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domingo, 27 de setembro de 2015

Por que o eclipse da superlua neste domingo preocupa a NASA

[A reportagem traduzida abaixo foi publicada pelo site em espanhol BBC Mundo.]


O Satélite de Reconhecimento Lunar foi lançado em 2009 - (Foto: NASA)

Neste domingo à noite e na madrugada de amanhã os habitantes de grande parte do mundo, incluindo o continente americano, terão a oportunidade de desfrutar de um espetáculo pouco usual.

Trata-se de um eclipse total da Lua (no qual a Lua fica completamente às escuras porque a Terra se interpõe entre ela e o Sol) que, além disso, coincide com uma superlua. Esta ocorre quando uma Lua cheia ou nova se encontra em seu ponto mais próximo à Terra.

A última vez que esse estranho posicionamento dos três corpos celestes ocorreu foi em em 1982, e o próximo só ocorrerá em 2033.

Mas, enquanto para os amantes da astronomia esse espetáculo, no qual a Lua adquire uma cor avermelhada, pode ser simplesmente formoso ou emocionante, para os especialistas da NASA é uma pequena dor de cabeça.

Sem luz por três horas

Por que isso? Porque eles receiam que a falta de luz solar possa deixar sem energia uma de suas naves espaciais mais importantes: o Lunar Reconaissance Orbiter (Satélite de Reconhecimento Lunar) (LRO na sigla em inglês), cuja missão é explorar nosso satélite natural.

A Lua ficará avermelhada porque sua superfície estará iluminada por raios que "quicam" na atmosfera terrestre - (Foto: Reuters)

"Há duas coisas que ocorrem durante um eclipse: começa a fazer frio e não há sol para carregar as baterias", explica à BBC Noah Petro, cientista da agência espacial americana. 

Diagrama do eclipse total da Lua - (Fone: Google)

O eclipse total durará mais de uma hora, "e a nave ficará sem luz direta do Sol por cerca de três horas". Tecnologias similares anteriores apresentaram dificuldades durante eclipses, mas o LRO foi projetado especificamente levando isso em conta. 

Como um celular

Como a sonda espacial recarrega suas baterias, durante o eclipse a NASA deverá tomar uma série de precauções. "Preaquecemos a nave e logo desligamos os instrumentos para mantê-la segura. É como um celular, quando me chega um alerta de que me restam uns 2o% de bateria: posso desligar o wifi ou cetas aplicações que ficam abertas no fundo", explica Noah. 

"Antecipamos que tudo acontecerá sem problemas durante o eclipse, e nos recuperaremos dele sem inconvenientes. Estamos preparados para isso e prontos para resolver o que ocorrer. Ficaremos dependentes dos níveis de carga das baterias e preparados para reagir se algo não sair de acordo com o planejado. Vamos fazer todo o possível para que a nave atravesse o momento do eclipse e saia em boa forma", acrescentou o especialista. 

Por sua parte, Dawn Myers, do centro de voos espaciais Goddard da NASA, disse em um comunicado: "Sempre é estressante quando o eclipse está chegando, mas seguimos os mesmos procedimentos e não temos tido nenhum problema". 

É preciso também ter em mente que essa sonda da NASA já lidou com êxito com três eclipses lunares nos últimos 17 meses. 

Quem estiver acordado durante a noite de domingo e a madrugada da segunda-feira poderá ver uma Lua maior do que o normal, por causa de sua proximidade. De fato, ela estará cerca de 14% maior e cerca de 30% mais brilhante do que a Lua cheia normal.  



domingo, 12 de outubro de 2014

A aula sobre energia elétrica no Brasil que ajuda a entender o gigantesco estrago que Dilma NPS fez e continua fazendo com nosso setor elétrico

Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saia) passará para a a história do Brasil como a presidente irresponsável que desmontou e inviabilizou o setor elétrico brasileiro -- quem acessar "Setor Elétrico" na aba direita do blogue encontrará inúmeras postagens denunciando a atitude criminosa da madame nessa área. A mídia também está repleta de artigos e reportagens que comprovam a política de terra arrasada implantada pela nossa Dama de Ferrugem num setor que já foi o orgulho da nossa economia.

É bom não esquecer que, embora esteja exorbitando nessa tarefa destrutiva em seu mandato na presidência da República, Dilma NPS na realidade dá as cartas no setor energético brasileiro há 12 anos -- à socapa e na linha de frente --  incluindo dois anos de ministra de Minas e Energia (2003-2005) e sete anos como presidente do Conselho de Administração da Petrobras (2003-2010). Neste último cargo seus feitos mais expressivos -- os que por enquanto vieram à tona --  foram aprovar a famosa bandalha da compra da refinaria de Pasadena (EUA) e não enxergar nada do gigantesco propinoduto montado por Paulo Roberto Costa dentro da empresa (o que mostra, no mínimo, que seu propalado instinto de "faxineira" hibernou naqueles sete anos).

Na semana passada, o economista e professor Adilson de Oliveira (UFRJ) e o engenheiro Roberto Pereira D' Araújo, fundador e diretor do Ilumina - Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético, foram entrevistados pela AEPET - Associação dos Engenheiros da Petrobras e deram uma excelente (embora infelizmente muito curta) aula sobre o descalabro implantado por Dilma NPS no setor elétrico, e as péssimas perspectivas que temos pela frente graças à madame -- vejam o vídeo da entrevista.





Mesmo com a escassez do tempo e as inevitáveis interrupções do entrevistador (que, por sinal, conduziu muito bem a entrevista), os dois debatedores expuseram de maneira extremamente objetiva e didática os descalabros que levaram nosso setor elétrico à situação crítica e emergencial em que se encontra nos últimos recentes anos e, em especial, no governo Dilma NPS.

Discordo apenas da sugestão do professor Adilson, endossada por Roberto, de criação de uma (nova) empresa estatal para gerir a rede de gasodutos e a política do gás natural no país. Se estatais salvassem o Brasil, o NPA (Nosso Pinóquio Acrobata, Lula) e Dilma NPS estariam bombando: ambos criaram 10 estatais até agora, e o país está nessa pinimba de dar pena. Além disso, uma estatal de gasodutos seria mais um prato feito para o PT e sua curriola repetirem o que já fizeram e vêm fazendo com a Petrobras.

Faltou, infelizmente, tempo para os debatedores comentarem a política de preços do gás natural no Brasil. Estudo do Sistema Firjan - Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro publicado em maio de 2013 ("O Preço do Gás Natural para a Indústria no Brasil e nos Estados Unidos -- Comparativo de Competitividade") mostra que enquanto a tarifa média para a indústria nos EUA é de US$ 4,45/MMBtu, a brasileira supera os US$ 17,0/MMBtu, provocando um gasto adicional para a nossa indústria de US$ 4,9 bilhões por ano em relação ao gasto correspondente da indústria americana. Qualquer pessoa de mediana inteligência e mínimo bom senso -- o que, evidentemente, exclui Dilma NPS -- percebe o que isso significa para os usuários desse insumo no país e para o Custo Brasil.

sábado, 16 de agosto de 2014

Urinoeletricidade, a novidade mais recente em energia renovável?

