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sexta-feira, 18 de julho de 2014

O papa enfrenta as máfias italianas

[O texto abaixo foi publicado no jornal espanhol El País, e descreve aspectos do inusitado confronto entre a Igreja Católica e  a as máfias italianas em decorrência da excomunhão que lhes foi imposta pelo papa Francisco. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

O papa contra os padrinhos


Pablo Ordaz -- Oppido Mamertina -- El País, 13/7/2014



A excomunhão dos mafiosos decretada por Francisco como primeira medida para distanciar a igreja do crime organizado provocou a reação da ‘Ndrangheta




A procissão parou em frente à casa de um mafioso. / TONI CONDELLO (AP)

Há dois anos, mais ou menos nessa época e com esse mesmo calor, desapareceu sem deixar rastro Francesco Raccosta, um vizinho de 42 anos, muito devoto de Nossa Senhora das Graças, a patrona de Oppido Mamertina, um povoado de 6.000 habitantes na província de Reggio Calabria, bem na ponta da bota italiana. Ninguém parece ter dado muita importância ao assunto —todo mundo sabia que o tal Raccosta sempre tinha dado maus passos— até que, alguns meses depois, outro vizinho do povoado, Simone Pepe, de 24 anos, confiou a um amigo por telefone, enquanto estava sendo gravado pela polícia:
-- "Você não sabe como Raccosta gritava! Ainda estava vivo quando o jogamos para os porcos. Você não imagina que satisfação ouvi-lo gritar. Me disseram que os porcos sempre deixam alguma coisa, mas pelo que vi não sobrou nada".
O conteúdo da conversa —em todos os detalhes— e a notícia da prisão do jovem Pepe foram publicados pelos jornais italianos, que atribuíram ao assunto mais um ajuste de contas entre os diversos clãs locais de ‘Ndrangheta, a terrível máfia calabresa. Mas, para sermos sinceros, aqui no povoado a vida seguiu seu curso sem que ninguém fizesse alvoroço nem pusesse a boca no mundo. Nada comparável, sem dúvida, ao que está acontecendo agora.
Na quarta-feira feira passada, 2 de julho, a procissão com a imagem de Nossa Senhora parou em sinal de reverência em frente à casa de Peppe Mazzagatti, um velho capo de ‘Ndrangheta condenado a prisão perpétua por crimes como assassinato e associação mafiosa, mas que agora, devido a seus 82 anos e a seu delicado estado de saúde, cumpre a pena em prisão domiciliar. A leve inclinação da estátua da Madonna diante de um capo local não é, nem aqui nem nos demais vilarejos da região dominados pela máfia calabresa, um assunto novo, mas no domingo se tornou motivo de escândalo por uma série de fatos encadeados. O primeiro é que o chefe local dos Carabinieri, oficial Andrea Marino, tentou evitar a homenagem e, vendo que não lhe davam ouvidos, deixou a procissão com seus agentes e levou o assunto para seus superiores. O segundo fato é que alguém subiu na Internet um vídeo caseiro com a reverência da estátua ao capo e a rede se encarregou sozinha de burlar a lei do silêncio. A terceira e principal circunstância —a que transforma o assunto em único e não em outro abuso destinado a cair no esquecimento— é que, apenas duas semanas antes, o papa Francisco tinha ido à Calábria para, pela primeira vez na história, excomungar as máfias e colocar a Igreja na frente da situação. “A ‘Ndrangheta é a adoração do mal, o desprezo pelo bem-comum. É preciso combatê-la”, disse Jorge Mario Bergoglio diante de dezenas de milhares de pessoas que aplaudiram quando ele acrescentou: “E a Igreja tem de ajudar mais”.
A mensagem foi captada imediatamente pelas duas partes citadas. Os padres de pequenas localidades que há décadas lutam, sem o apoio do Vaticano e pagando às vezes com a própria vida, contra a Cosa Nostra na Sicília, a Camorra na região de Nápoles ou ‘Ndrangheta na Calábria, se sentiram respaldados pela primeira vez. Mas as máfias também, cuja base do negócio é o consenso com a sociedade civil, entenderam a gravidade do assunto. Apenas algumas horas depois, 200 mafiosos presos na ala de segurança máxima de Larino, na região de Molise, decidiram não assistir à missa em protesto. Foi uma ação organizada pela cúpula. A ‘Ndrangheta estava desafiando o Papa.

Às duas da tarde de quinta-feira, na praça de Oppido Mamertina, só se podia tocar no assunto com um grupo de garotos, nenhum com mais de 20 anos, que conversavam em voz baixa perto do único bar aberto.

-- "Podemos falar sobre o que aconteceu na procissão?"

-- "Deixe para lá. Você não entenderia".

-- "E do que aconteceu há dois anos a Francesco Raccosta, aquele que foi jogado...? Algum de vocês  o conhecia?"

-- "Eu recomendo: é melhor deixar para lá, você não vai conseguir que ninguém lhe conte nada. São assuntos nossos. Nunca é bom vir alguém de fora lembrar de histórias velhas".

No fim, os garotos vão contando com dificuldade que tudo foi um exagero dos meios de comunicação e que, na realidade, “sempre foi assim” e “não tem importância”. Duas afirmações que, pronunciadas repetidas vezes da boca de jovens, se tornam um símbolo. Os garotos acrescentam que o pároco, Don Benedetto Rustico, está em maus lençóis:

-- "Como o culparam pela inclinação da Madonna, ele se defendeu dizendo que, se soubesse, não teria feito, e agora é a família dele que está zangada com ele".

-- "E quem é a família dele?"

Os garotos riem por fim diante da malícia da pergunta. O pároco do povoado é... primo do capo.

Don Benedetto não quer ver um jornalista nem pintado, mas depois de ter sido acusado de incentivar os fiéis a partirem a cara de um jornalista intrometido no próprio sermão, aceita dar uma explicação. Ou seja, negando tudo por princípio —“a estátua da Madonna não fez reverência a ninguém”—, mas admitindo por fim que, em um povoado como o seu, são raras as ruas em que não vive alguém com problemas com a justiça. “Se eu soubesse o que estava sendo organizado, talvez tivesse mudado o percurso ou até suspendido a procissão.” É o que, na quinta-feira passada, decidiu a Igreja local: suspender todas as procissões previstas para o verão para evitar um mal maior. Se não bastasse, o arcebispo de Reggio Calabria, monsenhor Firoini Morosini, propôs ao Papa suspender por pelo menos por 10 anos a figura do padrinho em batismos e crismas “para evitar o uso que a ‘Ndrangheta faz da Igreja para selar suas alianças criminais”.

