sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O latim na nossa vida (VIII) (S a V)

Ver postagem anterior. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.

Salus populi suprema lex esto -- "Que o bem-estar do povo seja a lei suprema". Máxima de Direito, constante da Lei das XII Tábuas (Cícero, Das Leis, III, 9).

Sanctum sanctorum -- "O santo dos santos". Equivalente latino do nome que os judeus davam à parte íntima do templo; emprega-se pra designar um lugar interditado aos profanos. "Bem-vindos, meus amigos! Estamos talvez mais à vontade no meu quarto de estudo! Por aqui! Há um degrau, cuidado! Eis o meu Sanctum Sanctorum!" Eça de Queiroz, O Primo Basílio, cap. VIII.

Sapienti sat! -- "Ao sábio, basta!", isto é, "A bom entendedor meia palavra basta"(Terêncio, Formião, III, 3, 8). 

Scribendi nullus finis -- "O escrever não tem fim", "Nunca falta o que escrever". Epígrafe do Quarto Livro das Fábulas de Fedro. Divisa da Academia Mineira de Letras. 

Secreto amicos admone, lauda palam -- "Admoesta os amigos em segredo, louva-os publicamente"(das Sentenças de Publílio Siro).

Secundo -- "Em segundo lugar".

Semper eadem -- "Sempre a mesma". Divisa da rainha Isabel, da Inglaterra.

Semper idem -- "Sempre o mesmo". 

Senatores boni viri, senatus autem mala bestia -- "Os senadores são boas pessoas, mas o Senado é uma fera má". Provérbio. 

Senatus Populusque Romanus -- "O Senado é o povo de Roma". Abreviatura: S.P.Q.R.. letras constantes dos estandartes romanos. [E em inúmeros monumentos antigos de Roma.]

Servatis servandis -- "Conservando o que deve ser conservado".

Sic -- "Assim". Palavra que se pospõe entre parênteses a uma citação para indicar que, por errado ou estranho que pareça, o texto original é bem assim mesmo.

Sic transit gloria mundi -- "Assim passa a glória deste mundo". Palavras tiradas da Imitação de Jesus Cristo (I, 3) que é costume pronunciar três vezes na cerimônia da posse dos papas recém-eleitos, para lembrar-lhes a vaidade das pompas deste mundo.

Si duo faciunt idem, non idem -- "Se dois fazem uma mesma coisa, não é a mesma coisa". Provérbio.

Si fecisti, nega -- "Se fizeste (isto é: se cometeste o crime de que te acusam), nega". Resumo irônico do costume que têm os malfeitores de negar os seus crimes.

Si fueris Romæ, Romano vivito more; si fueris alibi, vivito sicut ibi -- "Se estiveres em Roma, vive como romano; se alhures, vive como lá se vive". Variante: Cum fueris Romæ ... (Santo Ambrósio, Conselho a Santo Agostinho). [É o popular "Em Roma, faça como os romanos".]

Similia similibus curantur -- "Os semelhantes curam-se pelos semelhantes". Lema da escola homeopática, enunciado por Samuel Hahnemann no Organon da Medicina (1810). [Christian Friedrich Samuel Hahnemann (Meissen, Saxônia, 10 de Abril de 1755 - Paris, 2 de julho de 1843) foi o fundador da homeopatia em 1779.]

Sine cura -- "Sem preocupação". Aportuguesado em sinecura, no sentido de "emprego que (quase) não obriga a trabalho"; "prebenda".

Sine die -- "Sem dia marcado", isto é, sem fixar nova data.

Sine ira et studio -- "Sem cólera nem parcialidade". Era assim que Tácito se propunha a escrever a História, segundo declara no começo dos Anais.

Sine qua non -- Ver Conditio sine qua non.

Sinite parvulos venire ad me -- "Deixai vir a mim os pequeninos". Palavras de Jesus aos discípulos quando eles tentavam impedir que trouxessem crianças à sua presença (Evangelho de São Marcos, 10, 14, na tradução da Vulgata). 

Sint ut sunt, aut non sint -- "Sejam o que são, ou não sejam", isto é, "deixem de existir". Resposta intransigente do Padre Lorenzo Ricci, geral dos jesuítas, que ele haveria dado ao Papa Clemente XIV, que lhe pedira uma reforma dos estatutos da Companhia de Jesus; teria sido a causa da supressão desta, em 1773. [A Supressão dos Jesuítas em Portugal, na França, nas Duas Sicílias, em Parma e no Império Espanhol em 1767 foi resultado de uma série de movimentos políticos, em vez de uma controvérsia teológica.  No breve papal Dominus ac Redemptor (21 de julho de 1773) , o Papa Clemente XIV, incitado por Carlos III (Rei da Espanha) , suprimiu a Companhia de Jesus. No entanto, em países não-católicos, principalmente na Prússia e na Rússia, onde a autoridade papal não era reconhecida, a ordem foi ignorada. O grupo erudito jesuíta Companhia dos Bolandistas mudou de Bruxelas para Antuérpia, onde continuou seu trabalho no mosteiro de Coudenberg; em 1788, a Sociedade Bolandista foi suprimida pelo governo austríaco dos Países Baixos.]