[Depois das fezes, parece que a urina pode se tornar mais uma fonte de energia renovável, como nos informa a revista inglesa The Economist em artigo que traduzo a seguir.] 

Energia de xixi

Ir ao mictório pode recarregar um smartphone



Parte de uma possível usina urinoelétrica -- (Foto: Reprodução/Fonte: Olhar Digital)

"Urina e fezes para você são pão e manteiga para mim", explica um suspeito gerente de rede de esgoto em um dos romances policiais de Reginald Hill. E ele não é o único a pensar assim. A Equipe de Bioenergia chefiada por Ioannis Ieropoulos no Laboratório Bristol de Robótica (BRL, na sigla inglesa) na Inglaterra espera tirar também proveito utilizando parte desse material.  Ela desenvolveu uma tecnologia nova para transformar urina em energia elétrica -- ou "urinoeletricidade", como a denominaram.

As pessoas ao redor do mundo produzem cerca de 6,4 trilhões de litros de urina por ano. O BRL, uma cooperação entre a Universidade de Bristol e a Universidade do Oeste da Inglaterra, quer tirar o máximo proveito dessa fonte abundante. No cerne da urinoeletricidade estão células combustíveis microbianas (MFCs, na sigla inglesa), que contêm micróbios vivos. Quando a urina flui através de uma MFC os micróbios a consomem, como parte de seu processo metabólico normal. Isto, por sua vez, libera elétrons. Eletrodos dentro da célula agrupam esses elétrons e, quando eles são conectados a um circuito externo, gera-se uma corrente.

A equipe do BRL montou, em uma única unidade, uma série de MFCs do tamanho de um charuto. Acoplando essa unidade a um duto de saída de um mictório permitiu que urina fresca circulasse pelas células. Neste contexto, "fresca" significa urina de não mais de uma semana de idade, colhida de um indivíduo saudável de altura e peso médios. Testes anteriores haviam alimentado as MFCs com restos de comida, insetos mortos e pedaços de grama, mas a urina gerou uma energia três vezes maior do que quaisquer outros dejetos.

Por que a urina funciona tão bem?  O Dr. Ieropoulos acredita que nos testes anteriores os micróbios ficaram saciados rapidamente com a dieta pesada, porque o material utilizado continha uma proporção elevada de matéria orgânica. O baixo nível de carbono na urina, combinado com acidez e condutividade elétrica favoráveis, fez toda a diferença. Enquanto os testes anteriores geraram uma energia baixa, mínima, a urina gerou energia suficiente para recarregar baterias disponíveis comercialmente, incluindo as baterias de celulares.

Isso é apenas o começo, mas o trabalho -- que está sendo apoiado por várias organizações, incluindo a Fundação Gates -- mostra que a urina pode ter o potencial de fazer uma contribuição importante para o setor de energias alternativas. Pode gerar também um incentivo comercial para a construção de mais toaletes -- mais de 2,5 bilhões de pessoas ao redor do mundo não têm acesso a esse recurso sanitário. O Dr. Ieropoulos e sua equipe planejam agora o potencial das fezes como uma possível fonte de energia. Elas têm um nível de carbono mais elevado, mas os cientistas acham que esse pode ser um preço aceitável a ser pago por uma disponibilidade abundante e uma cadeia de suprimento autorregulatória.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Os cacos do nosso setor energético continuam ferindo a todos nós, por culpa do elefante Dilma NPS

Logo de início, quero apresentar minhas desculpas à família dos elefantes por associar a ela nossa doce Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saias). Apresso-me a esclarecer que tal associação se deve única e exclusivamente ao jeito desajeitado, troncho e profundamente desastroso da ex-guerrilheira se deslocar nas diversas lojas de louças da nossa economia, algo remotamente parecido com o jeitão desengonçado dos elefantes se locomoverem. Há uma diferença fundamental: a dificuldade elefantina de caminhar prende-se tão somente à sua paquidermia física, ao passo que a dificuldade locomotora de Dilma NPS tem sabidamente origens mentais. Diametralmente oposta aos elefantes, nossa Dama de Ferrugem é uma diabólica e consolidada síntese de burrice, ignorância, incompetência, falta de autocrítica, soberba e truculência. 

A loja de louças da vez -- na realidade, há uma década, desde que Dilma NPS se assenhorou dessa área -- é a do nosso setor energético, em que Dilma NPS conseguiu alcançar o paroxismo de sua crassa ignorância e irreversível incompetência, mesmo tendo sido -- ou, quem sabe, por isso mesmo -- ministra de Minas e Energia do NPA (Nosso Pinóquio Acrobata, Lula) por dois anos. Quem consultar os marcadores "Setor Elétrico" e "Petrobras" na aba direita do blogue encontrará uma série de postagens sobre os desmandos e desvarios da Dama de Ferrugem na nossa área energética.

O Globo de hoje traz dois artigos sobre a calamidade enfrentada pelo nosso setor energético, por obra e desgraça de Dilma NPS. O primeiro deles é o de Carlos Alberto Sardenberg ("Azarada"), do qual reproduzo os trechos mais relevantes, retirados de uma entrevista na CBN (quarta-feira) com o engenheiro Mário Veiga, presidente da consultoria PSR, e um dos mas respeitados especialistas no setor elétrico (o que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade):

