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sábado, 20 de agosto de 2016

Compra de terras agricultáveis brasileiras por estrangeiros: até onde isto é realmente de nosso interesse?

O governo Temer -- que continua interino, é bom lembrar -- "amadurece" uma forma de liberar a venda de terras no país para estrangeiros. Os argumentos para isso são ao meu ver pífios e altamente suspeitos e questionáveis. Para o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, "a mudança vai valorizar as terras brasileiras, além de aumentar a capacidade de financiamento da agricultura via bancos estrangeiros, uma vez que eles poderiam ter as terras como garantia. Entre os setores mais beneficiados, avalia, está o de papel e celulose, que poderá receber aportes mais robustos de fundos estrangeiros".

O uso do verbo "amadurecer" é malandro, esse verbo combina com agricultura... Segundo o ministro, o parecer da Advocacia-Geral da União de 2010 que vetou essa possibilidade em 2010 "pode ser refeito". Pode ser refeito por quê?!

A agricultura brasileira é um dos setores mais pujantes e avançados de nossa economia. Somos grandes produtores -- entre os maiores do mundo -- de grãos e alimentos. É altamente mecanizada e tem alta produtividade. Mas, o Brasil é também, e muito infelizmente, o maior consumidor de agrotóxicos do planeta -- acho que nisto pode estar um dos fios da meada dessa história repentina, num governo transitório, de se cogitar tão de repente de uma decisão tão complexa e tão questionável. Qualquer medida para se reduzir esse consumo de inseticidas, que rende bilhões aos produtores de agrotóxicos, ficará certamente muito mais difícil na agricultura privatizada por estrangeiros.

Outro aspecto importantíssimo nessa questão é o da segurança nacional -- sem extremismos e fricotes, isso indubitavelmente tem que ser considerado e levado muito a sério.

Já fiz várias postagens sobre o assunto, a saber:



☛ Venda de terra para estrangeiros ficará ainda mais difícil -- 26/11/2011

Nesse texto menciono relatório recente da ONU sobre a estrangeirização de terras na América Latina, os esforços do governo Dilma (ora vejam, a madame fazendo algo correto e decente!) para fechar as brechas na legislação vigente sobre o assunto, em reação à pressão da bancada ruralista para o afrouxamento das regras vigentes. A subcomissão da Câmara que preparava um projeto de lei sobre a matéria era maciçamente dominada por aquela bancada -- de seus 16 integrantes, 15 eram da Frente Agropecuária! Empresas do agronegócio e do setor de celulose (este citado "coincidentemente" citado pelo ministro da Agricultura como argumento para liberar a venda de terras) doaram na época R$ 28,3 milhões para congressistas eleitos, a maioria da bancada ruralista. Onde tem dinheiro, tem coisa.

Uma preocupação do governo era com a China, cujo fundo soberano tem adquirido terras em outros países. A questão de soberania nacional no trato do tema é visível, notória e de extrema importância. Levantamento do Incra na época revelou que uma área do país equivalente à do Estado do Rio já estava na mão de estrangeiros.

☛ É bom ficar de olho: Câmara quer afrouxar restrições para estrangeiro comprar terra no Brasil -- 13/6/2012

Menciono no texto que uma subcomissão da Câmara acabara de aprovar um relatório que permitia que empresas brasileiras com qualquer participação estrangeira adquirissem terras no país. Através de gráficos mostro como o assunto envolve a segurança alimentar alimentar no mundo, e a tremenda importância estratégica do controle de terras. A China é, junto com a Índia, uma das maiores importadoras de alimentos no mundo, o que explica clara e inequivocamente o porquê de seu interesse em controlar, em terras estrangeiras, a produção de alimentos que lhe interessam.

☛ Estrangeiros aumentam compra de terras agrícolas em países emergentes, incluindo o Brasil -- 16/11/2012

A corrida por terras agrícolas levou investidores estrangeiros a adquirir pelo menos 83 milhões de hectares em países em desenvolvimento de 2000 a 2010, de acordo com análise do Deutsche Bank baseada em dados do Land Matrix, uma base pública de dados sobre negócios do gênero. O total calculado equivale a 1,7% da área agricultável global. Para efeito de comparação, o plantio de grãos no Brasil, um dos principais exportadores mundiais do setor, tende a ocupar pouco mais de 50 milhões de hectares na safra 2012/13, que está sendo semeada.

☛ Investidores estrangeiros avançam sobre terras agricultáveis do Terceiro Mundo -- 22/02/2013

Cito no texto que vários países em desenvolvimento venderam ou fizeram leasing para estrangeiros de muitas de suas terras agricultáveis. A lista é liderada pela Libéria, que tem 100% de suas terras aráveis nas mãos de estrangeiros. O processo é conhecido como "apoderamento de terras" (land grabbing), e está afetando países na África, América do Sul, Ásia e Europa Oriental. Cerca de metade das terras aráveis das Filipinas está em poder de investidores estrangeiros. Na Ucrânia, companhias americanas garantiram para si mais de um terço das terras agricultáveis do país.
____
Pelo visto acima, é patente a extrema importância dessa questão da posse de terras agrícolas por estrangeiros e sua repercussão para a soberania nacional não pode ser relegada a segundo plano. A pressão da bancada ruralista reflete interesses exclusivamente mercantis e não pode se sobrepor aos interesses maiores do país. O governo Temer, que se tem caracterizado por ceder facilmente a pressões para garantir votos e permanência no poder, não pode ameaçar nossa segurança para atender interesses comerciais de ruralistas. Um dos principais defensores de Temer no Senado é o senador Ronaldo Caiado, um dos principais líderes da bancada ruralista -- certamente, Caiado está por trás dessa manobra de liberação de venda de terras agrícolas do país a estrangeiros.

O caso do interesse da China em terras agricultáveis brasileiras é particularmente preocupante, por se tratar de uma economia estatal por natureza -- o uso do fundo soberano chinês para a compra de terras no exterior, como mencionado acima, reforça essa preocupação. É praticamente impossível que um chinês (pessoa física ou jurídica) proprietário de terras agrícolas no Brasil não tenha atrás de si o Estado chinês, muito direta ou pouco indiretamente. Assim pois, qualquer conflito de maior monta com esse proprietário chinês será um conflito com o Estado chinês, o que altera radicalmente a abordagem e a solução de qualquer problema.

Há um outro detalhe importantíssimo envolvendo o assunto: o Brasil tem uma das maiores reservas de terras raras do planeta. Mesmo que a legislação garanta à União a posse dessas reservas, tenho como certo que não será nada simples a discussão sobre propriedade e exploração de reservas de terras raras em solo de propriedade chinesa no Brasil. Sobre terras raras no Brasil, ver também: Terras raras podem ser novo filão brasileiro.

