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segunda-feira, 22 de abril de 2013

Superávit fiscal -- FMI adverte Brasil sobre maquiagens nas contas públicas

O Brasil ainda tem uma dívida pública elevada para um país emergente, e o melhor a fazer é cumprir a meta de superávit primário de 3,1% do PIB neste ano, sem lançar mão de mecanismos que o reduzam, disse na semana passada Philip Gerson, vice-diretor do departamento de Assuntos Fiscais do Fundo Monetário Internacional (FMI). A dívida bruta do governo brasileiro deve ficar em 67,2% do PIB neste ano, abaixo dos 68,5% do PIB de 2012, mas bem acima da média de 34,3% do PIB dos países emergentes, de acordo com previsões da instituição. Já a dívida líquida, mais usada no Brasil e que abate ativos como as reservas internacionais, vai atingir 33,6% do PIB em 2013, prevê o FMI. Ainda assim, um número superior à média de 23,6% do PIB projetada para os países emergentes. [Ver postagem anterior sobre as maquiagens financeiras do governo Dilma.]
Maracutaias do governo para engordar o superavit primário -- clique na imagem para ampliá-la. -- (Ilustração: Editoria de Arte/Folhapress).


Gerson lembrou que o país gerou por um bom tempo superávits primários expressivos, que ajudaram a tirar pressão sobre os juros, permitindo uma redução das taxas de níveis que eram muito elevados. "Esse processo foi bem sucedido", disse ele. Para Gerson, o Brasil deveria insistir nessa política e cumprir a meta "cheia" de 3,1% do PIB, sem abatimentos de algumas despesas. "É um número apropriado", afirmou ele, dizendo que produzir superávits primários robustos é um apoio à política monetária e ajuda na redução da dívida como proporção do PIB, algo importante,que ajudaria o Brasil a enfrentar problemas como os que serão ocasionados pelo envelhecimento da população, por exemplo. Gerson respondeu a uma pergunta sobre o nível de endividamento no Brasil na apresentação do Monitor Fiscal do FMI, documento divulgado ontem na reunião de primavera do FMI e do Banco Mundial, em Washington.

A meta de 3,1% do PIB, porém, está muito distante. Reportagem publicada no dia 16/4 no Valor mostra que o superávit primário (a economia para pagar os juros da dívida) pode cair para 1,5% do PIB neste ano. Segundo essa reportagem, no ano passado, os Estados e municípios fizeram 0,49% do PIB de superávit primário, o pior resultado desde 1999, segundo o Banco Central. As projeções mais otimistas do mercado apontam para um superávit de 0,6% neste ano. Se isso vier a ocorrer, o resultado primário de todo o setor poderá ficar em até 1,5% do PIB (0,9% do governo central mais 0,6% dos Estados e municípios).

O secretário do Tesouro, Arno Augustin, defendeu a decisão [do Planalto] de desobrigar o governo federal de compensar a frustração do resultado fiscal de Estados e municípios com o argumento, exposto durante entrevista convocada para divulgar o projeto de LDO de 2014, de que a medida mantém coerência com a política fiscal anticíclica executada pelo governo. Na avaliação dele, não faz sentido o governo autorizar a contratação de empréstimos por parte dos Estados para realizar investimentos e, ao mesmo tempo, compensar a frustração fiscal desses entes da federação.

Mesmo defendendo a medida, Augustin foi contra a mudança da meta de superávit primário do setor público, ainda mantida em 3,1% do PIB na LDO. Os jornalistas perguntaram a ele se, em vez de ampliar os descontos do superávit primário, não seria mais transparente o governo assumir a diminuição da meta fiscal, explicando os motivos para a sociedade. "Não acho que seria bom reduzir a meta", disse o secretário. "Achamos que a meta (de 3,1% do PIB) deve ser mantida e, por uma questão de transparência, deixaremos claras as razões pelas quais ela poderá ser reduzida", afirmou. "Não achamos que ela deva ser reduzida para acomodar elevações de gastos de custeio", afirmou.

[Em setembro de 2012, a situação mundial em termos da relação "dívida pública/PIB" era a seguinte, segundo a Wikipédia (clique na imagem para ampliá-la): 

Mapa-múndi da relação entre dívida pública e PIB - (Fonte: Wikipédia).

Pelo mapa acima, vê-se que o Brasil é o país de maior relação dívida pública/PIB  na América Latina e também em relação aos demais países do Brics  (Rússia, Índia, China e África do Sul).]

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Portugal volta aos mercados e recupera sua soberania financeira

[Eis uma boa notícia, sinalizando a possibilidade de tempos melhores para Portugal, um dos países na lista dos mais atingidos pela crise da zona do euro. Os textos abaixo são reproduções parciais de reportagens dos jornais El País (Espanha) e Diário de Notícias (Portugal).]

Quase dois anos depois de pedir resgate em abril de 2011, Portugal retornou aos mercados de dívida de longo prazo sem o amparo da troika [Banco Cental Europeu (BCE), Fundo Monetário Internacional (FMI) e Comissão Europeia (CE)] numa tentativa de recuperar parte de sua soberania financeira e de sua autoestima econômica. E com êxito.

As emissões de Obrigações do Tesouro de 5 anos seriam, inicialmente, em um valor de 2 bilhões de euros. Mas, devido à demanda -- quase 12 bilhões de euros, em sua esmagadora maioria de investidores estrangeiros --, o governo português decidiu aumentar o montante oferecido e chegar aos 2,5 bilhões de euros. A taxa de juros das obrigações, tal como previsto, ficou inferior a 5% (em exatamente 4,8%), o que o governo português considera um sucesso.

A data foi definida como histórica por políticos portugueses, pela mídia especializada e por economistas. Desde quase dois anos, Portugal se financia graças à remessa dos macroempréstimos de 78 bilhões de euros da troika e a bônus pequenos de curto prazo. Inicialmente, o governo pretendia recorrer aos mercados de dívida de longo prazo em setembro, mas três fatores básicos fizeram avançar o processo e a antecipação, pelo governo, de sua decisão: - i) a conjuntura favorável dos mercados internacionais, com os juros do mercado secundário de dívida de vários países em baixa há várias semanas; - ii) o pedido feito ontem ao eurogrupo pelo ministro das Finanças, Vitor Gaspar, de mais tempo a fim de retardar o vencimento do macroempréstimo da troika, o que relaxará o torniquete que estrangula a economia portuguesa; - iii) a emissão bem sucedida feita ontem pela Espanha com títulos de 10 anos.

Para alguns especialistas, a antecipação do encontro com os mercado é um êxito inegável de Portugal em seu intento de reconquistar confiança internacional e distanciar-se definitivamente do destino grego e de seu caminho caótico.

Correta e sabiamente cauteloso, o editorial de hoje do Diário de Notícias ("Euforia e contenção") diz textualmente: "O dia de ontem é o primeiro passo de Portugal para recuperar a sua independência financeira em relação à troika. O regresso superpositivo aos mercados é uma vitória de Vítor Gaspar e Passos Coelho e é muito importante para o País: se os bancos e as empresas voltarem a financiar-se a taxas de juros comportáveis nos mercados, soltarão mais dinheiro para a economia e poderão incentivar de novo o emprego. Seria o início da recuperação. 

Mas deixando um pouco de lado a justificada alegria quanto à emisão muito bem sucedida de dívida pública, o difícil caminho da redução do défice do Estado obriga a que todos mantenham os pés bem assentes na terra. Em termos de contabilidade pública - a conta corrente das administrações públicas - o défice em 2012 terá ficado uns 700 milhões abaixo do valor máximo acordado com a troika: 8300 milhões de euros, em vez de 9028 milhões. Este valor corresponde a 5% do PIB, em vez dos 5,4% acordados (nesta forma de fazer as contas!). Mas o que vale é a medição do défice em contabilidade nacional, isto é, a partir dos compromissos de receita e despesa contraídos. E, para este resultado, resta saber se as operações irrepetíveis, como a concessão da ANA, são ou não validadas pelo Eurostat.

O que conta, quanto ao esforço adicional exigido em 2013, é que o défice vai ter de descer de um valor à volta dos 6% do PIB para os 4,5% - uma redução de 2500 milhões que, como é sabido, sairá do bolso dos contribuintes: trabalhadores e reformados. Não é novidade, mas convém recordá-lo para realçar o facto de o programa de ajustamento ter várias vertentes que vão evoluindo a ritmo diferenciado. Enquanto a dívida das empresas e famílias tem vindo a reduzir-se, mediante forte aperto de rendimentos e de atividade produtiva, a descida dos défices públicos ainda não permitiu começar a baixar o peso da dívida pública, nem se espera que o consiga antes de 2015.

