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domingo, 27 de novembro de 2016

Médicos e atendentes de hospitais franceses sofrem uma agressão, verbal ou física, a cada meia-hora

[Relato surpreendente da violência diária que ocorre em hospitais franceses, contra empregados em geral e até contra médicos e enfermeiros, publicado no Le Figaro. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Comunicado de emergência

Editorial do Le Figaro - Yves Thréard - Le Figaro, 27/9/2016

Ele fraturou as duas mãos no exercício da sua profissão. O doutor Armand N. trabalha na emergência do hospital de Saint-Denis. Seus ferimentos não são acidentais. Ele foi agredido pelo irmão bastante irritado de um paciente entregue aos seus cuidados após uma briga. Isso foi há quinze dias, mas não há mais um dia nos hospitais da França sem que seus empregados sejam alvos de injúrias, de agressões físicas e inclusive de intimidações a mão armada. Segundo o Observatório Nacional de Violências na Saúde, um fato desse tipo se repete a cada trinta minutos, sem contar os que não são denunciados.

Juntamente com os serviços de psiquiatria, os atendimentos de emergência são os mais afetados. Principalmente na Île-de-France [uma das 27 regiões administrativas da França; a Região da Ilha de França é composta por oito departamentos: Paris, Essonne, Hauts-de-Seine, Seine-Saint-Denis, Seine-et-Marne, Val-de-Marne, Val d'Oise e Yvelines. Entre suas principais cidades estão: Paris, Versalhes e Nanterre.]. Em questão, a visita de pessoas bastante alcoolizadas e as longas esperas por atendimento. Cada vez mais frequentemente também, as exigências de doentes que se recusam a ter que lidar com um atendente masculino ou feminino. Inúmeros enfermeiros, parteiras e médicos não têm senão sua coragem para enfrentar a adversidade, e seu senso agudo do dever, para não sucumbirem.

Os serviços de urgência são um pouco o covil dos mendigos e dos ladrões. Duas cifras bastam para traduzir esse mal-estar crescente: 19 milhões de atendimentos registrados em 2015, contra 12 milhões em 2002. Pacientes, enfermos de pequenos "dodóis", para ali se dirigem por não terem outra opção, na falta de consultórios médicos disponíveis [fora dos hospitais]. Inúmeros outros se aproveitam do acesso fácil a cuidados gratuitos através, por exemplo, da ajuda médica do Estado a estrangeiros. Isso custa, em média, um bilhão de euros à coletividade. Enfim, os setores de emergência são o reflexo do aumento da violência nas ruas.

É preciso, claro, reforçar a segurança nos hospitais como nos estabelecimentos escolares. Mas, acima disso, essas duas instituições bem enfermas têm todos os sintomas reveladores da crise que afeta nossa sociedade. A resposta não pode pois ser senão política.

Os hospitais franceses enfermos pela violência

Anne Jouan e Damien Mascret -- Le Figaro, 27/9/2016

"Não se pode dizer que há mais violência (no hospital), mas sua origem ou sua forma mudaram". É o que afirma o Observatório Nacional de Violências em Ambiente de Cuidados, um organismo sob tutela do Ministério, em seu relatório anual de 2015. "O que aumenta é o agravamento da sensação de insegurança sentido pelas pessoas da área da saúde. Tornou-se muito baixa a tolerância frente a violências cujas causas são às vezes mal identificadas ou diante de violências gratuitas".

O relatório cita os principais motivos da violência. As críticas relativas ao atendimento prestado ocupam o primeiro lugar (com mais de 58% das causas de violência observados), seguindo-se o alcoolismo (12%) e o tempo para atendimento considerado excessivo pelos pacientes (11,6%). 

Na classificação das descrições de violências contra pessoas feita pelo Observatório, as ofensas, os insultos e provocações aparecem em primeiro lugar, com 36,7% dos casos. O Observatório registra, com sobriedade, que nos serviços de emergência  "as agressões verbais são diárias e as agressões físicas, numerosas". 

No hospital, uma agressão a cada meia-hora

Anne Jouan  -- Le Figaro, 26/9/2016

Terça-feira, 13 de setembro [2016], 22h49, setor de emergências do Hospital Delafontaine em Saint-Denis, norte de Paris. Um homem dá entrada com traumatismo craniano. Ao seu lado seu irmão se agita, fica inquieto, se irrita. É o médico Armand N. que sofre as consequências da cólera fraternal. O homem o agride violentamente. Ele lhe rompe as duas mãos, a ponto do médico ter que ser levado imediatamente para ser operado. O médico ficará durante 50 dias com incapacidade temporária de trabalho. [Ver texto completo, em francês, no link do título desta seção.]

Em Créteil, a colocação de um botão de alerta

Damien Mascret -- Le Figaro, 27/9/2016

É o maior setor de emergências do Vale do Marne. A cada ano, o Centro Hospitalar Intercomunitário de Créteil (Chic) recebe 100.000 pessoas, entre crianças, adultos e gestantes. Praticamente sem confrontos. A arquitetura foi concebida para separar a sala de espera dos locais de atendimento médico, botões de alerta deflagram a chegada de um agente da segurança, os vigias intervêm graças ao videomonitoramento ...

Christophe Prudhomme: "Formar pessoal apto para a contenção física"

Anne Jouan -- Le Figaro, 27/9/2016

Christophe Prudhomme é o porta-voz da Associação do Médicos de Emergência da França (Amuf, na sigla francesa) e trabalha no Samu [Serviço de Ajuda Médica de Urgência] de Bobigny. Para ele, o problema vem em parte do número muito grande chegando às emergências, da falta de clínicos gerais [médecins généralistes -- também chamados "médicos de família" e médicos da cidade (médecins de ville) ou médicos de bairro -- médicos que diagnosticam os sintomas antes de tratar a doença ou enviar o paciente a um outro especialista]: "Como nossos colegas médicos clínicos gerais estão sobrecarregados, os doentes se dirigem aos hospitais, aos serviços de emergências". Segundo ele, "é preciso formar pessoal hospitalar em gestão da violência, onde se aprenderá a mediação e a contenção física, seja com relação a pacientes agressivos ou para doentes mais de caráter psiquiátrico. Existem técnicas para reduzir o nível de agressividade".