Outro aspecto muito importante: é óbvio que grãos e alimentos produzidos por estrangeiros em suas terras brasileiras serão direcionados preferencial ou exclusivamente para destinos que lhes interessem, sem levar em conta nossas necessidades e interesses. Isso é particularmente verdadeiro quando se tratar de chineses.

É uma ilusão achar que a China é um excelente parceiro nosso, no que quer que seja. Os chineses têm uma experiência milenar em tudo o que fazem, são exímios negociadores e têm plena consciência do enorme poder de pressão que possuem. Não fazem nada que não lhes garanta o que desejam. Quem quiser ter uma boa noção da habilidade dos chineses também em negociações de alto nível, não pode deixar de ler o excelente livro "About Face - A History of America's Curious Relationship with China, from Nixon to Clinton", de James Mann (Alfred A. Knopf, 1998). 

Temos no Brasil um exemplo de uma cooperação fracassada com a China na área agrícola. Em 2011, a Chongqing Grain Group anunciou planos para construir na região de Barreiras, no oeste da Bahia, uma fábrica de esmagamento de soja, ferrovia e um polo gigante de armazenagem e transporte de grãos para exportação para a China. O valor total do empreendimento: 2 bilhões de dólares.

No entanto, até julho de 2014 a empresa só havia conseguido fazer a terraplenagem de uma área de 100 hectares, onde a unidade de processamento poderia um dia ser instalada. Com o projeto em espera, o mato e os arbustos começaram a crescer de novo no terreno limpo. A culpa pelo fracasso do empreendimento cabe aos dois lados, mas e uma sinalização clara de que  nem tudo é tão simples como se espera ou deseja.

Como alertado anteriormente, vê-se que toda a produção de soja desse projeto seria exportada para a China, que seria privilegiada em detrimento de nossos interesses em outros mercados.

Não podemos permitir que essa decisão sobre liberação da venda de terras brasileiras, especialmente as agrícolas, a  estrangeiros seja tomada sem mais nem menos, sem uma ampla discussão com a sociedade para analisar os reais interesses por trás disso.








sexta-feira, 8 de abril de 2016

Quanto custa realmente um alimento?

[Traduzo  a seguir um artigo muito interessante do site Spiegel Online International. Não deixem de acessar esse artigo no site, porque ele contém gráficos interessantíssimos que não podem ser copiados. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Colheita de soja no Brasil - (Foto: AP)

Um quilo e meio de batatas frescas nesta semana custa apenas € 1,29 em alguns supermercados alemães. Mas, essa é a história toda? Os custos ambientais são quase sempre completamente ignorados. Algumas pessoas, no entanto, estão tentando mudar isso. 

Um quilo e meio de batatas frescas por apenas € 1,29 [R$ 5,26], alface em oferta especial nesta semana por apenas € 1,49 [R$ 6,07]: as pechinchas das compras de mercado se acumulam sobre a mesa da cozinha. Morangos a € 3,99 o quilo [R$ 16,26] ainda são bastante caros, mas a estação na realidade ainda não começou. Então, como esses preços foram calculados, e eles refletem o valor real dos produtos? [Em 06/4/2016 o site do supermercado Zona Sul indicava: batata - R$ 4,99/kg; - alface lisa - R$ 3,69/unidade; - morango quase pronto - R$ 40,00/kg]

Os preços de bananas, carne, pão e de outros gêneros alimentícios são determinados basicamente por sua oferta e sua demanda -- e algumas vezes por subsídios, quotas e especulação de preços. Mas  os preços não incluem contribuições feitas pela natureza. Essas contribuições incluem coisas como o uso de água limpa ou terras férteis. Produtos químicos prejudiciais, gases ou partículas poluentes emitidos durante a produção não são igualmente determinados e explicitados no preço, nem para os produtores nem para os consumidores. 

"O capital natural [da natureza] bastante frequentemente é grátis. E bastante frequentemente é sub-avaliado porque é grátis", diz Richard Mattison, CEO da Trucost. Sua empresa assumiu a tarefa de por uma etiqueta  de preço na natureza. Utilizando modelos matemáticos, Mattison e sua equipe estão tentando identificar o valor que se perde quando empresas poluem ou destroem o meio ambiente. "Fazemos com que, seguramente, o valor desses sistemas naturais seja admitido e reconhecido", diz Mattison. Os cálculos da Trucost têm como objetivo ajudar as empresas a otimizar seus processos de produção, assessorar investidores no dimensionamento dos riscos ambientais e permitir que cientistas pesquisem melhor a dependência  da economia em relação aos recursos naturais.

George Monbiot considera que esse é o caminho errado a se tomar. Essa abordagem, disse o autor e ambientalista britânico em uma palestra em 2014, "significa não proteger o mundo natural das depredações da economia". Monbiot considera que colocar uma etiqueta de preço no meio ambiente é semelhante a subordinar sua proteção ao capitalismo. Princípios como comercialização e a busca de crescimento econômico, diz ele, têm sido extremamente danosos à vida do planeta. Ele considera que abordagens como a da Trucost estão tentando agora apresentar esses mesmos princípios como a salvação  do planeta.

Para Mattison, porém, a conexão entre recursos naturais e investimento financeiro é clara. "Em locais onde árvores foram cortadas vimos grandes secas, e a consequência dessas secas é que é preciso gastar dinheiro. E é dinheiro de fato que se está gastando: capital financeiro, porque o capital natural foi perdido".

Qual o custo da natureza? 

Entretanto, como desflorestamento, poluição das águas ou emissões danosas podem ser convertidos em dinheiro? "Se você avaliar a água corretamente, ela será associada com escassez", diz Mattison. Agindo assim, significaria que "produtos que dependem de muita água onde a água é escassa tornar-se-ão mais caros" [mas, em que base alguém decidiu fazer um produto sedento de água onde ela é escassa?!]. Isso, porém, não é frequentemente o caso. "Por exemplo, em Jeddah (localizada no deserto da Arábia Saudita), o preço da água é de três centavos [de dólar] por metro cúbico, e em Copenhague a água  custa mais de US$ 7 por metro cúbico. Frequentemente, diz Mattison, subsídios são os culpados por tais disparidades no custo da água. A Trucost busca incluir tais  fatores em seus cálculos.

Mattison e sua equipe buscam também por cifras em outras formas de danos ambientais, como por exemplo os efeitos da poluição sobre seres humanos e o meio ambiente. Na China, por exemplo, emissões prejudiciais causam danos econômicos que valem de 5% a 10% do PIB do país, diz Mattison. Esses custos surgem sob a forma de custos médicos adicionais devidos a doenças respiratórias, colheitas ruins e danos a edifícios causados por chuva ácida. "O rendimento de colheitas na China é em média de 7% a 15% menos do que a média mundial", diz ele. "Em outras palavras, você precisa de mais terras para produzir por causa  da poluição do ar".

