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domingo, 22 de dezembro de 2013

Harmonização comida-vinho: o que beber com o foie gras?

[O artigo traduzido abaixo é de autoria de Enrico Bernardo e foi publicado em 17/12 na seção "Vin" ("Vinho") do jornal francês Le Figaro. O italiano Enrico Bernardo foi eleito o melhor sommelier do mundo em 2004 e é proprietário do restaurante Il Vino, no 7° arrondissement (distrito) em Paris, classificado com uma estrela do guia Michelin. O texto derruba o mito do casamento único e indissolúvel  "foie gras - Sauternes". O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]




Foie gras semicozido, foie gras frito (poêlé) [antes que chefs e gourmands(es) caiam na minha pele, vou substituir o "frito" por "tostado/grelhado na frigideira"...] ou foie gras trufado ... É sua a opção de escolher qual deles participará de sua mesa de boas festas.  Em compensação, para sublimar esse prazer, será sua a responsabilidade de encontrar o vinho que harmonize completamente com eles -- siga então o guia.

Se a alimentação abundante dos palmípedes migratórios é um fenômeno natural -- eles "criam suas reservas" antes de uma longa viagem -- parece que a adaptação disso à criação dessas aves remonta à civilização egípcia, como o testemunham os afrescos encontrados em Saqqarah [o autor se refere à superalimentação forçada de patos e gansos para a produção de foie gras, que sofre forte oposição de ambientalistas e já provocou atritos entre alemães e franceses e determinou a proibição de venda e consumo desse produto na Califórnia].  Parece que a tradição dessa "gordura" ("gras") atravessou países e séculos graças às comunidades judias da Europa central: privadas do azeite de oliva e impedidas de recorrer à banha de porco por motivos religiosos, elas cozinhavam à base da gordura de ganso. Hoje, a França é de longe o maior produtor mundial desse produto, e desenvolveu inúmeras receitas para ele. Reservei três delas, bastante diferentes entre si para justificar escolhas diferentes na adega para acompanhá-las.

A primeira, a terrina de foie gras semicozido, eu a acompanharei com um pouco de marmelo, cuja acidez relativa equilibrará o lado gorduroso. E procurarei um vinho Vouvray suave (os há também secos) com 3 a 5 anos, cuja uva Chenin propõe aromas de maçã-reineta ... e de marmelo. Nessa apelação, tenho um fraco pelo [Domaine] Clos Naudin: Phillippe Foureau, terceiro de uma verdadeira dinastia de viticultores, que produz vinhos muito reveladores desse terroir um pouco desconhecido.

O foie gras fresco frito [ver observação acima sobre o "frito"] é apreciado quente, evidentemente. À gordura natural soma-se então uma verdadeira untuosidade que pede um acompanhamento um pouco acidulado, como suco de mirtilo ou compota de ruibarbo por exemplo. Aí, vejo com bons olhos um vinho da Alsácia, mas preferencialmente a um Gewurztraminer -- que não teria vivacidade para resistir ao confronto -- escolheria antes um Riesling de colheita tardia que, com seus toques citronados, irá equilibrar a gordura dominante. Penso principalmente na produção de Frédéric-Émile do Domaine Trimbach, em Ribeauvillé -- um templo do vinho riesling, especialmente na faixa de idade de 4 a 5 anos.

A terceira receita é a do foie gras trufado, que se encontra tanto em conserva quanto em terrina. A presença da melanóspora [tipo de fungo existente nas trufas] irá evidentemente modificar a competição dos sabores, não tanto por sua intensidade e sua persistência -- o caráter crocante e o grelhado das torradas de pão de campanha (pain de campagne) são os fatores que, sobretudo, influenciarão a escolha do vinho. E desta vez, sem qualquer hesitação, minha escolha é a de um grande champanhe, brut millésime ou de produtor de prestígio. Penso particularmente no Bollinger Grande Année 2002,  bastante rico e vinoso para fazer frente à trufa enquanto sua efervescência e sua frescura se opõem à gordura do fígado. Suas notas amanteigadas e seus toques de frutas secas criarão uma tonalidade outono-inverno que se harmonizará bem com a trufa e o pão grelhado.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Crise afugenta vinícolas argentinas

[Nada escapa e se salva da política burra do governo de Cristina Kirchner.]

A única marca forte de vinho argentino no mercado mundial, o Malbec, está ameaçada. A equação entre insumos, mão de obra, importação de bens e vendas internas e externas se desequilibrou. Os executivos concordam que o câmbio e a inflação corroem a competitividade. Os exportadores enfrentam um momento difícil, mas a indústria de vinho já mostra sinais de estrangulamento.

"Com 25% de inflação nos últimos quatro anos e câmbio fixo, qualquer projeto de negócios perde a margem de lucro. Os que têm margem alta aguentam, mas outros cortam postos de trabalho e produção", comenta o empresário espanhol José Manuel Ortega Fournier, dono da vinícola O.Founier, instalada no Valle de Uco, uma das principais áreas produtoras do país, na província de Mendoza. 

A câmara dos exportadores locais, Bodegas Argentinas, afirma que não há registro demissões em massa, mas segundo fontes do setor, os casos de dificuldades se multiplicam. Há cerca de duas semanas, a vinícola Salentein fechou sua unidade de frutas em Tunuyán e demitiu os 146 empregados. A vinícola La Celia, do grupo chileno San Pedro, demitiu 30 trabalhadores, enquanto La Faraón está envolvida em um conflito trabalhista com empregados que acusam a empresa de interromper a produção.

Bom vizinho. O analista e consultor José Luis Espert observa que os vinhos mais caros e sofisticados estão sendo substituídos por similares baratos, vendidos a granel. Espert afirma que é chamativa a decisão, cada vez mais frequente, de empresas que optam por transferir parte de suas estruturas para o Chile. Mendoza faz fronteira com o país vizinho, onde os controles do governo de Cristina Kirchner podem ser driblados.  Muitas vinícolas exportam a granel o vinho produzido na Argentina para ser engarrafado no Chile e, posteriormente, exportado a outros mercados. As empresas fogem da alta dos salários e da energia e dos impostos altos, afirma Espert.

Os empresários reclamam das restrições ao dólar e às importações. As empresas não podem redistribuir seus lucros e nem realizar remessas ao exterior. Também são impedidas de importar peças e máquinas. "Todo mundo depende da autorização de Moreno, que não entende coisas básicas como o fato de a indústria nacional não produzir a maioria das máquinas e peças que usamos na fabricação de vinhos", reclama o gerente de produção de uma das vinícolas.