Laicidade: o hospital sob tensão comunitária

Caroline Beyer -- Le Figaro, 27/9/2016

Uma enormidade de ferramentas teóricas e muito poucos avanços concretos sobre o tema da laicidade no hospital. É a constatação feita por Annick Girardin, ministra da Função Pública. Em setembro, instalou uma comissão "Laicidade e a função pública", que era esperada gerar suas recomendações em meados de novembro. "Cartas, guias, vade-mécum ... Se já existe um certo número de coisas, observa-se que na ausência de sua hierarquia os agentes nos falam de uma forma de abandono e sofrimento", explica a ministra, que no dia 23 de setembro esteve no hospital Bichat, em Paris, para escutar seus empregados. 

Pacientes recusando-se a serem examinados por um médico do sexo oposto, ou que sua mulher o seja, recusas de fazer transfusão, tensões por ocasião de visitas de familiares quando os pacientes estão em quartos duplos, regime alimentar particular, inclusive para bebês ... O hospital público é confrontado por reivindicações religiosas. Epicentros dessas tensões: as emergências e as maternidades.

"Por pouco teríamos um centro islâmico no bairro, eles impõem suas condições nas emergências! Nós estamos na linha de frente", deixa escapar Patrick Pelloux, presidente da Amuf. "Todas as religiões têm fixação pela saúde, que afeta a vida e a morte", prossegue ele, descrevendo "um combate do islamismo conservador intransigente para se apossar da saúde". Violento, ele denuncia as violações da laicidade pelo pessoal que presta atendimento e que é obrigado a respeitar a a estrita neutralidade, e face ao que ocorre reclama da "falta de coragem de certos médicos e de diretores de faculdades de medicina", que toleram o véu em suas dependências. 

Em dezembro de 2015, em uma nota dirigida aos diretores de hospitais, o diretor-geral do AP-HP [Assistência Pública - Hospitais de Paris] explicava que havia sido abordado por vários diretores para que esclarecesse a questão dos uniformes ou padrões de vestimentas para o pessoal e as tentativas de contorná-las/desrespeitá-las. Lembrando a rejeição, pela Corte Europeia dos Direitos do Homem, da petição de uma mulher usuária de véu, ele explicava que "o uso de gorro/carapuça ou qualquer outro tipo de capuz não pode ser admitido fora dos locais em que são recomendados. Isso, da mesma forma, se aplica às roupas que acobertam/escondem quem as veste", acrescenta a nota. 

"Vivemos uma regressão", constata por seu lado Philippe Deruelle, secretário-geral do Colégio Nacional de Ginecologistas e Obstetras franceses, que em 2006 alertava os poderes públicos, após a agressão de ginecologistas por maridos de pacientes. Ele descreve profissionais confrontados com o sofrimento psicológico de proibidas de usar contraceptivos e coagidas a uma gravidez que não desejam. No hospital Jeanne de Flandre de Lille, onde clinica, a reunião feita a cada dois meses para realizar um balanço das violências nas emergências médicas registra de cinco a seis casos ligados ao islamismo conservador intransigente.



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

França: o assustador aliciamento de menores pelo Estado Islâmico

[É impressionante e assustador o que o governo francês já identificou no tocante ao aliciamento de menores de  idade franceses pelo Estado Islâmico. Traduzo a seguir textos publicados pelo jornal francês Le Figaro em 23/9/2016. Um deles é o de Christophe Cornevin. O que estiver entre  colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Segundo as informações obtidas pelo Le Figaro, 1.954 menores foram identificados como radicalizados na França. Esse é um número 121% maior que o obtido em levantamento feito em janeiro deste ano.

Em uma  semana, quatro adolescentes foram apreendidos pela polícia antiterrorismo quando pretendiam entrar  em ação. Teleguiados a partir da  Síria através de mensagens criptografadas cada vez mais sofisticadas, esses jovens fazem parte dos 1.954 menores franceses radicalizados, o que corresponde a 18% do total dos indivíduos identificados por radicalização islâmica a partir de 2014. Entre os 689 franceses atuando em zonas de combate, 17 são menores. Destes, 6 foram mortos.

Segundo o Ministério do Interior, as mocinhas seriam cada vez mais numerosas entre os que sucumbem à influência dos recrutadores do Daech [abreviação árabe para "Estado Islâmico no Iraque e no Levante", uma organização terrorista hoje implantada na Síria e no Iraque, que busca exportar seu sistema de terrorismo para além do Levante (Líbia, Egito, Afeganistão, ...). Originária do braço iraquiano da al-Qaida, se desenvolveu no Iraque a partir de 2006; depois, na Síria, beneficiada pelo caos gerado pela repressão contínua do regime sírio desde  2011.].

Segundo o psiquiatra Patrick Amoyel, essa recrudescência se explica pelo fato de que "há um terreno de radicalização fértil para a adolescência". A partir de 2015, a proteção judiciária à juventude elaborou dois planos de luta contra  o terrorismo que garantiram o acompanhamento controlado de 600 menores. Deles, 34 já foram indiciados e 14 encarcerados.

Geração jihadista

Editorial, por Yves Thréad

Perante a lei, são menores. São crianças. Na realidade, estão prestes a semear o terror. São combatentes da jihad [guerra santa muçulmana]. Seu "sonho" é nosso pesadelo. E são franceses!