Com base nessa abordagem, a Trucost calculou quanto mais custaria um pacote de ceral para o café da manhã, uma garrafa de suco de fruta ou um pedaço de queijo se as demandas sobre a natureza fossem levadas em conta. Os resultados: o cereal custaria 49 centavos mais, o suco por volta de 16 centavos e o queijo tanto quanto 1 euro. Os cálculos para esses três gêneros alimentícios foram feitos usando valores padrões de mediana. Se fosse analisar os produtos pertencentes a uma marca específica, os resultados seriam mais variados. Preços diferem, dependendo de onde e como um produto é produzido. Além disso, é impossível incluir cada fator ambiental até seu último detalhe. Os cálculos seriam demasiado complexos.

Os custos reais

Amostras de cálculos para vários gêneros alimentícios.

[Aqui aparecem os gráficos da Trucost que não me foi possível reproduzir neste texto. Há um gráfico da análise de um pacote de 51g de cereal, 1 litro de suco e um pedaço de 34g de queijo. No gráfico de cada produto são destacados  em termos percentuais o preço de varejo, o valor da perda, dos poluentes do ar, dos poluentes do solo e da água, dos gases de efeito estufa e da água. Os custos encontrados foram (em dólar):

● cereal para café da manhã (51g):
água -- 0,323
gases de efeito estufa -- 0,059
poluentes de água e solo -- 0,127
poluentes do ar -- 0,037
perdas -- 0,003
valor de varejo -- US$ 3,50

● suco de fruta (1 litro):
água -- 0,083
gases de efeito estufa -- 0,047
poluentes de água e solo -- 0,022
poluentes do ar -- 0,028
perdas -- 0,004
valor de varejo -- US$ 3,0

● queijo: 
água -- 0,457
gases de efeito estufa -- 0,389
poluentes de água e solo -- 0,166
poluentes do ar -- 0,16
perdas -- 0,007
valor de varejo -- US$ 6,50]

Para os três gêneros alimentícios, a água é o fator decisivo. Para o cereal, ela é necessária para cultivar o grão, para a produção do suco ela é necessária para fazer crescer o fruto, e as vacas precisam dela na produção do leite para se fazer o queijo. Fazendeiros pagam pela água que usam, mas o preço que por ela pagam não necessariamente reflete seu real valor. Se se levar em conta a disponibilidade de água no local da produção, ela tem um efeito significativo sobre o preço do produto. Para o cereal da amostra, por exemplo, o preço varia entre € 3,29 [R$ 13,40] e € 4,68 [R$ 19,07] dependendo do suprimento de água.

[Embora seja importante que nós, em nossas casas, procuremos evitar o consumo exagerado de água, o uso doméstico não é o principal responsável por esse elevado consumo. Se analisarmos detalhadamente as atividades que mais consomem água no mundo e também no Brasil, constataremos que existem várias atividades socioeconômicas que gastam ainda mais os recursos hídricos.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), é a atividade agropecuária a principal responsável pelo uso da água. De acordo com a entidade, 70% de toda a água consumida no mundo é utilizada na irrigação das lavouras, número que se eleva para 72% no caso do Brasil, que é um país com forte produção nesse setor da economia.

Depois do setor agrícola, vem a atividade industrial, que é responsável por 22% do consumo de água no mundo. Somente depois vem o uso doméstico, que é responsável por cerca de 8% de toda a utilização dos recursos hídricos. Esse cenário revela que não apenas as casas e os comércios devem economizar, mas também os setores primário e secundário da economia, adotando medidas de contenção da utilização de água.

Se considerarmos apenas a chamada água virtual do mundo, ou seja, a quantidade de água empregada para a produção econômica sem contar o consumo direto, a agricultura passa a deter 67% da utilização de água, seguida pelo cultivo de animais, com 23%, e depois pela indústria, com 10%. Isso significa que as medidas de economia da água inevitavelmente perpassam pela adoção de medidas no espaço rural.

Para se ter uma ideia dessa diferença de consumo, vamos considerar alguns exemplos: para produzir 1 kg de carne de boi, são utilizados 15,4 mil litros de água; uma camiseta de algodão custa 2,5 mil litros; uma tonelada de aço leva 300 mil litros; e um carro gasta mais de 400 mil. No meio agrícola, a soja é uma das campeãs, com 1,8 mil litro para cada quilo produzido – lembrando que o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores mundiais desse produto.]

O preço depende da água

Amostras de cálculos para os mesmos gêneros alimentícios acima, dependendo da disponibilidade de água.

[Aqui também não foi possível reproduzir os gráficos da reportagem. Os preços são dados em dólar. Custos encontrados para as mesmas amostras:
● cereal para café da manhã -- preço médio: US$ 4,07 -- faixa de variação: US$ 3,74 - US$ 5,33]
● suco -- preço médio: US$ 3,19 -- faixa de variação: US$ 3,11 - US$ 3,35
● queijo -- preço médio: US$ 7,68 -- faixa de variação: US$ 7,26 - US$ 8,22.]

Cálculos difíceis

Entretanto, para Mattison, CEO da Trucost, variáveis como essas não são razão para que não se façam tais análises. Sua empresa trabalha até com a Organização para Alimentos e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), da ONU. Juntas, estão desenvolvendo diretrizes que visam a prover assistência quando se tratar de estimar a quantidade de capital natural usada na produção de alimentos. Em um relatório conjunto, Trucost e FAO calcularam quanto capital natural é utilizado na produção de diferentes colheitas e de  produtos de carne, dependendo do local onde  foram produzidos. Aqui também foram encontradas diferenças significativas.

Custos para agricultura no Brasil, por exemplo, são frequentemente particularmente elevados porque muito das terras usadas tanto para agricultura quanto para pastagem estava uma vez coberto pela floresta amazônica. O alto custo da produção de aves domésticas na Indonésia, ao contrário, pode ser rastreado até as emissões de gases de efeito estufa, que são particularmente extremas no país. Quando se trata do cultivo de cereais, a Alemanha tem ranking baixo por causa das quantidades relativamente grandes de fertilizantes que utiliza.