Assim, até que a economia dê sinais de voltar ao otimismo e ao dinamismo criativo, os tempos continuarão ainda a ser de contas muito apertadas... para todos."  

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Opiniões do FMI sobre o Brasil pouco ou nada difundidas pela mídia e pelo governo

[O relatório que o  FMI apresentou na sua reunião em andamento em Tóquio contém informações e comentários importantes sobre o Brasil, alguns preocupantes, que misteriosa e sintomaticamente  o governo está sonegando ao país, com o apoio inexplicável e lamentável da mídia. É o que nos conta um editorial de ontem do jornal O Estado de S. Paulo, reproduzido abaixo. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

No relatório apresentado na reunião do FMI em Tóquio, relativo à Estabilidade Financeira Global, os autores estão dando uma atenção particular ao Brasil. De um lado, mostram os inconvenientes de uma expansão excessiva do crédito, por outro, assinalam que, embora hoje numa situação confortável, nosso país poderá ter de enfrentar uma situação delicada se se interromper, de repente, o fluxo de créditos no mercado internacional.

Há tempos estamos apontando, aqui, que a política seguida pelo governo do PT de ampliação rápida dos empréstimos bancários com o objetivo de favorecer o consumo apresenta diversos inconvenientes. Não se trata de denunciar a política que visa a reduzir as taxas de juros, pois, de fato, em comparação com a Selic, as instituições financeiras mantiveram juros elevadíssimos que impediam o desenvolvimento da produção e ao mesmo tempo não conseguiam conter a demanda doméstica.

O problema é que a expansão muito rápida do crédito favorece as pressões inflacionárias. O volume e a oferta de crédito tem de ser proporcional aos rendimentos da população, caso contrário abre as portas, no prazo médio, para sérios problemas. O exemplo extremo foi certamente o do boom imobiliário nos EUA, mas temos de reconhecer que já está ocorrendo no Brasil com a alta contínua do preço dos imóveis. Um excesso de liquidez favorece o endividamento das famílias e das empresas, que desemboca com prazo variável em violenta queda da demanda doméstica e em falência das empresas. As autoridades monetárias têm diversos instrumentos para a contenção do crédito, sendo o recolhimento do compulsório o mais eficiente. O grave erro dos governos petistas foi o uso do crédito como instrumento privilegiado para elevação da demanda, enquanto as taxas de juros altas não permitiram que a produção industrial acompanhasse a curva da demanda.

O relatório do FMI dá uma informação da qual pouco se fala: o endividamento do Brasil coloca o País num ranking nada confortável quanto ao risco de insolvabilidade, muito perto dos países da zona do euro que hoje estão enfrentando dificuldades de grande amplitude para reduzir sua dívida externa [eis aí uma informação extremamente preocupante prativamente não divulgada no país].

O documento do FMI reconhece que com suas reservas internacionais o Brasil está apto a enfrentar uma situação de prazo curto. A preocupação dos autores do relatório diz respeito a uma situação em que o País não tenha mais possibilidade de encontrar recursos externos, a não ser a um custo muito elevado. Trata-se de uma advertência para se levar em conta.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Medidas de austeridade revoltam os portugueses

[O título desta postagem se refere apenas aos portugueses, mas se aplica inteiramente e sem tirar nem por aos gregos e espanhóis, entre outros mais atingidos pela crise do euro. Aliás, também sem grande esforço isso se aplica perfeitamente ao Brasil no caso da saúde pública, com ou sem crise. O artigo que traduzo a seguir foi publicado ontem no jornal francês Le Monde.]

Por muito tempo eles foram os discípulos modelos da zona do euro. Aqueles que aceitavam, quase sem reclamar, as receitas dos financiadores do país: o Banco Central Europeu (BCE), a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional (FMI).  Enquanto os gregos iam às ruas e os espanhóis se indignavam, eles, os portugueses, se resignavam ante uma austeridade que objetiva reduzir o deficit público de 9,8% do PIB em 2010 a 4,7% em 2012.

Esse tempo se acabou? Ontem, 11 de julho, os médicos portugueses iniciaram uma greve de dois dias, prometendo a maior mobilização dos últimos vinte anos. Os médicos não se conformam, e contam com o apoio de pacientes exasperados com a visível degradação do sistema de saúde. As listas de espera se alongam com a falta de pessoal, e a parcela de responsabilidade dos segurados no seguro-saúde está se encarecendo para os usuários de serviços públicos. Quanto aos médicos, não se conformam em ver seus salários reduzidos com a supressão de seu 14° salário.

Aos médicos somam-se os enfermeiros, que exigem o cancelamento de uma decisão do governo de fazer terceirização com empresas privadas, pagando menos de 4 euros a hora, diz a agência AFP.

Hospitais superendividados

O objetivo é fazer economia nos hospitais superendividados, e há urgência nisto. No dia 9 de julho, o laboratório alemão Merkel KGaA, cansado de ver suas faturas não serem pagas, ameaçou desistir de seus projetos de pesquisa médica em Portugal. "Uma confiança recíproca é um aspecto importante, mas a falta de disposição do Estado português de pagar o que deve diminui essa confiança", explicou Fritz Sacher, representante da Merck em Portugal, ao jornal Financial Times Deutschland  [a reportagem em alemão tem o título "Merck perde a paciência com Portugal"].

Mas, desta vez os portugueses não parecem dispostos a deixar as coisas passarem em branco. A indignação cresce e se reflete no índice de popularidade do governo, em baixa nos últimos meses. É que, desde o início do ano, "as pessoas começam realmente a perceber e sentir a austeridade, que até agora permanecia muito teórica", diz Diogo Teixeira, do fundo de investimentos Optimize.

Os funcionários e os aposentados tiveram que renunciar a seus 13° e 14° salários, que serviam normalmente para pagar as férias e os impostos. Esse dispositivo poderá, no entanto, voltar à baila em 2013 porque a Corte suprema portuguesa julgou inconstitucional essa medida de austeridade por não ser isonômica, não atingindo senão uma parte da população, e por ser imposta sem limitação de tempo [belo imbróglio futuro ...].

Zelo do governo

Por bravata ou em benefício da ortodoxia orçamentária, o governo de Pedro Passos Coelho (PSD, centro-esquerda) respondeu à Corte que tornará a medida constitucional ..., exigindo sacrifícios equivalentes aos portugueses do setor privado. O Estado não quer se privar dos cerca de 2 bilhões de euros gerados por esse dispositivo.

Com uma recessão estimada em 3% este ano, "já é difícil cumprir com as metas do deficit", constata Gilles Möec, do Deutsche Bank. Em 2011, continua ele, a transferência ao Estado dos fundos de reserva de aposentadoria dos bancos [ao que me parece, algo remotamente parecido ao nosso FGTS]  havia reduzido artificialmente o deficit para cerca de 3% do PIB -- essa benesse não se repetirá mais.  Mas, espera ele, pode ser que o governo ao se mostrar zeloso tenha direito, como o da Espanha, a uma dilatação de prazo para sanear suas finanças.


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Christine Lagarde, do FMI, recrimina fortemente quem não paga impostos, mas ela própria não os paga

[A velha arrogância francesa e a clássica insensibilidade do FMI, personificadas em Christine Lagarde, principal dirigente desse Fundo, geraram mais um lamentável e absolutamente desnecessário espezinhamento público da Grécia, como se vê pelo texto abaixo, traduzido de reportagem publicada no jornal inglês The Guardian de ontem. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Christine Lagarde, a chefona do FMI provocou uma forte reação de revolta internacional depois de afirmar, em uma entrevista ao jornal The Guardian, que os gregos fariam melhor se pagassem seus impostos, e se soube que ela própria não paga impostos. Como executiva de uma instituição internacional, seu salário anual de US$ 467.940 (£ 298.675)  e mais uma compensação anual de US$ 83.760 não estão sujeitos a quaisquer impostos.

A ex-ministra francesa das Finanças assumiu o posto de diretora-geral do FMI no ano passado, quando sucedeu ao seu compatriota Dominique-Strauss Khan, que caiu em desgraça e foi forçado a renunciar  depois de ter sido acusado (com denúncias que depois foram retiradas) de assédio sexual a uma arrumadeira de um hotel em Nova Iorque.