Quantos são? É assustador e inquietante. Seu número dobrou em nove meses no território nacional, onde não estão longe de chegar hoje a dois mil. Mais de quatrocentos outros vivem em zonas de guerra no Oriente Médio, para onde foram sozinhos, em grupo ou com seus pais. Alguns nasceram até sob o estrondo das armas, tendo como única nacionalidade a de serem futuras e potenciais bombas humanas. Receia-se o retorno de uns e a chegada de outros.

Uma geração de cadetes do islamismo -- meninos/jovens, mas  também cada vez mais meninas/moças -- está a caminho, em vias de se organizar. Muitos deles são convertidos, e todos não são nascidos em famílias fanáticas. Mas  todos são filhos da Internet, o canal de sua radicalização onde pregadores do Estado Islâmico e "imãs Google" fazem uma lavagem em seus cérebros. De um dia para outro. seus  comportamentos, seus hábitos e seus relacionamentos mudam até o momento em que soa o apelo para passar à ação. Quatro adolescentes, de 15 anos, foram recentemente interpelados na região parisiense pouco antes de fazerem algo pior.

O que fazer? Como detetar esses jovens, seguí-los uma vez identificados e evitar que o contágio se propague? O arsenal tradicional de medidas da justiça de menores está, seguramente, ultrapassada. Os meios de atuação dos serviços de informação e rastreamento nas redes sociais foram reforçados. Mas a amplitude da onda é tal, que as respostas são difíceis de serem ajustadas ou são inadequadas.

Face a esse  flagelo, a  retomada do controle de nosso sistema escolar se mostra urgente, distante das reformas demagógicas que foram introduzidas há quinze anos. É no momento em que se formam os espíritos, em que se forja o caráter, que convém ser intransigente.

Os menores estão no centro da estratégia do Daech

Christophe Cornevin - Le Figaro, 23/9/2016

Um aprendiz jihadista interpelado por policiais da DGSI [Direção Geral da Segurança Interna], em 10 de setembro, no 12° distrito de Paris - (Foto: Eric Baudet/Divergence)

Pesquisa - Quatro adolescentes ligados ao Estado Islâmico acabam de ser presos. Segundo nossas informações, cerca de 2.000 jovens de menos de 18 anos estão identificados como radicalizados na França.

Aluno brilhante e excelente tenista, esse colegial acabava de soprar suas 15 velinhas em 9 de setembro. Interpelado cinco dias depois no 20° distrito de Paris pela Direção Geral de Segurança Interna (DGSI), apoiada por homens da Raid [sigla francesa para Investigação, Assistência, Intervenção e Dissuasão, unidade de elite da polícia nacional francesa], esse jovem militante do jihadismo foi indiciado por associação com malfeitores terroristas em vias de cometer crimes. Detetado no visor dos serviços de informação à flor da idade, esse jovem de origem egípcia é suspeito de ter selecionado ataques em nome do Daech, antes de desistir disso. 

Foi o quarto adolescente em uma semana a cair nas redes do antiterrorismo. Todos estavam sob o  comando de Rachid Kassim, propagandista virulento do Daech suspeito de teleguiar através da rede criptografada Telegram atentados na França a partir da zona iraquiano-síria. O primeiro, um menor de 15 anos , indiciado e encarcerado, projetava um ataque jihadista na França. Preso em Rueil-Malmaison (Alto Sena), tinha  sido descoberto na rede Telegram em ligação com Rachid Kassim. Para espanto de suas pessoas mais próximas, um aprendiz jihadista também de 15 anos foi por sua vez apreendido no 12° distrito. Sob prisão domiciliar desde os atentados de 13 de novembro e já visado por uma ficha S [que identifica pessoas potencialmente perigosas para a "segurança do Estado"], reconheceu ter desejado "morrer como um mártir depois de matar todo um bando de "kouffars" (infiéis)" com arma branca. Ia passar à ação para semear a morte ao acaso da "Coulée verte" de Paris ["Coulée verte" é um parque no sul de Paris, situado ao lado ou abaixo das linhas do TGV (trem de alta velocidade) atlântico, entre o boulevard periférico de Paris e Massy].

Longe de serem casos isolados, esses "filhotes de leão" recrutados pelo Estado Islâmico parecem se multiplicar, a despeito dos reveses militares da organização terrorista na zona iraquiano-síria. Segundo um balanço de 15 de setembro que chegou ao conhecimento do Le Figaro, 1.954 menores estão identificados como radicalizados na França. Ou seja, 18% do total de 11.912 indivíduos detetados após a implantação da plataforma antijihadista em abril de 2014. Mesmo que permaneça proporcionalmente estável, a parcela de pessoas com menos de 18 anos explodiu em 121% em relação  a janeiro deste ano (882 casos). "A ação dos serviços de informação está mais intensa do que nunca", enfatizou o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, alarmado com o número de "apelos à morte lançados por um certo número de militantes em ação na Síria, que utilizam meios criptografados para convocar franceses cada vez mais jovens para que passem à ação".

Desvantagem das meninas e moças

"Os menores franceses tornaram-se o alvo de uma técnica dita de 'saturação'", descreve um alto participante da luta antiterrorista. "Muitas vezes em situação de fracasso escolar e de ruptura familiar devida a divórcio dos pais, esses jovens desequilibrados são inicialmente abordados na rua por um amigo de um amigo que, cheio de falsa empatia, lhes dá o hashtag da rede criptografada Telegram de "sargentos" recrutadores do Daech instalados não só na Síria, mas também na França. Uma vez com conexão segura e sob o controle mental de "gurus" como Rachid Kassim ou mesmo de Omar Omsen, autor de numerosos vídeos de propaganda direcionados a adolescentes, eles são bombardeados por uma centena de mensagens diárias", testemunha esse especialista. "Como você está vestido(a)?", "Que orações fez esta manhã?", "Quem você encontrou?", "Você apertou a mão de um homem hoje?", "Não saia sozinho(a)", ... Bem experiente, a lavagem cerebral é enfeitada com discursos enganadores exaltando o mito de um califado onírico, digno de um conto das Mil e Uma Noites.