Com a restrição das importações, os empresários ficam à mercê de apenas dois fabricantes nacionais de garrafas e dois de embalagens de papelão. "São poucos fornecedores nacionais para o tamanho da indústria e a importação é praticamente nula, somente permitem importar algumas rolhas", comenta o gerente.

A primeira empresa a transferir uma parte de suas operações comerciais para solo chileno foi a Trivento, da holding Concha y Toro, em junho. A razão foi matemática pura: o Chile é 20% mais competitivo que a Argentina. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Fabricante de vinhos Miolo triplica exportações para a Inglaterra

A fabricante de vinhos Miolo exportou 339 mil garrafas de vinho para a Inglaterra durante o primeiro semestre do ano. O volume é três vezes superior ao total exportado durante todo o ano passado, segundo a empresa.

A Miolo acaba de fechar a venda de 8,4 mil garrafas do espumante Miolo Cuveé Tradition Brut Rosé para a rede varejista Waitrose, da Inglaterra, “marcando o ingresso dos produtos da Miolo Wine Group nesta rede e da primeira exportação de um espumante brasileiro em larga escala”, informa a empresa em nota.

[O Miolo Cuvée Tradition Brut Rosé é vendido na loja virtual da cadeia Waitrose por £ 8,99 -- cerca de R$ 29,00 --, praticamente o mesmo preço cobrado pela própria Miolo em seu site (R$ 30,00), o que evidencia a barbaridade que pagamos de imposto sobre esse vinho no Brasil. Enquanto isso, qualquer vinho de qualquer qualidade do Mercosul chega aqui mais barato que um vinho nacional! É com essa ótica burra, de uma ganância tributária idiota e absurda, que o governo desestimula a produção e o consumo de vinhos nacionais.

Diante desse quadro, um luminar ainda não identificado nominalmente dentro do governo petista, capaz de voar com as orelhas (pelo tamanho delas), ridiculamente respaldado pela indústria nacional, cogita de sobretaxar os vinhos importados a título de "proteger" a vinicultura nacional. É esse tipo de sapiência de profundidade nanométrica que nos governa: em vez de desonerar tributariamente a produção nacional e torná-la competitiva pelo menos no preço -- obviamente, se pagar menos imposto o produtor nacional terá mais fôlego financeiro para melhorar seu produto -- um burocrata energúmeno em Brasília resolve aumentar a tributação de vinhos estrangeiros. Detalhe: os vinhos do Mercosul dificilmente sofrerão esse aumento de tributos, não só pelas regras desse bloco como também porque o Itamaraty fará das tripas coração para não "aborrecer" nossos vizinhos também nesse quesito. Que Deus nos proteja e guarde de mais essa insanidade.]

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Vinho espanhol "premiado" será vendido por R$ 25 no Brasil

[O texto abaixo é da autoria de Luciana Carvalho e foi publicado ontem no site da revista Exame. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade. Faço esta postagem para denunciar um tipo de propaganda mentirosa e enganosa muito comum no mundo do vinho. A promoção desse vinho, como feita pela revista Exame e pela importadora Wine, viola o Código de Defesa do Consumidor e é passível de punição.]

Vendido no Reino Unido por 3,59 libras (cerca de R$ 11,50), o vinho Toro Loco Tempranillo chegará ao mercado brasileiro e custará 25 reais, a partir de agosto. O rótulo, apesar do baixo preço, é considerado um dos melhores do mundo e os curiosos mais apressados já podem reservar sua garrafa no site da loja Wine.

O grande sucesso da marca veio após conquistar a medalha de prata [isto é mentira, o vinho foi apenas "recomendado", ver meus comentários abaixo!] em um “teste cego” realizado na Competição Internacional de Vinhos e Destilados do Reino Unido. Na disputa, o Toro Loco Tempranillo venceu bebidas que custavam até dez vezes mais e ficou logo à frente de outro vinho barato, o Aldi Grapevine Merlot 2011, que custa 2,99 libras (R$ 9,30).

A produção do Toro Loco é feita em um terreno acidentado em Utiel-Requena, província de Valência, na Espanha. No lugar da rolha, uma tampa screw cap (de rosca) reserva um vinho descrito como frutado, arredondado, atraente e com toques de cereja, na avaliação dos degustadores.

[Esse vinho não foi avaliado pelo Robert Parker. O texto acima é tipicamente promocional e capcioso -- há uma certa grande malandragem e boa dose de má-fé no ar, tanto da autora do texto quanto da importadora Wine. Vamos lá aos detalhes indispensáveis: - i) o vinho em questão é da safra 2011 (portanto, muito jovem); - ii) seu produtor é a Bodegas Coviñas, da região vinícola espanhola de Utiel Requeña (uma DO - Denominação de Origem); -- iii) a premiação que o vinho recebeu não é essa coisa fantástica que o texto acima e o da importadora deixam transparecer -- ele foi apenas "recomendado" pela Decanter, tendo recebido 2 estrelas num total máximo de 5.]

Vinho espanhol Toro Loco foi destaque em competição, mesmo com preço baixo - (Foto: Divulgação).

quinta-feira, 15 de março de 2012

Governo estuda dificultar a importação de vinhos

A Secex (Secretaria de Comércio Exterior), do Ministério do Desenvolvimento, informou hoje que abriu investigação para aplicar salvaguarda às importações de vinhos. As salvaguardas são ações de emergência, como aumento do imposto de importação ou restrição da quantidade a ser comprada de outros países, que restringem as importações de determinados produtos. São aplicadas somente nos casos em que a viabilidade econômica de um setor estiver em risco.

No caso de vinhos, existem "indícios suficientes" de que a alta da importação da bebida vem causando prejuízo grave à indústria doméstica. O pedido de investigação foi feito no ano passado pelo Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho), pela Uvibra (União Brasileira de Vitivinicultura), pelo Fecovinho (Federação das Cooperativas do Vinho) e pelo Sindivinho (Sindicato da Indústria do Vinho do Estado do Rio Grande do Sul). 

Se a medida de salvaguarda for aplicada, será implementado também um plano de ajuste do setor, para aumento de produtividade e investimentos, redução de custos e qualificação dos produtos por meio de inovações tecnológicas.

Essa é quarta investigação de salvaguarda desde 1995. As salvaguardas já aplicadas no Brasil foram de brinquedos, que já terminou, e coco ralado, que terminará em 2012. 

[Há um velho e sábio ditado que diz que "de bem-intencionados o inferno anda cheio" -- depois de 9 anos de governo do PT, a seção brasileira do inferno deve estar abarrotada de petistas. 

