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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Os seres humanos mais antigos estão na Austrália

[Traduzo a seguir reportagem de Javier Sampedro publicada no jornal espanhol El País.]

O professor Eske Willerslev fala com anciões aborígenes no sudoeste da Austrália - (Foto: Preben Hjost/Mayday Film)

Há populações humanas que até agora se viram pouco representadas nos estudos genômicos, como os primeiros povoadores da Austrália. Uma falha, porque a primeira leitura do genoma de 83 aborígenes daquele continente e de outras 25 pessoas de Papua Nova Guiné resultou em um tesouro científico. Os aborígenes australianos diferem entre si tanto como um espanhol de Cádiz difere de um chinês de Pequim. Isso implica que faz muito, muito tempo que os aborígenes ocuparam a Austrália, tanto que são a população viva mais antiga do planeta, e que saíram da África antes que o resto da humanidade.

Saber quantas vezes a humanidade saiu da África, quando ocorreram essas migrações e o que ocorreu com elas são perguntas essenciais sobre o passado de nossa espécie. Os cientistas apresentam agora em quatro pesquisas na revista Nature a melhor resposta que o conhecimento atual permite. O chefe de um dos trabalhos, Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague, garante que a pesquisa "foi fascinante, porque os aborígenes australianos são a população viva mais antiga da Terra". 

A comparação dos genomas aborígenes com os dos resto da humanidade, incluindo seus vizinhos asiáticos e oceânicos mais próximos, mostra que "emigraram da África antes" que os demais humanos modernos, há 60.000 anos ou mais, quando as atuais Austrália e Papua ova Guiné estavam unidas. Muitos milênios depois, quando o aumento do nível do mar isolou a Guiné da Austrália, os dois grupos interromperam seu fluxo genético -- deixaram de ter sexo -- resultando daí que sua distância genética á agora semelhante à que separa europeus e asiáticos orientais.

Mas, nem sequer a dos aborígenes foi a primeira migração de humanos modernos fora da África. Em outra pesquisa, Luca Pagani e seus colegas do Biocentro Estoniano de Tartu mostram que os atuais habitantes de Papua Nova Guiné carregam em seu genoma sinais apreciáveis (mais de 25% do DNA)de uma população humana mais antiga ainda, um grupo humano que se separou dos africanos antes que os euroasiáticos o fizessem.

Os cientistas estonianos deduzem que esses fragmentos genômicos provêm do sexo que deve ter havido entre os ancestrais dos papuanos e uma migração que fez o mesmo trajeto muito antes: saiu da África há uns 120.000 anos. As quatro pesquisas apresentadas na Nature estão assinadas por equipes de pesquisa genômica de 35 países, incluindo a Espanha. Elas revelam a complicação que a genômica está imprimindo à história do Homo sapiens, como já havia feito com os hominídeos.

Prossigamos com as perguntas: de onde  viemos? A resposta é: da África. Os primeiros ossos iguais aos nossos estavam ali há 150.000 anos. Mas, por que não saímos da África até dezenas de milênios depois, talvez 100.000 anos depois? Isso representa muito tempo, muito mais que a totalidade da nossa existência fora do continente que nos viu nascer. Os Homo sapiens originais só nos assemelhavam na aparência? Tinham ainda que evoluir seu cérebro até os nossos padrões? Extinguiram-se aqueles humanos "anatomicamente modernos", como se costuma chamá-los para sublinhar que eram mais idiotas do que nós?

Parece que não. David Reich, da Universidade de Harvard, e seus colegas apresentam também na Nature os genomas de 300 pessoas de 142 populações que, assim como os aborígenes australianos, estavam pouco representados nos estudos da variedade humana. Seu principal achado é muito marcante: demonstra que os humanos atuais começamos a divergir há 200.000 anos. Isso encaixa com a data de datação dos primeiros crânios iguais aos nossos. E confirma que nossos primeiros pais não se extinguiram, mas sim que seguem vivendo em nosso genoma.

A equipe de Harvard exibe sua sofisticação matemática com um dado assombroso: a velocidade de mutação genética aumentou cerca de 5% desde que saímos da África. A explicação para isso é curiosa: o tempo entre gerações diminuiu desde então, isto é, temos filhos quando somos mais jovens do que nossos ancestrais africanos. Quanto mais um indivíduo se reproduz, mais oportunidades de mutação permite aos filhos. Daí que os vírus sejam os regentes da evolução na Terra.

A espécie que fugia do frio

A teoria original out of Africa (fora da África) postulava que toda a humanidade atual que vive fora desse continente provém de um pequeno grupo de Homo sapiens que saiu dali há uns 50.000 anos. Os cientistas consideram agora que não houve uma, mas quatro migrações para fora da África que ocorreram ao longo dos últimos 120.000 anos. E que as quatro tiveram relação com as mudanças climáticas associadas às variações da órbita terrestre.

Segundo o modelo construído por Axel Timmermann e Tobias Friedich, da Universidade do Havaí em Honolulu, as migrações representam quatro ondas associadas às grandes formações glaciais desse período, que abarcaram estes quatro intervalos: 106.000-94.000; 89.000-73.000; 59.000-47.000 e 45.000-29.000 anos atrás. Os resultados de seu modelo se encaixam muito bem com os dados paleontológicos e arqueológicos. 

O destino da humanidade parece assim estar, depois de tudo, escrito nas estrelas, como diria um poeta antigo. Porque esses ciclos gelados foram causados diretamente pelas alterações da órbita terrestre. Outras mudanças climáticas de menor escala se associam a migrações de população de um caráter mais local.


sábado, 1 de outubro de 2016

Micróbios descobertos na Groenlândia, os mais antigos traços de vida sobre a Terra

[Traduzo a seguir reportagem de Jean-Paul Fritz, publicada no site francês L'Obs. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Essas camadas irregulares seriam um sinal de vida - (Foto: Allen Nutman/Nature)

Dois montículos de minerais de alguns centímetros, preservados no solo da Groenlândia e revelados pelo derretimento do gelo: essa foi a descoberta feita por uma equipe de pesquisadores que reivindica o título de prova mais antiga de traços de vida em nosso planeta. A equipe, reunida pelo professor Allen Nutman, da Universidade de Wollogong (Austrália), publicou em 1 de setembro corrente na revista Nature os resultados de suas pesquisas. 