Segundo o painel de avaliação da Praça Beauvau [onde está localizado emParis o Ministério do Interior, desde 1861], as meninas e moças tornam-se cada vez mais numerosas no aliciamento de radicalização do que os meninos e rapazes. Cerca de um milhar delas caíram no "liquidificador". Um policial de alto escalão explica essa "feminilização" do recrutamento pelo "kit de vida" que o Daech promete àquelas que sonham encontrar o príncipe encantado nas zonas de combate, seengajar no humanitário e fundar uma família para repovoar um califado fantasioso. "As jovens são mais dispostas, porque pensam que não serão enviadas para combater antes dos jovens", esclarece o Ministério do Interior. "Diferentemente destes, elas não vêem o banditismo como uma válvula de escape ...".

No plano judiciário, o contencioso terrorista se traduz pelo indiciamento de 37 menores e o encarceramento de onze rapazes e três moças. O aprisionamento de uma adolescente de 16 anos interpelada no início de agosto quando de uma captura antiterrorista testemunha a vontade do Estado de por fim ao Islã radical. A adolescente também estava em contato com Rachid Kassim. Assim como uma jovem de 18 anos interceptada no mesmo momento em Clermont-Ferrand.

No caos das zonas de combate, o quadro não é menos sombrio. Segundo nossas informações, os serviços especiais registraram 17 adolescentes entre os 689 combatentes voluntários franceses engajados sob a bandeira do Daech. Seis outros aí encontraram a morte. Alguns outros participaram de simulações macabras de execuções, à semelhança do suposto filho de Sabri Essid, antigo mentor do matador de Toulouse Mohamed Merah, filmado aos 12 anos em um vídeo terrível no qual executa um "espião do Mossad"com uma bala na cabeça, enquanto gritava "Allah akbar!" [Deus é grande!].

Ouvido em 10 de maio último pela comissão da defesa nacional do Palácio Bourbon [sede da Assembleia Nacional da França], o chefe da DGSI Patrick Calvar revelou: "Cadastramos cerca de 400 menores na zona considerada (...), dos quais um terço nasceu ali e tem pois menos de 4 anos". De acordo com a União de Coordenação da Luta Antiterrorista (Uclat), eles seriam entre 130 e 140. "Vítimas de um trauma de nascença, essas crianças muito jovens absorveram o medo e a guerra como esponjas", testemunha um analista de informação. "Mesmo que o Estado faça tudo para recuperá-las, elas correm o risco de voltar à França com um limite de tolerância à ultraviolência que nada tem a ver com o que jamais se viu ...". Além das questões de legalidade que seu retorno provocará, Patrick Calvar apontou "problemas reais de  segurança" porque esses menores estão "condicionados", "instrumentalizados pelo Daech" e "se exercitam com armas de fogo".

Em um relatório parlamentar dedicado aos meios do Daech, Jean-Fréderic Poisson e Kader Arif se questionam sobre a confissão/admissão de culpa dessas crianças e sua responsabilização: "Daech derrotado, as autoridades locais admitiriam isso? Qual seria o status jurídico delas?". Retomando a ideia de uma "bomba-relógio", eles consideram que "essas crianças têm vocação para ficar onde  estão ou, se nascidos de pais estrangeiros, poderiam retornar para o país de seus pais". E acrescentam: "Nos dois casos, é preciso determinar o regime jurídico que lhes é aplicável: qual é sua nacionalidade? Que autoridade tem condições de lhes conceder um passaporte ou mesmo uma certidão de nascimento?".

Por ora, os poucos que conseguiram sair das garras das unidades de combate regressaram à França dizendo-se "enfadados com a jihad". Esse foi notadamente o caso de Yacine e Ayoub, de 15 e 16 anos, ambos nascidos em Toulouse e companheiros de liceu, ambos desaparecidos na Síria em janeiro de 2014 antes de se encontrarem envolvidos na época com Jabhat-al-Nosra, um grupo filiado à al-Qaida. No final de agosto, o Ministério Público de Paris abriu uma nova investigação para reencontrar Ayoub. Atualmente um jovem maior de  idade, ele conseguiu chegar à Síria com toda discrição, via Bulgária e depois Turquia.

À semelhança da Alemanha crepuscular de 1945 o Daech, perdendo a influência, iria recorrer às mulheres e às crianças para continuar sua guerra louca contra as "cruzadas"? Ninguém sabe ao certo. O ex-juiz antiterrorista Marc Trévidic assegurou no canal France Inter: "É preciso sobretudo não acreditar que o Daech não tem senão mulheres e crianças: isso é para ocupar território. O que não  quer dizer não haja pessoas mais profissionais que preparam coisas muito mais graves".

O ódio e o fanatismo não esperam pelo número de anos. Eles inoculam seu veneno poderoso em espíritos mais jovens para conseguir atos indescritíveis, como no dia de janeiro último em que, não distante do instituto franco-hebraico de Marselha, um estudante secundarista de origem curda agrediu com golpes de cutelo um homem que usava um quipá. Tendo agido em nome do Daech, porque aos seus olhos "os muçulmanos da França desonram o Islã e o exército francês protege os juízes", o estudante era até então considerado pelos professores como "bom aluno, estimado pela equipe pedagógica"; festejou seus 16 anos atrás das grades.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

A França é o país em que menos se trabalha na Europa

[Volta e meia a França se vê envolvida em questões trabalhistas. Não é à toa que ela é o segundo país em que mais houve greves na Europa entre 2009 e 2013, só perdendo para Chipre, segundo reportagem do jornal britânico The Independent (ver gráfico a seguir).