  • Há um risco de racionamento de 18,5%; racionamento, no caso, quer dizer, falta de mais de 4% da demanda por energia, algo equivalente a deixar sem luz 12 milhões de residências;
  • Embora seja verdade que, por oposição, há uma chance de 81,5% de não ocorrer racionamento, o risco de 18,5% é muito elevado para os padrões do sistema;
  • O problema não decorre da atual seca, nem do excesso de demanda; o sistema vem dando sinais de dificuldades há anos;
  • Não é o caso de se recorrer agora a um racionamento preventivo; dá para esperar até abril, ou seja, até o fim do período de chuvas; pode ser que São Pedro ajude; mas um racionamento é uma complexa operação, que não pode ser improvisada; ou seja, deveria estar sendo preparada;
  • Há óbvios atrasos na entrada em operação de usinas e sistemas de distribuição;
  • Há problemas estruturais; não se pode dizer que está tudo em ordem quando o sistema está usando todas as termoelétricas (espécie de seguro) e quando as usou mesmo em tempos de chuva [Mário Veiga comentou na entrevista que em 2010 e 2012 iniciamos o ano com os reservatórios em níveis excelentes, com tudo para ter um ano tranquilo e terminamos esses dois anos no bagaço, com a língua de fora e despachando térmicas, o que já sinalizava que algo estava errado -- ele comentou também que no início de 2012 o governo anunciou que injetaria pouco mais de 2.000 MW no setor, mas no final do ano só efetivou 400 MW ou apenas 20% do prometido];
  • Os últimos anos mostram também uma série de trapalhadas do governo, que deixaram distribuidoras sem energia contratada, obrigando-as a recorrer ao mercado livre, pagando preços muito mais elevados (hoje, de R$ 1.700/megawatt/hora);
  • O prejuízo tem que ser pago pelo Tesouro (pelo contribuinte brasileiro) ou pelo consumidor, na tarifa, já que a culpa do desequilíbrio financeiro não é das distribuidoras, nem das demais empresas do setor.
  • Simplificando, e sem contar os rombos do ano passado, o Tesouro teria que repassar, em 2014, cerca de R$ 24,5 bilhões; ou aplicar um aumento de tarifas de 24% [segundo Mário Veiga, cada R$bi injetado pelo Tesouro no setor corresponde a 1% na tarifa -- ou seja, se o dinheiro não sair da burra do Tesouro (= contribuinte) terá que haver aumento tarifário (consumidor + contribuinte)].
No outro artigo de hoje do Globo ("Crise de energia"), o respeitado ex-ministro de Minas e Energia traça outro quadro sombrio por trás dos nossos megawatts e dos nossos barris de petróleo. Ei-lo, a seguir:

Além do notório descalabro na infraestrutura de transportes, o governo põe em risco, com apoio ou omissão de sua base política, a estabilidade da Petrobras e da Eletrobras e, em consequência, o próprio futuro da energia no país. No caso da Petrobras foram infelizes as leis de 2010 que modificaram o marco regulatório anterior, em cuja vigência a empresa se consolidou técnica e economicamente, levando-a à memorável descoberta do pré-sal e ao seu reconhecimento como grande e respeitável entidade, no domínio da exploração e da extração do petróleo.

A nova concepção rememora os tempos do “Petróleo é nosso”, quando a Petrobras precisava de auxilio do governo para dar os primeiros passos. Incluíram-se na nova lei a sua participação obrigatória de 30% em cada concessão, bem como a administração de todas as parcerias. [Ver postagem "Petrobras tem maior deficit em 17 anos".]

Ao mesmo tempo a empresa foi agredida em sua integridade econômica com deliberado congelamento de preços de derivados, em beneficio de prática também ultrapassada de combate à inflação.

Já no caso da Eletrobras, o processo teve inicio com as mudanças no marco regulatório incluídas na lei de 2013. Documento infeliz e prolixo que, no entanto, deixou vários pontos em aberto, para definição posterior “pelo poder concedente”. A visão era de curtíssimo prazo. No fundo girava em torno da “modicidade tarifária”, juízo de valor que escapa à avaliação quantitativa. A própria presidente Dilma arbitrou que a redução tarifaria seria de 20% o que, sabidamente não foi alcançado. [Ver postagem "Delenda Eletrobras".]

A visão de curto prazo levou à oferta de renovação antecipada das concessões de usinas elétricas e linhas de transmissão que vencessem até 2017. Em caso de aceitação, haveria redução dos ativos a remunerar, o que traria redução de custos. O governo compensaria os ativos não depreciados. Além disso, seriam suprimidos encargos setoriais que incidem sobre as tarifas, à custa, em alguns casos, de complexa engenharia financeira.

As concessionárias, excetuadas as subsidiarias da Eletrobras, que receberam ordens do governo, recusaram a proposta. Criou-se nova e complexa engenharia financeira a fim de compensar a parte da redução tarifaria que não ocorreu pelo caminho estabelecido na lei.

Os autores não avaliaram os recursos financeiros que a Petrobras e a Eletrobras necessitariam nas respectivas missões de longo prazo. As empresas privadas se retraíram diante da insegurança institucional.

Está instalada crise de energia no Brasil.



 



 



 


 


 


 


 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Etanol brasileiro, mais uma promessa dos governos petistas que vai para o ralo

[O fracasso do etanol brasileiro como combustível automotivo é mais uma lambança a ser incluída na lista de promessas não cumpridas pelos dois governos petistas, o do NPA (Nosso Pinóquio Acrobata, Lula) e o de Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saias). Já em julho de 2011 abordei esse assunto, na postagem "Etanol brasileiro: um pepino, um abacaxi ou ambos?" -- o que ali está permanece inteiramente válido. A reportagem abaixo, de Felipe Vanini, foi publicada em 09/12 na versão em português do jornal espanhol El País, com o título "Fim do sonho doce do etanol brasileiro".]


Plantação de cana de açúcar para produção de etanol - (Foto: Nils Andreas/Ünica - Fonte: El País).


O projeto do Brasil de transformar o etanol numa fonte de energia renovável consumida no mundo inteiro virou um pesadelo. O país não conseguiu deslanchar a produção do combustível à base de cana-de-açúcar, uma forte quebra da safra em 2011 levou os preços do álcool combustível às alturas e hoje nem mesmo o consumidor brasileiro, que foi incentivado nos últimos anos a abastecer com o produto em consequência da popularização dos veículos bicombustíveis, ou flex, quer saber do etanol.

A crise aguda que o setor sucroalcooleiro enfrenta tem vários motivos. Quando o ex-presidente Lula da Silva, que governou o Brasil entre 2002 e 2010, levantou a bandeira do etanol como uma commodity made in Brazil, as cotações do barril de petróleo subiam vertiginosamente nas Bolsas de Londres e de Nova York, referências na negociação da matéria-prima da gasolina e de outros derivados.

Nesse contexto, os Estados Unidos buscavam emplacar sua própria produção de biocombustíveis e, com a aprovação em 2005 da Energy Bill, uma lei que estipulou metas crescentes de consumo de etanol até 2020, os norte-americanos superaram a produção brasileira pela vez em 2006. No ano passado, o abismo entre a produção dos dois países já era mais do que o dobro, com 50 bilhões de litros de etanol produzidos nos Estados Unidos, contra 23,6 bilhões de litros produzidos no Brasil.

E há um detalhe: os norte-americanos usam como matéria-prima de seus biocombustíveis principalmente o milho, enquanto os brasileiros adotam a cana-de-açúcar, cujo rendimento na produção de álcool é maior do que o da oleaginosa. “O que aconteceu foi a falta de visão estratégica do governo, que não percebeu que os Estados Unidos, quando adotam uma lei, cumprem. A nossa produção estagnou enquanto a deles disparou”, afirmou Daniele Siqueira, analista de mercado da Agência Rural.

A descoberta do pré-sal também é apontada como uma das razões da decadência do etanol. O volume assombrador de reservas de petróleo encontradas em profundidades de até 7000 metros tendeu a atrair os investimentos internacionais em energia. “De 2005 a 2009, havia muitos investidores interessados no etanol e chegamos a viabilizar vários negócios. Mas, depois disso, a área esfriou”, disse André Segadilha, sócio-diretor de estruturação de operações da boutique de investimentos 5S Participações.