O pároco, como tantos outros moradores de Oppido Mamertina, não consegue compreender o que mudou para que, depois de acontecer a mesma coisa tantas outras vezes, agora se tenha armado a revolução e até o fisco tivesse aberto diligências para saber quem eram os vizinhos do povoado que carregavam o andor com a Madonna. Mas para Don Pino Demasi, pároco da localidade vizinha de Polistena, as coisas estão claras. “A excomunhão do Papa”, garante, “está causando muitos danos à ‘Ndrangheta. Considere duas coisas. A primeira e principal é que as máfias precisam do apoio das pessoas, de um acordo tácito que lhes permita dominar a situação, fazer as vezes do Estado. A segunda é que quase todas as máfias, mas especialmente a ‘Ndrangheta, obtém esse consenso por meio da religião. Esta é uma região na qual as igrejas ainda ficam cheias de transbordar e eles se conectam com as pessoas por meio de símbolos e rituais religiosos. Afinal, não é seu próprio juramento?”.

Ainda hoje, um dos rituais de iniciação consiste em queimar uma imagem da Virgem ou do arcanjo São Miguel com uma gotas de sangue do novo integrante do clã, que nesse momento jura fidelidade até a morte. Um sistema que há décadas é estudado por Claudio La Camera, do Observatório da ‘Ndrangheta: “O que me chama a atenção é haver tanto rebuliço agora, porque o que aconteceu em Oppido acontece todos os dias, várias vezes por dia. Há dezenas de exemplos. O mais evidente talvez seja que a missa das nove não começa às nove, mas na hora em que o capo chega. Não é um problema de horário, mas de mensagem. O padre, sem abrir a boca, está dizendo para o povo que ali tudo depende da vontade do capo”. É esse consenso —um consenso criminoso avalizado durante décadas por padres covardes ou diretamente mafiosos— o que Francisco quer romper, apoiando-se nos padres mais ousados. Porque, segundo La Camera, todo o poder das máfias se baseia nesse acordo tácito que lhes permite substituir o Estado: “Se o sistema não funciona —e aqui na Calábria nada funciona—, eles assumem. Quando pedem o pizzo —o imposto por exercer uma profissão ou ter um negócio— não o fazem tanto pelo dinheiro, mas para construir em torno de si uma estratégia de consenso: qualquer coisa que qualquer um necessite, tem de pedir a eles. De um emprego a um encanador. E tudo é cercado de um sistema de valores com mais de um século de história. É preciso levar em conta que a ‘Ndrangheta, antes de ser um fenômeno criminal, foi um fenômeno cultural. E sua capacidade de construir sistemas simbólicos e sugestivos é muito forte. Por isso usam a simbologia religiosa e a música popular, trocando as letras e transformando-as nas canções sobre a vida no crime”.

Na casa do velho capo ainda está pendurado um cartaz da visita que o papa Francisco fez em 21 de junho passado a Cassano allo Jonio, o povoado da Calábria onde a ‘Ndrangheta assassinou no mês de janeiro uma criança de três anos, junto com seu avô e a jovem namorada dele, ateando fogo em um carro. O fato curioso e muito significativo é que o cartaz da visita papal que o capo ainda mantém pregado em sua casa coloca na boca de Jorge Mario Bergoglio uma frase que o papa nunca disse: “Venho para pedir desculpas”. O poder mafioso —e seus hábeis asseclas na política e no clero— espalharam o boato de que o Papa não vinha dar um severo corretivo nos criminosos, mas pedir perdão por levar a Roma um bispo especialmente querido na região. O slogan pregado na varanda do mafioso —Jorge Mario Bergoglio pedindo perdão ao velho boss Peppe Mazzagatti— e a estátua da Madonna parando em frente à sua casa— devidamente paramentada com música, flores e cheiro de suor e incenso— compõem uma cena muito precisa do poder manipulador da ‘Ndrangheta, de sua necessidade da religião popular para ser aceita, e até absolvida, por quem vive sob seu jugo.

[Outras postagens relacionadas às máfias italianas:

● Como a Máfia está se infiltrando na Alemanha

● A Máfia e o crescente escândalo do lixo tóxico na Itália

● Encontros com a máfia calabresa: dentro do mundo da 'Ndrangheta ]



sexta-feira, 11 de abril de 2014

Como a Máfia está se infiltrando na Alemanha

[A reportagem traduzida abaixo foi publicada em 08/4 no site Spiegel Online International. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Um julgamento em andamento em Colônia evidencia a extensão da infiltração da Máfia italiana na sociedade alemã e no setor de construções do país. Críticos reclamam que as autoridades têm sido demasiado negligentes em agir energicamente contra as atividades da Máfia. 

No início do verão de 2012, Gabriele S., um pequeno negociante, desabafou suas frustrações no telefone. "Juro a você, vou arrancar a cabeça dele", vociferou o nativo da Sicília para um informante. "Ele é um tremendo filho da mãe"! Ele queria matar aquele homem, "erradicá-lo". 

Essa conversa agitada, que estava sendo ouvida pela polícia de Colônia, tornou-se muito valiosa para as autoridades da comissão especial "Scavo" ["escavação", em italiano] -- dando-lhes uma visão privilegiada do funcionamento interno de dois supostos grupos mafiosos no estado de Rhine-Westphalia do Norte, no norte do país. A conversa mostrou aos investigadores como os membros desses grupos dividiam seus territórios e resolviam ou ampliavam conflitos.

É preciso ter em conta que Gabriele S. -- um ex-pastor na pequena cidade de Licata -- não tinha apenas um temperamento impetuoso, ele tinha também interesses criminosos. De acordo com as investigações, dirigia uma rede de empresas de lavagem de dinheiro (shell companies) e ajudava a trapacear em muitos milhões de euros o Estado e a agência de benefícios sociais. Ele e três cúmplices estão atualmente sob julgamento na corte regional de Colônia por, entre outras coisas, fraude fiscal organizada.  A sentença é esperada para esta quarta-feira [09/4].