Capital natural exigido para produção agrícola

Custos em dólares por tonelada

[Aqui também não foi possível reproduzir os gráficos da reportagem. Os preços são dados em dólar/tonelada. Fiz uma tabela com os principais países e respectivos resultados do estudo:




Alemanha Austrália Brasil China EUA França Holanda Rússia
Milho
x
x
1030
672
286
1606
x
x
Arroz
x
x
x
566
x
x
x
x
Soja
x
x
1367
x
618
x
x
x
Trigo
2700
x
618
723
x
1409
x
414
Carne (boi)
x
31071
444
19566
23313
x
x
x
Porco
4969
x
x
6343
2177
x
26222
x
Aves domésticas
x
x
2537
2236
2136
x
x
2729

Pó mágico

Mas, esses cálculos podem ter influência sobre a produção de gêneros alimentícios e de outros produtos? Para Mattison, o objetivo é promover uma nova maneira de pensar que, no final, resultará em uma produção mais sustentável. "Não diria que em cada caso o alimento deve se tornar mais caro. Diria apenas que precisamos baixar o custo real dos alimentos". Sua empresa está preparando os fundamentos para que isso aconteça.

O ambientalista Monbiot, entretanto, não considera que colocar uma etiqueta de preço resolva de fato qualquer problema. "Dinheiro, diz ele, não é nenhuma espécie de "pó mágico que você espalha sobre todos os problemas não resolvidos". Em vez disso, diz ele, a ideia de capital natural simplesmente aumentará o poder daqueles que têm dinheiro.

Mattison, o CEO da Trucost, também admite que os cálculos em si mesmos não mudarão muito. Mas acredita que a mudança virá uma vez eliminados os subsídios danosos -- tais como os subsídios para combustíveis fósseis, fertilização excessiva e água em regiões áridas. "Na Arábia Saudita eles costumavam ter  um subsídio muito significativo para a água. Na realidade, eles costumavam dar água de graça para a pecuária de leite e as vacas eram borrifadas com água todos os dias. Essa água era produzida por dessalinização, um processo muito caro e também muito prejudicial  ao meio ambiente porque é muito intensivo em carbono".

Em alguns casos, diz Mattison, dependência de fontes naturais pode ser significativamente reduzida pelo retorno a métodos de produção tradicionais e mais sustentáveis. A Unilever, por exemplo, treinou 400.000 produtores de chá em vários países para espalhar o uso do enxerto nas plantas de chá nas suas lavouras. Esse método poupa ao mesmo fertilizante e dinheiro.



  


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Mudanças climáticas causam alterações no comportamento de beija-flores

[Reproduzo a seguir artigo de Elton Alisson, da Agência FAPESP.]

O aumento da temperatura causa a diminuição da taxa metabólica de beija-flores (foto: Wikimedia Commons)

As mudanças climáticas podem causar a diminuição da atividade de voo de beija-flores e, consequentemente, da polinização de vegetais por esse grupo de aves.
A constatação é de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Taubaté (Unitau), em colaboração com colegas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), da Escola de Engenharia de Lorena da Universidade de São Paulo (EEL-USP) e da University of Toronto Scarborough, do Canadá, durante o Projeto Temático “Assessment of impacts and vulnerability to climate change in Brazil and strategies for adaptation option”, realizado com apoio da FAPESP no âmbito de um acordo com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“Observamos que o aumento da temperatura causa a diminuição da taxa metabólica de beija-flores [a quantidade de oxigênio consumido necessário para produzir energia]. Com isso, cai a frequência de batimentos de asa das aves e, consequentemente, elas passam a voar menos e diminuem a procura por néctar em flores”, disse Maria Cecília Barbosa de Toledo, professora do Departamento de Biologia da Unitau e coordenadora do projeto, à Agência FAPESP.

Os pesquisadores estudaram oito espécies de beija-flor encontradas em diferentes níveis de altitude no Vale do Paraíba, no interior de São Paulo.

Duas das espécies são de baixa altitude – o beija-flor rajado (Ramphodon naevius) e o topetinho-verde (Lophornis chalybeus) –, outras duas são de alta altitude – o beija-flor de topete (Stephanoxis lalandi) e o beija-flor de papo branco (Leucochloris albicollis) –, três ocorrem ao longo de todo o gradiente elevacional do Vale do Paraíba – o beija-flor de fronte violeta (Thalurania glaucopis), beija-flor rubi (Clytolaema rubricauda) e beija-flor de garganta verde (Amazilia fimbriata) – e a última – o beija-flor preto (Florisuga fusca) – é migratória. O grupo de aves foi escolhido porque apresenta uma alta taxa metabólica, relacionada com fatores ambientais, como temperatura e altitude.

“Estimávamos que as mudanças climáticas poderiam causar grandes impactos em espécies de beija-flor e que, por isso, podiam ser usadas como bioindicadoras”, disse Toledo.

A fim de simular os efeitos das variações climáticas nesses animais, os pesquisadores usaram como referência o gradiente climático altitudinal da região montanhosa do Vale do Paraíba, que varia de três metros – como os das cidades de Ubatuba e Caraguatatuba – a 1,8 mil metros de altitude, como o da cidade de Campos do Jordão. Nessas regiões, com diferentes níveis de elevação altitudinal e temperatura variável entre 10 e 30 ºC, eles avaliaram a taxa metabólica em campo de beija-flores rubi (Clytolaema rubricauda) – uma das três espécies de beija-flor que ocorrem ao longo de todo o gradiente altitudinal do Vale do Paraíba.

Para isso, usaram um sistema em que o beija-flor é capturado e colocado dentro de uma câmara com um alimentador, no alto do recinto – composto por um tubo plástico contendo uma solução de sacarose a 20% –, e um poleiro que serve de balança para indicar o peso do animal. Para conseguir se alimentar da solução de sacarose, a ave precisava pairar no ar e inserir a cabeça dentro do tubo de plástico do alimentador, que funciona como uma máscara respiratória, com passagem de 2,5 mil mililitros (ml) de ar por minuto.

Ao pairar no ar e inserir a cabeça na máscara respiratória, os pesquisadores conseguiam analisar a temperatura, além do volume de oxigênio consumido e o total de dióxido de carbono produzido pela ave durante o voo pairado. Dessa forma, conseguiram estimar as taxas metabólicas dos pássaros em diferentes temperaturas ao longo do gradiente altitudinal do Vale do Paraíba. “Esse sistema possibilita avaliarmos a taxa metabólica de beija-flores em atividade, que é o dado mais importante para mensurarmos os efeitos das mudanças climáticas no metabolismo dessas aves”, explicou Toledo.