Observem que o número de greves na França no período é mais do dobro do ocorrido no país que vem a seguir, a Dinamarca.

O jornal francês Le Figaro publicou reportagem de Marine Rabreau que deixa os franceses com péssima imagem no quesito de horas efetivamente trabalhadas na União Europeia (UE), como traduzo a seguir. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Entre 2013 e 2015, a diferença de tempo de trabalho dos franceses em relação aos seus principais vizinhos europeus aumentou -(Créditos da foto: 109118788/contrastwerkstatt - Fotolia)

Os franceses são os que menos trabalham na Europa

Marine Rabreau - Le Figaro, 16/6/2016

A partir de agora, os franceses trabalham menos que os finlandeses! Os que trabalham em tempo integral [ou seja, 35 h por semana] trabalharam 1.646 horas em 2015. Isto representa 199 horas a menos que os alemães e 130 horas a menos que os italianos. Os não-assalariados, ao contrário, trabalham relativamente muito [não-assalariados são os cidadãos cuja atividade profissional não é remunerada por um salário (comerciantes, profissões liberais, etc)].

Em toda a Europa, os franceses são os que trabalham menos. Segundo os últimos números liberados pelo Eurostat [Gabinete de Estatísticas da União Europeia] e relatados pelo Coe-Rexecode [Centro de Observação Econômica e de Pesquisas para Expansão da Economia e Desenvolvimento Empresarial], os assalariados de tempo  integral da França continental trabalharam 1.646 horas em 2015, uma carga horária 14 horas menor que a trabalhada em 2013 (ano dos últimos dados coletados até então). Os franceses trabalharam 199 horas a menos que os alemães, 130 horas a menos que os italianos e 228 horas a menos que os britânicos.

As horas trabalhadas por ano na  Europa

Ano 2015, para os assalariados de tempo integral (clique na imagem para ampliá-la)



No  gráfico acima, a sequência  de países da esquerda para a direita é: França - Finlândia - Suécia - Dinamarca - Bélgica - Itália - Irlanda - Espanha - Holanda - Eslovênia -Portugal - Alemanha - República Tcheca - Reino Unido - Letônia - Eslováquia - Luxemburgo - Lituânia - Estônia - Polônia - Hungria - Grécia - Romênia -- (Fontes: Coe-Rexecode, Eurostat - Gráfico: Le Figaro)

Entre 2013 e 2015, sempre para os assalariados de tempo integral, a diferença se ampliou em relação a parceiros importantes como a Holanda, a Dinamarca, a Espanha e a Alemanha. 

Até 2013, os finlandeses eram os que menos trabalhavam no Velho Continente. A partir de 2014, esse posto é dos franceses.

Evolução do tempo de trabalho desde 1998

Comparação entre 13 países, para os assalariados de tempo integral (clique na imagem para ampliá-la)



A legenda é a mesma do gráfico anterior.


➡︎ Os funcionários franceses trabalham menos que o tempo legal


Duração efetiva anual média de trabalho de assalariados de tempo integral na França (horas)


2010
2011
2012
2013
2014
2015
Agricultura
1752
1795
1803
1766
1752
1685
Indústria
1678
1692
1676
1663
1656
1649
Construção
1686
1701
1695
1666
1691
1665
Serviços comerciais
1755
1752
1751
1728
1724
1718
Serviços não comerciais
1606
1603
1610
1588
1588
1569
Conjunto da economia
1679
1682
1680
1660
1658
1646

Na França, é o setor não comercial -- administração pública, educação, saúde, ação social, etc -- que ostenta a menor duração efetiva de trabalho dos assalariados de tempo integral em relação aos demais setores [pra variar, funcionários públicos ... Serviços não comerciais para os franceses são aqueles prestados gratuitamente ou a preços economicamente não significativos, característicos das áreas de educação, saúde, ação social e administração.]. Sua carga  anual de trabalho, 1.569 horas, é inferior à duração legal de horas a trabalhar, que é de 1.607 horas por ano (as 35 horas semanais). No final de maio passado, o eleito do centro Philippe Laurent emitiu um relatório sobre os agentes de funções públicas e mencionou para a ministra da Função Pública essa diferença em relação àduração  do trabalho regulamentar.

➡︎ Na França, 10,6 semanas de ausências por ano

Quando entrevistados, os franceses consideram que em média trabalham efetivamente 39 horas por semana. Ora, o Eurostat calculou que os franceses se ausentam 10,6 semanas por ano.


10,6 semanas de ausências por  ano, das quais: a) 7 semanas de férias normais e Redução de Tempo de Trabalho (de 39 h para 35 h por semana) -- b) 1,6 semana: doença ou cuidar de criança -- c) 0,8  semana: feriados -- d) 0,5 semana: outros -- e) 0,4 semana: licença maternidade ou paternidade -- f) formação profissional - (Fonte: Le Figaro)

Assim, nas 52,14 semanas do ano, o número de horas efetivamente trabalhadas representa o equivalente a 41,6 semanas de 39 horas (ou seja 1.621 horas, número próximo do calculado pelo Eurostat). 

➡︎ Na França, os não-assalariados trabalham relativamente muito

Para os trabalhadores não-assalariados de tempo integral, a duração efetiva anual média de trabalho foi de 2.335 horas na França em 2015, o que representa 42% a mais que a do assalariado médio de tempo integral. "Na quase totalidade dos países da União Europeia, os não-assalariados trabalham mais tempo que os assalariados mas em proporções sensivelmente diferentes do que ocorre na França", comenta o Coe-Rexecode em seu estudo. A diferença é de 26% na Alemanha, 21% na Itália, 8% no Reino Unido. 