Como tudo na vida, há dois tipos básicos de bem-intencionado: o inteligente e o obtuso. A medida protecionista mencionada acima certamente foi tomada pelo segundo desses dois tipos (é bom registrar que estou, magnaninamente, admitindo que haja boa intenção nessa iniciativa, o que pode ser considerado discutível por pessoas melhor observadoras do que eu). Se implementada, essa barreira aos vinhos importados, além de nos privar de um prazer inexcedível (que, aliás, nos ajuda a suportar a politicalha praticada no Brasil e os frequentes azedumes de Dª Dilma), irá nos expor a mais um ridículo no exterior. Detalhes importantes que um bem-intencionado inteligente sabe e que o bem-intencionado obtuso da Secex mostra ignorar:
  1. com raríssimas e pontualíssimas exceções (e aí se incluem os nossos espumantes), o Brasil não tem condições climáticas, de terroir, etc, para produzir vinhos (especialmente tintos) de qualidade para competir com uma enorme quantidade de vinhos que importamos -- ou a Secex quer nos impedir de tomar vinhos decentes?!
  2. por obra e graça de uma centenária ganância fiscal desmesurada neste país -- da qual o governo auto-denominado de "populista" do PT não abre mão nem que a vaca tussa, e está sempre disposto a ampliar -- nossos vinhos têm preços absurdos, que praticamente os inviabilizam comercialmente, mesmo na faixa de qualidade em que tenham alguma chance;
  3. além dessa carga fiscal indecente, nossos vinhos sofrem uma concorrência absolutamente desleal dos vinhos provenientes do Mercosul, como os da Argentina e do Uruguai (de qualquer qualidade), por exemplo, por obra e graça das regras do Mercosul, do qual o Brasil é sócio-fundador e lastro. Duvido muito que o Brasil tenha peito de mexer nesse vespeiro do Mercosul.
  4. Protecionismo nunca foi garantia de melhoria da qualidade e do preço de produtos nacionais, qualquer frequentador de padaria sabe disso -- mas o bem-intencionado obtuso da Secex não sabe. Qualidade e preço se ganham na concorrência direta e encarniçada (ressalvados os casos escandalosos, como os dos produtos chineses) -- o busílis da questão é que o governo, hipocritamente, reclama dos importados mas se recusa terminantemente a reduzir a carga fiscal surrealista que impõe à nossa produção. No caso da "competitividade" do nosso vinho, só um novo Jesus Cristo (não petista) repetindo o milagre de dois mil anos atrás.]

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Espécie desconhecida de mariposa ameaça produção de vinho na Itália

Uma espécie desconhecida de mariposa preocupa produtores da região vinícola do norte da Itália, segundo pesquisadores.

Cientistas italianos descobriram a mariposa em 2006, mas não conseguiram identificá-la. O que eles sabem é que as lagartas que dão origem às mariposas atacam as folhas das videiras, devorando as partes mais comestíveis, destruindo as plantações. Ao examinar uma parte do código genético da mariposa, os pesquisadores confirmaram que ela é de uma espécie desconhecida.

A equipe de cientistas italianos teve a ajuda do especialista em insetos do Centro para Biodiversidade de Leiden, na Holanda, Erik van Nieukerken. "Inicialmente, consultamos a literatura (científica) para descobrir o que já se sabia a respeito", disse o especialista à BBC, acrescentando que eles descobriram que pouco era conhecido sobre este grupo de mariposas. Nieukerken e a equipe de cientistas examinaram então o código genético da mariposa. "Percebi que esta mariposa, apesar de ser muito comum na América do Norte, não tinha um nome", disse o cientista.

A nova espécie foi batizada de Antispila oinophylla e, anteriormente, foi confundida com outra espécie da América do Norte, a Antispila ampelopsifoliella.  A descoberta foi divulgada na revista especializada ZooKeys.

Apenas com os estudos do DNA da mariposa os cientistas descobriram que a nova espécie gosta de videiras. No leste da América do Norte, local de origem desta mariposa, elas se alimentam de vários tipos de frutas silvestres. Ao observar o comportamento da mariposa, os cientistas afirmam que, na Itália, ela parece ter preferência por folhas das uvas Charddonnay, Cabernet Sauvignon e Muscat.

Até o momento, a nova espécie de mariposa foi encontrada nos vinhedos das regiões de Trento e Veneto, no norte da Itália. Desde seu primeiro registro, a população destes insetos está aumentando e se espalhando. Os cientistas afirmam que o impacto econômico da praga ainda não foi determinado e, até o momento, não se sabe como estas mariposas chegaram à Itália.

Nieukerken afirma que é muito fácil ocorrer o transporte acidental de casulos contendo larvas da mariposa em meio a vegetais. "Elas são muito pequenas e exatamente da mesma cor das folhas. Então, se você está levando plantas, provavelmente você não vai notá-las", disse o cientista à BBC.

O cientista contou ainda que outra espécie de mariposa, deste mesmo grupo, foi descoberta em plantações de nozes e que os especialistas precisam descobrir mais informações sobre estes insetos. "Este grupo é pouco estudado. Se você souber exatamente o que é e de onde é, você vai saber a história evolucionária... e poderá entender melhor como controlar", disse Nieukerken à BBC.

 Mariposa tem preferência por alguns tipos de folhas, incluindo as de certas uvas - (Foto: NBC Naturalis).

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Um panorama mundial do mercado de vinhos

O artigo abaixo é de Mateus V. e foi publicado hoje no site Winetag.

Estima-se que exista no mundo mais de 1 milhão de produtores de vinho, que produzem cerca de 2,9 bilhões de caixas (12 garrafas = 9 litros), sendo que destes são consumidos 2,6 bilhões. Este excedente é considerado normal, parte dele é estoque e outra é destinada aos subprodutos ou para destilação. Em 2004, a produção alcançou seu maior pico em 20 anos, chegando a 3,3 bilhões de caixas, e declinou em 2010 para 2,9 bilhões. 

A maior área de vinhedos ainda é da Espanha, com quase 1,1 milhões de hectares, seguida da França com 825 mil e pela Itália com 798 mil. Estes três países apresentaram uma grande redução da área plantada desde 2005, incentivados por um programa da União Europeia para acabar com o excedente de produção e destinar esta área para produção de outras culturas. Chile, Austrália, África do sul e Estados Unidos mantiveram praticamente estáticas suas áreas de produção. Argentina e Brasil tiveram um pequeno incremento da área plantada. A produção de vinho teve uma grande redução de 2009 para 2010. Itália (-6%), França (-3%), Espanha (-3%), Alemanha (-21%), Estados Unidos (-11%), Chile (-12%), África do Sul (-8%). Apenas Argentina, entre os grandes países produtores, teve um aumento significativo (+34%).


Imagem 1: Produção x consumo (Fonte: Morgan Stanley Research) - Clique na imagem para ampliá-la.