Si tacuisses philosophus mansisses -- "Se tivesses ficado calado, terias continuado filósofo". Palavras de Boécio (Consolação da Filosofia, Livro II, 17), citadas para dizer que o interlocutor perdeu uma boa ocasião de calar-se. [Anício Mânlio Torquato Severino Boécio (em latim: Anicius Manlius Torquatus Severinus Boethius, Roma, ca. 480 — Pavia, 524 ou 525), mais conhecido simplesmente por Boécio, foi um filósofo, estadista e teólogo romano que se notabilizou pela sua tradução e comentário do Isagoge de Porfírio, obra que se transformou num dos textos mais influentes da Filosofia medieval europeia. Traduziu, comentou ou resumiu, entre outras obras dos clássicos gregos, para além do Isagoge de Porfírio e do Organon de Aristóteles, vários tratados sobre matemática, lógica e teologia. Notabilizou-se também como um dos teóricos da música da antiguidade clássica greco-latina, escrevendo a obra De institutione musica, também aparentemente com base em antigos escritos gregos. Sendo senador de Roma, no ano de 510 foi nomeado cônsul e em 520 foi elevado a chefe do governo e dos serviços da corte pelo rei ostrogodo Teodorico, o Grande. Pouco depois, devido a desacordos políticos e por ter apoiado um senador apontado pelo rei como traidor, foi ele próprio acusado de traição a favor do Império Bizantino e de magia, sendo subsequentemente torturado, condenado à morte e executado. Enquanto aguardava sob prisão a execução, escreveu De Consolatione Philosophiae (Do Consolo pela Filosofia), obra que versa, entre outros temas, o conceito de eternidade e na qual tenta demonstrar que a procura da sabedoria e do amor de Deus é a verdadeira fonte da felicidade humana. Membro de uma família ligada ao então nascente cristianismo, é considerado pela Igreja Católica Romana, pelo seu contributo para a teologia cristã e pelos serviços que prestou aos cristãos, um mártir e um dos Padres da Igreja.]

Sit venia verbo -- "Desculpe a expressão", "Com perdão da palavra".

Si vis amari, ama -- "Se quiseres ser amado, ama"(Sêneca, O Filósofo, Epístola IX, 6).

Si vis pacem, para bellum -- "Se queres a paz, prepara-te para a guerra". Ditado baseado numa frase de Vegécio (séc. IV d.C.): Qui desiderat pacem, praeparet bellum, "Quem deseja a paz, prepare a guerra" (Tratado de Arte Militar, III, Prólogo). [Públio Flávio Vegécio Renato (em latim: Publius Flavius Vegetius Renatus), Vegécio, foi um escritor do Império Romano do século IV. Apenas se conhece da sua biografia a breve informação que relata ele próprio. Vegécio não se identifica como militar, mas como "vir illustris comes" (homem ilustre e conde) termos que, no latim da época, assinalam-no como um personagem próximo do imperador de Roma. O cognome Renato sugestiona que abraçou o cristianismo na idade adulta. Apenas são conhecidas datas da sua vida, salvo pelas referências históricas da sua própria obra: no seu "Epitoma rei militaris" alude ao imperador Graciano como deificado, o que situa a obra como posterior à morte deste em 383; uma anotação de Flávio Eutrópio, um escreva de Constantinopla, sobre um dos seus manuscritos já publicados, remonta a 450. Vegécio dedicou as suas obras ao imperador reinante na época, mas não especifica quem era este exatamente; uns estudiosos sugestionam que Teodósio I, a hipótese mais provável, e outros que Valentiniano III.]

Sol lucet omnibus -- "O sol brilha para todos", "O sol nasceu para todos". Todos têm de gozar de oportunidades iguais.

Sponte sua -- "Por iniciativa própria".

Stricto sensu -- "Em sentido restrito". Antônimo: lato sensu.

Stultorum infinitus est numerus -- "É infinito o número de tolos" (Ecclesiastes, I, 15, na tradução da Vulgata).

Suæ quisque fortunæ faber est -- "Cada qual é obreiro de sua fortuna". Provérbio.

Sub judice -- "Em julgamento", isto é, "Sob apreciação do juiz".

Sui generis -- "De seu próprio gênero". Diz-se de pessoa ou coisa peculiar, que não apresenta semelhança com ninguém ou nada.

Summa cum laude -- "Com máximo louvor". Grau nos exames de doutoramento.

Superavit -- "(O que) sobrou". Em geral designa a diferença a mais entre a receita e a despesa. Já aportuguesada em superávit. Antônimo: déficit.

Supra -- "Acima". Termo de Bibliografia para indicar trecho da mesma página, mais acima, ou de páginas anteriores. Ver: Infra.

Sursum corda -- "Ao alto os corações". Palavras da missa que precedem a elevação. Citadas como exortação a sentimentos elevados.

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Tabula rasa -- "Tabuinha lisa", "Tábua rasa". Em Filosofia, no empirismo mais radical, estado de indeterminação completa, de vazio total, que caracteriza a mente antes de qualquer experiência.

Tantæne animis cælestibus iræ! -- "Tanto pode caber de ira no coração dos deuses!" Palavras de Virgílio ao comentar a cólera de Juno, inimiga dos troianos (Eneida, Livro I, 11). 

Tarde venientibus ossa -- "Aos que chegam tarde (à mesa, dão-se) os ossos". Provérbio.

Tertio -- "Em terceiro lugar".

Timidus vocat se cautum, avarus parcum -- "O tímido se diz precavido, o avarento parcimonioso" (das Sentenças de Publílio Siro).

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Ubi bene, ibi patria -- "Onde (me sinto) bem, minha pátria é aí". Ditado baseado num trecho de Cícero (Discussões Tusculanas, V, 37); lema do cosmopolitismo.

Ultima ratio regum -- "O último argumento dos reis". Lema inscrito nos canhões de Luís XV, da França, que a Assembleia Nacional mandou apagar em 1796.

Una hirundo non efficit ver -- "Uma andorinha não faz primavera", "Uma andorinha não faz verão". Provérbio (Erasmo, Adágios).

Urbi et orbi -- "À Urbe (= Roma) e ao mundo". Palavras da bênção do Soberano Pontífice, para indicar que ela se estende a todo o universo.

Uti, non abuti -- "Usar, não abusar". 