Número de horas trabalhadas em 2015 para os não-assalariados

Clique na imagem para ampliá-la.





➡︎ Os tempos parciais 6% superiores à média europeia

Para os trabalhadores assalariados de tempo parcial, a duração efetiva anual média de trabalho foi de 981 horas por ano em 2015 na França (quase 60% da duração relativa a um assalariado de tempo integral), contra 889 horas de um assalariado médio de tempo parcial alemão (48% da duração do tempo integral), 1.017 horas para um mesmo assalariado na Itália n(57% de um tempo integral) e 873 horas para um mesmo assalariado no Reino Unido.

A duração média de trabalho dos tempos parciais na Europa 
















quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Síria, o abismo do mundo

[Durando já 5 anos e contabilizando 400 mil mortes, com uma alta porcentagem de civis e crianças entre elas, a guerra na Síria é um exemplo impressionante e inaceitável de violência desmedida, de absoluto descaso aos direitos humanos e de um lamentável show de força por parte dos EUA, da Rússia e do governo sírio de Bashar al-Assad. Além dos milhares de mortos, a guerra síria é a maior fonte de refugiados que tentam se estabelecer na Europa e vêm gerando uma das piores crises já enfrentadas pelos europeus. Traduzo a seguir a crônica de Christian Makarian sobre a Síria, publicada na revista e no site L'Express -- é um texto merecidamente duro sobre uma das  piores barbáries por que passam ou passaram o Oriente Médio e a Europa. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha  responsabilidade.] 

Síria, o  abismo do mundo

Christian Makarian - L'Express

O acúmulo de impasses na Síria não é somente uma catástrofe humanitária sem precedentes em todo o Oriente Médio árabe -- o que bastaria  amplamente para definir uma vergonha internacional. Ela é também a demonstração clara e evidente da impotência de nações que invocam ainda alguma forma de potência. Sob nossos olhares embaçados por tantas destruições, o cerco a Aleppo e o aniquilamento impiedoso dos oponentes a Bashar al-Assad, aos iranianos ou aos russos oferecem o espetáculo de um conflito que põe abaixo todo o sistema internacional, todas as engrenagens, todos os balizamentos de  um mundo que não controla em nada suas tensões nem suas extensões. Como um sifão gigante, a guerra da Síria criou um turbilhão infernal que arrasta aos abismos do nada todas as forças da razão, os cálculos militares e as lógicas diplomáticas.

A começar por esse centro de inação em que se tornou a ONU. À exceção dos diplomatas, quem se recorda de que a resolução 2254, votada nos últimos dias de 2015, pretendia preparar uma transição política em Damasco? Da mesma forma, quantas vezes a trégua acordada  entre Washington e Moscou, no passado 9 de fevereiro, foi violada? A que definição correspondem os termos "cores humanas" para Assad e os russos, já que eles se aproveitam disso para expulsar as populações civis das zonas que lhes dizem respeito?

Face a tanto cinismo, pelo menos os ocidentais poderiam se mostrar unidos. Ora, na semana passada dois aliados sinceros foram vistos mostrando suas divergências à vista de seus  adversários. Enquanto Barack Obama discorria sobre a complexidade crescente das relações mundiais e sobre a necessidade da paz, François Hollande marcou sua divergência com verdadeiros ímpetos de indignação e de censuras explícitas contra a falta de engajamento real dos americanos na Síria. Na mesma tribuna da ONU, Vladimir Putin insistiu no imperativo de defesa dos "Estados", segundo ele um horizonte que não pode ser ultrapassado, e denunciou os movimentos populares que ameaçam sua pseudoestabilidade.

O absurdo e a inutilidade do jogo das velhas potências compõem a segunda falência completa ligada ao desastre sírio. No momento em que as aspirações de toda a humanidade, reforçadas pela globalização, convergem para a cessação das matanças em massa, Washington e Moscou se comportam como superpotências anacrônicas. Obama e seu Secretário de Estado, John Kerry, não se privam de denunciar a Rússia como uma potência de uma outra época. Eles evidentemente não estão enganados, mas isso não resolve a contradição própria dos Estados Unidos: para quê serve o arsenal da maior potência militar de todos os tempos, se não for utilizado como o braço armado da diplomacia? Resultado: não se saberia melhor colocar em oposição duas ordens do mundo. Uma, aquela dos princípios humanos que tornam "inegociáveis" os valores ocidentais surge fraca, dividida, na verdade não operacional; a outra, que exalta as entidades pela força e pelo temor que inspiram, se mostra prestes a entrar em ação, mas  inteiramente dirigida contra os povos.

Por isso a  Rússia tem uma necessidade flagrante de vitória, e fará tudo para obtê-la ao preço de uma engrenagem que a aproxima cada vez mais das batalhas da Chechênia. A guerra da Síria não é apenas a guerra de Assad, é a de Putin, uma reconquista interior para fins de demonstração planetária. Face a essa tática que não sofre de limites humanitários nem territoriais (porque aí a partição seria o resultado), os Estados Unidos não parecem prontos -- em todo caso, não Hillary Clinton -- a mudar de  opinião. Eles não vêem o Oriente Médio senão como uma terra de derrotas sucessivas ...

