refugiados. Vire para o sul, e verá italianos e portugueses absorvidos por debates com enfoque doméstico sobre como reativar o crescimento econômico a despeito das limitações orçamentárias da UE enquanto esta resolve os problemas da união. A Espanha, enquanto isso, está ocupada com a paralisia política, com o separatismo da Catalunha e uma divisão do país.

Quando os líderes desses países vão a Bruxelas, frequentemente não conseguem nem mesmo acordar sobre o que deveriam estar discutindo. Nas duas últimas reuniões de cúpula da UE, o Reino Unido queria que o foco fosse sobre suas demandas para uma renegociação dos termos de sua participação na UE, para dar ao primeiro-ministro David Cameron um "novo acordo ou arranjo" que ele pudesse vender ao país em um referendo em 23 de junho vindouro sobre a permanência ou não do Reino Unido no bloco europeu.

Ele conseguiu garantir um acordo em 19 de fevereiro passado, mas muitos de seus companheiros de liderança ficaram frustrados por ter de perder tempo no que vêem como temas secundários e formulações retóricas, enquanto sua casa está pegando fogo.

A chanceler alemã, Angela Merkel, lutando por sua sobrevivência política contra críticas domésticas à sua política de portas abertas para refugiados, queria que a UE se concentrasse em medidas urgentes para garantir as fronteiras externas da Europa, registrar os emigrantes, mandar de volta para casa aqueles que tiveram seus pedidos de asilo negados e distribuir os refugiados entre os países do bloco. Desesperada para encontrar uma "solução europeia" comum para a crise migratória, ela forçou ainda a realização de outra reunião de líderes europeus com a Turquia dias antes de  três eleições regionais alemãs, nas quais a direita anti-imigração poderia ter grandes ganhos.

O presidente da França, François Hollande, por seu lado, vai a Bruxelas à procura de mais cooperação contra o terrorismo e apoio para ação militar contra as forças do Estado Islâmico na Síria e na Líbia. Seu primeiro-ministro, Manuel Valls, irritou as autoridades alemãs ao usar uma viagem à Conferência sobre Segurança em Munique para criticar as boas-vindas de Merkel aos refugiados e declarar que a Europe não podia mais aceitar nenhum emigrante.

Diferentemente de outras crises europeias passadas, nas quais as discordâncias podiam ser postergadas ou fatiadas como um salame em passos graduais que transformavam uma disputa política em um processo tecnocrático, não existe nenhum caminho óbvio para retardar ou amenizar o tema da emigração. Os acontecimentos em terra estão se movendo mais rápido do que a capacidade da UE para administrá-los. Governos ao longo das rotas principais de emigração nos Bálcãs orientais, sob a pressão de forças populistas, estão recorrendo a soluções do tipo empobreça/esgote seu vizinho.

A Áustria, um país crucial como via de trânsito, impôs unilateralmente em meados de fevereiro limites diários às entradas de emigrantes e ao número de pedidos de asilo. Como sinal da decrescente autoridade de Bruxelas e de Berlim, a Áustria reuniu em fins de fevereiro 10 países centro-europeus e dos Bálcãs -- uma reunião sem a Alemanha e sem aGrécia, os principais pontos de entrada dos emigrantes -- para coordenarem medidas nacionais para bloquear o fluxo de emigrantes rumo ao norte.

Como navios carregados de emigrantes desafiam os mares no inverno para deslocar-se a partir da Turquia, aquele bloqueio está rapidamente transformando a Grécia, o país economicamente mais enfraquecido da UE, num gigantesco campo de refugiados. O primeiro-ministro Alexis Tsipras alertou que seu país não se transformará em um "depósito de almas", e que retardará outros negócios europeus se os parceiros de Atenas não compartilharem com os gregos aquela carga.

Os países da União Europeia ignoraram em grande escala as quotas de refugiados que haviam acordado em absorver no ano passado, e a Hungria planeja agora um referendo sobre se deve ou não aceitar qualquer refugiado a mais. Reino Unido e França mantêm suas cabeças baixas, em vez de ajudar Angela Merkel, o líder mais experiente e respeitado da Europa.

David Cameron já não aceitará nenhum refugiado vindo da Europa, com medo de que a hostilidade pública a emigrantes possa  lhe custar o referendo. François Hollande também receia que dar gás à populista de extrema direita Marine Le Pen se ele oferecer mais apoio a Berlim.

Exceptuando-se uma improvável interrupção de chegadas de refugiados vindos da Turquia nas  próximas semanas, o próximo passo mais provável é que a zona Schengen de livre trânsito entre os 26 países da UE seja oficialmente suspensa por dois anos para prevenir um colapso desordenado. Uma conquista importante de cooperação e de  união num continente marcado durante séculos por cicatrizes de guerras será posta em coma induzido, para impedir que ela morra imediatamente. O resultado mais provável é que se formarão longas filas nas fronteiras, que quase desapareceram duas décadas atrás.

Nesse ponto, a Alemanha, com ou sem Angela Merkel, provavelmente terá de impor seus próprios controles contra novos imigrantes. Enquanto as  lideranças fracas e divididas da Europa permanecem distraídas com debates internos, a união que forneceu a estrutura para prosperidade depois da Segunda Guerra Mundial começará a desmoronar.