Lagarde, de 56 anos, recebe de salário e benefícios mais do que o presidente Barack Obama recebe do governo americano, e ele paga impostos sobre isso.

A isenção fiscal de Lagarde é a mesma que se aplica a quase todos os empregados da ONU, pelo artigo 34 da Convenção de Viena de 1961 sobre relações diplomáticas, assinada por 187 países, que declara: "O agente diplomático gozará de isenção de todos os impostos e taxas, pessoais ou reais,  nacionais, regionais ou municipais [com as exceções seguintes ... (ver texto da Convenção)].

De acordo com o contrato de Lagarde, ela  tem direito a um aumento salarial no dia 1 de julho de cada ano, durante os cinco anos de vigência desse documento.

Os salários básicos [na ONU] variam de US$ 46.000 a US$ 80.521. Os salários de nível sênior vão de US$ 95.394 a US$ 123.033, mas são complementados com ajustes para fazer frente ao custo de vida em diferentes países [bela mordomia!]. Um empregado da ONU baseado em Genebra, por exemplo, verá seu salário de referência aumentado em 106%, em Bonn por 50,6%, em Paris por 62% e em Peshawar [Paquistão] por 38,6%. Mesmo em Juba, a capital do Sudão do Sul, um dos países mais pobres do mundo, o salário de um empregado da ONU será aumentado em 53,2%.

Outros benefícios incluem subsídio para aluguel, compensações financeiras relativas a esposa e filhos, subvenção para educação de crianças em idade escolar, auxílio para viagem e transporte [remessa de bens], assim como seguro médico subsidiado.

Durante muitos anos os críticos desse sistema têm reclamado que os empregados do FMI, do Banco Mundial e da ONU vivem luxuosamente às custas do contribuinte internacional.

Durante a conferência econômica de Bretton Woods em 1944, em que o FMI foi criado [e também o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD, em inglês), e o dólar foi adotado como moeda de referência para o comércio internacional], políticos americanos e britânicos discordaram sobre os salários dos burocratas. Os delegados britânicos, incluindo o economista John Maynard Keynes, consideraram "monstruosas" as propostas salariais dos americanos, mas foram derrotados [é bom lembrar que a Segunda Grande Guerra ainda grassava quando isso foi decidido].

Funcionários dessas várias organizações [internacionais] há tempos insistem em que os salários altos são uma maneira de atrair talentos do setor privado. Na realidade, a maioria dos cargos de nível sênior é recrutada de setores governamentais.

Christine Lagarde, diretora-geral do FMI - (Foto: Dominick Reuter/Reuters).

sábado, 12 de maio de 2012

Governo espanhol estabelece novas exigências para o setor bancário

[Traduzo a seguir reportagem de ontem do jornal El País. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

A segunda reforma financeira do governo em pouco mais de três meses terá um forte impacto na conta de resultados na maioria dos bancos e caixas [da Espanha]. A reforma exige que se provisione o crédito promotor teoricamente sadio, com coberturas que vão desde 7% para os empréstimos que financiam promoções terminadas, até 45% para os créditos promotores sem garantia hipotecária ou que tenham como garantia o solo, passando para 22% para as promoções em curso [crédito promotor, na Espanha, é o crédito concedido ao setor imobiliário no período de expansão da construção]. A essas cifras se somam os 7% que já se exigiam na reforma de fevereiro, que fracassou no seu objetivo de restabelecer a confiança internacional no setor financeiro espanhol.

As novas coberturas serão, portanto, de até 52% para parte do crédito que antes se considerava sadio. Com dados de fechamento do ano passado, as instituições com maior volume de crédito promotor teoricamente sadio em suas contas eram Bankia (com cerca de 19,5 bilhões de euros), La Caixa (com 13,65 bilhões) e o Banco Santander (com 12,8 bilhões). 

A entidade [Bankia], nacionalizada recentemente e presidida desde esta semana por Jose Ignacio Goirigolzarri, já era a que possuía um maior volume de ativos podres em imóveis  [investimentos que perderam grande parte de seu valor, real ou financeiro], mas era também a que possuía mais créditos considerados teoricamente sadios, que agora terá que provisionar. Esses novos requisitos obrigarão o Banco Financiero y de Ahorros - BFA [Banco Financeiro e de Poupanças, em tradução livre], matriz do Bankia, a solicitar mais ajuda pública para manter sua solvência. Além disso, no caso do crédito teoricamente sadio, o problema não está na matriz, que atuava mal como um  banco, mas no próprio Bankia, que é cotado em Bolsa. Com o presidente anterior, os planos da instituição passavam por recapitalizar-se com a conversão de [participações] preferenciais em ações [participações preferenciais, na Espanha, são bônus de dívida de prazo perpétuo que não dão a seus proprietários direito de propriedade nem de recuperação do dinheiro investido. O portador do bônus somente recebe juros sempre e quando a entidade emissora receber benefícios (tiver receita). Se o portador do bônus quiser recuperar o investimento inicial, tem que vender o título a outro investidor interessado, em um mercado interno -- controlado pela própria sociedade emissora do bônus -- já que, como o prazo é perpétuo, a entidade não tem obrigação de reembolso.]

Esforço menor

Ainda que La Caixa e o Banco Santander sejam as duas instituições com mais crédito promotor teoricamente sadio, em proporção ao seu volume o esforço financeiro será muito menor que no caso BFA-Bankia.

Em proporção ao seu porte, tomando como referência o volume do investimento creditício na Espanha, as instituições com maior crédito promotor em situação normal são algumas das que já foram absorvidas ou nacionalizadas. Com os números do fechamento de 2011, nesse grupo se encontram Caixa Duero-España, Caixa 3, Banco CAM ou NCG Banco.

Entre os bancos, os que tinham no final do ano passado um maior volume de crédito teoricamente sadio em relação a seu investimento creditício total são, sem contar o Banco de Valência já sob intervenção, o Banco Popular e o Pastor, ambos em processo de fusão, uma operação que podem aproveitar para sanear em parte seus balanços.

domingo, 18 de março de 2012

FMI deu aval a empréstimo de € 28 bi à Grécia, mas Brasil se absteve

O Fundo Monetário Internacional (FMI) deu no dia 15 sinal verde ao novo empréstimo à Grécia, que chegará a € 28 bilhões. A liberação dos recursos é a última etapa do segundo plano de socorro ao país, aprovado pela União Europeia e que totaliza € 130 bilhões. Com o valor, o Fundo - e seus países-membros - sinalizam também que vão investir bem abaixo do porcentual de 33% de participação nos planos de resgate anteriores, feitos à Grécia, à Irlanda e a Portugal.

Desde o dia 15, a primeira parcela do empréstimo, de € 1,65 bilhão, já estava desbloqueada e podia ser sacada pelo governo do primeiro-ministro Lucas Papademos. O objetivo, segundo comunicado do Fundo, é "apoiar o programa de ajuste econômico das autoridades".  A decisão de liberar o resgate foi tomada por representantes de 24 países que integram o Conselho de Administração do FMI. O grupo também confirmou o prazo de quatro anos para o desbloqueio do valor total.

Em seu auge, entre 2013 e 2015, o FMI vai fornecer à Grécia € 20,3 bilhões, além de outros € 10 bilhões do primeiro plano de socorro, datado de maio de 2010, que deixa oficialmente de existir e passa a ser absorvido pelo atual programa, com juros menores e prazo de reembolso prolongado. Além de participar do esforço financeiro liderado pela UE e pelo Banco Central Europeu (BCE), o FMI também aceitou revisar a prioridade do programa de ajustes que exigia de Atenas, conforme informações do jornal grego Katherimini.

Em lugar de austeridade fiscal, com ênfase no corte de gastos e de investimentos públicos, o governo de Papademos terá de perseguir em primeiro lugar a reforma da economia grega, para devolver competitividade à agricultura e à indústria do país. Um dos objetivos, por exemplo, será aprimorar as estruturas de coleta de impostos, que no ano passado, sob a tutela da troica - o grupo de técnicos da UE, do BCE e do FMI - conseguiu arrecadar € 946 milhões em tributos devidos, muito além da meta de € 400 milhões fixada.  De acordo com as estimativas do Fundo, com a ênfase nas reformas econômicas, a Grécia conseguirá inverter a depressão que somará 20% do Produto Interno Bruto (PIB) entre 2008 e 2012. A perspectiva do FMI é de que em 2013 o PIB grego cresça 0,3%.