Menos voo
Uma das constatações dos experimentos foi que o aumento da temperatura diminui a taxa metabólica do beija-flor rubi. A taxa metabólica da ave foi maior em uma faixa de temperatura mais amena, entre 20.1 e 25 ºC, e menor sob temperaturas mais altas, entre 25.1 e 30 ºC, indicaram os experimentos.
Nessa faixa de temperatura mais elevada, o pássaro tende a diminuir a frequência de batimento de asas, procura mais sombra para permanecer em repouso e voa menos para manter seu metabolismo e diminuir o gasto energético, explicou Toledo. “Essa mudança de comportamento pode causar a diminuição da polinização de vegetais por essas aves”, estimou a pesquisadora. “Os beija-flores passam a visitar menos as flores silvestres em busca de néctar e, consequentemente, deixam de transportar pólen de uma flor para outra”, estimou a pesquisadora.
Algumas espécies de beija-flor possuem preferências climáticas, apontou o estudo.
O beija-flor rubi, por exemplo, apresenta maior ocorrência no Vale do Paraíba em regiões com temperatura na faixa de 20 º a 25 ºC, e não “dá as caras” em regiões de baixa altitude durante o verão, quando a temperatura média atinge 28 ºC, disse Toledo.
“Se a temperatura aumentar, elevando a média das terras altas, provavelmente os beija-flores tentarão acompanhar essa mudança”, estimou a pesquisadora.
“Observamos durante o estudo que os beija-flores apresentam variações morfométricas em função da altitude, tais como massa, comprimento e área da asa, comprimento do bico e comprimento total. Mas ainda não sabemos se poderão sofrer mudanças morfométricas rápidas a tempo de se adaptarem às mudanças climáticas”, disse Toledo.
O aumento da temperatura, contudo, não representa um fator limitante para a sobrevivência dos beija-flores, uma vez que esse grupo de aves possui alta resistência térmica. A temperatura corpórea dos beija-flores é em torno de 40 ºC. Dessa forma, a ave é capaz de suportar de forma confortável uma temperatura ambiente em torno de 38 ºC – considerada bastante alta –, explicou Toledo.
“Os beija-flores só conseguem manter esse estresse térmico por muito tempo, entretanto, se houver energia disponível, que é o néctar das flores. E isso representa um ponto de preocupação”, ponderou.
Um estudo realizado por pesquisadores da Escola de Engenharia de Lorena, da USP, no âmbito do projeto, identificou que a quantidade de energia disponibilizada pelas plantas para os beija-flores na região do Vale do Paraíba varia de acordo com a elevação.
Algumas espécies de plantas visitadas por beija-flores em regiões de terras altas, como Campos do Jordão, possuem néctar com maior teor de sacarose – o açúcar preferido pela ave – do que em regiões de terras baixas, como Ubatuba, apontou o estudo.
“Nossa preocupação é se as plantas visitadas pelos beija-flores serão capazes de ajustar suas concentrações de néctar em tempo de acompanhar as mudanças climáticas e continuarem fornecendo energia para essas aves”, ressaltou Toledo.









segunda-feira, 22 de junho de 2015

Investimento público do governo federal de janeiro a maio de 2015

[O texto abaixo é do excelente blogue do economista Mansueto Almeida. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

De janeiro a maio de 2015, o investimento púbico do governo central (exclui estatais) apresentou queda real de 35,9%, equivalente a R$ 13,7 bilhões. A média mensal de corte do investimento público do governo central foi de R$ 2,75 bilhões. Se essa média se mantiver até agosto, em oito meses deste ano o governo conseguirá cortar toda a expansão real do investimento público do primeiro governo Dilma.
Se continuar com essa média de corte até o final do ano, em 12 meses o corte do investimento será um pouco acima de R$ 30 bilhões, corte de 0,6% do PIB, o que levará o investimento para 0,8% do PIB; valor do investimento público do governo central de 2008. Mas não me surpreenderia com um corte ainda maior. Assim, o maior esforço de ajuste fiscal este ano é corte do investimento púbico.
Mesmo com um corte dessa magnitude do investimento ainda será difícil, ou melhor, impossível, o governo cumprir com a meta programada de superávit primário de 1,2% (setor público consolidado) e de 1% do PIB para o governo central. O problema este ano tem sido a grande frustração de receita, que já foi abordada em newsletter enviada no ultimo domingo para clientes.
[Infelizmente não foi possível conseguir mais nitidez para a tabela acima, por isso sugiro aos leitores deste blogue que acessem diretamente o blogue do Mansueto para vê-la melhor. O economista destacou em sua tabela os Ministérios que mais reduziram seus investimentos nos 5 primeiros do segundo mandato de Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saia), em relação ao mesmo período do ano passado. Vê-se que os setores mais atingidos foram Educação, Saúde, Transportes, Desenvolvimento Agrário e Ministério das Cidades ou seja, áreas vitais para o país.

Na Educação, a redução foi de 42% em relação ao montante investido em 2014, o que mostra mais uma vez a baixíssima prioridade desse setor para a madame ex-guerrilheira. Na área da  Saúde, a queda foi de cerca de 54%; nos Transportes houve redução de 30%, no Desenvolvimento Agrário (MDA) foram impressionantes 96%, na Defesa 56%, e no Ministério das Cidades foram 20%.

O MDA tem por missão "promover a política de desenvolvimento do Brasil rural, a democratização do acesso à terra, a gestão territorial da estrutura fundiária, a inclusão produtiva, a ampliação de renda da agricultura familiar e a paz no campo, contribuindo com a soberania alimentar, o desenvolvimento econômico, social e ambiental do país". Em tese, esse Ministério é o contraponto do MST - Movimento dos Sem Terra, se ele funcionasse a contento não haveria razão para as reiteradas invasões de terras e as badernas que são o carro-chefe desse bando de vândalos chamado MST. Mas, nem uma nem outra -- o governo não dá importância o MDA, nem quer se atritar com o MST -- que sempre foi prestigiado por Dilma NPS e seu guru, o NPA (Nosso Pinóquio Acrobata, Lula) -- ver postagem anterior. É assim que o país vai sendo empurrado para o abismo.]  



sábado, 21 de março de 2015

Fazendeiros do Mato Grosso do Sul querem mudar lei que protege a reserva de Bonito

[A preservação da natureza é uma luta sem tréguas no mundo todo, e o Brasil obviamente não está fora disso, muito pelo contrário. A mata atlântica, a floresta amazônica e praticamente todas as áreas verdes do país estão sendo devastadas e há décadas não há governo capaz de enfrentar as madeireiras ilegais e/ou certo número de fazendeiros. A bancada ruralista cresceu enormemente no Congresso Nacional e exerce uma tremenda pressão para o maior relaxamento possível dos requisitos de preservação de matas e florestas. Sua atuação na aprovação do novo Código Florestal, com critérios altamente discutíveis, foi decisiva. Para complicar as coisas, o governo Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saia) nomeou para o ministério da Agricultura uma fazendeira, Kátia Abreu, que já foi autuada pelo Ibama por desmatamento ilegal!

