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sábado, 12 de novembro de 2016

As perspectivas do carro autônomo, o carro que roda sem motorista e até sem ninguém a bordo

Ver postagem anterior: Carro elétrico: a corrente flui

O carro inteiramente autônomo, que roda completamente independente de motorista, pode estar muito mais perto de se tornar realidade do que se pensa. Todos os fabricantes de carros estão trabalhando no sentido de desenvolver um veículo cujos comandos sejam delegados a um computador a bordo. Isso sujeito a evoluções tecnológicas e regulamentares.

Esse tipo de carro voltou a ser abordado intensamente na imprensa francesa, por conta do salão de carros de Paris deste ano, o Mundial do Automóvel 2016, de 1 a 16 de outubro. O jornal francês Le Figaro publicou em 30 de setembro recente uma série de artigos sobre a tecnologia de ponta dos veículos dessa mostra, e o tema do carro autônomo esteve presente. Abordarei os principais pontos levantados pelo Le Figaro.

No artigo "Le développement inéluctable mais progressif vers la voiture autonome" ("O desenvolvimento inevitável mas progressivo rumo ao veículo autônomo"), de Emmanuel Égloff, menciona-se que esse é um assunto de que todo mundo fala. Os amantes dos belos carros esportivos receiam inevitavelmente ver desaparecer o prazer de dirigir. Os mais jovens, assim como os mais velhos, vêem nisso uma possibilidade de acesso a uma nova liberdade de movimento. Para a maioria dos atores do mundo do automobilismo, o caminho rumo ao veículo autônomo parece inevitável. Uma estatística lhes dá razão: 95% dos acidentes automobilísticos resultam de um erro humano. Eliminando-se esse fator, as vias de trânsito tornar-se-ão muito mais seguras. Os ganhos humanos e financeiros são de tal modo enormes, que justificam todos os esforços para desenvolver as tecnologias que tornarão possível essa proeza.

Antes  de ser autorizado, o veículo autônomo deverá entretanto mostrar uma total confiabilidade. A polêmica em torno do acidente mortal de um carro Tesla rodando no modo "piloto automático", no  início do verão, mostra bem a grande e lógica sensibilidade a essa questão. Na realidade, o fabricante (Tesla) havia equipado esse modelo com uma ajuda eletrônica à direção, mas o nome (Autopilot) que deu a esse sistema é enganador. E, visivelmente, induziu ao erro os clientes dessa marca californiana.

A maioria dos fabricantes de carros antecipam uma evolução progressiva até o veículo autônomo. Foram identificadas seis etapas:

☛ Nível 0 -- não há nenhum outro sistema além da segurança passiva (ABS). O motorista controla todos os aspectos da direção do veículo.

☛ Nível 1 (sem os pés) -- leva em conta os primeiros auxílios ativos, como a assistência ao estacionamento ou o regulador adaptativo de velocidade. Com este último, o veículo administra sua velocidade, acelerando ou freando para se ajustar ao limite fixado pelo motorista, que controla a direção do veículo. O regulador adaptativo de velocidade é largamente disseminado não só em marcas/modelos premium, mas igualmente em certas marcas/modelos genéricos.

☛ Nível 2 (sem as mãos) -- o motorista exerce um papel de controle/fiscalização. O veículo começa a administrar sozinho as ultrapassagens. Ele pode igualmente estacionar numa garagem sem intervenção humana.

☛ Nível 3 (sem os olhos) -- este nível representa um passo suplementar real. Com ele, a condução autônoma começa a se tornar uma realidade, mesmo que isso ocorra apenas em circunstâncias bem precisas. O motorista pode então começar a fazer outras coisas diferentes, sem dirigir. Ele poderá também enviar, com toda segurança, mensagens desde seu celular nos engarrafamentos. É preciso, entretanto, retomar a direção do veículo a qualquer momento.

☛ Nível 4 (sem o cérebro) -- aqui a autonomia torna-se quase completa. O sistema é capaz de assumir todas as condições de dirigir. O motorista se resume a ativar ou desativar o modo "autônomo".

☛ Nível 5 (sem motorista) -- aqui temos o veículo sem motorista, ou mesmo sem presença humana em seu interior. É a última etapa da condução autônoma. Certos especialistas trabalham para passar diretamente a esta etapa, que se assemelha a  um enorme big bang para os usuários de veículos.  É, por exemplo, o caso do Uber ou de seu concorrente americano Lyft. Para eles, a eliminação do motorista, que responde pela parcela maior dos seus custos, representaria uma vantagem evidente. A General Motors, muito ligada à Lyft, de cujo capital participa, trabalha nessa direção.

Atualmente, os fabricantes dominam o nível 1. A última versão da Mercedes Classe E pode mudar de pista sozinha, o que corresponde ao nível 2. Carlos Ghosn, CEO da Renault e da Nissan, prevê comercializar veículos assim equipados a partir de 2018. A versão autônoma final deve surgir dois anos depois.

"A regulamentação não autoriza ainda a condução autônoma"

Todos os obstáculos contra o carro autônomo não foram ainda eliminados. A tecnologia não está longe de ser alcançada. Carros de demonstração totalmente autônomos circulam em vias americanas, europeias e até francesas há vários anos. O Google Car acumulou vários milhões de quilômetros no modo autônomo. Os quatro carros de demonstração Citroën C4 Picasso, do grupo PSA, percorreram 60.000 quilômetros. É necessário doravante atingir uma confiabilidade total.

A dificuldade seguinte está na regulamentação. A Convenção de Viena, que regulamenta a circulação viária desde 1968, foi ligeiramente emendada em março de 2016. Ela autoriza a partir de então "os sistemas de condução automatizada, com a condição de que sejam conformes com os regulamentos das Nações Unidas". No momento, isso não permite que a Mercedes Classe E utilize todos os seus recursos em matéria de autonomia. A versão comercializada tem hoje restrições. Mas os poderes públicos estão conscientes da necessidade de se adaptarem. Os fabricantes estão confiantes.

O último problema será o preço desses veículos. Eles concentrarão numerosos sistemas e tecnologias de grande complexidade. Atualmente, os veículos que oferecem sistemas de ajuda à  direção mais desenvolvidos são os de versões ou fabricantes premium. Esses serão igualmente os primeiros a propor a condução autônoma. Contudo, todos os fabricantes genéricos -- seja Renault ou PSA -- contam com uma oferta maciça. E não será senão graças a essa grande difusão que o objetivo de realmente baixar baixar o número de acidentes de trânsito será atingido.

Os problemas jurídicos a serem resolvidos antes da comercialização dos veículos autônomos

☛ A Convenção de Viena de 1968 foi emendada em março de 2016, mas ela proíbe ainda os sistemas de pilotagem automática em velocidade  elevada.

☛ O sistema de proteção dos dados coletados pelas viaturas relativos ao motorista não está muito claro atualmente.

☛ Os fabricantes devem fazer uma escolha ética na programação do piloto autônomo: proteger o motorista ou os pedestres.

☛ Os fabricantes poderiam enfrentar processos no quadro legal atual.

☛ A responsabilidade dos fabricantes pode ser colocada em jogo no caso de acidente envolvendo um veículo autônomo.

Em entrevista publicada na revista L'Obs [Le Nouvel Observateur], Carlos Tavares, CEO do grupo PSA (Peugeot, Citroën e DS), afirma "venderemos em 2021 um veículo que rodará de maneira completamente autônoma". Segundo ele, o grupo PSA já está pronto para a produção de carros autônomos, porque seus dez modelos de teste (Picasso C4) já percorreram sem problemas 60.000 km em vias europeias, em condições reais. Em sua opinião, haverá sem dúvida dois tipos de veículos autônomos. Em primeiro lugar, um veículo que funcionará de modo completamente autônomo em todas as condições mas que será muito caro. Será um veículo elitista, acessível a poucas pessoas, a menos que se aceite compartilhá-lo.