Brasil no FMI. O representante do Brasil no FMI), Paulo Nogueira Batista, advertiu ontem que a Grécia provavelmente terá pela frente mais problemas de financiamento, apesar do novo pacote de resgate. "As situações econômica, política e social da Grécia ainda me dão motivos para continuar muito preocupado", disse Nogueira Batista, que representa o Brasil e mais oito países no FMI. "Em minha opinião, essa nova rodada de medidas dá tempo para respirar, mas não altera fundamentalmente as perspectivas de médio prazo da Grécia", argumentou.

Ele salientou, porém, que seus comentários refletem apenas sua opinião pessoal e reconheceu o empenho dos gregos em reduzir os gastos a um grande custo para seus cidadãos, assim como os esforços da equipe do FMI para elaborar um programa que ajude o país a se recuperar.

Nogueira Batista confirmou que se absteve de participar na decisão adotada ontem pela diretoria do Fundo sobre a liberação do empréstimo para a Grécia. Como a direção do FMI raramente realiza votações, optando mais frequentemente pelo consenso, a abstenção é a maneira diplomática de se manifestar objeção a uma decisão. [Continuam para mim um mistério insondável a lógica e a diretriz (se é que existe alguma) que regulam a participação desse Paulo Nogueira Batista no FMI. Esse cidadão, que frequentemente escreve para o Globo, volta e meia dá umas opiniões que ou não casam inteiramente com o que diz o governo, ou dele divergem inteiramente -- e, aí, esse personagem diz que está dando sua opinião pessoal. Desde quando um representante de seu país (e de mais oito) dá publicamente opiniões "pessoais" dessa natureza em assuntos envolvendo sua representação?! E que coisa estranha é essa de a presidente Dilma dizer de público que quer o FMI envolvido na solução da crise europeia, e seu representante nesse órgão se abstém de votar p'ro fundo de resgate para a Grécia -- ou seja, o Brasil não concorda com essa ajuda?! Quem é que está mentindo nessa história?!]


quarta-feira, 14 de março de 2012

A bomba de 100 bilhões de euros -- O sistema de Bancos Centrais da eurozona está maciçamente desequilibrado (III)

Vejam a postagem anterior sobre esse assunto.

O que é ainda pior é que os bancos centrais também tornaram-se crescentemente negligentes quanto aos requisitos colaterais que exigiam para empréstimos a bancos de seus países. Enquanto, no passado, só aceitavam bônus de governos com avaliação de alto nível, agora começaram a aceitar garantias de segunda ou terceira categoria. Isso pode ser visto claramente nas estatísticas: justo entre 2005 e 2010, o volume de garantias aceitas pelos bancos centrais aumentou de € 8 bilhões para € 14 bilhões -- e cresceu igualmente ainda mais desde então.

Especialmente os bancos nos países em crise, que já são dependentes de seus bancos centrais, agora lhes apresentam suas piores garantias. Os bancos gregos, por exemplo, têm basicamente bônus de seu próprio governo em seu portfólio. Ninguém no mercado livre quer essas garantias, mas o banco central grego continua a aceitá-las, emitindo em troca dinheiro novo para os bancos. "Fluxo de caixa privado foi substituído por fluxo de caixa público", explica Sinn.

Isso se torna perigoso, se essas garantias forem necessárias em algum momento, por exemplo se a Grécia deixar a união monetária ou declarar falência. Nesse momento, os bônus gregos não terão valor, e será mínima a probabilidade de que o banco central grego seja capaz de pagar suas dívidas ao sistema do euro.

"Se apenas uma pessoa diz isso, não pode ser verdade"

No início, Sinn recebeu muitas críticas por suas opiniões. Houve uma espécie de clamor de protestos, quando publicou pela primeira vez detalhes de suas ideias no Frankfurter Allgemeine Zeitung, em parte porque nem todas essas suas ideias foram formuladas e apresentadas tão claramente como em seu mais recente artigo sobre o assunto. Ele estava exagerando e artificialmente superestimando os riscos, diziam outros economistas. O próprio Bundesbank, inicialmente, também rejeitou como mais ou menos inofensivos os balanços divergentes. Sinn estava essencialmente só e isolado com suas ideias.

"Todo mundo pensava: se apenas uma pessoa diz isso, não pode ser verdade", disse Sinn. Apesar disso, diz o economista, ele nunca duvidou de sua própria interpretação dos fatos. Agora, a maioria das vozes críticas silenciou. "Passei duas semanas examinando o assunto", diz um professor de economia alemão. "Sinn está certo, sua análise é brilhante". Outros reconhecem, rangendo os dentes, que os riscos dos balanços do TARGET2 parecer ser maiores do que achavam originalmente.

Enquanto isso, o BCE confirmou os princípios por trás da análise de Sinn, mas tirou conclusões consideravelmente inócuas, pelo menos publicamente. O fato de que os fundos do banco central sejam distribuídos tão desniveladamente, de acordo com o BCE, na realidade ajuda a gerar estabilidade, já que bancos financeiramente sólidos "mesmo em países financeiramente estressados" são capazes de satisfazer suas necessidades de liquidez. Esse comunicado parece ser tranquilizador apenas à primeira vista. A verdade nua e crua é que ele significa que os bancos comerciais nos países europeus atingidos pela crise estão forçados a se respaldar em fundos de seus bancos centrais, porque não conseguem mais obter dinheiro em outro lugar.

Eurobônus ajudariam a resolver o problema

É difícil vir com maneiras de reduzir risco sem mergulhar a zona do euro no caos -- exatamente o que aconteceria, se os bancos centrais dos países em crise fossem obrigados a pagar suas dívidas da noite para o dia. Sinn sugere que sejam endurecidos os regulamentos que os bancos comerciais ou colaterais utilizam para tomar empréstimos de bancos centrais. No médio prazo, ele diz, os bancos centrais seriam forçados a regularmente consolidar suas dívidas com garantias mais seguras, o que é prática comum no Federal Reserve System dos EUA.

Outra sugestão para reduzir o risco de bancos centrais seria deslocar a ajuda da política monetária para a política fiscal, por exemplo pela criação de eurobônus. Este, no entanto, é uma caminho que Sinn prefere não levar em conta. Em vez disso, ele defende medidas mais duras [até quando?! - e se o doente morrer com a violência do remédio? ...].  "As regras precisam ser mais restritivas", diz ele. Quem não puder cumprí-las não pertence à zona do euro [não pode fazer parte dela]".  Sinn, como sempre, o provocador. [Ah, o velho estilo marcial germânico! O problema é que todo mundo (inclusive e principalmente a Alemanha) dormiu no ponto na hora de montar a união monetária, deixaram a coisa correr frouxa, nivelaram gigantes e pigmeus por baixo, e agora está todo mundo correndo como louco atrás do prejuízo.]


A bomba de 100 bilhões de euros -- O sistema de Bancos Centrais da eurozona está maciçamente desequilibrado (II)

Vejam apostagem anterior sobre o mesmo assunto.

Hans-Werner Sinn gosta de ser provocativo. Neste caso, entretanto ele parece estar realmente preocupado. Sentado em um restaurante em Berlim, com seu laptop aberto à sua frente, ele usa a ponta de sua colher de café para acompanhar as linhas amarelas e azuis que serpenteiam no visor. Tais linhas mostram a extensão em que a zona do euro saiu dos trilhos.  "Isto é perigoso", diz Sinn, seus olhos brilhando. Esses desequilíbrios financeiros devidos por outros bancos centrais deixam a Alemanha exposta a chantagem, explica ele. "Agora, todo mundo sabe que temos que salvar o euro a qualquer custo".

Sua tese soa dramática, no entanto até agora Sinn não conseguiu fazer com que o público em geral se interesse pelo problema, que está apenas lentamente se espalhando para além dos círculos econômicos. Ele conseguiu fazer isso chegar aos grandes jornais, mas o tabloide popular Bild não publicará tão cedo a descoberta de Sinn em sua primeira página.