Bactérias que criaram agitação

Rochas datadas de 3,7 bilhões de anos preservaram umas espécies de miniondas, deixadas na camada de sedimentos que repousavam antigamente no fundo do mar, são o único traço que teria sido deixado pela atividade de grupos de bactérias. A análise da composição química e da forma desses "montículos", que os especialistas chamam de estromatólitos [estromatólito pode ser definido como uma rocha fóssil formada por atividades de microrganismos em ambientes aquáticos que, quando acumulados no fundo de mares rasos, formam uma espécie de recife], permite compará-los a estruturas similares formadas hoje por certas bactérias marinhas. 

Pois seguramente, não há "esqueletos" nem "conchas" de micróbios, nem traços de "folhas de bactérias": os organismos vivos multicelulares capazes de deixar traços  identificáveis no solo chegaram muito mais tarde. Para encontrar provas de existências de vida apenas algumas centenas de milhões de anos após a formação da Terra, é portanto necessário analisar estruturas como os estromatólitos.

Resta saber se a descoberta feita pela equipe do professor Nutman é de fato uma prova irrefutável da presença de micróbios. Alguns de seus colegas põem isso em dúvida, como é o caso da paleontóloga Kathleen Gray que considera que "infelizmente não há prova convincente para uma reivindicação dessa importância". Da mesma forma, Tanja Bosak, geobiologista do Instituto Massachusetts de Tecnologia (MIT, na sigla inglesa), antes de se pronunciar gostaria de saber se os estromatólitos estudados têm pequenas quantidades de matérias orgânicas. 

A vida teria mais de quatro bilhões de anos

Segundo o professor Nutman, esses fósseis têm 200 milhões de anos a mais que os estromatólitos mais antigos conhecidos, descobertos no oeste da Austrália, o que faria reviver as provas de existência de vida em um período muito antigo da história da Terra. "A importância dos estromatólitos é que não apenas nos fornecem uma prova evidente de vida antiga visível a olho nu, mas são também ecossistemas complexos", explica o cientista.

"Isso mostra também que num período tão longínquo quanto há 3,7 bilhões de anos, a vida microbiana já era variada. Essa diversidade mostra que a vida emergiu nas  primeiras centenas de milhões de anos de vida da Terra, o que é coerente com os cálculos dos biólogos que mostram a grande ancianidade do código genético da vida". 

LUCA [Last Universal Common Ancestor], o último ancestral comum universal dos seres hoje viventes na Terra, remontaria a 3,8 bilhões de anos, mas a vida pôde emergir antes disso. Um estudo publicado em outubro passado, ainda em discussão, destaca a descoberta de microorganismos em zircões [zircão: mineral de coloração variada, principal fonte de zircônio, usado como refratário e, quando incolor, como gema] de 4,1 bilhões de anos, o que complica ainda mais o calendário ...

O início cataclísmico da Terra

Para compreender melhor o problema de se  datar as origens da vida, é preciso remontar ao nascimento da Terra. Isto se efetuou quando do início do sistema solar (4,6 bilhões de anos), pela agregação, pouco a pouco, de grandes asteroides até formar-se uma grande bola esférica de rochas e gás (sua atmosfera primitiva). Mas inúmeros cataclismas marcaram sua história: ela teria sido atingida por um planeta do tamanho de Marte, o que teria formado a dupla Terra-Lua. [Se antes Terra e Lua eram um corpo só, por que e como depois da separação apenas a Terra ficou habitável?]

Posteriormente, eis que por volta de 4 bilhões de anos, veio o  que foi denominado o "grande bombardeio tardio" [também chamado de "intenso bombardeio tardio"]. Vê-se a prova disso levantando os olhos para a Lua: inúmeras de suas crateras se formaram nesse período, quando os asteroides caiam abundantemente sobre ela.

Com relação à origem da vida, há pois um limite inferior frequentemente colocado: ela teria surgido após o intenso bombardeio tardio, e os asteroides (e cometas) teriam trazido certos elementos necessários à sua aparição. As condições cataclísmicas causadas pelas quedas frequentes de grandes asteroides teriam impedido qualquer  tipo de vida antes disso. Vê-se que a descoberta feita pela equipe do professor Nutman se situa bem em tal calendário.

A importância para a vida ... em Marte e alhures

O interesse do estudo publicado na revista Nature não reside forçosamente na pedra com que ela contribuiu para a história da vida sobre a Terra. Os astrobiologisas, especialistas em estudo da vida possível em outros planetas, olham-no com muita atenção. Porque, se a vida pôde surgir muito rapidamente após a formação da Terra, isso significa que ela igualmente tenha podido aparecer muito rapidamente em outros planetas hoje inóspitos.

Esse é bem o caso de Marte. "Essa descoberta representa uma nova referência para as provas preservadas mais antigas da vida na Terra", explica o professor Martin Van Kranendonk, diretor do centro australiano de astrobiologia e coautor do estudo. "Ela mostra uma rápida emergência da vida sobre a Terra, e dá suporte à pesquisa da vida das rochas de ancianidade semelhante em Marte".  Porque o planeta vermelho teria tido um oceano e uma atmosfera mais espessa há cerca de 4 bilhões de anos. Condições semelhantes às da Terra de então -- se a vida pôde aparecer tão depressa em nosso planeta, por que não em Marte? Àluz de teorias recentes, poder-se-ia colocar a mesma pergunta com relação a Vênus, que poderia também ter tido um oceano em passado longínquo.