A proporção área de vinhedos x volume de vinho produzido não é direta. Isto porque a produtividade por hectare varia de país a país ou porque parte da área é destinada a outra finalidade que não o vinho, como uvas passas, uva in natura, suco, etc. A Itália lidera com um volume de produção em 2010 de 500 milhões de caixas, seguida pela França e Espanha. Vale observar a crítica situação da Espanha. Ela possui a maior área em vinhedos, porém, é a terceira em produção de vinho. O problema dos espanhóis é a baixa produtividade por hectare, o que a torna pouca competitiva. Isto se deve, sobretudo, ao clima seco, que faz com que eles tenham que plantar as videiras muito distantes umas das outras para que não haja competição entre as plantas por água. Impressiona a China, já a 5ª em área plantada e a 6ª no volume de vinho produzido, ficando na frente de Austrália, Chile e África do Sul.

Consumo e mercado:

 Globalmente, houve um decréscimo na produção entre 2007 a 2009 e uma pequena retomada em 2010. Estados Unidos, China e Inglaterra apresentaram um crescimento contínuo de 2000 para 2010, enquanto que os Países tradicionais Europeus e a Argentina apresentaram uma queda considerável. O Brasil aparece timidamente nas estatísticas, mas acredita-se que em alguns anos estará entre os grandes países consumidores em termos de volume. O consumo per capita ainda é maior nos Países Europeus, sendo liderado pela França com 48 litros, seguido de Portugal e Itália com 40 litros cada.

Oferta e demanda de vinhos se encontram em equilíbrio. De um modo geral, o declínio do consumo e da produção dos países tradicionais continua, mas é compensado pelo ligeiro aumento de consumo de países como a Rússia, a China e a Inglaterra. No longo prazo, a área de vinhedos que foi arrancada na Europa nos últimos anos será compensada pelo plantio de novos vinhedos nos países vinícolas emergentes.

Desde a década de 80 até 2010 o volume de vinhos importados consumidos tem crescido consideravelmente em todos os países. Isto se deve ao forte processo de globalização deste período, que ampliou as trocas comerciais entre os países e favoreceu a exportação dos vinhos. Em 1981, 15% de todo volume produzido era exportado. Em 2010, 35% do volume total é enviado ao mercado externo. A Itália lidera o ranking de exportadores, seguida de Espanha, França, Austrália e Chile. Já no lado da importação, a Alemanha segue em primeiro no índice, com Inglaterra, Estados Unidos, Rússia e França logo atrás. 

 Imagem 2 - Exportação x Principais Exportadores (Fonte: Morgan Stanley Research) - Clique na imagem para ampliá-la.

O estudo deixa claro como, nos últimos 30 anos, a participação no comércio global de exportação mudou muito e continua mudando. No início da década de 80, 80% do volume exportado pertencia a estes cinco países líderes. Hoje estes países correspondem a menos de 60% e cedem espaço aos países do hemisfério sul e países em ascensão. É um panorama em mutação. Está havendo uma inversão de produção e de consumo do continente europeu para os países do “novo mundo vitícola”. 

Os dados são extremamente interessantes e completos, e nos permitem olhar para o mercado de vinhos mundial de forma mais precisa e atual. Seria impossível resumir tudo num único texto, então esta foi uma primeira oportunidade de apresentar os pontos mais relevantes. Nos próximos artigos, analisaremos o que tais informações significam de verdade, qual é o papel de cada país e continente neste moderno mundo do vinho e, acima de tudo, o que tudo isso significa para você, consumidor. 

O mercado de vinhos brasileiro vs os mercados chileno e argentino

O artigo abaixo foi publicado no site Winetag em 26/10/11 por Mateus V.  A transcrição desse texto não significa que concorde com ele -- pelo contrário, eu o acho de uma superficialidade campeã, mas tem pelo menos o mérito de abordar um assunto que é pouco ou nada ventilado na mídia brasileira.

Devido à complexidade e às diferentes realidades da vitivinicultura no Brasil, este artigo limita-se à viticultura destinada para vinhos finos. Tomamos como ponto de partida a vinda  dos imigrantes europeus que chegaram ao Sul do Brasil no final do século XIX, os grandes disseminadores da vitivinicultura. A questão do artigo é: porque a nossa vitivinicultura não teve uma projeção similar à da Argentina e à do Chile, se temos uma história tão recente quanto?

A atividade começou a ter importância econômica no início do século XX com o surgimento das cooperativas e de algumas empresas privadas. Vários motivos fizeram com que nossa vitivinicultura não tivesse o reconhecimento e o respaldo internacional como a Chilena e a Argentina. A partir dos anos 70 muitos investidores estrangeiros se instalaram nestes dois países. Ambos possuem clima seco, muito favorável ao cultivo da videira, e uma topografia de fácil mecanização, com possibilidade de produção de vinhos em grande escala e, consequentemente, com um custo muito menor do que o nosso. Assim, puderam criar uma política voltada para a exportação. Vinhos com uma qualidade média, mas com muita regularidade, que conquistaram os grandes mercados consumidores e influentes no mundo do vinho.


Somente de uns anos pra cá que o Brasil começou efetivamente a pensar no mercado externo. Primeiro porque tínhamos um imenso mercado interno a ser explorado antes de nos aventurarmos para fora. Segundo, devido à falta de competitividade gerada pela alta tributação do produto brasileiro, que supera os 40%, ao passo que a dos vinhos do Mercosul gira em torno de 20%. [Sendo enólogo, o autor tem que saber que o problema de mercado de nossos vinhos tintos, por exemplo, vai muito além do valor de tributação -- nossas condições climáticas e de terroir são muito complicadas para esse tipo de vinho. Já nossos espumantes são de alta qualidade e não fazem feio em mesa alguma, mas aí a tributação absurda os castiga nos preços. O autor deveria ter se estendido um pouco mais no assunto.]

Também podemos atribuir o atraso brasileiro ao cultivo de uvas híbridas e americanas. Elas sempre imperaram por aqui e criou-se um mercado para estes vinhos. Como lá fora o uso destas uvas para vinho é proibido, nosso vinho nunca teve muita chance de se tornar expressivo. Aliado a isso está o conceito de “status” que o produto estrangeiro tem para muitos brasileiros. Precisamos exportar vinho, conquistar o mercado externo para refletir aqui e convencer o mercado interno de que temos qualidade. É isso que está fazendo um grupo de vinícolas, que conjuntamente num programa de exportação estão dando visibilidade e convencendo os grandes críticos.