Os sicilianos são acusados de possuir 17 empresas aparentemente relacionadas ao setor de construções, e de empregar laranjas como gerentes. De acordo com o indiciamento, esses laranjas usavam as empresas para lavar dinheiro em troca de uma remuneração. O caso de Gabriele S. e de seus cúmplices parece ser um paradigma do setor de construções que, de acordo com um estudo interno do Birô de Investigações Criminais do Estado de Rhine-Westphalia do Norte (LKA, na sigla alemã), tornou-se amplamente infiltrado de empresas fictícias. Nas regiões do Reno e do Ruhr, essas empresas fictícias são em sua maioria dominadas por italianos do sul que, por sua vez, de acordo com o relatório, têm frequentemente laços com a Cosa Nostra.

Fortes conexões com a máfia italiana

Os desdobramentos do caso têm deixado em muitos a indagação se parte da economia alemã estaria sob o domínio da Máfia. Uma investigação conjunta da emissora radiofônica pública Westdeutscher Rundfunk [Rádio do Oeste Alemão], do editor de jornais Funke Mediengruppe e da Spiegel encontrou fortes conexões entre fraudadores da indústria de construção e o crime organizado italiano. Investigações em muitos estados alemães compartilham essa avaliação.

"Para a Máfia, a Alemanha é um lugar para, ao mesmo tempo, relaxar e agir", disse o presidente do LKA para Baden-Württemburg em Stuttgart, Dieter Schneider. "É um lugar onde indivíduos procurados se escondem das autoridades, mas é também um lugar onde crimes são planejados e cometidos". O objetivo dos criminosos italianos é, entretanto, permanecer sem ser detectado o máximo possível. Segundo Schneider, um banho de sangue como o que deixou seis mortos em Duisburg em 2007 deve ser considerado como um "acidente de trabalho". O objetivo principal dos clãs na Alemanha tem sido entrar na economia legal e nos altos escalões da sociedade.

Gabriele S. é acusado de estar profundamente envolvido em atividades ilegais. Suas empresas laranjas cobraram por trabalho que nunca foi feito, em troca de uma taxa de corretagem de 8%. De acordo com as acusações, o dinheiro era transferido para o siciliano e seus cúmplices em troca de trabalho fictício e depois devolvido aos clientes, descontada a parcela dos criminosos. Os clientes poderiam então usar esse fundo destinado a fins ilícitos para pagar seus trabalhadores ou subornar autoridades.

Provocando o 'declínio do setor de construção''

São consideráveis as dimensões desse negócio fraudulento, através das chamadas faturas pró-forma. De acordo com estimativas dos investigadores, essas atividades custam ao estado cerca de € 1,5 bilhão (cerca de US$ 1,2 bilhão) em perdas fiscais, e aproximadamente € 2 bilhões em contribuições de seguridade social não pagas. O sindicato trabalhista Ver.di fixa as perdas anuais em cerca de € 10 bilhões.

De acordo com relatório emitido pelo Birô Estadual de Investigações Criminais de Düsseldorf, as gangues operam como os clãs mafiosos italianos. Elas reproduzem na Alemanha as estruturas organizacionais italianas, e usam de intimidação e violência para garantir um mercado lucrativo.

De acordo com as autoridades, as consequências para a economia local são desastrosas.  O relatório alega que as atividades da Máfia estão provocando o "declínio de um importante setor de construção na Alemanha". Os empresários honestos, continua o relatório, não conseguem competir no longo prazo com os preços das empresas que utilizam mão de obra ilegal. E ainda que esse problema já seja conhecido há tempo, não existe ainda um sistema efetivo para controlá-lo. 

De modo geral, os promotores alemães não parecem estar bem posicionados para a luta contra a Máfia. Em um resumo confidencial da situação, o Birô Federal de Polícia Criminal (BKA, na sigla alemã) criticou o Estado alemão por raramente detectar os ganhos desonestos dos mafiosos. Segundo os investigadores, os clãs conseguiram € 123 milhões nos últimos 10 anos apenas com seus negócios ilegais. Menos de € 8 milhões disso foi confiscado -- o resto ficou com os criminosos. De acordo com o BKA, isso significa uma "grande deficiência" e impediu que houvesse tentativas de quebrar as estruturas da Máfia.

Autoridades impotentes

A impotência das autoridades alemãs pode explicar porque os criminosos italianos se sentem tão à vontade na Alemanha. De acordo com o resumo do BKA, pelo menos 460 membros suspeitos da Máfia vivem na Alemanha, a maioria deles no estado de Baden-Württemberg, seguido dos estados de Rhine-Westphalia do Norte, Bavaria e Hesse.

Enquanto a siciliana Cosa Nostra está seriamente envolvida com o setor de construção, os membros da Camorra na Alemanha preferem comercializar produtos de marca de fabricação já interrompida. Segundo a análise do BKA, esse produtos falsos são produzidos em fábricas em Nápoles e depois estocados na Alemanha. Aqui, os vendedores apanham as bolsas, os quebra-cabeças e os casacos de couro e os vendem para os clientes -- que, em vez de certificados de garantia de autenticidade, recebem grandes descontos. A receita resultante vai então para o chefe regional do clã da Camorra, descontada da porcentagem destinada aos mafiosos alemães.

"É muito difícil para as autoridades investigadoras penetrar nessas estruturas fortemente fechadas", diz Schneider, chefe do LKA de Baden-Württemberg. Sebastian Fiedler, da Federação de Oficiais de Polícia Alemães, alega que a leniência das autoridades legais está piorando o problema. "Na Alemanha, estamos fazendo as coisas mais fáceis para a Máfia do que em qualquer outro lugar no mundo". Mas, ele alega que os clãs são verdadeiramente vulneráveis em um ponto: seu dinheiro.

Isso porque as gangues movimentam bilhões de euros. Segundo cálculos do instituto italiano de pesquisas Demoskopik, a máfia calabresa 'Ndrangheta -- que se especializou em tráfico de drogas -- amealha € 53 bilhões por ano, em grande parte graças às drogas. Há apenas dois países fora a Itália em que essa organização é mais ativa do que na Alemanha: Austrália e Colômbia. [Ver postagem anterior sobre a 'Ndrangheta e outra postagem sobre a Máfia e o escândalo do lixo tóxico na Itália.]

Na Alemanha, o clã da 'Ndrangheta lida também com comida gourmet italiana. Eles adulteram azeite de oliva, falsificam presuntos nobres e, semelhantemente com os grupos que atuam no setor de construção, sonegam impostos vendendo seus produtos no mercado negro. A Associação de Fazendeiros Italianos estima em vários bilhões de euros as perdas resultantes no setor.