Uti possedetis -- "Como possuis (agora)". Expressão diplomática usada em tratados de paz; o oposto de In statu quo. [i) Em Direito Internacional, a doutrina segundo a qual as fronteiras administrativas tornar-se-ão fronteiras internacionais quando uma subdivisão política ou colônia adquire independência. - ii) No Direito Romano, um interdito determinando a cada parte em processo legal que mantenha a posse de um bem imóvel como estiver, pendente de uma decisão oficial sobre quem tem a posse da propriedade. - iii) A doutrina pela qual propriedade pessoal capturada em tempo de guerra e ainda retida pelo capturador tornar-se-á propriedade legal deste quando a guerra terminar. (Garner, Black's Law Dictionary, West Thompson Reuters, 2009).]

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Vade mecum -- "Vem comigo". Nome que se dá a livrinho portátil de conteúdo prático. Existe a forma aportuguesada vademécum. O primeiro livro que ostentava esse título era o Vade mecum sive epigrammatum novorum centuriæ duæ ("V.m. ou duas centenas de novos epigramas") de Johann Peter Lotichius (1625).

Vade retro! -- "Sai da minha frente!"ou "retira-te!". Palavras com que Jesus repele São Pedro quando este o censura por anunciar a própria condenação e morte (São Marcos, 8, 33, na tradução da Vulgata).

Vade Satana! -- "Vai-te, Satanás". Palavras de Jesus ao Diabo (São Mateus, 4, 10, na tradução da Vulgata).

Væ victis! -- "Ai dos vencidos!". Palavras de Breno, general gaulês (Tito Lívio, História Romana, V. 48, 9), pronunciadas em 390 a.C. em Roma, ao atirar a espada no prato da balança em que estavam os pesos com que se devia pesar o ouro do resgate dos romanos, e que eram falsos, tendo estes protestado contra o abuso. Citam-se para lembrar que o vencido está à mercê do vencedor.Título de um soneto pessimista de Raimundo Correia (em que o vencedor é Deus e o vencido o homem).

Veni, vidi, vinci -- "Vim, vi, venci". Palavras com que Júlio César anunciou em carta a um amigo a sua vitória sobre Fárnaces, em Zela, no Ponto (em 2 de agosto de 47 a.C.), citadas, entre outras, por Suetônio (Vida de Júlio César, 37). [Fárnaces II do Ponto (em língua grega antiga: Φαρνάκης) (97 a.C. — 47 a.C.) era filho bastardo de Mitrídates VI do Ponto Eupator, a quem sucedeu na chefia do Reino do Ponto. Graças às campanhas que levou a cabo junto com seu pai contra a República Romana, conseguiu grandes conhecimentos sobre as legiões (Quinto Sertório enviou um grupo de centuriões para treinar as tropas do Ponto como as legiões de Roma). Em 63 a.C., Fárnaces mata seu próprio pai, Mitrídates VI do Ponto,  e recebe, como prêmio, o reino do Bósforo. Pactuou com Roma a paz, para reorganizar os seus exércitos, mas rompeu-a em 47 a.C.. Foi derrotado na Batalha de Zela por Júlio César, que reuniu as suas tropas entre as guarnições das províncias asiáticas que Roma detinha.]

Verbatim -- "Palavra por palavra". O mesmo que ipsis litteris.

Verba volant, scripta manent -- "As palavras voam, a escrita fica". Provérbio.

Verbi gratia -- "Por exemplo". 

Versus -- "Contra".

Veto -- "Proíbo", "impeço". Usado como substantivo, significa "veto", "proibição", "protesto".

Via crucis -- "O caminho da cruz". [ É o trajeto seguido por Jesus carregando a cruz, que vai do Pretório até o Calvário. O exercício da via-sacra, como também é chamada, consiste em que os fiéis percorram, mentalmente, a caminhada de Jesus a carregar a Cruz desde o Pretório de Pilatos até o monte Calvário, meditando simultaneamente à Paixão de Cristo.]

Via crucis, via lucis -- "O caminho da cruz (é) o caminho da luz". Ditado medieval.

Vice versa -- "Em sentido oposto", "ao contrário"ou "reciprocamente". Aportuguesado, escreve-se vice-versa.

Vinces scis, Annibal, victoria uti nescis -- "Sabes vencer, Aníbal; o que não sabes é aproveitar a vitória". Palavras de Maharbal, capitão de Aníbal, a este, após a grande vitória alcançada em Canes sobre os romanos em 216 a.C. Em vez de perseguir os vencidos, como lhe aconselhara Maharbal, o general concedeu descanso a seus soldados; foi essa demora que salvou Roma e o seu império, na opinião de Tito Lívio, que relata o episódio (História Romana, Livro XXIII).

Vixit -- "Viveu", isto é, "Está morto, "Já não vive". Eufemismo usado pelos romanos paraq anunciar a morte de alguém.

Vox clamantis in deserto -- "A voz daquele que clama no deserto" (S. João 1,23, na tradução da Vulgata). Cita-se em relação a pessoa cuja pregação não é ouvida. [Usa-se hoje "pregar no deserto", com idêntico sentido.]

Vox populi, vox Dei -- "Voz do povo, voz de Deus". (Alevino, Epístola a Carlos Magno).

Vulgo -- "Comumente". Aportuguesado, usa-se também como substantivo, no sentido de "povo, "ralé".



terça-feira, 13 de outubro de 2015

A oposição que o PSDB faz é uma vergonha e uma afronta ao país

Nos meus 77 anos de vida nunca vi nada igual no país. Nunca vi no poder tamanha conjunção de tantas mentiras, safadezas, fisiologismo, hipocrisia, cinismo e corrupção deslavados. Nunca vi tantos milhões de votos desperdiçados, jogados no lixo, como os dados ao PT nos últimos 13 anos. Nunca vi um partido apodrecer tão rápida e inequivocamente como o PT. 