Com respeito a Marte, a esquisa de estromatólitos poderia até mesmo ser facilitada: não há tectonismo de placas em Marte, e portanto as camadas sedimentares devem estar mais bem preservadas que na Terra.
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As belezas da Groenlândia ameaçada pelo derretimento do gelo


"A Groenlândia está em processo de derretimento", alerta o The New York Times (NYT) em um excelente artigo interativo em inglês, publicado em 27 de outubro passado - (Foto: AP Photo/Extreme Ice Survey, James Balog)

Como explica o NYT, os aumentos de temperaturas acarretam a formação de lagos sobre a superfície do gelo. A água circula em seguida nos rios, depois em cavidades profundas chamadas "moinhos", que a drenam para o oceano. "A calota glacial é porosa, como um queijo", afirma um pesquisador citado pelo jornal americano - (Foto: AP Photo/John McConnico)

 Este glaciar, visto no sudoeste da Groenlândia, perdeu três quilômetros de gelo em relação a 1935, afirma a equipe dinamarquesa que fez esta foto aérea para compará-la com uma imagem da época - (Foto: SIPANY/SIPA)

Imagem do mesmo local da foto anterior, tirada em 1935 - (Foto: de arquivo)

 Fissuras ou gretas importantes na baía de Melville, no sudoeste da Groenlândia. Elas resultam da aceleração do movimento dos glaciares, que deslizam rumo ao oceano em consequência do aquecimento - (Foto: NASA/Op. IceBri/REX Shu/SIPA)

Foto feita por Marketa Kalvachova, uma fotógrafa tcheca que corre o mundo em busca de glaciares. Assim como mostra o site Le Temps, os icebergs se tornam ao mesmo tempo mais numerosos e menores ao longo dos anos, devido ao escoamento mais rápido dos glaciares - (Foto: Marketa Kalvachova/Cater News Agency/SIPA)

Uma outra foto feita por Marketa Kalvachova, mais perto do gelo - (Foto: Marketa Kalvachova/Cater News Agency/SIPA)


Como mostrado em nossa apresentação de slides sobre o derretimento dos glaciares, a Groenlândia perde a metade de sua superfície glacial no verão. Entretanto, em 2012, essa diminuição chegou a 97%, uma amplitude raríssima - (Foto: AP Photo/Extreme Ice Survey, James Balog)


Um iceberg em processo de derretimento na costa de Ammasalik, uma ilha no sudoeste da Groenlândia. Se todo o gelo da Groenlândia derretesse, o nível do mar subiria 6 metros, informa o NYT - (Foto: John McConnico/AP/SIPA)


Esta foto, feita em 2011, mostra um cientista durante a instalação de um GPS que permitiria estudar os movimentos do glaciar Jakovshav, perto de Ilulissat [terceira maior povoação da Groenlândia, com 4.546 habitantes] - (Foto: AP Photo/Brennan Linsley)


Uma vista da cidadezinha de Ilulissat, declarada patrimônio mundial pela Unesco por seu fiorde com imponentes icebergs - (Foto: Ellen Creager/Detroit Free Press/MCT/Sipa USA)


A base científica Summit Station está situada no coração da Groenlândia, longe de tudo, a mais de 3.000m de altitude. Em seu artigo, o NYT informa que o governo americano gasta cerca de 1 bilhão de dólares por ano paa financiar a pesquisa científica no Ártico e na Antárdida - (Foto: AP Photo/Brennan Linsley)


Entretanto, o orçamento americano dedicado à pesquisa está na mira de alguns céticos climáticos pertencentes ao Partido Republicano, segundo os quais as mudanças climáticas não estão ligadas à atividade humana, relata o NYT. Na foto, pesquisadores no interior da Summit Station - (Foto: AP Photo/Brennan Linsley)


O mundo branco: um avião se prepara para o reabastecimento, próximo à Summit Station - (Foto: AP)



Um pescador inuíte [povo esquimó que habita o Alasca e a Groenlândia] em Iluissat, em julho de 2011 - (Foto: AP Photo/Brennan Linsley)


Ainda que isolada, a Groenlândia recebe visitantes de tempos em tempo, como esse navio do Greenpeace, o Arctic Sunrise, visto aqui sobre blocos de gelo no nordeste da Groenlândia - (Foto: Christian Aslund/ CATERS NEWS / SIPA)


O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, também se deslocou para aGroenlândia em março de 2014, sob a perspectiva da reunião de cúpula sobre o clima que se realizaria em Nova Iorque alguns meses mais tarde. Estava acompanhado pela primeira-ministra groenlandesa Aleqa Hammond (segunda à esquerda) e pela primeira-ministra dinamarquesa Hell Thorning-Schmidt. A Groenlândia pertence ao Reino da Dinamarca como país integrante, junto com a própria Dinamarca e as Ilhas Féroé - (Foto: AP Photo/POLFOTO, Leiff Josefsen)








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domingo, 10 de abril de 2016

Os vazamentos de informações através da história

[No momento em que vazamentos de documentos e informações ocorrem no mundo inteiro, aqui e lá fora, abalando estruturas e governos, traduzo a seguir artigo interessante a esse respeito publicado no site BBC Mundo. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]


A história está cheia de documentos secretos que foram vazados publicamente, desde que um mensageiro se atreveu a abrir um lacre real - (Foto: Thinkstock)

Você pode dizer o que quiser sobre a recente onda de vazamentos, mas não que tais vazamentos dêem lugar a que se esmaguem os testículos de alguém. Tampouco, até onde sabemos, ninguém foi trancado em um templo até morrer de fome.

Edward Snowden e Julian Assange não são universalmente populares, mas até seus críticos mais severos não insinuaram que suas ações provocaram uma revolta militar ou fizeram com que políticos fossem removidos de seus ambientes de debates para serem estrangulados pelas multidões.  

Entretanto, todos esses horrores aconteceram sim durante a longa e amiúde violenta história dos vazamentos.

Esparta

Tomemos por exemplo essa fome intensa forçada em um templo. Isto ocorreu em Esparta por volta do ano 470 antes de Cristo (a.C.), como consequência direta de uma informação que foi vazada.

O general espartano Pausanias enviou uma mensagem para o rei persa através de um de seus escravos. Pressentindo que havia algo de suspeito, o escravo Argilios abriu a carta e verificou que Pausanias se oferecia para os persas se invadissem a Grécia. Além disso, o general sugeria que matassem o mensageiro para garantir o segredo da oferta.