Vínculos com os tomadores de decisão

Esses tipos de fraudadores frequentemente andam também de mãos dadas com negócios legais. De acordo com o BKA, pelo menos 300 pizzarias na Alemanha são controladas pela Máfia italiana. Além de serem bem adequados para operações de lavagem de dinheiro, restaurantes podem também ser usados para ajudar a criar laços com tomadores de decisões. O resultado disso é que a Máfia há tempo já entrou na sociedade burguesa.

"Nesses casos, é quase impossível para nós, neste ponto, por a descoberto suas atividades criminosas", diz Schneider, o chefe do LKA. A proximidade dos clãs com os poderosos e os influentes é algumas vezes chocante -- nem mesmo um assassinato múltiplo parece inibí-los.

Por exemplo, um dos proprietários do Da Bruno, o restaurante de Duisburg na frente do qual seis mafiosos foram mortos a tiros em agosto de 2007, como parte de uma disputa com a 'Ndrangheta, conseguiu desenvolver seu negócio após o tiroteio. O empresário, em cujo restaurante uma das vítimas foi ritualmente introduzida na Máfia imediatamente antes de sua execução, agora serve pizzas e massas aos clientes em outros locais.  As pessoas dizem que seus restaurantes também vão bem, em lugares valiosos como o Lago Constança e em Baden-Baden.


quinta-feira, 3 de abril de 2014

Apreensão de 3,7 toneladas de cocaína em Santos provoca investigação sobre conexão entre traficantes brasileiros e europeus

[A reportagem abaixo foi publicada no site da versão brasileira do jornal espanhol El País de 01/4.]

Há um ano, agentes de São Paulo e Santos apuram quem seriam os receptores de 3,7 toneladas de cocaína. Uma das suspeitas é de ligação com a facção criminosa PCC

É a maior apreensão do tráfico internacional dos últimos anos



Parte do dinheiro apreendido pela polícia em Santos, durante operação contra tráfico internacional. / Divulgação Polícia Federal - (Fonte: EL PAÍS)

Um dia após anunciar a apreensão de 3,7 toneladas de cocaína no porto de Santos, o maior terminal da América Latina, a Polícia Federal agora se vê diante de um novo desafio: identificar quem seriam os compradores dessa droga no atacado e se as quadrilhas brasileiras têm conexões com facções internacionais, como a máfia italiana ou bandos portugueses e espanhóis. Para chegar a essas informações, os agentes brasileiros contam com a colaboração de policiais de outros países para onde a droga foi levada como Espanha, Itália, Portugal, Cuba e África do Sul.

Nos últimos doze meses, duas operações da PF (batizadas de Hulk e Oversea) descobriram um esquema de transporte um tanto simples, mas até então desconhecido dos policiais. Funcionários terceirizados de empresas de logística cooptados pelas quadrilhas brasileiras inseriam mochilas e sacolas carregadas de cocaína dentro de contêineres que já haviam sido embarcados e lacrados. Os donos dessas cargas e os responsáveis pelo porto, conforme a polícia, desconheciam o delito.

Era um tráfico “formiguinha”, já que, raramente, a quantidade de cocaína colocada dentro de cada contêiner passava de 100 quilos - um contêiner comporta em média 20 toneladas de produtos. Para não levantar suspeita, os criminosos rompiam o lacre do contêiner e o substituíam por um lacre clone (igual ao que havia sido rompido). Junto com a mochila com a droga, havia outro lacre clone para ser usado quando a droga chegasse ao seu destino. Isso porque a droga era retirada do navio antes que a carga legal fosse desembarcada.

No período, 83 pessoas foram presas, sendo 23 delas na segunda-feira passada. Há ainda outros 23 suspeitos foragidos, entre eles, um português. A polícia chegou ao esquema após uma série de denúncias que apontavam a participação desses funcionários. Nas investigações, descobriu-se que ao menos uma das células da quadrilha era vinculada à facção Primeiro Comando da Capital (PCC), a principal organização criminosa de São Paulo. Dois suspeitos foram apontados como membros desse grupo: André Oliveira Macedo, o André do Rap (um dos chefes do grupo em Santos) e Jefferson Moreira da Silva, o Dente, seu braço-direito.

De acordo com a polícia, a droga apreendida em Santos era produzida na Bolívia e entrava no Brasil pela fronteira seca com os Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul (às vezes passando pelo Paraguai) e por meio de rodovias seguia até a região da Grande São Paulo, onde era estocada. Quando algum chefe do bando ordenava, a droga era levada para Santos, de onde partia para as rotas internacionais. Um dos portos onde a cocaína desembarcou antes de seguir para o continente europeu foi um das Ilhas Canárias, arquipélago espanhol no oceano Atlântico próximo ao Marrocos.

Dimensão

Esse foi o maior desfalque dado contra traficantes internacionais brasileiros nos últimos anos. Antes dele, houve um outro grande rombo contra o crime, em março passado, quando a operação Monte Pollino, também da PF, prendeu 20 pessoas acusadas de enviarem 1,3 tonelada de cocaína para a Itália. Nesse caso, conforme a PF houve a participação da máfia italiana.

A enorme evolução patrimonial dos investigados na última investida contra os criminosos chamou a atenção da polícia. Eles tinham investimentos em imóveis, carros de luxo e usavam laranjas para ocultar e lavar o dinheiro, assim como para fazer o câmbio do dinheiro obtido com o tráfico internacional.

A opção por vender a droga em outros continentes é óbvia: fora do Brasil o traficante lucra mais. Um grama de cocaína em São Paulo, por exemplo, custa até 50 reais (22 dólares), enquanto que em solo europeu é 4,4 vezes mais cara, 222 reais (98 dólares).
Durante os 12 meses de trabalho, a polícia apreendeu uma embarcação, 230.000 euros em dinheiro, 290.000 reais, 440.000 dólares, 13 carros e dois caminhões, além de dez fuzis e pistolas. Ainda é pouco, perto dos milhões de reais que o grupo movimentou nos últimos meses, entre 20 milhões e 30 milhões de reais, segundo policiais consultados por este diário.

sábado, 18 de janeiro de 2014

A Máfia e o crescente escândalo do lixo tóxico na Itália

[O texto traduzido parcialmente abaixo (por ser muito longo) foi publicado no site inglês (Spiegel Online) da revista alemã Der Spiegel (O Espelho) em 16 deste mês de janeiro, e denuncia o crime de despejo de lixo tóxico no sul da Itália praticado há décadas pela Máfia. Em 2006 li o livro "Gomorra", de Roberto Saviano (Editora Bertrand Brasil), que narra a história real de um jornalista infiltrado na Camorra, a violenta máfia napolitana. No livro, Saviano -- que vive desde então sob a proteção e a vigilância cerradas do Estado italiano -- já narra em detalhes escabrosos do descarte criminoso de lixo tóxico na Itália. Os relatos do livro e da Spiegel são impressionantes. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. ] 

Há décadas a Máfia tem despejado ilegalmente lixo tóxico na região ao norte de Nápoles. Testemunho antes secreto, revelado recentemente, mostra que líderes políticos há anos sabem do problema e no entanto nada fizeram a respeito -- mesmo com o aumento do índice de mortes por causa disso.