Sinn certamente não hesita em fazer-se ouvido. Ele é um convidado bem-vindo em talk shows, porque expõe sua posição de maneira clara, temperada com comentários breves mas eficientes. Mas, esta abordagem não funciona com o assunto atual de Sinn, que é muito complexo para um show desse tipo. E há ainda o nome do sistema de pagamento entre os bancos centrais -- "TARGET2" ("OBJETIVO2") -- que soa tão excitante como o nome de um seminário de contabilidade.

Parte 2 - A gênese do problema

Teoricamente, o sistema deveria ser tão inofensivo quanto parece. TARGET2 é previsto para ajudar a processar as demandas de pagamento entre bancos centrais, que resultam de cada transferência bancária transfronteiriça dentro da união monetária. Enquanto a economia estiver equilibrada, e bens e dinheiro estejam fluindo em todas as direções, as contas fecham. Mesmo se um país importar mais do que exportar, ele geralmente é capaz de cobrir a diferença com a entrada de capital externo, mantendo em zero ou próximo dele o balanço das contas no TARGET2. Esse foi o caso até o começo de 2007.

Eis um exemplo:  uma empresa grega compra um caminhão de uma empresa alemã. O banco local da companhia grega em Tessalônica transfere o pagamento do caminhão para o banco da empresa alemã em Stuttgart. Como o pagamento é efetuado através dos bancos centrais dos dois países, isso gera uma dívida do banco central grego junto ao BCE dentro do sistema Target2, ao passo que o banco central alemão passa a ter um crédito junto ao BCE pelo mesmo montante.

No sistema Target, todas as remessas ou transferências  transfronteiriças fluem através dos bancos emissores - [EZB = BCE; - überweist Geld = dinheiro transferido; - Griechische Geschäftsbank = banco comercial grego; - Griechische Zentralbank = banco central grego; - Weitergabe der Überwesung = processamento da transferência; - Hier entsteht eine Verbindlichkeit gegenüber der EZB = aqui ocorre uma obrigação (dívida) junto ao BCE; - Hier entsteht eine Forderung gegenüber der EZB = aqui ocorre um crédito junto ao BCE; - Bundesbank = banco central alemão; - Weitergabe = transferência; - Deutsche Geschäftsbank = banco comercial alemão; zahlt Geld aus = dinheiro pago -- (Fonte: Spiegel Online, edição alemã - clique na imagem para ampliá-la).


O balanço fecha quando o dinheiro flui da Alemanha para a Grécia, como acontecia na maior parte do tempo antes da crise: o banco comercial na Grécia tomaria emprestado, por exemplo de um banco alemão, o dinheiro de que necessitava para seu empréstimo à empresa grega. Isso, em si mesmo, é um problema. Como países tais como Grécia, Espanha e Portugal durante anos importaram mais do que exportaram, mesmo antes da crise eles dependiam da entrada de capital externo para pagar os bens e serviços que compravam. Por outro lado, de maneira consistente, a Alemanha produzia superavits exportáveis, o que significava que tinha também que exportar capital.

Tais desquilíbrios geram dificuldades no longo prazo, mesmo em tempos de vacas gordas. Mas, numa crise financeira, eles potencialmente podem levar a uma catástrofe, porque o fluxo de caixa interbancário subitamente se desestabiliza. Isto é o que tem acontecido desde 2007:
  • Bancos em todos os países da eurozona tiveram que reter seu dinheiro. Eles saíram de países  supostamente instáveis, e empréstimos que expiraram não foram renovados.
  • Os receios dos abastados também entraram em jogo: preocupados com a possibilidade de que seu dinheiro pudesse logo perder seu valor, eles começaram a sair da Grécia, de Portugal e da Irlanda e, mais tarde, também da Espanha e da Itália.Isso deixou os bancos nesses países com menos poupança para suprir seus empréstimos.
  • O resultado de tudo isso foi que a Grécia e outros países em crise não tinham mais dinheiro suficiente para financiar todas as suas importações.  Se bancos gregos quisessem oferecer empréstimos adicionais, para pagar por exemplo pela compra de produtos alemães ou holandeses, eles tinham que tomá-lo emprestado de seu banco central. 
  • O banco central, por sua vez, simplesmente criava dinheiro do nada, debitando-o a toda a zona do euro como um débito pendente dentro do sistema TARGET2. "Esses países simplesmente tiravam dinheiro da máquina impressora", reclama Sinn.
Evolução dos desequilíbrios no TARGET2 ao longo do tempo, em bilhões de euros (clique na imagem para ampliá-la) - [Bundesbank claims = créditos do banco central alemão; - GIIPS debts = dívidas de Grécia, Irlanda, Itália, Portugal e Espanha] - (Fonte: Spiegel Online, edição inglesa).

terça-feira, 13 de março de 2012

A bomba de 100 bilhões de euros -- O sistema de Bancos Centrais da eurozona está maciçamente desequilibrado (I)

Reproduzo a seguir, por partes, um interessantíssimo mas longo artigo do dia 6 deste mês do prestigioso site "Spiegel Online", a versão virtual em inglês da renomada revista alemã "Der Spiegel". Nele, a crise da zona do euro é preocupantemente abordada com um enfoque inusitado por um respeitado economista alemão, Hans-Werner Sinn. O artigo mostra a enorme vulnerabilidade da maior economia da Europa à crise da zona do euro, e aumenta as dúvidas sobre a eficiência da solução recessiva exigida pela própria Alemanha para os países fortemente atingidos por essa crise.

Há mais de um ano, o economista alemão Hans-Werner Sinn descobriu um risco gigantesco no balanço do Bundesbank, o Banco Central alemão. Se a zona do euro entrar em colapso, as perdas do Bundesbank poderão chegar a meio trilhão de euros, mais de uma vez e meia o orçamento anual do país.  A pista crucial veio do mesmo homem cuja assinatura já figurou no marco alemão: Helmut Schlesinger, ex-presidente do Bundesbank. Foi ele quem direcionou Hans-Werner Sinn, um economista de Munique, para uma estranha rubrica nas estatísticas do Bundesbank -- no final de 2010, os registros do banco mostravam direitos creditícios em relação a outros bancos centrais da eurozona no valor de mais de 300 bilhões de euros (US$ 400 bilhões). Curioso, Sinn começou a cavar mais fundo, e o que encontrou excedeu suas piores expectativas.

"No começo, tudo o que tinha era esse número, e eu realmente não sabia o que ele significava", diz Sinn, que é presidente do Instituto Ifo para Pesquisa Econômica, sediado em Munique. "O Bundesbank me disse que aqueles eram balanços irrelevantes, mas isso não eliminou minhas dúvidas". Sinn conversou com especialistas em vários bancos centrais e com colegas da sua área. "Cada pessoa sabia um pedaço da história", explica Sinn, "e tive de juntar as peças do quebra-cabeça. Foi realmente um trabalho de detetive".

Após semanas de trabalho, Sinn havia juntado peças suficientes para criar um quadro que abalaria qualquer um: desde a crise de 2007, formaram-se imensos desequilíbrios dentro do de outra maneira inofensivo sistema de pagamentos que existe entre os bancos centrais dos 17 países membros da zona do euro. Enquanto Itália, Espanha, Irlanda, Portugal e Grécia, todos fortemente atingidos pela crise da dívida, totalizavam deficits somando mais de 600 bilhões de euros, os valores devidos ao Bundesbank haviam subido a 498 bilhões de euros.

"Apanhados em uma armadilha"

Enquanto a união monetária continuar a existir, isso não é uma catástrofe. O dinheiro é virtual, criado pelos bancos centrais, e sua existência não significa que uma importância equivalente esteja faltando em algum lugar. Mas, tão logo um país deixe a zona do euro ou a união monetária colapse inteiramente, a situação se tornará crítica.

"Fomos apanhados em uma armadilha", diz Sinn. "Se o euro colapsar, ficaremos com um balanço pendente de quase 500 bilhões de euros, devidos por um sistema que não existe mais".  Essa figura, € 500 bilhões, é mais de uma vez e meia o orçamento anual federal da Alemanha. Esse, entretanto, é o pior cenário, e se configuraria apenas se a eurozona colapsar por inteiro. Uma possibilidade de longe mais realista é que um país, tal como a Grécia, deixe a união monetária. Neste caso, todos os demais bancos centrais da zona do euro teriam que responder juntos pelo débito do banco central grego. O Bundesbank alemão, de acordo com a sua quota de participação no Banco Central Europeu (BCE), assumiria cerca de 28% dessa dívida -- com a dívida grega valendo € 108 bilhões, a quota da Alemanha nessa dívida seria de cerca de € 30 bilhões.