Mais recentemente, a partir dos anos 2000, a vitivinicultura brasileira ganhou um forte impulso com o surgimento de novas regiões produtoras e pela busca incessante de melhores “terroirs”. Empresários de outros ramos entraram no mundo do vinho focados na qualidade, e trouxeram consigo empreendorismo e ousadia. Estão criando produtos muito interessantes, mas ao mesmo tempo, por serem muitas vezes projetos ambiciosos e glamourosos, podem pecar no preço, já que acreditam que o consumidor deve pagar por isso.  Mas é preciso que elas pensem em maneiras eficazes de conquistar o mercado.

Em termos gerais, estamos vivendo um grande momento no setor. As vendas do vinho nacional estão em crescimento tanto internamente quanto no mercado externo. A qualidade e a confiabilidade do consumidor em nosso produto são cada vez maiores. Temos já 4 cursos de enologia no país e institutos de pesquisa, como a Embrapa Uva e Vinho, referência internacional em pesquisas. Nossos profissionais estão buscando inspiração fora da Itália (até pouco tempo existia muito apego às regiões de origem dos descendentes de imigrantes). Há também uma grande expectativa em torno da Copa do Mundo e das Olimpíadas para adivulgação do vinho brasileiro. Então, temos tudo para dar certo! [Esta conclusão, com exclamação e tudo, é de doer!]

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A mulher e o vinho

Felizmente, as mulheres ocupam cada vez mais espaço na vida quotidiana, enriquecendo o que fazem e o que nós homens fazemos, e tornando a vida definitivamente mais prazerosa. Reproduzo a seguir um artigo interessante sobre "A mulher e o vinho", publicado hoje no site www.winetag.com.br . Evoé Baco, e salve as mulheres!

Uma pesquisa inédita divulgada na Vinexpo 2011, realizada de 19 a 23 de junho, em Bordeaux, na França, revelou que “o vinho é a chave para um encontro romântico”. Isso na opinião da grande maioria das 10.492 mulheres com 18 anos ou mais de cinco países. O levantamento foi realizado de forma on-line, entre março e abril deste ano, por meio de uma parceria com os sites Elle (França), Konsum Göttinnen (Alemanha), Wine Enthusiast (EUA), Elle (Hong-Kong) e Decanter (Reino Unido).

A conclusão não chega a ser novidade. A surpresa, porém, é que o levantamento traz números a esta evidência de que o vinho é parte relevante na conquista: 70% das quase 10,5 mil mulheres ouvidas consideram que o sucesso de um encontro amoroso passa pelo vinho! Outro dado relevante confirma uma impressão antiga – as mulheres preferem beber vinho com os amigos. Quase 70% delas disseram que a melhor hora de beber vinho é uma noite de convívio com os amigos, um aumento de 10% em relação ao último levantamento. 


Os flagrantes mais importantes desta pesquisa insólita é que, ao contrário do que se imaginava, as mulheres preferem vinho tinto e não branco. Isso mesmo, mais da metade das mulheres ouvidas contaram que gostam de beber vinhos tintos, contra 26% que elegem os brancos. Entretanto, a pesquisa mostra que, cada vez mais, as mulheres tomam vinho rosé. Quase 16% das pesquisadas falaram que beberam vinho rosé este ano, ante apenas 6% em 2009, totalizando um aumento de 160% em dois anos. Isso demonstra que as mulheres, pelo menos as europeias e norte-americanas, estão claramente indo rumo ao vinho rosé, especialmente as mais jovens, com idade entre 18 e 30 anos. As brasileiras podem estar no mesmo caminho...

O item mais saliente [sic] do estudo é que as mulheres não têm preconceito em relação ao vinho. Ou seja, gostam de experimentar rótulos de diferentes lugares, estando abertas a lançamentos e novidades. A autoconfiança feminina é tão grande no mundo de Baco que 58% das mulheres disseram saber tanto sobre vinho quanto os homens. É o que se vê no dia a dia, quando, em geral, são as mulheres que escolhem os rótulos que serão apreciados pelo casal.


A investigação acerca do gosto feminino mostra também que o país de origem (62%) e as variedades de uva (49%) são os dois fatores mais importantes na escolha das mulheres sobre o vinho que irão tomar. O preço é classificado apenas em terceiro lugar. Conclusão, as mulheres estão preocupadas com o prazer, não com o bolso. Apenas as mais jovens, entre 18 e 30 anos, são particularmente influenciadas pelo preço. 
 As moças até 30 anos ainda têm o costume de usar a internet para procurar informações sobre vinho. Dois terços (quase 75%) das mulheres americanas, que são muito parecidas com as brasileiras em seus gostos globalizados, consideram que beber vinho é uma escolha de estilo de vida. A embalagem, incluindo rótulo e garrafas, recebe particular atenção das mulheres mais jovens, conforme aponta a pesquisa. A maioria acha que a primeira impressão – estética – diz muito sobre o conteúdo em questão, o vinho. Depois de todas estas informações, encerro com a frase da minha amiga carioca Cacá Azevedo. “A primeira semelhança entre as mulheres e o vinho é que não precisamos entender nem um nem outro, basta gostar.”
Foto: Divulgação/Vinexpo

domingo, 24 de julho de 2011

Empilhadeira destrói mais de US$1 milhão em vinho

Um acidente com uma empilhadeira na Austrália destruiu um carregamento de vinho avaliado em mais de US$ 1 milhão (R$ 1,55 milhão). O shiraz Mollydooker Velvet Glove de 2010 é vendido a US$ 199 a garrafa, segundo a agência de notícias AFP. O produtor Sparky Marquis disse estar "arrasado" com a notícia de que 462 caixas de vinho foram danificadas durante embarque para os EUA. "Quando abriram as caixas, falaram que parecia uma cena de assassinato. Mas o aroma era sensacional", disse ele.

O empresário disse que o carregamento representa um terço da produção anual da vinícula McLaren Vale.  "É uma perda enorme, vamos verificar agora cada uma das 462 caixas para ver se é possível salvar algo."

O vinho estava no seguro. O porta-voz da transportadora envolvida, a Kery Logistics, disse que a empresa cuida de mais de 20 mil containers por ano e nunca teve um problema como este antes.



terça-feira, 17 de maio de 2011

A polêmica questão do teoor alcoólico nos vinhos (II)

(Continuação da postagem anterior).

Robert Parker tem tido enorme influência sobre as características dos vinhos, e suas notas para os californianos têm de longa data mostrado uma queda para os vinhos ultramaduros (leia-se, com alto teor alcoólico). Em 1999 e 2000 ele criticou severamente Tim Mondavi, filho de Roberto Mondavi, por produzir vinhos muito leves e "reprimidos". Ele acusou Mondavi de "ir contra o que a mãe natureza deu à Califórnia", e disse que a força dos vinhos californianos "está na potência, na exuberância e numa uva gloriosamente madura". Em 2007 Parker lançou um ataque semelhante contra o vinicultor Steve Edmunds. "O que Steve está fazendo parece ser uma tentativa deliberada de fazer vinhos de perfil francês", disse ele -- "se você quer fazer um vinho francês, vá para a França".