Mas a área sucroalcooleira não só esfriou. Ela congelou. Entre os anos de 2007 a 2010, 76 usinas de cana-de-açúcar foram construídas no Brasil. Mas, de 2011 a 2012, 27 unidades produtoras fecharam as portas ou entraram em recuperação judicial. E até o final do ano-safra 2013/14, terminologia adotada na agricultura que representa o ciclo dos cultivos, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), que representa os usineiros, prevê que mais 12 usinas encerrem suas atividades ou peçam na Justiça alívio para quitar suas dívidas.

No entanto, enquanto isso não acontece, a Unica tenta reconquistar os consumidores perdidos. Uma campanha publicitária que tinha como mote a frase Abasteça com Etanol, o combustível completão, foi a cartada dos usineiros. De acordo com Antonio de Padua Rodrigues, diretor-técnico da Unica, o resultado foi “positivo”. “Conseguimos deixar o recado para quem não se lembrava mais que o etanol é uma alternativa ambientalmente consciente. Isso sem focar no preço, apenas dizendo que é competitivo”, avalia Padua.

Porém, a política da presidenta Dilma Rousseff, que foi ministra das Minas e Energia de 2003 a 2005 na gestão de Lula, não está empolgando os empresários do setor. Em maio, o Governo anunciou uma plano setor que zerou a cobrança do imposto PIS/Cofins e aumentou a mistura de álcool na gasolina de 20% para 25% diante da expectativa de uma safra melhor. Além disso, o pacote incluiu uma linha de crédito com juros subsidiados de 4 bilhões de reais para incentivar o plantio de canaviais.

Para Gláucio de Oliveira, sócio-diretor da ADN Corretora, especializada em álcool, no entanto, a política do Governo para o setor é equivocada. “Quem é que vai querer investir com o teto de preços que o Governo impõe aos combustíveis. Do modo como é hoje, a remuneração ao setor é sufocada”, diz ele.

A crítica também é feita por Maurílio Biagi Filho, presidente do Grupo Maubisa, do ramo do agronegócio. “Esse último reajuste de gasolina que a Petrobras autorizou sepultou o setor sucroenergético, além de ter impactado muito negativamente nas ações da própria estatal”, afirmou ele, cujo pai, Maurílio Biagi, foi um dos empresários, junto com Orlando Ometto, da Cosan, entre outros, que convenceu o ex-presidente Ernesto Geisel, da junta militar, a adotar o Programa Nacional do Álcool (Pró-alcool) em 1975.

O Pró-alcool surgiu na esteira da crise do petróleo de 1973 e visava a substituição da frota brasileira movida a gasolina pelo biocombustível. Da época da implantação até meados dos anos 1990, sucessivos problemas de desabastecimento de cana-de-açúcar, ou quebras de safra, tiveram como consequência a falta do combustível nas bombas. E essa experiência foi traumatizante para muitos brasileiros que, com o advento dos carros flex, sentiram-se mais confiantes para comprar veículos que usam tanto a gasolina quanto o álcool. Quando o preço do álcool corresponde a menos de 70% do valor da gasolina é mais vantajoso abastecer com o biocombustível. Por ora, no entanto, a maioria dos brasileiros tem ficado com a gasolina, apesar de 60% da frota, ou 20 milhões de veículos, serem da categoria flex, ou seja, podem ser abastecidos com um ou outro combustível.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

O aquecimento global continua nos mandando avisos, também no setor energético

[Para quem as próximas gerações passarão a fatura do descaso com o aquecimento global? Vejam a reportagem de ontem no caderno "Amanhã", do Globo. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Matriz de energia em pane

Manuela Andreoni -- O Globo, 30/7/2013

Há quem trate o aquecimento global como uma possibilidade longínqua, mas, nos Estados Unidos, o governo já vê consequências bem práticas do problema. Relatório publicado este mês pelo Departamento de Energia americano mostra que diversas usinas termelétricas, solares, hidrelétricas e nucleares, além de refinarias, linhas de transmissão e gasodutos já sofreram as consequências das mudanças globais. Os motivos são claros: aumento de temperatura, diminuição na disponibilidade de água e condições climáticas extremas, com tempestades, aumento do nível do mar e enchentes.

Chamado "Vulnerabilidades do setor elétrico a mudanças climáticas", o relatório dá vários exemplos dos desafios a serem enfrentados pelos EUA — e pelo mundo — para encontrar a matriz energética adequada para o futuro. Em 2010, por exemplo, a bacia do Rio Columbia, no estado de Washington, assistiu a uma diminuição significativa de seu nível de água, o que prejudicou a geração da usina hidroelétrica local. O resultado: uma perda de US$ 164 milhões em um ano.

Do outro lado do país, em Connecticut, a usina nuclear Millstone precisou desligar um reator por duas semanas porque a temperatura da água usada para resfriar o reator estava alta demais. A perda foi de 255 megawatts hora, ou milhões de dólares.

Segundo aponta o relatório, durante o século XX, os Estados Unidos viram um aumento de [cerca de] 0,8° C em sua temperatura. Julho de 2012 foi o mês mais quente do país desde o início da série histórica, em 1895.

Uma das maiores preocupações do departamento é a escassez de água, muito usada em diversos tipos de usina. As únicas fontes de energia que praticamente não usam o recurso são as eólicas e as fotovoltaicas modernas. As hidroelétricas são, obviamente, as mais afetadas. Outra preocupação é o grande número de usinas localizadas no litoral, o que as torna vulneráveis ao aumento do nível do mar e grandes tempestades.

Alarmante também é o fato de que, com temperaturas cada vez mais extremas, a demanda por energia crescerá, com o uso intenso de ar condicionado.

Mas há luz no fim do túnel. Um estudo citado pelo relatório americano mostrou que, se os Estados Unidos conseguissem que 80% de sua matriz dependesse de fontes de energia renovável (com cerca de metade vindo de solares e eólicas), o consumo de água no setor energético cairia 50%.
 
 Usinas de energia como a de Tucuruí, no Pará, são vulneráveis a flutuações climáticas - (Foto: Fabio Rossi /Fonte: O Globo).