Carmine Schiavone foi batizado duas vezes. A primeira, por um padre, quando recém-nascido. A segunda, pelo próprio chefão Luciano Liggio, uma figura de destaque da máfia siciliana.

"O batismo foi feito assim", conta Schiavone. "O ícone de um santo foi colocado em minha mão e uma gota de sangue foi pingada sobre ele. Em seguida, o ícone foi queimado e foi recitado o seguinte: "você queimará como este santo se trair os irmãos ou os aliados da Cosa Nostra".  Schiavone fez seu voto, e comprometeu-se com a causa -- e, no entanto, acabou cometendo a traição. Depois de anos como chefe do notório clã Casalesi, parte da rede da Máfia ao redor de Nápoles, ele mudou de lado em 1993 e tornou-se uma testemunha chave nos processos legais contra seus associados. Ele testemunhou contra pesos-pesados dos Casalesi, que tinham apelidos como "Sandokan" [um herói de aventuras, criado pelo escritor Emilio Salgari entre 1883 e 1884], "Midnight Fatty" ["Gordo da Meia-Noite"], Baby, e outros.

Quando o denominado "Julgamento Espártaco" terminou finalmente em 2010, membros do clã Casalesi receberam até 16 sentenças de prisão perpétua consecutivas, graças especialmente ao testemunho dado por Schiavone. A recompensa de Schiavone foi uma nova vida, sob proteção policial, em que ele tem que constantemente mudar de endereço. "Participei em cerca de 50 assassinatos, alguns deles que eu mesmo ordenei, e sabia de uns 400 ou 500 outros", disse ele.

O ex-mafioso passou cerca de metade de seus 70 anos na cadeia ou em prisão domiciliar. Do ponto de vista legal, pagou por seus crimes. Apesar disso, Schiavone é novamente o centro das atenções devido a um testemunho que prestou em 7 de outubro de 1997 a uma comissão parlamentar de inquérito em Roma. Seu depoimento foi tão vasto e abrangente, que foi mantido em segredo -- até o parlamento italiano ceder à pressão popular e liberar sua divulgação no final de outubro do ano passado.

"Milhões de toneladas"

A audiência de 1997 não focou o tipo de matança em que Schiavone se envolveu durante a guerra de quadrilhas no interior napolitano. Em vez disso, foi centrada em homicídio negligente -- o resultado de solo e água subterrânea contaminados por lixo altamente tóxico que, sabe-se agora, durante anos foi depositado ilegal e lucrativamente pela Máfia, principalmente pelo clã Casalesi.

"Estamos falando de milhões de toneladas", disse Schiavone aos parlamentares (ele foi anteriormente chefe da administração da Máfia). "Sei também que vieram caminhões da Alemanha transportando lixo nuclear". As operações se realizaram à noite, sob a guarda de mafiosos vestindo uniformes da polícia militar, disse ele. Schiavone mostrou aos agentes da justiça italiana os locais de muitos desses despejos porque, disse ele em 1997, "as pessoas nessas áreas estão sob risco de morrer de câncer em 20 anos".

Mais de 16 anos se passaram desde que Schiavone fez essa profecia à comissão de inquérito -- e nada foi feito. O choque e a revolta são extremos hoje. Não apenas porque pesquisadores de câncer encontraram indicadores significativos de que Schiavone possa ter dito a verdade, mas também porque várias autoridades em todos os níveis têm que ter estado cientes dos alertas de Schiavone desde meados dos anos 1990, e os ignoraram.

A pressão é particularmente grande sobre os seguintes atores dessa história:

  • Giorgio Napolitano era o ministro do Interior à época e, portanto, responsável em última análise pelas investigações. Hoje, é presidente da Itália.
  • Gennaro Capuolongo, de acordo com Schiavone, estava em um helicóptero que sobrevoou alguns dos locais de despejo de lixo tóxico. Hoje, é chefe da Interpol italiana.
  • Alessandro Pansa chefiava à época as unidades móveis da força policial italiana. Hoje, chefia a Polícia Estatal italiana.
  • Nicola Cavaliere estava na polícia criminal na época e se envolveu no caso, diz Schiavone. Hoje, é vice-diretor do serviço de inteligência doméstica da Itália.
Mas, mesmo com toda a pressão da mídia italiana, as autoridades italianas estão agindo como sempre, especialmente o presidente Napolitano [que é de Nápoles]. Ele diz que a Camorra é o "ator principal" do desastre ambiental  e evita falar do papel dele mesmo. Cavaliere diz que "nunca lidou diretamente" com o assunto. Outros implicados pelo depoimento de Schiavone permanecem em silêncio, ou tentam minimizar as preocupações.

Nomes, datas e locais

O jornalista Roberto Saviano já não descreveu em seu livro Gomorra como a Máfia transformou o sul da Itália em depósito de lixo para o rico norte italiano? Por que o súbito alarme? É possível que um ex-mafioso enlouquecido esteja semeando pânico para que o Estado gaste milhões para sanear os locais contaminados com tóxicos -- operação com a qual a Máfia pode mais uma vez lucrar?

É possível. Mas, mesmo isso faria pouco para amenizar a severidade das acusações de Schiavone. Ninguém antes dele falou de transporte de lixo nuclear. Ninguém antes dele descreveu com tantos detalhes como o lixo industrial de fábricas ilegais do norte chega até o sul. Ele contou como o lixo -- não importa se contendo dioxina, amianto ou tetracloroetileno -- foi depositado em valas abertas para a construção de rodovias.