E também nunca vi uma oposição tão perdida, tão incompetente, tão medrosa (especialmente nos governos do Lula NPA, o Nosso Pinóquio Acrobata), tão desfibrada, tão sem ética e tão contraditória como a liderada pelo PSDB sob a batuta de Aécio Neves. Num momento tão visceral para nossa democracia, como nos caóticos (des)governos de Dilma NPS (Nosso Pinóquio de Saia), em que se fazem essenciais e indispensáveis ponderação, equilíbrio, apego irrestrito à ética, respeito ao País e uma oposição combativa, decente e ética, o que se vê é um PSDB oportunista, fisiologista, olhando o próprio umbigo e apegado exclusivamente aos seus interesses -- o Brasil ficou em plano secundário. O conluio que o partido fez com o Eduardo Cunha no sentido de poupá-lo e preservá-lo politicamente na presidência na Câmara, contanto que ele liberasse os pedidos de impeachment de Dilma NPS trancados na Casa é absolutamente repugnante e inaceitável. O PSDB só desceu desse muro quando as notícias vindas da Suíça tornaram a situação de Cunha insustentável.

Obcecado com a deposição de Dilma NPS, porque vislumbra nisto uma oportunidade de chegar ao poder num "terceiro turno", o PSDB está apostando freneticamente na política do "quanto pior, melhor" e empenha suas energias em debilitar ainda nossa moribunda economia, apoiando medidas que agravam as contas do país. Seu apoio vital à derrubada do fator previdenciário, uma iniciativa mais do que meritória do próprio PSDB no governo de Fernando Henrique Cardoso para inibir aposentadorias precoces, foi mais uma demonstração acachapante de que o partido quer o poder a qualquer preço, que se dane o país.

Roberto Pompeu de Toledo fez na Veja que está nas bancas um artigo definitivo ("Três heróis") sobre a degradação ética do PSDB nos governos da ex-guerrilheira. A revista Veja tem o péssimo e antidemocrático hábito de não disponibilizar imediatamente na internet o que publica na sua edição impressa, só o faz tempos depois.

Pompeu de Toledo começa dizendo que "O PSDB já foi partido de ricos quadros e boas bancadas. Hoje tem heróis solitários. Os antigos ensinam que celebrar heróis edifica os povos. Na moderna imprensa, à prática de desancar vilões atribui-se valor infinitamente maior do que à de celebrar heróis. Esta coluna vai hoje trocar o moderno pelo antigo e celebrar três heróis do que ainda resta de dignidade no PSDB". 

O colunista então relaciona e qualifica os três heróis do PSDB que ainda presta (estes termos são meus e não do colunista):

☛ Alberto Goldman, 78 anos, ex- deputado, aguerrido opositor da ditadura militar, vice-governador de São Paulo sob José Serra e governador quando lhe incumbiu completar o mandato do titular. Goldman insurgiu-se na semana passada contra o apoio do PSDB ao deputado Eduardo Cunha. Declarou ele ao jornal O Globo: "Quando os meninos veem um filme de terror e sabem que alguém vai morrer, dizem: "Fulano é carne morta". Cunha é carne morta. Tomara que leve consigo alguns pesos que serão bem levados". Antes, Goldman já havia criticado seu partido pelo apoio à derrubada do chamado fator previdenciário, invenção do governo Fernando Henrique para inibir as aposentadorias precoces. 

☛ Arnaldo Madeira, 75 anos, fundador do PSDB, ex-vereador de São Paulo, ex-deputado federal e coordenador do programa de Aécio Neves na campanha presidencial do ano passado. Madeira critica o apoio de seu partido à derrubada do fator previdenciário  e ao fim da reeleição, duas medidas instituídas durante o governo Fernando Henrique. Disse ele ao colunistaBernardo Mello Franco, da Folha de S. Paulo: "Está difícil entender o partido. Em vez de defender conceitos, estamos fazendo uma oposição igual à que o PT nos fazia. Só falta o PSDB votar contra a Lei de Responsabilidade Fiscal". 

☛ Samuel Moreira, 52 anos, mineiro criado em São Paulo, ex-prefeito de Registro (SP), ex-deputado estadual, eleito deputado federal pela primeira vez no ano passado. Moreira é um estranho no nosso panteão. Ao contrário dos dois anteriores, figuras históricas do tucanato, era até duas semanas atrás um obscuro estreante na política federal. Conquistou a posição, com louvor, por ser o único, entre os 54 integrantes da bancada do PSDB na Câmara Federal, a votar pela manutenção do fator previdenciário, na votação dos vetos presidenciais do dia 23 de setembro. "Criar mais despesas para a Previdência não é prudente para o momento que o país está vivendo, com os cofres públicos dilapidados", disse ele.

Pompeu de Toledo acrescenta: "Nossa trinca de heróis prova, coisa rara, nestes dias, na cena política, que há ainda gente capaz de de pôr os valores acima das manobras oportunistas. O contraste com relação à infeliz bancada tucana na Câmara, regida pelo deputado Carlos Sampaio, segundo pauta do senador Aécio Neves, eleva-os e dignifica-os. Olíder Carlos Sampaio fez de sua gente dóceis carneirinhos a serviço do enrolado Eduardo Cunha. Na semana passada vacilou, diante da evidência das contas suíças em nome do presidente da Câmara, mas ainda assim disse que Cunha merecia o "benefício da dúvida" e deveria continuar na presidência da Câmara. Entre os deputados de sete partidos que na quarta-feira se mobilizaram para abrir processo de quebra de decoro contra Cunha, havia até um do PMDB, o pernambucano Jarbas Vasconcelos -- outro herói solitário. Do PSDB, nenhum".

Pompeu de Toledo lembra ainda que "nas frustradas tentativas do Congresso, também na semana passada, de votar os vetos presidenciais à chamada "pauta-bomba", o PSDB integrou alegremente a maioria que se recusou a dar quórum para a realização das sessões. Houve tucano que aproveitou para adiantar que, caso houvesse a sessão, votaria pela derrubada dos vetos".