[O relatório do Departamento de Energia americano citado acima informa ainda que:
  • além de ter o mês mais quente do ano desde 1895, o ano de 2012 foi também o mais quente registrado nos EUA desde aquela data;
  • 60% do atual parque de térmicas a carvão dos EUA estão localizados em áreas sob estresse hídrico;
  • aumentam os riscos para infraestruturas energéticas ao longo das costas em decorrência de aumento do nível do mar, aumento de intensidade das tempestades, e surtos mais altos de tempestades e enchentes -- o que afeta potencialmente a produção, refino e distribuição de petróleo, a produção e distribuição de gás, assim como a produção e distribuição de energia elétrica;
  • risco aumentado de interrupção e retardo da distribuição de combustível por ferrovias e barcaças durante períodos mais frequentes de secas e enchentes, que afetam níveis de água em rios e portos;
  • elevação dos custos de ar-condicionado e dos riscos de blecautes totais ou parciais (abre o olho Dona Dilma!!) em algumas regiões, se a capacidade das usinas elétricas existentes não acompanhar a taxa de crescimento da demanda de pico, devido a temperaturas e ondas de calor crescentes. Um estudo do Laboratório Nacional de Argonne concluiu que um pico de demanda elétrica mais elevado em decorrência de aumentos de temperaturas relacionados com mudança climática exigirá um adicional de 34 GW de geração nova, por volta de 2050, apenas no oeste dos EUA, a um custo de US$ 45 bilhões para os consumidores. Isso equivale  aproximadamente a mais de 100 usinas elétricas novas, e não inclui as usinas novas que serão necessárias para acomodar o crescimento populacional e outros fatores.
  • Além de identificar as áreas críticas sob risco por causa de mudanças climáticas e condições climáticas extremas, o relatório explicita também as atividades já em andamento para enfrentar esses desafios e discute oportunidades potenciais para dotar o setor energético de uma capacidade maior de resistência e recuperação. Potencialidades futuras para os governos federal, estaduais e locais poderiam incluir políticas inovadoras que ampliassem o conjunto de tecnologias energéticas disponíveis para resistência e recuperação do ponto de vista climático, estimular sua utilização e distribuição, e aprimorar a coleta de dados e os modelos disponíveis para assim melhorar o nível de informação de pesquisadores e legisladores sobre as vulnerabilidades do setor energético e as oportunidades de resposta a isso. Isso melhoraria também o engajamento de acionistas e interessados do setor. Essas atividades aumentarão a capacidade de resistência e recuperação da infraestrutura energética americana pelo "endurecimento" das instalações e estruturas existentes, para que suportem melhor severas condições de secas, enchentes, tempestades ou incêndios florestais, e contribuirão para o desenvolvimento mais sofisticado de novas instalações.
O site do Departamento de Energia dos EUA indicado acima permite o acesso à integra do relatório ora resumido.]






segunda-feira, 6 de maio de 2013

A fábula do país do álcool e da gasolina (ou Uma fábula alcoólica)

[O texto abaixo é da autoria de Célio Pezza e foi republicado em 20/4/2013 no seu blogue -- ele me foi informado por meu caro amigo Quirino, a quem agradeço. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

A fábula do país do álcool e da gasolina ou Uma fábula alcoólica

Infelizmente alguns poucos blogs e jornais se aproveitam de artigos alheios para divulgar textos ofensivos sem mostrar a sua cara. São pessoas covardes, que usam do nome de outros, pois não tem coragem de dizer educadamente o que pensam. Foi o que aconteceu com uma de minhas crônicas. Original de setembro de 2011, ela foi amplamente divulgada por centenas de veículos sérios, mas recentemente, constatei que alguns poucos blogs desavisados divulgaram esta minha crônica contendo frases ofensivas que não são de minha autoria, no meio de meu texto. Abaixo, divulgo novamente a minha crônica original, conforme está em meu blog desde sua publicação.

"Era uma vez, um país que disse ter conquistado a independência energética com o uso do álcool feito a partir da cana de açúcar. Seu presidente falou ao mundo todo sobre a sua conquista e foi muito aplaudido por todos. Na época, este país lendário começou a exportar álcool até para outros países mais desenvolvidos. Alguns anos se passaram e este mesmo país assombrou novamente o mundo quando anunciou que tinha tanto petróleo que seria um dos maiores produtores do mundo e seu futuro como exportador estava garantido.

A cada discurso de seu presidente, os aplausos eram tantos que confundiram a capacidade de pensar de seu povo. O tempo foi passando e o mundo colocou algumas barreiras para evitar que o grande produtor invadisse seu mercado. Ao mesmo tempo adotaram uma política de comprar as usinas do lendário país, para serem os donos do negócio. Em 2011, o fabuloso país grande produtor de combustíveis, apesar dos alardes publicitários e dos discursos inflamados de seus governantes, começou a importar álcool e gasolina. Primeiro começou com o álcool, e já importou mais de 400 milhões de litros e deve trazer de fora neste ano um recorde de 1,5 bilhão de litros, segundo o presidente de sua maior empresa do setor, chamada Petrobrás Biocombustíveis.

Como o álcool do exterior é inferior, um órgão chamado ANP (Agência Nacional do Petróleo) mudou a especificação do álcool, aumentando de 0,4% para 1,0% a quantidade da água, para permitir a importação. Ao mesmo tempo, este país exporta o álcool de boa qualidade a um preço mais baixo, para honrar contratos já firmados. Como o álcool começou a ser matéria rara, foi mudada a quantidade de álcool adicionada na gasolina, de 25% para 20%, o que fez com que a grande empresa produtora de gasolina deste país precisasse importar gasolina, para não faltar no mercado interno. Da mesma forma, ela exporta gasolina mais barata e compra mais cara, por força de contratos.

A fábula conta ainda que grandes empresas estrangeiras, como a BP (British Petroleum), compraram no último ano, várias grandes usinas produtoras de álcool neste país imaginário, como a Companhia Nacional de Álcool e Açúcar, e já são donas de 25% do setor. A verdade é que hoje, este país exótico exporta o álcool e a gasolina a preços baixos, importa a preços altos um produto inferior, e seu povo paga por estes produtos um dos mais altos preços do mundo. Infelizmente esta fábula é real e o país onde estas coisas irreais acontecem chama-se Brasil".

[Ver postagem anterior sobre o etanol no Brasil.]

domingo, 24 de março de 2013

A concordata da gigante chinesa fabricante de painéis fotovoltaicos

[A notícia abaixo da The Economist apresenta dois detalhes inusitados: um, a concordata (com ares de falência) escancarada de uma empresa chinesa, a Suntech, uma das maiores fabricantes de paineis solares do mundo; o outro, o fato de o governo centralizador chinês permitir que isso acontecesse, o que não deixa de prejudicar a imagem chinesa em uma área emblemática para um país mais conhecido como extremamente danoso ao meio ambiente. O que no texto abaixo estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

A BP, uma empresa petrolífera gigante conhecida anteriormente como British Petroleum, fez uma malfadada campanha publicitária há alguns anos atrás autoproclamando-se "Além do Petróleo". A ideia era alardear seus grandes investimentos em energia renovável, especialmente sua efêmera posição como uma das maiores fabricantes mundiais de painéis solares. Esse esforço acabou sendo considerado como uma "lavagem ecológica" [por analogia com lavagem de dinheiro], pois os clientes da empresa perceberam que sua incursão [de fachada] na área verde não havia eliminado seu zelo em produzir -- e infelizmente, como se viu, vazar irresponsavelmente -- quantidades gigantescas da imunda pasta negra que sempre foi a fonte principal de seus lucros.