Por outro lado, haverá veículos de condução assistida, mais baratos, que se deslocarão apenas em trechos de rotas protegidas. Não ofereceremos tais veículos enquanto a segurança  não for totalmente garantida. Essa transformação se fará por etapas: o novo Peugeot 3008, que apresentaremos no Mundial do Automobilismo, dispõe já de elementos como a ajuda à condução, que lhe permite adaptar apenas a velocidade ou permanecer em sua via de circulação. Essa funções irão crescendo. Colocaremos à venda em 2021 nosso primeiro veículo totalmente autônomo.



O Google informou no dia 5 deste mês de outubro que seus carros autônomos atingiram a marca de 2 milhões de milhas rodadas [3.218.688 km], o que equivale aproximadamente a 300 anos de direção humana. Foram necessários dois anos para o Google atingir seu primeiro milhão de milhas e 16 meses para alcançar o segundo milhão. No período, seus carros autônomos se envolveram em 14 acidentes, 13  dos quais provocados por carros com motoristas.

Ver também:

◼︎ "Volvo e Uber entregarão carro completamente autônomo este ano" (em inglês)

◼︎ "Veículo autônomo: as empresas chinesas se colocam na linha de largada" (em francês)


domingo, 26 de junho de 2016

Os estranhos e inexplicáveis critérios nos gastos e cortes do governo

Na semana passada, no dia 23/6, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação confirmou que a operação do supercomputador está comprometida e que o LNCC sofreu um contingenciamento de cerca de 20% de seus recursos, afetando as operações nos próximos meses.  O supercomputador Santos Dumont, inaugurado neste ano no Rio de Janeiro e que seria utilizado para uma série de pesquisas que inclui o vírus da zika, teve de ser desligado em meio a cortes de recursos do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), afirmaram pesquisadores nesta quarta-feira (22/6).

O motivo para o corte na operação da máquina é a falta de recursos provocada pelo contingenciamento de verbas do LNCC. Como é capaz de rodar a uma velocidade de até 1 milhão de vezes mais rápida que a de um notebook convencional, o aparelho consome mais energia. Estima-se que o custo mensal de energia da máquina seja de aproximadamente R$ 500 mil.

Segundo o LNCC, a máquina, comprada da francesa Atos/Bull, tinha um orçamento de R$ 60 milhões este ano, incluindo o custo de aquisição e instalação. O equipamento tem capacidade de 1,1 petaflop e é o primeiro de sua escala no país. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação confirmou que a operação do supercomputador está comprometida e que o LNCC sofreu um contingenciamento de cerca de 20% de seus recursos, afetando as operações nos próximos meses. O ministério afirmou, porém, que a máquina está operando a 30% de sua capacidade e que não foi totalmente desligada.

A notícia acima comprova mais uma vez que o governo federal administra seu orçamento como alguém que não entende, nem quer entender de prioridades para o país. Os burocratas do Planalto acham que supercomputador é brinquedo de luxo de alguns privilegiados, e por isso tratam seus gastos com a mesma atenção de quem mantém a cantina do Ministério da Fazenda -- com a séria chance de que a cantina leve a melhor nesse jogo.

O governo interino de Temer, preocupantemente, tem repetido uma série de erros e fisiologismos que levaram o governo de Dilma para o brejo. O fisiologismo corre solto, e Temer tem escandalosamente cedido a pressões espúrias para se manter o máximo no poder. Tem tomado decisões absolutamente incongruentes e inconsistentes com sua promessa -- agora revelada fajuta -- de austeridade financeira. Vejamos alguns exemplos:

☛ Depois de fazer jogo de cena sobre limitação de gastos, Temer surpreendeu e decepcionou o país concedendo integralmente o aumento do funcionalismo público proposto por Dilma no início do ano. No dia 30 de janeiro, a presidente enviou ao Congresso seis projetos de Lei que irão beneficiar os servidores públicos federais em todo o Brasil. Ao todo, o governo estimava que mais de 1 milhão serão beneficiados com a medida. Isto representa quase a totalidade dos servidores da União, com percentual em torno de 90%.  

As carreiras de Estado, como são chamadas as carreiras do funcionalismo público cujos ocupantes exercem atividades típicas do poder estatal – tais como segurança, fiscalização e arrecadação – fecharam acordo com o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão para um reajuste superior ao concedido aos demais servidores. Enquanto os servidores civis do Executivo federal receberão aumento de 10,8% dividido em dois anos, eles ganharão 27,9% em quatro anos. 


A Câmara aprovou na noite de 1° de junho o aumento do salário dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). O rendimento, que delimita o teto do funcionalismo, passou de R$ 33.763 para R$ 39.293. O efeito cascata gerado em todo o Judiciário deverá, segundo o Ministério da Fazenda, ter um impacto de R$ 6,9 bilhões até 2019. Essa foi apenas a primeira proposta do mega-pacote de reajuste do funcionalismo que o governo interino de Michel Temer aprovou nessa noite, e incluiu além do Judiciário, o Executivo, o Legislativo e o Ministério Público, com impacto que passa de R$ 58 bilhões até 2019. Com esses montantes, o governo garantiria o funcionamento do supercomputador por mais de um ano, com resultados muito melhores para o país do que os gerados por esse mais de 1 milhão de burocratas.

☛ Os gastos secretos da Presidência, uma caixa preta que Dilma jamais permitiu que fosse aberta, é um sumidouro de dinheiro. 

De janeiro a maio deste ano, o governo federal gastou R$ 17,8 milhões só com cartões corporativos (dados atualizados até as faturas com vencimento em maio). Deste montante, R$ 5,4 milhões (30%) foram pagos pela presidência. Essa despesa pagaria a conta de luz de 35,6 meses do supercomputador, com base no gasto mensal de hoje. O governo faz afarra com esses cartões, mas corta 20% da verba do supercomputador a título de "corte de gastos". 

O projeto de lei do senador Ronaldo Caiado (DEM/GO), que dá total transparência a gastos pessoais e da administração da Presidência da República (PR), já chegou à Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado para ser votado em caráter terminativo. Um substitutivo do senador Antonio Anastasia (PSDB/MG), apresentado ao projeto inicial, foi aprovado na Comissão de Transparência e Governança Pública (CTG) e, se aprovado na CCJ, segue direto para a Câmara dos Deputados.

☛ Comprovando a filosofia petista nesses quase 14 anos de governo, segundo a qual é dando que se recebe, os cargos de confiança representam hoje 35% da folha do funcionalismo federal. Relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) mostrou que a administração pública federal, incluindo Executivo, Legislativo e Judiciário, gasta hoje R$ 3,47 bilhões por mês com funcionários em cargos de confiança e comissionados. O valor representa 35% de toda a folha de pagamento do funcionalismo público na esfera federal, que é de R$ 9,6 bilhões mensais. É fácil imaginar o enorme números de apadrinhados aspones nesse gigantesco contingente de ocupantes de cargos de confiança.

☛ Dilma duplicou os gastos com publicidade antes de deixar o governo. Ela não poupou gastos com publicidade antes de deixar o governo federal. As despesas com propaganda passaram de R$ 229,4 milhões nos cinco primeiros meses de 2015 para R$ 460 milhões neste ano, isto é, os valores praticamente duplicaram. A Presidência da República foi a principal responsável pelo aumento.