[Como de praxe, nas abordagens de conflitos de que participam americanos e russos, a mídia ocidental costuma carregar mais nas tintas contra os  russos. No caso da  Síria, como se vê acima -- embora haja cargas fortes contra os EUA -- a história se repete. A participação americana na guerra síria é  tão condenável quanto a russa, e p'ra variar ambas estão em campos opostos. Olhando-se um mapa regional, vê-se que conflitos no Oriente Médio são conflitos fronteiriços à Rússia, o que explica, mas não justifica, o intervencionismo regional russo. O Oriente Médio é uma parte intrínseca e explícita da área de atuação geo-estratégica dos russos. Até onde isso é válido, é outra história. 

Os EUA têm interesses e preconceitos no mundo todo, o que torna seu intervencionismo planetário -- e quando há superposição ou continuidade dessas áreas estratégicas, como agora no Oriente Médio, o confronto entre EUA e Rússia é inevitável. As razões pelas quais os russos apoiam Assad e os EUA querem derrubá-lo prendem-se, a meu ver, muito mais ao antagonismo tradicional entre essas potências do que propriamente à conceituação de quem é bandido e de quem é mocinho. Tanto os EUA quanto a Rússia têm péssimo currículo no que se refere a intervenções militares fora de seus territórios. Os russos fracassaram redondamente na invasão do Afeganistão, que durou 10 anos (1979-1989). Líbia, Iraque e Afeganistão são exemplos claros de fracassos gigantescos dos americanos no Oriente Médio e redondezas.

Os Estados Unidos têm adotado posições um tanto ou quanto bastante  cínicas e hipócritas no que se refere à sua participação na guerra síria. Em março deste ano, Obama fez duras críticas aos seus aliados europeus e do Oriente Médio na intervenção militar na Síria, e  os culpou pelo fracasso da intervenção militar nesse país. 

Em entrevista publicada pela revista The Atlantic, Obama declarou que alguns países da Europa e do Golfo Pérsico são ‘oportunistas’ porque insistem que os EUA se envolvam em complicados conflitos que pouco têm a ver com seus interesses. "Nas últimas décadas, tem gente que adotou o hábito de nos empurrar para atuar e depois se mostram pouco dispostos a implicar-se”, destacou Obama. Não dá para engulir essa história de que os EUA possam participar, com dinheiro e vidas americanos, de intervenções militares "que pouco têm a ver com seus interesses". É óbvio que isso não existe, é impossível. Assim como não dá p'ra acreditar que os EUA se transformem em massa de manobra e marionetes de países como Arábia Saudita e França, para citar apenas dois.

O que é patente é que os EUA intervêm e/ou criam conflitos em lugares e países a milhares de quilômetros de seu território, o que faz com que não haja sequelas secundárias territoriais ou sociais dessas intervenções sobre os americanos -- ao contrário do que aconteceu na Líbia, no Iraque, no Afeganistão e agora na Síria. Nesses países o caos político e social, e a geração de hordas de refugiados, são as faces mais visíveis desses fracassos -- e quem paga a maior parte ou totalidade da conta disso, além evidentemente dos países locais direta e indiretamente envolvidos, é a Europa e não os EUA. ] 


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A França e seus atritos gratuitos com os devotos do islamismo: agora é a proibição do burquini em algumas de suas praias

[Traduzo a seguir artigo de Cécilie Deffontaines, publicado no jornal francês L'Obs, abordando mais um problema dos franceses com a adoção de costumes islâmicos em seu território. Além de Cannes, as localidades de Villeneuve-Loubet e Sisco (Córsega) também proibiram o uso do traje de banho feminino, conhecido como burquini.  É mais um capítulo da complicada e tensa novela da integração da população de origem árabe, principalmente os devotos do islamismo, à sociedade francesa. 

Os franceses continuam completamente perdidos e desnorteados quanto a lidar com os islâmicos em seu país. Enquanto direta e/ou indiretamente estimulam a formação de guetos por essas pessoas por vários motivos, principalmente por pura discriminação, o que as leva a agarrar-se ainda mais a seus costumes e tradições, o governo francês frequente e repetidamente impõe proibições ao uso desses mesmos costumes e tradições, acirrando ainda mais os ânimos de revolta dos atingidos por essas medidas. Desde dezembro de 2015, a França fechou 20 mesquitas consideradas radicais e formadoras de extremistas islâmicos. Em abril de 2011, entrou em vigor na França a proibição (criada por lei em 2010) do uso da burca e do niqab no espaço público. Em julho de 2014, o Tribunal Europeu de Direitos Humanos aprovou de forma final e inapelável essa lei francesa. Agora, surge a proibição ao burquini. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.















Tipos de burca - (Fotos: Google)


Tipos de niqab - (Fotos Google)



Tipos de burquini - (Fotos: Google)]