Não muito depois disso a Suntech, uma fabricante chinesa de painéis solares, disparou como um foguete para o topo da indústria de energia solar do mundo. O aumento do valor da empresa depois de sua inauguração em 2005 foi tão estratosférico que Shi Zhengrong, seu fundador, tornou-se rapidamente o homem mais rico da China. No auge de sua fortuna e de suas expectativas para a empresa, ele chegou a declarar pomposamente que sua ambição era tornar a Suntech tão grande quanto a BP. Como uma companhia de energia limpa, a Suntech tinha pelo menos a chance de cumprir a promessa enganadora da BP de ir além do petróleo. Infelizmente, em vez disso a Suntech acabou indo para além do lucro.

No dia 20 deste mês de março foi declarada a concordata da empresa, que operava em Wuxi, China. Isso se deu apenas alguns dias depois que ela não conseguiu honrar um de seus compromissos em bônus [de US$ 541 milhões, segundo o The Washington Post]. A Suntech vinha fechando várias de suas fábricas ao redor do mundo e o Sr. Shi, que uma vez havia sido um herói verde entre os "gatos gordos" que se juntaram na badalação anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, foi vergonhosamente defenestrado de seu cargo de presidente da empresa.

O que aconteceu? Em parte, a Suntech é uma vítima das circunstâncias. O boom global da indústria de energia solar dos últimos anos esfarelou-se, inevitável e dolorosamente. Subsídios distribuídos prodigamente pelo governo chinês estimularam uma superprodução de equipamentos pelos fabricantes nacionais, contribuindo para uma saturação dos mercados mundiais, ao mesmo tempo em que suas táticas de corte de preços varriam do mapa concorrentes do mundo desenvolvido e provocavam represálias sob a forma de taxações antidumping e outras ameaças de retaliação.

Tão perniciosa quanto a iniciativa chinesa foram as políticas dos países ricos,  que subsidiavam de maneiras diversas a produção e o consumo de energia solar e pararam de fazê-lo. A crise que se espalhou por toda a indústria solar é tão calamitosa, que se estima que mais de 30 empresas de energia solar no mundo faliram recentemente.  É claro que qualquer empresa, não importa se a maior do mundo, teria dificuldade em sobreviver nesse ambiente.

Entretanto, a Suntech e o Sr. Shi têm muita responsabilidade nessa triste história. Há acusações de má gestão, assim como assustadores sinais de impropriedade financeira. O China Daily, publicado oficialmente pelo governo, insinuou que a Suntech se meteu em dificuldades em parte porque "um sócio no negócio falsificou US$ 680 milhões em caução para um empréstimo garantido pela Suntech". A empresa e o Sr. Shi negam qualquer malfeito.

O que é inegável é que a Suntech se expandiu exageradamente, inclusive com instalações caras nos EUA, exatamente no momento em que deveria ter controlado suas ambições. Alguns esperam que ela utilize o processo de sua concordata para se reorganizar e ressurgir em um formato mais enxuto. Entretanto, a recente deposição de Shi de seu alto cargo de direção e a disputa amarga que se desenrola entre todos os envolvidos dificilmente permite confiar em que a empresa veja dias melhores em futuro próximo.

O que vem agora? Se experiência passada servir de exemplo, os líderes chineses podem não permitir que o desastre financeiro da maior empresa da indústria de energia solar do mundo macule as ambições do país de se tornar uma potência em tecnologia limpa. Eles provavelmente também não permitirão que os problemas financeiros dessa empresa gerem agitação e intranquilidade por causa da demissão maciça de trabalhadores. Rumores não confirmados estão circulando, no sentido de que o governo local em Wuxi já está  organizando algum tipo de resgate para a empresa. Uma coisa é certa: mesmo que se organize um pacote para resgate, os investidores estrangeiro vão perder um pacote.

Fabricação de painéis solares na chinesa Suntech - (Foto: AFP).

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Energia eólica: era de crescimento rápido na Europa chega ao fim

Eles são frequentemente um estorvo, as pessoas fingem ignorá-los em qualquer conferência ou reunião sobre energias renováveis. Algumas vezes, são mencionados simplesmente como "s", outras vezes sequer são citados. Mas, os subsídios permanecem cruciais, com a energia eólica lutando para conseguir paridade de preço com o carvão e o gás natural. Na semana passada em Viena, na conferência anual da Associação Europeia de Energia Eólica (AEEE), a questão dos subsídios surgiu de imediato.

Dessa vez, o inesperado foi a origem dos comentários. No discurso principal de abertura da reunião, Fatih Birol, o economista-chefe da Agência Internacional de Energia, proclamou que os subsídios aos combustíveis fósseis eram o "Inimigo Público Número Um" dos projetos de energia sustentável. Isso veio de alguém que, há apenas oito curtos anos atrás, insistia em aumentos "substanciais" nos investimentos em novas perfurações para petróleo e gás. Seu argumento era simples. Exatamente agora, as energias renováveis enfrentam um duplo problema: governos ao redor do mundo estão cortando a ajuda para energia limpa, e subsídios maciços que estão sustentando a indústria de combustíveis fósseis tornam impossível competir com esta energia mais barata.

Segundo Birol, o total global de subsídios para combustíveis fósseis em 2011 foi de US$ 523 bilhões. Isso resultou em um incentivo equivalente a US$ 110 por tonelada de carbono emitido. Comparativamente, os subsídios globais para energias renováveis no mesmo ano somaram US$ 88, uma ninharia em relação ao outro montante.  "Se tivéssemos um mundo ideal -- sem subsídios para energia nuclear, gás ou carvão -- o vento das regiões litorâneas faria um excelente trabalho", disse à Spigel Online Christian Kjaer, CEO da AEEE. "Mas, isso é uma utopia", concluiu.

Energia eólica ainda cresce, mas por quanto tempo?

Mesmo numa disputa desigual, a indústria de [energia] eólica tem crescido rapidamente nos últimos anos. Há agora 22 países com pelo menos um gigawatt (GW) de energia eólica instalado (suficiente para suprir 200.000 residências). Na União Europeia (UE), foram instalados 11,6 GW dessa energia no passado contra 9,4 GW em 2011, de acordo com a AEEE. A energia eólica já se tornou, há tempo, um player importante no mercado global de energia.  [O Brasil está muito ruim nessa foto. Para piorar o quadro, gastamos bilhões na construção de parques eólicos que estão ociosos por falta de linhas de transmissão. 

Capacidade cumulativa global de energia eólica, em GW. - (Fonte: Wikipedia).