A obsessão de Parker pelo que ele chama de "bombas de prazer frutadas" se estende à pinot noir. Na Borgonha, onde essa uva "assina" seus grandes vinhos, o clima fresco do norte faz do amadurecimento da uva um desafio, resultando em vinhos modestos em teor alcoólico mas com ênfase na elegância sobre a potência. Mas, com a bênção ou o empurrão de Parker, os pinot noir californianos evoluiram em outra direção e são frequentemente muito maduros e exuberantes, com teor alcoólico igual ou mesmo superior a 15%. Fazendo eco ao que Parker propõe, os defensores desse tipo de vinho dizem que ele é uma expressão natural do terroir repleto de sol da Califórnia, e qualquer comparação com a Borgonha é comparar maçãs com laranjas. -- No entanto, a decisão de Parker de transferir a cobertura da Califórnia para Antonio Galloni, da sua equipe, pode acelerar o movimento a favor de maior finesse nos vinhos de lá.

O autor do artigo da "Slate" acha uma má ideia  o estabelecimento arbitrário de pontos de corte quanto ao teor alcoólico de vinhos, e cita como exemplo o ocorrido em um evento chamado O Mundo da Pinot Noir, realizado em março, em que houve um painel sobre álcool e equilíbrio. Entre os participantes estavam o vinicultor Adam Lee, da Siduri Wines, que produz pinots na Califórnia e no Oregon, e Rajat Parr, um sommelier de São Francisco, que adotou a política de não servir pinots acima de 14% de álcool em um de seus restaurantes.  Sem que os outros participantes do painel soubessem, Lee trocou os rótulos de dois vinhos que serviu -- um tinha 13,6% de álcool e o outro 15,2%. Parr, um experiente degustador, gostou tanto de um desses vinhos que disse a Lee que queria comprar algumas garrafas dele -- e ele gostou exatamente do que tinha 15,2% de álcool ...

A polêmica questão do teor alcoólico nos vinhos (I)

Vinho é um tema que sempre desperta polêmicas e, entre elas, uma recorrente é a do seu teor alcoólico: afinal, o vinho deve ou não ter alto teor alcoólico? Caso deva, isso é teoricamente ilimitado (ou melhor, até onde isso é razoável)? A esse respeito reproduzo a seguir trechos de um artigo interessante sobre publicado no dia 13/5 no site "Slate". Apesar de calcado no caso dos vinhos californianos, suas informações são a meu ver úteis para a abordagem desse assunto.

Vinho não seria vinho se não contivesse álcool --  a excitação e as sensações que este provoca  fazem parte do prazer de beber um vinho.  Mas os teores de álcool vêm aumentando, para contrariedade de alguns enófilos, que acham os vinhos mais alcoólicos muito dominantes e cansativos de se beber. Gosto é coisa pessoal, e alguns vinhos suportam melhor o álcool do que outros.

O álcool, além de nos deixar alegres, proporciona corpo, textura e uma percepção de doçura aos vinhos, e à medida que o teor alcoólico aumenta essas qualidades se ampliam. Uvas como a zinfandel e a grenache produzem vinhos que, por natureza, são razoavelmente altos em termos de teor alcoólico. Mas os níveis de álcool vêm subindo em vários lugares, e enófilos disseram à revista inglesa Decanter que esse aumento de "potência" está ameaçando a personalidade dos vinhos de Bordeaux -- preocupação semelhante tem sido manifestada em outros locais.

Quando o debate é sobre álcool no vinho, a Califórnia está no centro da discussão --  qualquer loja de vinhos californianos está repleta de exemplares com 14% ou mesmo 15% de álcool, e pode acontecer que os rótulos não estejam dizendo toda a verdade. Os cabernets e merlots do vale do Napa não eram tão embriagadores no passado. Um estudo recente conduzido por um professor da Universidade da Califórnia mostrou que o nível de açúcar nas uvas da Califórnia aumentou 9% desde 1980 -- quanto mais açúcar nas uvas, mais álcool nos vinhos.

O que terá causado esse aumento? As mudanças climáticas são citadas com frequência, e com certeza são um fator influente em outras regiões. Mas, no caso da Califórnia, o estudo citado acima sugere que os níveis mais altos de açúcar resultaram principalmente de práticas de cultivo. Além disso, os autores do estudo levantaram outra possibilidade: os produtores estariam colhendo uvas mais maduras para gerar vinhos com mais apelo para os críticos, especialmente para Robert Parker. Eles notaram que os maiores aumentos de açúcar ocorreram nas chamadas uvas "premium" -- cabernet, merlot e chardonnay -- e em áreas "premium" como Napa e Sonoma.

sábado, 7 de maio de 2011

O aquecimento global e o vinho (1)

Tenho visto em todas as mídias muita coisa sobre os efeitos do aquecimento global sobre a vida no planeta Terra em geral, e já fiz mais de uma postagem sobre o tema (ver, por exemplo, aqui e aqui). Não me lembro porém de ter visto nenhuma ênfase sobre tais efeitos em relação ao vinho, e como sou um apaixonado por essa bebida e, além disso, como a produção de vinho é de enorme importância econômica e cultural para vários países, resolvi pesquisar e divulgar um pouco sobre isso.

Pude verificar que é impressionante o que tem sido feito sobre esse tema e, evidentemente, é mínimo o espaço de um blogue para abrigar a abrangência desse assunto, por isso o dividirei em mais de uma postagem, sem ter a mínima pretensão de esgotar o assunto. O primeiro estudo que abordarei é um feito na França, sobre os efeitos das mudanças climáticas nos vinhos da Alsácia, região produtora de renomados vinhos brancos (ler aqui). O ponto de partida para a análise é o conceito, válido para basicamente todos os produtos agrícolas, de que as uvas são climaticamente adaptadas às regiões onde são produzidas -- embora óbvio, ele nem sempre nos vem à mente.  Na Alsácia, por exemplo, as uvas riesling, pinot gris e gewurztraminer, cepas ou castas "frias" por excelência, se desenvolvem perfeitamente no clima da região, enquanto a grenache e a syrah, cepas "quentes", são adaptadas às condições meteorológicas do sul do país.

Tendo em vista o aquecimento global, como reagirão as cepas frias face a uma temperatura crescente? Quais serão as consequências disso sobre a qualidade físico-química e organoléptica dos vinhos originários de tais uvas? Quais as soluções que devem ser visualizadas para fazer frente a essa lenta mas real alteração?