O levantamento foi realizado pelo Contas Abertas com base nos valores empenhados (já reservados em orçamento para pagamento posterior). Cabe ressaltar que os dados de 2016 não compreendem o mês fechado de maio, ou seja, a diferença pode ser ainda maior. Os valores são correntes.

Enquanto se autopromovia, Dilma cortava verbas de projetos muito mais importantes do espalhar mentiras sobre ela mesma e seu governo. O corte no orçamento do supercomputador é uma prova inequívoca disso.

Temer precisa urgentemente informar ao país o que está fazendo, ou pretende fazer a curtíssimo prazo, para corrigir e/ou eliminar essas sangrias esdrúxulas de gastos. O supercomputador do LNCC tem trabalhos importantíssimos para o país, incluindo pesquisas sobre o vírus da zika, e não pode ser preterido enquanto gastos demagógicos e palanqueiros são mantidos para alimentar o fisiologismo do governo.

☛ Cedendo à pressão pilantra dos governadores, que gastaram muito mais do que podiam e fizeram vista grossa da Lei de Responsabilidade Fiscal, fez um acordo malcheiroso com os estados, dando-lhes 2,5 anos para pagarem suas dívidas com o governo federal. E, como exigiram os governadores, iniciaram-se as negociações com os estados para esticar também os prazos de pagamento de suas dívidas com o BNDES. Temer fez e continua fazendo barganhas com o nosso dinheiro para manter-se no poder. Enquanto isso, a ciência e a tecnologia que se ferrem.

domingo, 23 de agosto de 2015

Como saber se seu wi-fi está sendo roubado (e o que fazer)

[A reportagem abaixo foi publicada no site BBC Brasil.]


Muitos usuários deixam a rede wifi de casa aberta para o resto da família utilizar, o que facilita o furto - (Foto: Thinkstock)

Nove da noite e, como em todos os outros dias, você quer ver um novo capítulo da série favorita através de algum serviço de streaming no computador.

Mas a conexão com a internet sem fio parece ficar lenta neste exato momento. "Não é normal", você pensa. E a situação piora. "Não carrega. Por que não carrega?", você fala alto. Até que, sem conseguir ver nada, você desiste.

Se esta situação ocorre com frequência, é preciso pensar na hipótese de alguém estar usando sua rede wifi sem que você saiba. Abaixo, dicas para descobrir se sua internet está sendo furtada e como evitar isto.

1 - Suspeita

A primeira pista de um possível furto de wifi é simples: se a internet ficar mais lenta em algumas horas do dia ou se ficar lenta de forma recorrente. 

A segunda pista virá do roteador. Você precisa apagar completamente todos os dispositivos sem fio de sua casa. Se uma das luzes do roteador, a destinada ao wifi (às vezes indicada como WLAN) continuar piscando, é possível que esteja ocorrendo o furto.

2 - Descubra o ladrão

Rede mais lenta do que o normal é motivo de suspeita - (Foto: Thinkstock)

Se a suspeita já existe, é preciso antes descartar outras possibilidades, como estar usando uma rede sem fio com pouca velocidade, computadores demais ligados à ela ou até mesmo obstáculos físicos ao seu wifi.
Para descartar essas possibilidades, especialistas recomendam instalar no computador, smartphone ou tablet um programa ou aplicativo que mostre os dispositivos conectados à sua rede. Existem várias opções gratuitas, como o Fing, para Android e iOS; Network, Discovery ou Net Scan, apenas para Android; e IP Network Scanner ou iNet, para o iOS.
Também há opções para computadores de escritório: Angry IP Scanner ou Wireshark para várias plataformas e Wireless Network Watcher e Microsoft Network Monitor para os dispositivos da companhia de Bill Gates.
Todos eles mostram quantos dispositivos estão conectados à rede sem fio, cada um identificado com um endereço IP. Se o aplicativo ou programa escolhido indicar que há mais dispositivos conectados à sua rede do que os que você tem, há um ladrão de wifi por perto.
3 - Veja se alguém se conectou enquanto você não estava

Antes de acusar alguém, verifique se não há computadores ou smartphones demais conectados à sua rede - (Foto: Thinkstock)

Os programas e aplicativos citados acima detectam possíveis intrusos em sua rede wifi, mas apenas se eles estiverem usando sua rede ao mesmo tempo que você.
Mas há formas de saber se alguém se conectou ao seu wifi enquanto você não estava em casa. Para isto, você precisa de uma informação do roteador: o endereço IP, uma série de números separados por pontos, de três em três.
É possível encontrar este número no manual do roteador ou então no próprio computador. Se você tem um Mac, basta clicar no ícone de wifi e ir até o "abrir centro de redes e recursos compartilhados" no menu, depois ir até "conexão de área local" ou "conexão de rede sem fio". Vá até "detalhes", onde outra janela vai se abrir. O endereço IP identificado como "porta de link predeteminado IPv4" é o endereço IP do seu roteador.
Se o seu computador é Windows, vá até a "busca" e digite "ipconfig/all", depois "conexão LAN sem fio" e, por último, "endereço físico". Assim, poderá obter o endereço do roteador.
Você precisa colocar esse número em seu navegador, desta forma poderá acessar a rede do roteador.
Após escrever a senha, você vai descobrir um registro das conexões feitas até este momento na sua rede wifi.
4 - Proteja sua rede
Talvez você tenha deixado sua rede sem fio aberta para que todos os membros da família possam se conectar. Ou talvez foi um descuido, ou algum vizinho usou algum aplicativo para descobrir suas senhas de wifi.

Mude a senha de acesso ao wifi e escolha uma mais complicada - (Foto: Thinkstock)
Seja como for, ter um intruso em seu wifi pode causar mais problemas do que você pensa. Eles podem ter acesso a informações armazenadas em computadores conectados à sua rede e, em casos mais extremos, podem cometer um crime em seu nome, como baixar pornografia infantil, por exemplo.
Para evitar tudo isso, a primeira coisa a fazer é mudar a senha do wifi. Sempre substitua por alguma mais complexa. James Lyne, da companhia especialista em segurança em internet Sophos, recomendou à BBC evitar o uso de apenas uma palavra na senha. O melhor é combinar letras e números. "É mais seguro 'AmoMuitoBBCBrasil123' do que 'BBCBrasil'", afirmou.
Para o especialista, outro truque para uma senha segura é pensar na letra da sua música favorita e escolher um trecho. "Assim sua senha será muito maior e realmente difícil de decifrar", acrescentou.
Uma vez que você mudou a senha, também poderá configurar o roteador para que permita apenas a conexão de dispositivos com endereços MAC concretos. Com isso, será mais difícil acessar sua rede wifi e você talvez nunca mais precise se preocupar se vai conseguir ou não assistir à sua série favorita.
Veja também:







sábado, 22 de agosto de 2015

O que acontece com os nossos dados na internet?

[O texto abaixo, publicado no site da versão brasileira do jornal espanhol El País, nos dá mais uma visão da nossa progressiva, inevitável e irremediável perda de privacidade na internet. Sua autora é Gemma Galdon Clavell, doutora em políticas públicas e diretora de pesquisas da Eticas Research and Consulting.]


Ilustração e informação: Olga Subirós (CC BY-NC-ND-2.0)

Todos nós ouvimos dizer alguma vez que quando um produto é aparentemente gratuito é provável que na verdade estejamos pagando por ele com dados. Isso acontece com as redes sociais, os cartões de fidelidade de lojas e supermercados ou com infinitos aplicativos que oferecem serviços mais ou menos relevantes em troca, somente, dos nossos dados pessoais.