Estima-se que 11,6 milhões de toneladas de lixo são despejadas ilegalmente na Itália, por ano. A organização ambiental Legambiente coloca o negócio do "lixo negro" movimentando acima de € 16 bilhões [cerca de R$ 50 bi] em 2012. Parece tratar-se de uma atividade imune a crises, já que os clãs da Máfia oferecem seus serviços por preços bem menores que os das empresas especializadas em descarte de lixo.

A Máfia é uma parte do Estado, diz Schiavone, acrescentando que os Casalesi eram um "clã estatal" e que o estado também lucrava com o negócio do lixo -- uma acusação séria, que ele diz poder provar. O ex-mafioso abre a porta de um quarto onde guarda caixas de documentos, mexe nos papéis e começa a declinar nomes, datas e locais.

Toda a informação que possui foi fornecida às autoridades nacionais anti-Máfia nos anos 1990, diz Schiavone. O nome de uma empresa baseada em Milão que, como intermediária, desempenhou um papel chave na transferência de lixo do norte para o sul, foi incluído também nos documentos. "Mas, parte do meu testemunho foi classificada como confidencial pelo Rei Giorgio", diz ele.

Rei Giorgio? "Napolitano, que era então ministro do Interior". E quem estava por trás da empresa em Milão?  "Um dos sócios", diz Schiavone, "era PB -- Paolo Berlusconi". PB é o vice-presidente do time de futebol AC Milan e é irmão de Silvio Berlusconi, que por quatro vezes foi primeiro-ministro da Itália. Ele foi realmente um participante do comércio de lixo tóxico e nuclear da Máfia? Schiavone disse isso em público, mas PB classifica suas alegações de "conto de fadas".

"Terra de veneno"

Quem viajar para o sul pela Autoestrada do Sol e tomar a saída para Casserta, pertinho de Nápoles, chegará ao local onde milhares de caminhões nas décadas passadas despejaram suas cargas de lixo industrial, à sombra do Vesúvio. Está bem no centro da região onde Goethe passou algum tempo durante suas viagens ao sul, e descrita de maneira encantada por ele como a "planície mais fértil do mundo". 

Os tempos mudaram. Já em 2004, a publicação médica britânica The Lancet Oncology descreveu a área ao redor de Acerra como um "triângulo da morte", onde nasceram ovelhas com duas cabeças. Depois, toda a região ao norte de Nápoles foi apelidada de "terra dei fuochi" ou "terra dos fogos". Circulavam imagens de crianças maltrapilhas em frente a colunas de fumaça negra que saíam de despejos de lixo não autorizados. Agora que ficou claro que o perigo maior vem do que restou sob o solo, a região é citada como a "terra do veneno". 

A área por onde Goethe viajou certa vez é hoje uma sequência de assentamentos desinteressantes, separados por campos de couve-flor e shopping centers. Vêem-se prostitutas nigerianas, imagens de santos em pequenos altares à beira da estrada e montanhas de lixo, onde se pode encontrar de tudo -- de garrafas de cerveja a barris de dioxina. 

A base naval americana em Gricignano, de paisagismo muito agradável, situa-se entre duas faixas de terra envenenada. Isto significa que todos na base, incluindo o almirante Bruce Clingan -- que comanda as forças americanas e aliadas na Europa e na Ásia, e mora na "Villa Capri" com vista para o Vesúvio -- têm que seguir regras rígidas. Água da torneira não pode mais ser usada na base, nem mesmo para escovar os dentes. Até o gato do comandante toma água engarrafada. As razões para isso estão cuidadosamente listadas em um estudo de US$ 30 milhões, comissionado pela Marinha americana em 2011 -- um trabalho que só chegou à atenção dos italianos através de um artigo na revista L'Espresso. Seu título: "Beba Nápoles e morra". O estudo concluiu que 92% da água coletada de poços privados fora da base apresentavam um "risco inaceitável à saúde". 

(...) Apesar disso, muito da produção local é considerado como não contaminado e há várias colheitas por ano. No entanto, ainda há dias em que mesmo homens honrados como o general Sergio Costa, do serviço florestal nacional, têm a sensação de estarem olhando através das "portas do inferno". Como no dia em novembro, por exemplo, em que ele e seus homens desenterraram barris de lixo tóxico de debaixo de campos de couve-flor em Caivano. As luvas de plástico que alguns dos homens usavam para manusear o lixo dissolveram-se no contato com ele.

"O aterro sanitário mais repugnante da Europa"

Mais ao oeste, em Giugliano, 500 ciganos vivem em choças e trailers aos pés do que provavelmente é o aterro sanitário mais repugnante da Europa, saturado de, entre outras coisas, lama tóxica e dioxina. De acordo com o comissário do governo responsável pela área, "seria necessário um sarcófago como o de Chernobyl para proteger o público".

(...) Antonio Marfella, do Instituto Italiano de Pesquisas de Câncer em Nápoles, apresenta outras descobertas: tumores aumentaram em 47% entre os homens na província de Nápoles nas últimas duas décadas. Sobretudo, a ocorrência de carcinoma de pulmão está crescendo mesmo entre não fumantes -- um fato raro na Europa. A região de Campânia tem hoje a taxa de infertilidade mais alta da Itália, e lidera também no número de casos de autismo severo -- tudo isso deflagrado, os especialistas suspeitam, pela exposição aumentada ao mercúrio.

"O desespero está se espalhando"

(...) As comunidades estão se organizando em protesto, sob a liderança do padre Maurizio Patricello, pároco de Caivano. Defensores de direitos civis que trabalham com ele enviaram 150.000 cartões postais ao Papa e ao presidente Napolitano, com fotos de mulheres com seus filhos mortos em seus colos. Entre elas estava Anna, cujo filho de 20 meses morreu de leucemia em 2009. (...)

Lixo radioativo da Alemanha Oriental

Obviamente, a influência do clã Casalesi não terminava -- nem termina ainda hoje -- na fronteira norte da Itália, diz Schiavone, acrescentando que dissera a mesma coisa à polícia federal alemã que o interrogou em Munique e em Roma. "Tínhamos um de nossos homens na Alemanha, que tinha contatos com políticos de lá", disse ele. "por intermédio dele veio, entre outras coisas, o lixo tóxico -- inclusive o nuclear -- para a empresa em Milão".  