Daqui para baixo o que está escrito não é de Pompeu Toledo, é de minha responsabilidade. O momento político se agrava enormemente, e com ele a situação econômica do país, porque estamos entregues a políticos desfibrados, oportunistas e de péssimo caráter, tanto na situação quanto no PSDB. O Palácio do Planalto ampliou o balcão de negócios escusos com partidos e políticos, tentando comprar com cargos (e, portanto, dinheiro) os votos dos inúmeros deputados e partidos que se prestam e até mesmo exigem esse tipo de barganha e chantagem. É de importância vital para o país uma oposição séria, honesta, decente, combativa e ética, infelizmente o oposto do que o PSDB vem fazendo. 

domingo, 11 de outubro de 2015

Depois de mais assassinatos em massa nos EUA, Obama cogita seriamente de ampliar o controle de antecedentes no comércio de armas

[Com novos assassinatos em massa nos EUA, agora nas universidades de Arizona e Texas, Obama cogita seriamente de, usando seus poderes como presidente, estabelecer sem a intervenção do Congresso um controle mais amplo de antecedentes no comércio de armas no país. A reportagem traduzida abaixo, de autoria de Juliet Eilperin, foi publicada no jornal The Washington Post em 08/10. O artigo mostra claramente a enorme dificuldade que cerca qualquer iniciativa de se impor um controle de armas nos EUA. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.]

Em resposta ao mais recente assassinato em massa em sua administração, o presidente Barak Obama está cogitando seriamente de, usando o poder executivo que lhe cabe, evitar a intervenção do Congresso e impor novas exigências de controle de antecedentes de compradores que adquirem armas de comerciantes de armas que vendem grandes volumes de armas. 

Com a proposta modificação, vendedores que excedessem certo número de vendas por ano teriam a exigência de obter uma licença do Birô de Álcool, Fumo, Armas de Fogos e Explosivos (ATF,na sigla em inglês), e efetuar a verificação de antecedentes de compradores potenciais. 

Com o presidente Obama dirigindo-se para Roseburg, Oregon, na sexta-feira (09/10), para confortar os sobreviventes e os familiares dos mortos no assassinato em massa da semana passada no Colégio Comunitário Umpqua, o cálculo político sobre seu tema doméstico mais incômodo e irritante desloca-se mais uma vez. 

Após o tiroteio de 14 de dezembro de 2012 na Escola Elementar Sandy Hook em Newtown, Connecticut, que ceifou as vidas de 20 estudantes e de 6 empregados administrativos, Obama solicitou ao vice-presidente Biden que em resposta ao ocorrido elaborasse uma lista de propostas de política sobre o tema. Em 26 de janeiro de 2013 o presidente anunciou 23 ações executivas, variando desde o recomeço de uma pesquisa federal sobre as causas da violência com armas de fogo até a provisão de paridade para cobertura de saúde mental em planos de seguro privados. Obama pressionou para a criação de uma legislação que fixasse como mandatórios os controles universais de antecedentes no comércio de armas de fogo, uma tentativa que fracassou no Senado em abril de 2013. Em agosto do mesmo ano, Obama eliminou duas brechas na legislação desse comércio usando sua autoridade executiva, sujeitando a compra de armas por corporações e administradores de bens a controles de antecedentes e banindo quase todas as reimportações de excedentes militares de armas de fogo para entidades privadas. 

No rastro da tragédia da semana passada, Obama disse que solicitou à sua equipe que "vasculhasse que tipos de autoridade temos para aplicar de modo mais efetivo e eficiente as leis que existem à disposição, para manter as armas de fogo fora do alcance de criminosos". 

"Estamos esperançosos de que encontraremos um jeito de fazer isso", disse um funcionário sênior da administração, que registrou que advogados ainda trabalhavam em detalhes para garantir que a regra fosse julgada legalmente aceitável. "Hoje está muito mais claro do que há um ano atrás como fazer isso funcionar". 

Nove dias antes de um atirador abrir fogo no campus do Colégio Comunitário Umpqua, a ex-congressista Gabrielle Giffords (democrata do Arizona) e seu marido Mark Kelly estiveram na Casa Branca para reiterar uma solicitação de longa data no sentido de que os comerciantes privados que vendem um número considerável de armas de fogo façam uma verificação dos antecedentes de seus compradores.  A mudança de regra proposta esclareceria o que significa "estar engajado no negócio" de venda de armas de fogo. 

Em uma reunião com Valerie Jarrett, assessora sênior de Obama, Giffords e Kelly, que se tornaram ativistas do controle de armas depois que ela foi seriamente ferida num assassinato em massa em 2011, estavam pressionando por uma mudança regulatória de que funcionários da administração cogitaram -- e depois arquivaram -- há quase dois anos atrás. 

A ação executiva proposta visa impor controles de antecedentes de indivíduos que compram [armas de fogo] de comerciantes que vendem um número significativo de armas a cada ano. O estatuto federal vigente determina que aqueles que estão "engajados no negócio" de venda de armas de fogo necessitam obter uma licença -- e, por conseguinte, efetuar controle de antecedentes -- mas isenta disso qualquer um que "faça ocasionalmente vendas, trocas ou compras de armas de fogo para melhorar uma coleção pessoal ou como um hobby, ou que venda a totalidade ou parte de sua coleção pessoal de armas de fogo". 

Funcionários da Casa Branca minutaram a proposta no final de 2013, para ser aplicada àqueles comerciantes que vendem pelo menos 50 armas de fogo por ano, depois do Congresso ter rejeitado uma legislação que teria expandido controles de antecedentes mais amplamente para comerciantes privados. Embora o Escritório de Assessoria Legal da Casa Branca e o então Procurador-Geral Eric H. Holder Jr tivessem inicialmente concluído que a regulamentação era legalmente defensável, alguns advogados federais permaneciam preocupados com a fixação arbitrária de um limite numérico, o que para eles deixaria a regra vulnerável a uma contestação.

Além disso, autoridades do ATF objetaram que seria difícil aplicar a regra e que não estava claro quantos vendedores seriam afetados pela mudança. "Todo mundo percebeu que isso seria enormemente controvertido em termos políticos", comentou um funcionário son condição de anonimato. 