Mas além de intuir que nós somos o produto, na realidade não sabemos o que é feito exatamente com nossa informação, ou no que consiste e como funciona esse pagamento com dados. Na verdade, não é uma questão simples e cada aplicativo tem seus próprios procedimentos e lógicas. No caso da navegação na internet, por exemplo, as empresas e prestadores de serviços nos oferecem de forma gratuita seus motores de busca, páginas web e serviços associados para ler o jornal, consultar a previsão do tempo ou estar em contato com outras pessoas através de redes sociais e fóruns. No entanto, cada vez que entramos em uma web é baixada automaticamente uma série de microprogramas conhecidos como cookies que conseguem informações sobre nossa atividade online e enviam ao proprietário da página visitada informações sobre nosso IP, MAC ou IMEI (o número de registro do nosso dispositivo), o tempo e a forma que usamos num determinado site ou outros sites que estejam abertos ao mesmo tempo, identifica se somos visitantes regulares e que uso fazemos da página web, em que sequência, como acessamos outros sites e assim por diante. Além disso, é comum que diferentes empresas paguem ao site que visitamos para poder instalar seus próprios cookies, como também é habitual que a empresa use os dados não somente para seus estudos internos, mas que também os venda a terceiros.

Na verdade, cada vez que visitamos uma página com o computador, o celular ou o tablet, recebemos dezenas de pedidos de instalação de cookies. Somos, portanto, o produto, porque em troca da informação que obtemos fornecemos detalhes sobre nossa atividade online e, frequentemente, dados pessoais como nome e localização, hábitos, cartão de crédito, etc., sobre os quais não temos nenhuma maneira de controlar para onde eles vão. Diante disso, o único recurso de autoproteção é não aceitar cookies e renunciar ao serviço, ou exclui-los sistematicamente do nosso computador, algo tão enfadonho como escassamente útil.

O Facebook, rede social utilizada por mais de um bilhão de pessoas por mês, dispõe dos dados que o usuário deposita voluntariamente nele, mas também faz inferências com base em nossas interações com pessoas e informações, compartilha-as com terceiros e desenvolve um perfil único que permite determinar o que aparece no nosso mural, tanto por parte de nossos amigos como de anunciantes. Todo “curtir” ou registro feito por meio do Facebook gera informações que são analisadas e classificadas por algoritmos tanto para nos conhecer em nível individual quanto como consumidores, para desenvolver perfis sociais para agências de publicidade. O registro continua mesmo que tenhamos fechado a página: a não ser que saiamos manualmente, os cookies do Facebook continuam espionando tudo o que fazemos online.

Se, além disso, instalamos o Facebook nos nossos celulares junto com o seu aplicativo de mensagens, o sistema pode ativar remotamente nossa câmera ou microfone, acessar nossas fotos, mensagens e assim por diante de modo a continuar aperfeiçoando o nosso perfil.

O exemplo de navegação na internet é o mais comum, mas já não é o único protagonista. A mesma implantação de conexões não aparentes e de compra e venda de dados também ocorre quando usamos um cartão de fidelidade de clientes, que relaciona o nosso padrão de consumo com um nome, endereço, muitas vezes alguns dados bancários e as respostas ao questionário que normalmente preenchemos ao solicitar esse tipo de cartão.
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A não ser que saiamos manualmente da página, o Facebook continuará espionando o que fazemos
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Outra área em que a coleta de dados está se tornando cada vez mais importante é o espaço público. Nosso descuidado passeio pelas ruas é cada vez menos anônimo e os sensores que leem os identificadores únicos e a geolocalização dos nossos dispositivos, as câmeras de imagem térmica e de videovigilância, redes sem fios, lâmpadas inteligentes ou sensores de leitura automática de placas de automóveis nos incorporam de forma rotineira a bases de dados públicos e privados que em algum lugar servem a alguém para obter um lucro que não conhecemos nem controlamos.
O espaço doméstico é talvez aquele onde esse monitoramento dos nossos movimentos e rotinas para elaborar padrões vendáveis aumenta de forma mais preocupante: todos os eletrodomésticos inteligentes, do medidor de energia elétrica ao aparelho de televisão, passando pela geladeira, constroem uma rede de extração de dados que quer aperfeiçoar a imagem de quem somos, do que queremos e do que podemos querer. O desafio é ser capaz de se antecipar às nossas necessidades para nos tentar a comprar produtos ou serviços que ainda não sabemos que desejamos. Pagamos duas vezes: quando adquirimos o eletrodoméstico ou pagamos a conta de luz, em dinheiro, e a cada vez que proporcionamos informações com dados pessoais.
Algumas empresas começaram a explorar a possibilidade de se tornarem data brokers dos cidadãos, uma espécie de corretores de dados que gerenciariam nossa informação, devolvendo-nos parte dos lucros gerados por ela. Que ninguém espere ficar rico: no momento, as empresas que tentam abrir caminho nesse mundo obscuro não pagam mais do que alguns euros por mês em troca de informações tão sensíveis como dados médicos ou bancários. Por enquanto, o verdadeiro dinheiro não está na relação entre os cidadãos e os serviços que coletam dados. A economia dos dados ainda é pouco mais do que uma promessa, da qual até agora se beneficiam muito poucos atores (Facebook, Tuenti, Google, Foursquare, YouTube, etc.), e mais pela febre de investimento do que pelos resultados. Na aurora dessa promessa de negócio proliferam corretores de dados dedicados ao cruzamento de diferentes bases para aumentar o preço de venda dos perfis gerados a partir do cruzamento de informações de atividade online e offline: relatórios médicos, por exemplo, podem adicionar muito valor a um histórico de busca na internet.


Algumas empresas já exploram a possibilidade de se tornar ‘brokers’ de dados dos cidadãos
Para algumas pessoas, esse cenário não provoca nenhuma inquietude. Pagar com informação própria também abre a porta para a promessa de serviços personalizados e atenção individualizada. No entanto, os corretores de dados não se limitam a cruzar detalhes do que compramos, com quem interagimos e do que gostamos. Esse comércio inclui também, e cada vez mais, relatórios médicos, dados fiscais e de renda ou bancários. O tipo de informação que pode determinar se nos concederão um crédito, se nos oferecerão um plano de saúde mais ou menos caro ou se conseguiremos um emprego. De repente, o preço pago com informações pessoais surge como algo totalmente desproporcionado e incontrolável.
Ao aceitar nos transformar em produto, convém não esquecer que também aceitamos que acabem nos afastando do jogo, escondidos ou ignorados porque o nosso perfil não fornece a solvência, a saúde ou a obediência esperada.