O general Pausanias, de Esparta - (Imagem: Alamy)

Compreensivelmente, sentindo-se ofendido e insultado pelo caráter de sua missão, Argilios decidiu vazar a carta às autoridades espartanas. 

A Pérsia era o "inimigo mortal" da Grécia, razão pela qual as ações de Pausanias não foram vistas como algo menor do que uma traição. Por isso, como castigo, ele terminou enclausurado em um templo sem nenhum tipo de alimento. Os registros indicam que sua própria mãe se uniu aos cidadãos irritados com a atitude de seu filho para garantir que não escapasse da punição. 

Roma

Na Grécia antiga a política era um assunto relativamente aberto, mas a civilização romana ao contrário esteve repleta de complôs e intrigas em seus últimos anos. E de uma boa quantidade de vazamentos também, segundo o historiador Tom Holland. "Havia uma forma muito intensa de luta política, na mesma escala de hoje em dia", assinala ele. "Vêem-se vazamentos sendo utilizados por aspirantes a políticos favoritos, como intuito de destruir seus rivais". 

O cônsul e orador Cícero encontrou uma coleção de cartas que alertavam sobre uma conspiração contra a República - (Imagem: Getty)

Talvez o vazamento mais famoso da época romana foi a pilha de documentos que apareceu frente à porta de Cícero, cônsul do Senado romano e um destacado filósofo e orador de seu tempo. 

No ano 63 a.C., Cícero estava convencido de que um senador chamado Catilina estava planejando um golpe de Estado mas não pôde comprová-lo. O que encontro à sua porta era uma coleção de cartas dos aliados de Catilina, com todos os detalhes da trama. Nunca se descobriu quem vazou essa evidência crucial, mas de posse dessas cartas Cícero conseguiu convencer seus colegas de Senado de que a República romana estava sob ameaça.

Talvez como recompensa por seu trabalho de detetive, Cícero pôde supervisionar pessoalmente a execução imediata por estrangulamento de todos os conspiradores. 

Os otomanos 

O Império Romano durou séculos, seu lado oriental sobreviveu como Bizâncio até 1453, quando caiu vítima dos otomanos, cuja civilização era conhecida por sua tolerância. Um império multinacional e multiétnico, com um alto grau do que poderia ser chamado hoje de mobilidade social. Até um escravo ou um eunuco poderia subir na hierarquia.

No entanto, havia uma área em que os otomanos  foram famosos por sua severidade, e referia-se ao valor que davam aos segredos. Muitos sultões empregavam surdo-mudos próximos de si para evitar que se propagasse qualquer informação sobre eles e suas ações.

Osman II teve os testículos esmagados antes de morrer - (Foto: Alamy)

O sultão Osman II (1604-1622) tinha mais razões que os demais para temer vazamentos. Havia decidido acabar com a unidade militar de elite conhecida como os janízaros, porque temia que se tornasse demasiado poderosa. De alguma maneira, entretanto, essa informação vazou. Depois, seu próprio vizir foi indicado como sendo a fonte do vazamento [vizir (وزیر em persa) era um ministro e conselheiro de um sultão ou rei da antiga Pérsia e, posteriormente, de um país islâmico. O termo significa "ajudante"].

Quando os janízaros se inteiraram da intenção do sultão, invadiram o palácio de Topkapi, em Istambul, e Osman II teve que suportar que lhe esmagassem os testículos antes de morrer. 

Tempos modernos

Enquanto o Império Otomano declinava, o advento do período moderno no século XIX dava um novo alento à arte dos vazamentos. Agora existia a possibilidade de que a informação vazada pudesse chegar a públicos mais amplos, em vez de limitar-se às pessoas diretamente afetadas. 

John Nugent, do New York Herald, é reconhecido por um dos primeiros grandes furos oriundos de um vazamento. 

A Batalha de Buena Vista, também conhecida como a Batalha de Angostura, foi um dos grandes enfrentamentos na guerra entre México e EUA - (Foto: Getty)

Em 1848, Nugent recebeu detalhes secretos de um tratado para por fim à guerra entre os EUA e o México. Sua decisão de publicar os detalhes do acordo o levaram a receber ameaças de prisão de senadores indignados, que o mantiveram cativo durante um mês. Isso deve ter valido a pena, pois Nugent foi depois promovido a diretor-geral do jornal.

Esse caso definiu um precedente que persiste até hoje, de acordo com Pablo Lashmar, professor de jornalismo na Universidade de Sussex (Brighton, Reino Unido) e antigo jornalista investigativo. 

Os jornalistas que conseguem vazamentos tendem a ser recompensados, diz Lashmar, seja com uma promoção, com um aumento salarial ou com prestígio profissional ampliado, inclusive se enfrentam ameaças de prisão ou de algo pior ao longo do caminho. "Passávamos longas horas nos bares cultivando as fontes. Podia ser um oficial de polícia, um funcionário público ou alguém do departamento de contabilidade de uma  empresa. Nos passavam um envelope e isso era genial", lembra o veterano jornalista. 

Tecnologia

O advento da tecnologia de vigilância fez com que esse tipo de vazamento seja cada vez menos frequente, segundo Lashmar.

A tecnologia tornou possível vazamentos de enormes quantidades de documentos - (Foto: Thinkstock)

Qualquer pessoa com um celular pode ter seus movimentos rastreados, ou pode ser captado por câmaras de segurança. Lashmar assinala que os funcionários públicos se tornaram muito mais receosos de se encontrar com jornalistas, para não serem punidos por sua indiscrição. 

O que substituiu o envelope marrom de antigamente foi o vazamento em massa. O tipo de tesouro repleto de dados como nos Panamá Papers, com milhões de documentos transmitidos de uma só vez [sobre os Panamá Papers, ver aqui e aqui]. É óbvio que foi a nova tecnologia que tornou isso possível. 

Os primeiros grandes vazamentos com os documentos do Pentágono, que revelaram segredos sobre as operações dos EUA no Vietnã, tiveram que ser fotocopiados à mão, página por página. Agora, os registros inteiros de um departamento de uma empresa ou de um governo podem ser carregados em um cartão de memória, com apenas um clique num computador. 