Do ponto de vista meteorológico, a Alsácia vem passando desde 1972 por um aumento médio de temperatura de 0,06˚C/ano. Segundo Eric Duchêne, pesquisador do Inra (Instituto Nacional de Pesquisa Agrícola, em francês) de Colmar, nesse ritmo a cidade de Colmar em 2030 terá um perfil de temperatura semelhante ao de Lyon hoje e, em 2060, ao de Montpellier. Se olharmos o mapa da França, são significativas as distâncias geográficas dessas cidades em relação a Colmar. As rielings, pinots gris e gewurztraminers vão progressivamente perder sua tipicidade, e seu perfil aromático será alterado de maneira "singular" (as aspas são minhas). As rieslings, por exemplo, poderiam perder sua característica floral e apresentar bem rápido um gosto pronunciado de hidrocarbonetos.

Essa degradação qualitativa obviamente não afetará apenas a Alsácia, todas as regiões vinícolas do mundo passarão pelo mesmo problema. Pesquisadores americanos das universidades de Oregon, de Utah, do Colorado e de Connecticut apresentaram um estudo em 2005 mostrando a relação entre a mudança climática e a qualidade dos vinhos em escala mundial. Partindo da hipótese de que condições climáticas benéficas são favoráveis à qualidade de um vinho, e que esta qualidade pode ser avaliada pelas notas de degustação dos vinhos, os autores do estudo compararam, ano a ano, as notas atribuídas pela Sotheby's com a média das temperaturas medidas durante o período de crescimentos das vinhas correspondentes.

Quer seja na Alsácia, em Bordeaux, na Itália, ou alhures, todas as curvas apresentam o mesmo perfil (gráfico 1): a qualidade de um vinho aumenta com a temperatura até um certo teto e, a partir daí, diminue. Assim, e tendo por base o estudo de cinquenta safras "millésimes",  pode-se determinar, de maneira teórica, uma temperatura média ótima para a qualidade dos vinhos de uma região. Na Alsácia, por exemplo, ela é de 13,7˚C para os vinhos brancos, é de 16,7˚C para os vinhos brancos açucarados do Vale do Loire, e de 17,3˚C para os vinhos de Bordeaux, Médoc e Graves. Leia mais.
Na França, em 2006, o Médoc e a Alsácia tinham acabado de ultrapassar o teto de sua temperatura ideal. Na mesma época, a região de Champagne vivia seu momento mais favorável, pois sua temperatura ótima coincidia com a temperatura local. Por outro lado, o ótimo ainda não havia sido atingido no Vale do Loire.

No entanto, em 2050, todas as regiões francesas e estrangeiras terão ultrapassado com folga o teto de sua temperatura ótima, e algumas delas serão mais atingidas que outras. Na França, as regiões de Bordeaux e do vale do Reno serão as mais afetadas (gráfico 2), enquanto o Vale do Loire será o menos afetado (leia mais). Estudos como esse são um excelente alerta para aqueles que gostam de investir em vinhos de safras futuras.
Gráfico 2: Desvio entre a temperatura ótima e a temperatura estimada em 2050. Nas ordenadas temos as diferentes regiões vinícolas da França, e no eixo das abscissas o desvio das temperaturas (Fonte: referência citada no texto da postagem -- clicar na imagem para aumentá-la).

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Harmonizando comida e vinho na Páscoa

A correta harmonização entre vinho e comida nem sempre é simples, e via de regra é um desafio lúdico e extremamente prazeroso. Uma regra básica e fundamental nessa combinação vinho x comida é que um não deve matar o outro, o equilíbrio é a chave da história. Como estamos entrando na Páscoa, aproveito para trazer-lhes algumas boas dicas de Ricardo Farias, publicadas no Globo de hoje  para o casamento de vinhos com as comidas geralmente preferidas nessa época do ano.

Bacalhau -- Os portugueses dizem que "carne é carne, peixe é peixe, e bacalhau é bacalhau", o que já sinaliza uma dificuldade na harmonização dele com um bom vinho. Para um prato de bacalhau mais estruturado, com batatas, muitos temperos, e diversos ingredientes o vinho recomendado é um tinto jovem leve, sem taninos, cuja estrutura enfrentará bem a untuosidade típica do prato -- alguns vinhos do Douro e do Alentejo cumprem bem esse papel. O Ricardo Farias enfatiza que o bacalhau deve estar bem dessalgado, porque o choque do sal com o tanino que tiver o vinho metaliza o gosto. O cuidado a meu ver é atentar para o fato de que, se muito dessalgado, o bacalhau pode não agradar tanto. -- Já o bacalhau simples, com batatas cozidas e muito azeite, cai muito bem com um Chardonnay bem estruturado, como um Chablis (que é, caracteristicamente, um vinho bem seco) ou, por questões de preço, com um Chardonnay barricado do Novo Mundo.

Cordeiro -- Ricardo Farias aponta para uma harmonização clássica: cordeiro com um Bordeaux da margem esquerda do Gironde, que produz vinhos majoritariamente feitos com a Cabernet Sauvignon, uma uva que dá  potência, boa tanicidade e boa alcoolicidade ao vinho. Aqui, novamente, a regra do equilíbrio: o cordeiro é uma carne um pouco forte, untuosa e normalmente elaborada com muitos condimentos, o que recomenda um vinho com boa estrutura, bons taninos e acidez presente. Para melhorar o lado do preço, pode-se trocar o Bordeax por um Cabernet Sauvignon do Novo Mundo -- neste caso, o Ricardo Farias recomenda um chileno.

Chocolate -- Uma presença constante nas refeições da Páscoa, e cada vez mais presente nas refeições ao longo do ano. Nas sobremesas, a regra do equilíbrio vinho x comida é flexibilizada, recomenda-se que o vinho seja mais doce que elas,  caso contrário ele "desaparece". O chocolate é um desafio clássico para harmonização, porque em geral é muito doce (embora tenhamos também chocolate amargo), tem sabor intenso e impregna de gordura as papilas gustativas.  Para um prato de chocolate puro a solução clássica é usar um vinho potente e com boa doçura e alcoolicidade, como o Banyuls, do Roussillon -- o Ricardo Farias sugere ainda um Pedro Jimenez, um vinho doce da região de Jerez. Se o chocolate não predominar na sobremesa, e vier com outros ingredientes, pode-se acompanhá-lo com um Madeira, um Porto Twany ou um Late Harvest.
O bacalhau a lagareiro do Adegão Português (Rio de Janeiro).