Uma vida vigiada

Tecnologia e dispositivos que produzem ou armazenam dados de nossas atividades diárias:
1/6/14. Videovigilância: as imagens podem ser interceptadas.
2. Medidores de eletricidade e termostatos: fornecem informação sobre hábitos.
3/4. Televisores inteligentes e consoles de videogames: possuem câmeras e microfones.
5. Controles biométricos de entrada e saída.
7. Monitoramento remoto no trabalho: capturas de tela para medir a produtividade do trabalhador.
8. Bases de dados pessoais: podem conter dados fiscais e de saúde dos clientes.
9. Sensores de contagem de pessoas: monitoram o fluxo de compradores e os tempos de compra.
10. Cartões de fidelidade: em troca de descontos, criam perfis do comprador.
11. Ibeacons: enviam ofertas para celulares próximos.
12. Wi-fi gratuito: pode ser oferecido em troca do acesso ao perfil do Facebook.
13. Bilhetes de transportes públicos: cartões recarregáveis que produzem dados de deslocamentos.
14. Redes de bicicletas públicas: registro dos trajetos.
15. Carros: existem sistemas para ler as placas.
16. Telefonia móvel: permite geolocalizar.
17. Câmeras térmicas e sensores sonoros: medem o fluxo de pedestres e níveis de ruído.
18. Mobiliário urbano que detecta a presença de pedestres.
19. Sistemas de estacionamento: o pagamento com cartão de vagas azuis e verdes gera dados do usuário.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Spotify é hackeado antes de entrar no Brasil

[A reportagem abaixo é do site Olhar Digital e foi publicada no dia 27/5. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]


(Foto: Reprodução)

O serviço online de streaming de músicas Spotify, que oficializa amanhã sua chegada ao Brasil, sofreu esta semana um ataque que expôs informações da empresa. Segundo o CTO, Oskar Stål, uma investigação foi aberta para apurar as causas e consequências do ocorrido. [Ver informação do site Verge,  que foi a fonte desta reportagem do Olhar Digital.]

As análises preliminares não apontam para prejuízos; aparentemente, o invasor não conseguiu acesso aos dados de nenhum usuário, preservando as senhas e o número de cartão de crédito da base de assinantes. "Não há  risco para nossos usuários em decorrência deste incidente", reforçou o executivo.

A empresa está tomando providências para aumentar a segurança de seus sistemas e anunciou que vai deslogar alguns usuários para baixar novamente suas playlists de músicas. Além disso, o Spotify recomenda que os donos de Android atualizem o aplicativo do serviço. [O site Verge deixa claro que o problema se limita aos usuários do Android, enfatizando que os usuários de iOS e do Windows Phone não necessitam fazer nada em consequência dessa invasão do(s) hacker(s). Infelizmente para os "androidianos", quaisquer playlists que tenham baixado para ouvir offline terão que ser baixadas novamente depois que a nova versão for instalada. Spotify informou que, de imediato, está adotando medidas para "fortalecer nosso sistema de segurança em geral e para ajudar a proteger o usuário e seus dados".]

[A reportagem abaixo é do site G1 Tecnologia e Games e foi publicada em 28/5.]

O serviço de música por streaming Spotify (acesse aqui) – uma espécie de Netflix apenas com canções – foi lançado oficialmente no Brasil nesta quarta-feira (28) com mensalidade em dólar. Por US$ 6 ao mês (algo em torno de R$ 15), os brasileiros poderão acessar mais de 30 milhões de músicas disponíveis, acessadas no PC, em tablets e smartphones.

O Spotify chega tarde ao Brasil, e enfrenta concorrentes já consolidados no mercado, como o Xbox Music, da Microsoft, o Deezer, o Rdio e o Napster.

O catálogo de 30 milhões de músicas pode ser acessado por meio do programa para PC gratuitamente, desde que o usuário aceite ouvir e assistir a anúncios publicitários. Também não é possível escutar uma canção escolhida pelo usuário: é necessário incluí-la em uma lista ou escutar o álbum inteiro do artista na ordem ou em forma aleatória. Para ter liberdade de escolha, apenas pagando a mensalidade.

O valor pago, além de permitir escolher qual canção ouvir, dá a possibilidade de se baixar mais de 3 mil canções para escutar offline. Há aplicativos para celulares com sistemas Android, iOS, Windows Phone e Blackberry.




domingo, 4 de maio de 2014

Todas as versões do IE estão vulneráveis, alerta a Microsoft

[A reportagem abaixo é do site Olhar Digital e foi publicada em 28/4.]

A Microsoft emitiu um alerta no sábado de que as versões 6, 7, 8, 9, 10 e 11 do Internet Explorer [IE] podem ser atacadas por conta de uma vulnerabilidade descoberta recentemente. Ou seja, nenhuma versão do navegador está segura.

A brecha, que foi noticiada primeiro pela empresa de segurança FireEye, permite que se execute um código remotamente através do IE. "A vulnerabilidade existe na forma como o Internet Explorer acessa um objeto na memória que foi excluído ou não tenha sido devidamente alocado", explica a Microsoft. Segundo a empresa, o invasor pode hospedar um site especificamente criado para explorar a brecha e convencer o usuário a acessá-lo através de links por e-mail ou comunicadores instantâneos.

"Um invasor que explorar com êxito essa vulnerabilidade poderá obter os mesmos direitos que o usuário atual. Os usuários cujas contas são configuradas com poucos direitos de usuário no sistema correm menos riscos do que aqueles que operam com direitos administrativos", informou.


Por enquanto não há muito que os usuários possam fazer para se proteger, mas a MS prometeu tomar medidas, que podem vir na atualização de segurança que a empresa solta a cada mês ou, dependendo das "necessidades" dos clientes, em uma atualização emergencial.

Por conta dessa vulnerabilidade, o governo dos EUA recomendou aos usuários do IE que parem de usar o navegador. O departamento do governo americano responsável pela segurança na internet recomendou hoje que os usuários do Internet Explorer deixem de utilizar o navegador até que a vulnerabilidade anunciada no sábado seja consertada.

A brecha é grave e afeta todas as versões do software - 6, 7, 8, 9, 10 e 11. Por meio dela, é possível executar um código remotamente através do navegador. "A vulnerabilidade existe na forma como o Internet Explorer acessa um objeto na memória que foi excluído ou não tenha sido devidamente alocado", explica a MS.

Segundo a empresa, o invasor pode hospedar um site especificamente criado para explorar a falha e convencer o usuário a acessá-lo através de links por e-mail ou comunicadores instantâneos. Em nota a Microsoft diz estar "consciente das limitações e possíveis problemas" e encoraja os clientes a seguir as orientações descritas no comunicado de segurança (em inglês) divulgado por ela para "amenizar eventuais ocorrências".

Alternativas

Nesta lista do Olhar Digital você encontra sete opções para substituir o navegador da Microsoft, desde os concorrentes mais populares, como Google Chrome e Mozilla, a plataformas menos conhecidas. Porém, se quiser continuar utilizando o IE, consulte as dicas elaboradas pela empresa de segurança FireEye.

De acordo com a consultoria StatCounter, o IE é o segundo browser mais popular no Brasil, utilizado por 16% das pessoas com acesso à internet.




quinta-feira, 27 de março de 2014

Má notícia para a NSA e os censores chineses: o Google está criptografando suas buscas em escala global

[A notícia parcialmente traduzida abaixo foi publicada em 12/3 no blogue The Switch do jornal The Washington Post. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

O Google começou, rotineiramente, a criptografar suas buscas na China, colocando um audacioso desafio novo para o poderoso sistema desse país de fazer censura na Internet e rastrear o que os usuários estão vendo online individualmente. 

A empresa diz que essa iniciativa faz parte de uma expansão global da tecnologia de privacidade, projetada para frustrar ou impedir a espionagem dos serviços de inteligência governamentais, da polícia e de hackers que, com ferramentas amplamente disponíveis, podem ver emails, atividades de busca e conversas (chats) por vídeos se seus conteúdos estiverem desprotegidos.

A Grande Firewall da China, como o sistema chinês de censura é conhecido, há tempo vem interceptando as atividades de busca à cata de informação que considera politicamente sensível. O uso crescente de criptografia pelo Google no país significa que os monitores do governo ficam incapacitados de detetar quando os usuários usam em suas buscas nomes sensíveis como "Dalai Lama" ou "Tiananmen Square", porque a criptografia faz com que eles apareçam como sequências indecifráveis de números e letras. 