Desta vez, a péssima notícia vem em uma reportagem (reproduzida abaixo) de Marina Ribeiro na revista Época de 16/3/2015, que denuncia que fazendeiros do Mato Grosso do Sul querem mudar lei que protege Bonito.]



Uma das principais atividades turísticas de Bonito (MS), o mergulho, depende da boa visibilidade das águas (Foto: Reprodução/Facebook)

Piscinas naturais com águas cristalinas, mergulhos em meio a cardumes de peixes, rapel em cachoeiras e visitas a grutas inundadas, são algumas das atrações que tornaram a pequena cidade de Bonito (MS) conhecida como um dos principais destinos de ecoturismo do país. Além de ter um ecossistema único, a cidade conquistou o posto com grande esforço de conservação ambiental, que agora pode ser ameaçado por um projeto de lei apoiado por ruralistas da região.

O principal instrumento para conservação das piscinas naturais é a lei estadual 1871, aprovada em 1998. Ela protege os rios Prata e Formoso e seus afluentes ao definir uma Faixa de Proteção Especial de 300 metros de largura – 150 para cada lado da margem dos rios - em que são proibidas atividades de agricultura, extração de madeira, indústria, extração mineral e até mesmo a criação de pequenos animais. A lei permite, no entanto, apicultura (criação de abelhas), pecuária e, claro, o ecoturismo neste espaço.

Como muitas leis no Brasil, a princípio a legislação não “pegou”. Com esforço do Ministério Público em fiscalizar, aos poucos a medida se tornou mais conhecida e permitiu a conservação da mata ciliar e dos rios, que não enfrenta a erosão e nem recebe agrotóxicos utilizados em plantações da região, garantindo a quantidade e a qualidade da água. Por tudo isso, ficou conhecida como “Lei das Águas Cristalinas”.


No entanto, após mais de quinze anos com a lei em vigor, ela passou a se mostrar insuficiente com a expansão da lavoura de soja. “Recentemente começou uma pressão muito forte de agricultura no município eu comecei a notar que a lei estava sendo descumprida, por isso, convoquei uma reunião para explicá-la aos produtores, em especial os arrendatários que estavam chegando”, afirma o promotor Luciano Furtado Loubet, da Promotoria de Justiça do Meio Ambiente da comarca de Bonito, que esteve envolvido no processo de implantação da 1871. Segundo ele, a partir de então, a pressão para que a medida fosse extinta cresceu. Em 2014, em uma assembleia com as entidades locais, representantes dos hotéis, de bares e restaurantes, de atrativos turísticos, rejeitaram qualquer alteração nas regras. A exceção foi o Sindicato Rural de Bonito.

Projetos em discussão

A partir de então dois novos projetos de lei surgiram. Por um lado, o deputado estadual, Paulo Corrêa (PR-MS) – autor da Lei das Águas Cristalinas – propôs o projeto 126 em que instituía “Área de Proteção Ambiental nas nascentes, áreas úmidas, brejos ou veredas dos rios da Prata, Formoso, Peixe, Aquidaban e afluentes”, ampliando a proteção da legislação já existente. O projeto foi derrubado na Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa, com o apoio da base ruralista.

Já os fazendeiros, por meio da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso do Sul (Famasul), escreveram um projeto de lei que derrubava os principais itens da Lei das Águas Cristalinas, com base no Código Florestal. Em dezembro de 2014, o ex-deputado Jerson Domingos (PMDB-MS) acatou a sugestão e propôs o projeto 191 em discussão na Assembleia Legislativa e, em meio ao esforço concentrado para o recesso do fim de ano, ele foi aprovado.



“A assembleia aprovou, sem ouvir a sociedade, mesmo a gente tendo mandado abaixo-assinado com centenas de assinaturas decorrentes das assembleias públicas que fizemos em Bonito”, disse o promotor. Para alívio da sociedade civil de Bonito, o recém-empossado governador, Reinaldo Azambuja (PSDB), vetou o projeto, que voltou para a Assembleia. Porém, os deputados ainda podem derrubar o veto, tornando-o, então, lei.

O medo das organizações locais é que a Famasul consiga votar sobre veto sem aviso novamente. “É difícil que rejeite o veto, mas eles estão trabalhando para aprovar a lei e têm uma pressão na base”, afirma Eduardo Coelho, presidente do Instituto das Águas da Serra da Bodoquena e vice-presidente da Associação dos Atrativos Turísticos de Bonito e Região.
Segundo o promotor, além do interesse em ampliar a produção, alguns produtores querem escapar de multas ambientais. “Na verdade, esse projeto pode beneficiar meia dúzia de produtores que têm ações civis públicas e execuções de taxas por que descumpriram a lei 1871. Se a lei cai, caem todas as multas e as grandes ações ambientais contra eles”, diz Loubet.

Lei federal x lei estadual

A Famasul nega. Segundo o assessor jurídico, Carlos Daniel Coldibelli, a intenção da federação é fazer uma “provocação legislativa” para estimular o debate para determinar com clareza qual regra os fazendeiros da região devem seguir: o previsto na lei 1871 ou o que está no Código Florestal. “A preocupação maior é que seja definido o que pode ou não pode, sejam regras mais rigorosas ou mais brandas, mas sejam claras”, disse Coldibelli.

As leis diferem em alguns pontos, com a lei federal sendo menos restritiva. O tamanho da faixa de proteção é um exemplo. O Rio Formoso, um dos protegidos pela lei estadual, poderia perder ao menos 100 metros de faixa de proteção permanente, já que segundo o Código Florestal cursos d’água de tal tamanho precisam de áreas de 200 metros. Além disso, nessas áreas é “permitido o acesso de pessoas e animais para obtenção de água e para realização de atividades de baixo impacto ambiental”.

Ainda que defenda os interesses econômicos dos fazendeiros, a Famasul levanta uma questão relevante no direito ambiental. A Constituição Federal de 1988 definiu que cabe à União e aos Estados definir regras sobre florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa do solo e dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição. A Carta também afirma que cabe à União editar normas gerais e aos Estados estabelecerem normas suplementares da legislação federal. No entanto, não detalha quais regras seguir quando houver conflito das normas.


A Gruta do Lago Azul é um dos principais pontos turísticos de Bonito fica entre fica entre os córregos Taquaral e Anhumas, afluentes do Rio Formoso (Foto: Thinkstock) - (Fonte: Época)

O Supremo Tribunal Federal também não tem um posicionamento claro sobre os conflitos de normas locais e nacionais quando se trata de legislação ambiental. “Muitos interpretam que leis locais só poderiam legislar dentro dos limites do que a União prevê. Apenas detalhar, mas não extrapolar”, explica a sócia da área de Meio Ambiente, Mudanças Climáticas do escritório Trench, Rossi e Watanabe, a advogada Renata Amaral. Segundo ela, existe ainda outra corrente, que tem aceitação no Judiciário, que determina que se as leis locais forem mais protetoras, podem extrapolar as federais.