Na segunda-feira, a candidata presidencial Hillary Clinton listou como uma de sua principais propostas para abordar a violência armada a ideia de mudar a definição de quem se qualifica como um comerciante de armas de fogo. 

Os auxiliares de Biden que trabalharam mais intensamente na proposta de controles de antecedentes de 2013 já deixaram a administração Obama desde então, mas ela tem ressurgido periodicamente: o presidente discutiu a ideia com a Procuradora-Geral Loretta E. Lynch numa reunião no Salão Oval em 9 de julho, disseram auxiliares de Obama, três semanas depois que nove paroquianos afro-americanos foram mortos a tiros em Charleston, Carolina do Sul. Agora, de acordo com autoridades administrativas, um grupo de participantes da equipe da Ala Ocidental (West Wing) da Casa Branca está trabalhando em sintonia nessa e em outras possíveis ações executivas [a Ala Ocidental (West Wing) da Casa Branca, também conhecida como o Edifício Executivo, abriga os gabinetes do presidente dos EUA, o Salão Oval, a sala do Gabinete, a Sala da Situação (administrada pelo Conselho Nacional de Segurança para uso do presidente dos EUA), e o Salão Roosevelt].

Pia Carusone, uma assessora sênior na Americanos por Soluções Responsáveis (ARS, na sigla em inglês), o grupo fundado por Giffords e Kelly, declinou de discutir detalhes referentes a reuniões privativas na Casa Branca. "Ao longo dos últimos poucos anos, Gabby, Mark e a equipe da ARS se reuniram com várias autoridades administrativas para discutir como podemos trabalhar juntos para abordar o problema da violência com armas de fogo nos EUA", disse Carusone  por e-mail. "Muitas soluções potenciais têm sido discutidas em conversas que incluíram o presidente, o vice-presidente e  suas equipes".  

Arkadi Gerney, vice-presidente sênior da usina de ideias (think tank) liberal Centro para o Progresso Americano, disse que tornar mais limitada a definição de que é "engajado no negócio" é "um passo cheio de significado mas modesto na direção do objetivo de assegurar que todas as vendas de armas de fogo incluam um controle de antecedentes". 

A porta-voz da Associação Nacional do Rifle, Jennifer Baker, ao contrário, disse que qualquer mudança era desnecessária e poderia "apanhar" pessoas não previstas de serem cobertas pela legislação, como no caso de uma viúva vendendo a coleção de armas de seu finado marido. "Pessoas que repetidamente vendem grandes volumes de armas de fogo já estão cobertas pelo estatuto vigente, porque já estão definidas como "engajadas no negócio", disse ela.

Alguns ativistas, incluindo os do grupo organizador Fundação de Áreas Industriais Metropolitanas, dizem que Obama poderia ser muito mais corajoso com a autoridade executiva que possui. Na quinta-feira o grupo, que está pressionando o presidente para usar mais intensamente o poder de compra do governo federal junto aos fabricantes de armas de fogo, fez um comício na Praça Lafayette para demandar de Obama que convoque os líderes dessa indústria e insista para que desenvolvam uma tecnologia mais segura e sejam mais rigorosos nas restrições às lojas que vendem um número desproporcional de armas de fogo usadas em crimes. 

"Viajamos até aqui, atravessando todo o país, para desafiá-lo a parar de se lamentar sobre o poder que o Sr. não tem e começar a agir com o poder que o Sr. efetivamente possui", disse o bispo Douglas Miles, que pertence à equipe de liderança do grupo e atua como pastor naIgreja Batista Koinonia, em Baltimore. 

Na semana passada Obama disse que "isto é algo que deveríamos politizar"e que cada americano tinha que "por um momento ser um eleitor de apenas um tema", quando se tratasse de tornar mais restritivas as leis de controle de armas de fogo. 

Ativistas do controle de armas fizeram um significativo avanço no nível estadual desde o assassinato em Newtown. No ano passado, eles venceram em disputas sobre controle de antecedentes no estado de Washington e no Oregon; leis sobre carregar armas escondidas sem permissão foram implantadas em três estados e derrotadas em 15. De acordo com o Centro Legislativo para Prevenir a Violência com Armas de Fogo, 55% das leis implementadas até agora este ano afrouxaram as restrições em vez de torná-las mais rígidas, e muitas foram bastante insignificantes. Por outro lado, 72% de todas as leis sobre armas de fogo implementadas em 2012 afrouxaram as restrições. 

"O lobby das armas fez um bom trabalho para atar as mãos de Washington, DC", disse John Feinblatt, presidente do grupo de advocacia Everytown. "Ele não pode tolher as pessoas e, na realidade, não pode tolher as legislaturas estaduais". 

Enquanto as pesquisas de opinião mostram que entre 85% e 92% dos americanos apoiam a expansão dos controles de antecedentes, o tema mais amplo do direito ao porte de armas permanece fortemente emocional. Em Roseburg, onde muitos têm se atritado com as políticas da administração relativas a armas de fogo, opiniões permanecem fortemente divididas sobre até se Obama deveria até ir à cidade apresentar suas condolências aos familiares das vítimas.

"Metade das pessoas em Roseburg diz que isso [sua vinda] é maravilhoso, a outra metade diz que Obama não deveria aparecer por lá", disse Earl Skonberg, um proprietário de armas local que se dedica ao tiro como modalidade esportiva. [Ver "Grupo protesta contra visita de Obama a local de massacre no Oregon".]


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O latim na nossa vida (VII) (Q a R)

Ver postagem anterior. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.

Qualis artifex pereo! -- "Que artista morre comigo!". Segundo Suetônio, últimas palavras do imperador Nero antes de seu suicídio (Vida de Nero, XLIX).

Qualis vita, finis ita -- "Tal vida, tal morte". 

Quid -- "O ponto difícil", "o busílis". Em latim, pronome interrogativo cujo sentido é "quê"? "O peru de agora era uma ave qualquer, mas o toque literário da receita lhe imprimia o quid desejado". Carlos Drummond de Andrade, "Peru", Fala, Amendoeira.