A China -- e outras nações, como a Arábia Saudita e o Vietnam, que fazem censura da Internet em nível nacional -- tem ainda a opção de bloquear completamente os serviços de busca do Google. Mas, será mais difícil para os governos fazer a filtragem de conteúdo por meio de termos específicos. Especialistas dizem que eles terão também mais dificuldade para identificar quais pessoas estão buscando informação sobre assuntos sensíveis. 

A iniciativa [do Google] é a consequência mais recente -- e talvez a mais inesperada -- da divulgação feita por Edward Snowden no ano passado de documentos da Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA, na abreviatura inglesa) que detalhavam a extensão da espionagem do governo na Internet. O Google e outras empresas tecnológicas responderam com novos e vultosos investimentos em criptografia em escala mundial.

As autoridades chinesas não responderam a perguntas sobre a decisão do Google de, rotineiramente, criptografar as buscas no país, mas essa iniciativa deve aumentar as tensões há tempo existentes entre a empresa tecnológica americana e a nação mais populosa do planeta.

"Não importa a causa, isso ajudará os internautas chineses a acessar informações que nunca viram antes", disse Percy Apha, cofundador da GreatFire.org, uma organização ativista que monitora a Great Firewall da China. "Isso será uma enorme dor de cabeça para as autoridades censoras chinesas. Esperamos que outras empresas sigam o Google, tornando a criptografia um padrão".

Alpha, que como outros membros do grupo usa um pseudônimo para escapar das autoridades chinesas, comentou que o Google começou a criptografar as buscas na China mais de dois meses depois que a GreatFire o desafiou publicamente a agir dessa maneira em um artigo opinativo publicado no jornal inglês The Guardian em novembro. Esse artigo surgiu em resposta a uma fala do diretor-executivo do Google Eric Schmidt, na qual ele disse: "Podemos acabar com a censura do governo em uma década", expandindo a criptografia. A GreatFire.org disse que a empresa não precisava esperar 10 anos -- ela poderia criptografar todas as buscas na China muito antes disso.

O Google negou que a movimentação da GreatFire tivesse algo a ver com o lançamento da tecnologia de criptografia na China, dizendo que isso se iniciou em fevereiro por razões outras. Todas as buscas feitas através dos navegadores mais modernos serão criptografadas nos meses vindouros. A empresa informou que ainda não está clara a data em que esse processo será concluído em escala mundial.

(...) O Google retirou-se em grande escala da China em 2010, transferindo muitas de suas operações para a base quase autônoma de Hong Kong depois de recusar-se a cumprir as as ordens para censurar as pesquisas, ou redirecioná-las para sites escolhidos -- algo que seus concorrentes que permaneceram na China ainda fazem.

Desde então, a fatia do Google no mercado chinês encolheu para o valor baixo de 5%, de acordo com a empresa de pesquisas de mercado Marbridge Consulting, sediada em Pequim. A grande maioria dos internautas do país usa a ferramenta de busca chinesa do Baidu, mesmo em celulares que rodam com o Android do Google. Isso significa que o efeito do uso ampliado da criptografia pelo Google será limitado em seu alcance, já que os usuários do Google na China -- tipicamente, pessoas tecnologicamente bem informadas e jovens -- já sabem como baipassar a Freat Firewall.

O Google começou a oferecer a busca criptografada como uma opção para certos usuários em 2010, e tornou automática a proteção para muitos usuários nos EUA em 2012.  (...) A Microsoft e a Yahoo logo o acompanharam nessa iniciativa.  A busca criptografada surgiu mais lentamente em outras partes do mundo, especialmente para aqueles que utilizam navegadores mais antigos. Firefox, Safari e o navegador do próprio Google, o Chrome, dão suporte à criptografia automática, o que não ocorre com gerações mais antigas do Internet Explorer da Microsoft -- ainda popular na China e em boa parte do mundo. O Internet Explorer 6, lançado inicialmente em 2001 e não comporta as buscas criptografadas do Google, é usado por 16% do tráfego da Internet chinesa, de acordo com a NetMarketShare.com. que rastreia esse tipo de uso.

(...) Os defensores da privacidade, que há tempo criticam o Google, disseram que seu uso crescente da criptografia não terá efeito nenhum para frear o rastreamento que o próprio Google faz das visitas de site, e-mails e solicitações de busca de seus usuários. Essa informação ajuda a empresa em sua propaganda direcionada, sua principal fonte de receita.

(...)


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Urnas eletrônicas brasileiras novamente na berlinda -- no interesse de quem?

Volta e meia nosso modelo eletrônico de votação é fortemente criticado, e nossas urnas eletrônicas são tachadas de "peneiras". A primeira coisa que acho ridiculamente gozada é que o mesmo pessoal que alega que essas urnas são "inseguras", não tem essa mesma preocupação com a internet de seu banco, com os caixas eletrônicos dos bancos (verdadeiras "urnas" bancárias) e/ou com seus iPhones da vida para fazer transações comerciais! Tenho amigos que se recusam a pagar suas contas pela internet -- alegando "insegurança" -- mas vão pagá-las no caixa eletrônico ... As pessoas se "abrem" para a urna bancária, mas ficam com firulas e temores com a urna do TSE. 

A primeira avaliação que faço desse comportamento que considero lamentável, e até mesmo ridículo (que me desculpem os que pensam o contrário), é que se trata de uma enorme ignorância em relação ao tema e uma absoluta incapacidade de comparar situações e fatos de risco praticamente idêntico. Sem falar no despreparo dessas pessoas em sequer desconfiar dessas campanhas difamatórias do voto eletrônico, que visivelmente tentam desqualificar nosso modelo para propiciar o retrocesso a um sistema de votação ideal para o coronelismo de baixa estirpe dos Sarneys e Calheiros da vida que campeia solto na nossa política. Muito recentemente, recebi de um amigo dileto o convite para endossar uma campanha na internet contra nosso voto eletrônico e recusei-me a fazê-lo.

A mais recente estocada contra nossa urna eletrônica está hoje no Globo, no artigo "Nosso sistema de votação é seguro?", de Luiz Roberto Nascimento Silva, que é advogado e foi ministro da Cultura -- por falar nisto, alguém se lembra de algo marcante desse cidadão quando ministro? A argumentação do texto é fragilíssima, não resiste a um peteleco de bom senso. P'ra começar, traz o DNA do complexo de inferioridade quando questiona nossa "ousadia" em adotar o voto eletrônico, quando pergunta se "as economias mais desenvolvidas de EUA, Alemanha, França e Japão são mais atrasadas por continuarem a se utilizar de processos históricos de apuração". Partindo de uma pessoa com curso superior e ex-ministro da Cultura, esse argumento é doloroso. O Dr. Nascimento Silva fala como se as sociedades desses países e a nossa fossem cultural e socialmente idênticas, e ressuscita a chorumela esgarçada do mantra "o que é bom para os EUA é bom para o Brasil". O mais grave, porém, é questionar o nosso direito de ousar e ser diferente.

O ilustra articulista deveria, para começar, lembrar-se da fraude eleitoral na Flórida na eleição presidencial de 2000 que causou a derrota de Al Gore para George W. Bush. Um bom começo seria ler a reportagem da BBC Brasil de 05/11/2006 ("Eleição nos EUA poderá repetir falhas de 2000"), que em sua introdução diz: "O sistema eleitoral em vigor nos Estados Unidos segue sendo deficiente e distorções semelhantes às que foram vistas nas eleições presidenciais de 2000 e 2004 poderão se repetir na votação da próxima terça-feira".