Documentos altamente sensíveis passaram pelas mãos de  pessoas de status relativamente baixo, como o soldado raso Bradley Manning - (Foto: AP)

A jornalista e ativista Heather Brooke utilizou vários vazamentos em sua época e considera que esse novo tipo de "fugas" digitais vieram para ficar. "É muito difícil proteger a informação digital e é muito fácil atacá-la", acredita ela. 

Brooke argumenta que aqueles que armazenam informações digitais têm que culpar a si mesmos, se esses dados chegarem a domínio público. "Estamos em um momento em que todo mundo quer guardar todos os blocos de dados que puder, e guardá-los para sempre. Estão criando um pote de mel para os piratas informáticos, para os empregados descontentes e para qualquer pessoa que queira fazer vazamentos", diz ela. 

Percorremos um longo caminho desde desde os dias em que um mensageiro escravo podia causar estragos em Esparta, só com o abrir de uma carta. No entanto, a mesma assimetria persiste e, talvez, esteja acentuada. Informação é poder, e nesta primeira parte do século 21 a informação é também onipresente. 

Desde o soldado raso do exército americano, Bradley Manning, até o especialista em inteligência contratado Edward Snowden, temos visto pessoas de  status relativamente baixo ter informação em suas mãos e logo revelá-la, deixando seus superiores profundamente comprometidos. Agora, ao que parece, a informação é mais poderosa que a espada.








terça-feira, 8 de março de 2016

Os antigos babilônios conheciam segredos do sistema solar 1.500 anos antes da Europa

[Traduzo a seguir artigo de Ruth Schuster publicado no jornal israelense Haaretz, descrevendo novos achados que mostram que os babilônios eram ainda mais avançados do que já se sabia.]


Um dos tabletes cuneiformes de argila encontrados na Babilônia e Uruk, mostrando cálculos geométricos para trajetórias de planetas - (Foto: Trustees of the British Museum / Mathieu Ossendrijver)

Os antigos babilônios eram conhecidos por terem sido avançados em aritmética. Agora, análise de tabletes cuneiformes de argila encontrados na Babilônia e Uruk mostra que podiam prever a posição de corpos celestiais, utilizando técnicas geométricas avançadas que se pensava haviam sido inventadas na Europa do século 14. 

Especificamente, os tabletes mostram que os antigos babilônios estavam evidentemente intrigados com a posição do planeta Júpiter, escreve Matheus Ossendrijver, da Universidade Humboldt, Berlim, em seu trabalho "Astrônomos babilônios antigos calcularam a posição de Júpiter usando um gráfico tempo-velocidade". 

Os tabletes que ele descreve são os exemplos mais antigos conhecidos do uso da geometria para calcular a futura posição de um objeto no espaço-tempo.

É possível que as mesmas técnicas tivessem sido descobertas em Oxford, Cambridge, com a chegada do século 14, num equivalente geométrico da evolução convergente (como as asas em insetos e pássaros, que não têm a mesma origem mas se assemelham e exercem a mesma função). Ou, o Ocidente pode de algum modo ter aprendido as técnicas dos antigos astrônomos babilônicos.

Os tabletes de barro, que estão praticamente intactos, parecem ser datados do período entre 350 e 50 AEC (Antes da Era Cristã). Há questões sobre sua proveniência -- Ossendrijver observa que foram "escavados de maneira não científica" e discute a metodologia geral, não mencionando fenômenos astronômicos específicos passíveis de serem datados. Os escritos descrevem dois intervalos depois que Júpiter aparece ao longo do horizonte,
projetando a posição do planeta em 60 e 120 dias.


Um tablete cuneiforme com cálculos envolvendo um trapezoide - (Foto: Trustees of the British Museum / Mathieu Ossendrijver)

Pensava-se que os babilônios conheciam apenas conceitos aritméticos, no entanto esses textos contêm cálculos geométricos avançados.

A geometria começou a se desenvolver há bastante tempo atrás na história da humanidade. Os gregos antigos, eminentemente práticos, usavam a geometria para descrever configurações no espaço físico, embora seja preciso dizer que não se conhece a história dos primórdios da geometria grega antiga porque não há registros disso. Os egípcios antigos conheciam também a geometria, mas se acreditava também que limitavam o uso dessa ciência para resolver problemas do dia a dia, como por exemplo calcular a área de uma pirâmide.

Os babilônios antigos, ao contrário, deixaram amplos registros -- mais de 450 tabletes importantes, dos quais cerca de 340 são de tabelas com cálculos de dados planetários ou lunares. Outros 110 tabletes têm instruções de cálculos. Agora sabemos que usaram a geometria em um sentido abstrato, para definir tempo e velocidade, explica Ossendrijver: "Em todos esses textos, o zodíaco, inventado na Babilônia perto do final do século 5 AEC, é usado como um sistema de coordenadas para calcular posições de corpos celestiais".

Desse modo, conclui ele, os acadêmicos europeus do século 14 em Oxford e Paris aos quais se creditara o desenvolvimento de previsões tempo-velocidade estavam mais de mil anos atrasados em relação aos seus antigos pares babilônios.

Por que, afinal, quereriam os babilônios calcular a posição de Júpiter? Provavelmente porque seus sacerdotes usavam a astrologia para interpretar a vontade dos deuses (um método alternativo era "ler" os fígados de animais sacrificados). Acredita-se que não apenas a geometria de tempo-velocidade, mas também a adivinhação celestial como uma prática religiosa sistemática tenham começado com a cultura babilônica.    

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Os segredos de Stonehenge começam a aflorar

[Para esta postagem utilizei como referências uma reportagem de Kenneth Chang do International New York Times, a Wikipédia e outras fontes da internet.]