O gabinete da Polícia Criminal Federal da Alemanha confirma que houve uma reunião com Schiavone em 1994, e que ela tratou das atividades do clã Casalesi em território alemão. Mas, as autoridades alemãs disseram não ter lembrança de discussões sobre lixo tóxico ou nuclear. 

Schiavone, entretanto, insiste em que o material radioativo "presumivelmente da Alemanha Oriental" foi entregue em recipientes de chumbo de cerca de 50 cm de comprimento. "Esses recipientes foram então enterrados "a até 20 m de profundidade -- mas a sonda, usada posteriormente para medições, foi apenas até 6 m de profundidade".

De acordo com o responsável pela região de Campânia, a informação fornecida por Schiavone está sendo investigada. Mas, quanto às pequenas quantidades de material radioativo, isso demandará algum tempo.


Um local de descarte ilegal de lixo tóxico, com a silhueta do Vesúvio ao fundo - (Foto: Mauro Pagnano/Der Spiegel).


Carmine Schiavone, o ex-mafioso que denunciou as atividades da Máfia do descarte ilegal de lixo tóxico na Itália - (Foto: Mauro Pagnano/Der Spiegel).


O oncologista Antonio Marfella, do Instituto Italiano de Pesquisas de Câncer de Nápoles, que verificou que a incidência de tumores entre os homens na província de Nápoles aumentou em 47% nas últimas duas décadas, potencialmente em consequência das grandes quantidades de lixo tóxico enterradas no solo da região - (Foto: Mauro Pagnano/Der Spiegel).


Mais de 100.000 manifestantes participaram de um protesto em novembro passado em Nápoles para demonstrar sua indignação com o enorme problema do lixo na região que circunda a cidade. Muitas mães portavam fotos de crianças que morreram de doenças que podem ter sido causadas pela poluição - (Foto: Mauro Pagnano/Der Spiegel). 


Em Giugliano, próximo a Nápoles, 500 ciganos vivem em trailers e choças junto ao que é provavelmente o aterro sanitário mais repugnante da Europa - (Foto: Mauro Pagnano/Der Spiegel).

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Encontros com a máfia calabresa: dentro do mundo da 'Ndrangheta

A revista Spiegel Online teve uma série de encontros com líderes da máfia calabresa, a 'Ndrangheta,  do que resultaram três reportagens. Reproduzo a seguir a tradução de boa parte da primeira dessas reportagens, "Dentro do mundo da 'Ndrangheta" (Inside the World of the 'Ndrangheta).

A misteriosa máfia calabresa, a 'Ndrangheta, tornou-se uma das mais poderosas organizações criminosas do mundo ocidental, através de seu domínio sobre o tráfico europeu de cocaína. Pela primeira vez, chefões da organização descreveram seu modelo de negócio à Spiegel -- é um misto de talento empresarial, gestão competente, e crueldade implacável.

Para o encontro com a Spiegel, Carlo sugeriu um café numa cidade fora de Munique. Ele está sentado à sombra de árvores altas, um homem em forma em seus 50 e muitos anos, com olhos alertas e cabeça raspada. Ele explica como homens como ele nunca são presos, mesmo trazendo cocaína para a Alemanha às toneladas.

Um diamante incrustrado em um anel dourado brilha por um momento, à luz do sol do final de tarde, e então Carlo prossegue de onde havia parado: "Sou um "iluminato", diz ele, falando alemão com sotaque italiano. Nos círculos mafiosos, há uma distinção entre os "iluminati" (os "iluminados") e os "manovali" (os "serventes"). O anel é um sinal do alto posto de Carlo.

Fontes no sul da Itália disseram que Carlo era o responsável pelo comércio de cocaína na Alemanha. Nessa tarde, ele não deixa dúvidas quanto a isso. "No verão, ou por volta do Ano Novo, quando há o pico de demanda, trazemos uma tonelada de cocaína a cada intervalo de poucos dias", diz Carlo. Embora esteja permanentemente ciente do que está acontecendo no mundo da droga, ele mesmo nunca toca na mercadoria, preferindo que outros sujem seus dedos. Isto reflete a divisão de trabalho entre os iluminados e os serventes.

Há tempo a Polícia Criminal Federal alemã (BKA, em alemão) está de olho na 'Ndrangheta, a máfia calabresa. Ela foi responsável por quase todos os crimes mafiosos que chamaram a atenção, cometidos em solo alemão nos anos recentes.

Giorgio Basile, que cresceu na cidade de Mülheim an der Ruhr, da Alemanha Ocidental, e esteve envolvido em cerca de 30 assassinatos até sua prisão em 1998, era um membro da 'Ndrangheya. O grupo de pistoleiros que matou seis pessoas em uma pizzaria perto de Duisburg em 2007 veio do sul da Itália. E os sete mafiosos presos pela polícia nos Estados de Baden-Würtemberg, Hesse, e Nord Rheine-Westphalia no início de 2011, eram membros de um sindicato que especialistas consideram o cartel de cocaína mais importante do mundo. De acordo com um relatório interno da BKA, a Alemanha é um centro chave no tráfico europeu de cocaína, como um "país de trânsito e organização".

"O mito da invencibilidade"

Marcar um encontro com um membro ativo da 'Ndrangheta é um processo  difícil.  Isto exige ter os contatos certos, alguém para estabelecer  o contato inicial, e muito tempo e paciência. Também ajuda ter crescido na Calábria.

Durante várias discussões preliminares, a 'Ndrangheta avaliou o risco a que estaria exposta por estar em contato com a mídia. Francesco Sbano, de 48 anos, fotógrafo e responsável pela produção da música da 'Ndrangheta, considera que os membros da organização estão agora dispostos a falar porque se sentem muito fortes. "Querem cultivar o mito da invencibilidade", diz.

Poucos traidores

No entanto, Carlo, o iluminado, decidiu não aparecer no primeiro encontro combinado na Alemanha. Ele quis primeiro se certificar com o pessoal da Calábria. Na segunda vez, ele reprogramou o encontro várias vezes. Quando finalmente apareceu no café fora de Munique, a primeira coisa que pediu foi uma carta de recomendação [relativa ao repórter] escrita em italiano. E disse que poderia prestar informações, desde que isso não prejudicasse o [seu] negócio. Vestia roupas italianas de alta qualidade.

Disse que foi batizado aos 18 anos. Se referia ao ritual secreto no qual foi aceito na "onorata società", ou "honorável sociedade", como a 'Ndrangheta se autodenomina. Foi levado à organização por seu tio. Isso acontece geralmente nessas organizações, onde a união é baseada em parentesco e, como consequência, há poucos traidores.