Farta informação sobre a capacidade instalada em energia eólica por país pode ser encontrada aqui. Nessas estatísticas, o Brasil ocupa um modesto vigésimo lugar, bem atrás de países como China, Índia, Portugal, Dinamarca, Japão, Holanda, etc, em termos de potência instalada. Mas, nosso crescimento em cinco anos (2006-2011) foi de 44,8%, o quarto mais alto depois de Turquia (94,3%), China (89%) e Polônia (60,2%).] 

O problema, disse Kjaer, é que os ganhos alcançados pela Europa em 2012 resultam em sua maioria de contratos feitos antes da crise da dívida que afligiu a Europa a partir de 2010. E, se as políticas nacionais não forem ajustadas para refletir uma realidade mutante, a taxa de crescimento é esperada cair para 6% em 2020 e para 4% em 2030, de acordo com um relatório emitido em novembro pelo Greenpeace e pelo Conselho Global de Energia Eólica.

A Alemanha saiu-se bem na crise, mas tem sua própria quota de problemas com as energias renováveis, com os preços de energia elétrica para os consumidores aumentando em decorrência da política de "Energiewende" ("Transição de Energia") do governo, uma política de eliminação gradual da energia nuclear e aumento na confiança e na dependência da energia verde aprovada pelo governo de Angela Merkel em resposta à catástrofe de Fukushima. [...]

Incerteza regulatória

"Quem, aqui, acha que a incerteza regulatória é o principal obstáculo ao crescimento da energia eólica?", perguntou Thomas Pütter, presidente do Grupo Financeiro Ancora, durante sua fala na conferência anual da AEEE. Praticamente todas as mãos do auditório se levantaram [esse pessoal deveria fazer um estágio no MME e na Aneel, e dar uma estudada nas MPs 577 e 579, para terem uma ideia do que realmente é incerteza regulatória].  Em tempos econômicos difíceis, os políticos examinam cada pequeno detalhe para cortar -- e os altos preços da energia tornaram as energias renováveis um alvo deles para ganhar pontos [com o eleitorado].

A legislação alemã vigente permite que os produtores de energia renovável injetem sua energia na rede com um preço fixo, acima do mercado, chamado tarifa de alimentação ("feed-in tariff"). O objetivo dessa legislação era encorajar investimentos, e ajudar a trazer os custos da energia de tecnologias como os painéis solares e os parques eólicos para uma competitividade de mercado justa com o carvão, a energia nuclear ou o gás. As energias renováveis na Alemanha e em outros países explodiram com a tarifa feed-in, com um custo correspondente para os consumidores devido aos subsídios. Pela Europa afora, são amargas e em altos brados as disputas envolvendo políticas de subsídios para energia.

"Em tempos de sofrimento, toda forma de subsídio fica sob pressão", disse à Spiegel Online David Jones, o chefe para energia renovável do Allianz Capital Partners -- o grupo possui 42 investimentos em energia eólica no valor de 1,3 bilhão de euros [cerca de  R$ 3,4 bi, menos da metade do que o Tesouro Nacional vai ter que injetar no setor elétrico para bancar o desconto tarifário da Dona Dilma].  Jones disse que a chave para investidores como o Allianz é estabilidade crescente para os investimentos. Comentou que aumentou a diferença de risco entre países europeus, com possibilidade de ganhar mais dinheiro em países de risco maior, mas também de perdê-lo.

Na energia eólica, o investimento em capital inicial é especialmente importante, e a incerteza política em torno dos subsídios pode ter um efeito secundário negativo a esse respeito. Com o aumento de risco para o investimento, a incerteza pode fazer com que fique consideravelmente mais caro conseguir financiamento para projetos. Essa dupla ameaça pode levar ao fracasso o crescimento da energia eólica em 2013.

Confiança destruída

Embora a proposta de Altmeier possa ter o potencial de  criar dificuldades no lado financeiro, isso não é nada comparado com a perda de confiança gerada quando países mudam retroativamente a tarifa feed-in. O plano do ministro de Meio Ambiente alemão não alteraria os preços da energia produzida por parques eólicos já construídos, mas esse não é o caso de vários países Europa afora que anunciaram mudanças retroativas a partir da retração econômica.

Na já citada conferência da AEEE, as mudanças retroativas foram tratadas com o tipo de ódio e raiva geralmente reservado aos criminosos. O exemplo mais citado como o pior foi o da Espanha -- o país tem, consistentemente, passado os anos mais recentes tomando decisões que instilam o terror entre os investidores [dramático, o autor do texto].  Os espanhóis introduziram um corte retroativo da tarifa feed-in em 2008, e um imposto de energia de 7% no mês passado. E as novas regras que regulam essa tarifa, que se se tornaram lei no dia 2 de fevereiro, provocaram quedas significativas de valorização de ativos para os proprietários de parques eólicos na Espanha. O exemplo mais recente foi o da Acciona S.A., que há pouco viveu em quatro dias uma redução de cerca de 850 milhões de euros no valor de seus ativos.

Problemas em Paris

Nos últimos meses, quase cada país europeu que subsidia energias renováveis tem estado brincando com alterações ou reescrevendo a regulação de maneira caótica. O governo francês montou com sucesso uma tarifa feed-in para gerar demanda para energia eólica, mas depois sobrecarregou-a com uma burocracia asfixiante. Projetos de energia eólica têm agora que passar por um processo que pode levar de cinco a seis anos para que sejam aprovados.

Além disso, a tarifa feed-in na França mergulhou num atoleiro por causa de um grupo anti-eólico denominado "Vento de Cólera" ("Vent de Colère"). O grupo chama essa tarifa de uma forma de ajuda estatal, e abriu um processo legal direto na Corte de Justiça da União Europeia. Com a incerteza rondando o caso na justiça, e a expectativa de não se ter uma decisão até novembro, os investimentos se reduziram a uma gota. O resultado foi que, em 2012, a França instalou aproximadamente a metade da meta do governo para energia eólica nova. A Associação Eólica Francesa, que representa 250 empresas da indústria, espera uma perda de 1.000 empregos no final do ano. O presidente da associação, Nicolas Wolff, como num discurso fúnebre disse: "A França era um mercado promissor".

Sinais confusos

Baseando-se apenas nos números,  o ano passado foi um ano excepcional para a indústria de energia eólica na Europa. Mais de 25% da energia nova instalada no continente foram de energia eólica, de acordo com a AEEE, e 7% da demanda elétrica da Europa são hoje supridos por energia eólica. Entretanto, os tempos de enormes crescimentos de dois dígitos para a indústria podem ter acabado. Na Europa, o fracasso do sistema de comercialização de emissões abrangendo todo o continente, que objetiva penalizar as companhias pesadas em CO2 obrigando-as a comprar certificados para suas emissões e, assim, pretende estimular investimentos em energias verdes, está contribuido para o problema de crescimento. O chão desabou no mercado de certificados de emissões. Enquanto isso, os EUA sequer estabeleceram seu próprio sistema de comercialização de carbono -- some-se a isso o fato de que a fragmentação hidráulica deu ao país acesso ao gás natural, mais barato e mais limpo [ver postagem anterior]. Em vez de queimar carvão, os EUA estão agora exportando-o e baixando os preços de seu mercado global. 