Quid pro quo -- "Uma coisa pela outra", "confusão". Aportuguesado em quiproquó.

Quieta non movere -- "Não mexer no que está quieto". Variante popular nossa: "Deixa como está, para ver como é que fica". Locução frequentemente citada, entre outros, por Bismarck, em seu discurso de 14 de abril de 1891. De proveniência ignorada sob essa forma, assemelha-se mais a um trecho de Salústio (Catilina 21, 1): quieta movere magna merces videbatur, "parecia de  grande vantagem mexer no que estava sossegado". [Caio Salústio Crispo (86 a.C. — 34 a.C.) foi um dos grandes escritores e poetas da literatura latina. Nasceu em Amiterno, na Sabina, em 86 a.C., em uma família interiorana, mas de posses, tendo uma formação requintada. Foi cedo para Roma, e recebeu apoio de pessoas de influência da sua família. Com o apoio de Júlio César, Salústio foi eleito questor, cargo que lhe assegurou uma cadeira no senado romano. Investiu contra adversários de César, e estes passaram a ser seus adversários. A inimizade que Salústio tinha para com Cícero se encontra refletida em sua obra; por exemplo, nos episódios relativos à conjuração de Catilina, o autor se mostra hostil a Cícero, não entrando em muitos detalhes quanto à importante participação daquele durante o ocorrido, não reproduzindo nem mesmo os discursos de Cícero no senado romano, discursos estes que até hoje são lembrados pela historiografia política. Em compensação, Salústio descreve com riqueza de detalhes o discurso de Júlio César, com quem colaborava. Salústio foi expulso do senado pelo censor Ápio Cláudio Pulcher, grande amigo de Cícero, sob a acusação de imoralidade, mas pouco depois foi reconduzido ao cargo pelo chefe e padrinho, Júlio César.]

Qui gladio ferit gladio perit -- "Quem com a espada fere, perece pela espada". Equivalente a : "quem com ferro fere, com ferro será ferido".

Qui tacet, consentire videtur -- "Quem cala, parece consentir" (Das Decretais, de Bonifácio VIII; V, 12, 43). Equivalente a "Quem cala, consente". [Bonifácio (em latim: Bonifacius - "aquele que faz o bem"; ca. 672 — 5 de Junho de 754 ou 755), de seu nome verdadeiro Wynfrith ou Winfrid (com o mesmo significado em anglo-saxão), e cognominado Apóstolo dos Germanos. Nasceu em Credtion, no Devonshire, filho de uma família abastada; foi contra a vontade do pai que se devotou, muito jovem ainda, à vida monástica. Estudou teologia nos mosteiros beneditinos de Adescancastre, perto de Exeter, e de Nursling, entre Winchester e Southampton, tendo por mestre neste último o abade Winbert, e acabando por ele mesmo por se tornar professor no mosteiro e ordenado padre aos trinta anos. Aí foi o responsável pela escritura da primeira gramática de latim produzida na Inglaterra.]

Quod erat demonstrandum -- "O que se tinha de demonstrar" (muitas vezes abreviado: Q.E.D.). Tradução latinade fórmula usada por Euclides para enunciar o resultado de uma demonstração. [Euclides de Alexandria (c. 300 AC) foi um matemático platônico e escritor possivelmente grego, muitas vezes referido como o "Pai da Geometria". Além de sua principal obra, Os Elementos, Euclides também escreveu sobre perspectivas, secções cônicas, geometria esférica, teoria dos números e rigor.]

Quorum -- "(O número) dos quais (é necessário)". Número mínimo de pessoas presentes necessário para que um órgão funcione.

Quosque tandem, abutere Catilina, patientia nostra? -- "Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?". Apóstrofe que abre a primeira Catilinária de Cícero. Em geral, citam-se apenas as duas primeiras palavras.

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Reddite ergo quæ sunt Cæsaris Cæsari et quæ sunt Dei Deo -- "Dai então a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". Resposta de Jesus Cristo aos fariseus que he perguntavam capciosamente se era preciso pagar tributo a César (S. Lucas, 20, 25, na tradução da Vulgata).

Repente dives nemo factus est bonus -- "Nenhum homem de bem se torna rico de repente" (das Sentenças de Publílio Siro).

Repetitio est mater studiorum -- "A repetição é a mãe dos estudos".

Requiem æternam dona eis, Domine -- "Dá-lhes, Senhor, o repouso eterno". Palavras da oração pelos mortos na liturgia católica. Daí o termo português réquiem, que indica o próprio ofício ou a música que o acompanha.

Requiescant in pace -- "Descansem em paz". Palavras do Ofício dos Mortos, gravadas na entrada de muitos cemitérios. O singular Requiescat in pace, "Descanse em paz", frequentemente aparece gravado em lápides. Abreviatura: R.I.P.

Rerum novarum -- "Das inovações". Primeiras palavras de uma encíclica do Papa Leão XIII, datada de 15 de maio de 1891, sobre a condição dos operários, e que assim começa: Rerum novarum semel excitata cupidine, quæ diu quidem commovet civitates, illud erat consecuturum ut commutationum studia a rationibus politicis in æconomicarum cognatum genus aliquando defluerent, "Uma vez suscitado, o desejo das inovações, que há muito começou a por agitação nos povos, forçosamente teria como efeito que os esforços de modificação acabassem por passar da ordem política para a ordem congênere da economia social".

Res judicata pro veritate habetur -- "A coisa julgada é aceita como verdade". Axioma de Jurisprudência. Também se diz Res judicata pro veritate accipitur. [O que transitou em julgado torna-se definitivo, não podendo mais ser modificado.]

Res, non verba -- "Fatos, não palavras". Emprega-se para dizer que uma situação exige ação, atos e não palavras. 

Res nullius -- "Coisa de ninguém". Locução usada em Direito para designar um objeto ou bem sem dono. 