Na Itália, esses vira-casacas são conhecidos como "penitenti"  ou "penitentes" (arrependidos). São membros da máfia que, depois de presos, quebram a "omertà"  ou voto de silêncio e contam tudo. De acordo com as estatísticas do judiciário italiano, até 2008 havia cerca de 1.000 penitenti filiados à Cosa Nostra siciliana, 2.000 à Camorra napolitana -- mas, apenas 42 pertenciam à 'Ndrangheta. Os "'Ndranghetistas", como são chamados seus membros, não mancham o sangue de suas famílias com traição.

Ganhando a confiança do Chefão

Carlo veio para a Alemanha inicialmente para trabalhar numa fábrica da Bavária durante umas férias de verão. Quando voltou para casa, engravidou a prima de um mafioso. Ele não queria casar-se com ela, o que não agradou em nada a família dela, o que obrigou Carlo a voltar [para a Alemanha] e desaparecer nos Alpes. Ele não esteve fora de perigo até dois anos depois, quando o mafioso morreu. "Foi assim que escapei de uma vendetta (vingança)", diz ele.

Sempre que os figurões da 'Ndrangheta vinham para a Alemanha, Carlo trabalhava como seu motorista. Ele dirigiu com eles pela Bavária e Baden-Würtemberg, pela região industrial do Ruhr na Alemanha Ocidental, e para Bremen e Hamburgo no norte, "para os portos onde chega a cocaína". Ele era seu intérprete, fazia trabalhos avulsos para eles, e lentamente ganhou sua confiança.

De acordo com Carlo, a 'Ndrangheta montou uma malha sólida por toda a Alemanha. Ele diz que o porto de Hamburgo é uma das maiores portas de acesso para a cocaína que vem da América do Sul.  "Operamos como uma empresa comercial", ele explica. "Compramos a mercadoria, a empacotamos, alugamos empresas de navegação, e pagamos os impostos". As empresas de navegação providenciam para que o dinheiro do suborno chegue para as autoridades que tomam as decisões. "As transportadoras conhecem o mapa da mina à volta dos portos".

Ao longo dos anos, Carlo preparou seu caminho rumo ao topo da organização alemã. Hoje, quase nenhuma reunião importante se faz sem sua presença. "As reuniões são a peça chave para a operação da 'Ndrangheta", diz ele. Tudo é discutido cara a cara. Carlo usa cartões de telefone pré-pagos para fazer ligações de negócio, e depois os joga fora depois de cada ligação, de modo que as ligações não possam ser rastreadas.

Evitando riscos

"Nossos clientes na Alemanha são, em sua maioria, cafetões e uma grande quadrilha de ciclistas", diz Carlo. "Entregamos pacotinhos de 50 a 70 gramas, geralmente para bordéis". Ele disse que ignora o que acontece com a cocaína lá. A 'Ndrangheta tem o cuidado de não correr riscos cometendo crimes comuns. "Não negociamos drogas nas ruas alemãs", diz ele.

Evidentemente, é impossível checar a veracidade de tudo que o homem da Calábria diz durante uma tarde num café da Alta Bavária. Por outro lado, a participação geral da 'Ndrangheta no crime organizado na Alemanha é bem documentada.

O relatório da BKA afirma que a máfia calabresa montou "estruturas de fundações profundas" na Alemanha, "com líderes de clãs individuais e também com assassinos". De acordo com a Jane's Intelligence Review [Revista de Inteligência Jane, uma publicação mensal de inteligência militar], uma revista inglesa para quem toma decisões na área militar e de inteligência, a Alemanha é provavelmente a base mais importante da 'Ndrangheta na Europa.

[A reportagem da Spiegel é muito longa, e não é possível reproduzí-la na íntegra aqui, por isso eliminei vários trechos do texto original].

Conexões excelentes 

As relações da 'Ndrangheta com a América do Sul são excelentes. A "fratellanza" ou "irmandade" garante preços favoráveis e alta qualidade. Ela monitora o empacotamento e o transporte na América do Sul, assim como o trajeto pelo portos europeus como Hamburgo, Rotterdam, ou Antuérpia, e pelo caminho todo até os depósitos secretos na Calábria. "A rede não tem falhas", diz outro figurão da organização, "e as rotas de transporte são confiáveis".  Nas poucas ocasiões em que um carregamento foi descoberto isso ocorreu porque "o dinheiro do suborno foi muito pouco".

A 'Ndrangheta paga 1.200 euros por um quilo de cocaína na Venezuela ou no Peru, mas quando a droga chega à Calábria ela já lhe custou 17.000 euros. "A maior parte disto é gasta no suborno de autoridades", diz um líder da organização. Quando chega ao mercado atacadista, o quilo da cocaína bruta (pura) [sem quaisquer aditivos] já custa entre 27.000 e 32.000 euros.

A organização ganha milhões com cada novo carregamento. Por isso, a parte mais difícil do trabalho é saber "como investir o dinheiro". Mas hoje não falta gente competente para fazer negócio. Graças aos milhões das drogas, os mafiosos puderam mandar seus filhos para as melhores escolas e hoje eles são advogados, consultores fiscais, banqueiros e médicos. Eles efetuam operações de lavagem de dinheiro do mais alto nível.





quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Museu de arte busca asilo na Alemanha para escapar de máfia italiana

Ameaças da Máfia e a incompetência do governo esgotaram a paciência de Antonio Manfredi, diretor do Museu de Arte Contemporânea de Casoria, uma cidade pobre perto de Nápoles sob forte influência da Camorra, a máfia que domina o sul da Itália. No dia 7 ele anunciou ter escrito uma carta à chanceler alemã Angela Merkel, pedindo-lhe asilo para o seu museu na Alemanha para escapar da cidade assolada pelo crime onde sua coleção de arte se abriga.

Manfredi, que é também um escultor, declarou que quer que a Alemanha salve sua coleção da ruina -- "se (Merkel) me dá asilo, junto minhas coisas e me mudo para a Alemanha com minha equipe e meus 1.000 trabalhos de arte", disse ele. Telefonemas ameaçadores e repetidos atos de vandalismo deram-lhe a certeza de que está sob uma quase constante vigilância da Camorra. Leia mais.
Antonio Manfredi, diretor do Museu de Arte Contemporânea de Casoria, Itália (AFP/Getty).