Os créditos do Bundesbank são anulados pelas significativas dívidas dos países da eurozona atingidos pela crise - (Gráfico: Spiegel Online - clique na imagem para ampliá-la).

Um economista chamou de "brilhante" a análise de Hans-Werner Sinn - (Foto: DPA).

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Grécia não vê risco de acordo para reestruturação da dívida fracassar

A Grécia não vê risco de um colapso nas negociações sobre um acordo para a reestruturação da dívida do país com os credores privados, apesar de um aparente impasse com relação ao plano de troca de títulos no fim de semana, disse um porta-voz do governo grego. Respondendo a uma questão sobre se há risco de o acordo fracassar, o porta-voz do governo grego, Pantelis Kapsis, declarou ao canal de rádio estatal Net: "Não é claro que não".

Os comentários foram feitos enquanto os 17 ministros das Finanças da zona do euro se preparam para uma reunião mais tarde, em Bruxelas, na qual centrarão o foco na crise da dívida da Grécia. A ministro das Finanças da Grécia, Evangelos Venizelos, deverá atualizar seus colegas sobre o ponto em que estão as negociações com credores do setor privado para reestruturar cerca de € 206 bilhões em dívidas.

As conversas em Atenas entre o diretor do Instituto para Finanças Internacionais (IIF), Charles Dallara, que representa os credores privados da Grécia, e altas autoridades do país terminaram no sábado, depois de dias de negociações sobre reestruturação da dívida. Os dois lados pareceram estar se aproximando de um acordo segundo o qual os novos bônus gregos teriam juro de 3,5% para os vencimentos mais curtos, que subiriam gradualmente até 4,6% nos bônus mais longos. O cupom médio somaria pouco mais de 4%.  No entanto, pessoas com conhecimento do assunto disseram que o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Alemanha não acreditam que a dívida da Grécia voltará para níveis sustentáveis se o cupom médio dos novos bônus ficar em torno de 4% e pressionam por uma taxa menor, de 3,5%.

Progresso

As conversas da Grécia com os credores do setor privado sobre um acordo para reestruturar sua dívida estão progredindo bem e devem ser finalizadas ao longo desta semana, disse hoje o comissário para Assuntos Econômicos e Monetários da União Europeia, Olli Rehn.  "As conversas estão avançando bem num nível técnico, estou confiante que iremos concluir as negociações em breve sobre o envolvimento do setor privado, preferivelmente ao longo desta semana", afirmou Rehn.

Questionado se a zona do euro está preparada para emprestar mais recursos à Grécia se for necessário, ele respondeu que "decisões foram tomadas em outubro e (as autoridades europeias) estão trabalhando com base nelas". As decisões à que Rehn se refere preveem nova ajuda de 130 bilhões de euros à Grécia, incluindo uma contribuição de cerca de 30 bilhões de euros no desconto da dívida pelo setor privado. 

Rehn informou ainda que os ministros de Finanças da região irão avaliar também as últimos políticas contra a crise adotadas pelos governos da Itália e Espanha. Ele acrescentou que os ministros, reunidos em Bruxelas no encontro do Eurogrupo, planejam finalizar o pacto fiscal fechado pelos governos da região na cúpula de dezembro. As informações são da Dow Jones.

O ministro das Finanças grego, Evangelos Venizelos, também acredita que a Grécia está pronta para finalizar um acordo com credores do setor privado no tempo certo. Falando a jornalistas a caminho da reunião dos ministros de Finanças da zona do euro, o Eurogrupo, Venizelos disse que, "sobre o envolvimento do setor privado, nós estamos sempre em linha com nossos parceiros". "Nós temos uma cooperação construtiva com o setor privado e estamos prontos para finalizar o processo no tempo certo", declarou. As informações são da Dow Jones. 

[É surpreendente e admirável ver esse otimismo da Grécia, o país das tragédias ...]

Evangelos Venizelos, Ministro das Finanças da Grécia - (Foto: Wikipedia).

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Christine Lagarde: "a economia mundial está em perigo"

A economia mundia está "em uma situação perigosa". Esta é a avaliação feita por Christine Lagarde em uma entrevista ao Journal du Dimanche.  Não é a primeira vez que a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) se alarma com a situação econômica mundial. No mês passado ela já alertava contra os riscos de uma instabilidade financeira.

Christine Lagarde considera que as discussões entre Nicolas Sarkozy, Angela Merkel e seus pares ainda não estancaram a crise. Mas ela se furta a citar nomes. "A cúpula de 9 de dezembro não foi suficientemente detalhada sobre os aspectos financeiros, e foi muito complicada sobre os princípios fundamentais", diz ela. Os chefes de Estadop e de governo haviam previsto então uma mudança nos tratados da União Europeia, para reforçar a integração orçamentária e comprometer cada país com o cumprimento das regras.

"Houve progressos consideráveis na Europa, mas são graduais e mal compreendidos. É preciso acelerar a implementação das medidas", insiste Christine Lagarde. Seria útil, segundo ela, que os europeus "falassem em uníssono e anunciassem um calendário simples e detalhado".

Ela observa ainda que os EUA, atores principais da economia mundial, foram afetados, e que os países emergentes, motores dos anos 2.000, estão tolhidos. A ex-ministra da economia da França observa que na China, Brasil e Rússia "as previsões de crescimento foram revisadas para baixo".

O FMI, que deve liberar no final de janeiro suas previsões econômicas mundiais, contava até aqui com um crescimento de 4%. Mas, sua diretora-geral já preveniu que essa taxa será revisada para baixo.

Christine Lagarde defende que os países da UE falem em uníssono e façam um calendários de medidas simples e detalhado - (Foto: Dylan Martinez/Reuters).

sábado, 3 de dezembro de 2011

Programa do euro no FMI pode espalhar o risco do resgate pelo mundo todo

A administração Obama tem sido inflexível, a Europa pode resolver sozinha sua crise financeira e os contribuintes americanos e outros de fora da região não devem pagar a conta de nenhuma expansão do esforço de resgate.

Mas, um plano em desenvolvimento para a Europa para canalizar fundos de resgate através de uma série de empréstimos do FMI pode fazer com que os EUA e outros países paguem também essa conta.

Autoridades financeiras europeias saíram de reuniões de alto nível na semana passada dizendo que "explorariam rapidamente" [a opção de] como explorar o FMI como um meio para canalizar dinheiro de países europeus que estão em condições de fazê-lo, tal como a Alemanha, para outros [países] como Itália ou Espanha que podem necessitar de expressivas quantias de suporte. Carrear o dinheiro através do FMI resolveria vários problemas políticos para a Europa -- principalmente por permitir que a Alemanha e outras nações mais ricas não aparecessem ostensivamente endossando nações perdulárias como a Itália.

"Há um certo subterfúgio" envolvido no plano que está ganhando forma, disse Edwin M. Truman, um membro senior do Instituto Peterson de Economia Internacional e um ex-assessor do Tesouro dos EUA.

Mas, a proposta disseminaria também entre os membros do FMI os riscos de resgatar países europeus combalidos. Quaisquer empréstimos do FMI se tornariam obrigações para os 187 membros do Fundo -- incluindo os EUA, o maior contribuinte isolado desse órgão. Se o dinheiro for usado para pagar o resgate de nações de porte, como a Itália, e esses esforços financeiros fracassarem, os membros do Fundo têm que assegurar que o FMI pague aos países participantes do [plano de] resgate o dinheiro que a isso destinaram.

Autoridades americanas estão estudando várias maneiras que permitam ao FMI envolver-se mais nos problemas da Europa sem custo para os contribuintes americanos, incluindo um aumento no pool de empréstimos administrado pelo Fundo, que permite que países façam empréstimos nas principais moedas, tais dólar e euro. Autoridades do Tesouro [dos EUA] dizem que o FMI nunca perdeu dinheiro resgatando um país, e que quaisquer empréstimos adicionais feitos pelo Fundo seriam objeto de severa vigilância.

Empréstimos bilaterais -- com um país emprestando diretamente ao FMI -- foram usados antes como um meio de aumentar o poder financeiro do Fundo, sem forçar todos os membros a pagar por um aumento geral no capital básico do órgão.

Autoridades do FMI registraram que nunca houve um default completo de um país em relação a empréstimos feitos como parte de um resgate do Fundo.

