terça-feira, 5 de março de 2013

Empresas brasileiras reveem seus negócios na Argentina

Os principais investimentos empresariais brasileiros na Argentina estão em xeque e a agenda do setor privado deverá predominar durante o encontro entre a presidente Dilma Rousseff e a presidente argentina, Cristina Kirchner, em Calafate, na quinta-feira. No encontro, elas devem fazer anúncios para destravar investimentos. A pauta da reunião foi discutida ontem em Buenos Aires pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Fernando Pimentel, e a cúpula da equipe econômica argentina.

As empresas brasileiras estão revendo os investimentos em função de resultados globais decepcionantes em 2012 e do mau momento econômico da Argentina, marcado por desaquecimento do consumo, defasagem cambial, dificuldades para remessas de dividendos e desaceleração de obras públicas.

A Vale toca em Malargue, na província de Mendoza, o maior empreendimento privado do país, da ordem de US$ 5 bilhões. A obra envolve a extração de potássio na região do rio Colorado, a construção de uma ligação ferroviária e um terminal marítimo. Desde dezembro, as obras estão suspensas. Oficialmente, a empresa alega que o orçamento do projeto precisa ser revisto em função do aumento de custos. A paralisação afeta as brasileiras Odebrecht, Camargo Correa e Andrade Gutierrez, subcontratadas para as diversas etapas do projeto, e levou pânico aos pequenos fornecedores argentinos.

Como no caso da Vale, também depende do avanço das negociações entre os dois governos a conquista de novos contratos na Argentina pela Odebrecht. A empresa brasileira está associada à francesa Alstom e à argentina Impsa na licitação de duas usinas hidrelétricas em Santa Cruz, a "Presidente Nestor Kirchner" e a "Governador Jorge Cepernic". Trata-se de uma obra de US$ 4,9 bilhões, que já havia sido licitada anteriormente, em uma concorrência ganha pela brasileira Camargo Correa, em parceria com a Impsa. No ano passado, Cristina anulou o processo em razão da situação fiscal argentina: agora o governo quer que o vencedor arque com financiamento próprio 50% dos custos. No modelo anterior, eram 12%.

A Odebrecht também aguarda que o governo argentino encontre financiamento para as obras que tornarão subterrânea a passagem da linha férrea Sarmiento por Buenos Aires. A obra, que resolveria um dos grandes gargalos logísticos do país, já que a linha férrea corta áreas densamente povoadas da capital, envolve US$ 1,3 bilhão. A Odebrecht participa do consórcio para a obra com 25%, mas a falta de recursos travou os trabalhos.

Uma disputa paroquial entre Cristina e o prefeito de Buenos Aires, o oposicionista Mauricio Macri, também barra um contrato de US$ 180 milhões ganho pela filial brasileira da Alstom. A empresa deverá fornecer 120 vagões metroviários para a nova linha H do metrô da capital argentina, mas para financiar 85% da aquisição Macri depende do aval do Banco Central da Argentina, que não sai. O financiamento também seria do BNDES.

A conjuntura econômica argentina também tem prejudicado o grupo Camargo Corrêa. Além de subcontratado da Vale para a construção da linha férrea no projeto mineral de extração de potássio, a holding controla a cimenteira Loma Negra, que é um termômetro da atividade no país. No último balanço divulgado, em novembro, a Loma Negra havia registrado uma queda de 4,4 milhões de toneladas de cimento para 4,2 milhões de toneladas, nos nove primeiros meses do ano passado, em comparação com o mesmo período no ano anterior. A atividade de construção civil caiu 3,2% na Argentina ao longo de 2012, segundo dados oficiais.

O momento difícil para as empresas brasileiras na Argentina nem sempre está relacionado com circunstâncias internas. A Petrobras Argentina está em um processo de encolhimento em razão da decisão estratégica da empresa de se desfazer de US$ 14,8 bilhões em ativos no exterior, como forma de capitalizar-se para investimentos no pré-sal. Os rumores sobre a transação fizeram com que a empresa enviasse na semana passada um fato relevante para a Bolsa de Buenos Aires, em que afirma que as negociações transcorrem "sob cláusula de confidencialidade" e que ainda não havia um compromisso de compra e venda.







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