Descobertas na década passada trouxeram mais revelações sobre o povo para o qual Stonehenge e monumentos vizinhos tinham grande significado - (Foto: Adam Stanford/Aerial-Cam)

Stonehenge (do inglês arcaico "stone" = pedra, e "henge" = eixo) é um alinhamento megalítico da Idade do Bronze, localizado na planície de Salisbury, próximo a Amesbury, no condado de Wiltshire, no sul da Inglaterra. Constituí-se no mais visitado e conhecido círculo de pedras britânico, e até hoje é incerta a origem da sua construção, bem como da sua função, mas acredita-se que era usado para estudos astronômicos, mágicos ou religiosos. 
O Stonehenge é uma estrutura composta, formada por círculos concêntricos de pedras que chegam a ter cinco metros de altura e a pesar quase cinquenta toneladas, onde se identificam três distintos períodos construtivos:
  • O chamado Período I (c. 3100 a.C.), quando o monumento não passava de uma simples vala circular com 97,54 metros de diâmetro, dispondo de uma única entrada. Internamente erguia-se um banco de pedras e um santuário de madeira. Cinquenta e seis furos externos ao seu perímetro continham restos humanos cremados. O círculo estava alinhado com o pôr do Sol do último dia do Inverno, e com as fases da Lua.
  • Durante o chamado Período II (c. 2150 a.C.) deu-se a realocação do santuário de madeira, a construção de dois círculos de pedras azuis (coloridas com um matiz azulado), o alargamento da entrada, a construção de uma avenida de entrada marcada por valas paralelas alinhadas com o Sol nascente do primeiro dia do Verão, e a construção do círculo externo, com 35 pedras que pesavam toneladas. As altas pedras azuis, que pesam quatro toneladas, foram transportadas das montanhas de Gales a cerca de 24 quilômetros ao Norte.
  • No chamado Período III (c. 2075 a.C.), as pedras azuis foram derrubadas e as pedras de grandes dimensões (megálitos) - ainda no local - foram erguidas. Estas pedras, medindo em média 5,49 metros de altura e pesando cerca de 25 toneladas cada, foram transportadas do Norte por 19 quilômetros. Entre 1500 a.C. e 1100 a.C., aproximadamente sessenta das pedras azuis foram restauradas e erguidas em um círculo interno, com outras dezenove, colocadas em forma ferradura, também dentro do círculo.
Estima-se que essas três fases da construção requereram mais de trinta milhões de horas de trabalho.
O mais famoso monumento da pré-história pode ter sido um centro de cura, para onde iam peregrinos há mais de 4.500 anos. A afirmação é de um grupo de arqueólogos que trabalha nas primeiras escavações em mais de 40 anos no monumento. O grupo acredita ter encontrado indícios que podem, finalmente, explicar os mistérios da construção de blocos de pedra. A equipe descobriu um encaixe que, no passado, abrigou as chamadas pedras azuis, rochas vulcânicas de tom azulado, a maioria já desaparecida, que formava a primeira estrutura construída no monumento. Eles acreditam que as pedras azuis podem confirmar a tese de que Stonehenge era um local onde as pessoas iam em busca de cura.
Segundo a citada reportagem do International NYT, há cerca de 6.300 anos atrás, uma árvore caiu nessa região do sul da Inglaterra. Para os habitantes locais, isso criou uma oportunidade imobiliária excepcional: próximo de uma fonte e perto de áreas de caça atraentes. 
Segundo David Jacques, um arqueólogo da Universidade de Buckingham, lama foi comprimida sobre as raízes expostas, transformando-as em um muro. Ao lado, um poste foi enfiado no solo e isto pode ter sustentado um teto de grama ou de pele de animal. Isso foi, disse ele, uma casa, uma das primeiras da Inglaterra.
Em outubro, nas escavações mais recentes em um local conhecido como Blick Mead, o Dr. Jacques e sua equipe cavaram uma vala de 12,2 m de extensão (40 pés), 7 m (23 pés) de largura e 1,5 m (5 pés) de profundidade, examinando aquela estrutura e seus arredores. Encontraram uma lareira com pedaços de quartzo fragmentado a fogo, pedaços de ossos, partículas de quartzo usado como pontas de setas e como ferramentas de corte e uns tipos de vagens que podem ter sido usadas como pigmentos. "Há algo aqui", disse o arqueólogo, imaginando o que acontecia em 4300 a.C. "Havia gente aqui fazendo coisas. Exatamente como nós. As mesmas pessoas e as mesmas preocupações". 
A apinhada vizinhança de Stonehenge -- Pesquisadores usando imagens aéreas, radar de penetração no solo e outras técnicas estão descobrindo novos detalhes na paisagem ao redor de Stonehenge. Na sequência  de fotos acima (ver na reportagem), a partir do topo e no sentido horário:  Blick Mead - Em outubro, pesquisadores escavaram a área no entorno de um abrigo construído ao redor de uma árvore caída, construído cerca de 4.300 a.C.. A casa se antecipa a Stonehenge em mais de 1.000 anos, mas sugere que houve progressão dos primeiros britânicos, caçadores, para os fazendeiros que construíram Stonehenge e os monumentos ao seu redor. -- West Amesbury Henge - Está ligado a Stonehenge por um caminho ou trilha de procissão. As pessoas na foto estão em pé em áreas escavadas na rocha. O local é conhecido também como Bluestonehenge, e alguns pesquisadores consideram que as pedras que faltam foram deslocadas para Stonehenge por volta de 2.400 a.C.. -- Durrington Walls - É um vilarejo neolítico rodeado de aterros, e datado entre 3.500 e 2.400 a.C..Imagens de radar mostram uma fila de pedras enterradas em pé. -- Woodhenge - Houve uma época em que este local concentrou anéis concêntricos de postes de madeira. -- Stonehenge - Foi construído em múltiplos estágios, evoluindo de um anel de terra de cerca de 3.000 a.C. para um elaborado círculo de pedras da Idade do Bronze erigido e rearrumado a partir de 2.600-1.600 a.C.. --(Fonte: International New York Times)
Entre os artefatos encontrados em Blick Mead havia uma grande quantidade de pontas de setas/lanças e ferramentas de corte feitas de quartzo - (Foto: Andrew Testa/The New York Times) 