“Esse é um debate muito grande, pois traz de um lado uma preocupação clara com o meio ambiente, e por outro um entendimento de que a União deve estabelecer as diretrizes gerais que o país pretende seguir, então não poderia ter legislações muito diferentes nos Estados”, afirma a advogada.

Responsabilidade financeira

Para o advogado da Famasul não há problema se for definido que a legislação mais restritiva é que deve continuar em vigor, mas é preciso passar a discutir a questão com base em fatos e documentos e indenizar as propriedades afetadas. “O Município tem direito de impor regras mais restritivas? Tem, mas tem custos para cada restrição de uso também. Quem é que vai arcar com as indenizações?”

O prefeito de Bonito, Leonel Lemos de Souza Brito, o Leleco (PT do B), concorda com a Famasul de que é preciso discutir com dados na mão. Para ele, é preciso um estudo sobre o impacto que a lei acarreta para os produtores da região. “Acho que vai mostrar que não tem custo econômico nenhum”, afirma o político que também tem 1.100 hectares de produção de soja na cidade. Mas, caso exista um custo por deixar de produzir nessas áreas, “podemos pensar em uma maneira de compensar financeiramente os produtores”.

Risco ambiental

Segundo o vice-presidente da Associação dos Atrativos Turísticos de Bonito e Região, Eduardo Coelho, é preciso rever as leis para acompanhar as novas técnicas agrícolas. Ele afirma que vai haver a pressão dos ruralistas para que as áreas protegidas diminuam, mas se todas as partes estiverem envolvidas na discussão será mais difícil dos interesses dos fazendeiros se sobreporem aos demais. “Quando o trabalho é feito às claras, não dá para apelar, não dá para pedir para destruir os rios, a opinião pública se opõe à influencia dos ruralistas na Assembleia Legislativa”, afirma.

Nem todos concordam em atualizar para as novas técnicas de manejo do solo. Segundo a coordenação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Áreas Úmidas, a Lei 1871 deve ser revista, mas para ampliar sua proteção. Para a organização, a pecuária também deveria ser proibida nas faixas de proteção. “O pisoteio do gado torna frágil o solo, criando trilhas causando compactação no local, e durante o período chuvoso a água escorre aumentando as probabilidades da erosão do solo e consequentemente impactando na qualidade da água".

Além disso, o instituto defende que qualquer retrocesso seria danoso para a região, já que os riachos e rios pequenos reagem com muita sensibilidade às mudanças no ecossistema. “A temperatura aumenta, a transparência da água é reduzida por causa do aumento dos sedimentos e a qualidade de água diminui. A diversidade de habitats sofre redução e com isso a diversidade da flora e fauna aquática”, afirmam em documento. Para a entidade, “seria uma catástrofe” perder o exemplo de manejo sustentável de recursos hídricos que Bonito se tornou nos últimos anos.

Ver também:







domingo, 20 de julho de 2014

A China é um parceiro confiável?

[No momento em que o namoro Brasil-China está nas manchetes, com a assinatura de 32 acordos de cooperação assinados entre os dois países, é interessante constatar que até agora fracassou um projeto agrícola de grande porte no Brasil, nos alertando de que, de repente, nem tudo que tem a assinatura chinesa é de execução garantida -- parte da culpa é nossa, mas os chineses também têm culpa no cartório. A reportagem abaixo foi publica no site Exame.com em 04/4/2014. O que estiver em itálico entre colchetes é de minha responsabilidade.]



Vista geral do terreno onde a Chongqing Grain Group planeja construir uma fábrica de esmagamento e processamento de soja, perto de Barreiras, na Bahia, em fevereiro

Vista geral do terreno onde a Chongqing Grain Group planeja construir uma fábrica de esmagamento e processamento de soja, perto de Barreiras, na Bahia, em fevereiro - (Foto: Ueslei Marcelino/Reuters - Fonte: Exame)

Vista geral do terreno onde a Chongqing Grain Group planeja construir uma fábrica de esmagamento e processamento de soja, perto de Barreiras, na Bahia, em fevereiro

 Terreno da Universo Verde, subsidiária da Chongqing Grain Group: até agora a empresa só conseguiu fazer a terraplenagem de uma área de 100 hectares - (Foto: Ueslei Marcelino/Reuters - Fonte: Exame)

Barreiras - Nenhuma placa em um campo árido no Nordeste do Brasil indica que ali será o centro de uma das mais ambiciosas incursões agrícolas da China na América do Sul.

Em 2011, a Chongqing Grain Group anunciou planos para construir na região de Barreiras, no oeste da Bahia, uma fábrica de esmagamento de soja, ferrovia e um polo gigante de armazenagem e transporte de grãos para exportação para a China. O valor total do empreendimento: 2 bilhões de dólares.

No entanto, até hoje, a empresa só conseguiu fazer a terraplenagem de uma área de 100 hectares, onde a unidade de processamento poderia um dia ser instalada. Com o projeto em espera, o mato e os arbustos estão começando a crescer de novo no terreno limpo.

Os planos paralisados são exemplos das dificuldades enfrentadas pelos investimentos chineses outrora promissores no Brasil. A notória burocracia brasileira, a desaceleração econômica do país e uma desconfiança profunda em relação à fome chinesa por terras parecem explicar por que o campo ainda está vazio. Uma investigação da Reuters no ano passado descobriu que, após uma onda de anúncios de investimento nos últimos anos, até dois terços dos projetos chineses no Brasil enfrentam atrasos ou nunca saíram do chão.

O governo do Estado da Bahia diz que os planos do grupo Chongqing ainda estão se movendo para a frente --lentamente. "É apenas em um processo burocrático", disse Josalto Alves, porta-voz da Secretaria de Agricultura da Bahia. Segundo ele, a fábrica precisa da aprovação de um governo municipal, bem como licenças ambientais. Não está claro se a Chongqing abandonou os outros elementos do projeto.

Representantes da empresa na China e em sua subsidiária na Bahia, chamada Universo Verde, recusaram-se a responder repetidos pedidos de entrevista. Alves disse que a empresa ainda está avaliando projetos de infraestrutura, apesar de outras autoridades locais dizerem à Reuters que as empresas brasileiras tendem a construir o polo ferroviário. Margaret Myers, diretora do programa para a China e América Latina na Inter-American Dialogue, uma empresa de análise com sede em Washington, suspeita que os atrasos são causados por mais do que burocracia.