Revertere ad locum tuum -- "Retorna ao teu lugar". Inscrição em portões de cemitérios.

Rex regnat, sed non gubernat -- "O rei reina, mas não governa". Palavras de Jan Zamoiski, chanceler da Polônia, depois adaptadas para lema do partido monarquista constitucional, na França. [Paulo Rónai cometeu aqui um engano sério e inexplicável. A frase "O rei reina, mas não governa" ("Le roi règne mais ne gouverne pas") é de autoria de Louis Adolphe Thiers (1797-1877), estadista e historiador francês, e foi proferida em 1830. Em 4 de fevereiro de 1830, Thiers assinou um artigo no Le National: "Le roi n'administre pas, ne gouverne pas, il règne" (The Oxford Dictionary of Quotations, Oxford University Press, 1999, pág. 770).]

Rixatur de lana sæpe caprina -- "Muitas vezes discute-se pela lã da cabra", isto é, por dá cá aquela palha, sem motivo sério (Horácio, Epístolas, Livro I, 18, 15).

Romæ omnia venalia esse -- "(Que) em Roma tudo está à venda" (Salústio, Jugurta, 8). Palavras com que alguns aristocratas romanos pintaram a Jugurta, jovem príncipe númida [da Numídia], a corrupção reinante em sua pátria. 






quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A escalada da guerra na Síria, com as forças aérea e marítima russas

[Em postagem anterior ("Discurso de Putin na ONU mostra quem está no comando") comentei e reproduzi um artigo do jornal israelense Haaretz sobre a jogada de mestre do presidente russo no xadrez do Oriente Médio, com sua intervenção na guerra civil da Síria. A Rússia agora ampliou essa intervenção: além dos bombardeios por seus caças em território sírio, ela agora disparou contra a Síria mísseis de longo alcance a partir de sua frota no Mar Cáspio. O que estiver entre colchetes e em itálico é de minha responsabilidade.] 



Quatro navios da Marinha Russa dispararam um total de 26 mísseis de cruzeiro contra posições do grupo terrorista Estado Islâmico na Síria, anunciou o ministro da Defesa russo Sergey Shoigu. Os mísseis foram disparados do Mar Cáspio. Os mísseis voaram cerca de 1.500km antes de acertarem seus alvos.
Os mísseis vieram da Frota Russa do Mar Cáspio, que faz fronteira com a Rússia, Irã e o litoral de outros três países. As armas de precisão atingiram todos os alvos pretendidos. Os ataques necessitaram da cooperação do Irã e do Iraque, pois os mísseis tiveram que viajar através de seu espaço aéreo para chegar à Síria. [A cooperação do Iraque nessa iniciativa militar russa é mais uma demonstração da perda de poder dos EUA e de seu fracasso no Iraque. Os americanos gastaram vidas e bilhões de dólares para "salvar" o Iraque, para ver agora este país ajudando seu arquirrival, a Rússia, a se impor na Síria e no Oriente Médio contra os interesses dos EUA.]
Os quatro navios que dispararam os mísseis foram a fragata Dagestan da classe “Gepard” e as corvetas Grad Sviyazhsk, Uglich e Veliky Ustyug da classe Buyan-M. Foram disparados mísseis Kalibr NK (Klub) de lançadores verticais. Os mísseis podem atingir alvos a 2.500km de distância, com precisão de 3 metros.
As trajetórias dos 26 mísseis de cruzeiro disparados de navios de guerra russos no Mar Cáspio contra 11 alvos na Síria cruzaram os céus do Irã e do Iraque. O Irã é um importante financiador de Bashar al-Assad, o conflituoso presidente sírio. As lideranças do Iraque mantêm laços estreitos com o Irã. - (Mapa: Laris Klarkis, The Washington Post) 
Navios de guerra russos disparando mísseis em direção à Síria (Ministério de Defesa russo/YouTube)
O presidente russo Wladimir Putin disse que os ataques com mísseis evidenciaram a competência das renovadas forças armadas russas. 
[Ao analisar a razão da presença russa na Síria, o jornal The Washington Post comenta que "a ampliada presença militar russa pode sinalizar a intenção de Moscou de desempenhar um papel mais direto no jogo final sírio -- ou, no mínimo, ajudar o regime do presidente sírio Bashar al-Assad a manter qualquer controle, por limitado que seja, sobre o país varrido pela guerra". 
Mas, ressalta o jornal, esse movimento pode não significar uma mudança significativa na política russa [no país e na região]. "A Rússia nunca fez segredo de sua cooperação tecnológico-militar com a Síria. Especialistas militares russos ajudam os sírios a dominar os equipamentos russos", disse aos jornalistas um porta-voz da chancelasria russa na quarta-feira passada.
Na quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, foi um pouco mais direto. "Temos sido sempre francos com relação à presença de nossos especialistas militares na Síria, que ajudam as forças armadas sírias a treinar e aprender como usar nosso equipamento", disse ele numa entrevista à imprensa em Moscou. "E se passos adicionais forem necessários, estaremos completamente prontos a tomá-los". 
No dia seguinte, Lavrov foi ainda mais além, argumentando que era essencial dar suporte ao regime sírio, se o mundo quiser derrotar os jihadistas do Estado Islâmico (EI). "Você não pode derrotar o Estado Islâmico apenas com ataques aéreos. É necessário cooperar com as tropas em terra, e o exército sírio é a força terrestre mais eficiente e poderosa para combater o EI". 
Há quem especule as ações da Rússia não são o reflexo de uma estratégia genuína, mas, em vez disso, de maneira mais crua, são as táticas de um regime autoritário se agarrando desesperadamente aos níveis de poder que lhe restam. "É o confronto entre a Rússia e o Ocidente que arrasta a Rússia para o Oriente Médio", disse à NBC News Nikolay Kozhanov, um acadêmico na usina de ideias (think tank) de Chatham House, de Londres.]