Blocos de concreto marcam os locais onde existiam estacas de  madeira em Woodhenge - (Foto: Andrew Testa/The New York Times)
A cerca de 1,6 km (1 milha) de distância está Stonehenge. Para o Dr. Jacques, a casa faz parte da história de Stonehenge, mesmo que os ocupantes de Blick Mead jamais tenham presenciado a montagem daquelas pedras maciças. Os inícios de Stonehenge estariam a mais de um milênio no futuro. Mas Blick Mead, disse ele, ajuda a preencher o vazio de caçadores que se tornaram fazendeiros e depois construíram Stonehenge e outros monumentos pré-históricos que marcam a paisagem rural inglesa. "Este é o primeiro capítulo desconhecido de Stonehenge", disse o Dr. Jacques.
Stonehenge tem cativado gerações. Ao longo dos anos, arqueólogos têm catalogado as rochas, tentado adivinhar o significado da maneira como foram colocadas -- alinhadas para o nascer do sol em meados do verão e para o pôr do sol em meados do inverno -- e estudado os ossos humanos e de animais ali enterrados. 

O sol do solstício de inverno sobre Stonehenge - (Foto: Simon Wakefield)
Há tempos, eles conhecem também outros monumentos locais -- câmaras mortuárias, uma colina de 39,5 m de altura (130 pés) de giz (calcáreo) conhecido como Silbury Hill e muitas outras estruturas circulares. Um levantamento aéreo em 1925 revelou círculos de peças de madeira, agora conhecidos como Woodhenge, a 3,2 km de Stonehenge. 
Próximo a Avebury há um outro monumento imenso: uma colina artificial construída com calcáreo (giz), conhecida como Silbury Hill. Essa colina de 39,5 m de altura tem aproximadamente a mesma altura e o mesmo volume que uma das pirâmides de tamanho médio do Egito. Arqueólogos não encontraram sinal de tumba em seu interior e permanecem intrigados quanto ao motivo pelo qual foi construída - (Foto: Google) 

"O monumento de pedra é um ícone", disse Wolfgang Neubauer, o diretor do Instituto Ludwig Boltzmann para Prospecção Arqueológica e Arqueologia Virtual em Viena. "Mas é apenas uma pequena parte da coisa toda". 