No final do ano passado, um rapaz de 19 anos disse ter fraudado a apuração de votos de uma urna eletrônica para favorecer um grupo político do Rio de Janeiro. A história tem todo o jeito e pinta de ser recurso de alguém que quer aparecer. Que se faça uma investigação séria sobre o fato, e que se tomem as medidas necessárias que as conclusões recomendarem -- alerta ao TSE ou prisão do hacker.

Em março de 2012, o TSE fez o que foi considerado o teste mais técnico e transparente da vulnerabilidade ou não da nossa urna eletrônica, que saiu dele com sua reputação reforçada. Fiz sobre esse teste duas postagens ["Segurança da urna eletrônica brasileira volta a ser manchete (I e II)"]: a primeira em 24/3/2012 e a segunda em 26/3/2012.

O melhor que temos a fazer é deixar de colocar chifre em cabeça de camarão e pelo em casca de ovo, manter nosso espírito inovador e não baixar nunca a vigilância sobre nossa votação eletrônica. Quem sabe teremos um dia políticos (eleitos) com o mesmo padrão de qualidade de nossas urnas eletrônicas ...

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A NSA dos EUA usa cookies do Google para localizar alvos para hacking

[Mais um capítulo da novela da espionagem da Agência Nacional de Segurança americana (NSA, em inglês) sobre o cidadão comum. A reportagem traduzida abaixo foi publicada ontem (10/12) no blogue The Switch do jornal The Washington Post. Apesar de sua extensão, resolvi traduzí-lo na íntegra por seu interesse para os que não são do "ramo". O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]


Um slide de uma apresentação interna da NSA indicando que a agência usa pelo menos um cookie do Google como meio de identificação de alvos para espionagem - (Foto: The Washington Post). 


A Agência Nacional de Segurança [dos EUA] está, secretamente, pegando carona nas ferramentas que permitem aos anunciantes da Internet rastrear consumidores, usando "cookies" e dados de localização para localizar alvos para espionagem do governo e reforçar a vigilância sobre eles. 

Os slides de apresentações internas da agência, fornecidos pelo ex-contratado da NSA Edward Snowden, mostram que quando empresas seguem consumidores na Internet para direcionar melhor sua propaganda a técnica que utilizam para isso abre as portas para que o governo faça um rastreamento semelhante. Os slides sinalizam também que a agência está usando essas técnicas de rastreamento para ajudá-la a identificar alvos para operações agressivas de hacking.

Durante anos, os defensores da privacidade têm mostrado preocupação com o uso de ferramentas de rastreamento comercial para identificar consumidores e alcançá-los com propaganda. A indústria da propaganda online tem dito que suas práticas são inócuas e beneficiam os consumidores, ao serví-los com anúncios que têm mais chance de ser de seu interesse.  A revelação de que a NSA está pegando carona nessas tecnologias comerciais pode deslocar esse debate, dando aos defensores da privacidade um novo argumento para o controle da vigilância comercial.

De acordo com a documentação revelada, a NSA e sua contraparte britânica GCHQ estão utilizando os pequenos arquivos de rastreamento ou "cookies" que as redes de propaganda colocam nos computadores para identificar as pessoas que navegam na Internet. As agências de inteligência descobriram um uso especial para uma parte do mecanismo de rastreamento específico do Google, conhecida como o cookie "PREF". Tipicamente, esses cookies não contêm informações pessoais de alguém como seu nome e seu endereço eletrônico, mas contêm efetivamente códigos numéricos que permitem aos websites identificar de maneira única e indubitável o navegador de uma pessoa.

Além de rastrear as visitas à Web, esse cookie permite à NSA selecionar as comunicações de uma pessoa no meio do mar de dados da Internet, para enviar software que pode hackear seu computador. Os slides mostram que os cookies são utilizados para "possibilitar a exploração remota", embora os ataques específicos da NSA contra seus alvos não sejam expostos nesses documentos.

O uso de cookies pela NSA não é uma técnica de peneirar vastas quantidades de informações para encontrar um comportamento suspeito; em vez disso, ele permite à NSA focar em alguém já sob suspeita.  Isso é semelhante ao ato dos soldados projetarem seus apontadores a laser sobre um alvo, para identificá-lo para as bombas guiadas a laser.

Separadamente, a NSA está utilizando também informação coletada comercialmente para ajudá-la a localizar dispositivos móveis ao redor do mundo, como os documentos mostram. Muitos dos aplicativos que rodam em iPhones e em dispositivos Android, e os próprios sistemas operacionais da Apple e do Google, rastreiam a localização de cada dispositivo, geralmente sem alertar claramente o proprietário do celular sobre isso. Essa informação é mais específica do que os dados de localização mais amplos que o governo está coletando das redes de telefones celulares, como o Post reportou na semana passada.

"Em um nível macro, podemos traduzir "precisamos rastrear todo mundo em todos os lugares para fazer propaganda" para "o governo sendo capaz de rastrear todo mundo em qualquer lugar", diz Chris Hoofnagle, um conferencista residente na Escola de Direito de Berkeley. "É difícil de evitar".

Esses slides específicos não mostram como a NSA obtém os cookies PREF do Google ou se este coopera com a agência nesses programas, mas outros documentos examinados pelo Post indicam que informação via cookies está entre os dados que a NSA pode obter com um mandado do Ato de Vigilância de Inteligência Estrangeira. Se a NSA obtém dados dessa maneira, as empresas sabem disso e são obrigadas a cooperar.

A NSA declinou de comentar as táticas específicas delineadas nesta reportagem, mas um porta-voz da agência enviou ao Post uma declaração: "Como dissemos antes, a NSA, dentro de sua missão legal de coletar informações de inteligência estrangeira para proteger os Estados Unidos, utiliza ferramentas de inteligência para entender as intenções de adversários estrangeiros e impedir que eles causem danos a americanos inocentes". [Que paranoia!]

O Google declinou de fazer comentários para esta reportagem, mas seu CEO Larry Page se juntou a outros líderes de outras empresas de tecnologia no início desta semana para pedir um fim à coleta maciça de dados de usuários, e pelo estabelecimento de novos limites aos pedidos sobre vigilância aprovados pelos tribunais.  "A segurança dos dados dos usuários é crítica, e é por isso que investimos tanto em criptografia e lutamos por transparência nas solicitações governamentais por informações", disse ele num comunicado no site da coligação. "Isso é solapado pela evidente coleta maciça de dados, em segredo e sem controle independente, feita por muitos governos ao redor do mundo".

Como usuários são rastreados online

Empresas da Internet armazenam pequenos arquivos chamados cookies nos computadores dos usuários para identificá-los de maneira única e específica, para alvejá-los com propaganda e outros fins através de vários websites diferentes. Esse modelo de negócio acionado pela propaganda paga muitos dos serviços, como as contas de emails, que os usuários se acostumaram a ter como grátis. No entanto, poucos usuários são conscientes de toda a extensão em que anunciantes, serviços e websites rastreiam suas atividades através da Web e dos dispositivos móveis. Esses mecanismos de coleta de dados são invisíveis para todos, exceto para os usuários mais sofisticados -- e as ferramentas para limitá-los ou bloqueá-los têm eficiência limitada.