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Encontrada a que parece ser a mais antiga prova de produção de vinho na Terra

Há uma história na Bíblia que diz que, depois que a arca acomodou-se no Monte Ararat, Noé plantou videiras, fermentou as uvas e ficou bêbado. Agora, talvez não por simples coincidência, em um vilarejo armênio a cerca de 100 km do Monte Ararat cientistas encontraram restos de uma surpreendentemente avançada operação de produção de vinho. Estimado como remontando a 6.000 anos atrás, esse achado é a mais antiga constatação de produção de vinho com uvas de que se tem conhecimento. Exatamente na mesma caverna onde se deu esse achado foi encontrado recentemente o mais antigo mocassin de couro do mundo -- essas descobertas estão levando os especialistas a concluir pela necessidade de reexaminar e aprofundar a avaliação do tipo de civilização que existia na região. Leia mais.

 A foto mostra peças da descoberta acima referida: uma prensa para vinho, à frente de um kit  de identificação arqueológica, e um recipiente para líquidos à direita da prensa. (Gregory Areshian).




segunda-feira, 31 de maio de 2010

Vinhos brancos portugueses

Quando escrevi sobre os vinhos bebidos na recente viagem à França ("Provença e Paris: impressões etílicas de uma viagem", 21/5/10) me esqueci de mencionar dois excelentes vinhos brancos portugueses, servidos pela TAP no vôo de volta para o Rio:

  • Vinha Grande 2009 (Douro) -- primeiro vinho branco da famosa vinícola Casa Ferreirinha (produtora do legendário tinto Barca Velha), produzido com uvas brancas tradicionais da região demarcada do Douro, principalmente Malvasia Fina, Viosinho e Gouveio. Harmoniza muito bem com peixe, mariscos, cogumelos gratinados, saladas e massas, e até carnes brancas. É um vinho com estrutura que permite sua guarda.
  • Vinha da Defesa 2008 (Alentejo) -- produzido pela tradicional vinícola alentejana Herdade do Esporão com as uvas Arinto, Roupeiro e Antão Vaz. É uma excelente companhia para saladas, salmão defumado, peixe grelhado, sopas de peixe, pastas ou um prato de queijos.
Obs.: os dois vinhos acima e as uvas que os produzem confirmam a secular e bendita tradição portuguesa de dar nomes unicamente locais aos produtos e castas de sua indústria vinícola. Enquanto isso, por aqui continuamos com o velho complexo de inferioridade de dar nomes franceses à maioria dos nossos vinhos ...

Os benefícios do vinho

Muito se tem escrito sobre os benefícios que o uso moderado do vinho traz para a saúde humana. Desta vez fala-se sobre a ajuda, para a digestão, de uma taça de vinho na refeição. Em seu curto artigo no New York Times de março deste ano, Anhad O'Connor fala sobre o assunto e comenta a controvérsia sobre o falado benefício do vinho para a digestão, citando inclusive uma interessante frase da Bíblia sobre isso (*).

Há os que dizem que o vinho estimula a produção de ácido gástrico, rechaçada pelos que dizem dizem que o efeito nesse sentido é mínimo. A discrepância entre as duas correntes pode ter sido esclarecida por um estudo de pesquisadores alemães, que conclui que a produção de ácido gástrico e gastrina (hormônio secretado pela mucosa gástrica e que induz a liberação de ácido clorídrico pelo estômago) é presente nas bebidas fermentadas (vinho, sherry e cerveja) e praticamente inexistente nas fermentadas e destiladas, como o rum, o conhaque e o uísque. A destilação após a fermentação seria a responsável pela perda desse benefício.

Outros estudos ajudam a entender porque o vinho tinto e a carne vermelha se dão tão bem. A proteína da carne amacia os taninos do vinho, e o vinho tinto contra-ataca substâncias potencialmente perigosas liberadas durante a digestão da carne, que são as gorduras oxidadas. Ou seja, em mais de uma maneira o vinho pode ajudar a digestão.

(*) O artigo citado do NYT diz que a frase da Bíblia é “Drink no longer water, but use a little wine for thy stomach’s sake.” ("Não beba mais água, mas use um pouco de vinho para o bem de seu estômago"), mas o The Oxford Dictionary of Quotations cita apenas "Use a little wine for thy stomach's sake" (Timóteo, cap. 5, versículo 23).

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Provença e Paris: impressões etílicas de uma viagem

Apesar de não ser, em geral, uma região de grande destaque em termos de vinhos, a Provença produz alguns vinhos muito bons, como os Bandol, os Cassis, os Palette e os Coteaux d'Aix en Provence. Na nossa recente passagem por lá (23/4 a 02/5/2010) os vinhos provençais de destaque que bebemos foram:
  • Bellet 2006 - Domaine Fogolar/Collet de Bovis (tinto) - 2006 foi uma safra muito boa na Provença (a Bellet é uma vinícola no sopé dos Alpes Marítimos, atrás de Nice)
  • Mas Sainte Berthe Blanc des Blancs 2009 - Coteaux d'Aix en Provence - um branco muito jovem mas muito gostoso no bouquet e no paladar
  • Domaine Vieille Julienne 2006 - Châteauneuf-du-Pape (um tinto de Orange, da região de Vaucluse)
  • Château de Pibarnon 2000 - (considerado um dos melhores tintos de Bandol, foi um dos pontos altos da viagem)
Entre os vinhos produzidos fora da Provença, bebidos na viagem (tanto na Provença, como em Paris), destacam-se:

  • Château Puech-Haut 2003 - Coteaux de Languedoc (um belo tinto!)
  • Mas de Daumas Gassac 2003 - Languedoc-Roussillon (tinto)
  • Puligny-Montrachet 1999 (um branco que desceu muito bem)
  • Domaine La Fouge Meursault Les Casse-Têtes (ano?) - um branco da Borgonha
  • Pouilly Fuissé Domaine de la Feuillarde Lucien Thomas (ano?) - um belo branco da região de Mâcon
  • Pommard Domaine du Comte Armand (ano?) - um belo tinto da região de Côte de Beaune
  • Gevrey Chambertin Chanson Père et Fils (ano?) - um borgonha tinto de Côte de Nuits.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Os chineses investem em massa nos vinhos bordaleses

Para alegria dos franceses, os chineses estão investindo em massa nos vinhos bordaleses (Le Monde de hoje, 01.4.10) e estão chegando em hordas para as primeiras degustações da safra de 2009 desses vinhos. Os franceses estão considerando essa "invasão" como um "raio de sol", já que em 2009 as exportações mundiais desses vinhos cairam 14% em volume e 23% em valor.

Em 2009 os chineses praticamente dobraram suas importações dos bordeaux (um aumento de 97%), enquanto os americanos importaram 27% menos desses vinhos nesse mesmo ano.