Um desfile de monumentos
A história da Bretanha começa no final da última idade do gelo. No frio, a Bretanha ficava despovoada. Com tanta água do oceano congelada nos glaciares, o nível do mar era mais baixo e a Bretanha estava  ligada ao resto da Europa. Com o aquecimento global, os habitantes recuaram até que as águas  crescentes destruíram a ponte de terra. 
Por volta de 3.800 a.C. surgiram os primeiros grandes monumentos -- montes retangulares, conhecidos como túmulos longos, que serviam como câmaras mortuárias. 
Por volta de 3.500 a.C., foi cavada uma vala de 3,2 km de extensão e 91,4 m de largura próximo ao local de Stonehenge no que ficou conhecido como Stonehenge Cursus ("cursus" é a palavra latina para pista de corrida ou hipódromo -- quem a descobriu no século 18 achou que se tratava de uma pista desse gênero construída pelos romanos).  O primeiro estágio de Stonehenge propriamente, uma vala circular para fundação, foi escavada por volta de 2.900 a.C. e ali se erigiram anéis de madeira. 
Cerca de 400 anos mais tarde veio um apogeu de henges (estruturas circulares). -- A característica determinante de um henge não é a presença de estacas de pedra ou madeira apontadas para cima, mas uma vala circular rodeada por uma margem elevada. Sob este aspecto, Stonehenge hoje não é um henge autêntico: sua margem elevada está dentro da vala --.
32 km ao norte de Stonehenge situa-se Averbury, com três círculos de pedras, o mais externo deles com mais de 304 m de diâmetro -- é tão grande, que a cidade de Averbury avançou para dentro dele. No centro há um pub, o Red Lion, fundado há quatro séculos. Mais próxima de Stonehenge está Durrington Walls, uma  estrutura circular de terra de cerca de 488 m de diâmetro.  
 Um dos círculos de pedra de Averbury - (Foto: Google)
Michael Parker Pearson, da Universidade College London, escavou casas em Durrington Walls e ao longo do vizinho rio Avon e considera que esse é o local onde viveram os construtores para o maior estágio da construção de Stonehenge, que começou por volta de 2.600 a.C.. As pedras gigantescas, algumas pesando 40 toneladas, foram transportadas e entalhadas. Pearson acredita que pedras menores de arenito cinzento, de cerca de 2 toneladas cada, tenham sido levadas para Stonehenge das montanhas Preseli em Gales e depois outras maiores foram arrastadas para lá.
Como os britânicos antigos não tinham linguagem escrita, a pergunta mais simples -- por que isso foi construído? -- permanece sem resposta conclusiva. 
Na opinião do Dr. Pearson, Durrington Walls era a terra dos seres vivos, simbolizada pelas madeiras de Woodhenge, enquanto Stonehenge era a terra dos mortos. Ele acredita que os britânicos primitivos se reuniam em Durrington Walls para festejar, e depois se dirigiam para Stonehenge para honrar seus ancestrais.
Em outubro, na revista Antiquity (Antiguidade), o Dr. Pearson e seus colegas descreveram resíduos de ácido gorduroso que identificaram dentro de vasilhames para cozinhar. "Identificamos o cardápio: carne e porco, cozidos e grelhados, com um punhado de maçãs, frutas vermelhas e avelãs. Eles comiam basicamente uma dieta muito forte em carne". 
As pessoas vinham de pontos próximos e remotos para as festividades, disse o Dr. Pearson. Ele mencionou que a análise de dentes de gado mostrou diferentes isótopos do elemento estrôncio, que variam com base nos minerais locais existentes na água, indicando que os animais haviam sido criados em outro lugar e então levados para Durrington Walls. 
Timothy Darvill, da Universidade de Bournemouth, que liderou uma pequena escavação em Stonehenge em 2008, tem uma opinião diferente sobre o significado do monumento, apontando para as pedras de arenito cinzento que, segundo ele, não foram adicionadas ao monumento até sua segunda fase, por volta de 2.500 a.C., e segundo a lenda possuem propriedades curativas. "Essas pedras são muito especiais", disse o Dr. Darvill. "Talvez seu significado não tenha sido compreendido por completo".
Ele disse que Stonehenge pode originalmente ter sido a "terra dos mortos", como afirma o Dr. Pearson, mas mais tarde transformou-se em uma espécie de Lourdes pré-histórica, para onde as pessoas se dirigiam em busca de cura.  
Espiando o passado
Muito mais coisas existem debaixo da superfície. "Presumimos que os fragmentos que conhecemos são os importantes", disse Vincent Gaffney, da Universidade de Bradford. "O que temos que fazer é descobrir o que realmente existe lá".  
A ideia de utilizar radar de penetração em solo e magnetômetros para espiar dentro do solo sem escavar remonta a décadas.  Em anos recentes, os equipamentos -- principalmente os computadores para analisar os dados -- tornaram-se baratos o suficiente, também em termos de rapidez, para permitir seu uso na arqueologia. 
Arqueólogos concentraram seu foco nos grandes monumentos, porque cavar por todo lado demandaria muito tempo e destruiria a paisagem. Entretanto, o radar de penetração no solo permitiu expandir a investigação sobre o que pode estar escondido no solo no entorno de Stonehenge - (Foto: Geert Verhoeven/ Ludwig Boltzmann Institute)
Medições por indução eletromagnética em Stonehenge - (Foto: The Institution of Engineering and Technology)
Dr. Neubauer colaborou com o Dr. Gaffney para pesquisar uma área de 20,7 km² no entorno de Stonehenge e Durrington Walls. "Foi como um exército atravessando a região", disse o Dr. Gaffney.  Em setembro, eles anunciaram um feito surpreendente: enterradas nas margens ou bancos de Durrington Walls há cerca  de 90 pedras em pé, algumas com até 4,6 m de altura. O Dr. Gaffney disse que pode ter havido originalmente 200 delas, mais do dobro do número existente em Stonehenge. "Isso nos dá ideia da escala disso", disse ele. 
Arqueólogos anunciaram em setembro que as varreduras por radar haviam revelado 90 pedras enterradas em pé em Durrington Walls, uma estrutura circular de terra a cerca de 3,2 km de Stonehenge.  Essa é uma visão estimada por um artista de como poderia ter sido a aparência desse antigo "superhenge" - (Foto: Ludwig Boltzmann Institute)
Se isso for verdade, prejudicará a tese do Dr. Pearson de classificar Durrington Walls como a terra dos vivos e Stonehenge como a terra dos mortos. Mas, ele é cético sobre essas descobertas, que ainda não foram publicadas em uma publicação técnica revisada por outros pesquisadores (pares). 
Dr. Pearson disse que há uma década escavou alguns desses locais e encontrou buracos de postes ou estacas, que foram cobertos por giz com cimento. Os reflexos do radar ricochetearam nos blocos de giz, disse ele. "O "x" da questão é que as pedras na realidade não são pedras", disse o Dr. Pearson. Ele disse que discutiu com Dr. Gaffney sobre as diferenças nas interpretações de ambos. "Cavaremos um buraco no ano que vem [2016] para resolver isso de uma vez por todas", disse ele.
Um lugar de mistério
Ainda não se sabe como a área de Stonehenge se tornou um local venerado. A evidência mais intrigante disso está bem ao lado do próprio Stonehenge: a existência de três grandes buracos de postes ou estacas que continham postes ou estacas de madeira semelhantes a totens. Carvão e ossos nos buracos foram datados entre 8.000 e 7.000 a.C.. "Isso leva a questão de se ter um local especial já reconhecido por um povo muito, muito tempo antes de Stonehenge", disse o Dr. Pearson. "Essa é uma questão que um dia seremos capazes de resolver". 
Esses buracos de postes/estacas são bem mais velhos do que qualquer outra coisa na área, exceto o sítio de Blick Mead e um outro buraco semelhante recentemente datado. 
O D. Jacques disse que os ossos de animais lá existentes -- em sua maioria auroques, os grandes ancestrais do gado de hoje, mas também veados vermelhos e javalis -- datam de 7.500 a.C., coincidindo com os buracos de postes de Stonehenge. A conexão entre eles é especulativa, mas pode ter sido aí onde viveram os construtores dos totens de Stonehenge. 
A fonte de água lá está cheia de ferramentas de quartzo e de ossos descartados. Dr. Jacques pinta Black Mead como talvez um precursor das celebrações de Durrington Walls. Alimentada a partir do subsolo, a fonte nunca congela e pode, também, ter parecido como algo mágico. 
Poucos anos atrás, um voluntário -- a mãe do Dr. Jacques -- tirou da fonte uma rocha de aparência interessante e a colocou em seu bolso. Poucas horas depois, a cor da rocha se tornara um vermelho vivo, uma reação das algas sobre a rocha ao oxigênio do ar. 
A rocha que mudou de cor depois de retirada da fonte de água de Blick Mead - (Foto: Google)
Algas crescem apenas em certas condições parcialmente expostas a sombra, e essas condições podem não ter se alterado muito em 9.500 anos. "Estamos começando a perceber que este é um lugar especial, onde coisas especiais estão acontecendo", disse o Dr. Jacques. 
Ele espera poder expandir as escavações para buscar não apenas por uma casa, mas por um vilarejo.  "Essas pessoas são os primeiros britânicos", disse ele. "Encontramos o berço de Stonehenge". 
Após o término da fase de grande construção de Stonehenge, cerca de 2.400 a.C., o monumento foi modificado, mas a era dos megamonumentos havia terminado. "Essa é a época em que basicamente seu mundo mudou", disse o Dr. Pearson. Novos povos cruzaram o canal vindo da Europa, trazendo bronze e a produção de metais para a cultura da idade da pedra. "É uma  mudança muito interessante", disse ele. "De certo modo, Stonehenge é o canto do cisne".