No entanto, ocasionalmente há países que deixam de honrar pagamentos devidos ao FMI. Sudão, Somália e Zimbábue, por exemplo, estão em "dívidas proteladas" em relação a compromissos que remontam aos anos 1980s e que hoje somam cerca de US$ 2 bilhões.

Apesar de que tenha parecido pequena, por longo tempo, a perspectiva de um país europeu desenvolvido não honrar um empréstimo do FMI, este tem estado navegando em mares novos desde o surgimento da crise financeira em 2007  -- com um aumento dramático de seus recursos, de seus empréstimos, e dos riscos associados a isso. Em vez de seu papel tradicional de ajudar individualmente países que estejam enfrentando dificuldades, o Fundo tem sido superdimensionado para tornar-se um escudo ou escora "sistêmico" de toda a economia mundial. O FMI tem expandido os programas de empréstimo e financiamento que oferece e, com o começo dos problemas da dívida europeia, foi lançado como nunca antes numa crise do mundo industrializado. 

Dos cerca de US$ 900 bilhões em financiamentos, menos de US$ 400 bilhões permanecem disponíveis -- insuficientes para arcar confortavelmente com grandes programas [de resgate] na Espanha ou na Itália, caso eles se façam necessários. "O FMI necessitará de mais recursos se a crise se agravar", disse ontem o porta-voz do Fundo, Gerry Rice. Mas, há oposição, inclusive do governo americano, a que se aumentem os recursos do FMI unicamente para ajudar a zona do euro,  uma região de produção econômica anual de US$ 12 trilhões e imensa riqueza familiar e corporativa.

O arranjo do empréstimo bilateral contornaria esse e outros temas sensíveis. Países que não quiserem participar do programa não seriam obrigados a fazê-lo. Aumentos na capacidade geral de financiamento do Fundo são pagos pelos países membros aproximadamente com base em seu tamanho e na importância de sua economia. Mas, nenhum membro do FMI é obrigado a participar de um empréstimo bilateral. Autoridades europeias dizem ter esperança de que o programa possa atrair contribuições de países como a China, mas esperam que muito do novo financiamento venha da própria Europa.

Como dito antes, o uso do FMI evita que países ricos, especialmente a Alemanha, sejam pressionados a fazer empréstimos diretos a quaisquer outros países. Empréstimos diretos feitos à Grécia pela Alemanha e outros países provocaram forte reação dos alemães, que se mostraram indignados em ajudar um país considerado como sem disciplina financeira. Uma ajuda à Itália, se necessária, ficaria muito mais cara -- e a controvérsia política resultante seria muito mais intensa. Emprestar dinheiro ao FMI, em vez de a um vizinho que esteja falindo, poderia desarmar as dificuldades políticas. O Fundo poderia usar o dinheiro para programas de resgate, se necessário, agregando condições econômicas e orçamentárias a cada regate.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Em meio a sensação de fracasso, Dilma vê "sucesso relativo" no G-20

A reunião anual de cúpula do G20, que terminou na tarde desta sexta-feira em Cannes, na França, foi um "sucesso relativo", na definição dada pela presidente do Brasil, Dilma Rousseff, ao final do encontro. As declarações foram feitas em meio à sensação geral de fracasso da reunião, que não chegou a um consenso sobre os detalhes em relação às principais propostas para o combate à crise das dívidas nos países da zona do euro.

Para a presidente brasileira, a avaliação sobre o resultado da reunião de dois dias em Cannes depende das expectativas prévias de cada um. "Pode ser um copo meio cheio ou meio vazio", disse. Para Dilma, "os países da zona do euro deram um passo no combate à crise". "Mas não acredito que uma reunião pudesse resolver todos os problemas do mundo", disse.

Os líderes das maiores economias do mundo, reunidos no balneário francês, se comprometeram a elevar o capital do FMI (Fundo Monetário Internacional) disponível para ajudar países em dificuldades financeiras. Eles não chegaram a um acordo, porém, sobre o montante desse aporte ao FMI, o que mantém as dúvidas sobre a capacidade de socorrer países grandes como a Itália ou a Espanha em caso de necessidade. Também não houve avanços em outros pontos da agenda colocada pela França, presidente de turno do grupo, como o do estabelecimento de uma taxa global sobre operações financeiras para sustentar investimentos em programas sociais.

A cúpula em Cannes foi ofuscada pelo agravamento da crise das dívidas europeias, após o anúncio grego, feito na segunda-feira, de um referendo sobre o plano de resgate ao país anunciado na semana passada em Bruxelas. O anúncio grego levou pânico aos mercados financeiros na véspera do início da cúpula e acabou mobilizando os debates em Cannes, frustrando os planos do governo francês, que pretendia chegar ao encontro com a crise ao menos parcialmente resolvida após o acordo de Bruxelas. O governo grego, que na noite desta sexta-feira ainda enfrentará um voto de confiança no Parlamento, acabou desistindo do referendo após um ultimato dado pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, pela chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e pelo FMI.

Em outro desenvolvimento durante a cúpula, a Itália, país cuja saúde financeira também vinha sendo colocada em dúvida pelos mercados financeiros, aceitou ser objeto de um monitoramento periódico do FMI sobre as medidas para sanar suas contas e conter seu deficit público.

Antes da cúpula, representantes europeus manifestaram a intenção de convencer os grandes países emergentes, como a China ou o Brasil, a contribuírem financeiramente com o aumento do capital do Fundo de Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), de ajuda aos países em dificuldades, anunciado na reunião da semana passada em Bruxelas. Ao final da reunião, no entanto, não houve nenhum compromisso formal quanto à contribuição.

Segundo Dilma, o Brasil e os demais países do grupo Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) concordam em ajudar a Europa somente por meio do FMI, não diretamente ao fundo europeu. "Não temos a menor intenção de fazer qualquer contribuição direta ao FEEF. Se nem os europeus têm, por que nós teríamos?", questionou a presidente brasileira. "Faremos pelo FMI, que dá garantias. Porque o dinheiro das reservas brasileiras foi conseguido com suor, não pode ser usado de qualquer maneira", afirmou.

Em sua avaliação, o ponto mais importante do encontro teria sido o de manter a visão, que já vem desde as cúpulas anteriores do G20, de que é necessário um plano de ação para estimular o emprego e o crescimento para conseguir vencer a crise. "Acredito que foi uma reunião que teve o mérito de colocar na ordem do dia a força do G20 para a colocação de políticas para o combate à crise, para dar sustentação ao conjunto do sistema", afirmou Dilma.

No comunicado final da cúpula, os líderes do G20 reconhecem que "desde nosso último encontro, a recuperação global se enfraqueceu, particularmente nos países avançados, deixando o desemprego em níveis inaceitáveis". O texto reafirma o compromisso do grupo de trabalhar em conjunto com decisões "para revigorar o crescimento econômico, criar empregos, garantir estabilidade financeira, promover inclusão social e fazer com que a globalização sirva às necessidades das pessoas".

 Para presidente, reunião do G-20 foi "sucesso relativo" - (Foto: AFP).

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Para especialistas, acordo dá fôlego à Grécia mas não resolve problema da dívida

A redução pela metade da dívida grega em poder dos bancos, como prevê o acordo firmado por líderes europeus, dará novo fôlego à Grécia, mas não irá resolver a situação econômica do país, avaliam especialistas ouvidos pela BBC Brasil.  Para os analistas, as medidas de austeridade fiscal adotadas pelo governo grego – como reduções de salários, demissões de funcionários públicos e aumento de impostos – impedem a retomada do crescimento econômico do país, tornando mais difícil a saída efetiva da crise.

A dívida total da Grécia é de 350 bilhões de euros. Desse montante, a parte detida por bancos e fundos de investimento privados é de 200 bilhões de euros. Segundo o acordo obtido por líderes europeus na madrugada desta quinta-feira, esses credores privados aceitaram cortar em 50% o montante da dívida em seu poder, o que representa 100 bilhões de euros.

"O corte alivia em parte a situação da Grécia porque diminui os encargos com os juros da dívida", disse à BBC Brasil o economista Elie Cohen, diretor do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França. "Não digo que isso não adianta nada, mas o corte não vai resolver os problemas da Grécia, que enfrenta uma forte recessão e adotou medidas que deprimem ainda mais a atividade econômica", afirma Cohen. Segundo ele, a Grécia é "insolvente" e a situação atual não permite relançar a economia do país. "A redução da atividade provocada pelos planos de rigor torna mais difícil sair da crise", diz ele.