A Chongqing Grain Group originalmente planejava não apenas construir uma unidade, mas também adquirir grandes extensões de terras ao redor, segundo a imprensa brasileira. Na época, os legisladores brasileiros expressaram preocupações de que a China estava interessada em garantir o máximo de recursos naturais que podia, com pouco benefício para o Brasil, um dos poucos países no mundo com novas terras disponíveis para a agricultura. Myers disse que o projeto da Chongqing foi amplamente percebido como uma "apropriação de terras". 

O governo brasileiro reforçou restrições à propriedade de terras por estrangeiros em 2010, exatamente quando as negociações dos detalhes do projeto estavam em andamento. Autoridades disseram privadamente que a nova legislação foi destinada principalmente a China. [Ver postagens anteriores sobre a compra de terras no Brasil por estrangeiros, em 13/7/2012, em 16/11/2012, em 25/11/2011 e em 22/2/2013. Esse assunto possui contornos de segurança nacional, principalmente no caso de empresas chinesas que, em sua esmagadora maioria, são estatais.]

O governo do Estado da Bahia passou anos cortejando a Chongqing e ainda tem um escritório na China. A China compra a maior parte da soja enviada pelo Brasil ao exterior. Mas empresas agrícolas chinesas parecem estar mudando sua abordagem após desafios recentes. Em vez de controlar toda a cadeia de produção de soja, algo que pretendia fazer na Bahia, a China tem buscado recentemente a aquisição de casas comerciais de produtos agrícolas. Na quarta-feira, 02/4, a maior trading de grãos da China, a Cofco, concordou em pagar 1,5 bilhão de dólares por uma participação majoritária na unidade de agronegócio do Grupo Noble, com sede em Cingapura.

A compra seguiu o acordo da Cofco, em fevereiro, para comprar uma participação de 51 por cento na trading de grãos holandesa Nidera, naquela que foi a primeira grande compra de uma casa de comércio por uma empresa agrícola estatal chinesa. A Cofco agora vai ser capaz de comprar suprimentos de soja diretamente no Brasil e em outros países produtores, e processá-los em ração animal na China. Isso permitiria aos chineses trabalhar com menor interferência das quatro grandes tradings de grãos do mundo: ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus . Isso pode ser mais viável do que tentar entrar no jogo do Brasil, onde empresas dos EUA e da Europa têm unidades para esmagar e negociar soja há décadas.

No oeste da Bahia, unidades da Cargill e Bunge já têm acordos para comprar soja de produtores locais. "As indústrias são muito bem estabelecidas e é difícil para os recém-chegados entrarem, mesmo para aqueles tão persistentes chineses", disse Carlo Lovatelli, presidente da Abiove, que reúne as indústrias de soja do Brasil.

A cidade de Barreiras vai analisar a proposta da Universo Verde para o plano de planta de esmagamento em breve, disse Adalto Soares, porta-voz do gabinete do prefeito, nesta semana. A planta seria integrada com um novo distrito industrial planejado para a cidade, que incluiria um porto seco com acesso ferroviário --agora suscetível de ser construído por empresas brasileiras, disse ele.

[No contexto da recente reunião dos Brics em Fortaleza  a China, com o ostensivo apoio do Brasil, conseguiu um precioso espaço adicional na América do Sul para ampliar sua posição estratégica no continente. O governo Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saias) convidou os presidente a virem ao país durante a reunião dos Brics. O Brasil petista ajudou a raposa chinesa a entrar no galinheiro sul-americano e roubar-lhe espaço político-estratégico. É impensável a hipótese de que a China faça o mesmo com o Brasil na Ásia, na África ou alhures. Muito menos em seu próprio mercado. Apesar da venda de 60 jatos aos chineses consumada agora, a Embraer tem penado para produzir aviões em sua fábrica na China.

Um dos grandes resultados para a China nesse envolvimento com países sul-americanos, com o estímulo brasileiro, foi investir, negociar, financiar e conseguir contratos na Argentina -- algo em torno de 11 bilhões de dólares. Esse espaço chinês na Argentina o Brasil jamais conseguirá desfazer, e ele certamente se ampliará.

A América Latina é o novo -- ou mais um -- campo de batalha econômico entre China e EUA. Nada me tira da cabeça que essa atitude de Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saias) de apoiar a "ocupação" da China nas nossas redondezas faz parte da miopia petista de "represálias" contra os EUA, para não deixar esmaecer a animosidade entre nós e os americanos. A China já entrou firme no setor energético brasileiro, na área elétrica e no pré-sal. Há evidências claras de que a China tem utilizado a Argentina para burlar as medidas do governo brasileiro para proteger nossa indústria de uma invasão de produtos chineses.

Enquanto se discute o papel do BNDES no financiamento a obras de infraestrutura no exterior, a China ganha espaço silenciosamente nos serviços de engenharia da América Latina e já se apresenta como uma ameaça às pretensões de empresas brasileiras em países vizinhos. Em 2003, os asiáticos detinham participação de 1,8% no mercado latino-americano de grandes obras de engenharia. Essa fatia, impulsionada por financiamento de longuíssimo prazo e compras de petróleo com pagamento antecipado, subiu sete vezes em uma década e alcançou 12,1% em 2012.

A presença cada vez mais agressiva de construtoras chinesas se coloca como ameaça ao crescimento das grandes empresas brasileiras (Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS e Camargo Corrêa) na América Latina e na Ásia. Segundo um executivo de uma empreiteira nacional, a agressividade da China não está tanto no custo do crédito -- com o qual o BNDES consegue competir --, mas nos prazos do financiamento e no volume de desembolsos. Enquanto o banco de fomento brasileiro dá entre oito e dez anos de prazo nos empréstimos a serviços de engenharia, com dois a quatro anos de carência, os chineses oferecem até 30 anos de financiamento e carência raramente inferior a cinco anos. "Outro aspecto a notar é a liberação dos recursos. O BNDES demora até 480 dias, após a aprovação do financiamento, para fazer o primeiro desembolso. A China faz isso em 120 dias", diz o executivo.

Outro expediente adotado por Pequim, especialmente na Venezuela, é fechar grandes contratos de compra de petróleo com entrega durante anos, mas pagamento antecipado. O dinheiro se volta justamente para obras executadas por empreiteiras chinesas.

Os gráficos abaixo nos dão uma ideia da posição relativa entre Brasil e China na América Latina em termos de serviços de engenharia (clique na imagem para ampliá-la):






É ilusão pretender superar a experiência e a inteligência milenares chinesas em negociações bi e multilaterais, mas o Brasil regrediu tremendamente nos últimos 12 anos nessas áreas e em política externa em termos gerais. E é sempre bom não esquecer que um contencioso com uma estatal chinesa é, em última análise, um contencioso com o Estado chinês. ]