Defensores da privacidade têm pressionado pela criação de um sistema "Não Rastrear" que permita aos consumidores não participar desse rastreamento. Mas, Jonathan Mayer, do Centro para Internet e Sociedade de Stanford, que tem sido ativo nesse movimento, diz que "os esforços do 'Não Rastrear' travaram". Eles chegaram a uma paralisação quando a Aliança de Propaganda Digital, um grupo comercial que representa as empresas de propaganda online, abandonou a iniciativa em setembro depois da ocorrência de divergências sobre a política proposta. Um dos temas básicos objetos de controvérsia era se os consumidores seriam capazes de optar por não participar de nenhum rastreamento, ou simplesmente por não receber propaganda baseada em rastreamento. 

Alguns navegadores, como o Safari da Apple, bloqueiam automaticamente um tipo de código conhecido como "cookies de terceiros", que são geralmente colocados por empresas que fazem propaganda no site visitado.  Outros navegadores, como o Firefox da Mozilla, estão testando essa ideia. Mas, esses ajustes não impedirão que os usuários recebam cookies diretamente dos sites que visitaram ou dos serviços que usaram originalmente. 

Cookie PREF do Google

Toda vez que o navegador de alguém se conecta com quaisquer propriedades ou serviços da Web do Google, este lhe designa ou atribui um único cookie PREF. Isso pode ocorrer quando consumidores usam diretamente serviços do Google como Busca ou Mapas, ou quando eles visitam sites da Web que contêm "widgets" [componentes de interface(s) gráfica(s) do usuário] embutidos para a plataforma de mídia social Google Plus da empresa. Esse cookie possui um código que permite ao Google rastrear seus usuários de maneira única e distinta para "personalizar anúncios", e para mensurar como eles usam outros produtos do Google.

Dado o amplo uso de serviços e widgets do Google, é provável que a maioria dos usuários da Web tenham um cookie PREF do Google mesmo que nunca tenham utilizado um serviço ou o website do Google diretamente.

Esse cookie PREF é mencionado especificamente em um slide interno da NSA, que faz referência ao fato da agência usar o Google PREFID, a abreviatura usada por ela para designar esse único e exclusivo identificador numérico contido dentro do cookie PREF do Google. A Operações de Fontes Especiais [SSO, em inglês] é uma divisão da NSA que trabalha com empresas privadas para "pescar" dados quando eles fluem sobre a Internet ou a partir dos próprios sistemas das empresas de tecnologia. O slide indica que a SSO estava compartilhando informações contendo "logins, cookies e Google PREFID" com outra divisão da NSA chamada Operações de Acesso Sob Medida [tradução livre para "Tailored Acess Operations"], que se envolve em operações agressivas de hacking. A SSO compartilha também as informações com a agência britânica de inteligência GCHQ. 

"Isso mostra uma conexão entre o tipo de rastreamento que é efetuado pelos websites para fins de análise e propaganda e as atividades desenvolvidas pela NSA", diz Ed Felten, um cientista da computação na Universidade de Princeton. "Ao permitir que eles mesmos sejam rastreados para fins de análise e propaganda, pelo menos alguns usuários estão se tornando eles mesmos mais vulneráveis a serem bisbilhotados".

Essa não é a primeira vez que cookies do Google receberam destaque nas tentativas da NSA de identificar alvos para serem hackeados. Uma apresentação divulgada pelo jornal The Guardian em outubro, chamada "Tor Stinks", indica que a agência estava usando cookies para DoubleClick.net, serviço de propaganda do Google para terceiros, em uma tentativa de identificar usuários da ferramenta de anonimato da Internet "Tor" quando eles chaveavam para navegação normal. "É similar, no sentido de que você vê o uso de um único/específico ID no cookie para permitir que um bisbilhoteiro conecte as atividades de um usuário ao longo do tempo", diz Felten.


Este fragmento de uma apresentação interna da NSA revela a existência de um programa que utiliza informação baseada em localização, vazada de aplicativos e serviços de celulares (clique na imagem para ampliá-la) - (Fonte: Washington Post).


Dados de localização vazados

Outro slide mostra que a NSA está coletando dados de localização que são transmitidos por aplicativos de celulares em esforços de definição de alvos de propaganda em massa. O programa da NSA, que tem o nome de código de HAPPYFOOT, ajuda a agência a mapear endereços de Internet sobre locais físicos com precisão maior do que a que é possível com os serviços de geo-localização tradicionais da Internet. 


Muitos aplicativos e sistemas operacionais de celulares utilizam serviços baseados em localização para ajudar os usuários a localizar restaurantes ou outros estabelecimentos nas vizinhanças. De fato, mesmo quando o GPS está desabilitado, a maioria dos smartphones determinam silenciosamente suas localizações usando sinais de redes Wi-Fi ou de torres/antenas de celulares. E aplicativos que não necessitam de dados de geo-localização podem ainda coletá-los de qualquer modo, para compartilhá-los com anunciantes de terceiros. Exatamente na semana passada, a Comissão Federal de Comércio anunciou um acordo para um aplicativo aparentemente inofensivo, do tipo "flashlight", que -- se alega -- vazava informações sobre a localização do usuário para anunciantes, sem o conhecimento do consumidor.

Aplicativos transmitem suas localizações para o Google e outras empresas da Internet porque anúncios vinculados a uma localização física precisa podem ser mais lucrativos do que anúncios genéricos.  Mas, nesse processo, parece que eles fornecem informação privilegiada à NSA sobre a localização física precisa de um dispositivo móvel. Isso facilita à agência seu engajamento nas técnicas sofisticadas de rastreamento que o Post descreveu em uma reportagem de 4 de dezembro.

Implicações para a privacidade

As revelações sobre as práticas da NSA mostram o dilema enfrentado pelas empresas que operam online, que têm sofrido uma reação contra o rastreamento para fins comerciais e contra o papel delas no sistema de vigilância/espionagem do governo. "Se dados forem usados e bloquearem o próximo 11/9, nossos concidadãos não teriam qualquer problema com isso, não importa o que seja", diz Stuart P. Ingis, conselheiro-geral na Associação de Propaganda Digital. Mas, ele diz também que é um ato de equilíbrio perseguir aqueles maus elementos "enquanto ao mesmo tempo se preservam as liberdades civis".  

Outros defensores das empresas de propaganda online têm argumentado que é injusto confundir ou mesclar as atividades de rastreamento para propaganda das empresas privadas com as atividades da NSA reveladas por Snowden. Marvin Ammori, um advogado que assessora empresas de tecnologia -- inclusive o Google -- sobre questões de vigilância, escreveu no jornal USA Today que "limitar a coleta maciça de dados pelas empresas privadas -- quer elas façam uso disso para propaganda ou não -- contribuiria muito pouco ou nada para limitar a NSA". 

Felten discorda, observando que os documentos mais recentes mostram que "os identificadores únicos e diferenciados que estão sendo colocados nos computadores dos usuários não estão sendo usados apenas por empresas de análises e propaganda, mas estão sendo utilizados também pela NSA para definir seus alvos". Ele diz também que há coisas que essas empresas podem fazer para proteger seus usuários de ataques como os descritos nos slides, como por exemplo "não enviar IDs de rastreamento, ou pelo menos não enviá-los em aberto", sem uma camada de criptografia.  

Analogamente, acrescenta, "desenvolvedores de navegadores podem ajudar, dando aos usuários um controle maior sobre o uso de cookies de rastreamento de terceiros e se assegurando de que seus navegadores não estão enviando IDs exclusivos como um efeito colateral de sua navegação segura". 

Mayer, de Stanford, diz que as revelações sugerem a necessidade de imposição de limites aos dados que as empresas coletam sobre os consumidores. "Há um senso crescente de que tudo o que há de mais importante é dar aos consumidores controle sobre as informações que compartilham com as empresas", diz ele, "porque você estará lhes dando controle também sobre a informação que compartilham com o governo".