O acordo firmado por líderes europeus prevê que a dívida grega passe dos atuais 160% do PIB para 120% do PIB em 2020. "Mesmo se o governo grego cumprir suas promessas, realizar as reformas e privatizações e conseguir aumentar a arrecadação de impostos, o país ainda terá uma dívida de 120% do PIB em 2020. Isso é insustentável", afirma Cohen. Ele lembra que esse percentual corresponde também à dívida atual da Itália em relação ao PIB, que é de 120%.

Já o presidente francês, Nicolas Sarkozy, declarou em um discurso na TV, na noite desta quinta-feira, que o fato de a dívida grega atingir 120% do PIB em 2020 é algo "aceitável". "Os europeus deram um pequeno balão de oxigênio para a Grécia, mas o país ainda vai ficar em apneia alguns anos", diz Eric Heyer, diretor do departamento de análises do Observatório Francês de Conjunturas Econômicas. "Para sair dessa espiral, a Grécia vai precisar adotar pacotes de austeridade alucinantes. Não é possível imaginar que um país como a Grécia possa absorver seus déficits no momento em que há uma grave recessão", afirma.

Para Heyer, se houvesse crescimento no restante da zona do euro, poderia haver uma saída mais rápida da crise grega. "Mas todos os países europeus, com exceção da Alemanha, da Áustria e da Holanda, terão de lançar novos planos de rigor. Não haverá crescimento na Europa, mas sim uma recessão quase generalizada", afirma Heyer.

Segundo Cohen, a única saída para a situação na Europa seria que a Alemanha aceitasse arcar com os custos da crise, o que o país não aceita.

O cientista político Eric Toussaint, diretor do Comitê para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo, afirma que a Grécia é "incapaz" de enfrentar a crise da dívida e também diz que a recessão, que diminui as receitas fiscais, vai continuar devido às medidas de austeridade. Toussaint diz que no caso da moratória argentina, em 2001, o país fez o contrário: aumentou os salários e criou programas sociais de renda para estimular o crescimento econômico, o que permitiu uma saída mais rápida da crise, afirma.

O ajuste rigoroso das contas gregas retarda a recuperação do país, segundo analistas (Foto: Getty).



terça-feira, 20 de setembro de 2011

FMI reduz projeção de crescimento do Brasil para 3,8%

Em seu mais recente relatório sobre a economia mundial, divulgado nesta terça-feira em Washington, o FMI (Fundo Monetário Internacional) reduziu para 3,8% a projeção de crescimento para o Brasil neste ano. Para 2012, o FMI manteve inalterada sua projeção para o crescimento da economia brasileira, em 3,6%, ligeiramente abaixo dos 3,7% previstos pelo mercado.

De acordo com as previsões reunidas no relatório World Economic Outlook ("Perspectivas da Economia Mundial", em tradução livre), o Brasil terá o segundo menor crescimento na América do Sul neste ano, ficando atrás somente da Venezuela (com previsão de 2,8%) e abaixo da média da região, de 4,9%. Segundo o FMI, o avanço do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro também será menor que a média prevista para as economias emergentes e em desenvolvimento (6,4%) e para o crescimento global como um todo (4%), mas ainda ficará à frente da previsão para as economias avançadas, de apenas 1,6%.

A nova estimativa representa uma queda de 0,3 ponto percentual em relação à previsão anterior do FMI, de 4,1%, divulgada em junho, e está abaixo da expectativa do governo brasileiro, mas ainda acima do esperado pelo mercado. Apesar de, oficialmente, o governo brasileiro ainda manter a expectativa de crescimento de 4,5% para o PIB (Produto Interno Bruto) neste ano, a própria presidente Dilma Rousseff já declarou recentemente que o governo faria "um esforço para chegar a 4%, quatro e pouco (%)".

O mercado é menos otimista e, o mais recente Boletim Focus (levantamento semanal do Banco Central com base em consultas ao mercado), divulgado na segunda-feira, reduziu pela sétima semana consecutiva sua projeção de crescimento para a economia brasileira, passando de 3,56% para 3,52%.

O FMI afirma que, no geral, a perspectiva para as economias emergentes voltou a ser "incerta", em parte como reflexo de um cenário mundial menos favorável, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.

No Brasil, economistas já vêm apontando a piora no cenário externo como um dos fatores para o crescimento menor, ao lado da desaceleração na indústria, provocada especialmente pela valorização do real frente ao dólar e das medidas adotadas pelo governo para conter a inflação. O Banco Central do Brasil espera trazer a inflação para o centro da meta, de 4,5% (com margem de dois pontos percentuais para cima ou para baixo), até o fim de 2012. A projeção do FMI, no entanto, é de que a inflação brasileira chegue a 6,6% em 2011 – acima dos 6,46% projetados pelo mercado e levemente acima do teto da meta, de 6,5% – para retroceder a 5,2% em 2012 (abaixo dos 5,5% previstos pelo mercado).

Assim como em relatórios anteriores, o FMI voltou a apontar riscos do rápido aumento do crédito e de preços e da forte entrada de capital estrangeiro verificados no Brasil e em muitas economias da América Latina após a crise mundial de 2008. "É necessário manter a vigilância para limitar os riscos à estabilidade financeira", diz o relatório.

Ao citar o Brasil ao lado de outros emergentes que enfrentam problemas semelhantes, o FMI afirma que "os riscos à estabilidade financeira em todas essas economias devem ser monitorados por algum tempo, devido ao grande volume de crescimento de crédito nos últimos cinco anos". No caso do Brasil, medidas para restringir a concessão de crédito estão entre as ferramentas usadas pelo governo para tentar controlar a inflação.

Desde 2010, o governo também já adotou diversas medidas para tentar conter o fluxo excessivo de capital estrangeiro, que provoca a valorização do real frente ao dólar e acaba reduzindo a competitividade das exportações brasileiras. O FMI reconhece essas medidas adotadas pelo governo, mas recomenda que o Brasil e outros países também tenham como uma de suas prioridades a reversão do deficit público.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

FMI pede que Itália tome medidas "decisivas" contra a dívida

O Fundo Monetário Internacional (FMI) pediu à Itália, nesta quarta-feira, que tome ''medidas decisivas'' para cortar gastos, na tentativa de reduzir a dívida do país. A instituição teme que mais países da zona do euro com dívidas elevadas, como a Itália, mergulhem em uma crise similar à da Grécia.

O governo da Itália anunciou que pretende em breve anunciar um novo orçamento que incluirá medidas de austeridade. 'Os diretores (do FMI) frisaram ser decisiva a implementação do pacote e vários deles disseram que cortes de gastos teriam um efeito positivo sobre os efeitos do mercado'', afirmou o FMI em um relatório divulgado nesta quarta-feira. O documento afirma ainda que a Itália precisa fornecer mais detalhes sobre seus planos de promover uma reforma tributária e que o governo precisa fazer mais para impulsionar a economia. "Apenas o crescimento sustentável vai reduzir o fardo da dívida pública'', diz o texto.

Segundo as estimativas do FMI, a economia italiana crescerá apenas 1% neste ano, contra 1,3% no ano passado.

Também nesta quarta-feira, o ministro das Finanças italiano, Giulio Tremonti, afirmou que o governo tomará medidas contra a crise. ''Nós precisamos fazer mais e faremos mais nas próximas horas'', disse.

Temores em relação às finanças da Itália fizeram com que o principal índice de referência da Bolsa de Valores de Milão, o FTSE MIB, caísse um total de 4% na terça-feira, recuperando em seguida para 1,2%. Tremonti está propondo um total de 48 bilhões de euros em cortes ao longo de três anos e afirma que pretende reduzir o déficit italiano a zero até 2014. Atualmente, o déficit representa 3,9% do PIB do país. O atual presidente do Banco Central da Itália, Mario Draghi, que assumirá em breve a presidência do Banco Central Europeu (BCE), criticou a maneira como a classe política europeia administrou a crise econômica nos países da zona do euro. De acordo com Draghi, que substituirá o francês Jean-Claude Trichet no BCE, a adoção de soluções parciais e temporárias só serviu para aumentar a incerteza na zona do euro. Draghi também pediu a adoção urgente na Itália de medidas de austeridade, que vem sendo discutidas no Parlamento do país.
Itália enfrenta pressões para adotar medidas de austeridade (Foto Reuters).