Em foto de arquivo, Nissrine Samali entra no mar usando a veste tradicional islâmica em Marseille, no sul da França - (Foto: AP Photo)O uso do burquini está no centro de polêmicas nos últimos dias. De onde vem ele? Quem o usa? É legal proibí-lo? O "L'Obs" faz uma análise dos principais pontos da questão.O tribunal administrativo de Nice rejeitou em 13 de agosto corrente o pedido de suspensão, em regime de urgência, da portaria municipal emitida em 28 de julho pela prefeitura de Cannes para proibir o banho com burquini nas praias. Pessoas físicas (três mulheres) e uma associação contra a islamofobia, o Grupo Contra a Islamofobia na França (CCIF, na sigla francesa), que se sentiram afetadas pela portaria, foram assim obstadas pela justiça, no limiar de uma batalha jurídica que se anuncia dura.A CCIF já manifestou sua intenção de apelar ao Conselho de Estado contra essa determinação. O L'Obs disseca a polêmica.O que queria o prefeito de Cannes?O prefeito de Cannes, David Lisnard, do partido Os Republicanos [de Nicolas Sarkozy], quis proibir o uso do burquini nas praias de sua cidade através de uma portaria municipal publicada no dia 28 de julho."Uma roupa de praia que manifesta de maneira ostensiva uma preferência religiosa, quando a França e os locais de culto religioso são atualmente alvos de ataques terroristas, tem a natureza de criar riscos de perturbação da ordem pública (agrupamentos de pessoas, tumultos, etc) que é preciso prevenir", indicava o texto da portaria para justificar a proibição.
O prefeito de Cannes, David Lisner - (Foto: Valérie Hache/AFP)O texto invoca também razões de segurança: o traje de banho não deve "complicar as operações de salvamento em caso de afogamento".Tratava-se portanto de proscrever até 31 de agosto, data do fim da aplicação da portaria, "para toda pessoa que não tenha uma vestimenta correta, respeitadora dos bons costumes e da laicidade". A transcrição a essa determinação seria punida com uma multa de 38 euros.Lionnel Luca, o deputado (também do Os Republicanos)-prefeito de Villeneuve-Loubet, localizada também nos Alpes Marítimos, imitou o prefeito de Cannes e emitiu também uma portaria, datada de 5 de agosto. Essa portaria indica que "é proibido o acesso a banho público, de 1 a 31 de agosto, a toda pessoa que não dispuser de um traje correto, respeitador dos bons costumes e da laicidade, e que respeite as regras de higiene e de segurança adaptadas ao ambiente marítimo público". "Chamou-me a atenção em uma de nossas praias um casal cuja mulher se banhava vestida, conta Lionnel Luca, e considerei que aquilo não tinha razão de ser por razões de higiene e era desaconselhável tendo em conta o contexto geral".[As razões alegadas pelas duas portarias para proibir o burquini nas praias me soam absolutamente descabidas e ridículas, piorando desnecessária e perigosamente o relacionamento com a comunidade islâmica e complicando por tolice a integração dessa gente à sociedade francesa.]Qual é a origem do burquini?Essa roupa de banho islâmica nasceu na ... Austrália. Foi uma estilista de origem libanesa, Aheda Zanetti, que inventou essa roupa de duas peças, uma (na parte superior) sobre a outra (na parte inferior), que cobrem inteiramente o corpo e os cabelos, deixando aparecer apenas as mãos, os pés e o rosto. É feita com o mesmo material de um maiô clássico. 
A estilista Aheda Zanetti (à esquerda) com a modelo Mecca Laalaa - (Foto: Anoek de Groot/AFP)A palavra "burquini" (ou "burkini") é composta de "burca" (ou "burka") e "biquini" (ou "bikini"), duas roupas que cobrem o corpo de maneira [muito] desigual.Quem o usa?É difícil dizer o número de mulheres que o vestem para banhar-se. As piscinas [francesas]  proíbem seu uso por razões de higiene, assim como proíbem o short para os homens.Em Aurillac [cidade da região de Auvergne, centro-sul da França], em junho, uma mulher apresentou queixa porque a proibiram de usar o burquini nas piscinas do centro aquático, como informou o jornal La Montagne.É lícito proibí-lo na praia?A lei de 11 de outubro de 2010 proíbe, em espaço público, o uso de véu que esconda o rosto. Isso portanto não diz respeito ao burquini.A portaria de Cannes é "ilegal, discriminatória e inconstitucional", declarou o advogado do CCIF, Sefen Guez Guez, que recorreu à justiça em regime de urgência para contestá-la."A lei hoje na França não permite proibir o acesso a praias por causa da simbologia de trajes religiosos. Há apenas a lei de 2004 , que afeta os alunos do ensino público", explicou ele.A portaria é também "inconstitucional", porque "a Constituição garante o livre exercício de cultos", argumenta Guez Guez. A liga de direitos humanos local disse que também pediria diante do tribunal administrativo a suspensão da portaria, e que apresentaria queixa contra o prefeito."Não se proibiu o véu, nem o quipá, nem as cruzes, proibi simples um uniforme que é o símbolo do extremismo islâmico. É preciso parar de querer fazer dessa portaria uma caricatura. Vivemos em um espaço público comum, há regras a serem respeitadas", comentou o prefeito.  O que diz a justiça?O tribunal administrativo de Nice rejeitou formalmente em 13 de agosto o pedido de suspensão da portaria que lhe foi submetido pelo CCIF. A corte fundamentou sua decisão quanto à forma e o mérito da petição, ao mesmo tempo:● O juiz do caso, M. Lemaître, descarta o caráter de urgência porque "os requerentes submeteram no dia 12 de agosto o pedido de urgência para contestar a portaria do prefeito de Cannes do dia 28 de julho, que não sofreu contestação desde que foi afixada nos locais do município previstos para isso, assim como nas praias".● A sentença observa igualmente que "são respeitadas as disposições do artigo 1° da Constituição segundo o qual 'a França é uma república laica', que proíbe a quem quer que seja de se prevalecer de suas crenças religiosas para se livrar dos regulamentos comuns que regem as relações entre comunidades públicas e privadas". ● O juiz assinala igualmente "que no contexto do estado de emergência [na França] e dos recentes atentados islâmicos ocorridos notadamente em Nice há um mês [...], o uso de um traje diferenciado e característico, diferente de um traje de  banho habitual, pode de fato ser interpretado como, nesse contexto, não sendo um simples sinal de religiosidade". O advogado do CCIF, Sefen Guez Guez, manifestou sua intenção de, em nome de seu cliente, apesar dessa sentença ao Conselho de Estado, afirmando que "essa decisão abre as portas para a proibição de qualquer sinal religioso em espaço público". Ele se espanta igualmente por "não ter tido conhecimento "senão em 11 de agosto" dessa portaria de 28 de julho, que o caráter de urgência não tenha sido admitido, e que para uma decisão tão importante nenhuma audiência pública para debate do contraditório tenha sido cogitada".