Sem preço realista para o carbono, e com os maciços subsídios para combustíveis fósseis sintonizados em US$ 500 bilhões, a energia eólica provavelmente ficará estagnada. A China, com seu crescimento turbinado em energia eólica, poderia ser considerada como base importante para promover o crescimento global do setor, mas mesmo lá o mercado está "afogando". E o relatório "Wind Energy Outlook" ("Perspectivas da Energia Eólica") do Conselho Global de Energia Eólica estima ser improvável que mercados em desenvolvimento como Brasil e Índia ocupem esse espaço.

Para os participantes da indústria eólica, é o financiamento que é mais importante. E, para aqueles que têm o dinheiro, volatilidade significa muito simplesmente um risco maior. Até comentários de alto nível que servem como um contraponto político podem significar a perda de milhões de euros em custos adicionais para um único projeto novo. "Se você quer atrair investimentos", disse Kjaer, "você não pode emitir sinais confusos". 

Um futuro mais negro para a energia eólica no mundo? - (Foto: DPA). 



terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Eletrobras deve R$ 250 milhões à Impsa

Uma das empresas mais atuantes do mercado eólico brasileiro, a argentina Impsa aguarda há um ano e meio o pagamento pela Eletrobras da energia fornecida por dez parques eólicos localizados em Santa Catarina, num total de 222 megawatts (MW) de capacidade instalada. Segundo cálculos da companhia, o valor devido pela estatal brasileira já soma R$ 250 milhões, o equivalente a quase 20% dos R$ 1,3 bilhão investidos na construção das usinas, que entraram em operação em junho de 2011. Os parques pertencem à Energimp, sociedade formada pela Impsa (55%) e o FI-FGTS (45%).

Localizados nas regiões de Bom Jardim e Água Doce, na serra catarinense, os parques fazem parte do Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), considerada a primeira fase do setor eólico brasileiro. Os projetos contemplados no programa, que inclui também térmicas a biomassa e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), são remunerados pela Eletrobras, gestora da conta Proinfa, abastecida por meio de um encargo pago pelos consumidores brasileiros.  O Valor apurou que até o momento a Eletrobras não assinou o aditivo do contrato de compra de energia dos parques da Impsa. Há, pelo menos, três explicações. A primeira é que, no entendimento da estatal, não existiria regulamentação para a operação dos projetos. A segunda é que a estatal estaria insegura em fazer os repasses, por considerar frágil o licenciamento ambiental das usinas. E a terceira, segundo uma fonte a par do processo, seria a "morosidade" da Eletrobras. Procurada, a estatal não se pronunciou.

A lei que criou o Proinfa (10.438/2002) determinava que os projetos deveriam entrar em operação até o fim de 2006. Esse prazo foi prorrogado para dezembro de 2010 e novamente adiado para o fim de 2011. Com a mudança nos prazos, seria necessário um decreto presidencial que regulamentasse a mudança dos cronogramas. Em seguida, a Casa Civil entendeu que o decreto não era preciso e que bastaria a aprovação de uma regulamentação pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).  A agência regulamentou a situação dos parques da Impsa no início de 2012. Segundo informações da Superintendência de Regulação dos Serviços de Geração da Aneel, não há qualquer pendência hoje relativa à operação de usinas eólicas do Proinfa que entraram em operação após dezembro de 2010.  [Eis aí um belo exemplo da aberração que é a burocracia brasileira -- enquanto o processo ficava nesse pingue-pongue e os burocratas brincavam de administrar, a Impsa ficava a ver navios -- e continua assim até hoje.]

Segundo o vice-presidente executivo da Impsa, Jose Luis Menghini, a companhia está à disposição para atender qualquer questionamento da Eletrobras. "Decidimos nossos investimentos sonhando com uma paisagem razoavelmente estável, onde as regras do jogo são respeitadas. É óbvio que, quando isto não acontece, afeta um pouco o nosso interesse investidor", afirmou.

Menghini, no entanto, disse que o impasse não influencia o atual plano de investimentos da empresa para o Brasil, que responde por mais de 65% do faturamento global da Impsa, cuja previsão para 2013 é de R$ 3,6 bilhões. Além de geradora, a Impsa é fornecedora de equipamentos para eólicas e hidrelétricas. Seus principais investimentos são a ampliação de uma fábrica de equipamentos eólicos em Pernambuco e a construção de uma nova unidade no Rio Grande do Sul e de outra fábrica voltada para equipamentos para grandes hidrelétricas, também em Pernambuco. A Impsa também possui 1 mil MW de capacidade instalada entre projetos em operação (40%), em implantação (30%) e em início de construção (30%). O Valor apurou que o complexo eólico de Alegria, no Rio Grande do Norte, que entrou em operação em março de 2011, também não recebeu o pagamento pela Eletrobras.

[O histórico do governo petista -- NPA (Nosso Pinóquio Acrobata, Lula) + Dilma -- também na área de energia eólica é péssimo. Além dos calotes citados acima, de responsabilidade direta da Eletrobras, há ainda a inacreditável história dos 32 parques eólicos (entre os 71 leiloados em 2009) parados por falta de linhas de transmissão. A (ir)responsável por essas linhas é a Chesf, "controlada" pela Eletrobras, que nada fez e ficou por isso mesmo. Nesse imbróglio eólico estatal há nitidamente três culpados inequívocos: Eletrobras - Chesf - Aneel. A Eletrobras porque, além de inadimplente nos contratos, não controla de fato sua subsidiária Chesf (o sistema Eletrobras é uma síntese do saco de gatos que é a base política do governo petista: a holding Eletrobras é, de longa data, feudo do PMDB (leia-se José Sarney) e a Chesf será feudo do PSB enquanto o governador de Pernambuco (estado-sede da Chesf) for Eduardo Campos (que indicou o atual presidente dessa estatal, no cargo desde 2011). Então, nem que a vaca tussa a Eletrobras conseguirá de fato enquadrar a Chesf.

A Chesf entra naquele trio de culpados por razões óbvias: é incompetente e ineficiente, não cumpre seus compromissos. Se fosse empresa privada, seria declarada inidônea e não poderia prestar serviços ao governo. Mas, como o critério de gestão é baseado em politicalha, danem-se o país e os consumidores. Só na Bahia, são 14 parques de quase 300 MW no total, que custaram R$ 1,2 bi e nada geram desde julho de 2012. 

A Aneel é a chamada incompetência transparente, cristalina e inequívoca. No jogo político que campeia solto no setor elétrico estatal, a agência se comporta como cego em tiroteio. É um órgão eunuco e inútil.]